Vol. 38, n.º 3 Maio / Junho 2007 EDITORIAL Daniel Virella ARTIGOS ORIGINAIS ESTUDO PILOTO PARA VALIDAÇÃO DE UM PROTOCOLO DE RASTREIO OFTALMOLÓGICO INFANTIL EM CUIDADOS DE SAÚDE PRIMÁRIOS Fátima Pinto, Sandra Rodrigues, Bernardete Pessoa, Pedro Pinto Coelho RASTREIO OFTALMOLÓGICO INFANTIL NOS CUIDADOS PRIMÁRIOS Fátima Pinto, Isabel Guerra, Íris Maia, Sandra Rodrigues XXXV 93 99 SÉPSIS POR FUNGOS NO RECÉM-NASCIDO DE MUITO BAIXO PESO – CASUÍSTICA DE TREZE ANOS Sónia Pimentel, José Nona, Teresa Costa, António Marques Valido 103 PREVALÊNCIA DE TUBERCULOSE EM CRIANÇAS DE RISCO RESIDENTES NA AMEIXOEIRA, LISBOA Sónia Pimentel, Laura Teixeira, Luís Varandas, Amélia Pimpão 109 CASOS CLÍNICOS INSUFICIÊNCIA RENAL DE EVOLUÇÃO SILENCIOSA Sara Diogo Santos, Marta Aguiar, Erica Mendonça, Margarida Almeida 114 SEQUESTRO PULMONAR COM DIAGNÓSTICO PRÉ-NATAL. CASO CLÍNICO Artur Sousa, João Costa, Lincoln Justo da Silva 117 SOCIEDADE PORTUGUESA DE PEDIATRIA – CONSENSOS E RECOMENDAÇÕES CONSENSO PARA O TRATAMENTO NUTRICIONAL DA LEUCINOSE Sociedade Portuguesa de Doenças Metabólicas 120 CRÍTICA DE LIVRO “ETIQUETA PARA CRIANÇAS OU COMO SER AMIGO DE TODOS” Maria da Graça de Campos Andrada 129 CRÍTICA DE SÍTIOS NA INTERNET ORPHANEWSEUROPE Daniel Virella 130 CARTA AO DIRECTOR 131 NOTÍCIAS PROGRAMA 8º CONGRESSO NACIONAL DE PEDIATRIA NORMAS DE PUBLICAÇÃO XXXVII XL XLIII ISSN 0873-9781 ACTA PEDIÁTRICA PORTUGUESA Vol 38 Nº 3 Maio – Junho 2007 (Orgão Oficial da Sociedade Portuguesa de Pediatria) www.spp.pt [email protected] Fundador Carlos Salazar de Sousa CORPO EDITORIAL Conselho Científico (triénio 2005-2007) Aguinaldo Cabral Ana Cadete Ana Medeira Ana Xavier Carlos Figueiredo Eunice Trindade Helena Jardim Helena Porfírio Hercília Guimarães João Gomes-Pedro José Frias Bulhosa José Gonçalo Marques Libério Ribeiro Lucília Norton Luísa Guedes Vaz Manuel Fontoura Maria do Carmo Vale Maria José Vieira Miguel Coutinho Olavo Gonçalves Paolo Casella Rosa Gouveia Sílvia Álvares Director João M. Videira Amaral - Lisboa Director Adjunto Álvaro de Aguiar - Porto Editores Associados Jorge Amil Dias - Porto Jorge Saraiva - Coimbra Luís Pereira-da-Silva - Lisboa Coordenador de Edição Daniel Virella - Lisboa Secretariado Maria Júlia Brito (Sociedade Portuguesa de D. Metabólicas) (Secção de Reabilitação Pediátrica da SPMFR) (Sociedade Portuguesa de Genética Humana) (Grupo Port. de Oftalmologia Ped. e Estrabismo) (Secção de Medicina do Adolescente) (Secção de Gastrenterologia e Nutrição) (Secção de Nefrologia) (Secção de Pediatria Ambulatória) (Secção de Neonatologia) (Secção de Educação Médica) (Ordem dos Médicos Dentistas) (Secção de Infecciologia) (Secção de Imuno-Alergologia) (Secção de Hematologia e Oncologia) (Secção de Pneumologia) (Secção de Endocrinologia) (Secção de Cuidados Intensivos) (Secção de Reumatologia) (Subcomissão de ORL Pediátrica da SPORL) (Sociedade Portuguesa de Neuropediatria) (Sociedade Portuguesa de Cirurgia Pediátrica) (Secção de Pediatria do Desenvolvimento) (Secção de Cardiologia) Editores Correspondentes (Países de Língua Oficial Portuguesa) Luís Bernardino - Angola Paula Vaz - Moçambique Renato Procianoy - Brasil Directores ex-officio (Revista Portuguesa de Pediatria e Puericultura, Revista Portuguesa de Pediatria e Acta Pediátrica Portuguesa) Carlos Salazar de Sousa Mário Cordeiro Maria de Lourdes Levy Jaime Salazar de Sousa António Marques Valido João Gomes-Pedro Presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria Gonçalo Cordeiro Ferreira Missão da APP: A APP, sucessora da Revista Portuguesa de Pediatria, é uma revista científica funcionando na modalidade de revisão prévia dos textos submetidos ao corpo editorial por colegas peritos em anonimato mútuo (peer review). É dirigida essencialmente a pediatras (vertentes médico-cirúrgica) e a médicos em formação pós-graduada para obtenção das respectivas especialidades no pressuposto de que os conteúdos interessam a outros médicos e profissionais interessados na saúde da criança e adolescente inseridos no respectivo meio familiar e social. A APP pretende abarcar um vasto leque de questões sobre investigação, educação médica, pediatria social, prática clínica, temas controversos, debate de opiniões, normas de actuação, actualização de temas, etc. São adoptadas diversas modalidades de divulgação: editoriais, espaços de discussão, artigos originais, artigos sobre avanços em pediatria, resumos de estudos divulgados em eventos científicos, notícias sobre eventos científicos e organismos estatais e não estatais devotados à criança e adolescente. A revista científica Acta Pediátrica Portuguesa (APP) (ISSN 0873-9781) é propriedade da Sociedade Portuguesa de Pediatria, com responsabilidade administrativa da respectiva Direcção. A publicação é bimestral com todos os direitos reservados. A coordenação dos conteúdos científicos é da responsabilidade do corpo editorial da APP (Director e Director Adjunto, Editores Associados, Coordenador de Edição e Conselho Editorial). A responsabilidade dos textos científicos publicados pertence aos respectivos autores, não reflectindo necessariamente a política da SPP. 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Rua Comandante Oliveira e Carmo, 18-C, Cova da Piedade, 2805-212 Almada – Telef.: 212 744 607 – Fax: 212 743 190 – e-mail: [email protected] • Tiragem: 3000 Exemplares • Correspondência: Sociedade Portuguesa de Pediatria – Rua Amilcar Cabral, 15, r/c I – 1750-018 Lisboa Parcerias: Danone • Merck Sharp & Dohme • Milupa Portuguesa • Nestlé Portugal • Schering-Plough XXXI A Direcção da Sociedade recomenda a utilização do espaço virtual da S.P.P. na Internet, que poderá ser acedido através do endereço www.spp.pt Este projecto existente on-line desde 1997, foi desenvolvido com o intuito de tornar acessível a todos os membros da comunidade pediátrica um conjunto de informações detalhadas e permanentemente actualizadas. As áreas de consulta actualmente defenidas são: www.spp.pt Apresentação institucional da SPP www.spp.pt/ app Edição virtual da Acta Pediátrica Portuguesa com total renovação bimestral www.spp.pt/ agenda Agenda de todos os eventos pediátricos, nacionais e internacionais, para os próximos 12 meses de que a S.P.P. tem conhecimento. Referência ainda aos eventos dos últimos 3 meses e aos posteriores ao ano calendarizado. www.spp.pt/ base Base de dados de resumos de trabalhos na área pediátrica desde 1998, organizada de forma acessível e pesquisável através de Motor de Busca, www.spp.pt/ biblioteca Levantamento e listagem dos títulos existente na Biblioteca tradicional da S.P.P. e que poderão ser consultados na sua Sede. www.spp.pt/ seccoes Informação detalhada sobre cada uma das Secções da S.P.P., já referenciadas na área institucional. Comporta informação específica para profissionais e distinta para não-profissionais. www.spp.pt/ tecnoped Área de informação geral, técnica para pediatras, com a inclusão de legislação, formatos de candidaturas, estatutos e muito mais, que complementará a já fornecida por cada uma das Secções da S.P.P. www.spp.pt/ pais Área de informação mais específica para os pais, com referências a legislação contactos úteis e informações práticas, idealizada de modo a fornecer informação mais apropriada e certificada, muito frequentemente solicitada. www.spp.pt/ associa Disponibilização de espaço e meios para representação virtual de cada uma das associações "amigas da criança" existentes no nosso país. www.spp.pt/ uvp Área da Unidade de Vigilância Pediátrica da S.P.P., onde pode consultar tudo sobre a Unidade e os estudos específicos em curso. www.spp.pt/ socios Novas inscrições e actualização da inscrição na S.P.P. ou assinatura da APP Ficamos a aguardar a vossa visita, esperando que possam usufruir de todo o investimento feito de um modo rápido e confortável, esperando fazer deste espaço um ponto de encontro e referência para todos os Pediatras. À vossa disposição… sempre! ÍNDICE ACTA PEDIÁTRICA PORTUGUESA EDITORIAL Daniel Virella. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XXXV ARTIGOS ORIGINAIS Estudo piloto para validação de um Protocolo de Rastreio Oftalmológico Infantil em Cuidados de Saúde Primários Fátima Pinto, Sandra Rodrigues, Bernardete Pessoa, Pedro Pinto Coelho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Rastreio Oftalmológico Infantil nos Cuidados Primários Fátima Pinto, Isabel Guerra, Íris Maia, Sandra Rodrigues. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sépsis por fungos no recém-nascido de muito baixo peso – casuística de treze anos Sónia Pimentel, José Nona, Teresa Costa, António Marques Valido . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Prevalência de tuberculose em crianças de risco residentes na Ameixoeira, Lisboa Sónia Pimentel, Laura Teixeira, Luís Varandas, Amélia Pimpão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . CASOS CLÍNICOS Insuficiência renal de evolução silenciosa Sara Diogo Santos, Marta Aguiar, Erica Mendonça, Margarida Almeida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sequestro pulmonar com diagnóstico pré-natal. Caso clínico Artur Sousa, João Costa, Lincoln Justo da Silva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 99 103 109 114 117 SOCIEDADE PORTUGUESA DE PEDIATRIA – CONSENSOS E RECOMENDAÇÕES Consenso para o tratamento nutricional da leucinose Sociedade Portuguesa de Doenças Metabólicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120 CRÍTICA DE LIVRO “Etiqueta para crianças ou Como ser amigo de todos” Maria da Graça de Campos Andrada. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 CRÍTICA DE SÍTIOS NA INTERNET OrphaNews Europe Daniel Virella. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130 CARTA AO DIRECTOR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131 NOTÍCIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XXXVII PROGRAMA PROVISÓRIO 8º CONGRESSO NACIONAL DE PEDIATRIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XL NORMAS DE PUBLICAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XLIII XXXIII CONTENTS ACTA PEDIÁTRICA PORTUGUESA EDITORIAL Daniel Virella. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XXXV ORIGINAL ARTICLES Pilot study for validation of a proposed Infant Ophthalmologic Screening in ambulatory setting Fátima Pinto, Sandra Rodrigues, Bernardete Pessoa, Pedro Pinto Coelho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Paediatric Ophthalmologic Screening in primary healthcare Fátima Pinto, Isabel Guerra, Íris Maia, Sandra Rodrigues. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Fungal sepsis in the very low birthweight neonate Sónia Pimentel, José Nona, Teresa Costa, António Marques Valido . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Tuberculosis prevalence in children at high-risk from Ameixoeira, Lisbon Sónia Pimentel, Laura Teixeira, Luís Varandas, Amélia Pimpão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . CASES REPORT Renal failure silently progressive Sara Diogo Santos, Marta Aguiar, Erica Mendonça, Margarida Almeida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pulmonary sequestration with prenatal diagnosis. Case report Artur Sousa, João Costa, Lincoln Justo da Silva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 99 103 109 114 117 PORTUGUESE PAEDIATRIC SOCIETY – CONSENSUS AND GUIDELINES Consensus for the nutritional treatment of maple syrup urine disease Metabolic Diseases Portuguese Society . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120 CRITIC OF BOOK “Children’s etiquette or How to be friends with everybody” Maria da Graça de Campos Andrada. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 COMENTS ON WEBSITES OrphaNews Europe Daniel Virella. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130 LETTER TO THE DIRECTOR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131 NEWS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XXXVII 8th PAEDIATRIC NATIONAL CONGRESS PRELIMINARY PROGRAM . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XL GUIDELINES FOR THE AUTHORS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . XLIII XXXIV 0873-9781/07/38-3/XXXV Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria EDITORIAL Rumo à indexação João M Videira Amaral Neste número da Acta Pediátrica Portuguesa (APP), a pediatria ambulatória tem um peso assinalável, com a publicação de três artigos originais com marcada vertente preventiva e de intervenção social. Dois deles estão intimamente ligados, pois trata-se do ensaio piloto e da avaliação da efectividade de um mesmo projecto de rastreio oftalmológico infantil em Cuidados Primários. A equipa de Pediatria do Centro de Saúde da Carvalhosa, no Porto, mostra-nos que é possível, com vontade e organização de trabalho, implementar um programa de rastreio de alterações visuais em crianças utentes dos cuidados primários, com a colaboração dos cuidados terciários hospitalares nas fases de confirmação diagnóstica e de terapêutica; mostranos ainda que a resposta às necessidades das populações que servimos pode ser dada também com iniciativas locais, sem a necessidade de complexas directivas da Administração Central. Do Centro de Saúde do Lumiar, em Lisboa, publicamos a apresentação do estudo de um grupo de famílias de elevado risco social para a tuberculose, partindo do rastreio das suas crianças. Os resultados, apesar de esperados, não deixam de ser um importante alerta para uma doença que teima em permanecer entre nós, com uma taxa de prevalência que nos destaca dentro da União Europeia. Apesar dos louváveis e necessários esforços dos profissionais de saúde, sempre empenhados nesta luta, não devemos esquecer que, sem a melhoria das condições socio-económicas, culturais e de educação, todas as medidas de natureza estritamente médica estão votadas apenas a um sucesso parcial. Sem o empenhamento programático e estruturado de todos os intervenientes nestes factores de risco, não poderemos alcançar os indicadores sanitários dos outros países desenvolvidos da Europa. Quanto mais demorarmos em convencer a Administração Central desta necessidade, maior será a frustração dos profissionais de saúde e menos risonho o futuro a médio prazo das nossas crianças e das suas famílias. A pediatria hospitalar está também bem representada neste número, com uma interessante análise dos casos de infecção fúngica invasiva entre os mais prematuros da maior maternidade do País e com dois relatos de casos, cuja especificidade não deve inibir a leitura. Publicamos mais um consenso emanado da Sociedade Portuguesa de Doenças Metabólicas - SPDM, desta vez sobre a intervenção nutricional na leucinose. É um texto muito completo mas de leitura fácil, que certamente será muito útil para os clínicos, quer no âmbito hospitalar quer no ambulatório. Este segundo consenso é parte de uma série de publicações de consensos nutricionais (em número de seis) acordada entre a APP e a SPDM. Com o conjunto, estará pela primeira vez disponível à Pediatria portuguesa um corpo de informação completa e actualizada sobre a actuação em doenças que são sempre um desafio para os pediatras, pela complexidade diagnóstica e terapêutica que comportam. Não devemos esquecer que, com a recente implementação do rastreio metabólico alargado em Portugal1 aumentam as oportunidades de diagnóstico precoce de muitas destas doenças, trazendo maiores responsabilidades a todos os pediatras. Interceptando esta área da Pediatria, divulga-se o boletim electrónico da Orphanet, o Orphanews, local electrónico onde podem ser encontradas informações e novidades sobre doenças raras na Europa e no Mundo, versando o seu diagnóstico, tratamento, apoios e legislação. Convidámos a Professora Maria da Graça Andrada para partilhar com os leitores a sua impressão da leitura do livro “Etiqueta para crianças ou Como ser amigo de todos”, lançado há poucas semanas pelo Secretariado Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência e que está neste momento a ser distribuído entre as crianças por todo o País. A divulgação do programa do VIII Congresso Português de Pediatria é fruto da colaboração estreita entre as direcções da APP e da Sociedade Portuguesa de Pediatria - SPP, ambas próximas do final dos seus mandatos. De facto, a APP entra no último semestre do terceiro ano do projecto no qual se tem empenhado a actual Direcção. Depois da renovação gráfica, de métodos e de conteúdos, o processo de avaliação da proposta de indexação na Correspondência: Daniel Virella Acta Pediátrica Portuguesa Coordenador de Edição [email protected] XXXV Acta Pediatr Port 2007:38(3):XXXV-VI Virella D – Editorial MedLine/PubMed está a decorrer. Encaramos estes últimos meses com optimismo e com sensação de dever cumprido, com a convicção de que este sentimento é partilhado por todos os que têm contribuído para o projecto e, principalmente, pelos nossos leitores. Daniel Virella Coordenador de Edição XXXVI Referência 1. Vilarinho L, Rocha H, Marcão A, Sousa C, Fonseca H, Bogas M et al. Acta Pediatr Port 2006;37:186-91. 0873-9781/07/38-3/93 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria ARTIGO ORIGINAL Estudo piloto para validação de um Protocolo de Rastreio Oftalmológico Infantil em Cuidados de Saúde Primários Fátima Pinto1, Sandra Rodrigues2, Bernardete Pessoa3, Pedro Pinto Coelho3 1 - Centro de Saúde da Carvalhosa, Porto 2 - Hospital Maria Pia, Porto 3 - Hospital Geral de Santo António, Porto Resumo Objectivo. Aferição de um protocolo de Rastreio Oftalmológico Infantil organizado e realizado numa consulta de Pediatria de ambulatório, com o intuito de serem referenciadas à consulta de Oftalmologia as crianças que dela realmente necessitam. Material e Métodos. Análise comparativa com base num estudo prospectivo de uma população de 423 crianças observadas na consulta de Pediatria num Centro de Saúde urbano entre Abril de 2004 e Agosto de 2005. A amostra, de conveniência e consecutiva, foi constituída por crianças levadas à consulta programada de Vigilância Infantil da Pediatria de um Centro de Saúde urbano, sem qualquer queixa, aparentemente saudáveis e sem doença oftalmológica diagnosticada. Todas as crianças foram submetidas a rastreio oftalmológico, segundo um protocolo estruturado pela Pediatria e que incluiu exame ocular externo; reflexo vermelho pupilar; testes de cover e Hirschberg; movimentos oculares, reflexos pupilares fotomotores, acuidade visual e estereopsia. Deste grupo inicial foi seleccionado, de forma aleatória simples, um subgrupo de 158 crianças para reavaliação pela especialidade de Oftalmologia de um Hospital Central Universitário que colaborou no estudo desconhecendo por completo os resultados da observação pediátrica. Resultados. Compareceram à Consulta de Oftalmologia 101 crianças das 158 que concordaram participar no estudo. Na consulta de Pediatria houve suspeita de alteração oftalmológica em 22 crianças. Verificaram-se 13 casos de baixa acuidade visual/acuidade visual assimétrica, 2 de estrabismo, 9 de erro refractivo, 1 de megalocórnea e 1 de ptose palpebral. Na observação por Oftalmologia, detectaram-se 26 crianças com anomalia oftalmológica. Verificaram-se 4 casos de ambliopia, 5 de estrabismo (3 latente e 2 manifesto), 23 de erro refractivo e 1 de megalocórnea. Foi verificada concordância estatisticamente significativa entre os resultados obtidos pelas duas especialidades (teste Kappa, p <0.05). Recebido: Aceite: 28.02.2006 06.06.2007 Conclusões. Este estudo permite sustentar a validação do protocolo pediátrico proposto, como método de rastreio oftalmológico fácil, rápido, económico e eficaz a efectuar na Consulta de Vigilância Infantil. Palavras-chave: Rastreio oftalmológico, pediatria, ambliopia. Acta Pediatr Port 2007;38(3):93-8 Pilot study for validation of a proposed Infant Ophthalmologic Screening in Ambulatory Setting Abstract Aim. To assess the effectiveness of children’s ophthalmologic screening during a regular Paediatric appointment in ambulatory setting, in order to be referred to an ophthalmologist only those who are in need. Methods. Comparative analysis based on a prospective study of 423 children screened during a regular Paediatric appointment in an urban health centre from April 2004 to August 2005. The consecutive and convenience population sample was comprised of children taken to a programmed appointment of regular paediatric healthcare/follow-up at an urban health centre. Every child was submitted to an ophthalmologic screening based on a paediatric protocol that included: ocular external examination; cover and Hirschberg tests; red reflex; eye movements, pupillary light reflexes, visual acuity; stereopsis. A random subgroup of 158 children was selected for re-evaluation by ophthalmologists from a University Hospital which collaborated in the study and which were unaware of the initial findings. Results. 101 of the 158 children who agreed to participate in the study were observed by Ophthalmology. At the paediatrician’s consultation 22 cases were suspected to have ophthalmologic problems: 13 low visual acuity/asymmetric visual acuity, 2 strabismus, 9 refractive errors, 1 megalocornea, and Correspondência: Fátima Pinto Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, n.º 485 4200-189 Porto [email protected] 93 Acta Pediatr Port 2007:38(3):93-8 1 palpebral ptosis. Ophthalmologist’s observations detected 26 cases with ophthalmologic anomalies: 4 amblyopias, 5 strabismus (latent in 3 cases and manifest in 2); 23 with a refractive error; 1 megalocornea. The results obtained by both groups were statistically concordant (Kappa test p <0, 05). Conclusions. This study supports the validation of the Paediatric protocol as an easy, rapid, inexpensive and efficient screening method for children’s common eye problems, during their regular Paediatric appointments. Key-words: Ophthalmologic screening, paediatrics, amblyopia. Acta Pediatr Port 2007;38(3):93-8 Introdução O Rastreio Oftalmológico Infantil é importante para a detecção atempada de condições que podem provocar cegueira, doença sistémica séria, comprometer o desempenho escolar das crianças, ou mesmo ameaçar a sua própria vida. A importância da detecção de anomalias oculares em idade pediátrica precoce reside na sua particular susceptibilidade em desenvolver perda permanente da visão central (ambliopia) por opacidade dos meios (exemplo da catarata congénita), erros refractivos não corrigidos, estrabismo e outras condições que afectem a qualidade da imagem visual e na possibilidade de recuperação com tratamento atempado 1-3. As vias visuais continuam a desenvolver-se depois do nascimento até cerca dos 10 anos de idade, altura em que a plasticidade do sistema visual central cessa e com ela a possibilidade de reversão de uma ambliopia já instalada. As anomalias estruturais, onde se incluem as cataratas congénitas e o retinoblastoma, são os problemas oculares mais graves, no recém-nascido e infância precoce 4-8. A ambliopia, o estrabismo e os problemas refractivos encabeçam a lista dos problemas oculares mais frequentes na criança. A ambliopia refractiva apresenta um período de sensibilidade ao tratamento superior ao das restantes formas de ambliopia o que justifica que a aplicação do Rastreio Oftalmológico Infantil, principalmente a efectuar até aos 5 anos, possa prolongar-se até aos 15 anos 9,10. A alta prevalência de ambliopia (1 a 4%) e a necessidade de um tratamento precoce tornam recomendável o desenvolvimento de programas públicos de rastreio para as crianças em idade pré-escolar 2 -4. Em Portugal, cerca de 300.000 adultos têm deficiência visual e a maioria destes, entre os 20 e os 70 anos de idade, sofrem as consequências da ambliopia, por uma infância medicamente mal vigiada 11,12. Embora o ideal fosse a observação de todas as crianças pela especialidade de Oftalmologia, actualmente isto é cada vez mais difícil pela falta de recursos humanos. Sendo a grande maioria das especialidades médicas restrita ao meio intra-hospitalar e como o acesso da criança ao Sistema Nacional de Saúde se faz essencialmente através dos Cuidados Primários, cabe aos médicos, sejam estes Clínicos Gerais ou Pediatras, que têm a seu cargo a responsabilidade da consulta de vigilância infantil, nos Centros de Saúde ou consultórios privados, o rastreio das doenças oftalmológicas da criança, permitindo, assim, a libertação da consulta de Oftalmologia para aquelas que dela mais necessitam 11. 94 Pinto F et al – Rastreio Oftalmológico Infantil O objectivo deste estudo é a aferição de um protocolo pediátrico de Rastreio Oftalmológico Infantil estruturado e efectuado numa consulta de Pediatria de ambulatório, de forma a permitir a proposta da sua implementação na Saúde Infantil promovendo o encaminhamento rápido à consulta especializada de Oftalmologia das crianças com suspeita de patologia ocular 13-15. Material e Métodos Realizou-se uma análise comparativa, com base num estudo prospectivo efectuado pelas especialidades de Pediatria e Oftalmologia, de um Centro de Saúde urbano e de um Hospital Central Universitário, respectivamente. O Centro de Saúde onde decorreu este estudo tem apenas uma Pediatra, cujo número de crianças inscritas é de 1200. Nesta consulta são observadas crianças em vigilância de Saúde Infantil e crianças referenciadas pelos Médicos de Família. A amostra do estudo, de conveniência e consecutiva, foi constituída por 423 crianças observadas na consulta programada de Vigilância Infantil de Pediatria (sem qualquer queixa, aparentemente saudáveis e sem doença oftalmológica diagnosticada), às quais foi efectuado o Protocolo de Rastreio Oftalmológico Infantil (Anexo I). Deste grupo inicial foi seleccionado, de forma aleatória simples, um subgrupo de 158 crianças para reavaliação pela especialidade de Oftalmologia de um Hospital Central Universitário, no intuito da validação do referido protocolo. Esta especialidade desconhecia os resultados da avaliação pediátrica. O Rastreio Oftalmológico Infantil, estruturado pela Pediatria, incluiu exame ocular externo, reflexo vermelho pupilar, testes de cover e Hirschberg; movimentos oculares (duções, versões e convergências e pesquisa de nistagmo), reflexos pupilares fotomotores directo e consensual, acuidade visual de perto e longe e estereopsia (Anexo I). No exame ocular externo foi avaliada a transparência da córnea, anomalias estruturais e alterações da superfície ocular externa e da íris. Em particular, analisou-se o diâmetro corneano horizontal, medido com régua vulgar, sendo considerado anormal acima de 12 mm, no sentido do diagnóstico precoce do glaucoma congénito. O reflexo vermelho pupilar, indicador da transparência dos meios ópticos, foi observado com oftalmoscópio directo a cerca de 50 cm dos olhos da criança com avaliação da sua cor e simetria (teste de Bruckner) e pesquisa de leucocória. O reflexo luminoso querático central (teste de Hirschberg) foi executado com uma fonte de luz colocada a cerca de 50 cm de distância de ambos os olhos, avaliando-se a sua simetria com o objectivo da detecção das tropias. O teste de cover utilizado foi o teste de cover/uncover. Foi realizado tapando e destapando um olho enquanto se observava a existência ou ausência do seu desvio na fixação de um objecto real. Este teste foi efectuado a uma distância de cerca de 40 cm, para diagnóstico das forias para perto. Os movimentos oculares (duções e versões) foram avaliados nas nove posições diagnósticas do olhar; no estudo das vergências, a convergência foi sempre observada. Anotou-se a presença ou ausência de nistagmo. Acta Pediatr Port 2007:38(3):93-8 Pinto F et al – Rastreio Oftalmológico Infantil A acuidade visual (AV) de longe foi avaliada em monocularidade, utilizando-se escalas decimais de figuras (Pigassou) ou de E’s em crianças não letradas e de Snellen com letras nas letradas. Os optótipos escolhidos, foram, por motivos de espaço, os adaptados para 3 metros. O resultado foi descrito em valores decimais e referente à última linha em que a criança conseguiu ver pelo menos 50% dos caracteres. A AV de perto foi igualmente avaliada em monocularidade, utilizando-se a escala de Rossano e Weiss (RW). Por se tratar de um exame dependente da colaboração das crianças, acima dos 2 anos ambas as especialidades analisaram o factor colaboração. Os dados foram submetidos a análise estatística, tendo sido utilizado como suporte informático o SPSS® 12.0 (SPSS Inc., Chicago, Illinois, EUA). O teste Kappa foi usado para a avaliação da concordância entre os exames efectuados pelas duas especialidades; o teste exacto de Fisher utilizou-se para determinação de relações de dependência entre a variável AV e as variáveis idade, sexo e estereopsia. Foram considerados significativos os resultados com p <0,05. O buraco estenopeico foi usado na detecção de erro refractivo. Na avaliação da estereopsia foi utilizado o teste de Lang 2. Este estereoteste é um método de rastreio da estereoacuidade cuja principal vantagem reside na facilidade de aplicação na criança já que dispensa o uso de lentes polarizadas ou vermelho/verde. Um resultado normal confirma uma razoável visão individual de cada olho e uma boa visão binocular; um resultado alterado significa a possibilidade de existência de estrabismo, ametropia grave e/ou anisometropia. Os resultados obtidos foram classificados como alterados, para estereopsias de 600 e 400 e normais para estereopsias de 200 segundos de arco. Resultados Das 158 crianças seleccionadas ao acaso para observação em Oftalmologia, 57 faltaram à consulta. Das 101 que completaram o estudo, 45 (44,6%) eram do sexo feminino e 56 (55,4%) do sexo masculino e tinham idades entre os 4 meses e os 12 anos (mediana de 5 anos). O tempo médio entre a avaliação pediátrica e a oftalmológica foi de 4,2 ± 2,8 meses. Com o objectivo da aferição do referido protocolo, foi seleccionado do grupo inicial, de forma aleatória simples, um subgrupo de 158 crianças para reavaliação na consulta de Oftalmologia, com base no protocolo mas completado, sempre que necessário, por outros métodos diagnósticos segundo critérios considerados adequados pela especialidade. Para a avaliação da AV de longe, a uma distância de 6 metros, foi utilizada uma escala de E’s, figuras ou letras de Snellen, conforme a colaboração da criança. Para a AV de perto foi usada a escala de Rossano e Weiss. A estereopsia foi avaliada segundo o teste de Randot. Em relação aos resultados obtidos foi atribuída uma classificação de normal, próximo do normal e alterado para as estereopsias de 25-50, 70 e igual ou superior a 100, respectivamente. Para o teste de cover, de base, foi empregue o teste de cover/uncover e o cover alternado, que foi realizado tapando e destapando um olho alternadamente enquanto se observava a existência ou ausência de desvio do olho fixador. Na observação pela Pediatria, houve suspeita de alteração oftalmológica em 22 (21,8%) crianças, com treze casos de acuidade visual baixa e/ou assimétrica, dois de estrabismo, nove de erro refractivo, um de megalocórnea e um de ptose palpebral. Verificou-se colaboração deficiente em dez crianças (6,3%). Não se observou qualquer caso de nistagmo, alteração da superfície ocular externa ou anomalia estrutural. Não foi encontrado nenhum caso de leucocória ou ausência de reflexo vermelho pupilar. Na observação por Oftalmologia, detectaram-se 26 (25,7%) crianças com anomalia oftalmológica, com quatro casos (4,0%) de ambliopia de causa refractiva, 5 (5,0%) de estrabismo (três latentes e dois manifestos), 23 (22,7%) de erro refractivo (dez de astigmatismo simples, doze de astigmatismo composto hipermetrópico, um de astigmatismo composto miópico) e um de megalocórnea. Houve indicação de correcção óptica em 16 (15,8%) crianças. Não se encontrou nenhum caso de ambliopia estrábica ou de privação. Em 4 (3,9%) casos a colaboração foi insuficiente. A amostra foi caracterizada quanto à ambliopia, ao erro refractivo (considerado quando superior a meia dioptria, associado a sintomatologia ou diminuição da acuidade visual), e ao estrabismo. Com excepção do teste de cover, foi verificada concordância estatisticamente significativa entre os resultados obtidos pelas duas especialidades (teste Kappa, p <0.05) (Figura 1). Quadro I – Resultados da aplicação do protocolo pelas duas especialidades. Resultados referentes a crianças colaborantes em cada exame. Na estereopsia os resultados “bom” e “aceitável” foram considerados normais. Pediatria Oftalmologia normal (%) alterado (%) normal (%) alterado (%) teste Kappa Exame ocular externo 99,0 1,0 99,0 1,0 1,000** Teste de Bruckner 96,9 3,1 95,9 4,1 0,260* Teste de Hirschberg 99,0 1,0 98,0 2,0 0,662** Movimentos oculares 97,9 2,1 99,0 1,0 0,662** Reflexo pupilar fotomotor 100 0 100 0 na Teste Cover 98,9 1,1 95,8 4,2 -0,016 Acuidade visual perto 96,6 3,4 97,7 2,3 0,794** Acuidade visual longe 74,7 25,3 78,4 21,6 0,586** Estereopsia 95,7 4,3 93,4 6,6 0,421** *p<0.05; **p<0.001; na - não aplicável. 