Música e inclusão: a formação de professores de música para o trabalho com alunos com deficiência visual 1 Raphael Ota , Vânia Gizele Malagutti2 Resumo: Este trabalho tem por objetivo relatar a experiência com o curso de extensão “Música para pessoas com deficiência visual: propostas de ensino”, que contemplou professores e estudantes de graduação em música. O curso, de 40 horas, com encontros quinzenais, foi elaborado e executado como estágio supervisionado, sendo decorrente das reflexões a cerca dos projetos de extensão oferecidos desde 2008 na Universidade Estadual de Maringá que oportunizam à pessoas com deficiência visual o aprendizado sistematizado em música. A cada ano, há dificuldades em manter o projeto, uma vez que há um numero reduzido de número de pessoas desejam trabalhar com esse público. Muitas vezes, há o interesse, mas sentem-se inseguros por não ter conhecimentos nessa área. Diante disso, o curso procurou trazer discussões em relação ao que é inclusão e apresentou possibilidades de ensino de música para pessoa com deficiência visual, experimentando e construindo materiais adaptados e fazendo a iniciação à Musicografia Braille. O curso foi prático e teórico, tendo momentos para leituras de partituras em Braile, vivencia de atividades práticas com adaptações para aplicação com pessoas cegas, bem como momentos de discussão e reflexão sobre o que é inclusão e o papel do educador nessas condições. Como fundamentação para o trabalho foi utilizado autores como Bonilha (2006), Pletsch (2010) e Souza e Ota (2011). Palavras chave: Inclusão, Educação Musical, Deficiência Visual Introdução Desde 2008, o curso de Educação Musical da Universidade Estadual de Maringá (UEM), oferece um Desde 2008, o Departamento de Música (DMU) oferece cursos de extensão às pessoas com deficiência visual. O curso surgiu a partir da procura desse público por aulas de música. Até aquele momento, não havia ninguém no Departamento com experiência nessa área, e, como Araldi et all (2009), quando procurados pelos deficientes visuais, o DMU “ainda não possuía profissionais capacitados para trabalhar com essa especificidade, mas os docentes do DMU estavam dispostos a aceitar a incumbência e buscar soluções para viabilizar esse novo fazer” (ARALDI et all, s/n. 2009). Dessa forma, desde o inicio do projeto, as aulas são ministradas por acadêmicos do curso de Graduação em Música e coordenadas por professores da Educação Musical. No decorrer dos anos, o projeto ganhou reformulações e hoje oferece aulas de instrumento, Musicografia Braille e pré-vestibular de música para pessoas cegas e baixa-visão. 1 Graduando do curso de Licenciatura em Música da Universidade Estadual de Maringá. [email protected] 2 Professora de Educação Musical na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Graduada em Educação Musical (UEM). Especialização em Educação Especial (UEM). Mestranda em Educação Musical (UFPR). [email protected] O projeto já possibilitou também pesquisas como a de Malagutti (2010), que relatou como se deu o desenvolvimento do projeto de 2008 a 2010, analisando como se deu as interlocuções entre teoria e práticas pedagógicas nesse período. Ota (2011), em sua pesquisa, ouviu pessoas com deficiência visual participantes do projeto, investigando questões sobre o aprendizado musical. Além de proporcionar à comunidade com deficiência visual a possibilidade de estudar música de maneira sistematizada, o curso também oportuniza aos estudantes de graduação possibilidades de exploração de um campo de trabalho ainda carente de profissionais especializados. Embora o número de trabalhos na área de Educação Especial e Música esteja crescendo gradualmente, no curso de graduação em Música da UEM, o número de voluntários para o projeto ainda é pequeno para a demanda. Muitas vezes, a insegurança por não conhecer esse campo de trabalho, impede a aproximação dos estudantes ao projeto. Há também os profissionais que trabalham com aulas em escolas de música ou de ensino regular, e que, quando procurados por pessoas com deficiência visual, atendem a