TRATAMENTO CIRÚRGICO DAS RÂNULAS PELA TÉCNICA DA MARSUPIALIZAÇÃO 316 TRATAMENTO CIRÚRGICO DAS RÂNULAS PELA TÉCNICA DE MARSUPIALIZAÇÃO RANULA SURGICAL TREATMENT BY THE MARSUPIALIZATION TECHNIQUE Daniel Luiz Gaertner ZORZETTO * Clóvis MARZOLA ** João Lopes TOLEDO-FILHO * Marcelo Rodrigues AZENHA *** Lucas CAVALIERI-PEREIRA *** Luciana Pastori da SILVA-ROSA *** ______________________________________ * Professores de Cirurgia e Traumatologia BMF do Curso de Especialização e Residência promovido pela APCD Regional de Bauru e Hospital de Base, da Associação Hospitalar de Bauru, Bauru, São Paulo, Brasil. ** Professor Titular aposentado de Cirurgia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (USP). Professor de Cirurgia e Traumatologia BMF do Curso de Especialização e Residência promovido pela APCD Regional de Bauru e Hospital de Base, da Associação Hospitalar de Bauru, Bauru, São Paulo, Brasil. *** Residentes do Curso de Especialização e Residência promovido pela APCD Regional de Bauru e Hospital de Base, da Associação Hospitalar de Bauru, Bauru, São Paulo, Brasil. TRATAMENTO CIRÚRGICO DAS RÂNULAS PELA TÉCNICA DA MARSUPIALIZAÇÃO 317 RESUMO Rânula é uma lesão de origem traumática que se origina a partir da ruptura de um ou mais ductos das glândulas salivares, ocorrendo a retenção ou extravasamento de muco na região do assoalho bucal. O propósito deste trabalho é demonstrar a técnica cirúrgica de marsupialização na resolução de um caso de retenção salivar do assoalho bucal, propiciando uma conexão direta entre a cavidade da lesão e uma cavidade anatômica adjacente. Isso tudo com o objetivo de se obter uma redução espontânea do tamanho do lúmen, evitando uma nova obliteração do ducto da glândula salivar. ABSTRACT Ranula is a traumatic lesion and its origins become from the rupture of one or more salivary ducts, with mucous retention or leaking in the floor of the mouth. The aim of the present study is to demonstrate the marsupialization surgical technique in the treatment of mouth floor mucous retention. This technique permit a direct connection between the lesion and a joint anatomical cavity, with the purpose of obtain a spontaneous reduction of the lumen e to avoid recurrent salivary duct obliteration. Unitermos: Rânula; Glândulas salivares; Marsupialização. Uniterms: Ranula; Salivary glands; Marsupialization. INTRODUÇÃO Localizada no assoalho da boca, é uma lesão benigna inicialmente descrita (BRUITT, 1875) como sendo um tumor cístico com volume viscoso em seu interior e, se desenvolvendo a partir de uma obstrução do ducto de Wharton. A palavra rânula é derivada do latim, significando rã, por apresentar uma semelhança com o ventre deste animal (MANDEL, 1996 e MARZOLA, 2005). Sua etiopatogenia é o traumatismo local, podendo provocar a ruptura ou obstrução do ducto da glândula salivar acometida, ocorrendo extravasamento e acúmulo de muco salivar no interior do tecido conjuntivo na região do assoalho bucal (REGEZI; SCIUBA, 1991 e MARZOLA, 2005). O conteúdo líquido pode localizar-se subjacente à mucosa do assoalho da boca, acima do músculo milohióideo, caracterizando a rânula bucal, ou ainda estender-se entre os espaços naturais do músculo, permitindo o extravasamento do muco para os planos de tecido mole supra-hióideos, resultando na rânula profunda ou mergulhante (GOSSETT; SMITH; SULLIVAM et al., 1999 e MARZOLA, 