UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ ANDRÉ DE SOUZA CARVALHO CURITIBA: IMAGEM DO PLANEJAMENTO OU PLANEJAMENTO DA IMAGEM? CURITIBA 2008 2 ANDRÉ DE SOUZA CARVALHO CURITIBA: IMAGEM DO PLANEJAMENTO OU PLANEJAMENTO DA IMAGEM? Monografia apresentada como resquisito à conclusão do Curso de HistóriaSetor de Ciências Humanas, Letras e Artes. Universidade Federal do Paraná Orientadora: Prof. Dra. Roseli Boschilia CURITIBA 2008 3 AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar expresso toda minha gratidão e consideração à minha querida orientadora Roseli Boschilia pela inspiração, orientação, sugestões, correções, paciência, dedicação, partilha de conhecimentos e atenção. (A prof. Andreazza já dizia que “orientador é Deus”, sempre soube que Roseli era Deusa!). Falando em “deusas”, agradeço à minha particular, Andréia, linda e amada companheira, apoiadora, incentivadora, inspiradora.... E também à Meg, minha incondicional companheirinha. A toda minha família, principalmente ao tio José Reinaldo Lonardoni (meu primeiro - e por algum tempo - único incentivador e apoiador na carreira acadêmica em História), agradeço a crença depositada em mim e a todo apoio Agradeço ao pessoal da Casa da Memória, principalmente os colegas Maria Luiza Baracho, Aparecida Bahls, Marcelo Sutil, Ozanam Aparecido de Souza, Mariane Guzzo pelo apoio, aprendizado e coleguismo. E também à Ângela (Biblioteca) por toda ajuda com a bibliografia e fontes. A Biblioteca Pública e IPPUC pela cooperação na pesquisa e levantamento de fontes, em especial à Josefina e Wilma (Divisão Paranaense). A equipe da TV SINAL pela consideração, apoio e cooperação, em especial ao José nascimento, sempre compreensivo e amistoso. A Ana Lucia Ciffoni (IPPUC), Deborah Agulhan Carvalho, Karina do Valle Dalledone, Juliana de Moraes Campos e Dino Voss pelas dicas, interesse, atenção e apoio. A prof. Maria Luiza Andreazza pela metodologia e opiniões. Aos profs. Dennison de Oliveira e Antonio César dos Santos e à Fernanda Sanchez Garcia por suas obras reveladoras. Aos colegas da turma e ao Departamento de História da UFPR, especialmente para o Serginho Bajerski (secretário) e o “Sergião”Odilon Nadalin (professor que fez toda a diferença!). Às impagáveis e inesquecíveis professoras Ana Paula Vosne Martins e Judite Maria Barboza Trindade e a todos colegas que de uma forma ou outra contribuíram para este trabalho. Finalmente, agradeço a esta amada cidade que adotei, que me acolheu e me inspirou: Curitiba. Quem ama, critica. 4 ABSTRACT Curitiba has been recognized and sustain the image of a model city since 1970 when a urban plan changes the city’s fisical structure and the way like Curitiba was exposed to the world. This European, Ecological and Human city - widely published - was justly built through a discourse that use synthesis-images to draw a ideal city, or only on theory. In order to understand the construction of Curitiba’s image after “Plano Diretor de Urbanismo, was analysed the speech of the planners and the city martketing that “sold” Curitiba and unmasked it on wordwilde media as a example of planning and creative city. If it recieved investiments and was transformed it in a touristic pole, however, attracted unwelcome migrants and them was excluded unitedly with negative aspects that could sully the good look of the city. In spite of planning was brought economic development, it brought unevenness and exclusion too. The construction and intensive divulgation of a Curitiba’s positived image hindered and still restrict others interpretations about the city. RESUMO Curitiba tem sido reconhecida e sustenta a imagem de uma cidade modelo desde 1970, quando o planejamento urbano provocou mudanças na estrutura física da cidade e no modo como Curitiba era exposta ao mundo. Esta cidade européia, ecológica e humana amplamente divulgada foi devidamente construída através de um discurso que se utilizou de imagens-síntese para delinear uma cidade ideal, ao menos na teoria. Objetivando compreender a construção da imagem de Curitiba após o Plano Diretor de Urbanismo, analisou-se o discurso construído pelos planejadores e o city marketing, que “comercializou” Curitiba e a despontou na mídia mundial como exemplo de cidade planejada e criativa. Se a cidade recebeu investimentos e se transformou em um pólo turístico, também atraiu migrantes indesejáveis, os quais foram excluídos juntamente com os aspectos que pudesse denegrir a boa imagem da cidade. Apesar do planejamento ter trazido desenvolvimento econômico, este trouxe também desigualdade e exclusão. A construção e intensa divulgação de uma imagem positivada de Curitiba impediu e ainda restringe outras interpretações sobre a cidade. 5 LISTA DE SIGLAS APPUC - Assessoria de Pesquisa e Planejamento de Curitiba ARENA - Aliança Renovadora Nacional BNH - Banco Nacional da Habitação CELEPAR - Companhia de Informática do Paraná CIC - Cidade Industrial de Curitiba CODEPAR - Companhia Paranaense de Desenvolvimento COHAB - Companhia de Habitação COHAPAR - Companhia de Habitação do Paraná COP 8 - Convenção sobre Diversidade Biológica COPEL - Companhia Paranaense de Energia Elétrica COPLAC - Comissão de Planejamento de Curitiba DER - Departamento de Estradas de Rodagem EBTU - Empresa Brasileira dos Transportes Urbanos ECO 92 - Conferencia Mundial do Meio Ambiente ELETROBRAS - Centrais Elétricas Brasileiras S.A. FEBRABAN - Federação Brasileira de Bancos IAB - Instituto dos Arquitetos do Brasil IBAM - Instituto Brasileiro de Administração Municipal IPPUC - Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba MOP 3 - Reunião das Partes do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança ONU - Organização das Nações Unidas PIA - Programa da Integração da Infância e Adolescência PPU - Plano Preliminar de Urbanismo RIT - Rede Integrada de Transporte RMC - Região Metropolitana de Curitiba SERFHAU - Serviço Federal de Habitação e Urbanismo SINDOTEL - Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares TELEPAR - Telecomunicações do Paraná S.A. TRE - Tribunal Regional Eleitoral UFPR - Universidade Federal do Paraná ULMA - Universidade Livre do Meio Ambiente URBS - Companhia de Urbanização e Saneamento Municipal 6 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 07 2 CURITIBA: A IMAGEM DO PLANEJAMENTO .............................................. 13 2.1 O DISCURSO E A IMAGEM ................................................................................. 14 2.2 A IMAGEM DA CIDADE ..................................................................................... 15 2.3 PRIMEIROS PASSOS .......................................................................................... 16 2.3.1 Medidas Iniciais ................................................................................................... 17 2.3.2 Chegada de imigrantes e da ferrovia .................................................................... 18 2.3.3 Ordem e Progresso (Urbano) ................................................................................ 20 2.4 O PLANO AGACHE ............................................................................................. 22 2.5 AFIRMAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA E DO PROGRESSO ............................... 23 2.6 1960: A DÉCADA DECISIVA ............................................................................... 25 3 PLANO DIRETOR – DIRECIONANDO A CIDADE AO “ESPETÁCULO”... 27 3.1. PRELUDIO ............................................................................................................ 27 3.1.1 Ney Braga e desenvolvimento do Paraná ............................................................. 28 3.1.2 Gestão do prefeito Ivo Arzua ................................................................................ 29 3.1.3 Plano Preliminar de Urbanismo ......................................................................... 30 3.2 INTERLUDIO ....................................................................................................... 31 3.2.1 O IPPUC ............................................................................................................... 32 3.2.2 A legitimação ........................................................................................................ 34 3.3. PÓSLUDIO ............................................................................................................ 36 3.3.1 O Plano Diretor de Urbanismo............................................................................ 37 3.3.2 A “orquestração” dos anos 1970.......................................................................... 38 3.3.2.1 O “maestro”....................................................................................................... 39 3.3.3 A transformação “revolucionária” de Curitiba ................................................... 41 4 A ORQUESTRA EM AÇÃO .................................................................................. 44 4.1 1ª GESTÃO – O IPPUC EM AÇÃO ..................................................................... 44 4.2 RUA DAS FLORES – O PRIMEIRO ATO ......................................................... 45 4.3 2ª GESTÃO – A CONTINUIDADE ..................................................................... 50 4. 4 3ª GESTÃO – VERDEJANTE CURITIBA PÓS-MODERNA ............................ 51 4.5 O CITY MARKETING ........................................................................................... 55 5 A IMAGEM LAPIDADA PARA O ESPETÁCULO ........................................... 62 5.1 HUMANA, MODERNA, CRIATIVA E ESPETACULAR ................................. 62 5.2 A ILHA (EUROPÉIA) NO BRASIL ENCANTADA CONSIGO PRÓPRIA ...... 68 5.3 A CAPITAL ECOLÓGICA .................................................................................. 74 5.4 RESULTADOS DO ESPETÁCULO ................................................................... 78 5.4.1 Turismo ................................................................................................................. 79 5.4.2 Investimentos ........................................................................................................ 81 5.4.3 Desigualdade e exclusão ....................................................................................... 83 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 86 7 FONTES ................................................................................................................... 91 8 REFERENCIAS ...................................................................................................... 93 7 1. INTRODUÇÃO “De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.”1 Italo Calvino Assim como qualquer fonte escrita, iconográfica ou material, a cidade pode ser argüida, interrogada e investigada. O espaço urbano, em sua diversidade, pode oferecer e apresentar diversos olhares, discursos, imagens e apreensões. Por sua vez, o historiador – ao investigar, discutir e problematizar a cidade – consegue responder questões, revelar novas visões, indicar novas abordagens e estimular novos estudos. Com a nova História Cultural, as cidades deixaram de ser focalizadas apenas sobre o prisma da economia ou política, da mesma forma, os estudos e questionamentos deixaram de ser totalizantes e generalizadores. Atualmente, a cidade está sendo desvelada em diversos aspectos, sejam eles materiais ou simbólicos, tradicionais ou modernos, expressos ou ocultos. Os estudos históricos sobre as cidades vêm acompanhando as significativas mudanças do seu objeto, e as cidades, atualmente, podem fornecer elementos e desafios aos historiadores, que desvendando ocultamentos, "lendo" a cidade enquanto um texto, estudando suas representações, temporalidades, espaços e memórias podem revelar novas apreensões e imagens sobre a mesma. Afinal, a imagem também pode ser equiparada a um texto no que tange a transmitir uma ideologia ou documentar uma época ou fato, pois a atividade de comunicação visual é produtora de estética, e se aplica valores intelectuais e estéticos aos "objetos" que são produzidos. A partir das características de uma imagem produzida por uma sociedade, uma instituição ou um período, é possível analisar sua função, o que representa, a razão pela qual foi criada e por quem, é possível determinar sua historicidade e conceitos fundamentalmente ideológicos. A ideologia pode ser materializada em linguagem escrita ou evidenciada no traçado urbano. Para Le Goff, O documento não é inócuo. É, antes de mais nada, o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que 1 CALVINO, I. As cidades invisíveis. São Paulo, Cia. das Letras, 1990. p.44 8 o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar a etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados, desmistificando-lhe o seu significado aparente. O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro – voluntária ou involuntariamente – determinada imagem de si próprias.2 À própria cidade pode-se conferir um caráter de monumento. Um monumento que “lido” como um documento permite realizar uma interpretação dos processos de sua produção. Nestas circunstâncias, é possível pensar o espaço da cidade como um repositório de monumentos, imagens e temporalidades. Da mesma forma em que são locais favoráveis à “produção, circulação e troca de imagens, linguagens publicitárias e discursos”3. Para Benjamin, uma cidade pode abrigar várias realidades, verdades e visões de mundo. A cidade é por excelência o espaço do conflito, dos contrastes sociais, culturais, econômicos e políticos. "Quando lemos essas obras não como uma seqüência e, sim, como uma constelação de retratos urbanos, como um texto único, ocorre uma superposição surrealista das cidades... resultando disso uma nova realidade: a Metrópole Moderna enquanto imagem mental."4 A partir de uma materialidade fisicamente tangível é possível descortinar "cidades invisíveis", constituídas por memórias e esquecimentos do passado, contendo impressões recolhidas ao longo das experiências urbanas, refletindo conflitos e tensões, exclusões e acolhimentos, mobilidade e enraizamento, planificação e representações. E é o que se pretende, minimamente, realizar com a Curitiba representada após 1970. Assim como Haussmann ficou conhecido na historiografia como o renovador e revelador de uma nova Paris a partir de meados do século XIX, e da mesma forma com que Moses foi revelado como o “produtor” de uma nova e espetacular Nova Iorque. Em Curitiba, produziu-se também, a partir do Plano Diretor de Urbanismo, a história e o discurso de uma cidade que passava por uma “revolução” e se destacava ao mundo. 2 LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2003. pp. 537-538 3 SANCHEZ, Fernanda. A reinvenção das cidades na virada de século: agentes, estratégias e escalas de ação política. Rev. Sociol. Polit. , Curitiba, n. 16, 2001 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010444782001000100004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 Set 2008 4 . BOLLE, Willi. A fisiognomia da metrópole moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 272 9 Curitiba, a partir de então, passou a ser representada enquanto paradigma de cidade humanista, referência no planejamento urbano, metrópole embelezada e saudável por seus parques e áreas verdes, vitrine mundial de soluções urbanas criativas. A cidade ganhou a mídia nas últimas décadas com alcunhas de cidade ecológica, capital européia, capital social, cidade modelo, tornando-se destaque mundial pela divulgação e promoção de suas soluções urbanas “exemplares” e criativas. Entretanto, até que ponto essa representação de Curitiba corresponde a uma realidade total dessa instigante cidade? De que maneira Curitiba foi "mascarada" e aceitou esconder suas diversas faces? A Curitiba que estava e continua sendo reproduzida constituiria imagem produzida de uma “cidade ideal”, midiática e atrativa? Ao mesmo tempo nostálgica e receptível às transformações e obras pósmodernas, Curitiba é uma cidade paradoxal, onde a pobreza é ocultada, juntamente com tudo aquilo que possa denegrir seu “ar europeu”. Supostamente organizada, mas desintegrada e adversa à feia periferia que sustenta sua bela imagem. Contradições não faltam a uma cidade divulgada como exemplo e modelo de cidade sustentável. Ao que tudo indica o fruto ou o processo gerador de tamanhas contradições, situa-se, especialmente, na segunda metade do século XX. A Curitiba modelo, ecológica, laboratório de experimentos criativos, divulgada intensamente na mídia nacional e internacional - surgiu, sobretudo, a partir da década de 1970. Na década anterior já se discutia um novo planejamento urbano para cidade, que “renasceria” espetacular – mas paradoxal – com o Plano Diretor e com seu Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (IPPUC). Desejando compreender o processo da construção desse discurso e imagem e perceber suas contradições e resultados, esta pesquisa partiu do Plano Diretor de Urbanismo de Curitiba instaurado pela Lei 2828 de 10 de agosto de 1966. Para analisar o discurso do planejamento urbano da cidade, privilegiou-se como fonte histórica os cadernos “Memória da Curitiba Urbana”, editados pelo IPPUC e compostos por depoimentos de técnicos e presidentes que atuaram no Instituto a partir de sua criação, em 1965, e que, portanto, atuaram diretamente no planejamento urbano de cidade durante o recorte temporal analisado. Discursos de posse, roteiros de palestras e textos do ex-prefeito Jaime Lerner (1971-1974 / 1979-1983 e 1989-1993), assim como materiais publicitários produzidos pelo IPPUC e Prefeitura Municipal a partir de 1970 também foram utilizados. 10 Além disso, matérias veiculadas na imprensa local, nacional e internacional também constituíram fontes importantes para entender como e a partir de quais argumentos o “fenômeno” Curitiba foi exposto ao mundo. Depoimentos de habitantes que viveram em Curitiba antes e após a implantação do Plano, contidos no volume anexo da dissertação “Memórias e cidade: depoimentos e transformação urbana de Curitiba. 1930-1990”5 foram utilizados, de igual maneira, para contrastar e dialogar com as demais fontes. A partir de Pesavento, Bolle e Calvino6 objetivou-se apreender Curitiba enquanto uma cidade “imaginária”, não somente construída e delineada por intervenções urbanas e ações políticas, mas também por imagens e discursos produzidos. Uma cidade, que assim como as demais, foi, está sendo e será “(re)formulada” a partir de narrativas e representações. Todavia, identificou-se que as narrativas e representações sobre Curitiba estão de certa forma encobertas, influenciadas e homogeneizadas a partir de um discurso oficial e dominante que revela a cidade e suas positividades como fruto de uma revolução urbana – a qual teria sido realizada pelos próprios enunciadores do discurso. Para compreender o discurso urbano, o trabalho de Orlandi7 foi de extrema importância, afinal, as cidades se modificam através do tempo, o mesmo pode-se dizer dos discursos produzidos sobre elas, muitas vezes acompanhando, justificando, legitimando ou exacerbando tal mudança. A desejada mudança, muitas vezes ocorre apenas no discurso, no literal, camuflando, omitindo ou enganando o real. Algo perceptível e aplicável no caso estudado. A autora entende a cidade como um espaço simbólico, trabalhado na ou pela história, um espaço de sujeitos e significantes. Com base nesses pressupostos, o trabalho foi estruturado em quatro capítulos, visando à análise das fontes. O objetivo do primeiro capítulo foi fazer um histórico do planejamento urbano de Curitiba até a década de 1960, quando uma conjuntura específica e uma série de fatos e acontecimentos proporcionaram uma “guinada” no urbanismo curitibano. Tal cronologia das ações urbanas foi proposta, pois é 5 SANTOS, A. C. A. Memórias e cidade; depoimentos e transformação urbana de Curitiba. 1930-1990. 1995. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Paraná, volume anexo 6 PESAVENTO, S J . O Imaginário da Cidade: visões literárias do Urbano – Paris, Rio de Janeiro, Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1999, BOLLE, W. A fisiognomia da metrópole moderna. São Paulo: Cia. das Letras, 1994. e CALVINO, I. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Cia. das Letras, 1990 7 ORLANDI, E. P. Discurso e Texto: formação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes, 2001. p.186 11 freqüentemente crível e aceitável que a “Curitiba planejada” surgiu a partir do planejamento iniciado na década de 1970, ou no máximo, a partir do Plano Agache em finais da década de 1940. Para esta década decisiva, 1960, que “direcionaria a cidade ao espetáculo”, foi dedicado um capítulo, dividido em prelúdio, interlúdio e pósludio. Na primeira parte destaca-se o contexto político e econômico em que o Plano surgiu, as bases estruturais que possibilitaram o desenvolvimento e posterior aplicação de um plano urbano na capital paranaense, assim como a elaboração e discussão do Plano Preliminar de Urbanismo. O interlúdio trata basicamente da formação e surgimento do IPPUC e sua atuação e articulação com o Plano Preliminar. A legitimação do Plano através dos Seminários “Curitiba do Amanhã” também é discutida nesse sub-capítulo. No pósludio discorre-se sobre a institucionalização do Plano Diretor de Urbanismo e são feitas considerações sobre a importância e representação do mesmo para a história do planejamento da cidade, afinal, os resultados e desenvolvimentos do Plano Diretor foram marcantes e expressivos para a compreensão da “Curitiba espetacular”. “A Orquestra em ação”, isto é, a maneira pela qual IPPUC e os administradores locais se apropriaram do Plano e o conduziu para proporcionar a “cidade espetáculo” é analisada no terceiro capítulo. Para isso, esboça-se a trajetória do principal “maestro” de Curitiba - Jaime Lerner - em seus três mandatos, enfocando, principalmente, o emblemático ato do fechamento da principal artéria curitibana ao trânsito de veículos. As diferenças e peculiaridades de cada gestão, assim como o continuísmo político na administração curitibana e paranaense foram enfocados. Por fim, o quarto e último capítulo é dedicado à análise dos discursos e à compreensão das imagens que foram construídos/produzidas sobre Curitiba. O city marketing e as formas e intenções pelas quais a imagem de Curitiba foi “comercializada” são analisadas, sobretudo a partir dos discursos do IPPUC e sua apropriação e divulgação pela mídia. A “transformação revolucionária de Curitiba”; a cidade “humana, moderna, criativa e espetacular”; a “capital ecológica”; e Curitiba como uma “ilha européia no Brasil encantada consigo própria” é devidamente apresentada, discutida e ponderada neste capítulo, enquanto imagens e representações de um discurso que almejava destacar a cidade ao mesmo tempo em que destacava seus enunciadores. Revelando uma cidade ideal e modelar, justificada pontualmente em imagens e obras espetaculares, o discurso dos planejadores conseguiu camuflar incoerências e 12 paradoxos, destacando sempre uma imagem restrita e lapidada de Curitiba. A mídia, por sua vez, sem maiores críticas ou reflexões aceita e divulga esta imagem idealizada, a qual é identificada pelos curitibanos, orgulhosos de viverem em uma cidade européia, organizada, desenvolvida e com qualidade de vida, em oposição às grandes metrópoles do Brasil. Analisando as fontes, foi possível compreender as formas pelas quais o discurso dos tecnocratas se impôs, ganhou legitimidade e ecoou pelos meios de imprensa e publicidade. Apesar das muitas contradições, algumas dissonâncias e certa adversidade entre o discurso propalado “oficialmente” e a realidade da maioria da população, a criação de uma imagem hegemônica e espetacular para Curitiba e sua aceitação pelos habitantes ocorreu com sucesso. 13 2. CURITIBA: A IMAGEM DO PLANEJAMENTO Curitiba é uma cidade que ganhou a mídia nas últimas décadas com alcunhas de cidade modelo, capital ecológica, local de qualidade de vida privilegiada. Destaque mundial pela divulgação e promoção de soluções urbanas “exemplares” e criativas, algumas delas mais belas e eficientes na propaganda que prática. Assim como qualquer cidade, Curitiba é uma cidade “imaginária”, construída e delineada por intervenções urbanas e ações políticas, mas também por imagens e discursos produzidos. Uma cidade, que assim como as demais, foi, está sendo e será “(re)formulada” em narrativas e representações. A representação de Curitiba enquanto uma cidade modelar foi devidamente arquitetada e construída, especialmente a partir de meados da década de 1960. A partir de então, a legitimação e divulgação de um discurso revelador de transformações e a construção de imagens espetaculares e homogêneas sobre Curitiba tornaram-se marcantes e freqüentes. Através delas é possível apreender tanto a cidade revelada no discurso quanto àquela ocultada por ele. Afinal, Curitiba não é só uma, construiu-se, com êxito, o discurso sobre uma cidade ideal, imagética, planejada e modelar, mas por trás dessa imagem formulada e produzida, é possível descobrir múltiplas e “invisíveis” Curitibas. Pesavento8, ao tratar sobre imaginário e representações das cidades, chama a atenção pelo modo como o discurso e as imagens se constroem, promovem sentidos e significados em uma determinada época e lugar e a forma pela qual eles se “perdem” com as mudanças do contexto ou da “mentalidade”, afinal, segundo a autora, a sociedade aceita e incorpora discursos e representações que a identifica. O da “Curitiba modelar” indica sua iminência no contexto do Plano Diretor e perdura até os dias atuais, dado sua aceitação sem muitas críticas ou oposições. Dessa forma, a partir de uma materialidade fisicamente tangível – a Curitiba planejada a partir do Plano Diretor - é possível identificar o processo da construção da imagem da cidade e os discursos que ela proporcionou. É descortinar "cidades invisíveis"9, constituídas por memórias e esquecimentos do passado, contendo 8 PESAVENTO, S. J. O Imaginário da Cidade: visões literárias do Urbano – Paris, Rio de Janeiro, Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1999. 9 CALVINO, I. As Cidades Invisíveis. Tard. Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. 14 impressões advindas de experiências urbanas e seus conflitos, tensões, contradições, exclusões, enraizamentos, planificação e representações. O DISCURSO E A IMAGEM Os discursos e imagens produzidos por uma cidade são construções sociais, e dessa forma, devem ser analisados em seu contexto histórico juntamente com seus autores, receptores e condicionantes favoráveis para seu desenvolvimento. Para Foucault, o discurso consiste num "conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, numa dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística, as condições de exercício da função enunciativa.”10, afinal, ele reflete uma visão de mundo vinculada aos seus enunciadores e receptores, e assim, à sociedade em que estes vivem. Analisando a aplicação inicial do discurso sobre o planejamento urbano da cidade, temos os enunciadores em uma posição bastante favorável: estão no poder e detêm o controle da cidade; o contexto é marcado pela mudança de um pensamento tecnocrata para um mais humanista. É interessante perceber a maneira pela qual os técnicos do planejamento de Curitiba se revelaram “humanistas” e construtores de uma cidade humana, apesar do contexto autoritário da Ditadura Militar no Brasil. Uma vez que boa parte da população não tinha a compreensão dos princípios da filosofia humanista, o discurso dos planejadores não visava necessariamente a grande massa da população. Dessa forma, os receptores desse discurso não seriam outros senão a elite local e externa e os meios de comunicação. Discurso este que se reproduziu de diversas formas, sob diferentes “temáticas” sempre envolvendo a cidade, o planejamento e a mudança engendrada através dele. A ressonância das idéias, fatos e “produtos” disseminados por esse discurso “oficial” foi considerável, atingindo os meios de comunicação e a própria população, sobretudo a classe média curitibana. 