esse público. Entretanto, como relata Souza e Ota (2010), a partir de pesquisas na área, concluem que “embora haja relatos de professores empenhados na inclusão desse aluno, a escassez de estudos e o desconhecimento do professorado sobre o assunto é uma barreira que dificulta a sua concretização” (SOUZA et all, 2010) Diante disso é que o curso de extensão “Música para pessoas com deficiência visual: propostas de ensino” se justifica. Oferecido pelo Departamento de Música (DMU) da UEM, no corrente ano, com 40 horas de duração distribuídos em encontros quinzenais, foi direcionado para professores e estudantes de música que pretendem trabalhar com a inclusão de alunos com deficiência visual em suas aulas. Abordou conteúdos referentes à materiais didáticos adaptados, iniciação a Musicografia Braille 3 e leituras e discussões referentes à inclusão. Além da importância da formação de professores que atendam os alunos com deficiência visual em escolas particulares de música, há ainda a preocupação com a inclusão desses alunos nas aulas de música do ensino regular. Isso porque, a partir da Lei 11.769/98, que instituiu a obrigatoriedade do conteúdo de música nas escolas, todos os alunos têm o direito de ter acesso ao ensino de música. Nesse sentido, é importante termos profissionais que conheçam os caminhos para buscar conhecimento nessa área. 3 A Musicografia Braille é a escrita musical em relevo utilizada por pessoas cegas, derivada do Sistema Braille de leitura e escrita criada em 1825 por Louis Braille (1809-1852) e é um recurso que proporciona uma independência para o músico cego. Conteúdos abordados A partir da experiência durante os quatro anos de graduação participando no projeto de extensão da UEM de música para pessoas com Deficiência Visual, somadas às reflexões acerca da importância da formação de professores de Educação musical junto à alunos com deficiência visual, a opção do Estágio Supervisionado foi trabalhar com um curso de capacitação de professores. O objetivo foi possibilitar caminhos para a reflexão e busca de conhecimentos para que trabalhar com música com este público. Configurado em seis encontros quinzenais de quatro horas/aula, o curso foi aberto oferecido aos alunos do curso de Educação Musical da UEM de diferentes séries (do primeiro ao quarto ano), bem como profissionais da área. A divulgação foi feita em escoas de música da cidade e entre professores da escola regular de ensino. Oito estudantes se inscreveram, mas, nenhum profissional que já trabalhe com música em instituições de ensino ou escolas de música. Dessa forma, o curso atendeu oito participantes que, até o momento, não haviam tido experiências com a inclusão de alunos com deficiência visual nas aulas de música. O curso oportunizou um laboratório onde esses participantes puderam conhecer, debater e refletir metodologias de ensino mais condizentes ao universo de um aluno cego. Sobre os conteúdos abordados, a Musicografia Braille esteve presente em todos os encontros. Essencial para sistematização dos conhecimentos musicais dos alunos cegos, Segundo Bonilha (2006), educadores dispostos a desenvolver um trabalho musical com alunos com deficiência visual devem conhecer as peculiaridade dessa escrita. Partindo dessa premissa, o curso introduziu os elementos básicos da grafia musical Braille, estes suficientes para os participantes interpretarem e compreenderem ou transcreverem uma partitura básica. Os conteúdos abordados foram notas musicais de dó a si em todos os valores de tempo, pausas, sinais de oitava, fórmula de compasso, intervalos, ligaduras e sinais de dinâmicas. Com isso, outro ponto a ser destacado deste curso foi a tarefa de pensar em formas de ensinar a Musicografia Braille. Atrelado à Musicografia Braille, foi apresentado e confeccionado materiais didáticos a serem utilizados com alunos cegos iniciantes em aulas de música. Estes materiais são decorrentes de pesquisas feitas por Souza e Ota (2011) nas aulas do projeto da UEM no ano de 2010. Esses materiais, feitos com materiais que possibilitam a exploração manual, exploram