95 Acta Pediatr Port 2007:38(3):93-8 Pinto F et al – Rastreio Oftalmológico Infantil Quadro II – Características das crianças com ambliopia. À excepção da estereopsia (em segundos de arco), os valores são todos referentes à consulta por Oftalmologia. Sexo Idade (anos) AV (OD/OE) Erro refractivo (OD/OE) Estrabismo Estereopsia (Lang/Randot) 4,5 0,5/0,1 A+H +2,00+1,00x75° +3,75+2,00x100° E’ nc/200 6 0,8/0,63 A -1,25x0° -1,75x165° - 200/50 7,8 0,63/0,5 A -3,00x10° -4,00x155° - 200/40 10 0,5/0,7 A+M -2,00-2,00x130° -1,75x50° X’ 200/200 - sexo feminino; - sexo masculino; AV - acuidade visual; OD - olho direito; OE - olho esquerdo; A - astigmatismo; H - hipermetropia; M - miopia; E’ - esoforia para perto; X’ - exoforia para perto; nc - não colaborante. Estabeleceu-se uma associação de dependência, com significado estatístico, entre as variáveis AV para longe e estereopsia (teste exacto de Fisher, p <0,05) (Figura 1). Não foi encontrado nenhum caso de leucocoria ou ausência de reflexo vermelho pupilar. No total do Rastreio Oftalmológico Infantil efectuado pela pediatria, dos treze casos com suspeita de acuidade visual baixa e/ou assimétrica quatro foram confirmados. Não existiram casos falsos negativos, ou seja, em todos os casos de ambliopia diagnosticada pela Oftalmologia houve suspeita prévia. Os quatro casos de ambliopia foram de causa refractiva. (Figura 2). Na consulta de Pediatria foram detectados os dois casos de estrabismo manifesto (tropias), mas não foi identificado nenhum dos três estrabismos latentes (forias) existentes. As duas crianças com estrabismo manifesto tinham entre 4 e 5 meses de idade, apresentavam esotropia (E) e Bruckner assimétrico. As forias não identificadas pela Pediatria como tal, foram, apesar disso e por alteração do resultado do Rastreio Oftalmológico Infantil, indicadas para referenciação à especialidade de Oftalmologia, com excepção para uma criança de 7 anos sem queixas de astenopia, com AV de 10/10 no OD e no OE sem correcção, estereopsia aceitável (70 segundos de arco) e que não teve indicação para correcção óptica. Os erros refractivos não detectados pela Pediatria não careceram de correcção óptica dos mesmos. Discussão Aproximadamente 25% das crianças em idade escolar tem problemas de acuidade visual e cerca de uma em cada vinte, entre os 3 e os 5 anos de idade, apresenta anomalias oculares estruturais ou funcionais que não tratadas, podem resultar na perda permanente da visão. Neste estudo, a identificação de 25,7% de crianças com alteração oftalmológica reforça a necessidade da realização sistemática deste tipo de rastreio nas consultas de Vigilância Infantil 2,4,10,14. 96 A proporção de casos de ambliopia identificados no nosso estudo está também de acordo com a prevalência estimada na população pediátrica e todos se incluíram no grupo de ambliopia refractiva, potencialmente com melhor prognóstico por apresentar um período de sensibilidade ao tratamento mais prolongado 2-4,15. Não foi encontrado nenhum caso de ambliopia estrábica ou de privação, associados a pior prognóstico e com períodos de sensibilidade ao tratamento a situarem-se entre 1 a 7 anos e 1 a 3 meses, respectivamente. 16-18 A proporção de estrabismo nas crianças está calculada em cerca de 4%, valor próximo do obtido nos nossos resultados. Neste estudo, a não concordância obtida no teste de cover pelas duas especialidades deveu-se à não aplicação, por Pediatria, do cover alternado. Este método, por vezes de difícil execução nas crianças, é utilizado para dissociar a fusão binocular com a finalidade de se avaliar o desvio completo, incluindo qualquer foria. Convém realçar que um estrabismo latente, por si só não requer tratamento, a menos que exista evidência de astenopia ou deterioração da função binocular o que pode ser diagnosticado com a avaliação da estereoacuidade 2,18,19. No teste de Lang 2, os resultados obtidos foram classificados em alterado, para estereopsias de 600 e 400 e próximo do normal e normal para estereopsias de 200 segundos de arco. Apesar do melhor resultado permitido com o teste de Lang corresponder a um mau resultado no Randot, foi verificada concordância entre os resultados obtidos por ambos os testes de estereoacuidade o que confirmou a utilidade do primeiro no Rastreio Oftalmológico Infantil proposto 3, 13,19,20. Os resultados relativamente à percentagem global de erros refractivos e ao tipo de erro refractivo mais preponderante (astigmatismo) estão também em conformidade com o descrito na literatura 2, 10,16. O número superior de crianças não colaborantes na avaliação por Pediatria, pode ser explicado pelo facto do rastreio se incluir numa consulta de Saúde Infantil, mais diversificada e demorada e com maior exposição a elementos distractivos (existência de brinquedos e grande luminosidade) e por ser realizado mais precocemente em relação à consulta de Oftal- Acta Pediatr Port 2007:38(3):93-8 mologia onde as crianças já conheciam os testes e tinham maior maturidade cognitiva. Embora a acuidade visual deva ser sistematicamente avaliada a partir dos 3 anos de idade, a falta de colaboração recomenda uma repetição em 6 meses e só então, se mantida, o encaminhamento para a especialidade de Oftalmologia 2,21. Este estudo revelou concordância entre a avaliação em Pediatria e Oftalmologia, ausência de falsos negativos e presença de falsos positivos, o que permite a sustentação da validade do protocolo proposto, como método de rastreio oftalmológico praticável numa consulta de Vigilância Infantil. Na sua continuidade, o protocolo foi optimizado com a inclusão sistematizada dos antecedentes familiares e pessoais da criança (que podem ser decisivos no diagnóstico de condições como o glaucoma e cataratas congénitos, retinoblastoma, doenças metabólicas ou genéticas), dos sintomas e do teste de cover alternado2. Conclusão Este estudo, realizado num Centro de Saúde urbano, com a colaboração de um Hospital Central Universitário, aconselha a inclusão de um protocolo de Rastreio Oftalmológico Infantil no Boletim de Saúde Infantil e Juvenil de forma a permitir, com a obrigatoriedade da sua realização na consulta de Vigilância Infantil, a redução dos défices visuais corrigíveis se atempadamente diagnosticados e tratados. A prevenção primária e o diagnóstico precoce são a estratégia a usar através da implementação de um conjunto de exames a efectuar no ambulatório que seja fácil, rápido, económico e eficaz. Pinto F et al – Rastreio Oftalmológico Infantil 3. Committee on Practice and Ambulatory Medicine, Section on Ophtalmology, American Association of Certified Orthoptists, American Association for Pediatric Ophthalmology and Strabismus and American Academy of Ophthalmology. AAP Polic., Eye Examination in Infants, Children and Young Adults by Pediatricians. Pediatrics 2003;111:902-7. 4. Committee on Practice and Ambulatory Medicine, Section on Ophthalmology, American Academy of Pediatrics. Use of photoscreening for children’s vision screening.. Pediatrics 2002;109:524-5. 5. Williams C, Northstone K, Harrad RA, SparrowJM, Harvey I, ALSPAC Study Team. Amblyopia treatment outcomes after screening before or at age 3 years: follow-up from randomised trial. BMJ 2002;324:1549. (acessível em http://www.bmj.com/cgi/content/full/324/7353/1549). 6. Lang G. Ophtalmology. New York: Ed. Thieme; 2000. 7. Meux P. Ophtalmologie pédiatrique. Paris: Ed. Masson; 2003. 8. Ressel GW. 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Ophthalmological tips and tricks for the pediatricians. Societé Suisse de Pédiatrie. Pediatrician 2003;1:1-7. O protocolo em questão, validado neste estudo, poderá, ao ser sistematicamente aplicado, levar à diminuição da prevalência de perda de visão por doenças acessíveis ao tratamento, reduzindo a incidência de ambliopia em recém nascidos, crianças e adolescentes. 14. Kenneth W. Wright, Peter H. Spiegel. Oftalmología pediátrica y estrabismo. Los Requisitos en Oftalmología. Madrid: Harcourt. 2000. Agradecimento 17. Kushner B. Amblyopia. In: Nelson L. Haelry’s Pediatric Ophtalmology. 4.ª Ed. Philadelphia: W.B. Saunders Company; 1998;p.125-39. Ao Dr. Manuel Barca, pela permissão para a realização deste estudo. 15. Pinto F, Maia I. Rastreio Oftalmológico na Pediatria Ambulatória. Saúde Infantil 2004;26(8):18-28. 16. Wagner R. Pediatric eye examination. In: Nelson L. Haelry’s Pediatric Ophtalmology. 4.ª Ed. Philadelphia: W.B. Saunders Company; 1998;p.82-95. 18. Repka M. 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Acta Ophthalmol Scand 2002;80:163-6. 97 Acta Pediatr Port 2007:38(3):93-8 Pinto F et al – Rastreio Oftalmológico Infantil Anexo I – Protocolo do Rastreio Oftalmológico Infantil. Nome ........................................................................................................................................................................................................................... Idade ..................................................... Data ..................................................... Médico ......................................................................................................................................................................................................................... Íris simétrica S N Todas as idades Exame ocular externo nistagno S N coloboma da íris S N Ptose S N conjuntivite S N córnea ≤ 12 mm S N vermelho Todas as idades Reflexo vermelho pupilar róseo simétrico S N branco Todas as idades Depois do 1.º mês Depois do 1.º mês Depois do 6.º mês Depois dos três anos Depois dos três anos Reflexo na córnea Movimentos oculares Reflexo pupilar fotomotor Teste de cover Acuidade visual ao perto Acuidade visual ao longe Centrado S N OD: OE: abdução S N abdução S N adução S N adução S N supradução S N supradução S N infradução S N infradução S N OD: OE: directo S N directo S N consensual S N consensual S N OD: OE: Movimento S N Movimento S N OD s/c: R .... W .... OE s/c: R .... W .... OD c/c: R .... W .... OE c/c: R .... W .... OD s/c: .... OE s/c: .... OD c/c: .... OE c/c: .... OD c/e: .... OE c/e: .... 200 Depois dos três anos Visão estereoscópica 400 (Lang II) 600 S - sim; N - não; s/c - sem correcção; c/c - com correcção; c/e - com buraco estenopeico; OD - olho direito; OE - olho esquerdo. 98 0873-9781/07/38-3/99 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria ARTIGO ORIGINAL Rastreio Oftalmológico Infantil nos Cuidados Primários* Fátima Pinto1, Isabel Guerra2, Íris Maia3, Sandra Rodrigues2 1 - Centro de Saúde da Carvalhosa e Foz do Douro, Porto 2 - Hospital Maria Pia, Porto 3 - Centro Hospitalar do Alto Minho, Viana do Castelo Resumo Introdução. A importância da detecção de anomalias oculares em idade pediátrica reside na susceptibilidade deste grupo etário para desenvolver perda permanente e irreversível da visão central (ambliopia), que poderá ser evitada se precocemente identificada e tratada. Objectivo: Avaliação da saúde visual das crianças que frequentam a consulta de Pediatria de um Centro de Saúde urbano. Metodologia. Análise descritiva dos registos da aplicação de um protocolo de Rastreio Oftalmológico Infantil, previamente elaborado e validado, numa amostra de crianças observadas na consulta de Pediatria de um Centro de Saúde urbano. Foram critérios de exclusão a presença de sintomatologia oftalmológica, doença sistémica com manifestação ocular, seguimento numa consulta especializada de Oftalmologia e ausência de colaboração. Foram avaliados os parâmetros sexo, idade, exame ocular externo, transparência dos meios ópticos, alinhamento ocular, acuidade visual de longe e de perto, visão estereoscópica e alteração oftalmológica com potencial ambliogénico. contribuindo assim para a melhoria qualitativa da assistência pediátrica. Palavras-chave: Rastreio oftalmológico, pediatria, ambliopia. Acta Pediatr Port 2007;38(3):99-102 Paediatric Ophthalmologic Screening in primary healthcare Abstract Introduction. The importance of early detection of ophthalmologic diseases in paediatric age resides in the susceptibility of this age group to develop permanent central vision loss (amblyopia), it can be avoided when diagnosed and treated earlier. Aim: To evaluate the visual health of the children who were followed in the Paediatric consultation of an urban Healthcare Centre. Resultados. Das 704 crianças estudadas, com idades compreendidas entre 1 mês e 15 anos, suspeitou-se de patologia oftalmológica em 182 (25,9%): anomalia do exame ocular externo em 8; leucocória em 1; estrabismo em 39; diminuição da acuidade visual em 147; e má visão estereoscópica em 60. Em 78 (11,1%) casos suspeitou-se de doença potencialmente ambliogénica. Methods. Descriptive analysis of records of application of an Paediatric Ophthalmologic Screening, previously elaborated and validated, to children followed in the Paediatric Consultation of an urban Healthcare Centre. The presence of ophthalmologic symptoms, systemic illness with ocular manifestation, regular follow-up in a specialized Ophthalmology consultation and the lack of cooperativeness were considered exclusion criteria. Sex, age, external ocular examination, optic apparatus transparency, ocular alignment, near and far visual acuity, stereoscopic vision and ophthalmologic alterations with amblyogenic potential were evaluated parameters. Conclusões. A necessidade de avaliar a função visual o mais precocemente possível apoia-se nos conceitos de plasticidade e do período crítico do seu desenvolvimento. Este estudo demonstra a utilidade da aplicação do Rastreio Oftalmológico Infantil generalizado a nível da consulta de vigilância infantil, Results. Of the 704 children studied, with ages between 1 month and 15 years old, 182 (25,9%) were suspected to have ophthalmologic pathology. Of these, 8 were cases of anomalous external ocular examination, 1 of leukocoria, 39 of strabismus, 147 of decreased visual acuity and 60 cases of altered * Prémio Dr. Nicolau da Fonseca 2006, da Secção de Pediatria Ambulatória da Sociedade Portuguesa de Pediatria Recebido: Aceite: 24.11.2006 05.03.2007 Correspondência: Fátima Pinto Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, 485 4200-189 Porto [email protected] 99 Acta Pediatr Port 2007:38(3):99-102 Pinto F et al – Rastreio Oftalmológico Infantil. Ambliopia stereoscopic vision. In 78 cases (11.1%) an ophthalmologic alteration with amblyogenic potential was suspected. então ser referenciadas para observação especializada por Oftalmologia 13. Conclusions. The need to evaluate visual function as early as possible is supported by the concepts of plasticity and the critical period of development. This study demonstrates the usefulness that Paediatric Ophthalmologic Screening’ generalized application has at Paediatric Surveillance. This would contribute to a high quality level in paediatric assistance. Foi objectivo deste estudo a avaliação da saúde visual das crianças que frequentam a Consulta de Pediatria de um Centro de Saúde urbano. Key-words: Ophthalmologic screening, paediatric, amblyopia. Foram seleccionadas as crianças observadas na consulta de Pediatria de um Centro de Saúde Urbano às quais foi aplicado um protocolo de Rastreio Oftalmológico Infantil, previamente elaborado14 e estatisticamente validado 15, entre 1 de Abril de 2004 e 31 de Julho de 2006. Consideraram-se critérios de exclusão a presença de sintomatologia oftalmológica, doença sistémica com manifestação ocular, seguimento numa consulta especializada de Oftalmologia e ausência de colaboração no exame. Acta Pediatr Port 2007;38(3):99-102 Introdução Nos primeiros anos de vida a doença oftalmológica pode ter grande impacto no desenvolvimento da criança, com repercussões irreversíveis a nível pessoal, familiar e social. A ausência de diagnóstico e tratamento atempados prejudica a sociabilização e a aprendizagem, para além de aumentar o risco de perda de visão permanente, por estabelecimento irreversível de ambliopia, e até mesmo de morte no caso do retinoblastoma 1-5. A ambliopia, exclusiva do grupo etário pediátrico, pode ser definida como a diminuição da acuidade visual por ausência da formação de uma imagem clara na retina durante o período de desenvolvimento visual (do nascimento até aos 67 anos) 6-8. O olho é estruturalmente normal, não sendo o défice de visão corrigível com refracção. Esta patologia, uni ou bilateral, pode ser classificada, de acordo com o mecanismo etiológico, em três subtipos: ambliopia de privação, ambliopia estrábica e ambliopia refractiva 9-11. No primeiro grupo incluem-se as situações resultantes da ausência da estimulação luminosa da retina, por alteração do segmento externo (ptose, hemangioma palpebral …), ou por opacidade dos meios transparentes (glaucoma, catarata, hemorragia do vítreo, retinoblastoma …). Este subtipo é o de maior gravidade, uma vez que o tempo de sensibilidade ao tratamento é de apenas 12 semanas. Por sua vez, a ambliopia estrábica resulta de anomalia da binocularidade por falta de alinhamento dos eixos visuais, e inclui quer os estrabismos manifestos ou evidentes (tropias), quer os latentes (forias). Neste caso, para que a intervenção terapêutica seja eficaz, o seu início deve ser o mais precoce possível, de preferência logo que detectado o estrabismo e sempre antes dos dois anos, uma vez que o período crítico para o desenvolvimento da visão binocular vai até esta idade. Por fim a ambliopia de causa refractiva, que surge como consequência da ametropia (hipermetropia, miopia ou astigmatismo) grave bilateral ou anisometropia. Este é o subgrupo de menor gravidade, com possibilidade de sucesso terapêutico até aos 6-7 anos. Atingindo cerca de 2 a 5% da população infantil, a ambliopia tem um prognóstico dependente da idade do diagnóstico. Quando atempado o tratamento é 100% eficaz, sempre abaixo dos 6-7 anos de idade 10-12. A prevenção primária é a medida mais eficaz na redução da morbilidade e mortalidade, devendo basear-se na realização de rastreios oportunistas, a efectuar na Consulta de Vigilância de Saúde Infantil. As situações de presunção de doença devem 100 Metodologia Foram avaliados os parâmetros sexo, idade, exame ocular externo, transparência dos meios ópticos, alinhamento ocular, acuidade visual de perto e de longe e visão estereoscópica. Finalmente, analisaram-se as alterações oftalmológicas com potencial ambliogénico. No exame ocular externo foi considerada anormal a existência de coloboma, nistagmo, hemangioma ou ptose palpebral, tamanho da córnea superior a 12mm, assimetria da íris e hiperemia conjuntival. A avaliação da transparência dos meios ópticos foi realizada através do reflexo vermelho pupilar, efectuado em ambiente escuro e com oftalmoscópio directo a cerca de 30-50cm dos olhos da criança. A presença de um reflexo branco permitiu colocar a hipótese de leucocória. O alinhamento ocular foi avaliado pelo teste de Hirschberg e/ou teste de cover-uncover, este último realizado em todas as crianças a partir dos 6 meses de idade. O primeiro foi efectuado com foco luminoso colocado a 60cm dos olhos da criança em posição primária do olhar, determinando-se a localização do reflexo luminoso sobre a superfície da córnea. Para realização do teste de cover-uncover procedeu-se à oclusão alternada dos olhos com fixação de objecto real colocado a 50-60 cm, avaliando-se o eventual desvio do olho fixador. A presença de um teste de Hirschberg descentrado e assimétrico e/ou um teste de cover-uncover com desvio permitiu colocar a hipótese de estrabismo. A Acuidade Visual (AV) foi avaliada para perto (30-40cm) e para longe (3m), em monocularidade, iniciando-se pelo olho direito, e em todas as crianças com 3 ou mais anos. Utilizaram-se tabelas de optótipos em linha, conforme a idade e o desenvolvimento cognitivo de cada criança (Rossano-Weiss, Jaegger e Revised Sheridam Gardiner para perto, e Revised Sheridam Gardiner, Pigassou, jogo de “E” e letras decimais para longe). A ausência de cumprimento da AV mínima 2-6 (Quadro I) em pelo menos um dos olhos e/ou a presença de diferença de AV entre os dois olhos igual ou superior a duas linhas da escala levou à suspeita de deficiente AV. Acta Pediatr Port 2007:38(3):99-102 Pinto F et al – Rastreio Oftalmológico Infantil. Ambliopia Resultados Quadro I – Acuidades Visuais mínimas aceitáveis2-6. Acuidade visual de perto Acuidade visual de longe • 3 anos R3W2; 6/9 • 3 anos 0,5; 6/12 • 6 anos R2W1; 6/6; J1 • 4 anos 0,6; 6/9 • 6 anos 0,9 A visão estereoscópica foi avaliada em todas as crianças a partir dos seis meses de idade, recorrendo-se ao teste de Lang 2. Este estereograma, que dispensa o uso de lentes polarizadas, foi apresentado a cerca de 40cm dos olhos. Neste teste existem 4 figuras, elefante, carro, lua e estrela. Esta última, visível em monocularidade, é útil na distinção entre a criança não colaborante e a que não apresenta estereopsia. Pela sua frequência, a identificação do carro como peixe foi considerada normal. A qualidade da visão estereoscópica foi considerada positiva, negativa ou duvidosa, de acordo com a identificação dos elementos figurados do teste 14,16-18 (Quadro II). A presença de um teste de Lang 2 negativo ou duvidoso em crianças a partir dos 3 anos, ou a mesma situação associada a outra alteração das anteriormente descritas em crianças abaixo dos 3 anos permitiu definir suspeita de má visão estereoscópica. Quadro II – Critérios de classificação do teste de Lang 214,16-18. Positivo • 6 – 24 meses Fixar e/ou apontar e/ou mencionar pelo menos uma figura • 2 – 3 anos Fixar e/ou apontar e/ou mencionar pelo menos duas figuras • ≥ 3 anos Apontar e/ou mencionar pelo menos o carro e a lua Negativo • Falta de interesse / recusa De acordo com os critérios estabelecidos obteve-se uma amostra final constituída por 704 crianças. Relativamente à idade verificou-se uma mediana de 5 anos, com mínimo de 1 mês e máximo de 15 anos. A distribuição pelos dois sexos foi semelhante, pertencendo 389 crianças (55,3%) ao sexo masculino. Suspeitou-se de patologia oftalmológica em 182 crianças (25,9%), tendo a mais nova 1 mês de vida e a mais velha 15 anos. Em 147 destas crianças colocou-se a hipótese de diminuição da AV, em 60 de má visão estereoscópica, em 39 de estrabismo, em oito de anomalia do exame ocular externo (quatro com ptose palpebral, uma com nistagmo, duas com ptose e nistagmo associados e uma com megalocórnea) e em uma de leucocória (Quadro III). Em 78 (11,1%) das 704 crianças observadas foi levantada a suspeita de alteração oftalmológica com potencial ambliogénico, correspondendo estas a 42,9% das crianças com provável doença ocular. O exame foi considerado normal em 522 das crianças em estudo (74,1%). Quadro III – Distribuição da suspeita de patologia oftalmológica. Suspeita de doença oftalmológica Número total de crianças (%) • Diminuição da Acuidade Visual (N=570) 147 (25,8%) • Má visão estereoscópica (N=680) 60 (8,8%) • Estrabismo (N=704) 39 (5,5%) • Outra anomalia do exame ocular externo ou motilidade (N=704) – Ptose – Nistagmo – Ptose + nistagmo – Megalocórnea 8 (1,1%) • Leucocória (N=704) 1 (0,1%) 4 1 2 1 • Fixar e/ou apontar e/ou mencionar apenas a estrela • Ausência de visão de figuras definidas • Ausência de identificação da lua em crianças com idade igual ou superior a 3 anos Duvidoso • Situações restantes A presença de suspeita de alguma alteração ao exame oftalmológico, nomeadamente anomalia ao exame ocular externo e/ou leucocória e/ou estrabismo e/ou deficiente acuidade visual e/ou má visão estereoscópica, permitiu colocar a hipótese de doença oftalmológica, pelo que essas crianças foram referenciadas para observação por Oftalmologia. Por último, foram consideradas situações potencialmente ambliogénicas as suspeitas de ptose e/ou hemangioma palpebral e/ou leucocória e/ou nistagmo e/ou estrabismo e/ou AV igual ou inferior a 0,5 abaixo dos 4 anos e 0,6 a partir destes e/ou diferença de acuidade visual entre os dois olhos igual ou superior a duas linhas da escala. Das 680 crianças submetidas a avaliação da visão estereoscópica, 596 (87,6%) obtiveram resultado positivo, 59 (8,7%) resultado negativo e as restantes 25 (3,7%) resultado duvidoso. Relativamente a este último grupo, apenas uma das crianças tinha idade igual ou superior a 3 anos, pertencendo as restantes (24/25; 96%) à faixa etária dos 6 aos 24 meses. Restringindo ainda mais este grupo etário verificou-se que 22 (22/25; 88%) tinham menos de 12 meses. Entre os 6 e os 12 meses (n=48) o resultado do teste de Lang 2 foi considerado positivo em 19 casos (39,6%) (Quadro IV). Quadro IV – Resultado do Teste de Lang 2 nas crianças dos 6 aos 12 meses de idade (n=48). Resultado • Positivo Número total de crianças (%) 19 (39,6%) • Negativo 7 (14,6%) • Duvidoso 22 (45,8%) Os dados foram submetidos a análise estatística, descritiva, tendo sido utilizado como suporte informático o programa SPSS®, versão 13 (SPSS Inc., Chicago, Illinois, EUA). 