10 FOUCAULT, M. A Arqueologia do Saber. Petrópolis, Vozes, 1972. p. 148. 15 2.2 A IMAGEM DA CIDADE As cidades se modificam através do tempo, o mesmo pode-se dizer dos discursos produzidos sobre elas, muitas vezes acompanhando, justificando, legitimando ou exacerbando tal mudança. A desejada mudança, muitas vezes ocorre apenas no discurso, no literal. "A cidade se caracteriza enquanto espaço em que se materializam gestos de interpretação específicos (...). No espaço da cidade, o simbólico e o político se articulam de forma particular. A isto chamamos ordem do discurso urbano."11 Durante muito tempo houve uma certa homogeneização da forma de significar a cidade, principalmente em Curitiba onde o poder público e o discurso urbanista caminharam juntos durante algumas décadas. Compreender o discurso urbano pode apontar para a compreensão das representações da cidade. Imagens de cidade são representações, factíveis ou não, baseadas em cidades existentes, e elas descortinam para o historiador um panorama fascinante de rastros do passado. Elas são, todas elas, marcas de uma cidade sensível que um dia se impôs ao olhar, à técnica e às emoções daqueles que as traduziram em imagem.12 Pesavento13 afirma que o que se discute em estudos das “cidades como representação”, é o processo de desterritorialização, no tempo e espaço, que os discursos e imagens possam sofrer. Dessa forma, pode-se refletir que cada sociedade/cidade cria para si o sistema de idéia e imagens que a sancionam e legitimam. Curitiba criou o seu – ou foi produzido um para ela – sistema este bastante homogêneo e “hegemônico” que destaca apenas uma face da cidade enquanto procura maquiar ou esconder a outra. A idéia da cidade modelo parece estar enraizada e presa desde aquele tempo (pretérito) e a um espaço (restrito e planejado), tornando invisíveis outras imagens, compreensões e interpretações sobre a cidade. Desde os primeiros resultados e 11 ORLANDI, E. P. Discurso e Texto: formação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes, 2001. p.186 12 PESAVENTO, S. J.. Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias. Rev. Bras. Hist. , São Paulo, v.27, n.53, 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010201882007000100002&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 02 May 2008. 13 PESAVENTO, S. J. O Imaginário da Cidade: visões literárias do Urbano – Paris, Rio de Janeiro, Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1999. 16 transformações da cidade após o Plano Diretor até os dias atuais, o discurso sobre a espetacular e planejada Curitiba parece não ter perdido seu “território” e poder de ação. Assim como todo marco, o Plano foi cuidadosamente legitimado e reverenciado, principalmente no tocante à sua importância e singularidade na “história do planejamento urbano curitibano”. Conforme será evidenciado, uma verdadeira “orquestração” foi realizada para representar uma “ruptura” ou “guinada” na política do planejamento da cidade, como se houvesse uma cidade anterior e posterior ao planejamento urbano. O Plano Diretor de Urbanismo de Curitiba está longe de ser desprezível, entretanto, torna-se necessário compreender o contexto e conjuntura de sua implantação, assim como a trajetória do planejamento urbano da cidade (anterior a 1966) para analisar sua significância e perceber seus resultados. Pretendendo explanar sobre os discursos e representações formulados sobre Curitiba nas últimas quatro décadas, o presente trabalho intenta revelar e discutir alguns aspectos da construção da imagem da Curitiba “midiática” e “exemplar” e sua relação com o planejamento urbano a partir de meados da década de 1960. 2.3 PRIMEIROS PASSOS Curitiba, nas últimas décadas, tornou-se referência obrigatória ao se tratar de planejamento urbano no Brasil. Sua planificação é exaltada por administradores municipais e muitos de seus habitantes a reconhecem como possuidora de uma infraestrutura bem estabelecida, um sistema de transporte urbano eficiente, um ambiente urbano limpo e organizado para os padrões nacionais. Curitiba é uma cidade que construiu a imagem, direcionada principalmente aos de fora, de capital de Primeiro Mundo. Apesar de ter sido mais marcante e intensamente divulgada nos últimos quarenta anos, a experiência do planejamento urbano curitibano e, principalmente, as preocupações urbanísticas com a cidade datam de muito tempo. Se na década de 1960 houve a possibilidade da implantação de um planejamento mais efetivo e meticuloso em Curitiba, provavelmente as intervenções urbanas pretéritas na cidade constituíram uma base e consenso para a necessidade e continuidade do mesmo. 17 2.3.1 Medidas Iniciais No início do século XVIII, atento aos problemas de insalubridade e desordem da Vila de Curitiba, Ouvidor Pardinho, representante da administração colonial, forneceu diretrizes urbanísticas que deveriam reger o crescimento da cidade, além de repassar instruções para o correto funcionamento das instituições municipais. Mais de um século depois, em 1853, com a emancipação política do Paraná, Curitiba deveria ser preparada para ser a capital da nova Província. Como sede de um governo novo e independente de São Paulo, a nova capital necessitava proporcionar o mínimo de civilidade, estrutura e organização. Preocupado com o controle sanitário, delimitação e ordenação do espaço urbano, o presidente da província Zacarias de Góes e Vasconcellos trouxe da corte, em 1855, o engenheiro francês Pierre Taulois com a incumbência de elaborar uma planta do quadro urbano da cidade assim como organizar e demarcar o espaço no qual a cidade se desenvolveria. Contratado como inspetor geral de mediação das terras públicas, Taulois propôs mudanças, sobretudo no traçado da cidade, que deveria possui forma regular, quadrilátera, com cruzamentos em ângulos retos e bem definidos. Em 1858, o engenheiro Frederico Hégreville recebeu autorização do Governo provincial para executar um projeto de expansão do quadro urbano, desde que respeitasse os terrenos dos edifícios públicos e a Praça do Quartel (atual Rui Barbosa). Suas obras, seguindo as determinações de Taulois, foram feitas a partir de critérios técnico-científicos. Alguns anos após, as indicações do engenheiro francês, a Câmara de Curitiba estabelecia novas Posturas Municipais, o documento de 1861 deliberava sobre o alinhamento das vias públicas e os parâmetros construtivos. “A linguagem técnica e o anteparo do saber de um engenheiro estariam por trás das ações."14 Menezes aponta que o “status” de capital da província fez com que Curitiba tentasse estabelecer “um perfil de cidade organizada através do controle do uso do solo urbano”.15 O que mais tarde proporcionou a divisão da cidade em zonas. “A estratégia 14 Código de Posturas de Curitiba de 1861. In: Posturas Municipais: Curitiba, Castro, Ponta Grossa. Décadas de 1820 a 1860. MONUMENTA. Curitiba: Aos 4 ventos. vol. 1, nº3, 1998. p 107. 15 MENEZES, C. L. Desenvolvimento urbano e meio ambiente: a experiência de Curitiba. Campinas: Papirus, 1996. p.62 18 era afastar da zona central tudo aquilo que interferisse negativamente na estética e na funcionalidade da cidade.”16 2.3.2 Chegada de imigrantes e da ferrovia A partir de um fluxo imigratório, após a emancipação da província, a população paranaense e curitibana aumenta consideravelmente.17 A entrada de grupos estrangeiros em Curitiba ocorria desde na primeira metade do século XIX quando reimigrantes alemães de Santa Catarina começaram a se estabelecer, espontaneamente, nos arredores da cidade. Com o incremento do quadro urbano curitibano, imigrantes germânicos ligados às atividades citadinas (artesanato, comércio e indústria), vislumbraram na florescente Curitiba um local promissor para suas atividades econômicas, abandonando colônias agrícolas e migrando de aglomerações urbanas menos significativas. Na década de 1870 o fluxo migratório intensifica-se juntamente com as preocupações relacionadas ao abastecimento da capital da nova província. Iniciava-se o estímulo e a promoção da instalação de colônias de camponeses imigrantes nos arredores de Curitiba. Durante a segunda metade do século XIX levas de poloneses, italianos e ucranianos, e também russos, franceses, austríacos, suíços e holandeses se fixaram no planalto curitibano formando um cinturão verde. Com a imigração européia Curitiba passou a conhecer novas técnicas construtivas e a contar com imigrantes advindos, muitas vezes, de cidades já “urbanizadas” e com uma organização espacial mais estabelecida. Substituía-se a madeira pela alvenaria, além do emprego de telhas cerâmicas e ferro nas esquadrias e gradis. A influência alemã – expressa no Gesangverein Germania (Clube Germânia) e nas demais associações e casas comerciais – passou a ser visível pela elevação das cumeeiras dos telhados e pelo uso freqüente do sótão. A influência dos imigrantes foi considerável no aspecto urbano da cidade que por alguns anos levou o epíteto de “urbe alemã”. 16 17 Id De 126.722 em 1872, o número de habitantes aumentou para 327.136 em 1900. No município da capital, estimava-se já uma população de 53.928, em 1905. TRINDADE, Etelvina Maria de Castro; ANDREAZZA, Maria Luiza. Cultura e Educação no Paraná. Curitiba: SEED, 2001. p.71. 19 A chegada da ferrovia a Curitiba foi de grande importância, uma vez que coincidiu com a vinda de imigrantes europeus e, conseqüentemente, introdução de mãode-obra especializada, novas técnicas e conhecimentos para o desenvolvimento urbano. Em 1879, um decreto imperial entregava os direitos de construção de uma estrada de ferro entre Paranaguá e Curitiba a uma companhia belga. Foram enviados ao Paraná técnicos alemães, poloneses, suecos, italianos e franceses que transformaram o panorama construtivo da cidade. Dentre estes técnicos estava Antonio Ferucci, engenheiro italiano especializado na construção de ferrovias, cuja formação e práticas profissionais coincidiram com a época da extensão do modelo urbano francês na remodelação das cidades italianas. Professor em Florença, acompanhou as expectativas e reformas urbanas desta cidade que pretendia ser a capital da Itália. Em Curitiba, Ferucci foi responsável pela definição da estação ferroviária e sua disposição e localização ante ao plano urbano já existente. O modelo que previu para Curitiba não só se concretizou com a inauguração da ferrovia, em 1855, como se manteve até a década de 1950. Para Dudeque "Ferucci traduziu, com antecedência, as vontades da elite curitibana"18 O engenheiro italiano preferiu construir a estação afastada do núcleo urbano para que houvesse um espaço no qual a cidade pudesse "desenvolver-se regularmente, antes de surgir necessidade de prolongar as ruas além da estação"19 (palavras do próprio Ferucci). A área vazia entre a cidade e a estação serviria para esculpir todo um cenário, uma mentalidade e um sonho de "modernidade". "Era possível a Curitiba moldar seu orgulho em uma rua longa, larga, bem iluminada e pavimentada. Ali seria construída, nos anos seguintes à inauguração da estrada de ferro, a Rua da Liberdade, depois rebatizada Barão do Rio Branco"20 Com a vinda da estrada de ferro, Curitiba passou por um desenvolvimento jamais visto até então, aumentaram-se as edificações e população, surgiram fábricas, bancos, bonde e a movimentação diária em frente à estação ferroviária. A criação da Rua da Liberdade, unindo o centro da cidade à estação proporcionou à capital paranaense todo um cenário urbano que representaria as sensações da cultura capitalista 18 DUDEQUE, I. T. Cidades sem véus: doenças, poder e desenhos urbanos. 1. ed. Curitiba: Champagnat, 1995. p.124 19 Id 20 Id 20 oitocentista. Em tal via, foi moldado em estilo eclético e imponente o espetáculo do poder político, econômico e institucional de Curitiba. 2.3.3 Ordem e Progresso (Urbano) Na última década do século XIX, após a proclamação da República, os ideais de modernidade, progresso, cientificismo e positivismo proporcionaram uma nova visão sobre o espaço urbano. Surgiram preocupações com a higiene, sanitarismo, segregação dos espaços e controle de elementos perniciosos à saúde, moral e ordem públicas. Em Curitiba não foi diferente e as atenções com a salubridade, ordenamentos e melhoramentos urbanos foram constantes, assim como a vigilância e punição21 de indivíduos nocivos ao bem estar e prosperidade da urbe. O primeiro sinal legal das aspirações ordeiras e progressistas ocorre na seção de 22 de novembro de 1895 da Câmara Municipal de Curitiba, quando foi “atualizado” o Código de Posturas22 da cidade. Tal regimento instituía minunciosamente as larguras mínimas das ruas, a uniformização da altura e alinhamento dos prédios e pavimentos, a largura e altura de janelas e portas, a proibição de coberturas visíveis da rua, e outras medidas que visavam proporcionar um ambiente ordenado e harmônico. O Código de Posturas de 1895 encontrou uma Curitiba em expansão e modernização, que, desde a década passada, contava com a ferrovia. O bonde – puxado a mulas - chegou quase na mesma época e facilitou a comunicação com os arrabaldes mais distantes. Partindo da estação, a cidade crescia de todos os lados, tanto para o Rebouças quanto em direção à antiga Colônia Dantas (Água Verde) e Portão. O espaço compreendido entre as praças do Mercado (atual Generoso Marques) e da Estação (Eufrásio Correia) foi rapidamente preenchido com edificações, provocando, em 1905, a promulgação de uma lei para esse setor: a partir de então, as ruas da Liberdade (Barão do Rio Branco), XV de Novembro e a Praça Tiradentes só poderiam receber edificações em alvenaria, com dois ou três pavimentos e construídas no alinhamento. Esboçava-se um primitivo zoneamento, através da hierarquização de algumas vias e restrições ao uso do solo. 21 A historiadora Maria Ignes de Boni trata na obra “O espetáculo visto do alto. Vigilância e punição em Curitiba 1890 : 1920” a maneira pela qual as medidas em prol da ordem urbana foram executadas de forma drástica e exemplar em Curitiba. 22 Precedente a este Código do final do séc. XIX houve o de 1829 e de 1861. 21 Ainda na primeira década do séc. XX, Cândido de Abreu, em seu segundo mandato na administração municipal (1913-1916), com a experiência de ter projetado a nova capital de Minas Gerais, empolga-se com ares “modernos” da “belle èpoque” e criou em Curitiba uma Comissão Especial para Melhoramento Urbanos23, liderada pelo engenheiro Adriano Goulin, proporcionando uma expressiva transformação urbana com abertura e retificação de ruas, instalação de bondes elétricos e propagação da arquitetura eclética nos sobrados, prédios públicos e palacetes da cidade. Através da Companhia de Melhoramentos24, a cidade ganhou pavimentação de macadame e paralelepípedos na maioria de suas ruas, recebeu melhor tratamento estético em seus logradouros, sobretudo em seus jardins e Passeio Público. O fétido e insalubre Largo do Mercado foi remodelado e uma bela e luxuosa edificação destinada ao Paço Municipal surgiu sobre as ruínas do antigo mercado. O avanço no transporte público, com a implantação de bondes elétricos e a extensão de suas linhas, ocorreu na gestão de Abreu, ao mesmo tempo em que a construção civil foi incentivada. Criaram-se inclusive concursos de fachadas para estimular o belo na arquitetura e a proliferação de palacetes e sobrados ecléticos nesta capital belle èpoque. No final da década de 1910, o principal instrumento de “urbanidade” manifestou-se através do Código de Posturas do Município – reformulado em 1919. Sancionado na Lei 527, durante a gestão do prefeito João Antônio Xavier, evidenciava as preocupações com o zelo urbanístico e um incipiente zoneamento urbano, os quais são mantidos e renovados na década de 1920 na gestão do prefeito e engenheiro Moreira Garcez. Preocupado com o embelezamento e arruamento do quadro urbano, Garcez estabelece o “Plano das Avenidas” multiplicando o espaço urbano edificável da cidade e delimitando novas áreas de expansão e circulação com a abertura de várias avenidas paralelas. 23 Cf. SEGA, Rafael A. A capital belle epoque. A reestruturação do quadro urbano de Curitiba durante a gestão do prefeito Cândido de Abreu (1913-1916). Curitiba, Paraná, Brasil: Aos Quatro Ventos, 2001 24 Tal comissão propunha uma transformação radical das condições da cidade para Cândido de Abreu e a elite que ele representava “Significou, como o fora em outros centros, o embelezamento burguês excludente, retirando a visibilidade do desagradável e tentando recriar um espaço urbano inspirador de passeio e contemplação à semelhança de Paris e Londres. Havia também por parte das elites o desejo de formação de um meio cultural cosmopolita e para isso era preciso restringir os costumes não-morigerados e equipar a cidade com espaços para desenvolvimento e divulgação da cultura civilizadora: teatros, bibliotecas, escola e Universidade”(OBA, 1998:188). 22 Em 1930, após grande crescimento populacional e o conseqüente deterioramento urbano, Curitiba necessitava revisar seu Código de Posturas, o que ocorreu somente na década seguinte na gestão do engenheiro Rozaldo de Mello Leitão, contratando com a "Coimbra Bueno & Cia Ltda" um plano de remodelação, extensão e embelezamento para Curitiba. O plano – que ficou conhecido como “Plano Agache” - traçou "as diretrizes para o desenvolvimento de Curitiba, dentro de rigorosa técnica urbanística, evitando, por conseguinte, o crescimento desordenado que tantos prejuízos poderiam ocasionar em futuro não muito remoto."25 2.4 O PLANO AGACHE O Plano Agache, considerado por alguns como um marco do planejamento urbano de Curitiba, é um dos primeiros planos urbanísticos do Brasil que incluiu medidas de saneamento, definição de áreas para habitação, serviços, indústrias e reestruturação viária. Agache estabeleceu diretrizes e normas técnicas para ordenar o crescimento físico, urbano e espacial da cidade, propondo a divisão de Curitiba em zonas funcionais e sugerindo normatizações e disciplinaridades das funções urbanas. Definiu também a distribuição dos espaços abertos e a reserva de áreas para a expansão da cidade, segundo a previsão demográfica da época. Apesar de bem intencionado, o plano foi mais perecível do que se esperava. Com o intenso crescimento populacional, em pouco tempo a cidade se expandiu para além das zonas e fronteiras delimitadas pelo urbanista francês, antes mesmo delas serem estabelecidas de fato. As obras de transformação urbana não acompanharam a inesperada expansão da cidade. Embora não tenha sido aplicado em sua totalidade, o plano Agache divulgou e introduziu na capital paranaense a importância e benefícios do planejamento urbano, legando, inclusive, instituições encarregadas de efetivá-lo como o Departamento de Urbanismo da Prefeitura e o Código de Posturas e Obras do Município, ambos no início dos anos 1950. Curitiba em finais da década de 1940 era comparada a um imenso polvo que estendia seus tentáculos para os arrabaldes, os quais eram ou seriam interligados à 25 BOLETIM PMC, n.12 nov/dez., 1943 pp. 3-4. 23 região central através de amplas e modernas vias. A verticalização era encarada como um sinal de progresso, entretanto, a expansão urbana com o grande aumento da população proveniente das constantes migrações trouxe problemas estruturais e sociais para a próspera capital paranaense. A partir dos governos Manoel Ribas e Moisés Lupion, com o Paraná em pleno progresso, as políticas públicas voltaram-se principalmente para a perspectiva de um governo científico e racional. O desenvolvimento e as divisas geradas pela economia cafeeira impulsionaram o discurso modernizante e desenvolvimentista. Políticos e intelectuais almejavam evidenciar os sinais do progresso e modernização do Paraná na capital que crescia e desenvolvia em um ritmo inesperado. 2.5 AFIRMAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA E DO PROGRESSO Em 1953 e anos antecedentes temos os preparativos para as comemorações do centenário da emancipação política do Paraná, efeméride que faria de Curitiba o palco das manifestações, comemorações e inaugurações de obras e monumentos. Bento Munhoz da Rocha Neto, então governador do Estado, definiu Curitiba como local privilegiado para a materialização dos símbolos do progresso, modernização e identidade estadual. Neste contexto, foi estabelecido o Código de Posturas e Obras do Município (Lei 699/53) - proposto desde o Plano Agache em 1943, mas concretizado somente dez anos depois. Interpretado como um marco na legislação ambiental de Curitiba, o documento de 1953 preocupava-se, sobretudo, com as ações que pudessem comprometer a qualidade de vida dos curitibanos e os aspectos paisagísticos da cidade, prezando pela arborização, zoneamento e uso do solo, limpeza de terrenos particulares e logradouros públicos, controle de ações e comportamentos danosos à cidade e à coletividade. Preocupava-se também pela conservação das construções históricas da cidade, estabelecendo a possibilidade de sua desapropriação no interesse da preservação. Apesar do aparente rigor da legislação, a cidade crescia de forma intensa e desordenada. Problemas habitacionais e de saneamento continuavam a ser preocupação constante da municipalidade que implantou, em meados da década de 50, o Departamento de Planejamento e Urbanismo e a COPLAC (Comissão de Planejamento 24 de Curitiba) agregando um grupo de engenheiros que possuíam como consultor o urbanista e ex-prefeito de São Paulo, Prestes Maia. A partir de 1954, durante o mandato de Ney Aminthas de Barros Braga (19541958), ocorre uma reestruturação administrativa na Prefeitura através de assessoria prestada pelo IBAM (Instituto Brasileiro de Administração Municipal). Surge então o Departamento Municipal de Planejamento e Urbanismo, responsável pelo controle urbanístico da cidade. Tencionava-se revisar o Plano Agache, implantando suas diretrizes mais viáveis e as extrapolando se necessário. Segundo palavras do próprio exprefeito que se tornaria governador do Estado na década seguinte: No início da década de 50, Curitiba tomou um desenvolvimento muito intenso, o que obrigava à administração municipal estabelecer medidas de execução do plano viário então vigente, o Plano Agache, e adotar outras providências para ordenar o desenvolvimento. A cidade crescia muito quando eu assumi, em 54. (...) Para que fosse planejado ordenadamente o crescimento curitibano, eu contei com técnicos e funcionários muito bons, altamente capazes e devotados, e consegui agrupá-los, embora na campanha eleitoral houvesse muitas divisões.26 Em 1956, uma Comissão de Zoneamento foi encarregada em definir e resolver questões sobre a utilização de terrenos a serem edificados. Seguidamente foi estabelecido um Plano Piloto de Zoneamento que resultaria, em 1960, na Lei 1875, quando legalmente se estabeleceu a taxa e o índice de ocupação. Ainda em 1960, a Lei Municipal nº 1908 aprovou a instituição de unidades de vizinhança, 47 urbanas e 5 rurais, definindo as regiões residenciais, comerciais e industriais do município. Cada uma dessas unidades deveria ser equipada com uma infra-estrutura básica, equipamentos de recreação e regras pra uso e ocupação do solo. Apesar das preocupações com o planejamento e ordenamento do crescimento urbano, medidas pontuais e urgentes eram necessárias, para isso, a administração municipal recebeu verbas do Departamento Nacional de Obras e Saneamento para investir em obras de infra-estrutura urbana. Grande parte dos recursos municipais foi aplicada em obras de transporte, saneamento e melhorias urbanas. Rios foram canalizados e retificados e a população coibida de fixar moradias nas suas proximidades. A energia elétrica e pavimentação chegavam a bairros distantes da cidade 26 Depoimento de Ney Aminthas de Barros BRAGA. IPPUC. Memória da Curitiba urbana. Curitiba, dezembro de 1990. (Depoimentos 5). p.3 25 que não parava de crescer junto com novos problemas e demandas advindos da expansão urbana. Na gestão Ney Braga, a filosofia do planejamento curitibano se voltou para um urbanismo mais humanista, mas sem deixar de ser progressista, seguindo uma linha de pensamento cujo maior representante era o padre Lebret, combatente da tecnocracia e adepto da valorização do homem e seu ambiente. Esse urbanismo mais humanista27, caracterizado pela preocupação com o indivíduo, parte do pressuposto de atrelar o planejamento urbano com o desenvolvimento social e bem-estar humano. Mazza falando sobre Lebret, destaca um dos principais princípios do urbanismo humanista: “O desenvolvimento é uma função contínua e indivisível. (...).Ele deve ser compreensivo de toda a realidade e tender a ser cada vez mais universal, dado o inter-relacionamento dos problemas e recursos humanos. (...). Ele exige de um lado que o planejamento se estenda a todos os setores e formas de vida coletiva e de outro reclama a participação efetiva da população” 28 Essa postura orientava a difusão de um discurso demagógico e “politiqueiro”, no qual o planejamento urbano singular de Curitiba remetia a uma visão global e integrada dos problemas e se revelava “inovador” porque “humanista”, ao romper com a tendência de um urbanismo progressista e exclusivamente técnico. 2.6 1960: A DÉCADA DECISIVA De Taulois, passando por Cândido de Abreu, Agache e Ney Braga, considerando os diversos Códigos de Postura, diretorias e departamentos vinculados ao urbanismo e melhoramentos urbanos, denota-se uma certa afinidade, aceitação e preocupação com as ações urbanísticas em Curitiba, o que foi fundamental para todo o entusiasmo, 27 Com raízes no pensamento de Lebret - combatente da tecnocracia e adepto da valorização do homem e seu ambiente - o urbanismo humanista objetivava um meio urbano mais humano e para isso, motivava que o habitante assumisse a própria cidade, ressaltando sua condição de cidadão. Previa a democratização dos espaços públicos e a forma de torná-los atraentes à população. Nessa perspectiva, um planejamento humanista incluía medidas diretamente relacionadas ao bem estar e qualidade de vida do cidadão, como planos de recreação, revitalização dos espaços deteriorados, criação de amplos espaços de convivência e a multiplicação das áreas verdes. 28 MAZZA, Luiz Geraldo. In: IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, novembro de 1989. (Depoimentos 1). p.22 26 planejamento e discussões sobre o espaço urbano curitibano no decorrer da década de 1960. O direcionamento urbano de Curitiba, a partir dos anos 60, ocorreu num contexto nacional de ascensão de forças burocrático-militares29 e do fortalecimento da ideologia de um planejamento racional. Apesar de possuir algumas nuances humanistas, o urbanismo que inspirou o planejamento de Curitiba - na segunda metade do séc. XX – possuía também tendências modernistas30. Acreditava-se no poder da Arquitetura e do Urbanismo para o ordenamento do espaço e sua influência no comportamento das camadas mais baixas da população. A década de 1960 é um período bastante emblemático no que se poderia identificar como trajetória ou história do planejamento urbano de Curitiba. Bastante relembrado, muitas vezes de forma intencional, acrítica e mítica, este período ficou marcado pela criação e estabelecimento do Plano Diretor de Urbanismo da cidade: uma série de regulamentos e diretrizes que direcionaria o planejamento urbano de Curitiba e determinaria, a partir de então, a sua condução. Entretanto, o Plano não veio sozinho: discussões, seminários, projetos e planos paralelos ou alternativos e até mesmo uma equipe de acompanhamento - que posteriormente se transformaria em Assessoria e Instituto de Planejamento – veio a reboque. 29 “O regime militar acabou tendo conseqüências no desenvolvimento de Curitiba, devido ao apoio aos programas dos prefeitos nomeados.” Depoimento de Ney Aminthas de Barros BRAGA. IPPUC. Memória da Curitiba urbana. Curitiba, dezembro de 1990. (Depoimentos 5). p.3 30 SOUZA, Nelson Rosário de. Planejamento Urbano em Curitiba: Saber Técnico, Classificação dos citadinos e partilha da cidade. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 16, p. 107-122, jun. 2001 27 3. PLANO DIRETOR – DIRECIONANDO A CIDADE AO “ESPETÁCULO” A criação do Plano Preliminar de Urbanismo e a subseqüente aprovação da Lei do Plano Diretor de Curitiba são momentos marcantes e essenciais para se compreender as medidas, contradições e resultados de um novo “direcionamento” urbano – e porque não político, cultural, econômico e “imagético” - que Curitiba passa a sofrer a partir de 1966, cujos reflexos e continuidades se prolongam até nos dias atuais. O contexto em que se deu o Plano Diretor também foi bastante intenso e marcante para a cidade. A conjuntura dos fatos, pensamentos e ações realizadas no período são importantes para a melhor compreensão acerca da implantação do plano e a forma pelo qual foi sendo conduzido e executado. Dessa forma, este capítulo se deterá na análise desta conjuntura, partindo do contexto geral, passando pelos preparativos para o plano, sua instalação e desenvolvimento – com destaque sobre a implantação do IPPUC - para finalmente apresentar e discutir o Plano Diretor, a transformação ocorrida em Curitiba (especialmente o discurso sobre ela) e o city marketing desenvolvido a partir da planificação dessa cidade “transformada” 3.1. PRELUDIO É deveras redutivo - embora consensual - atrelar o desenvolvimento urbano e econômico de Curitiba às medidas planificadoras e reguladoras do espaço citadino. No entanto, para uma compreensão mais acurada, torna-se necessário uma análise da conjuntura econômica, demográfica e política do Brasil e Paraná para se entender de forma mais completa e concreta as mudanças ocorridas em Curitiba a partir da década de 1960 e o contexto no qual foi possível a implementação do planejamento da cidade baseado no Plano Diretor. Na esfera nacional, temos em 1964 a alteração da estrutura política do Brasil. O grupo que tomou o poder - com sua formação militar, estratégica, tática e operacional valorizou ações que pudessem garantir esquemas rígidos de planejamento, amparadas em ações racionais e técnicas. 28 Durante toda a ditadura militar (1964-1985) houve certo esforço para implementação de um amplo projeto de reforma urbana, na tentativa de sanar os evidentes problemas das metrópoles brasileiras, cada vez mais inchadas com o êxodo rural.31 Criaram-se órgãos responsáveis pelo saneamento e habitação (BNH), transporte (EBTU) e planejamento (Serfhau), entretanto, tais organizações permaneceram desarticuladas entre si e até mesmo internamente, funcionando de modo falho e desorganizado. 3.1.1 Ney Braga e desenvolvimento do Paraná Na década de 1960 o Paraná passa por rápidas transformações, expansões econômicas e populacionais. O desenvolvimento e sucesso da economia cafeeira no Norte do Estado promovem divisas e atraem imigrantes. Assim como ocorre com a população de Curitiba, a população paranaense duplica entre as décadas de 1950 e 1960.32 Inicia-se então a administração do major Ney Braga (1961-66), que propôs uma ampla reformulação administrativa e econômica, reforçando a infra-estrutura básica do Estado. O governador também desejava a integração do Paraná no intuito de impedir a evasão de divisas (que ocorria com a vinculação da economia cafeeira Norte-paranaense com o Estado de SP). 31 Entre as décadas de 1960 e 1970, a população brasileira e paranaense passa ser mais urbana que rural. “A questão da migração rural-urbana ocupou por muito tempo a agenda migratória nacional, (...) a partir de meados dos anos 60, iniciou-se uma progressiva e sem precedentes desruralização e concentração urbana derivadas de transformações radicais no campo. A tecnificação, os mecanismos de crédito adotados, a especulação e concentração fundiária restringiram de forma impiedosa o acesso à terra pelos pequenos produtores e reduziram a demanda por mão-de-obra, gerando um grande êxodo rural. Nos anos 60 e 70, o país registrou uma perda de população rural sem precedentes em sua história. Segundo os autores, no primeiro período cerca de 13,5 milhões de pessoas deixaram o campo - volume que aumentou para 15,6 milhões nos anos 70." (CUNHA, José Marcos Pinto da. Migração e urbanização no Brasil: alguns desafios metodológicos para análise. São Paulo Perspec. , São Paulo, v. 19, n. 4, 2005 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392005000400001&lng=&nrm=iso>. Acesso em: 10 2008.) 32 A colonização do chamado Norte Novo (...) trouxe para essa região um grande contingente populacional, causando importantes efeitos sobre a estrutura demográfica e econômica do Paraná. Isso fez com que a população paranaense dobrasse entres os anos de 1940 e 1950. Em 1960, conforme Oliveira (2001, p. 34), com a ocupação da região conhecida como Norte Novíssimo no Noroeste do Estado, que também se realizou sob o estímulo da cafeicultura, o processo se completou, dobrando novamente o número populacional entre os anos de 1950 e 1960, mantendo o ritmo de crescimento até 1970, quando o número de habitantes no estado do Paraná chegou a 6.929.868. (MIGLIORINI, Sonia Mar dos Santos. Indústria Paranaense: Formação, transformação econômica a partir da década de 1960 e distribuição espacial da indústria no início do século XXI. Revista Eletrônica Geografar, Curitiba, v.1, n.1, p. 62-80, jul./dez. 2006 p.64) 29 Braga tinha por princípio promover a industrialização, através da racionalização da máquina administrativa, a fim de capacitá-la como mecanismo propulsor do desenvolvimento econômico paranaense. Neste período foi constituída a Companhia Paranaense de Desenvolvimento (CODEPAR), que financiava as atividades industriais com recursos oriundos de empréstimos compulsórios. A administração estadual de Ney Braga também ficou marcada pelas ações do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e o surgimento das companhias de habitação (COHAPAR), energia elétrica (COPEL), telefonia (TELEPAR) e informática (CELEPAR), fundamentais para o desenvolvimento do Paraná. O comprometimento do governo estadual com a racionalização administrativa, industrialização e desenvolvimento econômico foi fundamental para os destinos do Estado e sua capital. Segundo Oliveira: A criação de tantas agências voltadas para o desenvolvimento econômico e o comprometimento do governo do Estado com os pressupostos e a mística do planejamento, abriram oportunidades extraordinárias para a proliferação de técnicos em planejamento, os quais passariam posteriormente a ocupar posições de destaque nas administrações estadual e federal. Só para citar dois exemplos de quadros oriundos da CODEPAR, temos o futuro presidente do Banco de Desenvolvimento do Paraná, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e Ministro da Fazenda Karlos Rischibieter; e o futuro presidente do BNH, da COPEL, da ELETROBRÀS e da FEBRABAN Maurício Schulmann.33 Assim como ocorreu nos governos estaduais e federal, a década de 60 foi marcada por um ideal e comprometimento com o planejamento também no nível municipal, compreendido naquele momento como um dos elementos mais importantes e necessários para garantir o êxito de políticas públicas nas mais diversas áreas e esferas. Neste contexto, uma série de fatores e acontecimentos – os quais serão aprofundados a seguir – afloram e proporcionam um momento de intensa discussão, debate e institucionalização de planos, órgãos e ações que irão definir e estruturar o desenvolvimento urbano de Curitiba nas décadas posteriores. 3.1.2 Gestão do prefeito Ivo Arzua Ao assumir o cargo de prefeito municipal, em 1962, o engenheiro civil Ivo Arzua Pereira (1962-1967) expôs sua "Diretriz Geral em Ação" na qual deixava 33 OLIVEIRA, D. A política do planejamento urbano: o caso de Curitiba. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Setor de Ciências Sociais, Universidade Federal de Campinas, Campinas, 1995. 30 evidente a preocupação e vontade em revisar o plano urbanístico de Curitiba, reajustando-no aos novos tempos e o adaptando às novas realidades. Entre os anos de 1940 e 1960, a população de Curitiba mais que duplicou, passando de 140 mil para mais de 350 mil habitantes. Configurava-se mais que necessária uma revisão do plano Agache34, cada vez mais obsoleto à medida que a cidade se expandia e recebia migrantes. Um Plano urbanístico atualizado era almejado pelo prefeito e entendido como necessário tanto para a resolução de problemas contemporâneos quanto para a amenização dos que seriam trazidos pelo constante crescimento e processo de metropolização: favelização, déficit habitacional, problemas no transporte, poluição das águas e ar, etc. Ainda no ano de sua posse, uma comissão foi organizada para revisar o Código de Posturas e Obras do Município de Curitiba. Em 1963 foi criada a Companhia de Urbanização e Saneamento Municipal (URBS), com a função de proceder estudos que privilegiassem o planejamento econômico, social e territorial e propiciasse as condições para a formulação de um Plano Diretor para Curitiba. Entretanto, a formulação do plano surge por intermédio de outra instituição, a Companhia de Desenvolvimento do Paraná (CODEPAR), que administrava o Fundo de Desenvolvimento Econômico, o qual deveria destinar parte de seus recursos para o setor de infra-estrutura urbana, inclusive para despesas com estudos e projetos. 3.2.3 Plano Preliminar de Urbanismo Através do financiamento da CODEPAR surge a possibilidade da efetiva elaboração de um plano de urbanização atualizado para Curitiba, entretanto, para a formulação do mesmo foi proposta a criação e discussão de um plano preliminar que analisasse a cidade e propusesse idéias, diretrizes e possibilidades para o Plano Diretor. Em 1965, a Prefeitura de Curitiba abre uma concorrência nacional entre empresas de arquitetura e urbanismo para a seleção de planos preliminares, dos quais se 34 “Após duas décadas de sua implantação, o Plano Agache entrava em agonia devido à expansão desmedida da cidade, que em menos de 20 anos triplicou sua população. O plano francês não estava preparado para atender as pressões e demandas de um afluxo populacional crescente e constante na cidade a partir da década de 1950.” (GARCEZ, L. A. Curitiba: evolução urbana. Rio de Janeiro/ Curitiba: Imprensa Universitária da UFPR, 2006 p.83) 31 originaria o futuro Plano Diretor de Curitiba. A empresa vencedora foi a Serete, de São Paulo, a qual estava associada ao escritório de arquitetura do urbanista Jorge Wilheim. O Plano Preliminar de Urbanismo (PPU) que também ficou conhecido como “Plano Serete” apresentava como objetivos principais: - alterar a conformação radial de expansão da cidade para uma conformação linear, integrando transporte, sistema viário e uso do solo; - descongestionar a área central e preservar o centro tradicional; - conter a população de Curitiba dentro dos seus limites físico-territoriais; Entre as principais diretrizes estabelecidas pelo plano da Serete estava o desenvolvimento da cidade no eixo nordeste/sudoeste, vias tangenciais de circulação rápida e o aumento e adequação de áreas verdes. Para que no futuro a gestão, administração e execução do plano pudesse ser continuada, determinou-se que uma equipe de técnicos locais ficaria encarregados de acompanhar o plano. Desta equipe de acompanhamento, constituída principalmente por profissionais da URBS e dos departamentos de urbanismo, obras e fazenda, surgiu a Assessoria de Pesquisa e Planejamento de Curitiba (APPUC) - que ainda em 1965, transformou-se em Instituto, o IPPUC 3.3 INTERLUDIO Conforme será analisado, exemplificado e apresentado no decorrer deste trabalho, o Instituto que surgiu de uma simples equipe de acompanhamento adquire proporções e funções de extrema importância na administração municipal. Com o tempo, o IPPUC torna-se referência nacional e internacional em planejamento e gestão urbana. Um local em excelência para assistência, cooperação e o intercâmbio técnico nas áreas de pesquisa e planejamento urbano. Atinge reconhecimento como centro de estudos urbanos, formador de urbanistas, administradores urbanos e até prefeitos, ganhando a alcunha de Sorbonne35 do Juvevê (bairro onde está sediado) O Instituto configurou-se também como o grande orquestrador do “espetáculo” que se tornou Curitiba, delineando a cidade e divulgando-a como seu produto e sua 35 Referência a La Sorbonne – Universidade de Paris - uma das principais e mais reconhecidas universidades do mundo. 32 reinvenção. Até nas memórias36 do Instituto é possível observar a construção de um mito fundador da cidade modelo: o Plano Diretor de Urbanismo tão bem conduzido e representado pelo IPPUC. 3.2.1 O IPPUC Criado pela Lei. nº 2660 de 1º de dezembro de 1965 o Instituto de Planejamento e Pesquisa de Curitiba surgiu com a função tanto de elaborar, detalhar e cooperar projetos, quanto controlar e implementar o plano diretor. Conforme o artigo 1º da referida Lei, as principais atribuições do IPPUC seriam: I - Elaborar e encaminhar ao Executivo anteprojeto de lei, fixando o Plano Urbanístico de Curitiba; II - Promover estudos e pesquisas para o planejamento integrado do desenvolvimento do Município de Curitiba; III - Apreciar projetos de lei ou medidas administrativas que possam ter repercussão no desenvolvimento do Município; IV- Desenvolver nos Órgãos da Administração Municipal o sentido de racionalização do desenvolvimento do Município em todos os seus aspectos; V - Criar condições de implementação e continuidade que permitam uma adaptação constante dos planos setoriais ou globais às realidades dinâmicas do desenvolvimento Municipal; VI - Coordenar o planejamento local com as diretrizes do planejamento regional ou estadual;37 Inicialmente criado como uma Autarquia Municipal, a primeira designação do IPPUC foi APPUC, composta por um Conselho Deliberativo (presidido pelo prefeito) e uma Diretoria Executiva, constituída por 14 membros: um representante da Câmara Municipal, todos os membros da Diretoria Executiva, um representante dos departamentos de Urbanismo, de Obras, dos Serviços de Utilidade Pública, de Concessões e Permissões, Bem Estar Social, Rodoviário Municipal e das companhias Urbanização e Saneamento Municipal e Habitação Popular de Curitiba. A Diretoria Executiva era constituída pelas supervisões de Planejamento Econômico-Social, de Planejamento Físico-Territorial, de Implantação Jurídica e Secretarias Administrativa e Técnica. O IPPUC passou a ser organizado a partir 4 Supervisões: de Informações, de Planejamento, de Implantação e Administrativa e Financeira. A supervisão de 36 Trata-se das “memórias” obtidas por depoimentos e compiladas nos sete volumes de: CURITIBA. Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba: IPPUC, 1992. 37 CURITIBA. Lei Ordinária n. 2660, de 01 de dezembro de 1965. Dispõe sobre a criação do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC). Disponível em <http://www.ippuc.org.br/ippuc/docs/Lei_Ordinaria_2660.pdf>. Acesso em 23/03/08 33 Informações atua na produção, sistematização e análise das informações necessárias ao planejamento e à ação dos diversos órgãos da Prefeitura. “A Supervisão de Planejamento é responsável pela atualização permanente e sistemática do Plano Diretor de Curitiba, propondo os ajustes necessários de modo a adequá-lo à dinâmica da cidade”, sendo ela a responsável pela definição das diretrizes do desenvolvimento do município e elaboração de planos, programas e projetos de estruturação urbana. Apesar de não ser uma das atribuições iniciais, nem constar na lei que o instituiu, a produção, análise e disseminação de informações38 referentes ao meio urbano de Curitiba caracterizaram uma das principais atribuições do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba. Atribuição esta bastante notável e essencial para a construção de uma “Curitiba imaginária” e para a promoção do citymarketing da cidade. A comissão que surgiu para acompanhar a implantação do Plano Diretor acabou se transformando em um “instrumento” para planejar, conhecer e promover a cidade, além de se envolver e articular-se com ela das mais diversas formas. Segundo texto produzido pelo próprio Instituto: Os benefícios urbanos que a cidade de Curitiba recebeu nas últimas décadas tiveram uma participação efetiva dos técnicos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba – IPPUC. Com uma equipe especializada em planejamento urbano e realizando um trabalho voltado para o futuro, com a preocupação de resgatar a memória de tudo o que se fez no passado, o Instituto adquiriu ampla experiência em política municipal visando a resolução dos problemas urbanos. (...) O IPPUC tem participado efetivamente do cotidiano do Município, influindo diretamente nas modificações da vida curitibana, em seus aspectos físico-territoriais e humanos. 39 O Instituto, desde seus primeiros anos, dedicou-se à pesquisa e à elaboração de projetos, detalhando as formas pelas quais o Plano poderia ser implementado, mesmo não havendo a certeza de que algum dia surgiria uma administração disposta a implantálo. A partir da administração Jaime Lerner (1971-1974), com seu ex-presidente na chefia do executivo municipal, o IPPUC se destacou como a principal instância de 38 Levantamentos bibliográficos, pesquisas diretas, análises estatísticas, avaliações de projetos, produção de diagnósticos setoriais, desenvolvimento de indicadores sociais e informações georreferenciadas são algumas das funções específicas desenvolvidas no instituto através da Supervisão de Informações. Além da editoração de trabalhos técnicos, da documentação e do arquivamento de mapas e projetos, esta supervisão também é responsável pela produção de indicadores de qualidade de vida e pela promoção de contatos com órgãos e entidades externas. 39 IPPUC. Curitiba - Planejamento um processo permanente.Curitiba: IPPUC, 2000 34 planejamento e assessoramento urbano, assumindo posições administrativas / executoras bastante extensas ao longo da implementação do plano preliminar. Para Oliveira40, o IPPUC estaria no ápice da pirâmide do planejamento urbano de Curitiba, por ter tornado um eficiente articulador entre as demais agências relacionadas ao planejamento urbano, uma vez que em sua composição era formada por representantes de diversos setores do poder executivo e legislativo municipal e de órgãos como COHAB e URBS. Com o tempo, o IPPUC ocupa boa parte do espaço e das funções das demais instituições de urbanismo da cidade e se destaca como um organismo privilegiado na administração local, formador de futuros pensadores, planejadores, estudiosos, marketeiros e prefeitos da cidade de Curitiba. Mesmo durante gestões municipais que colocaram-no à margem, o IPPUC não deixou de investir em pesquisas, projetos e na formação de seu quadro técnico, apostando em arquitetos urbanistas recém-formados da UFPR e conseguindo vasta documentação de grande importância para justificação e afirmação do plano urbanístico. Em 1989, o IPPUC passa a responder, também, pelo planejamento da área de informática do Município, através da Supervisão do Centro de Processamento de Dados – CPD, que em 1995 dá origem ao Instituto Curitiba de Informática. Logo no início da década de 1990 o órgão amplia suas atribuições, através da Lei 7671 - sobre a Reforma Administrativa - passando a elaborar os orçamentos Plurianual e Anual de Investimentos da Prefeitura, bem como a acompanhar as metas físico-financeiras dos programas e projetos, articulando tais planos e projetos entre vários setores da municipalidade. 3.2.2 A legitimação Apesar da Ditadura Militar de 1964 ter sido considerado como um período de imposições, arbitrariedades e bastante fechado às discussões e medidas democráticas, a instituição do Plano Diretor de Curitiba passou por um processo de legitimação antes de sua efetiva implantação. Para Oliveira, o período compreendido entre 1962 a 1966 teria sido a "institucionalização da decisão de planejar e da criação de instrumentos para tanto"41 40 OLIVEIRA, D. Curitiba e o mito da cidade modelo. Curitiba: Editora da Universidade Federal do Paraná, 2000. 41 OLIVEIRA, M. A trajetória do discurso ambiental em Curitiba (1960-2000). Rev. Sociol. Polit. [online]. 2001, no. 16, pp. 97-106. P.99 35 Durante os seis primeiros meses de 1965, técnicos locais e da equipe da Serete trabalharam na elaboração do Plano Preliminar, que seria discutido enfaticamente em um Seminário denominado “Curitiba de Amanhã”. Bastante divulgado pela imprensa, o seminário convidava aos curitibanos para discutir e conhecer os rumos que o planejamento urbano de Curitiba iriam tomar a partir de então. Do Seminário surgiu, em dezembro do mesmo ano, o IPPUC. A legitimação do planejamento precisava ser realizada principalmente no âmbito institucional, entre os setores relacionados à urbanização da Prefeitura. Havia disputas internas pelo controle do planejamento: por um lado a URBS e o Departamento de Urbanismo competindo sobre as competências afetas ao detalhamento e execução do plano e, pelo outro, o Departamento de Obras disputando com a URBS sobre as jurisdições acerca dos processos de planejamento e execução de obras públicas. Para equacionar estas disputas e também proporcionar legitimidade ao plano, o prefeito Ivo Arzua convocou, durante o mês de julho de 1965, vários seminários realizados em entidades representativas da sociedade civil, durante os quais seria exposto o plano às elites profissionais e econômicas, bem como aos segmentos organizados das classes populares. A apresentação do plano à população o consagraria, ao mesmo tempo em que lhe estabelecia uma aura democrática, “evitando que este se convertesse em informação sigilosa a ser eventualmente apropriada por uns poucos privilegiados”42. Além disso, seria possível acolher críticas e sugestões pertinentes. Não se excluía a possibilidade de surgir um plano completamente alternativo o que, na teoria, abriria possibilidades da realização de uma nova concorrência. O principal encarregado da exposição do plano preliminar foi o grupo local de acompanhamento (futuro IPPUC), auxiliado pela Serete e pelo prefeito. Várias sugestões e algumas críticas apareceram durante o seminário, uma das mais importantes foi a da criação de um setor histórico no centro da cidade, aceita e logo incorporada ao Plano. Também foi proposto um plano alternativo que privilegiava a av. Mal. Floriano como eixo de crescimento da cidade, em oposição aos eixos nordeste-sudeste estabelecidos pelo plano Serete, (tal sugestão foi inicialmente refutada, 42 OLIVEIRA, D. Curitiba e o mito da cidade modelo. Curitiba: Editora da Universidade Federal do Paraná, 2000. P. 95 36 todavia, posteriormente, viu-se necessária a implementação de novo eixo de crescimento, a Mal. Floriano que ligaria o Centro ao Boqueirão) Os seminários atingiram seu intento, conseguindo atrair atenções, apoios e simpatias para o Plano Serete entre os diversos grupos econômicos, políticos, sindicais e profissionais ao qual foi exposto. O plano alternativo, assim como seus autores, não possuíam forças e articulações necessárias para se opor ao Plano desenvolvido pela empresa paulista com auxílio da equipe de apoio. Dessa forma, o plano preliminar acrescentado das sugestões e retificações foi enviado a Câmara para a elaboração da Lei do Plano Diretor. A apresentação do Plano Preliminar Urbanístico de Curitiba, debatido na época entre os diversos segmentos da população, foi acontecimento relevante na Curitiba dos anos 60, que assistia, pela primeira vez, à divulgação e possibilidade de discussão e participação de um plano dessa natureza. 3.3. PÓSLUDIO Não é intenção deste trabalho discorrer a respeito das características, discussões, críticas e alterações do Plano Diretor no decorrer de sua vigência. Apesar de fundamental e representativo para o urbanismo curitibano, o Plano de 1966 já motivou inúmeras discussões, estudos e avaliações. Objetiva-se sim apresentar os resultados, decorrências e ações concomitantes e procedentes deste processo de planejamento que surgiu da necessidade de revisão do Plano Agache, teve o IPPUC como mediador e protagonista, e que resultou em epítetos, discursos e imagens de uma cidade ideal. As quais foram difundidas através de um city marketing que a projetou e a destacou ao mundo, mas que, por outro lado, ocultaram e acobertaram problemas. Porém, antes de discutir os resultados, pretende-se analisar o fato (o planejamento urbano), em relação com seu objeto (Plano Diretor) e sua articulação com o ator principal (IPPUC) no desenvolvimento de estratégias de divulgação da cidade (city marketing) e a conseqüente construção de um discurso (cidade modelo) e lapidação da imagem (Curitiba espetacular) 37 3.3.1 O Plano Diretor de Urbanismo Instituído pela Lei 2828 de 1966 o Plano Diretor de Curitiba tornou-se um “marco” importante para a definição dos rumos da cidade, um momento cujo contexto e acontecimentos favoreceu a discussão e definição dos rumos da “Curitiba do Amanhã”. Conforme já foi apresentado a Lei do Plano Diretor, editada em 10 de agosto de 1966 pela Câmara Municipal de Curitiba, surge em decorrência do Plano Preliminar de Urbanismo de 1964 (na gestão de Ivo Arzua [1966-1967]). A legislação somente começou a ser efetivada e utilizada a partir da década de 1970, na gestão de Jaime Lerner (1971-1974), ex-diretor do IPPUC e ex-integrante da equipe de acompanhamento que originou o Instituto. Em 2004 a Lei do Plano Diretor passa por uma adequação ao Estatuto da Cidade (Lei Federal nº 10.257/01) para orientação e controle do desenvolvimento integrado do Município. A legislação inicial, de 1966, estabelecia um plano cujas diretrizes orientaria um controle e desenvolvimento integrado do município. Tinha como prioridade “propiciar melhores condições para o desenvolvimento integrado e harmônico e o bem-estar social da comunidade, bem como da região metropolitana de Curitiba.”43. O Plano deveria se desenvolver em duas etapas, a primeira referida pelas diretrizes básicas aprovadas pela Lei, a qual deveria ter aplicação imediata. A segunda etapa seria aprovada “subseqüentemente, em fases sucessivas, através de uma programação proposta pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba IPPUC, em conformidade com as diretrizes estabelecidas nesta Lei.”44 Baseado em diretrizes que valorizava o Plano Viário, o Zoneamento, o Loteamento e a Renovação Urbana, o Plano Diretor se apoiou no princípio de que o desenvolvimento poderia ser induzido e o adensamento populacional deveria ser compatível com a cidade. A lei dotou o IPPUC de grandes poderes para implementar, retificar, acrescentar, administrar e consolidar o planejamento da cidade. Em linhas gerais, foi proposto um modelo linear de crescimento, descentralizado e preocupado com a manutenção e controle da expansão da região central. O crescimento da população deveria ocorrer ao longo de eixos estruturais, servidos por 43 CURITIBA. Lei n. 2828, de 10 de agosto de 1966. Dispõe sobre o Plano Diretor de Curitiba. 44 Id. 38 transporte coletivo – que deveria ser priorizado sobre o individual. As vias seriam hierarquizadas, assim como os locais passíveis de construção, especializados em zonas e sub-zonas. Dessa forma, o sistema viário seria um instrumento de indução e controle do crescimento urbano, evitando que a cidade crescesse descontroladamente e de forma concêntrica. As vias lineares de circulação, denominadas estruturais (onde posteriormente se instalaria o sistema trinário), concentraria oferta necessária de meios de transporte coletivo. A população seria incentivada a se adensar às margens de longos eixos que cortaria a cidade em cruz. O centro tradicional seria poupado e não sofreria deterioração, sendo destinado preferencialmente aos pedestres. O Plano Diretor de Urbanismo de Curitiba, apesar de ser reconhecidamente modernista, teve algumas feições humanistas, dentre elas a de revitalização - ao invés da destruição - dos espaços públicos tradicionais da cidade. Foi proposta a pedestrianização do centro da cidade e a exploração do local como espaço de encontros e sociabilidades, propício para a implementação de projetos e equipamentos culturais. Idealizava-se uma cidade que fosse feita para o homem, o centro precisava adquirir a função de um local de encontro dos habitantes, assim como as diversas áreas verdes que deveriam ser criadas. Áreas de várzeas de rios seriam desapropriadas, por representarem riscos de enchentes e inviabilidade para ocupação habitacional, no lugar destas se instalariam parques e áreas de lazer. O centro tradicional deveria ser preservado e utilizado como um local de encontro de pessoas. Para isso foi necessário o fechamento de ruas ao tráfego de veículos, medida bastante ousada e significativa que originou em Curitiba a primeira rua do Brasil destinada exclusivamente aos pedestres, a Rua das Flores, ou o calçadão da XV de Novembro. 