atividades de leitura e escrita (solfejo e ditado), além de partituras não convencionais confeccionadas com tinta de alto-relevo e barbante consistem. Segundo Bonilha (2006, p.5) “geralmente, os professores são formados para lecionarem aos alunos que aprendem a ler em tinta, e por isso, a metodologia de trabalho por eles adotada se baseia nas especificidades desse código” resultando na confecção de materiais didáticos referentes a esta grafia. Contudo, Souza e Ota (2011) explicam que é sensato elaborar materiais didáticos condizentes com a grafia Braille, devido as suas particularidades, como: espacialização e horizontalidade da partitura. Esta problemática também é tema da pesquisa de conclusão de curso de Ota (2011), que afirma ser possível, por meio dos materiais confeccionados no contexto Braille, obter resultados igualmente eficientes na aprendizagem em um período mais curto de tempo. Houve também a preocupação em discutir temas relacionados a inclusão de alunos com deficiência visual em aulas de música que tenham alunos videntes e no ensino regular. Esse é o tema a ser abordado por Malagutti (2011), em sua pesquisa de mestrado, que tem por objetivo investigar como são as aulas de música no ensino regular com alunos com deficiência visual. Segundo Pletsch (2010), há a necessidade de estudos diagnósticosprescritivos, para que os resultados possam ser usados para o desenvolvimento de ações que contribuam para a superação das dificuldades que os professores sentem frente à inclusão. Considerações finais O curso buscou proporcionar conhecimentos que, ainda que breves, possam mobilizar esses futuros profissionais a buscarem conhecimentos na área de inclusão. Infelizmente, o currículo de muitos cursos de graduação em Música não proporciona conteúdos relativos à Educação Especial. Entretanto, segundo Pletsch (2010), é importante possibilitar conhecimento e condições de trabalho aos profissionais da educação, para que possam realizar mediações pedagógicas que favoreçam o processo de ensino-aprendizagem dos alunos com necessidades educacionais especiais, assim como dos demais alunos. Para os envolvidos na coordenação e aplicação das aulas do projeto, as aulas possibilitaram reflexões e discussões sobre diversos aspectos, como, por exemplo, a sistematização e fundamentações para atividades já aplicadas com pessoas com deficiência visual. Além disso, possibilitou ao ministrante o contato com a formação de professores, ampliando sua experiência no ensino da música. Pretende-se que cursos como esse seja realizados novamente, e, se possível, abrangendo um público maior, como professores de escolas de música e de ensino regular. Referências BONILHA, Fabiana Fator Gouveia. Leitura musical na ponta dos dedos: caminhos e desafios do ensino de musicografia Braille na perspectiva de alunos e professores. 2006. 226 f. Dissertação (Mestrado em Música) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, 2006. SIMÃO, Ana Paula Martos; ARALDI, Juciane; HIROSE, Kiyomi; OTA, Raphael; Fugimoto, Tatiane Andressa da Cunha. Musicografia Braille: instrumento de inserção e formação profissional. In: SIMPÓSIO PARANAENSE DE EDUCAÇÃO MUSICAL, 15o, 2009, Anais... Londrina: 2009. SOUZA, Rafael Vanazzi Moreira; OTA, Raphael. Didática musical para alunos com deficiência visual: material didático-musical e dinâmicas especiais. In: ENCONTRO REGIONAL DA ABEM SUL, 14. 2011, Maringá. Anais... Maringá, UEM, 2011. 1 CD-ROM. OTA, Raphael. Educação Musical e Deficientes Visuais: um estudo do Projeto Música para Deficientes Visuais da UEM. s/p. Trabalho de conclusão de curso para obtenção de título de Educador Musical – UEM: 2011 PLETSCH, Márcia Denise. Repensando a inclusão escolar: diretrizes políticas, práticas curriculares e deficiência intelectual. Rio de Janeiro: Nau: Edur, 2010. MALAGUTTI, Vânia Gizele. Música e Deficiência Visual: Uma interlocução entre teoria e prática no Projeto "Música para Deficientes Visuais" da UEM. 2010, 86 pag. Monografia da Pós Graduação para obtenção de título de Especialista em Educação Especial – UEM: 2010