2005). Diferentes patologias podem acometer as glândulas salivares, sendo o diagnóstico diferencial dos processos patológicos de origem inflamatória, alérgica, auto-imune, neoplásica, cística ou genética fundamentais na determinação da lesão (BEZERRA; SAMPAIO; CÂMARA, 1999 e MARZOLA, 2005). Apesar do diagnóstico diferencial clínico, em muitas situações, ser fácil, em determinados casos apenas o exame microscópico possa revelar a verdadeira natureza da lesão (LAUAND; ACETOZE; LIA et al., 1986 e MARZOLA, 2005). TRATAMENTO CIRÚRGICO DAS RÂNULAS PELA TÉCNICA DA MARSUPIALIZAÇÃO 318 As rânulas apresentam como características a base séssil ou pediculada, limites precisos e uma superfície lisa. São geralmente assintomáticas, podendo evoluir lenta ou rapidamente, apresentando uma coloração azulada se localizadas superficialmente, ou são da coloração da mucosa quando encontradas profundamente nos tecidos (CASTRO, 1995 e MARZOLA, 2005). De acordo com sua localização, na maioria das vezes são encontradas em apenas um lado do assoalho bucal, dando a falsa impressão de bilateralidade quando apresenta um volume exagerado. Nessa situação, pode ocorrer o deslocamento da língua, causando dificuldade de fonação, mastigação e deglutição (LAUAND; ACETOZE; LIA et al., 1986 e MARZOLA, 2005). Uma incisão e drenagem, a excisão da lesão associada ou não à remoção da glândula envolvida, diferentes técnicas de marsupialização, criocirurgia, radiação, o uso de soluções esclerosantes, micromarsupialização, a laser terapia, além da injeção de hidrocoloides no interior da lesão, são as modalidades de tratamento propostas na literatura (CARABBA, 1984; LAUAND; ACETOZE; LIA et al., 1986; MINTZ, 1994; YOSHIMURA; OBARA; KONDOH et al., 1995; DELBEM; CUNHA; VIEIRA et al., 2001 e MARZOLA, 2005). O objetivo deste trabalho é demonstrar a técnica de marsupialização como opção de tratamento seguro e eficaz nos casos de rânula, enfatizando a necessidade do acompanhamento pós-operatório para observar uma possível recidiva da lesão. RELATO DE CASO Paciente com 16 anos de idade, gênero feminino, compareceu ao Ambulatório de Cirurgia e Traumatologia BMF do Hospital de base da Associação Hospitalar de Bauru, apresentando aumento volumétrico no assoalho bucal com evolução de 28 dias. Relatava dificuldade de mastigação e fonação, tendo sido submetida a procedimento cirúrgico prévio para incisão e drenagem desta mesma alteração do assoalho bucal há 14 dias. Não apresentava alterações sistêmicas e, ao exame físico foi observado aumento volumétrico unilocular pelo lado esquerdo do assoalho bucal, estendendo-se da linha mediana da mandíbula até a região do segundo molar. Apresentava limites precisos, consistência mole, superfície lisa, coloração azulada, medindo aproximadamente 3,5 cm de diâmetro, a lesão apresentou como diagnóstico um fenômeno de retenção salivar do assoalho bucal, ou a tão chamada rânula (Fig. 1). O tratamento proposto foi a marsupialização da lesão sob anestesia local. Durante o procedimento cirúrgico, a membrana que reveste a lesão foi rompida e todo o muco contido em seu interior extravasado (Fig. 2). Com o auxílio de uma tesoura romba a lesão foi dissecada, suas bordas evertidas e então suturadas no assoalho bucal com a utilização do fio de Poliglactina 910, escala 4-0 (Vycril, Johnson & Johnson) (Figs. 3 e 4). O tecido removido foi enviado