3.3.2 A “orquestração” dos anos 1970 Se o planejamento urbano curitibano foi “orquestrado” a partir da década de 1960, resultando nesta “cidade espetáculo”45 que hoje se conhece, foi somente a partir da década seguinte que a “orquestra” realmente entrou em ação. 45 SANCHEZ, F. E. G. Curitiba, imagem e mito: reflexão acerca da construção social de uma imagem hegemônica. Dissertação (Mestrado em Planejamento Urbano e Regional) – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1993. 39 O “maestro”, sem sombra de dúvidas, poderia ser representado na figura de Jaime Lerner, grande condutor do planejamento e articulador responsável pela formação de imagens e discursos sobre a cidade. O corpo principal da orquestra não seria outro senão o IPPUC, base e suporte para as medidas e transformações urbanísticas e visuais que a cidade começa a passar a partir de então. Conjeturando dessa maneira, pode-se perfeitamente situar o “concerto de estréia” em um ato bastante simbólico, polêmico, cujo resultado e envolvimento popular inauguraria a imagem e o discurso de uma Curitiba criativa e pioneira em soluções e transformações urbanas. Trata-se da pedestrianização da rua XV de Novembro, mais central, importante e tradicional artéria viária curitibana foi transformada em um imenso calçadão, um “cenário de encontro”46 dos curitibanos. Partindo de um esboço profissional/político de Jaime Lerner e da articulação promovida entre IPPUC e Prefeitura Municipal, este capítulo também pretende apresentar e discutir o “ato inaugural” do planejamento urbano curitibano pós-Plano Diretor, assim como as principais medidas, ações e características que o sucederam. 3.3.2.1 O “maestro” Em toda literatura relacionada ao planejamento e “desenvolvimento” de Curitiba, a partir de 1970, Jaime Lerner é presença constante, principalmente em publicações e estudos que apontam para o “sucesso” de Curitiba, mas também àquelas que fornecem críticas e revelações sobre favorecimento de grupos capitalistas da cidade, inquéritos judiciais, manobras políticas, econômicas (utilizando, sobretudo, do planejamento e zoneamento urbano da cidade). Apesar da análise da trajetória e ações de Lerner não constituir a proposta desse trabalho, torna-se necessário o esboço de sua vida profissional e política para evidenciar e revelar seu envolvimento e atuação na formação de um discurso e lapidação da imagem de Curitiba. Sua presença e referência na “transformação” de Curitiba, na produção dessa cidade midiática e espetacular é de extrema relevância. “Hoje sabemos que Curitiba, mais que um signo, é a simbiose, se é que o termo soe apropriado, do criador com a criatura. Não se 46 LERNER, J. A cidade: cenário do encontro. Roteiro do filme produzido em outubro de 1977 apresentado em conferências em Paris e Edinburgh. 40 analisa Curitiba sem se analisar Jaime Lerner, seu discurso e seus desejos. A cidade é e tem a cara do arquiteto e urbanista.”47 Conforme GNOATO48, Jaime Lerner graduou-se em Engenharia Civil na UFPR e obteve bolsa de estudos na França, quando estagiou junto ao projeto para Toulouse le Mirail, no escritório de Georges Candilis (1913-1995), Alexis Josic (1921-) e Shadrach Woods (1923-1973), integrantes do Team X49. Fez parte da primeira turma de arquitetos da UFPR50 e da equipe de acompanhamento do Plano Serete, sendo um dos fundadores e implementadores do IPPUC. Filiou-se à Aliança Renovadora Nacional (Arena) em 1971, quando, aos 33 anos, foi nomeado prefeito de Curitiba pelo então governador Haroldo Leon Peres. Posteriormente elegeu-se duas vezes prefeito municipal (1979-83 e 1989-93) e duas vezes governador (1995-98 e 1999-2002). Exerceu intensa atividade em arquitetura e urbanismo, obtendo alguns prêmios e vencendo concursos na área. Também foi premiado por sua gestão municipal, especialmente devido às ações relacionadas ao meio ambiente e qualidade de vida51. Apesar de ser (re)conhecido pela sua atuação no aspecto urbano e arquitetônico da cidade de Curitiba, também desenvolveu planos para várias cidades do Brasil, como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador, Aracaju, Natal, Goiânia, Campo Grande e Niterói. No exterior, atuou em Caracas (Venezuela), San Juan (Porto Rico), Xangai (China), Havana (Cuba) e Seul (Coréia do Sul). 47 DIAS.S.I.S. A Arquitetura do desejo. O discurso da nova identidade urbana de Curitiba. Cascavel: UNIOESTE, 2005. p.6 48 GNOATO,Luís Salvador. Curitiba, cidade do amanhã: 40 depois. Algumas premissas teóricas do Plano Wilheim-IPPUC. Texto apresentado no 1° Seminário de Cidade Contemporânea – Curitiba de Amanhã 40 anos depois (1965-2005), em 2, 14 e 15 de setembro de 2005, organizado pelo PPGTU e pelo Grupo de Pesquisa: Teoria e História e Arquitetura e Urbanismo da PUCPR. Disponível em <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq072/arq072_01.asp.> Acesso em 20/01/2008 49 O Team X foi um grupo herterogêneo de arquitetos constituído em meados do séc. XX. Contrários às regulações da Carta de Atenas, também se opunham a certas características do modernismo instituído por Le Corbusier. 50 Em seu site oficial: www.jaimelerner.com.br, o ex-prefeito afirma ser “arquiteto e urbanista formado pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal do Paraná, em 1964”, entretanto o Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (CAUUFPR) foi constituído em 1962/63 (conforme histórico contido no site do curso em: http://200.17.217.64/graduacao/apresentacaoehistorico.htm 51 Em 1974 o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) elegeu a administração Jaime Lerner como a melhor do Brasil, qualificando-a como um modelo e exemplo a ser seguido. No ano seguinte Lerner foi indicado pelo então governador do Rio de Janeiro Faria Lima (1975-1979) para ser o primeiro presidente da Fundação para Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (FUNDREM), 41 A partir de 1975, após seu primeiro mandato como prefeito municipal, assumiu o cargo de consultor da Organização das Nações Unidas – ONU, para Assuntos Urbanos. Em 2002 foi eleito presidente da União Internacional de Arquitetos. Conforme será discutido no próximo capítulo, Lerner soube aproveitar das oportunidades para promover a cidade e se promover, consolidando seu marketing pessoal e galgando cargos de relevância em sua área de atuação, os quais também proporcionaram influência e articulação política, social e empresarial. Para Oliveira: “De todos personagens envolvidos com a administração pública da cidade em tempos recentes, o que melhor soube se aproveitar das oportunidades de consecução de um ambicioso projeto político foi, sem dúvida, Jaime Lerner.”52 3.3.3 A transformação “revolucionária” de Curitiba Depois de um período de completa letargia, em que Curitiba foi praticamente abandonada pelo poder público municipal, surge uma equipe de jovens à testa da prefeitura, liderados por outro jovem e, num espaço de tempo relativamente curto, Curitiba assume outra feição, a feição de uma urbe cuidada. Por todo lado sente-se que a cidade voltou a ter quem cuide dela... novas praças, novo plano de trânsito... mais asfalto, a criação de uma estrutura de animação... novas concepções enfim...53 Ao analisarmos, a partir da implantação do Plano Diretor, os discursos do IPPUC e dos prefeitos de Curitiba - e seus ecos na imprensa - é visível o desejo de divulgar uma “revolução”, desenvolvida através do planejamento urbano, desencadeadora de uma verdadeira transformação na cidade. Não é incomum percebermos no discurso dos tecnocratas e administradores municipais que essa Curitiba – da forma como se conhece hoje - surgiu e se transformou com IPPUC e Lerner através do Plano Serete e consequentemente Diretor. Afinal, esse “planejamento revolucionário” teria colocado a cidade em novo caminho, proporcionando novas perspectivas e mudando a feição da Curitiba que existia até então. Segundo eles “Com o Plano Serete, houve uma ruptura: chegou à modernidade."54 52 OLIVEIRA, D. A política do planejamento urbano: o caso de Curitiba. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Setor de Ciências Sociais, Universidade Federal de Campinas, Campinas, 1995. p.176 53 Folha do Comércio - órgão oficial da ACP Ano XI - 3/9 de janeiro de 1972 - nº 594. Matéria de capa. 54 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, junho de 1990. (Depoimentos 3). p.13 42 A aprovação do Plano Diretor de Curitiba em 1966 marcou o início de um dinâmico processo de planejamento. No ano anterior, a realização do Seminário “Curitiba de Amanhã” contou com a participação de segmentos representativos da sociedade, culminando com a institucionalização do planejamento urbano através da criação do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba – IPPUC , em dezembro de 1965.55 Para a equipe do IPPUC que conseguiu sair do “plano das idéias” para atuar no “plano das ações”56, Curitiba começava a ganhar forma e se diferenciar das demais metrópoles brasileiras. Para legitimar a mudança e impor uma imagem e característica à cidade, recorrentemente, ela era tratada como disforme e pouco atrativa antes de sua “transformação” O Plano ficou pronto em 66, mas passou por várias discussões e só a partir de 1970, quando o Jaime assumiu pela primeira vez a Prefeitura de Curitiba é que começou a ser implantado. E muito rapidamente. Podemos dizer que do Plano Serete surgiu um "Plano IPPUC", porque a equipe formada pelo acompanhamento das reformas partiu das linhas básicas do Plano do Jorge Wilheim para dar forma a Curitiba, que até então era um aglomerado, como eram as grandes cidades brasileiras.57 (sem grifos no original) “Em 1971, lembro-me bem, Curitiba era a "última cidade" do Brasil, sem qualquer característica especial. O próprio curitibano era um cara que não tinha a sua marca, não tinha expressão, isto porque a cidade nada tinha a oferecer."58 É recorrente a afirmação de que Curitiba “começou” nos anos 60. Entretanto, essa nova cidade com menos de meio século, é apenas uma das muitas Curitibas que podem ser reconhecidas. Para evidenciar que “Curitiba desfrutou da mais profunda transformação física, econômica e cultural de sua história”59, pelo fato de ter ocorrido “três transformações fundamentais em Curitiba”60 durante a primeira gestão Lerner, tentou-se denegrir ou tratar pejorativamente a imagem da cidade antes do Plano Diretor: 55 IPPUC - Revista Espaço Urbano, n.3, jan.2003 p. 8. p.33 56 “A década de 70 imprime ao IPPUC importância ainda maior. As diretrizes do planejamento urbano de Curitiba passavam do plano das idéias para o plano das ações. Era preciso perseguir o próprio desenho da cidade; sondar as aspirações da população e transformá-las em projetos; executar tais projetos e, às vezes, até mesmo gerenciar a execução de alguns deles.” (IPPUC. Memória da Curitiba urbana. Curitiba, dezembro de 1990. (Depoimentos 5). p.VII) 57 IPPUC. Memória da Curitiba urbana. Curitiba, dezembro de 1990. (Depoimentos 5). p.16-17 58 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, agosto de 1990. (Depoimentos 4). p.33 59 IPPUC. Memória da Curitiba urbana. Curitiba, dezembro de 1990. (Depoimentos 5). p. VII 60 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, junho de 1990. (Depoimentos 3). p.58 43 As pessoas viajavam pelo Brasil antes de 70 e tinham até um pouco de receio de dizer que eram de Curitiba, era mais ou menos como dizer ‘eu sou do Piauí’. E o Jaime deu esse orgulho aos curitibanos de dizer eu sou de Curitiba, e hoje quando se diz isso, as pessoas reagem com entusiasmo: ‘..Ah, Curitiba é a melhor cidade do Brasil...’61 Observa-se no discurso dos planejadores que Curitiba apenas se tornou motivo de orgulho após a “transformação” com o Plano Diretor, antes disso, tentou-se construir uma idéia de que Curitiba seria considerada um local atrasado, esquecido e vergonhoso. Algo bastante contraditório se for analisado o desenvolvimento econômico que a cidade passava durante o ápice da economia cafeeira no Estado na década de 1960 e com todo investimento em infra-estrutura realizado por Ney Braga e Ivo Arzua. Desde a década de 1950 o Paraná tentava se afirmar em termos políticos, sociais e culturais quando das comemorações do centenário de sua emancipação política. Época em que monumentos emblemáticos62 e obras modernistas foram realizadas na capital paranaense como o Centro Cívico, Teatro Guaíra e Biblioteca Pública. Para SANTOS: “Curitiba de hoje, “cidade com uma infraestrutura razoavelmente bem estabelecida”, estava sendo fundada em 1953, momento que assinala uma reorganização do seu espaço urbano. O tempo que se inaugurava, e que ainda permanece para os entrevistados, será percebido como um tempo de expansão física e populacional da cidade.63 Para Sanchez 64 , há esforço político em “vender” o sucesso de cidade e promover a reinvenção dos lugares, os quais estão diretamente associados aos arranjos particulares e relações de interesses. Os governos possuem necessidade de proporcionar “visibilidade internacional a seus projetos e ações urbanas, visando a um trânsito notável junto às agências multilaterais – que, por sua vez, garantirão futuros financiamentos para novos projetos.” No contexto ao qual se incluía Curitiba a partir da década de 1970, “a construção de imagensmodelo e a conquista de expressão no mercado de cidades” era fundamental. 61 IPPUC. Memória da Curitiba urbana. Curitiba, dezembro de 1990. (Depoimentos 5). P.33 62 Como os realizados na Praça 19 de Dezembro, a destacar o “Homem Nu” de Erbo Stenzel. 63 SANTOS, A. C. de A. Memórias e cidade: depoimentos e transformação urbana de Curitiba, 19301990. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1997 64 SANCHEZ, F. E. G. A reinvenção das cidades na virada de século: agentes, estratégias e escalas de ação política. Rev. Sociol. Polit. , Curitiba, n. 16, 2001 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782001000100004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 Set 2008. 44 4. A ORQUESTRA EM AÇÃO 4.1 1ª GESTÃO – O IPPUC EM AÇÃO A primeira gestão Lerner se inicia em 1971, após deixar a presidência do IPPUC, para assumir, por indicação, a chefia do executivo municipal. Neste período que se prolonga até 1975 observa-se grande destaque e atuação do IPPUC na prefeitura Municipal, tornando a principal instância de planejamento e assessoramento urbano da cidade e adquirindo posições administrativas / executoras consideráveis na gestão do município. Garantindo a condução e execução do Plano Diretor, o IPPUC se consolidava como órgão de referência e relevância em planejamento urbano, adquirindo reconhecimento nacional e internacional. Com um de seus formuladores e apoiadores no comando da cidade, o Plano não enfrentou oposições ou barreiras para sua execução. Para colocar em prática as diretrizes previstas pelo Plano Diretor, além do IPPUC, Lerner procurou se cercar de aliados, nomeando e empregando técnicos (e não políticos) na direção da maioria das secretarias municipais e nos cargos decisórios da prefeitura. Esta primeira gestão Lerner valorizou as transformações urbanas a partir de modificações e intervenções nas áreas da cultura, trânsito, transporte público e zoneamento urbano. O Sistema Trinário65, fechamento da XV aos pedestres e instalação de equipamentos culturais66 na cidade marcaram os primeiros anos de Lerner no comando de Curitiba. 65 O Sistema Trinário consiste em uma avenida central dividida em três pistas: um corredor exclusivo para o transporte público no meio e duas faixas para o tráfego local. Outras duas avenidas paralelas servem como vias expressas de trânsito rápido que promovem acesso ou saída da área central. A idéia dos eixos estruturais, surgida já no Plano Serete, inspirou a reformulação sistema viário e de transporte coletivo de Curitiba. O Sistema Trinário foi uma concepção de transporte de massa projetada para atender as necessidades de uma cidade onde uso do solo do entorno das vias percorridas pelo transporte publico seriam hierarquizadas. Foi planejada inicialmente uma estrutural no sentido norte-sul; mais tarde a leste-oeste e posteriormente a estrutural sudeste, que ligaria a cidade ao Boqueirão, bairro inicialmente esquecido pelo Plano Diretor. Curitiba deveria crescer ao longo desses três eixos evitando o adensamento e deterioração de áreas já povoadas como a do centro e seu entorno. 66 Em 1971 foi implantada a Fundação Cultural de Curitiba e iniciou a reciclagem de espaços "históricos" da cidade transformando-os em centros difusores de cultura. O Teatro Paiol foi um marco simbólico desta ação que reciclou um antigo depósito de pólvora em teatro. 45 As preocupações ambientais - que seriam marcas das gestões posteriores começaram a se esboçar, quando, em 1972, ocorria a instalação do Parque São Lourenço em uma antiga fábrica de cola para resolver os problemas de saneamento e enchentes na região. Ainda nesta primeira administração, aproveitando o “Milagre Econômico”67 pelo qual passava o Brasil o prefeito articulou juntamente com o IPPUC e a elite empresarial68 a criação, em 1973, da CIC - Cidade Industrial de Curitiba, a qual já era pensada desde a gestão do prefeito Ivo Arzua e que causou endividamento do município em centenas de milhões de Reais com o Estado do Paraná. Conforme foi indicado na Lei do Plano Diretor, a região central da cidade deveria ser preservada e destinada aos pedestres. Houve o projeto de transformar o centro tradicional de Curitiba em uma referência para a história da cidade69. Dessa forma, através de decreto municipal, em 1971 foi criado o “Setor Histórico de Curitiba” e no ano seguinte ocorreu uma das ações mais marcantes e simbólicas ações da primeira gestão Lerner: a “transformação” da XV de Novembro no “calçadão” da Rua das Flores. 4.2 RUA DAS FLORES – O PRIMEIRO ATO Desde muito tempo a rua XV de Novembro – que no século XIX era denominada das Flores e da Imperatriz – destaca-se como a principal artéria urbana de Curitiba. A via mais central da cidade, a que sempre recebeu as inovações urbanísticas; a rua que abrigou a primeira sede do poder provincial; a pioneira em receber camada 67 Denominação relacionada ao crescimento econômico ocorrido no Brasil durante seus “anos de chumbo”, especialmente no governo Médici (1969-1973) 68 “através da criação da Cidade Industrial de Curitiba que se forjou uma autêntica aliança entre os profissionais do urbanismo local com os grandes interesses privados que, talvez, seja o traço mais importante no desenho da estrutura do poder contemporâneo no Paraná.” (OLIVEIRA, 1995, p.97) 69 Reflete-se aí uma inspiração humanista de integração do homem à cidade, promover no cidadão o orgulho de sua cidade, integrar o homem no projeto de revitalização dos valores tradicionais da cidade. "Mais do que dar determinada forma à malha urbana, esses arquitetos de inspiração humanista desejavam criar uma nova postura do cidadão frente à sua cidade - ambição típica dos modernistas, diga-se de passagem. Numa palavra, o que se ambicionava era a mudança da mentalidade do indivíduo frente a sua cidade." (OLIVEIRA, 1995, p.46) 46 asfáltica e a ostentar o primeiro arranha-céu de Curitiba, a XV passou a se confundir com a própria cidade, quase um sinônimo e representação do centro de Curitiba. Como já foi visto, o Plano Diretor de Urbanismo visava preservar o centro tradicional da cidade e para isso seriam necessárias algumas medidas. Alterar a configuração da Rua XV, o coração da cidade, revelar-se-ia medida bastante polêmica e ousada, mas ao mesmo tempo simbólica e ritual. Estabelecer-se-ia a partir de uma ação drástica e impactante - o fechamento e transformação da principal rua da cidade – o ato inicial70 da “revolução urbanística” que se pretendia instaurar. Na década de 1970, Curitiba necessitava de um espaço peculiar71, que a representasse e diferenciasse das outras capitais. São Paulo já era reconhecida por seu cosmopolitismo, o Rio de Janeiro, “cidade maravilhosa, bonita por natureza”. Curitiba não tinha nada a oferecer, mas possuía a Rua XV, que poderia suscitar uma imagem da cidade, capaz de provocar encantamento, atração e sentimento de pertencimento e orgulho aos habitantes. Se o Plano Agache tratou a Rua XV apenas como um via comercial importante, que deveria sofrer retificações em seu alinhamento para atender às funções viárias planejadas para a cidade; no Plano Serete da década de 1960 – de tendências e aplicação mais humanistas - a rua suscitaria novas apreensões e medidas. Lerner utilizou de um discurso humanista para legitimar sua intervenção na principal rua curitibana. A sua concepção de urbanismo objetivava um meio urbano mais humano e, para isso, o habitante deveria assumir a própria cidade, ressaltando sua condição de cidadão. Dessa maneira, os espaços públicos deveriam ser democratizados e se tornarem atraentes para a população. Tal planejamento humanista incluía medidas diretamente relacionadas ao bem estar e qualidade de vida do cidadão, como planos de recreação, revitalização dos espaços deteriorados, criação de amplos espaços de convivência e a multiplicação das áreas verdes. Para Lerner: 70 Segundo depoimento de Assad: “A Rua das Flores desencadeou todos os outros projetos, de parques, eixos. A cara de Curitiba que não existia, passou a existir.” (O primeiro calçadão do Brasil. A Rua 48 horas. Revista VOI, n.1. Set. 2004.. p.16) 71 O Plano Preliminar de Urbanismo, identificou que em Curitiba “faltam completamente atrações turísticas, estando a própria vida cultural bastante aquém das possibilidades da cidade”.71 O mesmo documento aponta, posteriormente, que o curitibano necessitava de “uma afirmação claramente identificadora com símbolos citadinos (por exemplo: um uso mais total e característico da rua XV), além de um maior enriquecimento de sua vida recreativa e cultural” (Sociedade SERETE de Estudos e Projetos / Jorge Wilheim Arquitetos Associados. Plano Preliminar de Urbanismo de Curitiba. IPPUC, 1965. p.98) 47 a cidade - com todas suas funções – deve estar a serviço do homem e não o homem subordinar-se às imposições urbanas como mero expectador. (...) Em termos de abordagem, vamos encarar a cidade como uma metrópole; em termos humanos, vamos viver a cidade como uma acolhedora vila.72 A cidade deveria ser feita para o homem e não para o automóvel, afinal, já era conhecida a desintegração provocada pelas grandes avenidas nos espaços públicos citadinos, assim como a degradação de valores e referenciais significativos. Assim sendo, o centro deveria ser preservado como um local de encontro das pessoas e não dos automóveis. Palco de manifestações oficiais e informais, refúgio de tipos populares, "passarela" de estudantes e mocinhas adeptas do footing, cenário e testemunha de momentos marcantes da cidade, a rua XV, historicamente, ficou caracterizada como o principal local de atos públicos e das novas práticas de lazer e viver urbano de Curitiba. Uma das vias urbanas preferidas e mais utilizadas pela maioria dos habitantes, que adquiriu, através do tempo, a “alma da cidade”. Qualquer intervenção nela revelaria ousada e seria sentida por toda sociedade curitibana. Abusando da ousadia, uma medida extremamente “arriscada” e pioneira no Brasil efetuaria a transformação mais marcante e simbólica pela qual a Rua XV poderia ter passado. Ela foi preparada, literalmente, para ser "cedida" aos seus “verdadeiros donos: os habitantes da cidade”, conforme discursou Lerner. Com a área central saturada pelo trânsito desde meados da década de 1960, em 1972, o prefeito e urbanista Jaime Lerner planejou áreas no centro tradicional da cidade que seriam bloqueadas ao trânsito e exclusivamente destinadas ao pedestre, a primeira delas, a rua XV de Novembro, foi transformada num imenso “cenário de encontro”73 da Praça Osório à rua Presidente Faria. A pedestrianização do centro da cidade já estava legalmente decidida pelo Plano Diretor, cuja Lei 2828/66, previa “ruas, praças e alamedas de uso preferencial ou 72 LERNER, Jaime. Discurso de posse na Prefeitura de Curitiba. março 1971 73 A este respeito, vale a pena atentar para a seguinte declaração de Jaime Lerner: "Entendemos que o homem tem seu lugar na cidade e que os pontos de encontro são feitos para gente e não podem ser deteriorados pelo automóvel. Não se joga fora os valores tradicionais e culturais de uma cidade, tudo aquilo que levou anos para ser sedimentado, o prédio, a rua tradicional ou o centro da cidade. O cuidado de preparar novos pontos de encontro, proteger e melhorar aqueles que já têm sido consagrados pela população; a devolução do centro da cidade para o pedestre, a manutenção da escala humana em determinadas ruas e a criação de vários pontos de encontro traduzem essa preocupação com o homem." (sem grifos no original) (LERNER, Jaime. A cidade: cenário do encontro. Roteiro do filme produzido em outubro de 1977 apresentado em conferências em Paris e Edinburgh. p.13) 48 exclusivo de pedestres”,74 assim como uma seção de artigos direcionados à “Preservação e revitalização dos setores históricos-tradicionais”.75A partir do fechamento da XV para o trânsito de veículos, o principal logradouro curitibano se transformava na primeira rua do Brasil dedicada exclusivamente aos pedestres.76 Tendência de um urbanismo humanista que começava a surgir na cidade e a projetaria nas décadas seguintes como modelo a ser seguido. Inicialmente, o fechamento da XV enfrentou resistências, críticas e até mesmo protestos, de tal maneira que o seu calçamento precisou ser feito às escondidas e em tempo recorde. Entretanto, após a transformação da rua em um imenso calçadão, Lerner utiliza-se da imprensa para destacar seu grande e ousado feito. O informe "A nova Rua XV vai ficar linda de viver"77destaca uma gama de aspectos positivos proporcionados com a remodelação da XV, elencando a tranqüilidade, as cores, as flores, as árvores e a diversidade, elementos que continuarão sendo utilizados no city-marketing curitibano dos anos vindouros. Além disso, para introjetar a idéia do urbanismo humanista, o anúncio destaca: "Uma Rua XV bem mais humana (...) o ponto de encontro da cidade (...) a rua XV agora é toda sua. Tome conta dela".78 Em questão de semanas e meses a “Rua das Flores” - como foi rebatizada em seu trecho calçado - ganha destaque na mídia local, nacional e até mesmo internacional. Estava iniciado o city-marketing curitibano. A revitalização e reformulação da principal rua curitibana estabeleceu um marco na transformação urbana da cidade. O fechamento da XV aos veículos e a sua formatação em “sala de visita a céu aberto” foi o ponto de partida para a construção de 74 Lei Ordinária 2828/1966 de 10 de agosto de 1966. 75 Lei Ordinária 2828/1966 de 10 de agosto de 1966. Seção V 76 Maria Luiza Marques Dias analisa que em Curitiba, o planejamento urbano propiciou o surgimento de um conjunto significativo de espaços públicos de uso, se não exclusivos ao menos preferencial do pedestre. A mais significativa dessas experiências é o fechamento da Rua XV ou Rua das Flores, principal rua da cidade, a mais central, concentradora do mais diversificado e importante comércio e que no conjunto das ações para implantação do Plano Diretor no início da década de 70, assumiu um importante papel no sentido de redefinir as funções da cidade e de tornar público o conceito de patrimônio urbanístico. (DIAS, Maria Luiza Marques. RUAS E PRAÇAS COMO ESPAÇO DE PATRIMÔNIO – A experiência de Curitiba. In: IX Cidade Revelada-Encontro sobre Patrimônio Cultural, 2006, Itajaí.) 