101 Acta Pediatr Port 2007:38(3):99-102 Pinto F et al – Rastreio Oftalmológico Infantil. Ambliopia Discussão e Conclusões Referências O período sensível de desenvolvimento sensorial é limitado aos primeiros 6-7 anos de vida, o que justifica a necessidade de avaliação da função visual o mais precocemente possível 5,6,11-13,19. 1. Abrantes P, Brito C. Oftalmologia. In: Palminha J, Carrilho E, editors. Orientação diagnóstica em pediatria dos sinais e sintomas ao diagnóstico diferencial.1ª ed. Lisboa: Ed. Lidel; 2003.p685-718. Segundo a bibliografia consultada aproximadamente 25% das crianças em idade escolar tem patologia do foro oftalmológico, percentagem idêntica à identificada nesta amostra. Por outro lado, cerca de 4 a 5% das crianças em idade pré-escolar tem ambliopia, valor que aumenta com a idade, à custa do subtipo refractivo 12-13,19. Na população estudada não foram diagnosticadas as situações de ambliopia, mas aquelas com potencial ambliogénico, o que justifica o valor superior (11,1%) ao descrito na literatura. A identificação de suspeita de doença ocular em um quarto das crianças, e quase metade destas (44%) com suspeita de doença potencialmente ambliogénica, reforça a chamada de atenção para a necessidade urgente de realização sistemática do rastreio oftalmológico na consulta de Saúde Infantil. Por outro lado, este rastreio permitiu a suspeição de patologia em crianças com idades tão díspares quanto o primeiro mês de vida e os 15 anos de idade, sendo de salientar que estes adolescentes nunca tinham sido submetidos a qualquer exame oftalmológico. A ausência ou o diagnóstico tardio destas situações inevitavelmente condicionaria o desenvolvimento pleno das potencialidades da criança, podendo limitar o sucesso terapêutico 12-13,19. A visão estereoscópica, importante na qualidade de vida de cada um e com impacto até na opção profissional, pode ser estudada com recurso ao teste de Lang a partir dos 6 meses de idade 16. Diferentes estudos demonstraram que este teste é realizável em 42–50% dos lactentes entre os 6 e os 12 meses, com aumento do sucesso em idades superiores 16,17,20,21. Também neste grupo foi obtido um resultado positivo em cerca de 40% das crianças. Sendo a Oftalmologia uma especialidade restrita ao meio hospitalar e o acesso das crianças ao Serviço Nacional de Saúde feito, em Portugal, através dos cuidados primários, cabe aos médicos, sejam estes Clínicos Gerais ou Pediatras, que têm a seu cargo a responsabilidade da consulta de vigilância infantil, nos Centros de Saúde, Hospitais ou nos consultórios privados, o rastreio das doenças oftalmológicas das crianças, permitindo assim a libertação da consulta de Oftalmologia para aquelas que dela mais necessitam. “O País encontra-se, portanto, perante um problema de saúde pública que urge combater e cuja magnitude requer medidas planeadas a nível nacional, que atravessem todo o sistema prestador de cuidados de saúde” 22. Agradecimentos À Dra. Salomé Gonçalves, pelos ensinamentos e incentivo. Ao Dr. Manuel Barca, pela observação especializada de Oftalmologia das crianças com suspeita de doença. À Dra. Graça Azevedo, pela permissão para este estudo. 102 2. American Academy of Ophthalmology. The Eye M.D. Association. San Francisco. Pediatric eye evaluations. California. 2002. 3. Broderick P. Pediatric vision screening for the Family Physician. Am Fam Physician 1998;3:691-700. 4. Broderick P. Pediatric Vision Screening for the Family Physician. Am Fam Physician 1998;3:7003-4. 5. Agency for Healthcare Research a Quality US Department of Health Services. Screening for visual impairment in children younger than age 5 years: A systematic evidence review for the US Preventive Services Task Force. May 2004. 6. US Committee on Preschool Vision Screening Guidelines. Preschool Vision Screening Guidelines 2000. 7. Shamis DL. Collecting the “facts”. Vision assessment techniques: Perils and pitfalls. Am Orthopt J 1996;46:7-8. 8. Barry JC, Koning H. Test characteristics of orthoptis screening examination in 3 year old kindergarten children. Br J Ophthalmol 2003;87:909-16. 9. Hyvarinen L. Assessment of visual impaired infants. Ophthamol Clin North Am 1994;7:219-225. 10. Quinn GE, Berlin JA, James M. The Teller Acuity Card Procedure. Three testers in a clinical setting. Ophthalmology 1993;100:488-94. 11. Sousa PS, Laranjeira JAC, Ferreira E, Queiroz L, Doria JLF. Visão em desenvolvimento infantil.1.ª ed. Lisboa: Edição da Fundação Nossa Senhora do Bom Sucesso; 2000 12. Klaeger C, Munier A. Ophthalmological tips and tricks for the pediatricians. Societé Suisse de Pédiatrie. Pediatrician 2003;1:1-7. 13. Castela G, Castela R. Aspectos sensoriais. In: Castela R, editor. Estrabismo.1.ª ed. Lisboa: Ed. Lidel; 2006.p25-52. 14. Pinto F, Maia I. Rastreio oftalmológico na pediatria ambulatória. Saúde Infantil. 2004;26/8:18-28. 15. Rodrigues S, Pessoa B, Coelho PP, Barca M, Pinto F. Rastreio Oftalmológico Infantil – Estudo piloto. In: Pereira F, Macedo F, Amorim J, Lima MR, Teles N, Monteiro T, eds. Nascer e Crescer; Porto. Hospital de Crianças Maria Pia; 2005. p. S238. 16. Agence Nationale D’Accreditation Et D’Évaluation en Sauté. Dépistage précoce dês troubles de la function visuelle chez l’enfant pour prevenir l’amblyopie. Octobre 2002. 17. Lang JI, Lang TJ. Eye Screening with the Lang Stereotest. Am Orthop J. 1988; 38: 48-50. 18. Ohlssoni J, Villarreala G, Sjostromi A, Abrahamssoni M, Sjostrandi. Screening for amblyopia and strabismus with the Lang II stereo card. Acta Ophthalmol Scand 2002;80:163–6. 19. Hugonnier R, Hugonnier S. L’amblyopie fonctionnelle. In: Hugonnier R S, editor. Strabismes.4ª ed. Paris: Ed. Masson; 1981.p99-119. 20. Broadbent H, Westall C. An evaluation of techniques for measuring stereopsies in infants and young children. Ophthalmic Physiol Optics 1990;10:3-7. 21. Revel C, Cypres C, Bourron-Madignier M. Expérience de dépistage précoce du strabisme dans les crèches. Intérêt dans la prévention the l’amblyopie chez les jeunes enfants. Pediatrie 1988;43:241-3. 22. Direcção Geral de Saúde. Programa Nacional para a Saúde da Visão. Circular Normativa 02/DGCG. 17 Maio 2005. 0873-9781/07/38-3/103 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria ARTIGO ORIGINAL Sépsis por fungos no recém-nascido de muito baixo peso – casuística de treze anos Sónia Pimentel, José Nona, Teresa Costa, António Marques Valido Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais, Maternidade Dr. Alfredo da Costa, Lisboa Resumo Introdução. A sépsis por fungos causa elevada morbilidade e mortalidade em Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN). Objectivo. Determinar a incidência de casos de sépsis por fungos no recém-nascido de muito baixo peso à nascença (RNMBP), analisar a presença de factores de risco e a efectividade terapêutica. População e métodos. Estudaram-se RNMBP admitidos numa UCIN de um hospital de apoio perinatal diferenciado entre Janeiro de 1990 e Dezembro de 2002 (nascidos ou transferidos por prematuridade). Reviram-se processos clínicos de RNMBP com suspeita clínica de sépsis e uma hemocultura, cultura de liquor ou exame anatomo-patológico positivo para fungos. Dados referentes a variáveis contínuas apresentam-se como mediana (mínimo-máximo). Resultados. Registaram-se 20 casos de sépsis por fungos, correspondendo a uma incidência de 1,05% (população total de RNMBP =1901). Isolou-se Candida albicans em dezanove hemoculturas e dois exames anatomo-patológicos. A mediana da idade gestacional foi 26 semanas (24-32) e do peso de nascimento 835g (700-1450). Na altura do diagnóstico, a maioria dos recém-nascidos tinha catéteres centrais (100%) e tinha sido sujeita a ventilação mecânica (95%), alimentação parentérica total prolongada (100%) e antibioterapia de largo espectro (100%). A mediana da idade no diagnóstico foi 21 dias (10-80). Verificou-se atingimento de órgão em seis casos. A terapêutica efectuada foi predominantemente a anfotericina B (95%) com efectividade de 83% e taxa de toxicidade hepática de 20%. A taxa de letalidade foi 15%. Conclusões. O principal grupo afectado foi o recém-nascido com menos de 1000g de peso à nascença e menos de 28 semanas de idade gestacional. A presença de factores de risco foi frequente. A anfotericina B foi o fármaco de eleição com boa efectividade e toxicidade moderada. O exame anatomo-patológico post mortem foi decisivo no diagnóstico etiológico de sépsis sem agente isolado, de atingimento de órgão e da causa de morte. Recebido: Aceite: 23.08.2006 14.06.2007 Palavras-chave: prematuridade, muito baixo peso, candidémia, sépsis por fungos, Candida albicans. Acta Pediatr Port 2007;38(3):103-8 Fungal sepsis in the very low birthweight neonate Abstract Introduction. Fungal sepsis causes high morbidity and mortality in Neonatal Intensive Care Units (NICU). Aims. To assess fungal sepsis incidence, risk factors and therapeutic effectivity in very low birthweight (VLBW) newborns. Population and methods. VLBW newborns admitted to a Level III maternity NICU between January 1990 and December 2002 (born or transferred because of prematurity) were studied. Cases of clinical suspicion of sepsis and blood culture, liquor culture or autopsy positive for fungi were reviewed. Continuous variables are presented as median (minimum-maximum). Results. Twenty cases of sepsis by Candida albicans were identified, which represents an incidence rate of 1,05% (among 1901 VLBW newborns). Nineteen cases were diagnosed by a positive blood culture and two by autopsy. Median gestational age and birthweight were 26 weeks (24-32) and 835g (700-1450), respectively. Most newborns had or had had central catheters (100%), invasive ventilation (95%), prolonged total parenteral nutrition (100%) and large spectrum antibiotherapy (100%) at the time of diagnosis. The median age at diagnosis was 21 days (10-80). There was organ disease in six cases. Amphotericin was the main antifungal used (95%) with 83% effectivity and 20% liver toxicity. Letality rate was 15%. Conclusions. The main affected group was newborns with less than 1000g birthweight and less than 28 weeks gestational age. The risk factors were multiple and frequent. Amphotericin B was the preferred antifungal with good effectivity and moder- Correspondência: José Nona Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais Maternidade Dr. Alfredo da Costa Rua Viriato 1050 Lisboa [email protected] 103 Acta Pediatr Port 2007:38(3):103-8 Pimentel S et al – Sépsis por fungos no RNMBP ate toxicity. Autopsy was decisive in diagnosing sepsis without identifiable agent, organ disease and cause of death. terismo epicutâneo-cava - EPC), ventilação mecânica, nutrição parentérica total, antibioterapia, patologia associada; Keywords: prematurity, very low birthweight, candidemia, fungal sepsis, Candida albicans. • método de diagnóstico: produto onde se isolou o agente, atingimento de órgão (exame citoquímico e cultural do liquor, urocultura por cateterismo vesical, exame oftalmológico, ecografia cardíaca, abdominal, renal, vesical e transfontanelar, autópsia); Acta Pediatr Port 2007;38(3):103-8 Introdução A sépsis por fungos é causa de mortalidade e grave morbilidade nas Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN) 1-9. A sua incidência varia entre 2,6% e 20% nos recém-nascidos de muito baixo peso (RNMBP) 4,5,10-12. Estes valores têm aumentado ao longo dos anos 5,7,8,11,13 e, actualmente, a Candida é o terceiro agente de sépsis tardia mais frequente neste grupo 7,14. A prematuridade e o muito baixo peso, a colonização fúngica, a dermatite fúngica extensa e a sépsis bacteriana são situações frequentemente associadas ao maior risco de candidémia 4,5,9,10,12,15-18. Vários procedimentos habituais em UCIN (sobretudo se prolongados) também parecem associados ao aumento de risco para colonização por Candida15,19 e infecção sistémica 2,4,5,9,11,12,14,15,20,21. Uma vez que os sinais de candidémia são inespecíficos 2,5,11,13,15 e a hemocultura pouco sensível, a presença de factores de risco é decisiva no diagnóstico determinando o início de terapêutica empírica 4,22. A investigação laboratorial e imagiológica para excluir atingimento de órgão é obrigatória 5,8,11,23. O estudo dos casos de sépsis por fungos numa UCIN permite conhecer o contexto de apresentação de doença e a flora dominante. Desta forma podem-se diminuir os factores de risco, melhorar a suspeita diagnóstica e a efectividade terapêutica (e/ou profiláctica), melhorando o prognóstico. O objectivo deste estudo foi determinar a incidência de sépsis por fungos no RNMBP na UCIN desta maternidade, analisar a presença dos factores de risco e a efectividade da terapêutica instituída. • terapêutica: anti-fúngico administrado, duração da terapêutica, trombocitopénia, toxicidade renal (elevação de concentração plasmática de creatinina e ureia ou alteração do ionograma), toxicidade hepática (elevação da concentração plasmática de transaminases hepáticas, bilirrubina ou alteração das provas de coagulação) e efectividade terapêutica (percentagem de casos com resolução clínica e laboratorial de infecção após administração de anfotericina B durante um período de tempo adequado para obter efeito terapêutico 23). • letalidade da sépsis por fungos: proporção de óbitos atribuídos a infecção fúngica entre o número total de casos de infecção fúngica. Análise estatística descritiva efectuada com o programa SPSS® for Windows (SPSS Inc., Chicago, Illinois, EUA). Os resultados referentes a variáveis contínuas são apresentados como mediana (mínimo-máximo). Resultados Registaram-se 20 casos de sépsis por fungos. A incidência de sépsis por fungos, no período estudado, foi de 1,05% em 1901 RNMBP e de 2,4% em 754 RN com peso à nascença <1000g. A distribuição dos casos ao longo do período estudado está ilustrada na Figura 1. No ano de 1998 ocorreram dois casos no mesmo mês e três em meses seguidos. Os casos diagnosticados em 2001 ocorreram aos pares em meses diferentes. População e métodos Local: UCIN de um hospital de apoio perinatal diferenciado. Critérios de inclusão: RNMBP (peso à nascença <1500g) nascidos entre 1 de Janeiro de 1990 e 31 de Dezembro de 2002 (nascidos ou transferidos por prematuridade para este hospital). Definição de caso: • sinais clínicos de sépsis; • uma hemocultura, uma cultura de liquor ou exame anatomopatológico positivo para fungos. Figura 1 – Distribuição anual dos casos de sépsis por Candida albicans. Desenho do estudo: Revisão casuística. Os parâmetros estudados estão resumidos nos Quadros I a III. Parâmetros analisados: A razão de masculinidade foi de 1,5 (12:8). A mediana da idade gestacional foi de 26 semanas (24-32 semanas) e a do peso de nascimento de 835g (700-1450). • sexo, idade gestacional, peso à nascença; • factores de risco para fungémia (tipo e duração): colonização por fungos, cateterismo central (cateterismo da artéria umbilical - CAU, cateterismo da veia umbilical - CVU, cate104 Identificou-se colonização por Candida albicans em catorze casos (Quadro I). Na altura do diagnóstico, todos os recém-nas- Acta Pediatr Port 2007:38(3):103-8 Pimentel S et al – Sépsis por fungos no RNMBP Quadro I – Factores de risco do prematuros estudados. Caso nº 20, entre parêntesis, tempo em relação a suspeita ecográfica de infecção fúngica. Nº Ano Sexo PN IG CAU CVU EPC VM NPT AB AB Col (g) (S) (d) (d) (d) (d) (d) (nº) (d) 1 1991 m 815 25 9 5 28 31 16 5 19 - 2 1992 m 700 24 12 11 2 12 12 4 12 P 3 1995 m 1365 30 6 nf 4 9 6 2 13 UI 4 1996 f 860 26 nf 2 7 7 6 2 7 UI 5 1997 m 939 26 4 2 15 7 13 2 9 U,C 6 1997 m 890 26 11 6 29 31 31 5 34 - 7 1997 m 840 26 2 10 20 26 26 5 26 U,C,S 8 1998 f 695 27 5 5 9 13 10 5 13 P 9 1998 f 730 25 10 9 21 29 27 4 25 U,C 10 1998 f 848 26 3 3 17 26 10 4 24 UI 11 1998 f 880 25 11 11 32 13 21 4 24 U,C 12 1998 m 880 24 3 4 9 12 12 2 12 - 13 1998 m 1450 30 2 6 8 4 11 2 12 - 14 1999 f 694 26 8 7 12 9 16 2 11 - 15 2000 m 754 24 7 7 5 11 9 4 11 C,P 16 2001 m 673 24 8 8 10 18 17 4 19 - 17 2001 f 761 32 nf 3 9 nf 10 2 10 C 18 2001 f 830 27 10 7 18 24 14 4 13 U,C 19 2001 m 858 26 11 11 5 15 13 2 11 U,C 20 2002 m 751 25 8 5 38 (36) 80 (41) 47 (40) 7 80 (41) P AB - antibiótico; CAU - tempo de catéter na artéria umbilical (no diagnóstico); CVU - tempo de catéter na veia umbilical (no diagnóstico); Col - colonização/culturas positivas (C - catéter; P - pele; S - secreções brônquicas; U - urina; UI - leveduras na urina com cultura negativa); d - dias; EPC - tempo de catéter epicutâneo-cava (no diagnóstico); f - feminino; IG - idade gestacional; m - masculino; nº - número; nf - procedimento/exame não realizado; NPT - tempo de nutrição parentérica total (no diagnóstico); PN - peso à nascença; S - semanas; VM - tempo de ventilação mecânica (no diagnóstico). cidos tinham ou tinham tido cateter central, tinham feito nutrição parentérica total (16 ainda mantinham na altura do diagnóstico), 19 tinham sido sujeitos a ventilação mecânica invasiva (Quadro II). Os antibióticos previamente administrados foram: ampicilina (n=19), cefotaxime (n=17), vancomicina (n=11), ceftazidima (n=8), gentamicina (n=6), amicacina (n=6), flucloxacilina (n=2), metronidazol (n=2), clindamicina (n=1). A maioria dos casos (17/20 casos, 85%) tinha ou tinha tido outras patologias associadas, nomeadamente, sépsis precoce (n=1 Escherichia coli), sépsis tardia (n=8, n=3 Staphylococcus aureus, n=2 Staphylococcus epidermidis, n=1 Escherichia coli, n=2 sem agente isolado), doença de membrana hialina de grau igual ou superior a III (n=7), hipertensão pulmonar grave com necessidade de óxido nítrico (n=1), enterocolite necrosante com necessidade de cirurgia (n=1), persistência do canal arterial (n=14), insuficiência renal transitória (n=2). A hemocultura foi positiva para Candida albicans em dezanove recém-nascidos (Quadro II). A mediana do intervalo entre a colheita de hemocultura e o resultado foi de três dias (1-6). O diagnóstico foi obtido por autópsia no caso 20, no qual as hemoculturas foram persistentemente negativas. Pesquisou-se atingimento de órgão por exame oftalmológico (n=18), por estudo ecográfico transfontanelar (n=17), abdominal (n=8), renal e vesical (n=10), cardíaco (n=8), por urocultura (n=20) e por exame do liquor (n=5). Diagnosticou-se atingimento de órgão nos seguintes casos: • 1 e 8, infecção urinária (isolamento de Candida albicans em duas uroculturas para cada caso); • 2, microabcessos cardíacos, pulmonares, cerebrais e cerebelosos (autópsia); • 6, meningite sem agente isolado, no contexto de sépsis por Candida, interpretada como meningite por Candida; • 18, múltiplos abcessos hepáticos (ecografia); • 20, infecção urinária (duas uroculturas positivas aos 16 dias de vida), vegetação intra-cardíaca e intra-vesical (ecografia aos 41 dias), atingimento multi-orgânico (autópsia). Não houve nenhum caso de isolamento de Candida albicans no liquor. A terapêutica predominante foi a anfotericina B endovenosa, com mediana de duração de 23 dias (22-60). No caso 20 realizou-se um primeiro ciclo de anfotericina B por infecção urinária (21 dias de terapêutica) e um segundo ciclo aos 41 dias de vida por vegetação intra-cardíaca e intra-vesical. Neste doente foi feita também irrigação intra-vesical com anfotericina B (três dias), com aparente resolução ecográfica da lesão. O caso 5, por uma urocultura positiva cinco dias após terminar anfotericina B, fez um ciclo de 21 dias com fluconazol. No caso 18 associou-se flucitosina por manter hemocultura positiva e evidência ecográfica de abcessos intra-hepáticos (após 25 dias de anfotericina B). Retirou-se o catéter central após o diagnóstico de candidémia em todos os casos com a excepção do caso 1 (no caso 20 após o aparecimento de alterações ecográficas) 9,24. O intervalo entre a hemocultura negativa após o início da terapêutica e o fim da terapêutica variou entre dois e 30 dias. No 105 Acta Pediatr Port 2007:38(3):103-8 Pimentel S et al – Sépsis por fungos no RNMBP Quadro II – Estudo e tratamento dos prematuros estudados. Caso nº 20, entre parêntesis, tempo em relação a suspeita ecográfica de infecção fúngica. Nº HC HC IDg 1 + 2 OG Tp Tp Tx DI (d) (d) 31 4 R (tipo) (d) AC + 13 3 Mt 3 + 14 6 - 4 + 7 3 - 5 + 20 3 - 6 + 34 2 M 7 + 29 1 8 + 13 9 + 29 10 + 11 Ób 18 H 149 - AC 2 - 16 + AC 19 H 168 - AL 28 - 81 - AL FZ 23, 21 - 81 - - 0 - 36 + - AL 22 H 89 - 3 R ACL 27 - 76 - 2 - ACL 25 - 76 - 26 3 - AL 44 - 85 - + 33 3 - AL 24 H 87 - 12 + 12 4 - ACL 22 - 110 + 13 + 13 3 - ACL 22 - 51 - 14 + 18 3 - ACL 26 - 122 - 15 + 11 1 - AL 31 - 82 - 16 + 18 2 - ACL 22 - 90 - 17 + 11 2 - ACL 22 - 76 - 18 + 24 3 H ACL/FT 39 - 93 - 19 + 15 5 - ACL 23 - 128 - 20 - - -(41) Mt ACL 60 (21,39) - 80 + (d) d - dias; DI - duração do internamento; HC - hemocultura; HC(d) - dias de vida quando a hemocultura foi positiva; IDg - dias entre a colheita de hemocultura e o diagnóstico; nº - número; Ób - óbito; OG - atingimento de órgão (H - fígado; M - meninges; Mt - múltiplos órgãos; R - rim); Tp - terapêutica (AC - anfotericina B clássica; ACL - anfotericina B complexo lipídico; AL - anfotericina B lipossómica; FT - flucitosina; FZ - fluconazol); Tx - toxicidade (H - hepática). Quadro III – Duração das intervenções realizadas e idade na realização da hemocultura diagnóstica [mediana (mínimo-máximo)]. Duração (dias) Cateterismo da artéria umbilical 8 (2-12) Cateterismo da veia umbilical 6 (2-11) Catéter epicutâneo-cava 11 (2-38) Ventilação mecânica invasiva 13 (4-80) Nutrição parentérica total 13 (6-47) Antibioterapia 13 (7-80) Idade (dias) Hemocultura positiva 18 (7-34) caso 20 ocorreu resolução imagiológica das lesões após 29 dias de terapêutica e após irrigação intra-vesical. Optou-se por manter a anfotericina B endovenosa tendo em conta a gravidade do quadro. Ocorreu toxicidade hepática em quatro casos, correspondendo a uma taxa de toxicidade hepática de quatro em 20 casos (20%) para a anfotericina B em geral, de dois em três casos para a forma clássica e de dois em seis casos para a forma lipossómica. Os valores máximos de AST e ALT foram de 330 e 234 UI/L (caso 1), 470 e 182 UI/L (caso 3), 385 e 275 UI/L (caso 7), 75 e 94 UI/L (caso 11), com valores de GGT de 103 UI/L (caso 3) e 211 UI/L (caso 11). Não se verificaram casos de trombocitopénia nem toxicidade renal. 106 Ocorreram quatro óbitos, dos quais três foram associados a infecção por Candida. No caso 12 a morte foi associada a complicação cirúrgica de ileostomia. A taxa de letalidade da sépsis por fungos foi de 15%. Todos os casos falecidos foram sujeitos a autópsia, tendo mostrado atingimento de órgão por Candida em dois casos (2 e 20) e tendo sido negativa para um caso (3). No doente 2 detectaram-se microabcessos cardíacos, pulmonares, cerebelosos e cerebrais e no 20 demonstraram-se hifas intra-cardíacas, pulmonares, hepáticas e no interior dos vasos da serosa da bexiga. Tendo em conta que ocorreram três óbitos associados a infecção fúngica, dos quais apenas um tinha uma duração de terapêutica adequada, e houve necessidade de alterar ou associar outro anti-fúngico em dois casos, a efectividade ou sucesso terapêutico da anfotericina B (considerando as três formulações) foi de 83% (15 em 18 casos). Discussão A incidência de sépsis por fungos no período estudado foi inferior à descrita por outras unidades e não aumentou ao longo do tempo 5,8,12,13,25. A leitura da incidência não parece dar indicações para estabelecer medidas profilácticas nesta unidade 23. Nos anos de 1998 e 2001 houve suspeita de transmissão horizontal de Candida. No entanto, esta suspeita não foi investigada usando técnicas de ADN molecular. Acta Pediatr Port 2007:38(3):103-8 A única espécie de Candida isolada foi a albicans, o principal colonizador do tracto genital materno 12,15. A idade pós-natal no diagnóstico é compatível com transmissão vertical e com o predomínio desta espécie. Na população estudada, 90% dos recém-nascidos tinha um peso à nascença inferior a 1000g e 85% idade gestacional inferior a 28 semanas 4,5,7,9,10,13,15,20,25. Encontrou-se colonização na maioria dos doentes, estando esta potencialmente associada a doença 9,10,12,15-17, sobretudo se adicionada a administração de antibióticos de largo espectro. A presença de candidúria em RN sintomáticos ou de candidíase mucocutânea extensa em RNMBP é indicação para início de terapêutica endovenosa 23. Os procedimentos descritos como de risco 2,4,5,9,11,12,14,15,18-21 foram frequentes. Observou-se maior uso de cefotaxime mas menor uso de gentamicina, amicacina, ceftriaxone, vancomicina e imipnem, com maior duração do período de antibioterapia, menor tempo de duração de nutrição parentérica e maior isolamento de Candida em catéteres centrais do que num estudo anterior 5. Cerca de metade dos doentes tinha diagnóstico anterior de sépsis bacteriana justificando os antibióticos administrados. Os restantes casos em que se administrou antibioterapia foram justificados por um contexto de infecção pulmonar, abdominal ou renal (com critérios clínicos e laboratoriais). A presença de patologia cardiopulmonar justificou também necessidade de ventilação mecânica. A cirurgia abdominal foi também um factor de risco presente, previamente descrito pela frequente colonização do intestino por Cândida 18,21. O diagnóstico de infecção sistémica por Candida é difícil pela baixa sensibilidade e demora das hemoculturas 4,11. A maioria dos resultados demorou três dias, destacando-se um caso em que a hemocultura nunca foi positiva (apesar de doença multissistémica). A autópsia teve um papel imprescindível, estabelecendo o diagnóstico de infecção fúngica num caso em que todos os exames microbiológicos foram negativos e permitindo o diagnóstico de atingimento de órgão. Este exame deve ser obrigatório em todos os casos fatais de suspeita de sépsis sem agente isolado ou em casos com aparente falência de terapêutica dirigida. O atingimento de órgão foi menos frequente do que o descrito 5,6,11,22 embora não se tivesse seguido um protocolo rígido de pesquisa de doença de órgão. O rim foi o órgão mais frequentemente afectado. No doente 20, a infecção urinária parece ter sido a porta de entrada para candidémia, tendo ocorrido um mês antes das alterações ecográficas. A presença de vegetações ou abcessos nas localizações descritas deve levantar a suspeita de infecção fúngica e início de terapêutica. A trombocitopénia foi um factor limitante na realização de punções lombares. A anfotericina B foi o fármaco de eleição sendo usada em monoterapia 2,11,13,16,23,25-28. O uso inicial de formas lipídicas de anfotericina B tem sido aconselhado em RN em UCIN, pelo maior risco de intolerância à forma clássica 23. A eliminação renal das formas lipídicas parece ser menor em relação à clássica 23, podendo discutir-se a sua utilização nos casos 8 e 20 Pimentel S et al – Sépsis por fungos no RNMBP (sobretudo neste último, em que se recorreu a terapêutica intra-vesical por dificuldade na resolução da massa vesical). Houve suspeita de falência de anfotericina B em dois casos, sendo substituída por fluconazol num e associando-se flucitosina noutro, com sucesso. A associação de anti-fúngicos está recomendada em casos graves ou persistentes 23,27. Segundo a literatura, a anfotericina B é eficaz e bem tolerada em recémnascidos, sobretudo nas formas lipídicas 5,11,16,23,25,26,28-30. De facto, apenas se detectou toxicidade hepática em quatro casos (sendo dois com a forma clássica). Tendo em conta a gravidade do quadro infeccioso e a forma relativamente ligeira a moderada de toxicidade descrita neste estudo, esta pode ser considerada como aceitável. Embora permaneçam as incertezas quanto à duração da terapêutica, esta foi sobreponível à de outros estudos 2,12,16,23. A letalidade de sépsis por fungos neste estudo teve valores mais baixos do que na maioria dos estudos 2-4,13,14,26,28. O atingimento de múltiplos órgãos foi mais frequente nos casos de óbito, aparentemente associado a mau prognóstico, pelo que na suspeita de infecção fúngica deve ser pesquisada doença de órgão de forma sistemática (por exame citoquímico e cultural do liquor, urocultura, exame oftalmológico, ecografia cardíaca, abdominal, renal, vesical e transfontanelar e eventual autópsia). Conclusão O principal grupo afectado foi o recém-nascido com menos de 1000g de peso à nascença e menos de 28 semanas de idade gestacional. Os factores de risco associados a infecção fúngica foram frequentes. O atingimento de órgão, indicativo de maior gravidade de doença, foi raro. A anfotericina B foi o fármaco de eleição com boa efectividade e efeitos secundários moderados. O exame anatomo-patológico post mortem (obrigatório) permitiu esclarecer quanto à etiologia de sépsis clínica, verificar a existência de atingimento de órgão e a causa de morte. Referências 1. Lee BE, Cheung PY, Robinson JL, Evanochko C, Robertson CM. Comparative study of mortality and morbidity in premature infants (birth weight, < 1250 g) with candidemia or candidal meningitis. Clin Infect Dis 1998;27:559-65. 