ao laboratório de patologia do Hospital de Base, confirmando o diagnóstico de rânula. Os pontos de sutura foram mantidos até a sua completa reabsorção (Fig. 5). A paciente encontra-se em acompanhamento ambulatorial sem sinais de recidiva da lesão após um ano do procedimento cirúrgico. TRATAMENTO CIRÚRGICO DAS RÂNULAS PELA TÉCNICA DA MARSUPIALIZAÇÃO Fig. 1- Aspecto clínico da lesão no assoalho bucal. Fig. 2- Drenagem do muco durante o procedimento cirúrgico. Fig. 3- Dissecção da lesão com tesoura de ponta romba. 319 TRATAMENTO CIRÚRGICO DAS RÂNULAS PELA TÉCNICA DA MARSUPIALIZAÇÃO 320 Fig. 4- Aspecto do pós-operatório imediato com a lesão marsupializada. Fig. 5- Pós-operatório de 14 dias com fio de sutura em posição. DISCUSSÃO Diferentes modalidades terapêuticas têm sido propostas para o tratamento da rânula, como uma simples drenagem da lesão com aspiração de seu conteúdo mucoso, excisão apenas da glândula sublingual por via intra ou extra oral (YOSHIMURA; OBARA; KONDOH et al., 1995), excisão da rânula e da glândula sublingual em um só tempo cirúrgico (BRIDGER; CARTER; BRIDGER, 1989), marsupialização (MARZOLA, 2005), marsupialização e preenchimento da cavidade com gaze umedecida em soluções antibióticas ou ainda hidrocoloides (LEITE; FARIA; CARNEIRO, 2006), TRATAMENTO CIRÚRGICO DAS RÂNULAS PELA TÉCNICA DA MARSUPIALIZAÇÃO 321 micromarsupialização (DELBEM; CUNHA; VIEIRA, et al., 2001), criocirurgia, radiação e injeção de soluções esclerosantes (CARABBA, 1984) e, a laser terapia (MINTZ, 1994). Neste relato foi observada a idade da paciente e o tipo de rânula presente, sendo instituída a técnica de marsupialização como tratamento, por apresentar bons resultados clínicos nestas situações. Estes autores acreditam que o preenchimento da cavidade com gaze embebida em solução antibiótica não possa apresenta vantagens quando comparada à técnica da marsupialização simples por esta última apresentar resultados satisfatórios na clínica diária. Foram estudados 15 casos de rânula que estavam presentes em pacientes na idade entre 1 e 35 anos, com maior incidência em indivíduos do gênero feminino (9 casos ou 60%) com predominância na segunda década de vida (7 casos ou 46,7%) (BEZERRA; SAMPAIO; CÂMARA, 1999). Estes autores não encontraram diferença de predominância quanto ao lado do assoalho bucal acometido pela lesão. No caso apresentado, a lesão estava presente do lado esquerdo do assoalho bucal numa paciente com 20 anos de idade. As características da lesão encontrada neste trabalho assemelhamse aos achados apresentando a rânula com limites precisos, consistência mole, superfície lisa, mucosa delgada de revestimento, muco em seu interior, indolor à palpação, coloração azulada e unilocular (CASTRO, 1995). As etiologias desta lesão são os traumatismos freqüentes, causando um extravasamento imediato de muco das glândulas afetadas, ocorrendo o seu acúmulo nos tecidos do assoalho bucal. Dependendo da glândula lesada, o acúmulo de muco pode ser exagerado, com algumas lesões medindo até seis centímetros de diâmetro (LAUAND; ACETOZE; LIA et al., 1986). Os autores deste estudo realizaram a marsupialização de uma rânula que apresentava aproximadamente 3,5 centímetros de diâmetro. O diagnóstico da rânula é essencialmente clínico quando a lesão está localizada superficialmente, devendo suas características ser observadas atentamente para