77 A nova Rua XV vai ficar linda de viver. Gazeta do Povo, Curitiba, 20 de maio de 1972. 2º Caderno, p.24 78 Id 49 uma cidade e a produção de um discurso “espetacular” que projetaria, tanto Curitiba quanto os “responsáveis” por sua transformação, ao reconhecimento mundial em práticas de planejamento urbano. Este ato simbólico e inicial da transformação da cidade em acontecimento caracterizou um verdadeiro marco para o urbanismo humanista do IPPUC. Gerando de muita discussão e “estardalhaço”, a pedestrianização da XV contribuiu para expor ao curitibano, ao Brasil e mundo o início da revolução urbana da cidade. A Rua das Flores e toda exposição e publicidade em torno dela, buscou envolver e mobilizar os curitibanos - ou determinadas camadas da população - como forma de sustentar uma imagem que começava a ser criada. Interessante observar alguns trechos da reportagem de várias páginas, publicada já na década de 1970, intitulada "Curitiba. Uma experiência (ousada) que deu certo." que cita elogios e recomendações feitas a Curitiba por urbanistas internacionais e evoca o IPPUC como o "dono do milagre": Uma cidade mais humana, onde o automóvel não recebe atenções prioritárias (...) o automóvel foi retirado do centro da cidade, para que essa área se transforme em território exclusivo de pedestres. Ruas transformam-se em "calçadões", com sorveterias, bares, bancas de revistas e canteiros de flores. E principalmente muitos bancos de jardim. (...) O enfoque humanístico dado a sua administração logo ganhou projeção nacional. (E até internacional: o engenheiro inglês Richard Scurfield publicou, numa revista francesa especializada em urbanismo, um artigo que considera a experiência curitibana em transporte de massa como um exemplo de integração inteligente, com boa dose de imaginação, entre a infra-estrutura de transporte e um plano de desenvolvimento. (...) todo planejamento sério de transporte deve evocar a possibilidade posta em prática por Curitiba: vias urbanas exclusivas para veículos coletivos expressos.) (...) A partir do IPPUC a execução e desenvolvimento das diretrizes para o planejamento urbano curitibano foram efetivamente atribuídas a um orgão específico (...). Na realidade o IPPUC é muito mais do que dizem seus estatutos. É o próprio cérebro da administração municipal de Curitiba. Praticamente nada se faz de concreto sem que seja consultado. Se um incorporador deseja construir um edifício, antes de definir seu projeto, procura o IPPUC. Se os empresários de ônibus querem aumento de tarifa. este órgão é quem dá as faixas de reajustes. Quando o Governo Federal planeja, por exemplo, construir algo com o um centro social, o IPPUC é quem diz onde pode ser localizado. (...) O controle exercido pelo instituto é de tal forma abrangente que lhe permite acompanhar o número de passageiros transportados por ônibus, em casa viagem.79 Fica evidente que o IPPUC adquiria poder através das transformações realizadas e principalmente pela divulgação das mesmas, Curitiba começava a ser "reconhecida 79 Curitiba. Uma experiência (ousada) que deu certo." Revista Interior, v.3, n.16, mar/abr 1977. p.7-9 50 internacionalmente por soluções tão próprias e ao mesmo tempo tão universais"80, afinal, "neste Instituto [IPPUC] nasceram e se desenvolveram os projetos que tornaram a cidade peculiar e renomada”81 4.3 2ª GESTÃO – A CONTINUIDADE Em 1974, Lerner deixou o mandato de prefeito municipal sendo substituído por Saul Raiz, também partidário da ARENA, tendo governado durante o período de 1975 a 1979. Após cumprir seu mandato, Raiz passou novamente o comando da prefeitura pra Jaime Lerner. O mandato de Saul Raiz é identificado por alguns autores como “amargo” e infeliz. “A ele coube o ônus de terminar a implementação das reformas iniciadas por Lerner. Se o risco subjacente à decisão de iniciá-las foi assumido por Jaime Lerner, o desgaste político implícito na execução dos dolorosos ajustes necessários coube a Raiz”82 A década de 197083 é completamente marcada por um período de continuidade partidária e ideológica no executivo municipal de Curitiba, época em que a tecnocracia e a imperatividade do planejamento urbano, seguindo as linhas definidas pelo IPPUC, atuava em obras, mudanças e transformações do espaço curitibano. Nesta segunda gestão de Lerner a cidade ganhou várias praças e seu maior parque urbano, o Parque Iguaçu, que amenizou as freqüentes inundações da zona Sul da Cidade. O sistema de transporte foi aperfeiçoado com a RIT (Rede Integrada de 80 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, fevereiro de 1990. (Depoimentos 2). p.VII 81 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, dezembro de 1990. (Depoimentos 5). p.VII OLIVEIRA, D. A política do planejamento urbano: o caso de Curitiba. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Setor de Ciências Sociais, Universidade Federal de Campinas, Campinas, 1995. p.176 82 83 “É importante lembrar que o processo de valorização da cidade ocorre porque o arquiteto Jaime Lerner, responsável pela criação e estruturação do IPPUC em 1965, torna-se seu presidente (1968-1969) e, em 1971, prefeito de Curitiba. Governa-a até 1974, sendo sucedido por Saul Raiz (1975 a 1979), retornando à prefeitura de 1979 a 1983. São três gestões da ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido alinhado com a ditadura militar, antecedidas de cinco anos de lernismo no IPPUC.” A ARQUITETURA DO DESEJO P.60 51 Transporte) que passou a classificar, hierarquizar e integrar o transporte coletivo da cidade.84 O atendimento e beneficiamento das elites empresariais, assim como seu vínculo com a prefeitura foi freqüente desde a instalação da CIC e se ampliou no segundo mandato Lerner. Oliveira (1995) destaca a associação entre a reforma urbana conduzida por Jaime Lerner e o êxito econômico das atividades privadas. Parece haver pouca dúvida que as iniciativas do planejamento urbano foram extraordinariamente compatíveis com os propósitos da acumulação capitalista. Praticamente todos os setores econômicos foram atendidos, se bem que em diferentes graus, pela reforma urbana.85 A sobrevivência e a implantação do Plano Diretor de Curitiba foram garantidos pela continuidade do mesmo grupo político nas esferas governamentais, tanto na Prefeitura de Curitiba como também no executivo estadual. Durante as gestões Lerner e Raiz o IPPUC adquiriu liderança, e em alguns casos, a hegemonia perante as decisões urbanas de Curitiba. Tal continuidade dessa elite política e econômica no executivo e no planejamento urbano da cidade, costumeiramente é apontada por muitos como a grande diferença de Curitiba em relação ao restante do país. Afinal, a manutenção de uma cúpula de capitalistas tecnocratas nas rédeas do poder municipal proporcionou a execução das diretrizes do planejamento, ao contrário de outras localidades onde o Plano Diretor foi adiado, engavetado ou realizado parcialmente. 4. 4 3ª GESTÃO – VERDEJANTE CURITIBA PÓS-MODERNA. Em 1988 Jaime Lerner tornou-se novamente prefeito de Curitiba, pela primeira vez eleito pelo voto direto após intensiva propaganda e corridas políticas. Sua candidatura obteve registro no TRE apenas 15 dias antes do pleito e a campanha eleitoral foi desenvolvida em menos de duas semanas. Mesmo assim, conseguiu ser 84 Os eixos estruturais estariam destinados aos expressos, agora articulados, que ligariam e percorreriam terminais de integração dos quais sairiam outras modalidades de ônibus: inter-bairros (radiais) e alimentadores. Para o centro da cidade foi implementada uma linha especial para microônibus, os circulares. O princípio da RIT na teoria e no discurso revela a possibilidade do usuário fazer várias viagens sem pagar nova passagem, entretanto, tal sistema até hoje não está totalmente integrado e sua hierarquização prejudica alguns usuários para beneficiar outros. 85 OLIVEIRA, D. A política do planejamento urbano: o caso de Curitiba. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Setor de Ciências Sociais, Universidade Federal de Campinas, Campinas, 1995. p.166 52 eleito com expressiva votação, vencendo os adversários com grande margem de diferença. Durante esta gestão, aproveitando do “modismo” da Ecologia e sustentabilidade, tentou promover a multiplicação das áreas verdes da cidade, ao menos na teoria ou de “fachada”. Curitiba passava a ser divulgada e notabilizada a partir de então como "Capital Ecológica". Marcos urbanos foram construídos, parques implementados, “maquiagens urbanas” realizadas. A cidade recebeu um tratamento estético para se tornar atrativa a turistas e investidores. O modernismo das gestões anteriores dá lugar ao pós-modernismo86 expresso em formas espetaculares de vidro, arame, acrílico e materiais inovadores. Rapidez nas ações e realizações, transformações urbanas inesperadas e de grande impacto visual caracterizaram esse novo governo. Novos “produtos urbanos” foram lançados como a Rua 24 horas, o ônibus Linha Direta (ligeirinho), as estações-tubo. Estes e outros elementos de aspectos futurísticos despontavam na “ex-provinciana” Curitiba e recebiam destaque na imprensa local e nacional87, revelando nuances de uma cidade que se transformava. Os parques também adquiriram grande evidência na terceira administração Lerner, servindo funcionalmente para conter enchentes, proteger as nascentes dos rios e evitar ocupação urbana em áreas de risco, também trouxeram uma nova imagem para a cidade que estava sendo preparada para ser identificada e divulgada através de imagens verdejantes, naturais e ecológicas. O próprio logotipo da prefeitura municipal consistia uma folha verde sobreposta ao nome “Curitiba”. Apoiando-se novamente na idéia de melhoria da qualidade de vida através da preservação de áreas verdes, Lerner dirigiu sua terceira administração com o lema de Curitiba como “Capital Ecológica”, promovendo obras, como a melhoria do Parque Regional do Iguaçu e a implantação do Parque das Pedreiras, do Jardim Botânico e do Bosque Zaninelli, situando neste último a UNIVERSIDADE LIVRE DO MEIO AMBIENTE – ULMA. Nos anos 90, com uma população de cerca de 1.400.000 habitantes, a capital passou a conviver 86 “a terceira administração de Jaime Lerner (1988/1992) opta por uma substancial mudança de enfoque que, relegando a segundo plano os discursos e as práticas afetas ao planejamento urbano, enfatiza as realizações de ordem estética e uma política de (...)Além do esgotamento do plano diretor local, fatores internos ao campo do planejamento urbano à nível mundial contribuíram para a reorientação que se verificou na terceira gestão Lerner. Refiro-me ao conjunto de transformações ocorridas a partir de 1973 quando, no interior de um vasto movimento de crítica à arquitetura e ao urbanismo modernistas e seus herdeiros, começou a se falar da necessidade de sua substituição por uma concepção pós-moderna.” (OLIVEIRA, 1995, pp.51-52) 53 diariamente com as questões ambientais, ao mesmo tempo em que via nascer seus maiores símbolos de city marketing.88 Nesta perspectiva de planejamento, preocupação com meio ambiente e preservação dos recursos naturais, muitos parques são instalados, especialmente ao longo dos cursos d’água de maior porte e contendo equipamentos para proporcionar lazer, esporte e recreação, e assim, qualidade de vida e cenários de encontros para a população. A arborização é ampliada e o índice de áreas verdes por habitante aumenta expressivamente. A “Compra Lixo”89, o “Cambio Verde”90, o “Lixo que não é Lixo”91 e o PIA Ambiental (Programa da Integração da Infância e Adolescência) foram programas92 carismáticos que tiveram boa repercussão na mídia, principalmente por atender a população de baixa-renda e envolver o discurso da ecologia, qualidade de vida e sustentabilidade urbana. Outros investimentos e incentivos foram realizados na área de educação ambiental e conscientização da população com a limpeza urbana. Durante a terceira gestão de Jaime Lerner (...) incorporando o conceito de desenvolvimento sustentado, passou a conduzir a política ambiental de Curitiba dentro dos pressupostos da moderna ecologia urbana e do princípio que a ação local deve ser inspirada por uma preocupação global. O destaque dado à questão do lixo e de sua reciclagem, associado aos programas de educação ambiental, permite perceber a dimensão atribuída à participação comunitária no desenvolvimento de ações de regeneração ambiental, bem como da inserção dessas ações em programas mais amplos, que envolvem a saúde pública, as condições de saneamento da cidade, a higiene dos indivíduos e o desenvolvimento de atividades de reciclagem do lixo teve sua eficiência reconhecida internacionalmente; com ele a administração municipal não apenas economizava nos gastos com a coleta e seleção do lixo mas, principalmente, 88 CASTELNOU NETO, A. M. N. Ecotopias urbanas: imagem e consumo dos parques curitibanos. 2005. Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento) - Universidade Federal do Paraná. 89 Troca de 7,5 K de lixo por vale transporte 90 Troca de lixo por produtos hortifrutigranjeiros, cujo excedente estava ocasionando prejuízos aos produtores do cinturão verde curitibano devido ao desequilíbrio da oferta-demanda. 91 A reciclagem do lixo encontrou neste programa uma forte aliada: a conscientização ambiental. Lançado em 1989 e amplamente divulgado, contou com imensa adesão e recepção dos moradores. Limpava-se o meio urbano, colaborando com o meio ambiente local e com melhoria da qualidade de vida dos curitibanos. 92 Tais programas foram realizados em conjunto com Associações de Moradores, atendendo regiões periféricas da cidade. Foi uma ótima jogada que procurava se livrar Lerner do estigma de prefeito que só se preocupava com o centro e elites da cidade, ao mesmo tempo em que se tratava de problemas com ambientais da cidade. 54 conseguiu fazer com que amplos setores da população se sentissem participantes de um projeto comum de cidade.93 Nos anos 90, a cidade conviveu com novo processo de valorização de áreas históricas. Também utilizando o discurso de proporcionar qualidade de vida, além das áreas verdes, Lerner procurou atuar e explorar iniciativas de lazer e cultura. Dentre os vários equipamentos culturais implantados destaca-se o Conservatório de MPB de Curitiba e a Ópera do Arame, ambos inaugurados em 1992. No mesmo ano se inicia a primeira versão do Festival de Teatro de Curitiba. Parques, bosques temáticos foram criados no intuito de valorizar a história, cultura e identidade de etnias94 diversas, da mesma forma que revelava, aos de fora, uma Curitiba cosmopolita, multicultural e européia. A administração Lerner, finalizada em 1993, é interpretada por MEURS95 como uma gestão “terapêutica”, que realizou uma “acupuntura urbana” geradora de símbolos que representaram políticas para melhoria da cidade. Para o autor: (...) todo o trabalho em favor do verde é personificado pela estufa no Jardim Botânico. Da mesma maneira, a Ópera de Arame simboliza o clima cultural na cidade e a Rua 24 Horas pode ser associada à dinâmica de Curitiba. A Universidade Livre do Meio Ambiente funciona como um logotipo da coleta seletiva do lixo e reciclagem. O ligeirinho tornou-se sinônimo de transporte moderno. Com esses símbolos, que aparecem em cartões-postais e selos e são freqüentemente reproduzidos pela mídia, torna-se claro como o melhoramento físico da cidade ganhou dimensão e importância cultural Para Oliveira (1995), Curitiba conseguiu bons resultados “do ponto de vista dos objetivos da espetacularização do urbano”.96 A cidade teria renovado “seu mito de vanguarda urbanística”97 reforçando a vocação e atividade turística e “conferiu à 93 TRINDADE, E. M. de C.; SANTOS, A. C. de Al.; OLIVEIRA, D.; ANDREAZZA, M. L. Cidade, homem e natureza: uma história das políticas ambientais de Curitiba. Curitiba: Unilivre, 1998. P.120. 94 “A política de defesa e valorização do patrimônio histórico e promoção de atividades culturais estava bastante vinculada aos aspectos étnicos, remetendo freqüentemente à memória e cultura imigrante. Imigrantes dos quais "se orginou a elite dirigente do período" (OLIVEIRA, 2000, p.52) 95 CURITIBA, UMA CAPITAL ECOLÓGICA NO BRASIL © Paul Meurs, Urban Fabric Schiedam. Título original: ‘Curitiba, een ecologische metropool in Brazilië’ publicado em: De Architect 1994-2, 5159. 96 OLIVEIRA, D. A política do planejamento urbano: o caso de Curitiba. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Setor de Ciências Sociais, Universidade Federal de Campinas, Campinas, 1995. p.52 97 Id 55 administração pública uma imagem de eficiência e agilidade administrativa”98 projetando o prefeito e a cidade nacionalmente e internacionalmente. O espetáculo aparentemente agradou aos olhares externos, a orquestra obteve condições para ser executada, destacando tanto o maestro como a obra. E ele não parou, continuou durante toda década de 1990 e adentrou o novo milênio. A reconquista do espaço político liderado Lerner prosseguiu nas três eleições subseqüentes: com Rafael Greca eleito em 1993 e Cássio Taniguchi (ex- presidente do IPPUC) que assumiu a prefeitura em 1997 e se reelegeu em 2001. Em 1994, Jaime Lerner foi eleito Governador do Paraná permanecendo no poder até 2002 após reeleição.Verifica-se que em três décadas de governos municipais, houve somente um período (1983 a 1988) de ruptura com o chamado "lernismo",99 que permaneceu no poder a partir de 1970. 4.5 O CITY MARKETING Um dos principais resultados desse discurso que formatou uma cidade ideal partindo da transformação realizada por seu planejamento foi sem dúvida alguma o city marketing100. Para Sanchez (2003), como forma de reforçar, divulgar e manter “vivos” o discurso e a imagem, estratégias de marketing foram utilizadas em Curitiba. O “city marketing constitui-se na orientação da política urbana à criação ou ao atendimento das necessidades do consumidor, seja este empresário, turista ou o próprio cidadão”101 Assim, não foi por um acaso que a imagem de cidade começou a se impor na escala nacional e até internacional a partir de 1970. Ocorreu uma articulação entre 98 Id. 99 GARCIA, F. E. S. Cidade espetáculo: política, planejamento e city marketing. Curitiba: Palavra, 1997 100 Conforme Sanchez, há um “complexo mercado no qual as imagens são construídas e postas em circulação em variadas escalas (local, nacional e internacional), com mútuas influências de diversa ordem. (...) A mídia, em sua relação com os governos e coalizões dominantes, é um ator importante no cenário cultural e político atual nas cidades. Tem um papel importante nos processos que acompanham a renovação urbana, que interage e interfere no curso dos acontecimentos através de imagens publicitárias, mobilizações e campanhas sociais. Exerce um verdadeiro fascínio sobre a sociedade civil e política, e tem força de pressão na elaboração de imagens coletivas que possam ser absorvidas nas representações de indivíduos e grupos. Tem também poder para construir ou destruir a identidade de atores individuais ou coletivos. (SANCHEZ, F. E. G. A reinvenção das cidades na virada de século: agentes, estratégias e escalas de ação política. Rev. Sociol. Polit. , Curitiba, n. 16, 2001 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010444782001000100004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 Set 2008) 101 SANCHEZ, F. E. G (1999, p. 115) 56 política, planejamento urbano, mídia e cultura para a edificação de uma imagem estratégica e modelar para a cidade. Em Curitiba, portanto, houve “planejamento estratégico” com vistas à produção de uma “imagem da cidade” vendável no mercado globalizado102 A cidade, enquanto uma mercadoria especial, necessita estratégias especiais para promoção, torna-se fundamental a construção de representações103, imagens-síntese e discursos referentes à cidade, “encontrando na mídia e nas políticas de city marketing importantes instrumentos de difusão e afirmação”104. Através dessas estratégias, Curitiba tornou-se divulgável e comercializável. Em nível nacional, a Secretaria Municipal da Comunicação Social (2005) listou 10 das principais veiculações relacionadas a questões de qualidade de vida, índice de desenvolvimento humano e índice para novos investimentos e negócios. Comportam, geralmente, análises ou resultados de pesquisas realizadas por renomadas entidades e publicadas nos principais meios de comunicação brasileiros. Dentre as entidades destacam-se: Banco Mundial, Organização das Nações Unidas - ONU, Revista América Economia - Dow Jones e Moody´s Investores Service - a mais conceituada agência de classificação financeira do mundo. (...) Quanto `a veiculação internacional, segundo materiais registrados na Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura Municipal de Curitiba, desde 1974 até o ano de 2000, foram registrados pelo menos 140 reportagens, publicadas em toda América Latina, América do Norte, Europa e, até mesmo, na Ásia e em alguns países do Oriente Médio, que se referem ao planejamento urbano, ao sistema de transporte coletivo, às questões ambientais e à educação em Curitiba105 102 SOUZA, Nelson Rosário de. Planejamento urbano em Curitiba: saber técnico, classificação dos citadinos e partilha da cidade. Rev. Sociol. Polit. , Curitiba, n. 16, p. 107-122, jun. 2001. p.108 103 “As representações são também carregadas de intencionalidade: visam à produção de efeitos na realidade social. Assim, a construção de imagens opera necessariamente com sínteses, seletivas e parciais, que dão relevância a alguns aspectos e omitem outros, respondendo ao universo especial de interesses dos sujeitos que a constroem e aos objetivos que se pretendem,” (SANCHEZ, F. E. G. A reinvenção das cidades na virada de século: agentes, estratégias e escalas de ação política. Rev. Sociol. Polit. , Curitiba, n. 16, 2001 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010444782001000100004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 Set 2008) 104 SANCHEZ, F. E. G. A reinvenção das cidades na virada de século: agentes, estratégias e escalas de ação política. Rev. Sociol. Polit., Curitiba, n.16, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010444782001000100004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 Set 2008) 105 BALECHE, R. C. A influência de intervenções urbanísticas na atividade turística da cidade de Curitiba. 2006. Dissertação (Mestrado em Gestão Urbana) - Pontifícia Universidade Católica do Paraná. pp.66-67 57 Além da intensa veiculação de notícias e matérias elogiosas na imprensa106, premiações, menções honrosas, participação e sediação de eventos internacionais também contribuíram para colocar em evidência a cidade de Curitiba. Em 1992, a cidade foi escolhida para sediar o Fórum Mundial das Cidades, encontro preparatório para a ECO 92 - Conferencia Mundial do Meio Ambiente. Nos anos seguintes Curitiba continuou se destacando em eventos como Dia Mundial do Habitat, Fórum Regional Sustentável da América Latina e Caribe, Fórum Regional da Sociedade de Informação de Cidades e Governos Locais da América do Sul, Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 8) e Reunião das Partes do Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança (MOP 3). Houve processo de construção e consolidação da imagem de Curitiba, a qual se tornou homogênea, dominante e compartilhada entre seus habitantes e aos de fora "bombardeados" intensamente por uma mídia acrítica e tendenciosa, transmissora de imagens-sínteses de uma cidade criativa, modelar, moderna, européia e ecológica. Processo este que continua atuante e programado, conforme é possível verificar através do diagrama e excerto abaixo, extraídos de um relatório de 2008 do IPPUC: I Marketing dos Ativos Locais Comparativas. Ampliar a visibilidade de fatores competitivos, comparativamente a localidades de porte ou vocação semelhante, em itens tais como: potencial de consumo, cuidado ecológico, qualidade da mão-de-obra, etnias peculiares, qualidade das instituições, localização estratégica, soluções urbanas inovadoras, qualidade de vida, ambiente para negócios, “Cidade-laboratório”, ensino de qualidade, ambiente tecnológico inovador, seriedade de instituições, cultura de planejamento e população ordeira. 106 Para exemplificar apenas algumas: "Burle Max elogia o trabalho urbanístico que é feito aqui". Gazeta do Povo. 03 de outubro de 1974 ; "Urbanista americano diz que Curitiba é exemplo no mundo". Diário do Paraná. 14 de abril de 1974; "Curitiba: um exemplo para o mundo". O Estado do Paraná. 28 de abril de 1981; "Soluções de Curitiba conquistam suíços". Jornal do Estado. 10 de julho de 2000, (relatando a exposição "Curitiba, la ville que tout le monde désire" (Curitiba, a cidade que todo mundo deseja) durante o Fórum de Desenvolvimento Social organizado pela ONU reunindo cerca de 180 países.);"Holanda destaca Curitiba". O Estado do Paraná. 21 de agosto de 1980; "Curitiba é exemplo para cidades americanas". Curitiba Metrópole. 9 a 15 de maio de 2000. (Noticiando o modelo de transporte curitibano está sendo proposto para solucionar problemas de transito em Houston.);"Curitiba é destacada como exemplo de urbanização". Gazeta do Povo. 16 de abril de 1995; "Capital inspira técnicos estrangeiros". O Estado do Paraná. 28 de Junho de 1998. 58 Como pode ser observado no diagrama acima, a partir de associações já formadas na mente das pessoas derivariam certas vocações a serem potencializadas. Na medida em que essa vocação é tratada de forma específica e adensada, cria-se um “circulo virtuoso” de aprofundamento nas relações entre agentes, fazendo com que se estabeleça um “cluster” de desenvolvimento. Neste ambiente é potencializado um processo consciente e de geração de sinergias, baseado em visão local compartilhada de futuro, mediante desenvolvimento de competências específicas e relações de confiança e cooperação. Uma vez estabelecido este processo, as “vantagens competitivas” tendem a aprofundar-se, reforçando o aspecto de sustentabilidade do modelo. Em Curitiba especificamente, encontramos diversos “ativos intangíveis” capazes de agregar valor àatividade econômica, vocações latentes e competências para serem reconhecidos no mercado nacional. (sem grifos no original)107 Pode-se perceber, dessa forma, que o city marketing se auto-alimenta ou sustenta seu modelo a partir desses itens sintetizados já amplamente divulgados na mídia e incutidos no imaginário da população, ou seja, de questões e “associações já formadas na mente das pessoas” (etnias [cidade européia], ecologia [capital ecológica] e qualidade de vida [cidade humana]), para a partir deles constituir e veicular novas “vocações” da cidade, as quais brevemente serão potencializadas e “reconhecidas no mercado nacional” e quem sabe internacional. Afinal, espera-se “confiança e cooperação” de uma população já “alienada” e totalmente envolvida na mítica dessa cidade espetacular e planificadora, que planeja até a “visão local compartilhada de futuro”. 107 IPPUC – Planos Setoriais. Relatório 2008. Curitiba, 2008. p.120 59 Comprovadamente o city-marketing se tornou um círculo vicioso (ou virtuoso, para o IPPUC). À medida que se divulgava a cidade, ela se tornava cada mais espetacular e reconhecida, e dessa forma, mais apta e interessante de ser divulgada. Como resultado de uma política que tinha (e ainda tem) a intenção de (re)construir a imagem da cidade aos olhares externos e reafirmá-la - junto com suas transformações aos seus cidadãos, o city marketing, além de se auto-gerir, resultou variados fatos e problemas ao divulgar uma imagem parcial, acrítica e imaculada de Curitiba Imagem esta que conseguiu “convencer” a população e até mesmo os veículos de imprensa. A ressonância do discurso dessa cidade “transformada” e das imagens floreadas e pontuais sobre Curitiba ocorreram expressivamente: Existe, sim, uma grande transformação. Porque você veja uma coisa, a parte da urbanização, como é que se diz, ecológica, está muito mais bem cuidada, hoje, isso agrada a gente.Curitiba sempre foi uma cidade muito bonita, na parte de flores, de jardins, de tudo, e eles expandiram mais isso, houve maior expansão.108 Não querendo puxar a brasa para a nossa sardinha -, mas é realmente um transporte organizado. Tive oportunidade ainda esses dias de ler que se encontra em Curitiba, se encontrava até a semana passada em Curitiba, cerca de quarenta jornalistas de sete países europeus que vieram ver como funciona o transporte de Curitiba e uma série de outros desenvolvimentos, que passaram de nossas fronteiras; do desenvolvimento da cidade de Curitiba em termos de organização; e, termos de cidade ecológica; uma série de coisas.109 “Mais do que nunca, a Curitiba de hoje representa, para os seus habitantes, uma noção de progresso orientada pela positividade da técnica no ambiente da cidade incluindo-se aí o planejamento urbano.”110 A partir de uma cidade que transformava, que se mostrava mais bela, que escondia os problemas longe das vistas da classe mais privilegiada, politizada e formadora de opinião, as mudanças em Curitiba tornavam motivo de orgulho e aprovação, especialmente para a classe-média, afinal o planejamento que “transformou” a cidade e “ajudou para que o resto do Brasil abrisse os 108 SANTOS, A. C. A. Memórias e cidade : depoimentos e transformação urbana de Curitiba. 