2. Benjamin DK Jr, Ross K, McKinney RE Jr, Benjamin DK, Auten R, Fisher RG. When to suspect fungal infection in neonates: A clinical comparison of Candida albicans and Candida parapsilosis fungemia with coagulase-negative staphylococcal bacteremia. Pediatrics 2000; 106:712-8. 3. Friedman S, Richardson SE, Jacobs SE, O’Brien K. Systemic Candida infection in extremely low birth weight infants: short term morbidity and long term neurodevelopmental outcome. Pediatr Infect Dis J 2000; 19:499-504. 4. Saiman L, Ludington E, Pfaller M. 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Benjamin DK Jr, Stoll BJ, Fanaroff AA, McDonald SA, Oh W, Higgins RD et al, National Institute of Child Health and Human Development Neonatal Research Network. Neonatal candidiasis among extremely low birth weight infants: risk factors, mortality rates, and neurodevelopmental outcomes at 18 to 22 months. Pediatrics 2006;117:84-92. 10. Huang YC, Li CC, Lin TY, Lien RI, Chou YH, Wu JL et al. Association of fungal colonization and invasive disease in very low birth weight infants. Pediatr Infect Dis J 1998;17:819-22. Pimentel S et al – Sépsis por fungos no RNMBP 19. Saiman L, Ludington E, Dawson JD, Patterson JE, Rangel-Frausto S, Wiblin RT et al, National Epidemiology of Mycoses Study Group. Risk factors for Candida species colonization of neonatal intensive care unit patients. Pediatr Infect Dis J 2001;20:1119-24. 20. Weese-Mayer DE, Fondriest DW, Brouillett RT, Shulman ST. Risk factors associated with candidemia in the neonatal intensive care unit: a case-control study. 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Liposomal amphotericin B (AmBisome) in the treatment of neonatal candidiasis in very low birth weight infants. Infection 2000;28:223-6. 0873-9781/07/38-3/109 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria ARTIGO ORIGINAL Prevalência de tuberculose em crianças de risco residentes na Ameixoeira, Lisboa Sónia Pimentel1,3, Laura Teixeira2, Luís Varandas3, Amélia Pimpão4 1 - Centro de Saúde do Lumiar - sede, Lisboa 2 - Centro de Saúde do Lumiar - extensão Charneca; Unidade Móvel do Projecto Saúde XXI, Lisboa 3 - Hospital de Dona Estefânia, Lisboa 4 - Centro de Saúde do Lumiar - Centro de Diagnóstico Pneumológico (CDP) do Lumiar, Lisboa Resumo Introdução. As taxas de prevalência de tuberculose infecção e doença têm declinado em Portugal. No entanto, a pandemia da infecção pelo vírus de imunodeficiência humana, a toxicodependência e más condições de salubridade podem reverter esta tendência. O rastreio de crianças assintomáticas em contacto com adultos em risco de contrair a doença é crucial pois os casos de tuberculose infantil são devidos a um risco elevado e recente de transmissão na comunidade. Objectivos. Determinar a prevalência de tuberculose infecção/doença numa amostra de crianças em contacto com adultos de risco; determinar a prevalência de factores de risco e sua efectividade como preditores de infecção/doença nesta amostra; administrar quimioprofilaxia/terapêutica aos casos detectados e investigar as possíveis fontes de contágio. População e Métodos. Estudou-se uma amostra de conveniência de crianças que frequentavam uma instituição recreativa para crianças e jovens na Ameixoeira – Lumiar (Lisboa) no período de Abril-Maio de 2005. Aplicou-se um questionário sobre factores de risco para tuberculose e fez-se prova tuberculínica pelo método de Mantoux. A leitura foi efectuada após 72 horas. Os casos positivos (induração > 15 mm de diâmetro) foram submetidos a avaliação clínica e radiológica e quimioprofilaxia/terapêutica. Os seus coabitantes foram investigados. Os dados foram analisados pelo programa StatCal-Epiinfo 3.2.2. Resultados. Estudaram-se 100 crianças (54 famílias) das quais 44% tinham pelo menos um factor de risco. Em duas crianças o teste de tuberculina foi positivo sendo o diagnóstico final de tuberculose infecção. O rastreio dos seus coabitantes foi negativo. A prevalência de infecção na amostra estudada foi de 2:100. O questionário aplicado teve um valor preditivo positivo de 2,2% e negativo de 98% para detectar infecção por tuberculose. Recebido: Aceite: 07.12.2006 27.06.2007 Conclusões. A prevalência de infecção na amostra de crianças estudada foi elevada. O questionário aplicado teve pouca acuidade para predizer a presença de infecção/doença nesta amostra. Palavras-chave: tuberculose, prova tuberculínica, intradermoreacção de Mantoux, rastreio, efectividade. Acta Pediatr Port 2007;38(3):109-13 Tuberculosis prevalence in children at high-risk from Ameixoeira, Lisbon Abstract Introduction. Tuberculosis infection and disease prevalence rates have declined in Portugal. Nevertheless, human immunodeficiency virus infection pandemia, intravenous drug abuse, crowded and poor living conditions can potentially reverse this. Testing asymptomatic children for tuberculosis (especially those in contact with high-risk adults) is crucial since tuberculosis in children results from recent high risk of transmission in the community. Aims. To determine tuberculosis latent infection/disease prevalence in a pediatric population in contact with high-risk adults; determine the prevalence of risk factors and their effectivity as predictors of infection/disease; administer prophylaxis/treatment and investigate possible sources of infection. Population and Methods. A convenience sample of children attending a leisure activity centre for children and youngsters in Ameixoeira - Lumiar (Lisbon), was studied during the period of April-May 2005. A risk assessment questionnaire on risk factors for tuberculosis was used and a tuberculin skin test was administered by the Mantoux method. The result was read 72 hours later. Clinical evaluation and thorax X-ray was Correspondência: Sónia Pimentel Hospital de Dona Estefânia, Serviço 2 Rua Jacinta Marto 1150 Lisboa 109 Acta Pediatr Port 2007:38(3):109-13 done to all positive cases (>15 mm diameter of induration). Prophylaxis/treatment was provided. Their contacts were investigated. Data were analysed using StatCal-Epiinfo 3.2.2. Results. One hundred children (54 families) were studied. Forty-four children had at least one positive risk factor. Two children had a positive tuberculin skin test but none developed disease. Screening of contacts was negative. The prevalence of infection in the studied population was 2:100. The applied questionnaire had a positive predictive value of 2,2% and negative predictive value of 98% for detecting tuberculosis infection. Conclusion. Prevalence of infection was high in the studied population. The applied questionnaire did not predict infection/disease accurately in this high-risk population. Keywords: tuberculosis, children, tuberculin skin test, Mantoux test, screening, effectivity. Acta Pediatr Port 2007;38(3):109-13 Introdução A tuberculose na população pediátrica é um acontecimento sentinela que indica transmissão recente de Mycobacterium tuberculosis (MT) a partir de um adulto ou adolescente infectado 1. Por sua vez, as crianças infectadas têm uma elevada probabilidade de vir a constituir fontes de contágio activo no futuro, completando o ciclo de infecção por MT 1. Por este motivo, a Organização Mundial de Saúde considera essencial o rastreio de tuberculose latente na população pediátrica de alto risco para lidar com o problema mundial de tuberculose 2. O teste de Mantoux é o método usado universalmente para a identificação de infecção por MT na criança e em adultos assintomáticos 2,3. Em Portugal, a taxa de prevalência de tuberculose diminuiu de 57/100 000 habitantes em 1990 para 35/100 000 em 2004 4. Apesar disto, o Distrito de Lisboa é considerado como de alta incidência de tuberculose, com vinte e uma freguesias de alto risco de tuberculose 5. Alguns dos factores responsáveis pela falência do controlo da tuberculose nos países desenvolvidos são: o influxo de estrangeiros de países endémicos, a evolução da pandemia da infecção pelo vírus de imunodeficiência humana (VIH), o aumento de formas de tuberculose resistente, o aumento da toxicodependência, dos sem-abrigo e de bolsas de pobreza (sujeitas a más condições sanitárias com falta de arejamento, concentração populacional, sub-nutrição e stress) e a redução da estrutura de saúde pública para o controlo da tuberculose 6. Alguns destes problemas são frequentes nas comunidades de etnia cigana, pelo que estas podem ser consideradas, em termos epidemiológicos, como de risco. Em Portugal, as acções de rastreio activo têm como alvo prioritário contactos de doentes com tuberculose pulmonar ou contactos de crianças com qualquer forma de tuberculose, justificando-se ainda acções focalizadas em áreas de alto risco e bolsas de pobreza 7. De facto, o rastreio de populações seleccionadas com base numa estimativa de risco epidemiológico representa uma aplicação mais eficaz de recursos de 110 Pimentel S et al – Tuberculose em crianças de risco saúde, com elevada rentabilidade e menores resultados falsos positivos 3,8,9. Os objectivos gerais deste estudo foram: 1) determinar a prevalência de tuberculose infecção/doença numa amostra de crianças residentes em Lisboa em contacto com adultos de risco para tuberculose; 2) determinar a prevalência de factores de risco e a sua efectividade como preditores de infecção/doença. Os objectivos específicos foram: 1) diagnosticar os casos de tuberculose infecção e doença; 2) fornecer quimioprofilaxia ou tratamento aos casos detectados; 3) detectar e tratar as possíveis fontes de contágio (adultos), diminuindo o risco de transmissão de tuberculose na comunidade. População e Métodos População: Crianças que habitam bairros residenciais para realojamento, de construção recente na zona da Ameixoeira – Lumiar, em Lisboa. Local do estudo: Centro de Actividades de Tempos Livres da Pastoral dos Ciganos (Infantário e Ocupação de Tempos Livres para crianças e jovens) – Ameixoeira, Lumiar (Lisboa). Amostra: Amostra de conveniência de crianças que frequentavam a instituição acima citada, no período de realização do rastreio (Abril-Maio de 2005). Desenho do estudo e intervenções: Estudo descritivo transversal. Foi realizada uma entrevista estruturada às mães das crianças em que se aplicou um questionário sobre a presença de factores de risco de infecção e progressão para doença (incluindo contacto com doente com tuberculose activa, contacto com preso, toxicodependente ou infectado pelo VIH, viagem a país endémico para tuberculose, infecção por VIH), validado para a população americana 2,10, e sobre a presença de sintomas de tuberculose 1. O questionário foi preenchido pelos investigadores de acordo com a resposta das mães das crianças. Consultou-se o Boletim Individual de Saúde (BIS) para conhecimento da realização e data da vacina BCG, da realização e resultado de prova tuberculínica anterior e da data de vacinação com as vacinas contra o sarampo, parotidite epidémica, rubéola (VASPR) e vacina contra a poliomielite. Aplicou-se o teste de Mantoux de acordo com o descrito 7. A leitura do teste foi efectuada após 72 horas, de acordo com o descrito 7 e registada no BIS 3,11. O resultado da leitura foi avaliado de acordo com os dados fornecidos pelo questionário e de acordo com critérios nacionais 7,12. Os casos com prova tuberculínica positiva realizaram a) avaliação clínica (exame objectivo); b) avaliação radiológica (radiografia antero-posterior e de perfil de tórax); c) investigação de fontes de contágio - rastreio de coabitantes (telerradiografia de tórax aos contactos com mais de 16 anos e teste de Mantoux a adultos e crianças); d) quimioprofilaxia para tuberculose infecção ou terapêutica para tuberculose doença 7. Acta Pediatr Port 2007:38(3):109-13 Pimentel S et al – Tuberculose em crianças de risco lação ter uma intensa vida em comunidade, considerou-se como contacto apenas o ocorrido dentro do agregado familiar nuclear. Se consideradas também pessoas fora deste, 67 crianças teriam contacto com adultos de risco. Critérios de exclusão: Vacinação com VASPR ou vacina contra a poliomielite nas seis semanas anteriores; história de varicela, parotidite ou sindroma gripal nas seis semanas anteriores; doença febril no período do rastreio; imunodeficiência primária ou secundária; má nutrição grave; insuficiência renal crónica 2,3; ausência de autorização dos responsáveis legais para participar no rastreio. Os destinos das crianças que viajaram ou tiveram contacto com pessoas que viajaram a um país endémico foram: Angola (n=3), Brasil (n=1) e Ilha de S. Tomé (n=1). Todas as crianças nasceram em Portugal. Análise estatística: Avaliaram-se parâmetros de efectividade (valor preditivo positivo VP+, valor preditivo negativo VP-) do questionário aplicado como preditor de prova tuberculínica positiva. Calculou-se o odds ratio e respectivo intervalo de confiança de 95% [OR(IC95%)], para cada parâmetro. Utilizou-se o programa StatCal-Epiinfo 3.2.2 (CDC, Atlanta) para a análise estatística. Segundo o inquérito, 39 crianças tinham sintomas compatíveis com tuberculose doença, sendo os mais frequentes: diminuição do apetite, sudação nocturna e perda de peso. Relativamente à consulta do BIS, não havia registo de vacinação com vacina BCG em duas crianças, de três e doze anos. Ambas tiveram prova tuberculínica negativa, sendo a mais nova encaminhada para o Centro de Saúde da sua área de residência para realização de BCG. Não foi possível ter acesso ao BIS de quatro crianças; o resultado da prova tuberculínica nestas crianças foi negativo. Resultados Das 124 crianças pertencentes à instituição, foi aplicado o questionário a 112 e feito o teste de Mantoux a 100. Não foi possível estabelecer contacto com os responsáveis legais de doze crianças. Foi excluída uma criança por vacinação recente com VASPR e duas por doença febril aguda, não tendo nove comparecido na instituição no período da realização da prova tuberculínica. Dezasseis crianças tinham realizado anteriormente pelo menos uma prova tuberculínica, treze das quais foram prévias à realização da vacina BCG. As restantes três foram realizadas em contexto de rastreio de tuberculose no âmbito do Programa Nacional de Vacinação (PNV). A prova de tuberculina foi negativa em todos os casos. A duas crianças tinham sido feitas duas provas tuberculínicas anteriores, sendo a primeira prévia à BCG e a segunda em rastreio de tuberculose no âmbito do PNV. Numa das crianças a prova tinha sido considerada uma viragem (14mm), desconhecendo-se se fez quimioprofilaxia. Neste estudo, a prova tuberculínica desta criança foi considerada negativa (11mm). A mediana das idades das crianças foi de sete anos (p25-p75: 49 anos), com mínimo de dois anos e máximo de catorze anos, sendo metade do sexo masculino e metade do sexo feminino. Noventa e seis crianças eram de etnia cigana e quatro de raça negra. Estas crianças pertenciam a 54 agregados familiares nucleares (quatro famílias tinham quatro crianças na instituição, cinco famílias tinham três crianças na instituição). Relativamente ao resultado da leitura das provas tuberculínicas, 91 crianças foram anérgicas. As crianças com induração no intervalo [5,10[ (n=2) e [10-15[ (n=3) não tinham contactos conhecidos de tuberculose e tinham registo de realização de BCG. Em dois casos, a induração mediu mais de 15mm, nomeadamente 16 mm e 21 mm. As duas crianças, de seis e nove anos, não tinham contacto com casos conhecidos de tuberculose e ambas tinham sido vacinadas com BCG há mais de três anos, pelo que a prova foi considerada positiva. Não houve nenhum caso de viragem recente. Relativamente à presença de factores de risco, 44 crianças tinham pelo menos um factor de risco. O Quadro I resume a prevalência de factores de risco na amostra de crianças estudada e parâmetros de efectividade do questionário aplicado como preditor de prova tuberculínica positiva. Entre as que tinham um factor de risco positivo, uma teve prova tuberculínica positiva. Dois irmãos tinham tido contacto com um adulto (o pai) com tuberculose pulmonar anterior (em 1992 e 1998); este tinha sido tratado no Centro de Diagnóstico Pneumológico do Lumiar com aparente sucesso. As duas crianças com prova tuberculínica positiva não tinham qualquer sintoma de doença e a avaliação clínica e radiológica não revelou alterações, pelo que se considerou o diagnóstico de tuberculose infecção, sendo medicadas com isoniazida, rifampicina e pirazinamida durante dois meses. A nova avalia- Das crianças com contacto com preso, toxicodependente e/ou infectado pelo VIH, apenas em 39 os contactos eram coabitantes. Apesar de fazer parte dos hábitos culturais desta popu- Quadro I – Prevalência de factores de risco na população estudada e parâmetros de efectividade do questionário aplicado como preditor de prova tuberculínica positiva. Prevalência (%) VP+ (%) VP- (%) OR (IC95%) Contacto com doente com tuberculose activa 0 - - - Contacto com preso, toxicodependente, VIH+ 39 1,5 97 0,48 (0,05-5) Viagem a país endémico para TB 5 14 97 5,2 (0,1-75,4) Infecção VIH 0 - - - Pelo menos um factor de risco 44 2,2 98 1,28 (0-48,4) IC - intervalo de confiança; OR - Odds ratio; TB - tuberculose; VIH+ - infecção pelo vírus de imunodeficiência humana; VP - valor preditivo. 111 Acta Pediatr Port 2007:38(3):109-13 ção ao fim destes dois meses continuou negativa. Da avaliação dos contactos da criança de nove anos, a mãe e a irmã foram negativas, tendo o pai e outra irmã recusado a avaliação; a criança tinha um cunhado toxicodependente que não foi avaliado. A investigação dos cinco coabitantes da criança de seis anos foi negativa. A taxa de prevalência de tuberculose infecção nesta amostra foi de 2:100. A presença de pelo menos um factor de risco positivo como preditor de teste de Mantoux positivo teve um VP+ de 2,2% e VP- de 98%. Discussão As estratégias de vigilância para prevenção de tuberculose nas crianças têm alternado entre programas de rastreio universal e rastreio a grupos de risco 10. O rastreio universal de crianças (p.e. rastreio incluído em acções escolares) produz elevada proporção de resultados falsos positivos e gastos ineficazes de recursos de saúde 9. Isto deve-se ao facto do valor preditivo positivo do teste de Mantoux em populações de baixa prevalência ser fraco 3,8,13. Sugere-se então que se prefiram rastreios a grupos seleccionados de acordo com a estimativa de risco epidemiológico 7,8. Existem vários estudos publicados que propõem questionários de risco como base de rastreio de tuberculose dirigido a crianças 3,10,14, sendo os factores de risco epidemiológico mais consensuais: o contacto próximo com um caso de tuberculose activa ou de alto risco (presos, toxicodependentes, infectados pelo VIH, sem abrigo), nascimento ou viagem a país endémico e infecção pelo VIH 3. Este estudo baseou-se num questionário de avaliação de risco previamente validado numa comunidade com incidência de tuberculose de 38,6/100 000 (Estados Unidos da América), com valores de VP- de 99,8% e VP+ de 5,4% 10. Embora este questionário não tenha sido validado para a população portuguesa (e consequentemente para esta população), os resultados não foram muito diferentes e parece-nos aceitável que possa ser considerado uma boa ferramenta. De facto, os valores de efectividade foram semelhantes, assumindo especial relevância o VP- de 98%, que mostra elevada efectividade para excluir a presença de infecção no caso de não existirem factores de risco. De notar que as respostas dadas pelos cuidadores ao questionário não foram confirmadas, podendo algumas delas ser pouco exactas (p.e., verificou-se uma hipervalorização de sintomas de doença, embora estes sejam de facto inespecíficos). Os piores resultados obtidos podem dever-se ao “efeito de pequenos números”: uma amostra de conveniência pequena, com elevada prevalência de factores de risco e pequeno número absoluto de casos identificados, o que faz com que o questionário possa ser desadequado quando se considera uma população de alto risco. Na amostra estudada, a prevalência de factores de risco foi bastante elevada, atingindo pelo menos 44% das crianças. Como seria de esperar, a taxa de tuberculose latente também foi elevada – duas em cem crianças foram diagnosticadas como tendo tuberculose infecção. Aceitando que cinco a dez 112 Pimentel S et al – Tuberculose em crianças de risco por cento dos casos de tuberculose latente não tratada evoluem para doença (podendo este valor ir até 40%) 8,13, a taxa estimada de doença seria no futuro de 1-2/1000 crianças. O uso de anti-bacilares na prevenção da progressão de doença primária na criança tem-se demonstrado muito eficaz 8,13, sendo o esquema de dois meses com terapêutica tripla um dos preconizados 7,12, pelo que se considera que este estudo teve uma elevada rentabilidade social e económica. Durante a realização do rastreio evidenciaram-se ainda algumas dificuldades. Destaca-se a dificuldade em conseguir a colaboração dos familiares adultos, muitas vezes ausentes ou que recusam a ida a instituições de saúde (p.e. para o rastreio de coabitantes). Este problema foi tanto maior quanto mais frequentes os factores de risco nas famílias e incluíram os próprios casos a quem foi diagnosticada tuberculose infecção. Outro problema foi a dificuldade em encontrar as fontes de contágio, tal como já foi descrito anteriormente 15. O alargar do rastreio de contactos (ou seja, para além dos coabitantes) poderá melhorar a detecção dos casos iniciais 2. Conclusões A prevalência de factores de risco e a prevalência de tuberculose infecção nas crianças estudadas foi elevada, mostrando ser eficaz a realização de rastreios em populações de alto risco. O questionário aplicado parece ter tido pouca acuidade para predizer a presença de infecção/doença, mas boa acuidade para a excluir, quando aplicado a esta peculiar população portuguesa de alto risco. Neste estudo foi difícil detectar as fontes de contágio. No entanto, o tratamento dos casos de tuberculose infecção foi uma mais valia na interrupção do ciclo de infecção, com elevada rentabilidade social e económica. Agradecimentos À Sra. Enfermeira Helena Lucena, do Centro de Diagnóstico Pneumológico do Lumiar, pelo treino na realização e leitura da prova tuberculínica. Referências 1. Ampofo K, Saiman L. Pediatric Tuberculosis. Pediatr Ann 2002;31: 98-108. 2. World Health Organization. Guidance for national tuberculosis programmes on the management of tuberculosis in children. Documento WHO/HTM/TB/2006.371. Acessível em: http://whqlibdoc.who.int/hq/2006/WHO_HTM_TB_2006.371_eng.pdf. 3. American Thoracic Society. Diagnostic standards and classification of tuberculosis in adults and children: official ATS statement. Am J Respir Crit Care Med 2000;161:1376–95. 4. World Health Organization. Global tuberculosis control. surveillance, planning, financing. WHO Report 2006. Documento WHO/HTM/TB/2006.362. Acessível em: http://www.who.int/tb/publications/global_report/2006/en/. 5. Direcção Geral de Saúde. Estatísticas para a saúde. Doenças de Declaração Obrigatória 2000-2004. Acessível em: http://www.dgs.pt/upload/membro.id/ficheiros/i008440.pdf. Acta Pediatr Port 2007:38(3):109-13 6. World Health Organization. Treatment of tuberculosis. Guidelines for national programmes. Documento WHO/CDS/TB2003.313. Acessível em: http://www.who.int/tb/publications/cds_tb_2003_313/en/index.html. 7. Comissão de Trabalho de Tuberculose da Sociedade Portuguesa de Pneumologia. Tratamento da tuberculose latente. Revisão das normas. Acessível em: http://www.dgs.pt/upload/membro.id/ficheiros/i008314.pdf 8. American Thoracic Society /Center for Disease Control Statement Committee on Latent Tuberculosis Infection Membership List. Targeted tuberculin testing and treatment of latent tuberculosis infection. MMWR Recomm Rep 2000;49:1-5. 9. Lee E, Holzman R. Evolution and current use of the tuberculin test. Clin Infec Dis 2002;34:365-70. 10. Ozuah P, Ozuah T, Stein R, Burton W, Mulvihill M. NYCDOH Screening Questionnaire. JAMA 2001;285:451-3. Pimentel S et al – Tuberculose em crianças de risco 11. Carter ER, Lee CM. Interpretation of the tuberculin skin test reaction by pediatric providers. Pediatr Infect Dis J 2002;21:200-3. 12. Carvalho JM. Profilaxia da tuberculose: O BCG e a quimioprofilaxia. In Pina J editores. A Tuberculose na Viragem do Milénio. 1ª Edição. Lisboa: Edições Lidel; 2000. p379-88. 13. Starke JR, Correa A. Management of mycobacterial infection and disease in children. Pediatr Infect Dis J 1995;14:455-70. 14. Froehlich H, Ackerson LM, Morozumi PA. Targeted testing of children for tuberculosis: validation of a risk assessment questionnaire. Pediatrics 2001;107:e54. Acessível em: http://pediatrics. aappublications.org/cgi/content/full/107/4/e54. 15. Lobato M, Mohle-Boetani J, Royce S. Missed opportunities for preventing tuberculosis among children younger than five years of age. Pediatrics 2000;106:e75. Acessível em: http://pediatrics.aappublications.org/ cgi/content/full/106 /6/e75. 113 0873-9781/07/38-3/114 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria CASO CLÍNICO Insuficiência renal de evolução silenciosa Sara Diogo Santos1, Marta Aguiar2, Erica Mendonça3, Margarida Almeida3 1 - Serviço de Pediatria. Centro Hospitalar de Caldas da Rainha 2 - Serviço de Pediatria. Hospital de S. Francisco Xavier. Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental 3 - Unidade de Nefrologia Pediátrica. Clínica Pediátrica Universitária. Hospital de Santa Maria. Lisboa Resumo A nefronoftisis é uma entidade clínico-patológica hereditária recessiva que se enquadra num complexo clínico designado por nefronoftisis/doença quística medular e se caracteriza por nefropatia tubulo-intersticial crónica e progressiva que conduz sempre a insuficiência renal crónica terminal. Descreve-se o caso de uma adolescente de 12 anos de idade com agudização de insuficiência renal crónica de evolução silenciosa, com sintomatologia inicial inespecífica, não valorizada de poliúria e polidipsia, a que se associou anemia e retenção azotada graves, com rins de dimensões reduzidas e com perda da normal diferenciação cortico-medular. Salienta-se a inespecificidade das manifestações clínicas iniciais com progressão inevitável para insuficiência renal crónica terminal da nefronoftisis juvenil, sendo fundamental um elevado índice de suspeição diagnóstica desta identidade patológica. Palavras-chave: nefronoftisis juvenil, insuficiência renal crónica, genética. Acta Pediatr Port 2007;38(3):114-6 Renal failure silently progressive Abstract Nephronophthisis describes a recessively inherited clinicopathological entity that leads invariably to chronic renal failure, as a result of a chronic sclerosing tubulointersticial nephropathy. cific clinic manifestations and the inexorable deterioration to end-stage renal failure. Key-words: juvenile nephronophthisis; renal failure, chronic; genetics. Acta Pediatr Port 2007;38(3):114-6 Introdução A nefronoftisis juvenil enquadra-se no complexo nefronoftisis/doença quística medular. É uma entidade clínico-patológica hereditária caracterizada por nefropatia tubulo-intersticial crónica que conduz inevitavelmente a insuficiência renal crónica (IRC) terminal 1. É a causa genética mais frequente de IRC nas primeiras duas décadas de vida, sendo responsável por 2 a 10% dos casos de IRC em adultos jovens na Europa 1-3. Na nefronoftisis juvenil existe um defeito na síntese de nefrocistina, uma proteína de função ainda pouco conhecida que actua a nível da interacção entre as células tubulares 1-4. A alteração da função tubular é responsável pela redução da capacidade da concentração urinária 1. A tríade histológica, apesar de característica desta situação, não é patognomónica, consistindo na desintegração da membrana basal tubular, atrofia tubular e formação de microquistos com infiltração celular intersticial e fibrose 1-2,5. A nefronoftisis transmite-se de forma autossómica recessiva, tem início na infância, e a IRC terminal estabelece-se antes dos 25 anos de idade. A doença quística medular renal, de transmissão autossómica dominante, conduz a IRC na idade adulta 1-2,4-5. A 12 years old girl with acute exacerbation of an insidious chronic renal failure is reported. Polyuria and polidipsia were the earliest symptoms, although the situation was not recognized until severe anemia and endstage renal failure developed. Kidneys were moderately reduced with loss of corticomedullary differentiation. Descrevem-se quatro tipos de nefronoftisis 1 definidos pela idade em que se estabelece a IRC, pelos defeitos genético em diferentes locus cromossómicos e pela presença de manifestações extra-renais (Quadro I). O diagnóstico definitivo de nefronoftisis pode ser efectuado por genética molecular 1,4-5. This report shows the relevance of a high level of suspicion in the diagnosis of juvenile nephronophthisis, due to the unspe- A nefronoftisis juvenil caracteriza-se por uma evolução silenciosa e insidiosa, com sintomatologia inespecífica e frequen- Recebido: Aceite: Correspondência: Sara Diogo Santos Rua Francisco Gomes Avelar, nº 5 R/C 2500-811 Caldas da Rainha [email protected] 114 16.08.2006 23.05.2007 Acta Pediatr Port 2007:38(3):114-6 Santos SD et al – Insuficiência renal silenciosa Quadro I – Tipos de nefronoftisis (adaptado de Hildebrandt F 1). Nefronoftisis Cromossoma afectado Idade de aparecimento de IRCT Manifestações extra-renais Tipo 1 ou Juvenil* Cromossoma 2 12 -15 anos Apraxia oculo-motora Síndrome de Senior-Loken – retinite pigmentar Fibrose hepática congénita Alterações esqueléticas Síndrome de Joubert Tipo 2 ou Infantil Cromossoma 9 < 3 anos Não tem Tipo 3 ou Adolescente Cromossoma 3 19 anos Síndrome de Senior-Loken Tipo 4 Cromossoma 1 20 anos Síndrome de Cogan IRCT - Insuficiência Renal Crónica Terminal; * - Tipo de nefronoftisis mais frequente. temente não valorizada de poliúria e polidipsia em mais de 80% dos casos, podendo expressar-se por nictúria ou enurese nocturna secundária 1-2,5. Geralmente, o diagnóstico é tardio, efectuado numa fase avançada da IRC com anemia grave, associando-se a um risco acrescido de morte súbita por alterações do equilíbrio hidroelectrolítico 1-2, geralmente concomitante com intercorrências clínicas minor. O padrão ecográfico da nefronoftisis traduz-se por rins de dimensões normais ou moderadamente diminuídas, com perda da diferenciação cortico-medular e presença de microquistos em 70% dos casos 1,5. Os quistos, em número variável, localizam-se preferencialmente na junção corticomedular, aparecem tardiamente, não existem noutros orgãos e não são relevantes para a progressão da doença 1-2. Caso Clínico Adolescente do sexo feminino, 12 anos de idade, primeira filha de pais jovens não consanguíneos, saudáveis; irmã de nove anos, saudável; sem antecedentes familiares ou história de doenças renais relevantes. Antecedentes pessoais irrelevantes, com desenvolvimento estaturo-ponderal e psico-motor adequado, com peso e estatura entre o p50-75 e estadio pubertário IV de Tanner. Referência a quadro insidioso e não valorizado de poliúria com nictúria e polidipsia, associado a cansaço fácil e queixas álgicas nos membros inferiores, com início aos seis anos de idade. Duas semanas antes do internamento iniciou-se quadro de anorexia e astenia a que se associaram cefaleias, vómitos alimentares e parastesias, pelo que recorreu ao hospital da sua área de residência. Na admissão, apresentava palidez cutâneo-mucosa, edema palpebral e dos membros inferiores, aumento ponderal de 5 kg e hipertensão arterial moderada, sem sinais de sobrecarga cardíaca ou pulmonar. A avaliação laboratorial revelou anemia normocrómica e normocítica hiporegenerativa (hemoglobina=6,4 g/dl) e retenção azotada graves (ureia=358 mg/dl, creatinina=20,1 mg/dl), sem alterações electrolíticas; urina II: densidade=1010, hematúria microscópica (+), proteinúria (+++), glicosúria (+). A ecografia renal e vesical mostrou rins de dimensões reduzidas de diâmetro bipolar inferior a <-2SD, ausência de diferenciação cortico-medular e um pequeno quisto isolado no pólo inferior do rim esquerdo. Transferida para um Hospital Universitário de nível III pela necessidade de iniciar terapêutica de substituição renal. Clinicamente salientava-se o estado geral globalmente conservado e a relativa boa tolerância do quadro clínico. A caracterização laboratorial revelou acidose metabólica (pH=7,12; bicarbonato=11,4 mmol/l), hipocalcémia grave (cálcio total=3,5 mg/dl e cálcio ionizado=0,65 mg/dl), hiperfosfatémia (11 mg/dl) e hiperparatiroidismo (PTH=919,7 pg/ml, valor doze vezes superior ao normal); proteínas totais e albumina discretamente reduzidas com função hepática normal. A radiografia torácica não revelou sinais de estase pulmonar. Iniciou terapêutica de substituição renal com diálise peritoneal, eritropoetina, correcção das alterações do equilíbrio fosfocálcico e ácido-base, e controle da hipertensão arterial com bloqueadores dos canais de cálcio. A ecografia renal e vesical confirmou a presença de rins pequenos com ausência de diferenciação cortico-medular; a ecografia abdominal foi normal. O estudo imunológico e as serologias virais foram negativos. Ecocardiograficamente detectou-se hipertrofia do ventrículo esquerdo com função sistólica normal. A fundoscopia mostrou retinopatia hipertensiva e ausência de retinite pigmentar. Verificou-se regressão progressiva do edema e normalização da pressão arterial (necessitando inicialmente de dois antihipertensores, mas após correcção da sobrecarga hídrica sem qualquer terapêutica antihipertensora). O débito urinário esteve sempre mantido. Teve alta hospitalar mantendo programa de diálise peritoneal nocturna em cicladora automatizada, e em lista activa para acesso a transplante renal. Colocado o diagnóstico clínico provável de nefronoftisis juvenil, aguarda confirmação diagnóstica por genética molecular. Recentemente foi submetida a transplante renal. O estudo ecográfico e laboratorial da irmã não revelou alterações, nomeadamente defeito de concentração urinária. 115 Acta Pediatr Port 2007:38(3):114-6 Discussão As manifestações iniciais da nefronoftisis juvenil caracterizam-se por poliúria e polidipsia frequentemente pouco valorizadas. Com a evolução da doença, estabelece-se IRC progressiva, sem sintomas específicos, geralmente acompanhada de anemia grave. Habitualmente cursa sem proteinúria, hematúria, hipertensão arterial, edema ou história de infecções urinárias 1-2. O único defeito que se pode detectar precocemente é um défice da capacidade de concentração urinária, quando surge a suspeita desta identidade. Este caso ilustra a inespecificidade das manifestações iniciais e a progressão lenta e relativamente silenciosa para um quadro de IRC terminal, com anemia, retenção azotada e alteração do metabolismo fosfo-cálcico e ácido-base graves. A hipertensão arterial moderada e o edema, não sendo típicos da nefronoftisis juvenil, relacionam-se com a sobrecarga hídrica (hipervolémia) da insuficiência renal terminal. As alterações cardiológicas e oftalmológicas pressupõem a existência de hipertensão arterial mantida. Apesar da gravidade da anemia, do grau de retenção azotada e hipocalcémia, a situação era bem tolerada, o que se relaciona com a instalação lenta e progressiva da insuficiência renal. O diagnóstico diferencial inclui outras nefropatias intersticiais, como pielonefrite crónica e toxicidade farmacológica, excluídas pela inexistência de história de infecções urinárias ou ingestão frequente de fármacos 1,5. A doença renal poliquística autossómica recessiva, que pode evoluir com presença de microquistos renais e por vezes associada a doença hepática, possui características ecográficas diferentes (rins aumentados de volume) e cursa com hipertensão arterial geralmente grave. O diagnóstico definitivo da nefronoftisis juvenil estabelece-se por genética molecular 1-2,5. Contudo, se inconclusivo, baseiase na clínica, imagens ecográficas e, eventualmente, na biópsia renal 3. A histologia apesar de característica não é patognomónica, e numa fase avançada de IRC é geralmente inconclusiva pela esclerose e fibrose estabelecidas. 116 Santos SD et al – Insuficiência renal silenciosa A transplantação renal é a terapêutica de substituição da função renal de eleição na IRC terminal em pediatria, principalmente em doenças em que não ocorre recorrência no enxerto como é o caso da nefronoftisis juvenil 1. Conclusão A insuficiência renal crónica terminal estabelecida antes dos 20 anos de idade, com clínica insidiosa e inespecífica, associada a anemia e retenção azotada graves, com evidência de rins de dimensões moderadamente reduzidas com perda da diferenciação cortico-medular, é sugestiva da nefronoftisis juvenil. Este caso ilustra a necessidade de um elevado índice de suspeição diagnóstica, dada a inespecificidade clínica, nomeadamente com poliúria e polidpsia, que pode expressar-se por enurese nocturna secundária, e anemia normocrómica normocítica, que na fase inicial da doença é despropocionada com o grau de insuficiência renal. O diagnóstico atempado, embora não evite a progressão inevitável da doença, permite minimizar as suas consequências, melhorar a qualidade de vida e realizar o diagnóstico precoce nos familiares. Referências 1. Hildebrandt F. Nephronophthisis – Medullary cystic kidney disease. In: Avner E, Harmon W, Niaudet P, eds. Pediatric Nephrology. 5th ed. Cleveland: Lippincott Williams & Wilkins, 2003; pp665–70. 2. Grantham J. Winklhofer F. Cystic diseases of the kidney. In: Brenner B, Rector F, eds. Brenner & Rector´s The Kidney. 7th ed. Boston: W. B. Saunders Company, 2003; pp1759–63. 3. Saunier S, Salomon R, Antignac C. Nephronophthisis. 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Apresenta-se o caso de um recém-nascido no qual foi detectada uma massa pulmonar sugestiva de sequestro pulmonar, através de ecografia realizada durante a gestação, confirmada no período neonatal através da visualização da sua vascularização pela ecografia com Doppler. A criança manteve-se assintomática e foi submetida a ressecção cirúrgica do sequestro aos oito meses de idade. Com o avanço das técnicas imagiológicas antenatais, foi possível fazer o diagnóstico presuntivo de sequestro pulmonar durante a gestação. Palavras-chave: recém-nascido, sequestro pulmonar, diagnóstico pré-natal, terapêutica. Acta Pediatr Port 2007;38(3):117-9 Pulmonary sequestration with prenatal diagnosis. Case report Abstract Pulmonary sequestration is an infrequent broncho-pulmonary malformation, in which a portion of lung tissue receives its blood supply from the systemic circulation and doesn’t communicate with the bronchial tree through a normal bronchus. We report a newborn, in which a lung mass suggestive of pulmonary sequestration was identified on prenatal ultrasound. This was confirmed on a Doppler ultrasound during the neonatal period with the identification of the sequestration’s arterial blood supply. The child remained asymptomatic and was submitted to surgical resection of the sequestration at eight months of age. Recebido: Aceite: 01.07.2005 10.04.2007 Recent advances in prenatal imagiological techniques made it possible to presumptively diagnose pulmonary sequestration during gestation. Keywords: newborn, pulmonary sequestration, prenatal diagnosis, management. Acta Pediatr Port 2007;38(3):117-9 Introdução O sequestro pulmonar é uma malformação broncopulmonar pouco frequente 1. Pode ser definido como uma massa de tecido pulmonar não funcionante, isolada do restante parênquima pulmonar, que recebe a sua vascularização arterial da circulação sistémica e que não comunica com a árvore traqueobrônquica, ou que o faz através de um brônquio anormalmente localizado 2-4. O diagnóstico presuntivo desta situação pode ser feito actualmente no período antenatal, utilizando técnicas de imagiologia fetal 1,5. Um diagnóstico mais preciso deve ser realizado antes da ressecção cirúrgica da anomalia 2, que constitui a terapêutica consensual das formas sintomáticas 1,2. Relato do Caso Recém-nascido do sexo masculino, filho de mãe de 34 anos, II gesta, II para, com hipotiroidismo medicado, tendo estado durante toda a gestação eutiroideia. Não tinha outros antecedentes familiares relevantes. A gestação foi vigiada. Às 22 semanas a ecografia morfológica revelou uma massa bem delimitada, localizada na base do pulmão esquerdo, fundamentalmente sólida, mal vascularizada, de dimensões 23x26 mm, compatível com malformação adenomatóide quística pulmonar, não se conseguindo no entanto excluir sequestro broncopulmonar. Às 24 semanas, a ecografia efectuada quando da realização de amniocentese revelou imagem hiperecogénica mais sugestiva de sequestro pulmonar. O ecocardiograma fetal não mostrou alterações. Às 27 semanas de gestação foi diagnosticado hidrâmnios e a massa tinha 40x33x50 mm, parecendo ser extra-lobar. Os exames laboratoriais realizados à mãe, incluindo serologias para gruCorrespondência: Artur Sousa Rua de Infantaria 16, 97 - 2º dto 1350-164 Lisboa [email protected] 117 Acta Pediatr Port 2007:38(3):117-9 Sousa A et al – Sequestro pulmonar po TORCHS, VIH, e Ag HBS, foram normais ou não mostraram evidência de infecção recente. Nasceu de parto espontâneo hospitalar às 40 semanas, com extracção por ventosa, devido a bradicardia fetal durante o período expulsivo. O recém-nascido apresentava uma circular cervical larga do cordão umblilical, índice de Apgar de 9 ao 1º minuto e 10 ao 5º minuto, não tendo quaisquer malformações aparentes ou alterações no exame objectivo. A auscultação cardiopulmonar não mostrou alterações. A evolução pós-natal decorreu sem incidentes. O aleitamento foi exclusivamente materno. Realizou-se radiografia do tórax em ântero-posterior, que mostrou hipotransparência homogénea, na base do campo pulmonar esquerdo, de forma triangular e limites bem definidos (Figura 1). A ecografia torácica mostrou na mesma localização formação aparentemente sólida, heterogénea, apresentando vascularização detectada pelo Doppler, com 35x30 mm, bem como estrutura vascular paralela à aorta torácica descendente, parecendo ter origem nesta (Figura 2). Os aspectos descritos eram compatíveis com sequestro pulmonar. Figura 1 – Radiografia do tórax em ântero-posterior, mostrando hipotransparência de forma triangular na base do campo pulmonar esquerdo. O recém-nascido teve alta ao quarto dia de vida, referenciado para a Consulta de Cirurgia Pediátrica e com indicação de realizar tomografia computorizada (TC) torácica com contraste, para melhor definição da vascularização e planeamento de intervenção cirúrgica para excisão do sequestro. A TC torácica com contraste mostrou área de consolidação parenquimatosa do lobo inferior esquerdo, que revelou ser vascularizada por pequena artéria proveniente da aorta e de localização sub-diafragmática, aspectos que confirmaram mais uma vez a hipótese de sequestro pulmonar (Figura 2). Aos oito meses de idade, tendo estado sempre assintomático relativamente a esta situação, foi submetido a ressecção cirúrgica do sequestro por toracotomia, tendo-se confirmado intraoperatoriamente tratar-se de um sequestro extralobar. 118 Figura 2 – Em cima: ecografia torácica com Doppler, onde se visualiza a artéria de vascularização do sequestro, paralela à aorta torácica descendente. No centro e em baixo: TC torácica com contraste, na qual se visualiza o sequestro e a artéria de vascularização do mesmo, com origem na aorta torácica desdendente. Discussão As malformações pulmonares congénitas, embora diferenciadas clinicamente, representam um contínuo de anomalias de desenvolvimento do pulmão 3,5. O sequestro pulmonar constitui a segunda causa de malformação pulmonar congénita, sendo, no entanto, uma situação pouco frequente, com uma incidência estimada de até 1,8% 1. Acta Pediatr Port 2007:38(3):117-9 A sua etiologia está mal esclarecida. A teoria mais amplamente aceite sugere que resulta da formação de um esboço pulmonar acessório em posição caudal em relação aos esboços pulmonares normais, o que acontecerá entre a quarta e a oitava semanas de gestação 1,4. No caso apresentado, a localização do sequestro foi a mais habitual, na porção posterior da base do hemitórax esquerdo 1. Verificou-se posteriormente tratar-se de um sequestro extralobar, com revestimento pleural independente do restante pulmão, em oposição aos sequestros intralobares, que são contíguos ao restante parênquima pulmonar e estão incluídos na pleura visceral 1-4. Esta existência de revestimento pleural comum ou independente do restante pulmão está dependente da fase de desenvolvimento da pleura em que se dá a migração do esboço pulmonar acessório 5. Os sequestros intralobares, mais frequentes, têm drenagem venosa para o território pulmonar e são habitualmente anomalias isoladas. Os extralobares, têm a sua drenagem venosa dependente de veias sistémicas, como a veia cava inferior ou a veia ázigos 1,4,6 e podem associar-se a outras malformações congénitas como a hérnia diafragmática, outras anomalias pulmonares (hipoplasia pulmonar, malformação adenomatóide quística pulmonar, enfisema lobar congénito, quisto broncogénico), pectus excavatum, quistos pericárdicos, truncus arteriosus, drenagem venosa pulmonar anómala, dextrocardia, anomalias vertebrais, baço acessório e quistos de duplicação entéricos 1,6. Podem ainda comunicar com o esófago ou estômago 1,6. Em qualquer dos casos, e por definição, a vascularização arterial provém da circulação sistémica, mais habitualmente da aorta, através de uma ou mais artérias anómalas. Os sequestros intralobares raramente se manifestam clinicamente antes dos dois anos de idade, em oposição aos extralobares que o fazem habitualmente antes dos seis meses 1. Os sequestros extralobares são mais frequentemente assintomáticos, como no caso apresentado, constituindo achados na investigação de outras situações. Durante a gestação, existe risco associado de hidrópsia fetal 1. Após o nascimento, manifestações clínicas possíveis são as infecções pulmonares recidivantes ou crónicas a nível do tecido pulmonar anómalo, com febre e tosse (a manifestação clínica mais frequente nos casos de sequestro intralobar), síndrome de dificuldade respiratória, dificuldade na alimentação, dor abdominal, insuficiência cardíaca congestiva ou de alto débito (com shunt esquerdo/direito, devida ao grande calibre dos vasos arteriais), hemoptises ou hemorragia intratorácica maciça 1,4. O diagnóstico diferencial desta situação faz-se com malformação adenomatóide quística pulmonar, quistos broncogénicos ou quistos de duplicação entéricos, lesões da suprarenal e do rim, hemangioma, linfangioma, teratoma e neuroblastoma 1. Com a melhoria da definição das técnicas de ecografia antenatal, é agora possível identificar o sequestro a partir das 16 semanas de gestação 1,7. A associação do Doppler pode aumentar a acuidade diagnóstica, ao identificar uma artéria de vascularização do sequestro com origem sistémica 1. A ressonância magnética fetal, que está indicada nos casos de massa torácica fetal 1, não foi realizada neste caso. Ecograficamente Sousa A et al – Sequestro pulmonar foi possível visualizar uma massa hiperecogénica na base do pulmão esquerdo às 22 semanas de gestação. No entanto, o vaso anómalo só pôde ser visualizado já no período neonatal, através da ecografia com Doppler, o primeiro exame a realizar no período pós-natal, segundo as recomendações de alguns autores 1. Na radiografia do tórax, o aspecto mais frequente é o de hipotransparência triangular de limites bem definidos, como no presente caso. A tomografia computorizada com contraste e a angio-ressonância magnética permitem a confirmação do diagnóstico 1,2,7, como no caso descrito, tendo a angiografia convencional perdido o papel que tinha anteriormente no diagnóstico desta situação 1,2. A broncografia, utilizada no passado, está hoje formalmente contraindicada neste tipo de malformações. A terapêutica das situações sintomáticas é a ressecção cirúrgica por toracoscopia 8 ou toracotomia, e tem como objectivos impedir as infecções respiratórias de repetição e evitar a deterioração da função pulmonar 1. Uma parte fundamental da intervenção diz respeito à identificação, laqueação e secção do vaso anómalo. Alguns autores defendem a abstenção terapêutica das situações assintomáticas, particularmente das massas de pequena dimensão 1, atitude que não é, no entanto, a mais consensual. O caso apresentado ilustra a possibilidade de diagnóstico presuntivo pré-natal desta situação, bem como a marcha diagnóstica e abordagem terapêutica preconizadas actualmente para esta situação pouco frequente. Agradecimentos Às Dras. Miroslava Gonçalves e Luísa Lobo, pela cedência das imagens e contribuição na resolução do caso. Referências 1. Corbett HJ, Humphrey GM. Pulmonary sequestration. Paediatr Respirat Rev 2004;5:59-68. 2. Lucas M, Graça A, Pereira L, Barreto C, Bandeira T. Malformações pulmonares Congénias. Apresentação de casuística e revisão da Literatura. Acta Pediatr Port 2002;33:157-68. 3. Bush A. Congenital lung disease: A plea for clear thinking and clear nomenclature. Pediatr Pulmonol 2001;32:328-37. 4. Huang EY, Monforte HL, Shaul DB. Extralobar pulmonary sequestration presenting with torsion. Pediat Surg Int 2004;20:218-20. 5. Roggin KK, Breuer CK, Carr SR, Hansen K, Kurkchubasche AG, Wesselhoef CW et al. The unpredictable character of congenital cystic lung lesions. J Pediatr Surg 2000;35:801-5. 6. Asensio de la Cruz O, Marco Valls MT, Gil Vázquez JM, Obiols Arderius P, Martín Martín C, Bosque García MB. Secuestro pulmonar con bronquio esofágico supernumerario asociado. An Esp Pediatr 2002;56:261. 7. Blau H, Barak A, Karmazyn B, Mussaffi H, Ben Ari J, Schoenfeld T et al. Postnatal management of resolving fetal lung lesions. Pediatrics 2002;109:105-8. 8. Bonnard A, Malbezin S, Ferldadji L, Luton D, Aigrain Y, de Lagauise P. Pulmonary sequestration children: is the thoracoscopic approach a good option? Surg Endosc 2004;18:1364-7. 119 0873-9781/07/38-3/120 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria SOCIEDADE PORTUGUESA DE PEDIATRIA CONSENSOS E RECOMENDAÇÕES Consenso para o tratamento nutricional da leucinose Sociedade Portuguesa de Doenças Metabólicas Resumo A leucinose é uma doença hereditária do metabolismo dos aminoácidos de cadeia ramificada resultante de um défice ao nível do complexo enzimático de descarboxilação da leucina, isoleucina e valina. Trata-se de uma doença de transmissão autossómica recessiva, estando já descritas mais de 150 mutações. São conhecidas várias formas de apresentação da doença, sendo que, a maioria dos doentes é portador da forma clássica. O marcador bioquímico de excelência é a elevação das concentrações sanguíneas e urinárias dos aminoácidos de cadeia ramificada e dos respectivos ácidos α-cetónicos. O diagnóstico precoce é fundamental na prevenção da deterioração neurológica que se instala na ausência da implementação do tratamento nutricional adequado. Este consiste na prescrição de uma dieta restrita nos aminoácidos de cadeia ramificada, suplementada com uma mistura de aminoácidos isenta dos mesmos, de modo a poder satisfazer as necessidades em azoto. O risco de descompensação metabólica é elevado nestes doentes, pelo que o equilíbrio entre as necessidades e a toxicidade deve constituir um dos princípios mais importantes do seu tratamento. Palavras-chave: leucinose, leucina, valina, isoleucina, dieta, tratamento nutricional. Acta Pediatr Port 2007;38(3):120-8 Consensus for the nutritional treatment of maple syrup urine disease Abstract Maple Syrup Urine Disease is an inborn metabolic disease of branched chain amino acid metabolism, resulting from a deficiency of the enzymatic complex of decarboxylation of the branched chain amino acids leucine, isoleucine and valine. This disorder has an autosomal recessive transmission, with more than 150 mutations already described. There are several forms of clinical presentation, although the majority of the patients have the classical form of the disease. The main biochemical marker of the disease is blood and urinary eleva- Recebido: Aceite: 120 06.06.2007 06.06.2007 tion of the branched chain amino acids and the corresponding 2-oxo acids concentrations. Rapid diagnosis is crucial to prevent neurological impairment occurring in untreated patients. Treatment is based on a branched chain amino acids restricted diet supplemented with an amino acid mixture free of them in order to allow the satisfaction of the nitrogen needs. Taking into account the elevated risk of acute metabolic derangement, it is advisable to balance amino acid needs with toxicity, this constituting one of the most important aspects of treatment. Keywords: Maple Syrup Urine Disease, leucine, valine, isoleucine, diet, nutritional treatment. Acta Pediatr Port 2007;38(3):120-8 Definição A leucinose (MSUD; MIM # 248600) é uma doença hereditária do metabolismo dos aminoácidos de cadeia ramificada (AACR) primeiramente descrita por Menkes, Hurst e Craig em 1954 1,2. O tratamento dietético foi implementado dez anos mais tarde por Snyderman et al. 2,3. A MSUD é causada pelo défice de actividade do complexo enzimático responsável pela descarboxilação oxidativa dos ácidos α-cetónicos de cadeia ramificada (A-α-CCR). O bloqueio enzimático resulta na acumulação dos AACR, bem como dos respectivos A-α-CCR 2,4,5. Genética A MSUD é uma doença de transmissão autossómica recessiva 2. O complexo multienzimático, existente na mitocôndria de todas as células do organismo, é composto por quatro subunidades: E1α, E1β, E2 e E3 2. Os genes responsáveis pela sua codificação encontram-se localizados em diferentes cromossomas, o que em parte explica a elevada variabilidade genética da doença, estando já descritas mais de 150 mutações 5,6. A prevalência estimada da MSUD em todo o Mundo é de 1:185.000 2, variando entre 1:120.000 (Europa) e 1:500.000 4,5,7. A prevalência é superior nas comunidades onde a consanguinidade é frequente 5. Correspondência: Manuela Ferreira de Almeida Instituto de Genética Médica Jacinto de Magalhães Praça Pedro Nunes, N.