que seja possível a realização do diagnóstico diferencial da rânula com o cisto da fenda branquial, cisto da paratireóide, cisto dermóide, higroma cístico, teratoma benigno, ou ainda cisto do ducto tireoglosso (MIZUNO; YAMAGUCHI, 1993 e MARZOLA, 2005). Os exames por imagem, como a radiografia oclusal da mandíbula, os sialográficos, a tomografia computadorizada e, a ultrassonografia são descritos na literatura como sendo importantes na detecção de possíveis obstruções dos ductos salivares e, propostos para a definição do diagnóstico (MARZOLA, 2005). O acompanhamento clínico do paciente submetido à excisão da rânula, independentemente da técnica utilizada, deve ser sempre realizado para ser observada a presença de possíveis recidivas da lesão. CONCLUSÕES Pode-se concluir com a revista da literatura sobre o assunto, além da apresentação do caso clínico que a rânula: 1. É uma lesão que apresenta diferentes modalidades de tratamento. 2. É a marsupialização uma técnica segura, de fácil realização e, apresentando um prognóstico favorável. 3. Deve ter o acompanhamento pós-operatório do paciente para a verificação de uma possível recidiva da lesão é muito importante. TRATAMENTO CIRÚRGICO DAS RÂNULAS PELA TÉCNICA DA MARSUPIALIZAÇÃO 322 REFERÊNCIAS * BEZERRA, A. R.; SAMPAIO, R. K. P. L.; CÂMARA, K. Rânula- aspectos clínicos e histopatológicos de 15 casos. Rev. bras. Odontol., v. 56, n. 6, p. 298302, 1999. BRIDGER, A. G.; CARTER, P.; BRIDGER, G. P. Plunging ranula: literature review and report of three cases. Aust. N. Z. J. Surg., v. 59, p. 945-8, 1989. BRUITT, E. Vademecum Del Chirurgo: Manuale Del la Chirurgia Moderna. Milano: Ed. F. Vallardi, 1876. CARABBA, V. Sclerosing injections in surgery. Ann. Surg., v. 99, n. 4, p. 668-75, 1984. CASTRO, A. L. Estomatologia. 2a ed. São Paulo: Ed. Santos, 1995. DELBEM, A. C. B.; CUNHA, R. F.; VIEIRA, A. E. M. et al., Tratamento de fenômenos de retenção salivar em crianças pela técnica da micromarsupialização. Rev. Assoc. paul. Cir. Dent., v. 55, n. 1, p. 51-4, 2001. GOSSETT, J. D.; SMITH, K. S.; SULLIVAN, S. M. et al., Sudden sublingual and submandibular swelling. J. oral. Maxillofac. Surg., v. 57, p. 1353-6, 1999. LAUAND, F.; ACETOZE, P. A.; LIA, R. C. C. et al. Rânula do assoalho da boca. Relato de caso. Rev. Assoc. paul. Cir. Dent., v. 40, n. 5, p. 383-7, 1986. LEITE, A. V.; FARIA, D. L. B.; CARNEIRO, L. J. Tratamento de rânula pela marsupialização: relato de caso. Rev. Odonto Ciência, v. 21, n. 53, p. 289-91, 2006. MANDEL, L. Ranula, or, what´s in a name? N. Y. St. dent. J., v. 62, p. 37-9, 1996. MARZOLA, C. Fundamentos de Cirurgia Buco Maxilo Facial. CDR, Bauru: Ed. Independente, 2005, 2237 p. MINTZ, S. Carbon dioxide laser excision and vaporization of nunplunging ranulas: a comparison of two treatment protocols. J. oral Maxillofac. Surg. v. 52, p. 370-2, 1994. MIZUNO, A.; YAMAGUCHI, K. The plunging ranula. Int. J. oral Maxillofac. Surg., v. 22, p. 113-5, 1993. REGEZI, J. A.; SCIUBA, J. I. Patologia bucal: correlações clínico patológicas. Doenças das glândulas salivares. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara/Koogan, 1991, p. 166-8. YOSHIMURA, Y.; OBARA, S.; KONDOH, T, et al., A comparison of three methods used for treatment of ranula. J. oral Maxillofac. Surg., v. 53, p. 280-2, 1995. ______________________________________ * De acordo com as normas da ABNT. o0o