19301990. 1995. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Paraná, volume anexo. p.97 109 110 Ibid. p.71 SANTOS, A. C. de A. Memórias e cidade: depoimentos e transformação urbana de Curitiba, 19301990. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1997. p.134 60 olhos para o que é Curitiba (...) O fato é que nós temos, hoje, uma cidade de dois milhões de habitantes (sic) que está sendo olhada pelo mundo inteiro."111 Um dos principais reflexos do city marketing foi a homogeneização da imagem de Curitiba. Uma vez amplamente divulgada e legitimada a imagem modelar e planejada da cidade, a consonância e ressonância desse discurso ocorrem de forma mais ampla e vigorosa que as dissonâncias ou contradições impostas a ele. Embora haja críticos, críticas e ironias a respeito dessa imagem de Curitiba, estes ainda parecem estar no underground, onde acima, está uma população iludida e crédula com a imagem que lhe é vendida. Jamil Senge, cronista do jornal mais importante da cidade, criticou a imagem construída da “ingênua” “redutiva” e “falsa” cidade modelo: Assim como é uma bobagem reduzir a cidade de São Paulo ao caos e à inviabilidade, é uma bobagem ainda maior dizer que Curitiba é uma cidade tranqüila e planejada. (...) Uma cidade não se faz bela, muito menos apaixonante, por causa da engenhosidade de seus administradores. Ela não pode excluir os sonhos dos seus moradores, suas aspirações, seus projetos de vida, sob pena de desprezar o que eles têm de mais particular, sua identidade. (...) Hoje a identidade de Curitiba parece reduzida aos manequins que o governo insiste em ver no lugar dos seus habitantes. (...) Aqui quase tudo parece se comprazer em virar cartão postal. É essa beleza postiça, que decora tanto as praças como as salas da classe média, que faz a fama de Curitiba no resto do Brasil. É ela que atrai escritores, jornalistas, empresários. (...) Se fosse comparar Curitiba a uma mulher, diria que ela cuida tanto da aparência que dificilmente nossos olhos conseguem enxergar seu corpo. A atração que ela exerce sobre nós, mas principalmente sobre os estrangeiros, é a mesma que essas menininhas de oito anos vestidas de Xuxa, Angélica ou Carla Perez exercem sobre seus pais. Daí sua vulgaridade infantil e ostentatória. Que distância entre esse simulacro de mulher e o corpo desejável da mulher madura!112. Para Sanchez113, aqui houve o esforço político em “vender” o sucesso de cidade e promover a reinvenção dos lugares, os quais, estavam diretamente associados aos arranjos particulares e relações de interesses. Os governos possuíam necessidade de proporcionar “visibilidade internacional a seus projetos e ações urbanas, visando a um trânsito notável junto às agências multilaterais – que, por sua vez, garantirão futuros 111 112 113 Ibid. p.75 “A beleza postiça de Curitiba. Gazeta do Povo. 25 de julho de 1998. p.8 SANCHEZ, F. E. G. A reinvenção das cidades na virada de século: agentes, estratégias e escalas de ação política. Rev.Sociol.Polit., Curitiba, n.16, 2001. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010444782001000100004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 Set 2008. 61 financiamentos para novos projetos.” No contexto ao qual se incluía Curitiba a partir da década de 1970, “a construção de imagens-modelo e a conquista de expressão no mercado de cidades” era fundamental. Tais imagens, além da mídia, conquistaram também a população, que apesar de criticar os efeitos da publicidade feita em torno da cidade, absorvem o discurso e as imagens que Curitiba vende ao mundo: “Curitiba é uma cidade peculiar. Vários europeus que por ela passam afirmam que ela tem uma atmosfera diferente da geralmente encontrada pela América do Sul. Por ter sido uma cidade planejada, por não haverem favelas no centro da cidade, pelo sistema público de transporte, pelas grandes áreas verdes e paisagísticas. Muitos brasileiros antipatizam com Curitiba, antipatizam mais ainda com os curitibanos, com sua fama de carrancudos, pretensiosos e provincianos. (....) Pena que fizeram muita propaganda da cidade (...) e Curitiba cresceu de forma descontrolada nos últimos dez anos, gerando aumento da violência e do desemprego”114 No próximo capítulo, será apresentada a forma como essa imagem lapidada e divulgada para o “espetáculo” conseguiu ecoar de várias formas e sob diferentes aspectos, gerando, entretanto, resultados múltiplos e adversos. 114 Depoimento retirado do blog: http://pirandonabatata.blogspot.com/2006_04_01_archive.html Acessado em 10/07/2007 62 5. A IMAGEM LAPIDADA PARA O ESPETÁCULO Conforme já foi explanado, o IPPUC garantiu e conduziu a execução do Plano Diretor com relativo êxito e muita propaganda em cima de suas ações, o que proporcionou sua consolidação e reconhecimento como órgão de referência e relevância em planejamento urbano. Entretanto, mais que mudanças físicas, o Instituto de Planejamento e a Administração da cidade realizou mudanças “imaginárias”, utilizando a publicidade para divulgar discursos e imagens devidamente lapidadas e construídas de uma cidade ideal – e irreal ou no máximo restrita. Dessa forma seria revelado quão benéfico e revolucionário foi o planejamento urbano. De urbanismo humano, cidade ecológica, capital com qualidade de vida, cidade modelo, capital social... Os apelidos pomposos e a divulgação de belas imagens sobre Curitiba tornaram-se uma constante a partir década de 1970. O Plano Diretor serviu como o pontapé inicial para a transformação de uma cidade “sem identidade” – assim considerada pelo IPPUC – em uma metrópole européia, espetacular e modelar. Entretanto, não se pode esquecer que havia uma outra cidade detrás dessa Curitiba “produzida” e revelada através de um discurso formulado e de belas imagens urbanas isoladas e satisfatórias. 5.1 HUMANA, MODERNA, CRIATIVA E ESPETACULAR "Grande comunidade urbana", cenário de encontro, "cidade cada vez mais humana", "cidade feita para o homem"... Foram diversos os símbolos (modernos) e valores (humanos) utilizados para produzir e reproduzir uma linguagem que sintetizasse Curitiba e as referências de sua paisagem recentemente e tendenciosamente “espetacularizada” pelos seus “criativos” planejadores/executores. Logo após a implantação do Plano Diretor de Urbanismo e até mesmo recuando às discussões na época de sua formulação115, já é possível identificar um discurso que pregava um planejamento urbano que se preocupava com o homem. Assim, a integração das funções da cidade, a preservação de seus valores históricos, culturais e sentimentais deveriam ser realizadas pensando no cidadão e em seu bem estar. 115 “Uma administração dinâmica e humanista (Ivo Arzua) fez de Curitiba uma cidade em que as pessoas, e não as máquinas, têm prioridade." (Manchete Especial. Paraná 67 o futuro é agora. p.105) 63 Para manter uma cidade com dimensões humanas, "a idéia genial de não intervir demais, de não fazer grandes cirurgias urbanas"116 foi proclamada, mesmo que na prática alterações “destrutivas” fossem realizadas, especialmente para construções das estruturais.117 Mas para o IPPUC, “o cérebro ao lado do prefeito"118, também era necessário a modernização de Curitiba, transformar a pacata cidade de antes em uma moderna e cosmopolita metrópole. Os princípios norteadores do processo de planejamento urbano eram resumidos em cinco qualidades subjetivas: “escala”, “paisagem”, “animação”, “continuidade” e “memória”, tendo a rua tradicional como principal elemento urbano.119 Aqui, “o planejamento urbano buscou conciliar as exigências do automóvel às aspirações, necessidades e perspectivas humanas da cidade. (...) passou-se a devolver ao progresso o seu conteúdo humano”120 Reciclar formas, proporcionar espaços de recreação e criar pontos de encontros era uma das estratégias para realizar a transformação cultural e humana em Curitiba. Desejava-se que os habitantes pudessem integrar e usufruir dessa cidade que modificava, para posteriormente “compactuarem” com o discurso e mudanças implementadas. Mais do que dar determinada forma à malha urbana, esses arquitetos de inspiração humanista desejavam criar uma nova postura do cidadão frente à sua cidade - ambição típica dos modernistas, diga-se de passagem. Numa palavra, o que se ambicionava era a mudança da mentalidade do indivíduo frente a sua cidade.121 Como se pode notar, a inspiração humanista do urbanismo curitibano propunha a integração do homem à cidade, promovendo no cidadão o orgulho de sua urbe, 116 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, dezembro de 1990. (Depoimentos 5). p.58 117 A estrutural L-O, projetada para cortar uma das regiões mais significativas da cidade, arrasou exemplares de nosso patrimônio cultural ao ser aberta no meio da região mais antiga da cidade, entre a Praça Tiradentes e o Setor Histórico. "(...) nós, Prefeitura, estragamos todo o centro histórico da cidade, com aquela ligação da Augusto Stellfeld. Foi meio criminoso aquilo, feito ali, mas também decorreu da falta de vivência. Poderia até ter havido outro jeito, mas o entusiasmo era tanto em fazer alguma coisa de verdade (...) jogamos fora todo o patrimônio cultural e arquitetônico da área e cindimos a cidade” IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, junho de 1990. (Depoimentos 3). p.6 118 Ib Id. p.7 119 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, fevereiro de 1990. (Depoimentos 2). p.13 120 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, novembro de 1989. (Depoimentos 1). p.25 121 OLIVEIRA, D. A política do planejamento urbano: o caso de Curitiba. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Setor de Ciências Sociais, Universidade Federal de Campinas, Campinas, 1995. P.59 64 integrando-os no projeto de revitalização dos valores tradicionais da cidade, almejando "fazer de cada curitibano um urbanista" na construção de uma cidade humana preocupada com a cultura, lazer, qualidade de vida e preservação do patrimônio cultural. A integração do homem e sua participação nessa construção de uma cidade humana é compreendido pelos urbanistas curitibanos como aspecto relevante para o planejamento “humanista”, entretanto, tal participação ocorreu somente no discurso122. Na prática123 a população figurava como “bestializada”124ante uma cidade espetacular: para Lerner “A cidade tem que ser um acontecimento.” devendo ser atrativa e proporcionar a ação de seus habitantes, afinal “gente é a atração da cidade. O homem é o ator e expectador desse espetáculo diário que é a cidade.”125 Entendemos que o homem tem seu lugar na cidade e que os pontos de encontro são feitos para gente e não podem ser deteriorados pelo automóvel. Não se joga fora os valores tradicionais e culturais de uma cidade, tudo aquilo que levou anos para ser sedimentado, o prédio, a rua tradicional ou o centro da cidade. O cuidado de preparar novos pontos de encontro, proteger e melhorar aqueles que já têm sido consagrados pela população; a devolução do centro da cidade para o pedestre, a manutenção da escala humana em determinadas ruas e a criação de vários pontos de encontro traduzem essa preocupação com o homem.126 No discurso, realmente se expressa a idéia de uma cidade voltada ao homem, ao curitibano, entretanto, Curitiba se tornou uma cidade mais voltada para fora que para dentro. Muitos de seus habitantes desconhecem ou não utilizam seus espaços humanos e espetaculares, afinal, muito deles foram impostos e criados para transformar a cidade e não atender as necessidades e serem acessíveis a todos os cidadãos. Para Sanchez, a tal cidade humana encobre tendências dominantes da política urbana local de preservação do bem estar e da qualidade de vida de segmentos médios da 122 "O processo de planejamento urbano da cidade foi, desde a formação do IPPUC, muito democrático". IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, agosto de 1990. (Depoimentos 4). p.32 123 Com relação ao ato de apresentar o Plano Serete à população durante os seminários “Curitiba do Amanhã” Fanchette Rischbieter revela: "Eram discussões absolutamente surrealistas, porque você faz uma proposta do Plano Diretor e faz discussão com o povo do Bacacheri que não está entendendo nada. Mas ficou muito bonito, porque aí teve o apoio da população (...) Foi feito o Plano Diretor, entregue e o IPPUC foi encarregado de desenvolvê-lo, já que era um esboço apenas. IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, dezembro de 1990. (Depoimentos 5). p.5 124 CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987 125 LERNER, J. A cidade: cenário do encontro. Roteiro do filme produzido em outubro de 1977, apresentado em conferências em Paris e Edinburgh. p.6 126 Ibid. p.13 65 sociedade, enquanto amplas parcelas da população são excluídas dos novos circuitos de apropriação e consumo (...) para amplas parcelas da população, o acesso aos benefícios da modernização é possível apenas no plano imaginário.127 Curitiba começou a despontar, juntamente com seus “transformadores”, como modelo de idéias criativas e eficientes. Após passar por um planejamento que pregava ser inovador e renovador porque humanista, a cidade tornava-se palco de invenções e soluções, da rua mais humana e do melhor sistema de transporte do país. Entretanto, até onde ia essa criatividade geradora de tamanhas invenções? Se até mesmo dentro do IPPUC havia opiniões discordantes: Idéia original inteiramente não há; nós aproveitamos aqui, com as devidas adaptações, muita coisa de fora, principalmente da Europa. (...) Era experimentar, para ver no que dava, em termos de reação popular. Tendo no IPPUC um armazém de idéias, de planos de outros lugares.128 A utilização da arquitetura pós-moderna para realização de espetáculos urbanos revelou-se importante para garantir maior visibilidade à cidade e evidenciar suas mudanças. A Curitiba humana tornava-se cada vez mais moderna, surpreendendo a população e os visitantes com obras construídas em tempo recorde, realizadas com materiais não usuais e tecnologias inovadoras: Ópera de Arame, Jd Botânico, Rua 24h, estações tubo, ligeirinho. "Do ponto de vista dos objetivos da espetacularização do urbano os resultados são animadores. A cidade reatualizou seu mito de vanguarda urbanística, reforçou sua vocação turística"129 tornando-se atrativa a visitantes e investidores. No tocante à modernização de Curitiba Sanchez aponta que: "um dos elementos centrais do projeto de modernização urbana de Curitiba foi a construção de uma nova imagem urbana que transformasse o imaginário da cidade (...) a imagem da cidade encontrou sustentação na veiculação de uma nova paisagem urbana, plena de espaços renovados e articulada à veiculação de um novo imaginário social."130 127 GARCIA, F.E.S. Cidade espetáculo: política, planejamento e city marketing. Curitiba: Palavra, 1997. p.30 128 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, junho de 1990. (Depoimentos 3). p.4 129 Folha de São Paulo, 22 de junho de 1993, quinto caderno, p.9 130 GARCIA, F.E.S. Cidade espetáculo: política, planejamento e city marketing. Curitiba: Palavra, 1997. p.36 66 No discurso dos planejadores curitibanos131, humanismo e modernismo não se opõem, entretanto, é notável nos depoimentos dos curitibanos que a transformação da cidade e seu rápido crescimento ocasionou a perda de referenciais. Ao invés de se encontrarem com a cidade, seus habitantes ficaram perdidos e deslocados nela132. Com sua rápida expansão Curitiba perdeu sua “escala humana” e cresceu mais que o desejado por sua população.133 Muitos dos curitibanos não conhecem ou desfrutam dos equipamentos espetaculares que tanto faz a fama de sua cidade. Pilarzinho, eu não sei ir; fico imaginando onde é que é o Pilarzinho. Eu conheci o Horto, o Jardim Botânico este ano, dois ou três meses atrás. Ópera de Arame eu conheci também não faz muito tempo, foi no começo do ano. A Pedreira, eu não conheço. Eu sou uma curitibana, por incrível que pareça, que não conheço a minha própria cidade; é um absurdo isso, mas é verdade.134 Por não se identificar ou não conseguir se localizar na cidade que cresceu desmedidamente, alguns curitibanos tornam-se estranhos na própria cidade natal: "Desculpe, [...] eu sou uma curitibana que eu só sei ir nos lugares que eu conheço, se eu sair desses lugares, eu fico completamente perdida. (...) Curitiba cresceu e eu não cresci junto com Curitiba."135 O discurso humanista também revela outras contradições, especialmente se contrastado com o autoritarismo136 pelo qual as obras humanistas foram desenvolvidas. Um caso peculiar, com grande repercussão foi a pedestrianização da XV de Novembro e a formação do simbólico espaço “Rua das Flores”: "O calçadão na Rua XV teve de ser feito na marra (...). Ninguém queria saber de tirar os carros (...) eu estava no Departamento de Obras - foi feita de sábado a segunda-feira"137. “O Jaime decidiu por 131 "Dessa necessidade de assegurar conteúdo humano ao progresso agora e amanhã. é que decorrem as obras que pretendemos realizar" LERNER, Jaime. Discurso de Posse. 1971 132 "Curitiba cresceu e eu também não fui junto, conhecer Curitiba. Se eu sair, não sei sair por Curitiba (...) Eu me perdi dentro de Curitiba, há um ano, um ano e meio atrás" p.50 133 "Curitiba cresceu mais do que eu desejava" p.138 134 SANTOS, A. C. A. Memórias e cidade : depoimentos e transformação urbana de Curitiba. 19301990. 1995. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal do Paraná, volume anexo. p.47 135 Ibid. p.51 136 "Então, esse negócio de dizer "Não, vamos ouvir a comunidade", é balela. (...) não se joga fora 20 ou 25 anos de estudo em nome de uma população que tem conhecimento, mas não a ponto de poder opinar (...). O povo opina politicamente, tudo bem, mas não do ponto de vista técnico. IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, junho de 1990. (Depoimentos 3). p.58 137 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, fevereiro de 1990. (Depoimentos 2). p.4 67 uma operação-relâmpago, de 72 horas, num final de semana, para não dar chances aos comerciantes de impetrar mandato de segurança, impedindo a obra. Numa sexta-feira à noite, cerca de 100 homens iniciaram o trabalho em duas quadras que na segunda de manhã estavam prontas."138 "Foi uma decisão do Jaime, já de começo. Todos sabíamos que, para fechá-la, tínhamos que entrar rachando. (...) Foi uma grita! A cidade inteira ficou polvorosa (...)"139 Porém, tal dissonância e antagonismo ao que discurso proclamava uma cidade feita para o homem, com a participação deste, não chegou a ser revelada à grande mídia. Apesar de receber algumas críticas na imprensa local, Lerner e IPPUC trataram de florear e promover ao máximo a grande obra inauguradora do humanista na cidade, a ponto de que a imprensa nacional passasse a publicar matérias como essa: Realmente é bastante encantador o que vem sendo feito em Curitiba, em benefício de sua gente (...) bem no coração da cidade, no local mais movimentado na Rua XV de Novembro, alguns quarteirões foram “sacrificados”, foram nivelados de um meio-fio ao outro, tapando-se a rua e cobrindo-a com caquinhos lindos. Nesses quarteirões, o simpático e alegre povo curitibano pode diariamente passear, fazer seus encontros, negócios, etc. (...) Tudo isso, e muito mais, num chão de Curitiba, onde há poucos meses existia um verdadeiro pandemônio de trânsito de automóveis. Enfim, aquele trecho de Curitiba parece um pedaço do céu; aqueles quarteirões cheios de flores encantam os olhos de quem os vê.140 Ainda em 1972, ano da “transformação” da Rua XV, o Jornal da Tarde após discorrer sobre “A calma da Rua XV”, revelava que Depois que Curitiba passou a ser administrada por arquitetos, melhorou muito: várias ruas foram alargadas, arborizadas, pavimentadas e tiveram mudanças de mão, para melhorar o trânsito. Tudo isso tem um só objetivo: tornar a cidade mais humana, preparando-a para receber o progresso industrial sem perder seu ar de cidade acolhedora. Tudo que está sendo feito agora em Curitiba é planejado. 141 Tamanho poder de decisão, manipulação e autoritarismo não seriam incoerentes à cidade humana? Afinal, uma cidade que preza por seus cidadãos, não proporcionaria aos mesmos uma gestão mais democrática e participativa ao invés de eleger um Instituto 138 Ibid. p.15 139 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, junho de 1990. (Depoimentos 3). p.9 140 Tribuna de Santos. 08-12-1972. O aplauso a Curitiba. “Como vive uma grande cidade bem organizada”. Jornal da Tarde. 13 de junho de 1972 141 68 “técnico” como “cérebro” da administração municipal? Aonde entra o homem enquanto “ator” do espetáculo? Como se percebe, por maiores que fossem as contradições entre discurso e realidade, os objetivos de revelar uma cidade ao mesmo tempo humana, moderna e criativa tiveram grande êxito. O espetáculo estava armado. 5.2 A ILHA (EUROPÉIA) NO BRASIL ENCANTADA CONSIGO PRÓPRIA Por suas múltiplas culturas e etnias, pelo seu clima distinto em contrataste com o restante do território nacional, pela forma com que seus colonos europeus interagiram e demarcaram o espaço urbano, Curitiba, desde muito tempo foi identificada e representada como uma cidade de características européias. As construções e discussões sobre uma “Curitiba européia” decorrem desde o século XIX, porém, como será visto a seguir, foi devidamente apropriada pelos planejadores, na década de 1970, no intuito de “forjar” uma identidade para a cidade e sua população. Identidade esta restrita e excludente. A partir de meados do século XIX, segundo Pereira, inicia-se um discurso em Curitiba que vincula o progresso ao colono europeu. “Criava-se uma urbe sem problemas, sem mazelas, habitada por um povo ordeiro, saudável e trabalhador, que a construía para seu grande destino de metrópole dos paranaenses.”142 Curitiba aparecia no discurso de seus políticos e intelectuais como cidade cosmopolita, progressista, de hábitos civilizados, afinal, contava com considerável influência européia de seus imigrantes. Para Pereira “Esta ‘europeização’ concede foros de civilização, acima da média brasileira, a Curitiba.”143 Havia uma prova que Curitiba era uma cidade européia. Do Rio para cima o Brasil era dominado por animais peçonhentos [...] a capital federal era imunda, fedorenta. Curitiba, ao invés, tinha primaveras, verões, outonos e, orgulho dos orgulhos, as brumas prateadas e gélidas do inverno [...] Pelo clima e solo, podia produzir frutas “civilizadas” : maçãs, uvas, pêras, pêssegos. Prédios eram edificados em estilo alemão, normando, renascentista, gótico, e todo o mais que o historicismo pudesse conceber.144 142 PEREIRA, Marco Aurélio Monteiro. A cidade de Curitiba no discurso de viajantes e cronistas do século XIX e início do século XX. Revista de História Regional - Vol. 1. - nº 1 - Inverno 1996. 9-40. p.12. 143 Ibid. p.21 144 DUDEQUE, I. J. T. Espirais de Madeira: Uma história da arquitetura de Curitiba. São Paulo: Studio Nobel / Fapesp, 2001. pp. 55-56 69 O Movimento Simbolista, a partir do final do século XIX, contribuiu para o fortalecimento da diferenciação da cultura e “identidade” paranaense em relação à nacional. Apesar de ter se manifestado em alguns estados brasileiros, este movimento literário ganhou relevância e representatividade, sobretudo no Paraná, o qual costuma ser considerado um “simbolismo particular”. “A primeira particularidade (estendida ao próprio Estado) liga-se ao clima da cidade de Curitiba, considerado frio e europeu, e ao relevo ondulado de suas montanhas, o que aproximaria os escritores locais do “clima” da matriz simbolista parisiense.”145 O pressuposto de um clima europeu de Curitiba, diferenciado daquele tropical do restante da nação, teria contribuído para a especificidade da consciência literária do Paraná, um Estado autenticamente brasileiro, dentro de suas especificidades “contra os que querem modelar todos os brasileiros segundo um mesmo padrão: clima temperado contra sol tórrido, bruma esbranquiçada e geada, minuano gelado do Sul, contra os alísios, os pomares em flores e florestas virgens”146 O Simbolismo desenvolveu a idéia de diferenciação147 do Paraná e seu habitante que seria afirmada novamente em décadas seguintes. Romário Martins afirmaria que o “xadrez étnico” local teria se constituindo de modo diverso em relação ao resto do país. Construía-se uma nova interpretação sobre o papel, a influência e lugar do imigrante na história paranaense, o qual teria colaborado para a criação de um Estado sui generis. Dessa nova visão e interpretação da História do Paraná surgiu o Movimento Paranista148. 145 OLIVEIRA, M. “Imigração e diferença em um estado do sul do Brasil: o caso do Paraná”, Nuevo Mundo Mundos Nuevos, Debates, 2007. Acessado em: 18 de novembro de 2007. Disponível em: http://nuevomundo.revues.org//index5287.html. 146 Id. 147 “No final do século XIX, escritores “simbolistas” e membros da elite intelectual e política paranaense começam a produzir, através de discursos, textos literários e estudos históricos, imagens e metáforas sobre a identidade social e cultural do estado cujo fundamento étnico se assentava na figura “branca” do imigrante não-português de origem européia, e cujo fundamento social residia na presumível particularidade paranaense em relação às demais regiões do Brasil (OLIVEIRA, M. “Imigração e diferença em um estado do sul do Brasil: o caso do Paraná”, Nuevo Mundo Mundos Nuevos, Debates, 2007. Acessado em: 18 de novembro de 2007. Disponível em: http://nuevomundo.revues.org//index5287.html.) 148 Também conhecido como Paranismo, teve Romário Martins um de seus fundadores, consiste em um movimento intelectual, político e cultural que objetivava integrar o Paraná através da construção de uma 70 Para Pereira149, o Paranismo foi uma tentativa de instituir uma identidade a um Estado novo, sem uma “imagem” ou fronteiras definidas, composto de uma população heterogênea sem sentimento de pertencimento a terra. A conjunção ou amalgama de colonos europeus de diversas nacionalidades em uma cultura ou sentimento que garantisse a coesão da população colaboraria para “inventar” um Paraná, distinto e sobressalente às demais unidades federativas do Brasil. Apesar de ter perdido força durante a política nacionalista de Vargas, a partir da década de 1930, o Paranismo voltou a ecoar na década de 1950, sobretudo com Wilson Martins e Temístocles Linhares. Nesta época, construiu-se a tese da diferença cultural e social do Paraná como um “Brasil diferente”, amparada por uma análise que conjugava dados étnicos, históricos e demográficos (sobretudo referentes à colonização européia), associados ao clima150 e questões antropológicas. Esta obra de Wilson Martins, de 1955, afirma que a imigração de origem européia constituiu o principal lastro da formação social e cultural do Estado, tornando o Paraná “diferente”, adverso ou inadequado às teorias de Gilberto Freyre sobre as “raízes do Brasil”, baseadas na miscigenação das três raças: índio, português e negro. Motivo pelo qual apagou-se o negro151 e a imigração portuguesa, esta, apesar de européia, já constituía a base de um Brasil do qual o Paraná almejava diferenciar. Embora a imigração eslava, sobretudo polonesa, possua predominância no Paraná, foram os germânicos que ganharam destaque na criação do mito do “Louro Paraná”. Ao contrário dos portugueses e italianos, amplamente disseminados em outras regiões do país, os alemães concentraram mais ao Sul do país, o que teria diferenciado identidade, baseada na diferença, que refletiu nas produções artísticas e históricas paranaenses sobretudo nas décadas de 1920 e 1930. 