º 88 4099-028 Porto, Portugal Telf. (+351) 226 070 339 [email protected] Acta Pediatr Port 2007:38(3):120-8 Metabolismo Os aminoácidos leucina (LEU), isoleucina (ISOL) e valina (VAL) são essenciais, constituindo cerca de 35% dos aminoácidos essenciais (AAE) a nível muscular 2. Cerca de 75% dos aminoácidos veiculados pela alimentação são utilizados pelo recém-nascido para a síntese proteica. A LEU possui um papel crucial nestes processos de síntese 8, inibindo os estados catabólicos e promovendo a secreção de insulina por via da estimulação das células β do pâncreas. Após ingestão proteica, a subida das concentrações plasmáticas de aminoácidos fica a dever-se, em cerca de 60%, aos AACR. Estes, são metabolizados no músculo esquelético como fonte de energia alternativa, embora possam ser oxidados em órgãos como o rim, coração, tecido adiposo e cérebro. A sua oxidação pressupõe, inicialmente, o seu transporte para o interior da célula, através de um transportador de membrana independente do sódio. Seguidamente, ocorrerão, na célula, pela seguinte ordem, reacções de transaminação, descarboxilação oxidativa e desidrogenação. A primeira etapa, uma transaminação, é catalisada pelas aminotransferases dos aminoácidos LEU, ISOL e VAL, dando origem aos respectivos A-α-CCR (ácido αcetoisocapróico, ácido α-ceto-β-metilvalérico e ácido α-cetoisovalérico) 9. Posteriormente, estes são transportados através da membrana mitocondrial, sofrendo a descarboxilação oxidativa mediante a acção do complexo enzimático responsável pela desidrogenação dos A-α-CCR. Esta reacção permite obter isovaleril-CoA, α-metilbutiril-CoA e isobutiril-CoA, partindo respectivamente dos aminoácidos LEU, ISOL e VAL. A terceira etapa diz respeito a uma desidrogenação catalisada por enzimas específicas. Numa fase posterior, verifica-se uma divergência na via de degradação dos três aminoácidos, sendo que a LEU origina acetil-CoA e acetoacetato, sendo considerada como tal um aminoácido cetogénico. A ISOL é lipogénica e glicogénica uma vez que a sua metabolização origina acetil-CoA e succinil-CoA. A VAL produz succinil-CoA, o qual poderá eventualmente entrar no ciclo de Krebs, originando glicose pela gliconeogénese; é como tal um aminoácido glicogénico (Figura 1) 2. SPDM – Tratamento nutricional da leucinose A nível central, os AACR assumem também funções importantes, na medida em que atravessam a barreira hematoencefálica mais rapidamente do que quaisquer outros aminoácidos, constituindo a principal fonte de azoto para a síntese do neurotransmissor glutamato 6. Na MSUD, a diminuição das concentrações cerebrais de aminoácidos essenciais poderá estar na base da redução da síntese proteica e de neurotransmissores. Tendo por base os mecanismos de competição através da barreira hematoencefálica 10, foi possível constatar uma diminuição nas concentrações cerebrais de glutamato, glutamina, aspartato e alanina, com impacto negativo no metabolismo energético e diminuição das taxas de síntese proteica 11. Na MSUD, os estados convulsivos parecem ser causados pelas concentrações elevadas de α-cetoisovalérico 9. No entanto, a LEU 12 e o ácido α-cetoisocapróico, constituem os compostos mais agressivos para o sistema nervoso central (SNC) 13,14, interferindo com o metabolismo dos neurónios e astrócitos. Embora saibamos que a LEU é o aminoácido mais tóxico, será importante manter as concentrações dos outros AACR perto dos valores normais 8. Apresentação Clínica e Evolução No que respeita à apresentação clínica há a considerar a forma neonatal grave, a forma de início tardio com sintomatologia intermitente e a forma crónica progressiva. Tendo em conta a apresentação clínica e a resposta bioquímica à tiamina, identificam-se cinco fenótipos: a forma clássica, a intermédia, a intermitente, a sensível à tiamina e a deficiente na subunidade E3 (forma com hiperlactacidemia) 2. A forma clássica é de apresentação habitualmente na primeira semana de vida 15, caracterizando-se por recusa alimentar, letargia, alterações do tónus, movimentos de boxage, alterações neurológicas, convulsões 16, soluços, hipotermia e coma 2,16. A morte pode surgir caso o tratamento não seja instituído 13. De realçar igualmente a presença de hipotonia axial e hipertonia periférica e por vezes opistotonus 5. Verificam-se cetose 16 e concentrações plasmáticas de LEU superiores a 2.000μmol/L. Normalmente trata-se de um bebé de termo, com parto e aspecto inicial normais, surgindo os sintomas entre o quarto e o sétimo dias de vida. É conveniente ter em atenção que o aleitamento materno pode retardar ligeiramente o aparecimento dos sintomas para a segunda semana de vida 2. Esta forma da doença caracteriza-se por uma actividade enzimática inferior a 2% 17-19. A forma intermédia é de apresentação no lactente e infância, sendo caracterizada por atraso de desenvolvimento psicomotor, má evolução estaturo-ponderal, convulsões e ataxia. Verificam-se cetose e concentrações plasmáticas de LEU inferiores a 2.000μmol/L. Embora as elevações dos AACR sejam persistentes, bem como o atingimento neurológico, não se verificam as descompensações graves típicas no período neonatal das formas clássicas 2,20. A actividade enzimática nestes doentes é de 3 a 30% 2,14. Figura 1 – Vias de degradação dos AACR. Adaptado de Chuang et Shih 2. Legenda: 1 - Aminotransferases dos AACR; 2 - Complexo multienzimático responsável pela descarboxilação oxidativa dos A-α-CCR; 3 - Desidrogenase do isovaleril-CoA; 4 - Desidrogenase do α-metil acil-CoA. A forma intermitente é de apresentação no lactente e infância verificando-se crescimento e desenvolvimento normais, com crises de ataxia que poderão ser acompanhadas de cetoacidose 2,20. O aumento dos AACR apenas se verifica nas des121 Acta Pediatr Port 2007:38(3):120-8 compensações, as quais podem ser fatais 16. A actividade do complexo enzimático varia entre 5 e 20% do normal 2. A forma sensível à tiamina tem uma apresentação clínica semelhante à forma intermédia ou intermitente 20, não manifestando descompensação aguda inicial 2. A tiamina é o cofactor da subunidade E1α, regulando a actividade de todo o complexo enzimático 2,21. Assim, a administração de tiamina, permite diminuir os níveis séricos de AACR 2. As doses de tiamina usadas podem variar de 10 a 1.000mg por dia 14,19,21. A actividade enzimática poderá variar entre 2 e 40% 14. A forma deficiente na subunidade E3 possui igualmente um quadro de apresentação clínica semelhante à forma intermédia, embora a elevação dos AACR se faça acompanhar de acidose láctica e α-cetoglutárica. Esta forma de apresentação é muito rara, tendo sido descritos cerca de 20 casos em todo o mundo 2. O prognóstico desta forma da doença parece estar associado à actividade enzimática residual, compreendida entre 0 e 25% 14. É de referir que 75% 4,5,18,20 a 80% 15,17,18,22 dos indivíduos afectados apresenta a forma clássica da doença. Os restantes 20% 17 a 25% 4,5 apresentam formas intermitentes ou intermédias 4,5. Tal como na fenilcetonúria, ainda não são totalmente conhecidas as causas da desmielinização e das alterações na substância branca observadas nos doentes com MSUD, embora a toxicidade crónica pela LEU possa estar na sua origem 14,19,22. Existe evidência de que o limite superior da concentração plasmática de LEU, condizente com alterações clínicas menores, será de 1.000 a 1.200μmol/L para a uma exposição aguda e de 400 a 500μmol/L para uma exposição crónica 14. No entanto, em contraste com a elevação das concentrações dos AACR no sangue e nos tecidos, pode verificar-se um eventual défice destes a nível cerebral. Esta eventual diminuição, para cerca de um terço das encontradas a nível sérico, pode prejudicar a síntese de determinadas proteínas, bem como de certos neurotransmissores 22. Não podemos esquecer que uma das funções fundamentais da LEU é a regulação da síntese do glutamato 19. Cerca de um quinto dos doentes com MSUD clássica acabam por morrer no decurso de complicações agudas precipitadas por infecção. O edema cerebral pode ocorrer nas descompensações metabólicas, ou na sua fase de recuperação, podendo revelar-se fatal 2,14,19. Para além deste são de enumerar a hipertensão intracraniana, a pancreatite, as alterações epiteliais da córnea e a dermatite eruptiva, todas elas relacionadas com o mau controlo metabólico. É igualmente de realçar a possibilidade de compressão do tronco cerebral com morte inesperada, após reidratação intensiva e mal orientada. Nos parâmetros analíticos realizados de rotina podemos encontrar hipoglicemia, acidose metabólica e hiperamoniémia, embora a alteração mais típica seja a presença de cetonúria. A individualização dos cuidados prestados a estes doentes assenta principalmente no facto de não se verificar boa correlação entre o fenótipo molecular e o fenótipo clínico 23. Diagnóstico Um diagnóstico precoce é fundamental para o prognóstico 14,24-27 na medida em que a rápida implementação do tratamento, po122 SPDM – Tratamento nutricional da leucinose derá impedir a deterioração neurológica, caracterizada imagiologicamente por redução da densidade da substância branca, com hipomielinização/desmielinização, atrofia e edema cerebral 9. Na forma clássica a sintomatologia surge nos primeiros dias de vida, com alterações neurológicas graves e cheiro açucarado característico na urina, bem como nos restantes fluidos orgânicos 28. Nas restantes formas, esta pode começar a surgir apenas por volta dos 2 anos de idade ou mesmo mais tarde 28. O diagnóstico efectua-se através da elevação dos AACR e A-α-CCR no sangue, plasma ou urina, bem como através da detecção sérica de alo-isoleucina 29. Este último constitui um aminoácido não proteico sintetizado in vivo a partir da ISOL. Concentrações plasmáticas de alo-isoleucina superiores a 5μmol/L constituem um marcador específico muito sensível para o diagnóstico de todas as formas de MSUD 29. Do mesmo modo, a relação alo-isoleucina/ISOL superior a 0,6 será característica da doença, bem como a relação plasmática LEU/alanina, a qual constitui um marcador sensível e precoce, com valores normais entre 0,1 e 0,5 30. Em oposição à elevação plasmática dos AACR, pode verificar-se uma diminuição de outros aminoácidos neutros como o triptofano, a tirosina, a metionina e a fenilalanina 13. Não será de esquecer o teste urinário da DNPH (2,4-dinitrofenilhidrazina), na medida em que se revela positivo, principalmente com concentrações de LEU de pelo menos 700μmol/L 2. Desde 2005, é já possível a realização do diagnóstico precoce da MSUD por recurso à espectrometria de massa em tandem (MS/MS) 31. A confirmação do diagnóstico deverá ser feita com recurso a estudos enzimáticos e moleculares. Tratamento a) Princípios gerais do tratamento O tratamento das doenças hereditárias do metabolismo causadas por défices no catabolismo dos AAE obriga à restrição do seu aporte através da dieta, no sentido de evitar a acumulação de intermediários tóxicos para os órgãos, particularmente o SNC 2. Assim, os princípios gerais do tratamento consistem no controlo do aporte de proteína natural, na diminuição do catabolismo proteico e na promoção do anabolismo 14. Como objectivos mais concretos temos a normalização das concentrações plasmáticas dos AACR e dos seus metabolitos, mantendo o seu aporte adequado bem como de outros nutrientes necessários e fundamentais para um bom desenvolvimento e maturação 2,4,5,7,21,28. Paralelamente, pretende-se prevenir ou minimizar a disfunção cerebral 22, já que há indícios de que o bom controlo metabólico se relaciona favoravelmente com um bom desenvolvimento intelectual 2. b) Recomendações Nutricionais As várias formas de apresentação da MSUD condicionam estados de gravidade distintos. O diagnóstico atempado e o bom controlo metabólico são cruciais para assegurar um prognóstico favorável. Para tal, o tratamento nutricional assume um papel importante no garante destes objectivos. Assim, como referência, apresentam-se as recomendações nutricionais que poderão servir de guia para a instituição do plano alimentar (Quadro I) 32. É sempre conveniente ter em conta Acta Pediatr Port 2007:38(3):120-8 SPDM – Tratamento nutricional da leucinose Quadro I – Recomendações nutricionais para o tratamento da MSUD. Adapatado de Elsas et Acosta 32. Energia Proteínas totais <6 meses 6-12 meses 1-4 anos 4-7 anos 7-11 anos 11-15 anos 15-19 anos kcal.kg-1.d-1 kcal/d 150-95 - 135-80 - 1300 1700 2400 2200-2700 1800-2100 g.kg-1.d-1 g.d-1 3.0-3.5 2.5-3.0 30 35 40 50-55 50-65 Glícidos g.d-1 Lípidos g.d-1 30-35% VET 50-60% VET 50% VET 35% VET -1 -1 60-100 40-75 40-70 35-63 30-60 30-50 15-40 Isoleucina -1 -1 mg.kg .d 30-90 30-90 20-85 20-80 20-30 20-30 10-30 Valina mg.kg-1.d-1 40-95 30-60 30-85 30-50 25-30 20-30 15-30 Água mL.kg-1.d-1 135-160 120-145 95 90 75 50-55 50-65 Leucina mg.kg .d *VET - valor energético total que as necessidades de cada doente estarão dependentes de diversos factores, entre os quais o genótipo. Deste modo, as necessidades nutricionais poderão estar relativamente afastadas das recomendações apresentadas, sem que tal acarrete prejuízos para o doente, desde que o controlo metabólico e a evolução se mantenham dentro de parâmetros aceitáveis. De todas as recomendações existentes, são de particular importância as relativas aos AAE. Particularmente, as necessidades em AACR são muito variáveis em função da idade, da taxa de crescimento e do défice enzimático 2. Nos recém nascidos portadores da forma clássica da doença, o aporte diário em LEU deverá rondar 80 a 110mg/kg, o que em média traduz cerca de 50 a 60% das necessidades de uma criança normal 5. As necessidades em LEU são maiores durante os primeiros 6 meses, estabilizando depois por volta do segundo ou terceiro anos de vida, mantendo-se relativamente estáveis até ao final da primeira década de vida 2. No que respeita à VAL e à ISOL, as suas necessidades mínimas diárias são de 200 a 250mg 5. Como já referido antes, a LEU assume a maior importância de todos os AACR, pela sua toxicidade mais marcada 12, dado que o respectivo ácido α-cetónico (encontrado em equilíbrio isomolar) parece estar na origem das crises encefalopáticas 22. Deste modo, a tolerância do doente, definida como o aporte máximo de LEU que o doente suporta, mantendo simultaneamente um controlo metabólico dentro dos parâmetros desejáveis, será então aferida através do aporte do referido aminoácido. Em termos globais, nas formas clássicas, essa tolerância pode variar entre 300 e 400mg/dia no recém-nascido e entre 500 e 700mg/dia nas restantes idades 2,5,28. Em todo o caso, o aporte correspondente à tolerância do doente não será suficiente para satisfazer as necessidades proteicas totais. Para tal, é necessário recorrer a uma fonte proteica isenta de AACR (mistura de aminoácidos). Nesse sentido, não está completamente definido se as necessidades proteicas da criança serão superiores, tendo por base particularidades na digestão, absorção e utilização dos diversos aminoácidos 33. É fundamental deixar bem claro que a mistura de aminoácidos é de importância crucial para estes doentes. Todavia, nas dietas demasiado restritivas, existe alguma evidência de que a mistura possa não ter os efeitos desejados nas taxas de cresci- mento, uma vez que os aminoácidos são largamente oxidados e excretados sob a forma de ureia 4,5. Neste sentido, deve dedicar-se especial atenção à forma como esta mistura de aminoácidos é administrada. Será importante ter em conta o número de tomas diárias (pelo menos três) e a presença de quantidades adequadas de energia sob a forma glicídica e lipídica, bem como de proteína natural. De igual modo, é conveniente tentar encontrar estratégias de melhoria do seu sabor, bem como esta ser ingerida em simultâneo com outros alimentos prescritos no plano alimentar, de modo a permitir que o organismo utilize preferencialmente o azoto para finalidades anabólicas. Ficam como orientação as seguintes recomendações para a administração da mistura de aminoácidos (esta deve ser dada tendo por base a quantidade de aminoácidos/100g de pó): – 3g.kg-1.dia-1 de aminoácidos até aos 2 anos de idade 2; – 2g.kg-1.dia-1 de aminoácidos acima dos 2 anos de idade 2,28. Tais quantidades correspondem a um equivalente proteico da ordem de 2,5g.kg-1.dia-1 e 1,7g.kg-1.dia-1, respectivamente 28. Na idade adulta, com a tolerância à LEU próxima de 10mg.kg-1.dia-1 (7 a 9g de proteína natural), a mistura de aminoácidos pode mesmo representar cerca de 90% do aporte proteico total 34. c) Tratamento na fase aguda Com o intuito de proteger o cérebro de danos permanentes, o tratamento na fase aguda, deve consistir na pronta eliminação dos metabolitos tóxicos 7, combatendo o catabolismo e promovendo o anabolismo 16. A ausência de intervenção precoce e eficaz irá seguramente conduzir a danos cerebrais irreversíveis ou mesmo à morte 30. Esta eliminação dos metabolitos pode ser concretizada através da depuração exógena (exsanguineo transfusão prolongada, diálise peritoneal, hemodiafiltração, hemodiálise intermitente, hemofiltração) e/ou endógena, induzindo o anabolismo, com início imediato de nutrição entérica rica em glícidos, lípidos e com uma fórmula isenta de AACR ou introduzindo um suporte nutricional parentérico 35-37. No entanto, convém referir que, muitas vezes, o suporte nutricional, seja entérico ou parentérico, mesmo em combinação com insulinoterapia, revela-se muito lento na normalização dos valores dos AACR plasmáticos, o que determina que sejam privilegiadas as medidas de depuração 123 Acta Pediatr Port 2007:38(3):120-8 exógena 7,35. A urgência da intervenção é máxima dado que a duração da manutenção de valores sistematicamente superiores a 1.000μmol/L se correlaciona positivamente com um impacto negativo no desenvolvimento intelectual 26,38,39. A criança terá indicação para a realização de uma depuração exógena sempre que se verifique sintomatologia neurológica grave, deterioração clínica, concentrações de LEU superiores a 1.500μmol/L, intolerância à nutrição entérica ou diminuição das concentrações de LEU inferior a 500μmol/L nas primeiras 24 horas de dieta. A diálise peritoneal foi inicialmente usada em 1969, com melhorias significativas do estado neurológico em algumas horas. No entanto, embora relativamente simples de implementar, não se demonstra tão eficaz na remoção dos metabolitos tóxicos acumulados comparativamente a outros métodos como a hemofiltração contínua 2. Mais ainda, convém ter em conta que pode agravar o grau de intolerância gastrointestinal 35. A hemodiálise intermitente é mais difícil de implementar em recém-nascidos estando por vezes associada a hipotensão e aumento do edema cerebral 35. A hemodiafiltração também apresenta efeitos laterais, nomeadamente a sépsis, derivada de infecções de cateter, a hipotensão se não houver controlo do balanço hídrico e o défice em AAE 35. A escolha da técnica vai depender também da disponibilidade e experiência de cada centro de tratamento 2. A velocidade de descida da LEU deve exceder 750μmol/L a cada 24horas, permitindo atingir uma concentração final de LEU inferior a 400μmol/L, cerca de 2 a 4 dias após o diagnóstico 14. A combinação dos métodos dialíticos e da nutrição entérica parece oferecer largas vantagens, na medida em que garante uma descida rápida e eficaz das concentrações de LEU 40,41. No entanto, para tal é necessário garantir óptimas taxas de fluxo sanguíneo para que a técnica possa ser levada a cabo 40. Apesar de tudo, desde que o grau de intoxicação não seja muito elevado 15, a escolha pela promoção do anabolismo dos AACR em excesso deve ser a medida de eleição 35,42, permitindo evitar os custos e os riscos associados às medidas de depuração 15. Para tal será necessária a detecção precoce da doença, para que o tratamento possa ser iniciado numa fase assimtomática, permitindo uma descida gradual da LEU em 2 a 3 dias 27. A nutrição entérica contínua deve ser composta por uma mistura de aminoácidos isenta de AACR, acrescida de uma fonte glicídica e lipídica e com uma concentração final entre 0,7-0,9kcal/mL. Esta deve ser iniciada a um débito de 5mL/h durante 6 horas, aumentando 5mL cada 6 horas, o que permitirá um aporte de cerca de 300mL nas primeiras 24 horas. Os suplementos de VAL e ISOL serão administrados 24 a 48 horas após o início do suporte nutricional, uma vez que os seus níveis plasmáticos podem baixar em demasia 2. Assim, para evitar que se tornem limitativos para a síntese proteica 5, deve recorrer-se a uma suplementação de cada um na ordem dos 80 a 120mg.kg-1.dia-1 14, podendo resultar em valores em torno de 300 a 400mg/dia 5. Por outro lado, convém evitar desequilíbrios plasmáticos na relação LEU/ISOL, os quais se parecem relacionar com alterações dermatológicas 2. Quando a relação entre a LEU e a ISOL é demasiado elevada, a resposta ao tratamento revela-se menos efectiva. Concomitantemente, elevando as concentrações de ISOL e 124 SPDM – Tratamento nutricional da leucinose também de VAL, será mais fácil normalizar as concentrações de LEU 2 quando se está com restrição de proteína e de LEU. Em alternativa à nutrição entérica, a via parentérica pode constituir uma opção para doentes com descompensações moderadas e algum estado de anorexia, ou mesmo em situações mais graves, em combinação com outras estratégias 2. A nutrição parentérica é normalmente constituída por uma solução de AA isenta de AACR, associada a soluções de glicose (8 a 15mg-1.kg-1.m-1), lípidos (2.5g.kg-1.dia-1), electrólitos e vitaminas. A carga hídrica deverá ser calculada na base de 130 a 160mL.kg-1.dia-1. É aconselhada a monitorização das glicemias, que se pretende estejam entre 100 a 130mg/dL, sendo que para tal poderá ser necessário o recurso à insulina nas doses de 0.1U.kg-1.h-1. A administração de largas doses de glicose com a associação da terapêutica insulínica parece ter efeitos favoráveis na estimulação do anabolismo e na normalização das concentrações de LEU 2. d) Tratamento a longo prazo O controlo metabólico é um dos principais objectivos no tratamento a longo prazo. É fundamental optimizar a utilização proteica de modo a garantir um bom crescimento e maturação. A concretização destes objectivos irá depender da, já referida, tolerância do doente o que, em última instância, terá relação com o genótipo do mesmo 4. As formas intermédias devem ser tratadas do mesmo modo que as clássicas, embora nos indivíduos com razoável actividade enzimática residual possa bastar uma restrição proteica, nos momentos de maior stress metabólico 2. Para além das variações interindividuais, temos também relações intraindividuais relacionadas com factores como a taxa de crescimento, o estado de saúde e as dificuldades encontradas no processo de alimentação 4. O aporte proteico destes doentes deve maioritariamente ser feito através de uma mistura de aminoácidos isenta de AACR, na quantidade mínima de, como já citado, 2g.kg-1.dia-1 em aminoácidos. O papel assumido pelas misturas de aminoácidos é bem mais importante do que apenas prevenir ou minimizar as deficiências em aminoácidos essenciais. A entrada de LEU no cérebro e noutros órgãos é mediada por um transportador comum de aminoácidos neutros (L1-NAA-t). Este transportador é inespecífico permitindo a passagem da fenilalanina, triptofano, LEU, metionina, ISOL, tirosina, histidina, VAL e treonina para o meio cerebral 30. A LEU possui uma elevada afinidade para este transportador pelo que, quando as suas concentrações se encontram elevadas, poderemos assistir a um défice central de outros aminoácidos que partilham o mesmo transportador 30. Nomeadamente, a relação LEU/tirosina muito elevada parece relacionar-se com a distonia por vezes observada na síndrome neurológica aguda de alguns doentes com MSUD. Para esta situação, podem concorrer factores como a baixa afinidade da tirosina para o referido transportador, ou mesmo a sua baixa disponibilidade nas fórmulas das misturas de aminoácidos devido à sua baixa solubilidade 30. Assim, neurotransmissores que derivem da TIR, triptofano e histidina podem ser afectados com alterações no transporte dos aminoácidos 30. A forma de apresentação clássica da mistura de aminoácidos é em pó. Já se encontram disponíveis, noutros países euro- Acta Pediatr Port 2007:38(3):120-8 peus, outras formas de apresentação, nomeadamente em saquetas. Estas novas formas de apresentação têm boa aceitação pelos doentes, favorecendo a sua adesão continuada à dieta. Segundo Hallam et al., nos doentes que cumpram as quantidades prescritas da mistura de aminoácidos será de esperar um aumento da tolerância à LEU 43. Paralelamente, embora neste estudo, o número de doentes tenha sido reduzido, é de realçar uma melhoria nas concentrações de vitamina B12. Tal poder-se-á justificar pela presença de micronutrientes (vitaminas e minerais) nestas novas formas de apresentação da mistura ou por alguma má adesão à dieta prescrita com a tradicional mistura de aminoácidos 43. De notar que se verificou ainda uma manutenção das concentrações de hemoglobina bem como de ácido fólico a nível eritrocitário 43. As proteínas naturais poderão ser contabilizadas de acordo com a tolerância verificada em cada situação, de modo a permitir a manutenção dos valores analíticos desejáveis, tentando igualmente assegurar as necessidades indispensáveis à realização da síntese proteica. Em situações onde a forma da doença o permita, a tolerância poderá ser tal que o aporte de proteínas naturais poderá chegar para atingir as necessidades sem acarretar descontrolo metabólico, embora raramente 4. Inicialmente, o aporte em proteínas naturais é feito através do aleitamento materno ou de um leite ou fórmula adaptados 5. Na prática, este último é normalmente adicionado à mistura de aminoácidos, numa quantidade variável de acordo com a tolerância do doente 14. Esta abordagem é bastante importante, na perspectiva de garantir uma melhoria do anabolismo, uma vez que as misturas de aminoácidos não são utilizadas com a mesma eficácia pelo organismo, comparativamente a leites ou fórmulas com proteína intacta 33. No que respeita ao aleitamento materno, embora este seja mais frequentemente utilizado na fenilcetonúria, não devemos esquecer que ele terá o maior interesse para estes doentes. Assim, sugere-se a administração, em biberão, da mistura de aminoácidos com os restantes suplementos energéticos isentos de proteína, seguida da colocação do bebé ao peito. Com a variação do volume do biberão inicial, poder-se-á controlar o aporte proteico proveniente do leite materno, por variação do volume ingerido por parte da criança. Tendo em conta a gravidade da doença, alguns clínicos poderão ter receio em sugerir o aleitamento materno a estas crianças. No entanto, existem descrições de sucesso a este nível, pelo que se recomenda tentar, ainda que para tal seja necessário retirar o leite materno com bomba, juntando-o à mistura de aminoácidos 44. Todavia, esta será sempre uma alternativa de recurso. Posteriormente, a diversificação segue as regras gerais para as crianças sem patologia, embora haja necessidade de restringir os alimentos ricos em proteínas como, os alimentos de origem animal, as leguminosas secas e os frutos secos 5. Para optimizar o controlo metabólico da doença é conveniente utilizar uma tabela de partes em LEU, a qual permite catalogar os pesos dos alimentos, tais como, vegetais e fruta segundo os seus teores numa quantidade fixa do referido aminoácido. Na referida tabela, uma parte de LEU corresponde ao peso do alimento que fornece 50mg de LEU. Deste modo, assegura-se maior facilidade, variedade e compreensão na execução da dieta. A introdução gradual de alimentos hipoproteicos espe- SPDM – Tratamento nutricional da leucinose ciais [comparticipados a 100% pelo Ministério da Saúde, Despacho N.