149 PEREIRA, Luis Fernando Lopes. Paranismo: O Paraná inventado – Cultura e Imaginário do Paraná na I República. Curitiba: Aos Quatro ventos, 1997 150 Segundo a divisão de Henrique Mortiz, diretor do Observatório do Rio de Janeiro, o Paraná se acha na "zona temperada doce" e o clima de Curitiba é, no Brasil, "o que mais se assemelha ao clima europeu". MARTINS, W. Um Brasil diferente. São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 1989. p.19 151 "É que o negro, sem o dinamismo reprodutivo que se observou em outras provincias, sempre sofreu, e continua sofrendo, no Paraná, da tendência a desaparecer." p.133 71 esta região e seus habitantes, sobretudo nos aspectos culturais e comportamentais152, dessa forma, tornava-se interessante destacar os germânicos sobre as demais etnias: onde se encontram alemães, aí se encontrarão escolas, e realmente sem escola o colono alemão não se sente bem. Mesmo nas mais remotas colônias, onde o colono é obrigado a trabalhar de manhã e à noite é levantada uma choupana e se destina à escola (...). Nas colonizações de polacos e italianos, como também nas de portugueses, a primeira construção é a da igreja, a qual, durante muito tempo impera sozinha; a escola só é instalada quando o Estado o faz.153 p.123 Os alemães foram os que mais contribuições trouxeram ao desenvolvimento do Paraná tendo em vista as ‘virtudes magníficas do germano’ como a constância, a tenacidade, a continência, o senso de responsabilidade e a independência, que enriqueceram a cultura paranaense. 154 Tal mito causou grande impacto e repercussão no imaginário local e até mesmo em níveis acadêmicos e de formadores de opinião, reproduzindo-se tanto na imprensa local, como também em textos e crônicas de escritores de outros Estados: Há, nesta cidade, um senso de conforto europeu passado a limpo. Para quem vem do Rio, a impressão é de que a cidade não tem problemas. Certamente os tem; mas não como aquele aspecto desagradável e quase angustioso do Rio; é como se aqui o progresso urbano tivesse trazido seus benefícios e confortos sem destruir o que havia de bom e generoso na vida de uma cidade menor. Os lavradores dos arredores continuam a trazer suas carroças "polacas" na porta da casa das famílias e os estudantes e professores continuam a achar um ambiente bom e tranquilo para fazer desta cidade um centro universitário cujo prestígio cresce sem cessar. R. B., 31-1-52155 à saída das crianças de tuas escolas: eram quase tôdas, brancas, brancas, os cabelos de algumas, até então loiros, eram brancos, e vinham vestidas em claros aventais (...) teus carroções de transporte das colônias circunvizinhas não eram puxados por bois, mas por duas parelhas de cavalos luzidios (...) descobrindo, no condutor, uma linda criatura do outro sexo, o sangue querendo brotar través a pele, e que seria alemã, tcheca, finlandêsa ou, simplesmente, uma grácil paranaense já de terceira geração... (...) Que me perdoem os brasileiros de outros rincões: Mas tudo que ali eu via me dava a vívida impressão de andar em 152 “é suficiente conviver com um paranaense típico para verificar que se trata do contrário de homem expansivo, amante de gestos escandalosos ou das atitudes coloridas, das expansões comunicativas ou dos entusiasmos fáceis.” 19-20 153 MARTINS, W. Um Brasil diferente. São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 1989. p.123 154 LINHARES, T., citado por MARTINS, A. P. Um lar em terra estranha: a aventura da individualização feminina. A Casa da Estudante Universitária de Curitiba nas décadas de 50 e 60. Dissertação de mestrado. Curitiba, 1992. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Paraná. p. 5. 155 BRAGA, R. Dois repórteres no Paraná / Rubem Braga e Arnaldo Pedroso d'Horta - 2a. ed. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2001 p.14 72 viagem de turismo por velhas e nobres terras estrangeiras... (...) Tudo era belo, diferente, típico (...) Tersópolis, 8 de maio de 1966" Armando Fontes. 156 Uma vez estando latente e disseminado o “espírito europeu” (ou o seu mito) na população curitibana, os tecnocratas utilizaram o discurso de terem construído uma “capital européia” – organizada, segura, com qualidade de vida e diferente das demais capitais brasileiras – para uma população européia. O que foi aceito e identificado por setores da população curitibana, principalmente a classe média descendente de imigrantes europeus. Lerner, “com as idéias de "identidad e pertenencia"”157, tinha como objetivo criar – ou “eleger” – uma identidade ao curitibano para que ele aceitasse a cidade que estava se modificando ao gosto e maneira de seu prefeito e planejadores. Não se procurou adaptar o planejamento às características de uma população heterogênea, mas sim moldá-la de acordo com o planejamento. Tentou-se então fazer a “ligação da memória da cidade com o planejamento urbano: ligar paisagem e memória da cidade.”158 E a memória escolhida foi, essencialmente, a dos imigrantes europeus159. As publicações do IPPUC, assim como as da Prefeitura Municipal passaram a dar destaque especial à história, identidade e aspectos culturais desses descendentes de imigrantes que ajudavam fazer de Curitiba uma capital européia. A construção de memoriais, parques, praças e monumentos destinados às comunidades étnicas, sobretudo européias se revelou um sucesso. Ao mesmo tempo em que agradava e homenageava aos grupos imigrantes locais, destacava aos de fora uma Curitiba cosmopolita e européia. Os planejadores conclamavam o bom resultado: “Com a mudança física veio a cultural: os imigrantes europeus, entre nós desde a segunda metade do século passado, 156 Câmara municipal de Curitiba 1850-1900. Boletim do Instituto histórico,geográfico e etnográfico paranaense, Comemoração dos 300 anos de Curitiba, Curitiba, volume XLVIII,1993. pp. 291-295 157 158 159 IPPUC. Memória da Curitiba urbana. Curitiba, dezembro de 1990. (Depoimentos 5). P.42 Id. "Curitiba, por sua formação cultural - pelas etnias, que sempre promovem uma troca cultural com o meio -, permitiu sempre tentativas de planejamento." IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, fevereiro de 1990. (Depoimentos 2). p.11 73 passaram a sentir-se cidadãos, orgulhosos de sua urbe.”160 O qual não tardou a se destacar e reproduzir nos meios de comunicação dessa cidade cada vez mais européia: Efetivamente, a civilização curitibana está indelevelmente arraigada à civilização européia. Os traços dessa conotação étnica são perceptíveis nas linhas arquitetônicas da cidade, e muito mais, no comportamento do povo, no seu modo de ser. (...) A maior força, os traços mais indeléveis são da colonização alemã, seguida da polonesa e do árabe. Mas existem outros troncos étnicos igualmente importantes, como o italiano, o ucraniano, o judeu, o espanhol... 161 Segundo Garcia, assim como se produziu uma cidade ideal, tentou-se convencer um público ideal para atitudes ideais com a cidade. Construiu-se uma relação entre o “ser curitibano” como sendo aquele que se identifica com as obras arquitetônicas da metrópole moderna e européia. Segundo a autora, uma das características que explicariam o êxito do planejamento urbano de Curitiba seria: o fato de aqui haver: “Um povo civilizado, povo preparado para a disciplina com a qual se identificou”, “cidade européia e branca – população constituída por etnias européias”, “população rica”. Estas representações identificada no senso comum são, porém, sutilmente reforçadas e intensificadas na própria construção oficial da imagem de Curitiba e no discurso explicativo do sucesso da experiência de planejamento implantado como, por exemplo, a exaltação da presença de etnias européias na composição social da cidade civilizada, onde sempre houve, através delas, tradição de trabalho, ordem e progresso social.162 Realmente a celebração dos valores étnico-europeus foi apropriada pela população, caiu no senso comum e colaborou para proporcionar positividade a imagem veiculada sobre Curitiba que associa sua qualidade de vida a um padrão de primeiromundo e ao seu “ar europeu”."Curitiba é aquela cidade que todo mundo acha, até os de fora acham, uma cidade de primeiro mundo." 163 Curitiba é uma cidade de gente ordeira; sempre. Pacata até (...) Eu atribuo isso à formação da cidade, principalmente pelos alemães; eu acho que a colonização alemã é que moldou Curitiba. Dessa coisa, da cidade mais ou menos organizada, isso até anterior a 50, inclusive (...) já era uma cidade organizada, relativamente limpa e saudável, quando se comparada ao Rio de Janeiro, que era uma cidade insalubre (...) Embora eles tivessem, todos têm os seus defeitos, têm as suas qualidades e seus; os alemães eram muito fechados, bairristas, racistas, mas eles moldaram Curitiba. A começar o comércio - isso era antes de mim, não 160 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, agosto de 1990. (Depoimentos 4). p.88 161 "Em Curitiba a paisagem européia realça os padrões étnicos da sua civilização". Gazeta do Povo. 28 de outubro de 1979. 162 GARCIA, F.E.S. Cidade espetáculo: política, planejamento e city marketing. Curitiba: Palavra, 1997. p.69 163 SANTOS, A.C. A. Op cit. p.13 74 é -, eram importadores; os mais importantes, eram alemães. (...) A vida em sociedade era muito reservada, muito respeitosa.164 Como se pode observar a população curitibana, ou boa parte dela aceitou o rótulo de capital européia e realmente passaram crer que habitavam em uma cidade peculiar, um oásis europeu num país subdesenvolvido. Realmente Curitiba possui qualidade de vida privilegiada e boa parte de sua população descende de imigrantes europeus, entretanto, o discurso ou mito da capital européia é deveras restritivo e ambíguo. Curitiba apresenta inúmeras contradições que maculam essa sua imagem européia, a qual tem sido amplamente reproduzida, contribuindo para torna a cidade um local cada vez mais hermético e excludente, onde o que não é europeu se torna marginalizado. 5.3 A CAPITAL ECOLÓGICA Apesar de possuir grande parte de seus rios degradados e poluídos, ostentar uma das maiores frotas de veículos automotores do país, colaborando para a piora da qualidade do ar, e ainda se insistir em transporte público com combustíveis fósseis, portanto, poluentes, Curitiba tentou – e ainda tenta – a duras penas, manter o título de capital ecológica do Brasil, título este que a própria produziu e se “premiou” com o auxílio da mídia e de projetos, soluções e obras carismáticas e notáveis (pelo menos no discurso e na imagem). Apesar de ter sido conclamada “capital ecológica” apenas nas últimas décadas, Curitiba possui e se preocupa com áreas verdes e ambientes cercados de natureza desde muito tempo. O Parque Inglês, Parque da Cervejaria Providencia, Tanque do Bacacheri, Passeio Público, Cascatinha, Cassino do Ahú e próprio cinturão de colônias, especialmente no N e NE com sua profusão de chácaras, proporcionaram, desde longa data, uma imagem bastante verdejante para a cidade. Planejado desde 1857 e inaugurado em 1886, o Passeio Público foi instalado em local anteriormente encharcado e insalubre. Em 1895 o Código de Posturas do Município já legislava sobre a poluição das águas, arborização, corte de árvores e preservação da vegetação. Na gestão municipal de Cândido de Abreu, iniciada em 1913, as praças e Passeio Público ganharam especial atenção. 164 Ibid. p.135 75 Alguns anos depois, o Código de Posturas de 1919 previa que “A municipalidade colaborará com o Estado e a União para a execução de todas as leis tendentes a evitar a devastação das florestas, e a estimular a plantação de árvores para formar bosques nos lugares onde convier”165. Logo no início da década de 1920, o sanitarista Saturnino de Brito elaborava um plano de saneamento para a capital, no qual, entre as principais considerações, ressaltava a necessidade de multiplicar jardins e parques, os pulmões da cidade. Na década de 1930, foi criado um Serviço de Praças, Jardins e Arborização da Cidade, subordinado à Diretoria de Obras; as questões hídricas, de drenagem e pavimentação ficaram ligadas à Diretoria de Viação. Com o plano Agache, na década seguinte, foram previstos a construção de alguns parques. A partir da década de 70, começam a ser implantado na cidade alguns parques e bosques. A questão ambiental ganhava status e passou a ser incorporada ao discurso político. Incentivou-se a arborização em uma campanha cujo slogam era “nós damos a sombra, você a água fresca”. Nesta década, e, sobretudo nas décadas seguintes, com o Ecologismo em moda, Curitiba passava a se mostrar cada vez mais verde. Seus parques, índices de áreas verdes por habitante e toda uma “revolução verde” foram intensamente e intencionalmente divulgados. Se Curitiba já se preocupava com a questão ambiental, na terceira gestão Lerner, aproveitando que Ecologia era uma “palavra da moda”, resolveu-se demarcar a cidade como “capital ecológica do país”, título que poderia destacar a cidade e carrear benefícios e recursos.166 Como se percebe, o discurso ecológico tornou-se um trunfo para chamar a atenção para a cidade e angariar verbas. Ao mesmo tempo, poderia ser combinado com outras estratégias do discurso e city-marketing, como associar elementos étnicos e culturais às áreas verdes e torná-las espaço de lazer e recreação, além de preservação. De fato, muitos bosques, praças e parques de Curitiba reforçaram a “identidade européia” que se desejava afirmar, dentre eles: Bosque Polonês, Bosque Alemão, Bosque de Portugal, Praça da Espanha, Praça da Suíça, Praça da Ucrânia, Parque Tingüi com seu Memorial Ucraniano e Bosque São Cristóvão com o Memorial Italiano. 165 BAHLS, Aparecida Vaz da Silva. O verde na metrópole: a evolução das praças e jardins em Curitiba (1885-1916). Dissertação [Mestrado em História]. Curitiba: UFPR, 1998. p. 8. 166 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, novembro de 1989. (Depoimentos 1). p.32 76 Em 1992, é lançado um volume “Memória da Curitiba urbana” especial, intitulado "Escola ecológica de urbanismo"167, o qual sintetizou e ordenou todas as ações ambientalistas da prefeitura, mostrando as etapas e ações que contribuíram para a transformação de Curitiba na capital ecológica. Para o IPPUC, as preocupações ecológicas e a qualidade de vida urbana estão relacionadas às questões como a política de preservação de áreas verdes, à separação do lixo, ao sistema de transporte modelar que evita utilização de automóveis particulares. Não bastando às suas funções de planejamento, execução de obras e marketing da cidade, o IPPUC formulou os postulados de uma “Escola de urbanismo ecológico”. É interessante analisar sua apresentação: A Memória da Curitiba Urbana mudou. Estamos entrando, agora, em uma segunda fase. Vamos mostrar a partir deste número 8 os programas, projetos, idéias desenvolvidas e implantadas em Curitiba, que a transformaram em exemplo. Vamos saber por que Curitiba é o Brasil que pode dar certo. (...) Capital Ecológica que começou a surgir, na prática, no último quarto de século. Vamos conhecer a Curitiba que conseguiu passar de meio metro de área verde por habitante para mais de 50 metros quadrados de área verde por habitante em 20 anos. Que mantém 16 parques e quase mil praças e bosques – importantes áreas verdes preservadas através do uso. Vamos contar como a Legislação de proteção ao meio ambiente, preocupação desde 1953, se consolidou em uma política para o meio ambiente em 1990. Vamos descobrir como o problema do lixo vem sendo equacionado. Por que optamos pela separação e reciclagem em uma parceria que envolve hoje cerca de 200 mil residências. Como surgiu e como foi desenvolvido o projeto da compra do lixo, que está modificando não só a aparência das vilas da periferia, mas mudando hábitos. Mudanças que deram a Curitiba dois prêmios internacionais.168 Decididamente, tingiu-se de verde a imagem da cidade a partir de 1992. Conectada com os eventos e discussões ecológicos da época, como a ECO-92 – grandioso evento mundial de ecologia realizado no Rio de Janeiro – a verdejante Curitiba estava pronta para provar que era o Brasil que poderia dar certo, através de seus exemplos ecológicos: Reconhecida internacionalmente como a terceira melhor cidade do mundo para se viver, Curitiba possui o maior índice de áreas verdes por habitante, não aceita a implantação de indústrias poluentes e adotou soluções criativas para melhorar a vida de seus moradores. Seguramente, já a "Capital Ecológica do País"169 167 IPPUC. Memória da Curitiba urbana: Escola de Urbanismo Ecológico. Curitiba, v. 8, jan. 1992 168 Ibid p.VII 169 IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, junho de 1990. (Depoimentos 3). p.115 77 Ainda em 1992, é lançado "Curitiba. A Revolução Ecológica”. Ricamente ilustrada, exibia em imagens e dados uma cidade que aumentou mais de 20 vezes a coeficiente de área verde por habitante após ter passado por uma pré-revolução: O Plano Diretor, seguida por outras “revoluções” no transporte, cultural, social e econômica. A “Campeã mundial em coleta seletiva de lixo”, “modelo para qualquer comunidade e para qualquer economia auto-sustentada"170era um “exemplo ao mundo”, ao qual estaria dando uma “Lição de ecologia”: Os números, em Curitiba, são eloqüentes: (...) cidade separa o lixo orgânico dos resíduos sólidos que se prestam ao reaproveitamento ou à reciclagem. Só com o reaproveitamento do papel velho, a cidade evita o corte de 1.200 árvores por dia. Quantas árvores seriam salvas diariamente no mundo se todas as suas cidades procedessem da mesma maneira? (...) A cidade ambientalmente correta é, em primeiro lugar, aquela que desperdiça o mínimo e economiza o máximo. Pelo mesmo critério, é aquela que dá prioridade ao transporte coletivo sobre o transporte individual, evitando desperdício derivados de petróleo e poluição da atmosfera. Em Curitiba, onde a primazia do transporte público é uma realidade já há duas décadas, a economia de combustível é da ordem de 20% em relação às grandes cidades brasileiras. (...) Eis a cidade que se recarrega - aquela que poupa recursos e poupa as pessoas. Este livro é uma reportagem, apenas uma reportagem, sobre o que, aos olhos do mundo, fez e faz de Curitiba o laboratório de uma experiência urbana - e humana - verdadeiramente revolucionária, a ponto de exportar soluções e invenções e de ser apontada como uma espécie de modelo para próxima década (...) de um novo milênio. Jaime Lerner 171 Curitiba, de uma hora para outra, tornou-se “ambientalmente correta”, mesmo com favelas nas margens de seu principal e mais poluído rio, ainda que possuindo a maior parte da população sem rede de esgoto, e mesmo ostentando uma selva de pedras na região central. O discurso que passou a vender a imagem da capital ecológica conseguia ocultar isso, mas os relatos de uma população, que graças ao Plano Diretor, presenciou áreas verdes se tornar cinza, apontam o outro lado da moeda: (...) tem prédios barbaridade. (...) Nos anos sessenta você não via, a Sete de Setembro eram só casas maravilhosas, a Visconde de Guarapuava eram casas lindas que tinham, eram só casas residenciais, jardins maravilhosos; hoje em dia, é uma selva de pedra. A rua Sete de Setembro também é uma selva de pedra.172 Entretanto, estimulada pelo discurso oficial, a mídia divulgava aos quatro cantos esta nova imagem de Curitiba. Como aponta Oliveira: 170 171 172 Curitiba. A Revolução Ecológica. Prefeitura Municipal de Curitiba. Maio de 1992.p.117 Ibid p.3 SANTOS, A. C. A. Op cit. p.48 78 Esse quadro contou enfim com o apoio involuntário de alguns órgãos da imprensa. É típico, por exemplo, o caso da reportagem de capa da revista Veja, publicada em 1993 por ocasião da festa de 300 anos da cidade e intitulada A capital de um país viável. Cabe menção igualmente à edição especial da revista Ecologia e desenvolvimento (1993) inteiramente dedicada à cidade. Em ambas reportagens, a Prefeitura Municipal de Curitiba (PMC) é apresentada como tendo agido com base num entendimento. E sua ações eram – cabe dizer – fantásticas, pois modificar a relação 0,5 m2 de área verde/habitante para 50 m2 de área verde/habitante em menos de duas décadas não deve ter sido tarefa fácil.173 Evidentemente, o reconhecimento e os prêmios internacionais obtidos a partir de 1990 para os programas de reciclagem de lixo, os artigos na imprensa e as ações ambientais contribuíram para dar sustentação da imagem e do discurso ecológico de Curitiba, os quais continuaram sendo utilizados para legitimar as ações do prefeito e planejadores. Ainda em 1992, a Prefeitura investe pesado na imagem da cidade. Em uma propaganda de página inteira ilustrada com marcos da “Revolução Ecológica da cidade” é destacado: "Fórum Mundial das Cidades: Compromisso de Curitiba para o Desenvolvimento Auto-Sustentado. No final de maio, Curitiba foi o centro de atenções do mundo inteiro".174 O ápice da política ambiental de Lerner, na tentativa da construção da “cidade ecológica” foi a implantação da Universidade Livre do Meio Ambiente, inaugurada no Dia Mundial do Meio Ambiente, 05 de junho, com a presença de Jacques Cousteau (1910-1997), em meio ao Bosque Zaninelli, antiga pedreira desativada. Após intensa construção de uma imagem e discurso ecológico, Curitiba passou a ser divulgada mundialmente como “cidade ecológica”, entretanto, tal imagem se desgastou e o discurso mostrou lacunas e incoerências - rebatidas e criticadas por muitos autores175 - fato que em menos de uma década, obrigou a mudança de “título” de 173 OLIVEIRA, M. de. A trajetória do discurso ambiental em Curitiba (1960-2000). Rev. Sociol. Polit. 2001, no. 16, p. 97-106. p.102 174 175 Revista Imprensa. Julho de 1992. Não se pretende discorrer sobre todas as incoerências do discurso e muito menos da real situação ambiental curitibana. Informações sobre o tema podem ser encontradas em: MENEZES, C. L. Desenvolvimento urbano e meio ambiente: a experiência de Curitiba. Campinas: Papirus, 1996; OLIVEIRA, Márcio. Perfil ambiental de uma metrópole brasileira: Curitiba, seus parques e bosques. Revista Paranaense de Desenvolvimento. n.º 88 maio / agosto 1996. p. 37-51; LIMA, C. DE A. A ocupação de áreas de mananciais na Região Metropolitana de Curitiba: do planejamento à gestão ambiental urbana-metropolitana. Curitiba: Tese de Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Universidade Federal do Paraná – UFPR, 2000; MENDONÇA. F. Aspectos da problemática ambiental urbana da cidade de Curitiba/PR e o mito da “capital ecológica”. In: GEOUSP ESPAÇO E TEMPO. São Paulo: Revista da Pós-Graduação em Geografia: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – FFLCH-USP, n. 12, 2002; CASTELNOU 79 Curitiba... Desbotou-se o verde da “capital ecológica” e ela foi transformada em “capital cidadã”. 5.4 RESULTADOS DO ESPETÁCULO A cidade ficou mais bonita, graças a Deus tivemos ótimos prefeitos. Desde Iberê de Matos, Ivo Arzua, todos, um foi continuando o plano do outro e está dando certo nossa cidade. Uma cidade, assim, para mim, podem existir coisas muito melhores, mas eu acho que vida, como a nossa aqui, não tem. E, agora, com a ecologia e tudo, então, chamou muito a atenção. Não sei se porque o povo é mais, é muita mistura de raça, muito europeu, então criou um outro modo de pensar, não é?176 O depoimento acima se revela bastante interessante ao conter elementos que foram intensamente divulgados pelo discurso dos urbanistas curitibanos: a gestão continuada de prefeitos competentes (embora a depoente cite os anteriores ao Plano Diretor); a qualidade de vida; a ecologia e a população européia. Realmente o discurso surtiu o efeito desejado. Para Sanchez, “a forte veiculação das imagens-síntese da cidade intensifica a idéia do socialmente pleno usufruto dos novos espaços – produtos da modernização – e implicitamente sugere a existência de uma vida de classe média para todos os habitantes.”177 “A imagem se mantém não contestada por nenhum setor dominante precisamente porque ela é a que melhor atende ao ocultamento dos jogos de interesses aqui desenvolvidos.”178 Evidentemente a exploração do marketing urbano e discurso sobre uma Curitiba ideal e fantasiosa, amplamente divulgados e reproduzidos, colaboraram para ressaltar ou construir uma imagem de cidade modelar, produto da planificação urbana e exemplo a ser seguido ou “vendido” ao mundo. Se a boa imagem de Curitiba motivou olhares, investimentos e turistas, ela também atraiu migrantes “indesejáveis” em busca de oportunidades e melhores condições de vida na “capital européia”. Porém, Curitiba NETO, A. M. N. Ecotopias urbanas: imagem e consumo dos parques curitibanos. 2005. Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento) - Universidade Federal do Paraná 176 SANTOS, A. C. A. Op cit. p.96 SANCHEZ, F. E. G. A reinvenção das cidades na virada de século: agentes, estratégias e escalas de ação política. Rev. Sociol. Polit. , Curitiba, n. 16, 2001 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010444782001000100004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 Set 2008. 177 178 OLIVEIRA, D. Curitiba e o mito da cidade modelo. Curitiba: Editora da UFPR, 2000. p.187 80 repeliu e excluiu tais migrantes, juntamente com todo seu lado “feio” e “negativo”, afinal, não condiz à imagem que a cidade e seus administradores gostariam de continuar revelando. 5.4.1 Turismo Por não possuir atrativos naturais evidentes como Rio de Janeiro ou Foz do Iguaçu, Curitiba “ganhou” seus próprios cartões postais calcados na imagem de cidade ecológica, cosmopolita, européia e exemplar em soluções urbanas. A Universidade Livre do Meio Ambiente, Ópera de Arame e Jardim Botânico ilustram bem a necessidade de se criar espaços espetaculares e atraentes. Atraídos pela propaganda de uma cidade diferente, modelar e multi-cultural, os turistas nacionais proporcionaram que Curitiba, antes um simples rota de passagem, tornasse atualmente uma das cidades mais visitadas do país179. "Hoje Curitiba está entre as cinco cidades brasileiras mais procuradas pelos brasileiros, a maioria deles para conhecer seus ícones urbanos. Sem praias, Curitiba encheu-se de parques, bosques e praças.”180 Com quase 20 mil leitos, distribuídos em mais de uma centena de hotéis, Curitiba se destaca entre os maiores parques hoteleiros do Brasil. De 1997 a 2008, Curitiba quase quadruplicou sua rede de hospedagem, passando de 68 estabelecimentos para 238.181 Divulgada como uma das melhores cidades do país para se investir, a cidade recebe mensalmente milhares de executivos e empresários, atendendo-os com infra-estrutura satisfatória e proporcionando-lhes o “espetáculo” de seus pontos turísticos modernos, diversificados, seguros e bem cuidados e “maquiados”. 179 “Em pesquisa feita por veículos de comunicação especializados, Curitiba é colocada como o 4º destino turístico brasileiro e o primeiro do sul do país para o turismo cultural. Atividades culturais como os festivais de teatro; de música; o Natal Encantado e a expansão dos setores de hotelaria contribuíram para o crescimento do setor. Curitiba tem 150 hotéis, com cerca de 18 mil leitos.” Turismo em Curitiba bate recorde de visitantes em 2007. Disponível em http://www.ideias.org.br/clipping/335.html Acessado em 14/05/2008 180 CORREIA. Beatriz Silva. Ícones Urbanos: tecnologia e propaganda nas transformações da identidade e orgulho urbanos. 