º 25822/2005 (2ª série) de 15 de Dezembro de 2005] facilitará ainda mais a exequibilidade do plano alimentar, bem como a concretização das necessidades energéticas. A fracção correspondente aos glícidos e lípidos é administrada de acordo com as proporções recomendadas para crianças sem patologia 28. No entanto, será sempre importante assegurar que o aporte permite a correcta utilização dos aminoácidos administrados, ou seja, o seu encaminhamento para processos de síntese 4,5. O transplante hepático tem sido realizado em alguns doentes 34,45,46 permitindo a liberalização da dieta e evitando o surgimento de descompensações metabólicas mesmo durante as intercorrências infecciosas 5,45,47. Esta abordagem terapêutica permite manter concentrações estáveis de AACR, embora sempre ligeiramente aumentadas na medida em que o músculo e o rim continuam a não conseguir realizar a sua oxidação 45,47. Mesmo assim, é de referir que o fígado transplantado poderá oxidar cerca de 90% dos AACR 19. As concentrações de alo-isoleucina também não normalizam, mantendo-se bastante elevadas 45. A gravidez na MSUD é um assunto pouco explorado 2, estando descritos poucos casos de sucesso 48,49. Desconhecem-se os efeitos potencialmente tóxicos dos AACR para o feto 49. Nesse sentido é desejável manter as concentrações maternas de AACR próximo dos intervalos da normalidade, nomeadamente entre 100 e 300μmol/L 49. De notar que a tolerância à LEU parece aumentar após a 21ª/22ª semana de gestação, de 350 para 2.100mg/dia, devido à eventual maior capacidade de metabolismo fetal e à maior taxa de síntese proteica 49. De notar que será sempre necessário aumentar o aporte de aminoácidos provenientes da mistura de modo a manter as concentrações de AACR normais 49. A administração de carnitina (50mg.kg-1.dia-1) poderá ser necessária para manter os seus níveis séricos normais 2. Tudo indica que os obstáculos ao cumprimento da dieta nestas mulheres não sejam tão grandes como nas mulheres com fenilcetonúria. Tal prende-se com o facto de não existirem adultos que não estejam a cumprir o tratamento nutricional, não sendo, como tal, necessária a árdua tarefa de retomar a dieta 49. Apesar de todo este quadro aparentemente favorável, é necessária uma monitorização constante de modo a evitar a descompensação da mãe no período pós parto, motivada pelo aporte proteico excessivo do final da gravidez 2,49. e) Descompensações metabólicas O tratamento inicial da MSUD, nomeadamente a dieta restrita em proteínas, permite alcançar uma evolução favorável dos doentes no período neonatal, garantindo o crescimento e o desenvolvimento adequados com uma baixa taxa de hospitalizações 30. No entanto, mesmo nos indivíduos bem controlados podem surgir descompensações metabólicas. Estas são mediadas por processos de toxicidade promovidos pela LEU, com um impacto negativo no coeficiente de inteligência dos indivíduos, principalmente durante os primeiros cinco anos de idade. Este excesso do aminoácido poderá ter uma origem exógena ou endógena. No primeiro caso, as concentrações plasmáticas elevadas ficam a dever-se a erros alimentares, 125 Acta Pediatr Port 2007:38(3):120-8 realçando-se por isso a importância do tratamento nutricional correcto e adequado. Na segunda situação, as elevações nas concentrações de LEU e dos restantes AACR ficam a dever-se ao catabolismo dos tecidos nobres do organismo. Quando os doentes se encontram em balanço azotado positivo, os AACR libertados pelos tecidos são facilmente reutilizados na regeneração celular. Para que tal aconteça, deverá verificar-se uma total disponibilidade energética e proteica para que o metabolismo proteico e os seus processos de síntese se possam processar em pleno. A monitorização frequente do peso e da estatura serão bons indicadores de deficiência energética e proteica. No entanto, mesmo com os aportes energético e proteico assegurados, outros factores podem desencadear a descompensação metabólica. Entre eles, infecções, vacinas, jejum, anorexia, vómitos, diarreia, anestesia e cirurgia. Em todas estas situações será importante monitorizar sinais de apatia, sonolência, perda de apetite, alterações do comportamento e de equilíbrio. A presença de cetonúria, como indicador catabólico, será uma pista importante para se providenciar medidas de urgência. Tais medidas, tendo em vista a correcção da descompensação, passam por reforçar o aporte glicídico e lipídico, restringindo ou interrompendo (temporariamente durante 24 a 48 horas) a ingestão de alimentos com proteínas naturais, mantendo a mistura de aminoácidos isenta de AACR. A manutenção da mistura é importante como garantia do aporte de outros aminoácidos neutros como o triptofano, a tirosina, a metionina e a fenilalanina. Há evidência de que se verifique uma relação inversa entre as concentrações plasmáticas destes AA e as de LEU. Deste modo, a manutenção da referida mistura permitirá que não chegue ao cérebro LEU em excesso, nem haja falta de outros aminoácidos, assegurando-se assim os processos de síntese, evitando o agravamento da disfunção neurológica 13. De acordo com a gravidade da descompensação, poder-se-á adoptar uma dieta de semi-urgência ou uma dieta de urgência. Um estado de pirexia poderá, por si só, motivar a instituição de uma dieta de semi-urgência, sendo esta caracterizada pela restrição do aporte de proteínas naturais para metade, providenciando as refeições de modo mais frequente (cada 2 a 4 horas), retomando a dieta habitual após 2 a 3 dias em caso de boa evolução. A dieta de urgência é normalmente instituída sempre que necessário e aquando de uma hospitalização suscitada por anorexia grave ou vómitos, com deterioração clínica. Nestes casos, o aporte proteico é nulo (por um máximo de 48horas), elegendo-se inicialmente a nutrição entérica a débito contínuo, embora possa ser necessário recorrer à nutrição parentérica. A fluidoterapia com glicose a 10 a 12% constitui mesmo uma mais valia para o controlo hidroelectrolítico do doente. Nos doentes nos quais se verifica uma resposta favorável à administração de tiamina será de esperar um melhor prognóstico 19,21,50, com um tratamento menos restritivo. f) Monitorização do tratamento A periodicidade do seguimento preconizado é, no que respeita a consultas: – semanal até aos 2 meses; 126 SPDM – Tratamento nutricional da leucinose – mensal dos 2 aos 24 meses; – trimestral nas restantes idades. No entanto, pode preconizar-se um seguimento semanal até ao ano de vida 2, assim haja possibilidade para tal. O tratamento a longo prazo, ou de manutenção, terá como objectivo primordial a manutenção das concentrações plasmáticas dos AACR o mais próximo possível da normalidade. Assim, os valores desejáveis são os seguintes: – LEU: 80-200μmol/L 39; – ISOL: 40-90μmol/L; – VAL: 200-425μmol/L 5. A relação linear entre as concentrações plasmáticas dos AACR e os respectivos ácidos α-cetónicos é suficientemente boa, pelo que a monitorização é usualmente feita através dos primeiros. Os doseamentos dos AACR devem ser realizados com uma periodicidade: – semanal até ao ano de idade; – quinzenal até aos 3 anos de idade; – mensal, após os 3 anos de idade, embora a sua frequência possa aumentar em caso de intercorrência infecciosa. Estes doseamentos constituem a base fundamental da monitorização do tratamento. No entanto, outros parâmetros são igualmente de importância primordial: hemograma, proteínas totais, albumina, ferritina, cálcio, fósforo e fosfatase alcalina. Estes devem ser monitorizados com uma periodicidade: – semanal no primeiro mês; – trimestral até ao ano de idade; – semestral, após o ano de idade. Anualmente, devem ser doseados o IGF1, a pré-albumina, as imunoglobulinas, o zinco, o selénio, as vitaminas lipossolúveis, o ácido fólico e a vitamina B12. A densitometria óssea deverá ser prática corrente a partir dos 6 anos, no sentido de aferir a evolução no ganho de densidade mineral óssea. A composição corporal, avaliada por bioimpedância eléctrica tetrapolar 51, será igualmente útil para monitorizar a evolução destes doentes, tendo para tal atenção às suas condições de preparação e realização 52. O ângulo de fase é um dos parâmetros indicadores do estado nutricional ao qual dedicamos maior atenção, sendo de esperar uma evolução favorável com o crescimento 53. Finalmente, é fundamental a realização do exame neurológico e a avaliação de desenvolvimento psicomotor nas idades chave. Conclusão A MSUD é uma doença hereditária do metabolismo dos AACR que, se não diagnosticada e tratada atempadamente, pode levar ao coma e morte. Os AACR são AAE pelo que têm de ser fornecidos pela alimentação diária sob pena de, apenas pela falta de um deles, os processos de síntese proteica fica- Acta Pediatr Port 2007:38(3):120-8 rem comprometidos. Por outro lado, se administrados em excesso originam descompensações agudas graves pelo que, o equilíbrio no seu aporte será a chave para o sucesso do tratamento. Apesar do defeito no complexo enzimático ser extensível a todos os tecidos, o cérebro parece particularmente vulnerável a concentrações elevadas de AACR, particularmente da LEU e do seu respectivo A-α-CCR, embora os mecanismos justificativos para tal ainda não se encontrarem bem esclarecidos. Os diferentes factores causadores de descompensação e a susceptibilidade elevada dos doentes às descompensações, exigem uma dedicação extrema, de modo a ser possível atingir um bom controlo metabólico. Consenso aprovado pela Sociedade Portuguesa de Doenças Metabólicas em Janeiro de 2007. Grupo de Trabalho: Júlio César Rocha, Instituto de Genética Médica Jacinto de Magalhães, Porto. Esmeralda Martins, Hospital Especializado de Crianças Maria Pia, Porto. Aguinaldo Cabral, Presidente da Sociedade Portuguesa de Doenças Metabólicas. SPDM – Tratamento nutricional da leucinose implication for maple syrup urine disease and phenylketonuria. Neurochem Int 2002;40:347-54. 11. Yudkoff M, Daikhin Y, Nissim I, Horyn O, Luhovyy B, Lazarow A, et al. Brain amino acid requirements and toxicity: the example of leucine. J Nutr 2005;135:S1531-8. 12. Kasinski A, Doering CB, Danner DJ. Leucine toxicity in a neuronal cell model with inhibited branched chain amino acid catabolism. Brain Res Mol Brain Res 2004;122:180-7. 13. Wajner M, Coelho DM, Barschak AG, Araujo PR, Pires RF, Lulhier FL, et al. Reduction of large neutral amino acid concentrations in plasma and CSF of patients with maple syrup urine disease during crises. J Inherit Metab Dis 2000;23:505-12. 14. Mitsubuchi H, Owada M, Endo F. 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Lisboa, 2007. 46 páginas. “Etiqueta para crianças ou Como ser amigo de todos” Maria da Graça de Campos Andrada Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral “Etiqueta para crianças ou Como ser amigo de todos” é um pequeno livro para crianças, editado este ano pelo Secretariado Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência – SNRIPD, e à data já constituído como Instituto Nacional de Reabilitação – INR. O livro é uma tradução da versão em língua inglesa da 2ª edição do original, que foi publicada em 2005, em Zagreb (Croácia). Contém uma série de recomendações úteis face aos vários problemas de uma criança com deficiência e vários conselhos sobre quais as atitudes a tomar pela criança dita “normal”. O seu tom é, na minha opinião, demasiado retórico, com regras e deveres a cumprir e um certo grau de superproteção. Neste ano da Igualdade de Oportunidades e face ao critério da inclusão que defende o desenvolvimento máximo das potencialidades de cada criança nas suas diferenças, nunca é demais salientar a importância dos princípios da boa convivência e dar informação sobre a criança com deficiência e/ou doença crónica, que este livro contém. Contudo, no processo de inclusão e participação, não só a criança com deficiência deve ser ajudada e apoiada nas suas Recebido: Aceite: 18.07.2007 18.07.2007 dificuldades específicas, mas também todas as crianças beneficiam do convívio das crianças com problemas de desenvolvimento, aprendendo a lidar com a diferença e modelando o seu carácter através de novas experiências e convívio saudável de partilha de competências e não apenas através de regras fixas de “Etiqueta”, um pouco proteccionistas e de “Anjo da guarda”. Todos temos qualidades e defeitos, com aspectos mais positivos e mais negativos. O essencial é que a criança desde muito pequena se habitue a lidar com a diferença e a reconhecer e valorizar as capacidades das outras crianças, incluindo as com deficiência, num processo natural de dar e receber. Cada um de nós tem as suas características próprias e nenhuma criança deve ser descriminada por nenhuma característica, raça, religião, sexo, deficiência e/ou doença crónica ou qualquer outro problema, respeitando as particularidades de cada um sem uma bipolarização “nós” e “eles”. Parece-me também que, na tradução, há algumas expressões menos ajustadas. Uma vez que o livro é dirigido às crianças, deveria usar-se sempre nos conselhos sobre o modo de actuar, a palavra “meninos”, pois é assim que elas se tratam umas às outras. Correspondência: Maria da Graça de Campos Andrada [email protected] 129 0873-9781/07/38-3/130 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria CRÍTICA DE SÍTIOS NA INTERNET OrphaNews Europe Daniel Virella Unidade de Vigilânca Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria A Orphanet, agência da União Europeia para as doenças raras e medicamentos órfãos (EC’s Rare Diseases Task Force), publica mensalmente a OrphaNews Europe, o seu boletim electrónico (newsletter). A OrphaNews Europe é um importante meio de divulgação de informação sobre novidades e avanços científicos e clínicos no diagnóstico, classificação e tratamento de doenças raras, assim como sobre novas directivas, regulamentos e normas – nacionais, da União e internacionais - referentes à aprovação de medicamentos órfãos, benefícios sociais para os cidadãos que sofrem doenças raras e apoio à investigação e associativismo nessa área (nomeadamente oportunidades de obtenção de fundos da União). Existe também espaço para a divulgação de reuniões científicas e cursos sobre doenças raras e medicamentos órfãos, assim como sobre publicações científicas. São também apresentadas notícias sobre as associações de doentes e familiares. Poderá ser de especial interesse para os pediatras que acompanham crianças e adolescentes com doenças raras a divulgação Recebido: Aceite: 130 03.07.2007 12.07.2007 de ensaios clínicos na área que estão abertos ao recrutamento de participantes. Estar atento a estas notícias poderá ser mais uma forma de oferecer novas oportunidades aos nossos doentes. A publicação electrónica tem um visual simples mas eficiente, de leitura fácil (particularmente quando acedido a partir do email de aviso). Além do texto de cada artigo, bastante reduzido, o que permite uma rápida leitura, tem ligações directas aos locais electrónicos onde se pode aceder a informação mais aprofundada sobre cada um dos temas abordados. A OrphaNews Europe é publicada apenas em inglês e pode ser acedida através do local electrónico da Orphanet (http://www.orpha.net) para leitura ocasional. Aos interessados, no entanto, recomendamos a assinatura electrónica, que pode ser feita através do endereço http://www.orpha.net/actor//cgi-bin/OAhome.php?Ltr=EuropaNews, apenas requerendo o envio do endereço electrónico. A assinatura é gratuita e permite receber mensalmente uma mensagem com o conteúdo do boletim e a ligação directa a cada artigo ou notícia. Correspondência: Daniel Virella Unidade de Vigilância Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria [email protected] 0873-9781/07/38-3/131 Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria CARTA AO DIRECTOR A mensagem da massagem Carta Recebida a 12.05.2007 A Acta Pediátrica publicou uma revisão sobre os efeitos da massagem nas crianças. (Bárbara Figueiredo. Massagem ao bebé. Acta Pediatr Port 2007;38:29-38) Aborda o tema, aureolado de 91 citações, como se a criança fosse um joelho torcido. Em vez de sublinhar o papel crucial do carinho no desenvolvimento integral da criança, analisa os efeitos do seu manuseio: “o impacto positivo da massagem sobre a criança, os pais e na interacção entre ambos, nomeadamente porque beneficia dois objectivos primordiais dos cuidados de saúde ao bebé prematuro: o ganho de peso e a redução dos dias de internamento”. Em vez de encorajar os pais a abraçar os filhos e a pegar nos prematuritos sem receio de os quebrar ou os infectar (desde que lavem as mãos), os pais são treinados a massajá-los. À agenda com horário já carregado — dormir, aulas, natação, ballet... – junta-se outra tarefa ansiogénica — manipular os bebés 3 i.d., como se fora um xarope: Não posso esquecer a massagem da noite… A linguagem é expressiva: As experiências de toque são importantes … A pressão exercida pela massagem foi também verificada em contraposição ao toque… Impacto da intervenção ao nível da estimulação táctil-cinestésica e massagem… A terapia da massagem … implementa o curso clínico de perturbações físicas e psicológicas diversas… A autora sublinha que “Em adolescentes, as massagens mostraram efeitos positivos na redução da agressividade, na perturbação da oposição…” Como “Resulta ainda no aumento de bem-estar de quem providencia a massagem….” não admira que considere esta “forma de tratamento de baixo custo muito efectiva” (sic) se for promovida para ser providenciada entre pares; estranhei que lhe tenham atribuído o título de tratamento antes de me lembrar que era a esse título que fora usada nos templos gregos. Coimbra, 11 de Maio de 2007 H. Carmona da Mota Nota Editorial O Conselho Editorial lamenta que, devido à ausência de resposta em tempo útil dos Exmos. Autores do artigo em causa, esta carta seja publicada sem a correspondente resposta. 131 0873-9781/07/38-3/XXXVII Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria NOTÍCIAS Calendário de Eventos Nacionais e Internacionais MAIO 2007 • 25th Annual Meeting of the European Society for Paediatric Infectious Diseases: Infection and Immunity. Porto, 2-4/05/07 (Kenes International/ ESPID 2007, tel. +41229080488, fax +41227322850, [email protected]; http://www.kenes.com/espid) • Dislexia: Teoria, Diagnóstico e Intervenção (Workshop). Lisboa, 5/05/07 (Oficina Didáctica, tel. 213872458, [email protected], http://www.oficinadidactica.pt) • XIV Reunião do Anuário do Hospital de Dona Estefânia. Lisboa, 16/05/07 (Lúcia Pratas, [email protected]) • Introdução ao transporte de crianças no automóvel, para profissionais de saúde – Curso satélite da XIV Reunião do Anuário do Hospital de Dona Estefânia. Lisboa, 16/05/07 (Centro de Formação Profissional, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Trabalho Científico: Fundamentos para Elaboração e Divulgação – Curso satélite da XIV Reunião do Anuário do Hospital de Dona Estefânia. Lisboa, 17/05/07 (Centro de Formação Profissional, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Doença alérgica respiratória da criança – Curso satélite da XIV Reunião do Anuário do Hospital de Dona Estefânia. Lisboa, 17/05/07 (Centro de Formação Profissional, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Terapêutica inalatória: dispositivos e técnicas de inalação – Curso satélite da XIV Reunião do Anuário do Hospital de Dona Estefânia. Lisboa, 17/05/07 (Centro de Formação Profissional, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Curso Básico de Rastreio Auditivo Neonatal Universal (RANU) – Curso satélite da XIV Reunião do Anuário do Hospital de Dona Estefânia. Lisboa, 18/05/07 (Centro de Formação Profissional, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • Patologia cirúrgica em Pediatria – Curso satélite da XIV Reunião do Anuário do Hospital de Dona Estefânia. Lisboa, 18/05/07 (Centro de Formação Profissional, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) • 12ªs Jornadas de Pediatria do Centro Hospitalar de Cascais “Actualidades no Ambulatório Pediátrico”. Cascais, 17-18/05/07 (Florinda Santos ou Anabela Vicente, tel. 214827700 – ext. 1407 ou 1326, fax 214844843) • 11º Curso de Radiologia Pediátrica. Coimbra, 18-19/05/07 (IES, tel/ fax 239921371; [email protected]) • 1ªs Jornadas do Centro de Desenvolvimento do Hospital de Dona Estefânia “A criança com problemas de desenvolvimento e a sua família: do hospital à comunidade”. Lisboa, 21/05/07 (Ana Carvalho, Centro de Desenvolvimento do Hospital de Dona Estefânia, tel. 213596535) • VIII Encontro de Medicina do Adolescente “Anorexia Nervosa do Adolescente – Consensos e Controvérsias”. Coimbra, 30/05/07 (Elisabete Santos, tel. 232420535, fax 232420538, [email protected]) JUNHO 2007 • 6º Encontro da Secção de Infecciologia da SPP. Lisboa, 1/06/07 (SPP, tel. 217574680, fax 217577617, [email protected]) • VIII Jornadas de Pediatria do Hospital Distrital de Faro. Faro, 1-2/06/07 (tel. 289001922) • European Society of Paediatric Radiology 44th Annual Meeting. Barcelona, Espanha, 3-7/06/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) • The 21th Congress of the International Association of Paediatric Dentistry. Hong-Kong, China, 14-17/06/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) • XXIV Curso Pediatria Ambulatória. Mealhada, 21-22/06/07 (ASIC, tel. 239484464, fax 239482918, [email protected], www.asic.pt) • 2007 Annual Meeting of the Society for Pediatric and Perinatal Epidemiologic Research. Boston, E.U.A., 18-19/06/07 (http://www.sper.org/) • 5th World Conference on Pediatric Critical Care. Hong-Kong, China, 24-28/06/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) • 46th European Society for Pediatric Endocrinology Meeting. Helsínquia, Finlândia, 27-30/06/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) JULHO 2007 • Conferência Internacional sobre Vinculação “Mudança das relações de vinculação perturbadas: Contribuições da investigação e da clínica”. Braga, 11-13/07/07 (Departamento de Psicologia, Universidade do Minho, http://www.iep.uminho.pt/iac2007) • 4th World Congress of the International Federation of the Cornelia de Lange Syndrome Support Groups. Niagara, Canadá, 24-29/07/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) AGOSTO 2007 • European Society for Children and Adolescent Psychiatry, 13th International Congress. Florença, Itália, 25-29/08/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) • 25th International Congress of Pediatrics. Atenas, Grécia, 25-30/08/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) SETEMBRO 2007 • 2nd World Congress of the World Federation of Pediatric Surgeons (WOFAPS). Buenos Aires, Argentina, 9-12/09/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) • WCPM, 8th World Congress of Perinatal Medicine. Florença, Itália, 9-13/09/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) XXXVII Acta Pediatr Port 2007:38(3):XXXVII-IX Notícias • I Jornadas de Neurogenética do Hospital Dona Estefânia. Lisboa, 21-22/09/07 (Dra. Teresa Lourenço, [email protected]) • Focus on Paediatric Hematology and Oncology. Sesimbra, 21-22/09/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) • IPOKRaTES Seminar “Respiratory Assistance, Ventilation and Care of the Newborn Infant”. Porto, 27-29/09/07 (http://www.ipokrates.info) JANEIRO 2008 OUTUBRO 2007 • I Congresso Internacional em Estudos da Criança. Braga, 2-4/02/08 (Instituto de Estudos da Criança - U. do Minho, fax 253601201, [email protected]) • 3ª Reunião Pediátrica do Hospital Cuf Descobertas - Pediatria: Novas perspectivas. Lisboa, 14-15/02/08 (Milupa) • VIII Congresso Nacional de Pediatria. Vilamoura, 1-5/10/07 (Muris Congressos, tel. 229476847, [email protected]) • 48th Annual Meeting of the European Society for Paediatric Research. Praga, República Checa, 6-8/10/07 (www.kenes.com/paediatric-research) • EFGCP Children’s Medicines Working Party 3rd Annual Conference on EU Paediatric Regulation: First European Experiences & Strategic Outlook. Bruxelas, Bélgica, 9/10/07 (EFGCP Secretariat, tel. +3227328783, [email protected], http://www.efgcp.be) • I Curso de Nefrologia Pediátrica. Lisboa, 12/10/07 (Unidade de Nefrologia Pediátrica, Hospital de Santa Maria, [email protected]) • EAACI-ERS. Pediatrics Joint Meeting. “Allergy and respiratory diseases. New Challenges from childhood to adolescence”. Estoril, 20-23/10/07 (tel. 217121010, fax 217159066, [email protected], www.pjmeeting2007.com) • II Escola de Outono de Medicina do Adolescente. Curia, 25-27/10/07 (Elisabete Santos, tel. 232420535, fax 232420538, [email protected]) • 18th Annual Meeting of the European Society of Ambulatory Paediatrics (ESAP). Budapeste, Hungria, 26-27/10/07 (http://www.esapbudapest.com) • Probiótica em Pediatria. Porto, 13-14/10/07 e Lisboa, 27-28/10/07 (Ana Machado, tel. 213256272 ou 213256260, fax 213427264, [email protected]) • 2007 International Society of Paediatric Oncology (SIOP) Annual Congress. Mumbai, Índia, 30/10-3/11/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) • VI Seminário da Secção de Pediatria do Desenvolvimento da SPP. Porto, 25-26/01/08 (http://www.sec-desenvolvimento-spp.com) FEVEREIRO 2008 MARÇO 2008 • Reunião da Secção de Gastrenterologia e Nutrição da SPP. Évora, 7-9/03/08 (Secção de Gastrenterologia e Nutrição da SPP) • CIPP VIII - 8th International Congress on Pediatric Pulmonology. Nice, 29-31/03/08 (Dr. Anne F. Bidart, tel. +33(0)497038597, fax +33(0)497038598, [email protected], http://www.cipp-meeting.com) SETEMBRO 2008 • 1st Meeting of the European Union of Neonatal and Perinatal Societies - Global Neonatology and Perinatology. Roma, 17-19/09/08 OUTUBRO 2008 • XIV Jornadas de Pediatria do Serviço de Pediatria de Évora. Évora, 8-10/10/08 (Serviço de Pediatria, Hospital Espírito Santo de Évora, tel. 266740100, fax 266707912, [email protected] NOVEMBRO 2007 • XV Jornadas de Pediatria de Leiria e Caldas da Rainha. Consensos em Pediatria do Ambulatório. Óbidos, 8-9/11/07 (Serviço de Pediatria, Centro Hospitalar das Caldas da Rainha, tel. 262830396/71, fax 262830757, [email protected]) • XXXV Jornadas da Secção de Neonatologia da SPP e III International Meeting on Neonatology - “Prevention in Neonatology”. Porto, 15-17/11/07 (Skyros Congressos, [email protected]; http://www.lusoneonatologia.net) • IPOKRaTES Seminar “Perspectives and Advances in Material and Neonatal Nutrition and Neonatal Gastroenterology. Lisboa, 15-17/11/07 (http://www.ipokrates.info) • 5th World Congress of the World Society for Paediatric Infectious Diseases. Bangkok, Tailândia, 15-18/11/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) • 11th European Regional Conference of the International Society for Prevention of Child Abuse and Neglect (ISPCAN). Lisboa, 18-21/11/07 (Masterturismo, tel. 214544620, fax 214544629, [email protected], http://www.masterturismo.pt) • XIV Jornadas de Pediatria. pediatria.com. A Criança num Mundo em Globalização. Lisboa, 22-24/11/07 (Margarida Vales, tel. 217805202, fax 217805623, [email protected]) • Curso Terapêutica Antimicrobiana em Pediatria. 22-23/11/07 (Secção de Infecciologia Pediátrica da SPP) XXXVIII Cursos de Formação Contínua em Pediatria • 3º Curso de Formação Contínua em Pediatria do Hospital Geral de Santo António.: “Encontros à Sexta-Feira”. Porto, 13/10/06 a 1/6/07 (Ana Rita Lopes, tel. 222077500 – ext. 1040; [email protected]; http://[email protected]) • Reuniões Mensais sobre Temas Pediátricos do Hospital de São Francisco Xavier. Lisboa, 27/10/06 a 27/04/07 (Núcleo de Formação, tel. 213000356, fax 213000559; [email protected]) • Ciclo de Cursos do Internato Médico “O Essencial em…”, do Hospital de Dona Estefânia. Lisboa, 29/09/06 a 28/06/07 (Carla Oliveira, tel. 213596441, fax 213596439 ou Lúcia Pratas, tel. 2132126784, [email protected]) • Curso de Formação “Temas Práticos em Ventilação Domiciliária em Pediatria”. Lisboa, 8/03/07 a 31/07/07 (Centro de Formação Profissional do Hospital de Dona Estefânia, tel. 213596441, fax 213596439, [email protected]) Acta Pediatr Port 2007:38(3):XXXVII-IX Notícias Eventos da Sociedade Brasileira de Pediatria ([email protected]; http://www.sbp.com.br) • Congresso Integrado de Pediatria. Maceió, 28-31/08/07 • Congresso Brasileiro de Adolescência. Foz do Iguaçú, 13-16/09/07 • Congresso Nacional de Pediatria. Goiânia, 9-10/10/07 • Congresso Brasileiro de Terapia Intensiva. Curitiba, 30/10-2/11/07 • Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia Pediátrica. Florianópolis, 14-17/11/07 • Congresso Brasileiro de Perinatologia. Fortaleza, 24-28/11/07 XXXIX 0873-9781/07/38-3/XLIII Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria 1. Indicações Gerais aos Autores A Acta Pediátrica Portuguesa (APP) aceita artigos sobre qualquer tema pediátrico e materno-fetal, nas múltiplas dimensões científicas, sociais e culturais relacionadas com a saúde e educação da criança e do adolescente. Aceita também estudos experimentais com animais que contribuam para o melhor conhecimento da fisiologia e fisiopatologia infantil e fetal na espécie humana. São bem-vindos artigos provenientes de todos os Países de Língua Oficial Portuguesa. Podem ser aceites, pela sua relevância, textos escritos noutras línguas, de reconhecida divulgação internacional. Os artigos propostos não podem ter sido objecto de qualquer outro tipo de publicação. Esta restrição não se aplica a notas de imprensa ou a resumos publicados no âmbito de reuniões científicas. Se houver publicações semelhantes à que é submetida ou se existirem dúvidas relativamente ao cumprimento dos critérios acima mencionados, estas devem ser enviadas em anexo ao manuscrito em submissão. Os manuscritos submetidos devem estar de acordo com os requisitos de submissão de manuscritos a revistas biomédicas, elaborados pela Comissão Internacional de Editores de Revistas Médicas (Uniform Requirements for Manuscripts Submitted to Biomedical Journals – URMSBJ), elaborados pela Comissão Internacional de Editores de Revistas Médicas (International Committee of Medical Journal Editors – ICMJE), disponível em URL: www.icmje.org e em N Engl J Med 1997;336:309-15. Os manuscritos são inicialmente avaliados por membros da equipa editorial e os considerados adequados são submetidos ao parecer técnico de pelo menos dois revisores externos. A revisão é feita anonimamente, podendo os revisores rejeitar, aceitar sem modificações ou propor alterações de conteúdo ou de forma, condicionando a publicação do artigo às mesmas. Os pareceres da equipa editorial e dos revisores são comunicados ao(s) autor(es). A propriedade editorial dos artigos publicados é da APP. Uma vez aceites, os manuscritos não podem ser publicados textualmente ou em forma semelhante noutros locais, mesmo noutro idioma, sem o consentimento da APP. O(s) autor(es) mantêm os direitos de autor da sua obra, o que lhes permite: – publicar em parte ou na totalidade o seu artigo em livro, com a necessária referência à publicação do artigo; – utilizar figuras, tabelas e textos do seu artigo em outros trabalhos escritos pelo(s) autor(es), com a necessária referência à publicação do artigo; – incluir o seu artigo em compilações de textos para ensino, sempre que sejam distribuídos gratuitamente pelos estudantes ou disponibilizados em suporte informático de acesso livre, com intuito de ensino ou formação. Apesar dos editores e dos revisores envidarem esforços para assegurar a qualidade técnica e científica dos manuscritos, a responsabilidade final do conteúdo é dos autores, aos quais pertence a propriedade intelectual dos artigos. 2. Tipos de artigos publicados na Acta Pediátrica Portuguesa A APP prevê a publicação de vários tipos de artigos: 2.1. Artigos de investigação original. Contendo o resultado de investigação original, qualitativa ou quantitativa. O texto, organizado em introdução, métodos, resultados, discussão (e eventualmente conclusão), deve ser limitado a 3200 palavras, excluindo referências e tabelas, com um máximo de seis ilustrações e até 30 referências. Devem incluir resumos estruturados, em português e em inglês, com um limite de 300 palavras. 2.2. Publicações breves. Contendo resultados preliminares ou achados novos. O texto, organizado em introdução, métodos, resultados, discussão e conclusão, deve ser limitado a 1500 palavras, excluindo referências e tabelas, NORMAS DE PUBLICAÇÃO com um máximo de duas ilustrações e até quinze referências. Devem incluir resumos estruturados em português e em inglês, com um limite de 250 palavras. 2.3. Casos clínicos. Casos clínicos originais, devidamente estudados e discutidos. O texto deve incluir uma breve introdução, a descrição do(s) caso(s), a discussão sucinta que terminará com uma conclusão sumária. O texto deve limitar-se a 1200 palavras, excluindo referências e tabelas, com um máximo de duas ilustrações e até doze referências. Os casos clínicos devem incluir resumos, em português e em inglês, com um limite de 120 palavras, estruturados em introdução, relato dos casos e discussão (eventualmente conclusão). 