2006. Dissertação (Mestrado em Programa de Pós Graduação Em Tecnologia) Universidade Tecnológica Federal do Paraná. p.113 181 Dados SINDOTEL – Disponível em: <http://www.sindotel-ctba.com.br/ver_noticia.asp?id=189>. Acesso em: 10/12/2007 81 Sem dúvida alguma, os milhões de turistas que Curitiba recebe182, são atraídos por essa imagem de cidade singular, espetacular, européia e com todos os bons predicativos que foram construídos e divulgados nas últimas décadas. A imprensa nacional destaca que o turismo curitibano cresceu mais de 25%183 nos últimos três anos e ressalta que “o crescimento é resultado de investimentos em infra-estrutura, recuperação de espaços culturais e de lazer, além da implantação de novos atrativos na cidade”.184 Importante lembrar que as imagens que Curitiba expõe aos seus turistas são as mesmas veiculadas nos meios de comunicação, isto é, uma visão positivada e restrita da cidade que destaca suas peculiaridades e intervenções urbanas. “A possibilidade de considerar a qualidade ambiental urbana como um atrativo turístico faz da cidade um destino turístico privilegiado”185 que, juntamente com essa imagem edulcorada “com apoio nas idéias de qualidade de vida e qualidade ambiental - fortemente demonstradas nas opiniões dos turistas, contribuem no desenvolvimento do turismo na capital paranaense"186 Como é possível perceber, o marketing que surgiu a partir do discurso da cidade planejada conjugou-se perfeitamente com a atividade turística, que por sua vez renovou a imagem curitibana e a divulgou de forma ainda mais imagética e expressiva. Como uma atividade que envolve a comercialização da imagem, o Turismo encontrou nas imagens espetaculares de Curitiba um grande mercado potencial. 182 Interessante observar o fortalecimento do turismo curitibano a partir da década de 1990, após a afirmação positiva da imagem da cidade. A criação dos Parques e atrações como Jardim Botânico, Ópera de Arame, Rua 24 Horas, UNILIVRE, Parque Tingui, Bosque Alemão, Parque Tanguá, etc., assim como a freqüente presença da cidade nos meios de comunicação, estimularam o fluxo de turistas que se "no ano de 1992 foi de 784.570, em 1997, chegou a 1.098.990 visitantes, significando, portanto, um aumento de 40,1 % em cinco anos.” (BALECHE, 2006. p.74). Em 2002 Curitiba recebeu aproximadamente 1 milhão e meio de visitantes, sendo a maioria deles para turismo de negócios. Atualmente, em pouco mais de 10 anos, a cidade aumentou em 100% o número de visitantes, ultrapassando a marca de 2 milhões por ano. 183 Turismo em Curitiba cresceu 26,5% em três anos. Disponível em: <http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL467932-5598,00.html>. Acesso em 14/05/2008 184 Id. GANDARA, J. M. G. Ações comunicativas do destino turístico Curitiba. In: REJOWSKI,Miriam; COSTA, Benny Kramer. (orgs.). Turismo contemporâneo:desenvolvimento, estratégia e gestão.São Paulo: Atlas, 2003. p.166. 185 186 BALECHE, R. C. A influência de intervenções urbanísticas na atividade turística da cidade de Curitiba. 2006. Dissertação (Mestrado em Gestão Urbana) - Pontifícia Universidade Católica do Paraná. p.118. 82 Em Curitiba, Turismo e Planejamento Urbano e seus resultados estão muito próximos. Se o planejamento urbano delineou uma imagem atraente à cidade, sua vocação turística adquirida, somada à privilegiada infra-estrutura, tem sido utilizada para consolidar o city marketing, afinal, uma cidade visitada é indício de uma cidade peculiar e atraente a novos visitantes187. Segundo Siviero, pelo fato do Turismo ser um “consumidor do espaço”, o planejamento de tal espaço revela-se de grande importância, afinal, ele constituiu “o elemento básico do desenvolvimento turístico, pois abriga os recursos ambientais e culturais dos destinos turísticos, além de ser o espaço físico destinado à instalação da infra-estrutura e dos equipamentos turísticos188.” E Curitiba, com seu espaço devidamente planejado, não deixaria de se revelar um sucesso. 5.4.2 Investimentos Investigando as “cidades modelos” em diálogo com a ideologia e o perfil da sociedade capitalista a partir da década de 1990, Sanchez aborda o “mercado mundial de cidades”, o qual “é movido por e, ao mesmo tempo, movimenta alguns outros mercados”189 como o de empresas com interesses localizados, o imobiliário e turístico. Para a autora, as cidades modelos tornam-se locais propícios a investimentos. E Curitiba não seria diferente. Certamente um dos principais objetivos do city marketing, além do político, seria o econômico. Divulgando-se intensamente Curitiba como uma cidade exemplar, sustentável, com qualidade de vida e com características de primeiro mundo, esperava-se chamar atenção de investidores, sobretudo internacionais. A Cidade Industrial de Curitiba (CIC), implementada em 1973, além de proporcionar auxílios fiscais aos investimentos industriais, contribuiu também para o incremento à infra-estrutura receptiva de visitantes que desembarcavam para efetivar negócios na cidade, possibilitando o Turismo de Negócios em Curitiba. 187 “O Turismo em Curitiba foi uma conseqüência das construções feitas por iniciativa do poder público para o bem-estar da população. Através da imagem que se criou da cidade, o turista vem em busca de conhecimento referente aos programas desenvolvidos na área ambiental, planejamento urbano, qualidade de vida e transporte coletivo.” Instituto Municipal de Turismo - Curitiba Turismo, 2005, p.1 188 SIVIERO, A. P. Os elementos do espaço turístico urbano no processo de planejamento: uma análise do centro de Curitiba - PR. Mestrado em Geografia. Universidade Federal do Paraná, UFPR. 2005. p.73 189 SANCHEZ, F. E. G. Op cit. 83 A Prefeitura Municipal, conjuntamente com a CIC e o IPPUC, desenvolveu diversos folhetos e materiais publicitários em vários idiomas destacando a infraestrutura, qualidade de vida e peculiaridades de Curitiba, alcançando o retorno desejado. No tocante aos investimentos trazidos, segundo dados da Curitiba S.A. - Companhia de Desenvolvimento de Curitiba190, nos últimos 30 anos a cidade teria atraído 11.764 investimentos industriais, dentre eles Siemens, Bosch, Volvo, Kraft... Inegavelmente, a veiculação da imagem positivada de Curitiba na mídia internacional atraiu atenção de empresários estrangeiros que viam na cidade a possibilidade de obter mão-de-obra barata em um local “civilizado” com um padrão de vida e população semelhantes aos de seus países191. A necessidade de mostrar uma cidade “maquiada”192 e exemplar aos investidores revelou-se um trunfo e diferencial para Curitiba, que em poucos anos, juntamente com sua Região Metropolitana, transformou-se em um pólo de indústria multinacionais. O investimento da capital paranaense em sua imagem foi bastante lucrativo na conquista de capitalistas e seus empreendimentos, entretanto, as notícias dessa cidade que atraía indústrias e possuía qualidade de vida, atraiu também pessoas sem recursos que buscavam em Curitiba as oportunidades que não possuía em seu local de origem. 5.4.3 Desigualdade e exclusão 190 CURITIBA S.A. Companhia de Desenvolvimento de Curitiba. Boletim de informações socioeconômicas 2006. Curitiba: Curitiba S.A.: 2006. 191 “Alguns manifestaram que sentem aqui em Curitiba o mesmo estilo de vida, uma mesma aparência de uma cidade de seus países de origem, da Europa, dos Estados Unidos. Há uma tendência a equiparar Curitiba a modelos de cidades de países mais desenvolvidos; (...) chegarem aqui manifestando um desagrado por terem estado no Rio e São Paulo, pela insegurança que sentiam, pelo risco, de sentirem medo (...) e acham Curitiba um modelo diferenciado em relação aos que eles andaram vendo no Rio e São Paulo, cidades que a maioria hoje nem preferem estar. Acho que esse talvez seja o grande mérito de Curitiba, essa condição de vida, estilo de vida; o tipo de população também. É uma cadinho de origens européias; é um estilo de vida diferenciado, que atrai (...) Não tenho encontrado nessas pessoas que passam por aqui nenhuma queixa sobre Curitiba (...) eles, ao contrário, espontaneamente, sem que sejam provocados, revelam o quanto agradou, encontrar um núcleo, uma cidade tão bem estruturada, com tudo. Há um diferencial para melhor em Curitiba, em relação a outras capitais. Um elogio a Curitiba" (SANTOS, A. C. A. Op cit. p.61) 192 ."Enquanto você traz melhorias ao centro da cidade, cativa o investidor de fora. Você lhe dá a impressão de que vai morar numa cidade civilizada. Na mesma época foi dada a chance à Escola Internacional de crescer e se instalar bem. IPPUC. Memória da Curitiba Urbana. Curitiba, junho de 1990. (Depoimentos 3). p.8 84 Evidentemente o marketing sobre Curitiba não atingiu apenas o público que a cidade almejava atrair. Uma vez se tornando destaque nacional em qualidade de vida, muitos migrantes pobres e “indesejáveis” foram atraídos por novas possibilidades de vida nessa cidade que se destacava. Contudo, a política do planejamento curitibano revelou-se deveras excludente, valorizando algumas áreas em detrimento de outras mais periféricas e isoladas. Com restrições construtivas e ambientais, elevados custos da terra e de vida, além de outros fatores, Curitiba repeliu os habitantes mais pobres para regiões mais periferias “expulsando” os migrantes descapitalizados para seu entorno. Segundo Souza, a capital parece selecionar seus migrantes, reservando a Região Metropolitana de Curitiba (RMC) como espaço para as classes populares, enquanto privilegia o recebimento das camadas médias e altas dos novos migrantes. Essa seleção não natural de fluxos migratórios tem (...) seu ponto de partida nas transformações urbanas planejadas e experimentadas pela cidade na década de 70, quando foram executadas as principais diretrizes do Plano Preliminar de Urbanismo.193 Curitiba tornou-se um produto, mas nem todos conseguem “consumi-la”. Sua região metropolitana vem mantendo uma das mais altas taxas de crescimento populacional do país194, provocando graves questões relativas ao solo urbano e degradação ambiental. Ocorreu “a polarização do espaço curitibano, devido à valorização imobiliária da terra e conseqüente periferização como opção para as camadas menos favorecidas.”195 Nas últimas décadas, evidenciou-se em Curitiba o fenômeno da metropolização, isto é, a metrópole formando uma massa contínua com suas cidades vizinhas. Entretanto, há um notável contraste entre a capital e cidades satélites. “Se compararmos a questão da renda entre Curitiba e o restante da região, notamos bem o abismo entre as realidades. Enquanto pouco mais de 20% da população metropolitana ganha mais que 2 salários mínimos, em Curitiba a cifra se eleva para 75%”196. A pobreza da região 193 SOUZA, N. R. de. Planejamento urbano em Curitiba: saber técnico, classificação dos citadinos e partilha da cidade. Rev. Sociol. Polit. , Curitiba, n. 16, p. 107-122, jun. 2001. pp. 107 194 Dados do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, do ano 2000 e 2001, revelam um crescimento acelerado da Região Metropolitana. Enquanto a cidade de Curitiba apresentou um aumento populacional de cerca de 1,3%, dentro da média nacional, há cidades do seu entorno que cresceram mais de 8%, segundo dados do IPARDES (Instituto Paranaense de Desenvolvimento). 195 ZANELLA, M.E. Inundações urbanas em Curitiba/PR: impactos, Riscos e Vulnerabilidade Socioambiental no Bairro Cajuru. 2006. Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento) UFPR. p. 113-114 196 GARCEZ, L. A. Curitiba: evolução urbana. Rio de Janeiro/ Curitiba: Imprensa Universitária da UFPR, 2006. p.171 85 metropolitana fica ainda mais evidenciada entre a população menos privilegiada, dados indicam “1/3 dos 78% dos habitantes das cidades circunvizinhas de Curitiba vivendo com menos de ½ salário mínimo, em Curitiba este nível cai para 1/10 dos 25% menos favorecidos”197. A realidade da região metropolitana curitibana evidencia que a bela e planejada imagem de Curitiba oculta outra, menos favorável e voluntariamente (?) “esquecida”: o lado “feio” da cidade, a parcela da população que arca com o ônus da maquiagem urbana e exclusão proporcionada pelo planejamento urbano. Enquanto parte de Curitiba é feita e divulgada para “inglês ver”, sua região metropolitana e até mesmo áreas mais periféricas da cidade permanecem vítimas do esquecimento das políticas públicas, da falta de saneamento e dos problemas sociais decorrentes da falta de oportunidades de trabalho, educação e segurança. Em artigo de meados da década de 1970, relatando o acelerado crescimento da cidade e a exclusão da população pobre do centro, o presidente do IPPUC faz a seguinte afirmação: "realmente a tendência é afastar os mais pobres de áreas privilegiadas, mas é um fruto do próprio sistema (...) os recursos da municipalidade não podem atender todos os pontos falhos de Curitiba, desta forma existe uma escala de prioridade".198 Provavelmente a prioridade seria cuidar da imagem da cidade. Interessante observar que a exclusão social não parte apenas dos planejadores ou da cidade, mas de seus próprios moradores, descontentes com a migração indesejada e com o inchaço de Curitiba: Nós tivemos essa corrente migratória para Curitiba, ela veio com um pessoal que não agrada (...). Curitiba, hoje, tornou-se inclusive, uma cidade agressiva e perigosa, exatamente em função dessa corrente migratória. Quando nós tinhamos o paranaense, simplesmente paranaense, e aqui vai, pode até ser que seja discriminação, mas isso é uma verdade, Curitiba era uma outra cidade, era completamente diferente, uma cidade calma, pacata, sossegada e, com um povo, que dizem os outros, que é difícil de você penetrar, e que em parte é verdade, mas quando penetra é amigo, não é. Hoje está terrível a coisa (...) foi o problema da propaganda. Se fez muito, propaganda, e se faz ainda muita propaganda em torno de Curitiba. Que Curitiba é a melhor cidade, a terceira melhor cidade do mundo pra se viver, quem é que não gosta de viver numa boa cidade? (...) Tem sido um problema sério o problema do nordestino (...) Ele vem chamado por ser a melhor cidade do Brasil para se viver hoje, isso atrai muito. Isso aconteceu com São Paulo nos anos 40, está acontecendo com Curitiba nos 197 198 id. A nossa cidade, segundo o IPPUC. Diário do Paraná 6 de setembro de 1977. 86 anos 80/90. (...) E graças a Deus, Curitiba ainda gia, faz umas geadas fortes, senão a corrente seria maior ainda."199 O relato acima deixa evidente o descontentamento com a venda da imagem da cidade e alguma de suas conseqüências: a vinda de migrantes pobres, os quais são discriminados por uma população de uma “Curitiba européia”, de ares “xenófobos”, que não poderia ser invadida por elementos que desintegrassem sua ordem e imagem. Assim, o preconceito atinge àqueles curitibanos ocultados pelo discurso da “cidade européia”. Segundo Albuquerque,200 as imagens produzidas e reproduzidas sobre a cidade silenciam os 23% da população afro-descendente que compõe a população curitibana. Para ela, a cultura escolar produzida em Curitiba corrobora um imaginário que justifica a exclusão social e invisibiliza a questão racial dessa capital que faz questão de se divulgar como colonizada por europeus, habitada por uma população “branca”, disciplinada para o trabalho e com uma mentalidade diferente do Brasil escravocrata. Percebe-se que do ordenamento urbano, procede-se um ordenamento social excludente. “A imagem veiculada do que seria o ser curitibano coincide com as imagens étnicas e arquitetônicas escolhidas para representá-lo.”201 Ao invés de integrar, Curitiba excluiu, afinal, a integração de problemas e populações indesejadas mancharia sua imagem. Assim, em consonância com as grandes metrópoles do terceiro mundo, um verdadeiro anel de pobreza se constituiu em torno da cidade núcleo. Sendo aqui a diferença ainda mais gritante, afinal, a divulgação dessa ilha “européia”, “ecológica”, “pós-moderna” depende que as cidades satélites resguarde os problemas e elementos que impedem a manutenção de sua boa imagem. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Curitiba não é apenas a “imagem do planejamento”, além da sua planificação urbana, houve um tendencioso e meticuloso processo de construção, consolidação e “planejamento” de sua imagem. Uma cidade “imaginariamente” modelar se tornou 199 200 SANTOS, A. C. A. Op cit. p.121-122 ALBUQUERQUE, J.A. O Racismo silencioso em escolas públicas de Curitiba: imaginário, poder e exclusão social. 2003. 114 f. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Federal do Paraná 201 Ibid. p.4 87 hegemônica em um discurso amplamente divulgado, seja para os locais quanto aos de fora. Aqui, o planejamento urbano e imagem da cidade devidamente planejada estão relacionados e de certa forma se complementam ou justificam. Curitiba - “renascida” no discurso de seus planejadores - tornou-se, em pouco tempo, a imagem do planejamento, a cobaia do “milagre brasileiro” na área de urbanismo. Entretanto, para se tornar reconhecida enquanto uma cidade planejada, isto é, para legitimar-se enquanto uma cidade moldada pelo planejamento urbano, sua imagem - especialmente a divulgada aos demais estados da nação e ao mundo - precisou ser devidamente e continuamente planejada. Através de um discurso devidamente construído, legitimado e amparado pelo Instituto de Planejamento, a imagem de Curitiba foi sendo moldada e se adaptando conforme fosse conveniente. De exemplo humanista, tornou-se cidade moderna, européia, ecológica e sustentável, em imagens restritas e cuidadosamente arquitetadas para serem “vendidas”. O sucesso dessa prática – o city marketing – contribuiu para que cidade continuasse sendo a síntese do planejamento. Curitiba precisaria continuar sendo constantemente planificada e reinventada para que seu espetáculo urbano continuasse gerando frutos através de sua imagem planejada e divulgada na grande mídia local, nacional e internacional. Como resultado, temos uma Curitiba amplamente destacada enquanto um exemplo urbano, uma invejável “cidade modelo”, entretanto, percebe-se que verdadeiramente modelares foram os modos de divulgação e construção de sua imagem em torno da imprensa, investidores, turistas e formadores de opinião. Para legitimar, reforçar e promover a aceitação do planejamento urbano seguiu-se a construção de um discurso que intentou promover uma identidade à Curitiba e ao curitibano, revelando de forma intensiva as positividades das transformações urbanas aqui realizadas. Para os habitantes, sobretudo descendentes de imigrantes europeus, tentou-se reforçar o espírito e imagem de uma cidade européia, proporcionando aceitação, orgulho e identificação com as ações dos planejadores, as quais foram aceitas e inseridas na sociedade curitibana sem muita resistência. Foi somente nos últimos anos que a imagem de Curitiba começou a ser efetivamente contestada, embora tal dissonância seja numericamente e expressivamente inferior à ressonância do discurso que enaltece a Curitiba planejada de primeiro-mundo. Dentre os poucos críticos e dissonantes, além de historiadores, sociólogos e geógrafos, 88 destaca-se Dalton Trevisan, contista curitibano reconhecido por sua ironia, sarcasmo e destaque dado à Curitiba: "vaca mugidora que pasta os lírios do campo e semeia fumegantes bolos verdes de sonho"202. No conto “Mistérios de Curitiba” o autor faz uma crítica ferrenha à transformação realizada em Curitiba, aos seus realizadores, ao marketing e às divulgações falaciosas sobre sua imagem: "Que fim ó Cara você deu à minha cidade a outra sem casas demais, sem carros demais, sem gente demais ó Senhor sem chatos de mais (...) quem sabe até uma boa cidade ai não chovesse tanto assim chove pedra das janelas do céu chove canivete dos telhados chovem mil goteiras na alma nesse teu calçadão de muito efeito na foto colorida (...) uma das três cidades do mundo de melhor qualidade de vida? depois ou antes de Roma? segundo uma comissão da ONU ora o que significa uma comissão da ONU não me façam rir curitibocas nem sejamos a esse ponto desfrutáveis por uma comissão de vereadores da ONU ó cidade sem lei capital mundial de assassinos no volante (...) a melhor de todas as cidades possíveis nenhum motorista pô respeita o sinal vermelho Curitiba européia do primeiro mundo cinqüenta buracos por pessoa em toda calçada Curitiba alegre do povo feliz essa é a cidade irreal da propaganda ninguém não viu não sabe onde fica falso produto do marketing político ópera bufa de nuvem fraude de arame cidade alegríssima de mentirinha povo felicíssimo sem rosto sem direito sem pão dessa Curitiba não me ufano (...) não proteste não corra não grite do ladrão ou do policial o primeiro tiro é na tua cara cinqüenta metros quadrados de verde por pessoa de que te servem se uma em duas vale por três chatos? (...) ai da cólera que espuma os teus urbanistas apostam na corrida de rato dos malditos carros (...) Não me venham de terrorismo ecológico (...) celebra cada gol explodindo rojão bombinha busca-pé mais o berro da corneta rouca ó mugido de vaca parida a isso chama resgate de memória não te reconheço Curitiba a mim já não conheço a mesma não é outro eu sou (...) 202 Do conto Crimes da Paixão (1978). TREVISAN, D. Em busca de Curitiba Perdida. 6a edição. Record: Rio de Janeiro, 2001. p.32 89 nenhum cão ou gato pelas tuas ruas todos atropelados um que se salve aos pulos da perninha dura pronto fervendo na panela do teu maloqueiro (...) nada com a tua Curitiba oficial enjoadinha narcisista toda de acrílico azul para turista ver da outra que eu sei (...) não me toca essa glória dos fogos de artifício só o que vejo é a tua alminha violada e estripada a curra do teu coração arrancado pelas costas verde? antes vermelha do sangue derramado de tuas bichas loucas e negra dos imortais pecados de teus velhinhos pedófilos (...) essa tua cidade não é minha bicho daqui não sou (...) Curitiba é apenas um assovio com dois dedos na língua Curitiba foi não é mais203 Trevisan não reconhece, concorda ou identifica com essa cidade que foi transformada, espetacularizada, celebrada e divulgada. Ao contrário, critica e aponta nuances de Curitiba que o discurso oficial jamais divulgaria, como a sua liderança nacional em acidentes de trânsito, as ruas esburacadas, a violência urbana, o clima extremamente úmido e todo o lado vermelho e negro de uma Curitiba que tentaram pintar de verde. Para Dalton, Curitiba não é como antes, devido à “cólera” de seus urbanistas que a transformaram-na num “falso produto do marketing político”, ele não consegue reconhecer a “Curitiba que foi”. Trevisan prefere não “viajar” nessa Curitiba feita para os turistas e para uma população “encantada”, mas em uma mais “real” e reconhecível204 Como conclusão, observa-se que Curitiba obteve êxitos e ônus com seu planejamento urbano e a conseqüente divulgação do mesmo. Se por um lado, tornou-se atraente e mundialmente reconhecida, proporcionando atração de investimentos e o desenvolvimento do Turismo; por outro, recebeu intensa migração, muitas vezes de migrantes indesejados, ocasionando inchaço populacional, exclusão social e degradação de sua periferia. A instituição de um discurso deveras homogêneo e restritivo se relaciona com essa tentativa de construir uma imagem ilusória de uma cidade que, para 203 Conto do livro Dinorá (1994). Ibid. pp. 85-90 “a que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja. (...) Curitiba das ruas de barro com mil e uma janeleiras e seus gatinhos brancos de fita encarnada no pescoço; da zona da Estação em que à noite um povo ergue a pedra do túmulo, bebe amor no prostíbulo e se envenena com dor-de-cotovelo; a Curitiba dos cafetões (...) Curitiba sem pinheiro ou céu azul pelo que vosmecê é - província, cárcere, lar - esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.” TREVISAN, D. Mistérios de Curitiba. Record: Rio de Janeiro,1979, p. 84 204 90 se destacar e diferenciar das demais metrópoles brasileiras, precisou esconder e/ou camuflar os problemas urbanos e divulgar-se de forma excessiva e generalizante. Os resultados e desenvolvimentos do Plano Diretor foram excessivamente divulgados e vangloriados como nenhuma outra medida ou ação da “história do planejamento urbano curitibano”. A divulgação e a construção da imagem de Curitiba – após 1966 – adquiriu tamanha intensidade e hegemonia, que em alguns momentos, encobre outras transformações e ações urbanas pela qual a cidade passou, ocultando também suas contradições e problemas sociais. A massificação de uma Curitiba modelar gerou um conformismo e acriticidade da população. A representação da capital paranaense tornou-se demasiadamente homogênea, como se houvesse apenas a cidade bonita, atrativa e organizada que é divulgada em manuais de urbanismo, folders turísticos e imprensa geral. Assim, problemas evidentes, contradições e medidas autoritárias e manipuladoras foram camuflados e despercebidos por grande parte dos curitibanos. O crescimento populacional intenso de Curitiba veio acompanhado do aumento da violência, dos crimes com morte, da pobreza e do favelamento de grandes regiões periféricas da cidade. Os problemas de trânsito e a quantidade de veículos em circulação apontam para uma falha estrutural do tão divulgado e inovador sistema de transporte. Com a intensa migração, a representação étnica curitibana revela-se cada vez mais plural e menos européia. Apesar de realmente possuir uma situação privilegiada na área de desenvolvimento urbano, cultural e humano, se comparada com outras grandes cidades brasileiras, Curitiba está longe de ser uma cidade ideal e se encontra ainda distante daquela imagem planejada para ser difundida nos meios de comunicação. O discurso e a publicidade decorrente do “sucesso” do planejamento urbano, promovido principalmente pelo IPPUC, fez de Curitiba uma vitrine para soluções urbanas e modelos criativos. Criou-se uma imagem ilusória de uma cidade imaginária que, para se destacar e diferenciar das demais metrópoles brasileiras, precisou esconder e/ou camuflar os problemas urbanos. E as demais imagens e representações de Curitiba? Como/Aonde ficam? Contradições, politicagem, falhas estruturais e exclusão social são aspectos negativos dessa política que fez o “planejamento da imagem de Curitiba” ao mesmo tempo em que a destacava como “imagem do planejamento”. Curitiba merece maiores 91 reflexões e críticas, sua imagem necessita ser desmistificada e “atualizada” para romper com essa forma homogênea e restrita de significar e destacar a cidade. Representações oficiais da cidade - com pretensões hegemônicas - são parciais, enfocam apenas alguns aspectos, desconsideram outros e praticamente ignoram as manifestações que contradigam a positividade da imagem. Logo, tornam-se necessárias interpretações que revelem Curitiba em sua multiplicidade, sem ocultar aspectos tão ou mais relevantes para o entendimento da especificidade e experiência histórica da cidade, quanto àquelas que o discurso oficial insiste em veicular e sobrepor. Assim como toda cidade, Curitiba “esconde” outras, não menos belas e inspiradoras, mas provavelmente diferentes da Curitiba do discurso de planejadores tecnocratas e prefeitos "revolucionários". Cidades distantes dessa maquiada e divulgada na grande mídia e restrita às imagens étnicas e verdes. Detrás dessa imagem moldada pelo planejamento e suas intenções, é possível descobrir uma Curitiba mais diversa e patente, passível de novas análises e reflexões, a qual se pretende continuar explorando e desvelando em pesquisas futuras. FONTES: BRAGA, R. Dois repórteres no Paraná / Rubem Braga e Arnaldo Pedroso d'Horta 2a. ed. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2001 p.14 Câmara municipal de Curitiba 1850-1900. Boletim do Instituto histórico,geográfico e etnográfico paranaense, Comemoração dos 300 anos de Curitiba, Curitiba, volume XLVIII,1993. Código de Posturas de Curitiba de 1861. In: Posturas Municipais: Curitiba, Castro, Ponta Grossa. Décadas de 1820 a 1860. MONUMENTA. Curitiba: Aos 4 ventos. vol. 1, nº3, 1998. p 107. CURITIBA S.A. Companhia de Desenvolvimento de Curitiba. Boletim de informações socioeconômicas 2006. Curitiba: Curitiba S.A.: 2006. CURITIBA. Lei n. 2828, de 10 de agosto de 1966. Dispõe sobre o Plano Diretor de Curitiba CURITIBA. 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