2.4. Séries de casos (Casuísticas). Contendo a descrição de séries de casos, numa perspectiva de reflexão sobre uma experiência particular de diagnóstico, tratamento ou prognóstico. O texto, incluindo uma breve introdução, a descrição dos casos, a discussão sucinta contendo uma conclusão, deve ser limitado a 2200 palavras, excluindo referências e tabelas. O texto deve estar organizado em introdução, métodos, resultados e discussão (eventualmente conclusão), com um máximo de três ilustrações e até trinta referências. As séries de casos devem apresentar resumos estruturados, em português e em inglês, com um limite de 250 palavras. 2.5. Artigos de revisão ou actualização. Artigos de revisão sobre temas das diferentes áreas da Pediatria, com interesse prático para profissionais de saúde dedicados a crianças e adolescentes. Este tipo de artigos de revisão é geralmente solicitado pelos editores. Contudo, serão avaliados artigos de revisão submetidos sem solicitação prévia dos editores. O texto deve ser limitado a 3400 palavras, excluindo referências e tabelas, incluir um máximo de seis ilustrações e até 60 referências. As revisões quantitativas (metanálises) devem ser organizadas em introdução, métodos, resultados e discussão (incluindo conclusões). Os artigos devem incluir resumos, em português e em inglês, com um limite de 250 palavras, devendo ser estruturados no caso de serem revisões quantitativas. 2.6. Artigos sobre Educação Médica. Artigos de revisão ou opinião sobre a formação médica contínua, geral ou pediátrica, dirigidos a profissionais de saúde que se dedicam a crianças e adolescentes, particularmente a responsáveis pela formação pré e pós-graduada. Este tipo de artigo pode ser submetido sem a solicitação prévia dos editores. O texto deve ser limitado a 2400 palavras, excluindo referências e tabelas, incluir um máximo de três ilustrações e até 20 referências. Os artigos devem incluir resumos, em português e em inglês, com um limite de 250 palavras, devendo ser estruturados no caso de serem estudos originais. 2.7. Críticas de livros, de publicações em versão electrónica ou de programas informáticos. Críticas de livros, de publicações em versão electrónica, de sítios da internet ou de programas informáticos. O texto deve ser limitado a 600 palavras, excluindo referências e ilustrações, e incluir no máximo duas ilustrações e até seis referências bibliográficas, incluindo a referência bibliográfica completa do objecto da revisão. Estes artigos não devem conter resumos. 2.8. Artigos de opinião. Incidem em comentários, ensaios filosóficos, análises críticas ou enunciados de posição, acerca de tópicos de interesse nas áreas da Pediatria e Saúde Infantil, políticas de saúde e educação médica. O XLIII Acta Pediatr Port 2007:38(3):XLIII-VII texto deve ser limitado a 900 palavras, excluindo referências e ilustrações, e incluir no máximo uma ilustração e até cinco referências. Estes artigos não devem conter resumos. 2.9. Cartas ao Director. Comentários sucintos a artigos publicados na APP ou relatando de forma muito breve e objectiva os resultados de observação clínica ou investigação original que não justifiquem publicação mais extensa. O texto deve ser limitado a 400 palavras, excluindo referências e ilustrações, e incluir no máximo uma ilustração e até seis referências. As cartas ao director não devem conter resumos. 3. Submissão de Manuscritos. Os manuscritos submetidos à APP devem ser preparados de acordo com as recomendações abaixo indicadas e acompanhados de uma carta de apresentação. A carta de apresentação deve incluir a seguinte informação: 1) Título completo do manuscrito; 2) Nomes dos autores com especificação do contributo de cada um para o manuscrito; justificação de número elevado de autores (mais de seis), se tal ocorrer; 3) Especificação do tipo de artigo, de acordo com a classificação da APP; 4) Fontes de financiamento, incluindo bolsas e patrocínios comerciais; 5) Explicitação de conflitos de interesse ou da sua ausência; 6) Declaração de que o manuscrito não foi ainda publicado, na íntegra ou em parte, e de que nenhuma versão do manuscrito está a ser avaliada por outra revista; 7) Declaração de que todos os autores aprovaram a versão do manuscrito que está a ser submetida; 8) Assinatura de todos os autores. É dada preferência à submissão dos manuscritos por e-mail ([email protected]). O manuscrito e a carta de apresentação devem ser enviados em ficheiros separados. Deve ser enviada por correio ou por fax (217 577 617) uma cópia da carta de apresentação assinada por todos os autores. Quando estiver disponível a possibilidade de submissão on-line, através das páginas electrónicas da Sociedade Portuguesa de Pediatria (www.spp.pt), será esta a forma de submissão preferencial. Se não for possível efectuar a submissão por e-mail, esta pode ser efectuada por correio, com o envio do suporte digital, para o endereço: Acta Pediátrica Portuguesa Sociedade Portuguesa de Pediatria Rua Amílcar Cabral, 15, R/C I 1750-018 Lisboa, PORTUGAL Os manuscritos rejeitados ou o material que os acompanha não serão devolvidos, excepto quando expressamente solicitado no momento da submissão. 4. Formatação dos Manuscritos. A formatação dos artigos submetidos para publicação deve seguir os URMSBJ - ICMJE (vide “1. Indicações Gerais aos Autores”). Todo o manuscrito, incluindo referências, tabelas e legendas de Ilustrações, deve ser redigido em coluna única, a dois espaços, com letra de dimensão 12, e justificado à esquerda. Aconselha-se a utilização dos formatos de letra Times, Times New Roman, Courier, Helvética ou Arial; para caracteres especiais, aconselha-se a utilização do formato Symbol. Normas de Publicação Devem ser inseridas quebras de página entre cada secção do manuscrito. Não devem conter cabeçalhos nem rodapés. A publicação de citações, quadros ou ilustrações cuja origem esteja sujeita a direitos de autor, está dependente da citação completa da fonte e/ou da autorização do detentor dos direitos de autor. Unidades de medida - Devem ser utilizadas as unidades de medida do Sistema Internacional (SI), mas os editores podem solicitar a apresentação de outras unidades não pertencentes ao SI. Abreviaturas - Devem evitar-se acrónimos e abreviaturas no título e nos resumos. Quando for necessária a sua utilização, devem ser definidos na primeira vez que são mencionados no texto. O seu significado deve também ficar explícito no resumo, nos quadros e figuras, excepto no caso das unidades de medida. Quando usados mais do que seis acrónimos ou abreviaturas, recomenda-se a inclusão de um quadro com a lista completa dos mesmos. Nomes de medicamentos - Deve ser preferida a utilização da Designação Comum Internacional (DCI) de fármacos, escrito em minúscula, em vez de nomes comerciais de medicamentos. Quando forem utilizadas marcas registadas na investigação, pode ser mencionado o nome do medicamento, em maiúscula e seguido do símbolo ®, e o nome do laboratório, entre parêntesis. Nomes de doenças – Os nomes de doenças devem ser escritos em minúscula, exceptuando-se apenas aqueles que contêm toponímicos ou antropónimos. Local do estudo – A filiação institucional dos autores deve ser referida na página do título. Não deve ficar explícita, no texto ou no resumo, a identificação da instituição onde decorreu o estudo, de modo a manter o duplo anonimato da revisão. Se essa referência for importante para a compreensão do manuscrito, deve ser feita em termos de caracterização genérica do nível de diferenciação e local geográfico da instituição (exº: “hospital universitário de nível III” ou “centro de saúde em área rural”). Secções do manuscrito - O manuscrito deve ser apresentado na seguinte ordem: 1 – Título (em português e inglês) e título abreviado, autores, instituições, agradecimentos, endereço (e autor) para correspondência; 2 - Resumos e Palavras-chave (em português e inglês); 3 - Texto; 4 - Referências; 5 - Legendas; 6 – Ilustrações: 6.1 - Quadros; 6.2 - Figuras. 4.1. Página de Identificação. Na primeira página do manuscrito devem constar: 4.1.1. O título (conciso e descritivo), na língua original do manuscrito e em inglês; 4.1.2. Um título abreviado (com um máximo de 40 caracteres, incluindo espaços); 4.1.3. Os nomes dos autores, incluindo o primeiro nome por extenso (não devem incluir graus académicos ou profissionais ou títulos honoríficos); 4.1.4. A filiação institucional de cada autor no momento em que o trabalho foi realizado (deve figurar apenas na página do título; casos excepcionais devem ser justificados); 4.1.5. A contribuição de cada autor para o trabalho. Como referido nos URMSBJ - ICMJE, a autoria requer uma contribuição substancial em, pelo menos, uma das seguintes actividades: Em todo o manuscrito as quatro margens devem ser de 2,5 cm. – Concepção e desenho do estudo, ou obtenção dos dados, ou análise e interpretação dos dados; Todas as páginas devem ser numeradas, incluindo a página de identificação do manuscrito. – Redacção do manuscrito ou revisão crítica do seu conteúdo intelectual; XLIV Acta Pediatr Port 2007:38(3):XLIII-VII – Aprovação final da versão submetida para publicação. A obtenção de financiamento, a recolha de dados ou a supervisão geral do grupo de trabalho, por si só, não justificam autoria. É necessário especificar a contribuição de cada autor para o trabalho. Sugere-se a seguinte discriminação: (a) Desenho do estudo. (b) Recolha de dados. (c) Análise estatística. (d) Interpretação dos dados. (e) Preparação do manuscrito. (f) Pesquisa bibliográfica. (g) Recolha de fundos. Nos manuscritos assinados por mais de seis autores (três autores no caso das cartas ao editor), tem que ser explicitada a razão de uma autoria tão alargada. É necessária a aprovação de todos os autores, por escrito, de quaisquer modificações da autoria do artigo após a sua submissão. Normas de Publicação Números superiores a quinze são escritos em algarismos, salvo no início de uma frase. As casas decimais devem assinalar-se com vírgulas. 4.3.1. Introdução - Deve conter essencialmente os argumentos científicos que fundamentam a realização do estudo e justificam os objectivos. Pode concluir com o enunciado dos objectivos do estudo. Esta secção deve apenas conter as referências bibliográficas indispensáveis para o fundamento e os objectivos do estudo. 4.3.2. Objectivos - Os objectivos do estudo podem ser apresentados no final da Introdução ou em secção própria, devendo ser claros, explícitos e não conter elementos metodológicos no enunciado. 4.3.3. Métodos – Esta secção poderá denominar-se, consoante a natureza do estudo, “Métodos”, “Material e Métodos”, “Amostra e Métodos”, “População e Métodos”, ou simplesmente “Metodologia”. Nesta secção devem descrever-se: 4.3.3.1. A amostra ou a população em estudo (especificando a sua definição e forma de identificação, recrutamento ou selecção); 4.1.6. O nome e contactos do autor que deverá receber a correspondência, incluindo endereço postal e telefone, fax ou e-mail; 4.3.3.2. A localização do estudo no tempo e no espaço; 4.1.7. Os agradecimentos, incluindo fontes de financiamento, bolsas de estudo e colaboradores que não cumpram critérios para autoria; 4.3.3.4. Os métodos de recolha de dados; Devem ser mencionados como Agradecimentos os colaboradores que contribuíram substancialmente para o trabalho mas que não cumpram os critérios para autoria, especificando o seu contributo. 4.1.8. Contagem de palavras, respectivamente, para cada resumo e para o texto principal (não incluindo referências e ilustrações). 4.2. Resumo e Palavras-Chave. 4.2.1. Resumo - Deve ser redigido na língua original do manuscrito e inglês, não ultrapassando os limites indicados na especificação dos tipos de manuscritos mas suficientemente informativo e elaborado segundo um formato estruturado contendo os seguintes itens: 4.2.1.1. Os resumos de artigos de investigação original, publicações breves e revisões quantitativas devem ser estruturados (introdução, métodos, resultados, discussão e conclusões) e apresentar conteúdo semelhante ao do manuscrito. 4.2.1.2. Nos casos clínicos e séries de casos, devem ser estruturados em introdução, relato do(s) caso(s), discussão (incluindo a conclusão); a conclusão deve destacar os aspectos que justificam a publicação do caso ou serie de casos. 4.2.1.3. Os resumos de manuscritos referentes a revisões não sistemáticas e artigos de opinião não são estruturados segundo as secções referidas na alínea anterior. Nos resumos não devem ser utilizadas referências e as abreviaturas devem limitar-se ao mínimo. 4.2.2. Palavras-chave - Devem ser indicadas logo a seguir ao resumo até seis palavras-chave, em português e em inglês, preferencialmente em concordância com o Medical Subject Headings (MeSH) utilizado no Index Medicus. Nos manuscritos que não incluem resumos, as palavras-chave devem ser apresentadas no final do manuscrito. 4.3. Texto. O texto poderá ser apresentado em português ou inglês (poderá ser excepcionalmente considerada a submissão de textos noutras línguas, de reconhecida divulgação internacional). Os números de um a quinze devem ser escritos por extenso, excepto quando têm decimais ou se seguidos de unidades de medida. 4.3.3.3. O desenho do estudo; 4.3.3.5. Os métodos de análise dos dados: Os métodos estatísticos devem ser descritos com o detalhe suficiente de modo a possibilitar a reprodução dos resultados apresentados. Sempre que possível deve ser quantificada a imprecisão das estimativas apresentadas, designadamente através da apresentação de intervalos de confiança. Deve evitar-se uma utilização excessiva de testes de hipóteses, com o uso de valores de p, que não fornecem informação quantitativa importante. Deve ser mencionado o software utilizado na análise dos dados, referindo o seu fabricante e, se considerado necessário, inserindo a referência de citação. 4.3.3.6. As considerações éticas devem figurar no final desta secção. Os autores devem assegurar que todas as investigações envolvendo seres humanos foram aprovadas por comissões de ética das instituições em que a investigação foi realizada, de acordo com a Declaração de Helsínquia da Associação Médica Mundial (www.wma.net). Nesta secção deve ser mencionada esta aprovação e a obtenção de consentimento informado, se aplicável. 4.3.4. Resultados - Os resultados devem ser apresentados no texto, usando eventualmente Ilustrações (Quadros e Figuras), seguindo uma sequência lógica. Não deve ser fornecida informação redundante, aparecendo em duplicado no texto e nas ilustrações, bastando descrever a principais observações referidas nas ilustrações. (vide infra as recomendações sobre Ilustrações). 4.3.5. Discussão - Na discussão não deve ser repetida detalhadamente a informação fornecida na secção de Resultados. A discussão deve incidir nas limitações do estudo, na relação dos resultados obtidos com o observado noutras investigações, devem ser evidenciados os aspectos inovadores do estudo e as conclusões que deles resultam. Nesta secção apenas devem ser incluídas as referências indispensáveis para discutir os resultados do estudo. 4.3.6. Conclusão – Esta secção pode surgir separada da Discussão ou incluída no final da mesma. É importante que as conclusões estejam de acordo com os objectivos do estudo, devendo-se evitar afirmações e conclusões que não sejam completamente apoiadas pelos resultados da investigação realizada. 4.4. Ilustrações. As Ilustrações devem ser anexadas após as referências bibliográficas. As Figuras devem ser anexas após os Quadros. XLV Acta Pediatr Port 2007:38(3):XLIII-VII Cada Quadro ou Figura deve ser apresentada em páginas separadas, juntamente com os respectivos título e as notas explicativas. Os Quadros e Figuras devem ser numeradas separadamente (numeração romana para Quadros e numeração árabe para Figuras) de acordo com a ordem com que são apresentadas no texto. Devem ser mencionadas no texto todos os Quadros e Figuras. Cada Quadro ou Figura deve ser acompanhado de um título e notas explicativas (ex. definições de abreviaturas) de modo a serem compreendidas e interpretadas sem recurso ao texto do manuscrito. Se a ilustração possui uma tabela ou gráfico que inclua o resultado da análise estatística, devem ser referidos o teste estatístico usado e o seu nível de significância (no caso do cálculo do risco relativo ou do odds ratio, devem ser incluídos os seus intervalos de confiança). O título de cada Quadro ou Figura deve ter uma explicação sucinta do conteúdo, que chame a atenção do leitor para o seu aspecto mais importante e/ou que auxilie a sua compreensão. Nos Quadros, o título e notas explicativas encimam a tabela; nas Figuras, o título e notas explicativas colocam-se por baixo da ilustração. Para as notas explicativas dos Quadros ou Figuras devem ser utilizados os seguintes símbolos, nesta mesma sequência: *, †, ‡, §, ||, ¶, **, ††, ‡‡ . Nas tabelas devem ser utilizadas apenas linhas de limite horizontais. As Figuras, incluindo gráficos, mapas, ilustrações, fotografias ou outros materiais, devem ser formatadas em computador ou digitalizadas. Nos gráficos, as legendas dos eixos devem ser preferencialmente escritas paralelamente aos eixos das ordenadas e das abcissas, indicando as unidades de medida. Esses eixos devem ter marcas correspondentes aos valores. Quando digitalizadas, as legendas, símbolos, setas ou letras devem ser inseridas no ficheiro da imagem das fotografias ou ilustrações correspondentes. Os símbolos, setas ou letras devem contrastar suficientemente com o fundo de fotografias ou ilustrações. As ilustrações que incluam fotografias de doentes, deverão ser acompanhadas pela autorização do doente, ou seu responsável legal, permitindo a sua publicação, devendo ter os olhos tapados ou desfocados digitalmente, de modo a impedir a sua identificação. A dimensão das ilustrações é habitualmente reduzida à largura de uma coluna, pelo que as mesmas e o texto que as acompanha devem ser facilmente legíveis após redução. A resolução de imagens a preto e branco deve ser de pelo menos 1200 dpi e a de imagens com tons de cinzento ou a cores deve ser de pelo menos 300 dpi. Uma vez que a impressão final da APP é predominantemente a preto e branco ou em tons de cinzento, os gráficos não deverão conter cores. A submissão de imagens a cores deve ser reduzida ao mínimo necessário, dado o número limitado de páginas a cores possível em cada número da APP. O excesso de imagens a cores poderá atrasar a data de publicação até haver disponibilidade editorial. Na primeira submissão do manuscrito não devem ser enviados originais de fotografias, ilustrações ou outros materiais, como películas de raios-X. As figuras criadas em computador ou convertidas em formato electrónico após digitalização devem ser preferencialmente inseridas no ficheiro do manuscrito. Em caso de aceitação do manuscrito, serão solicitadas as Ilustrações nos formatos mais adequados para a sua reprodução na revista. 4.5. Referências. As referências devem ser listadas após o texto principal, numeradas sequencialmente, pela ordem de citação no texto e com o mesmo formato de letra com que figura no texto. No texto, os números das referências devem ser apresentados em expoente, antes de vírgulas ou pontos finais (ex.: “segundo alguns autores 3,5,7”). Referências sequenciais devem ser feitas indicando XLVI Normas de Publicação apenas a primeira e a última, unidas por hífen (ex.: “segundo alguns autores 5-7”). Não deve ser utilizado software para numeração automática das referências. Deve evitar-se a citação de referências secundárias (textos que fazem referência às publicações originais), resumos e comunicações pessoais (estas serão referidas no texto como tal). Os autores devem verificar se todas as referências estão de acordo com os documentos originais. Devem ser utilizados os nomes abreviados das publicações, de acordo com o adoptado pelo Index Medicus. Os nomes abreviados devem ser escritos em itálico, sem pontuação. Uma lista de publicações pode ser obtida em http://www.nlm.nih.gov. Uma descrição pormenorizada do formato dos diferentes tipos de referências conforme as regras de URMSBJ – ICMJE, pode ser encontrada em http://www.nlm.nih.gov/bsd/uniform_requirements.html ou em http://www.icmje.org. Citamos apenas alguns tipos de referenciação: 4.5.1. Artigo de revista: Relação de todos os autores - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes, sem pontos (se mais de seis autores, constarão os seis primeiros, seguidos de “et al”, em itálico). Título do artigo. Nome da revista (abreviada e em itálico), ano de publicação seguido de ponto e vírgula, número do volume seguido de dois pontos, e primeira e última páginas (exemplo 1). Em muitas revistas, os artigos que não têm estrita natureza científica têm numeração romana (exemplo 2). Em casos excepcionais a paginação inicia-se em cada número do mesmo volume, nestes casos, o número deve figurar entre parêntesis logo a seguir ao volume (exemplo 3); na maioria das revistas médicas a paginação é contínua ao longo de todo o volume e neste caso o número deve ser omitido. Quando se trata de um suplemento deve figurar logo a seguir ao volume, com indicação da numeração do suplemento se este for o caso (exemplo 4). No caso de carta ao editor ou resumo, deve ser assinalado em parêntesis recto logo a seguir ao título do artigo (exemplo 5). Exemplos: E1 – Levy ML. Adolescência e adolescentes. Acta Pediatr Port 1995;5:255-8. E2 – Chadwick R, Schuklenk U. The politics of ethical consensus finding. Bioethics 2002;16:iii-v. E3 – Diabetes Prevention Program Research Group. Hypertension, insulin, and proinsulin in participants with impaired glucose tolerance. Pediatr Nurs Rev 2002;40(2):679-86. E4 – Geraud G, Spierings EL, Keywood C. Tolerability and safety of frovatriptan with short- and long-term use for treatment of migraine and in comparison with sumatriptan. Headache 2002;42 Suppl 2:S93-9. E5 – Tor M, Turker H. International approaches to the prescription of long-term oxygen therapy [letter]. Eur Respir J 2002;20:242. 4.5.2. Artigo em publicação electrónica: Exemplos: – Yu WM, Hawley TS, Hawley RG, Qu CK. Immortalization of yolk sac-derived precursor cells. Blood 2002 Nov 15;100(10):3828-31. Epub 2002 Jul 5. – Abood S. Quality improvement initiative in nursing homes: the ANA acts in an advisory role. Am J Nurs [serial on the Internet]. 2002 Jun [cited 2002 Aug 12];102(6):[about 3p.]. Acessível em: http://www.nursingworld.org/AJN/2002/june/Wawatch.htm 4.5.3. Livro: Nome(s) - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes do(s) autor(es). Título do livro em itálico e iniciais maiúsculas. Edição. Cidade: nome da casa editora; ano de publicação. – Murray PR, Rosenthal KS, Kobayashi GS, Pfaller MA. Medical Microbiology. 4th ed. St. Louis: Mosby; 2002. Acta Pediatr Port 2007:38(3):XLIII-VII 4.5.4. Capítulo de livro: Nome(s) - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes do(s) autor(es) do capítulo. Título do capítulo. In: Nome(s) - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes do(s) editor(es), eds. Título do livro em itálico e iniciais maiúsculas. Número da edição. Cidade: nome da casa editora; ano de publicação. Número da primeira e última páginas. – Arvin AN. Infection control. In: Behrman RE, Kliegman RM, Arvin AM, editors. Nelson Textbook of Pediatrics. 15th ed. Philadelphia: WB Saunders Company; 1996;1027-8. 4.5.5. Comunicação em jornadas, congressos e similares: Nome(s) - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes do(s) autor(es) da comunicação. Título da comunicação. In: Nome(s) - apelido seguido das iniciais dos primeiros nomes do(s) editor(es), eds. Livro de publicação das comunicações; data e local da reunião. Cidade e nome da casa editora (se referido); ano de publicação. Número da primeira e última páginas. – Christensen S, Oppacher F. An analysis of Koza’s computational effort statistic for genetic programming. In: Foster JA, Lutton E, Miller J, Ryan C, Tettamanzi AG, eds. Genetic programming. EuroGP 2002: Proceedings of the 5th European Conference on Genetic Programming; 2002 Apr 3-5; Kinsdale, Ireland. Berlin: Springer; 2002. p. 182-91. 4.5.6. Página web: – Cancer-Pain.org [homepage on the Internet]. New York: Association of Cancer Online Resources, Inc.; c2000-01 [updated 2002 May 16; cited 2002 Jul 9]. Acessível em: http://www.cancer-pain.org/. Normas de Publicação - consentimento informado relativamente a cada indivíduo presente em fotografias, mesmo após tentativa de ocultar a respectiva identidade; - transferência de direitos de autor de imagens ou ilustrações; - autorizações para utilização de material previamente publicado; - autorização dos colaboradores mencionados na secção de agradecimentos. 6. Revisão de Manuscritos Aceites. No caso do artigo ser aceite condicionado a modificações, estas devem ser realizadas pelos autores no prazo indicado pela APP. No momento da aceitação, os autores serão informados acerca do formato em que devem ser enviadas as figuras. As provas tipográficas serão enviadas aos autores, contendo a indicação do prazo de revisão em função das necessidades de publicação da APP. A revisão deve ser aprovada por todos os autores. Nesta fase apenas aceitam-se modificações que decorram da correcção de gralhas. A correcção deve ser efectuada em documento à parte, referindo a página, coluna, parágrafo e linha na qual se pretende que se proceda às correcções. O não respeito do prazo desobriga a APP a aceitar a revisão pelos autores, podendo a revisão ser efectuada exclusivamente pelos serviços da APP. Juntamente com a correcção das provas tipográficas, deve ser enviada uma declaração de transferência de direitos de autor para APP, assinada por todos os autores (documento fornecido pela APP). 7. Separatas. 5. Autorizações. Antes de submeter um manuscrito à APP, os autores devem ter em sua posse os seguintes documentos que poderão ser solicitados pelo corpo editorial: - consentimento informado de cada participante; Após a publicação de cada número da APP, os artigos publicados serão enviados em formato PDF pelo Secretariado da APP ao primeiro autor. Poderá ser solicitado ao Secretariado da APP o envio em formato PDF de artigos publicados recentemente, enquanto não estiverem disponíveis na página electrónica da Sociedade Portuguesa de Pediatria (www.spp.pt)”. XLVII PROPOSTA DE NOVO SÓCIO ACTUALIZAÇÃO DE MORADA Sociedade Portuguesa de Pediatria Nome: Morada: Cód. Postal - Telef.: Instituição: Telef.: e-mail: @ Enviar a: Sociedade Portuguesa de Pediatria Rua Amílcar Cabral, 15 r/c I, 1750-018 Lisboa Tel.: 217 574 680 – Fax: 217 577 617 e-mail: [email protected] Notas: • Esta proposta de novo sócio deverá ser acompanhada por um cheque de € 7,50 que se destinará ao pagamento da primeira anualidade. • Em caso de pretender mudança de morada deverá indicar-nos qual a antiga para que se processe a actualização da mesma. Unidade de Vigilância Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria - Portuguese Paediatric Surveillance Unit INSCRIÇÃO DE NOVO NOTIFICADOR OU ACTUALIZAÇÃO DE CONTACTOS Nome: Morada: - , Instituição: Especialidade: Telefone: e-mail: @ Enviar para: Unidade de Vigilância Pediátrica / Portuguese Paediatric Surveillance Unit. Sociedade Portuguesa de Pediatria Rua Amílcar Cabral, 15 r/c I, 1750-018 Lisboa – Tel.: 217 574 680 – Fax: 217 577 617 – e-mail: [email protected] Unidade de Vigilância Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria Rua Amílcar Cabral, 15 r/c I, 1750-018 Lisboa – Tel.: 217 574 680 – Fax: 217 577 617 e-mail: [email protected] RESUMO DAS CARACTERÍSTICAS DO MEDICAMENTO 1. DENOMINAÇÃO DO MEDICAMENTO: FLUIMUCIL 2% solução oral 2. COMPOSIÇÃO QUALITATIVA E QUANTITATIVA: Acetilcisteína 20 mg/ml. Excipientes ver 6.1. 3. FORMA FARMAC UTICA: Solução oral. 4. INFORMAÇÕES CLÍNICAS: 4.1. Indicações terapêuticas: O FLUIMUCIL está indicado no tratamento de processos patológicos do aparelho respiratório, agudos ou crónicos, que evoluem com hipersecreção e mucoestase tais como bronquite aguda, enfisema, bronquite crónica, bronquite asmática, bronquiectasia. Também está indicado como fluidificante das secreções mucosas e mucopurulentas em casos de otites catarrais, catarros tubáricos, sinusites, rinofaringites, laringotraqueítes. Profilaxia e tratamento das complicações obstrutivas e infecciosas por traqueotomia, preparação para broncoscopias, broncografias e broncoaspirações. Pelas suas características, atenua o esforço de expectoração e facilita manobras de broncoaspiração em anestesia e no pós-operatório. 4.2. Posologia e modo de administração: O FLUIMUCIL 2% solução oral administra-se por via oral. Adultos e crianças maiores de 12 anos: 200 mg (10 ml) FLUIMUCIL 2% solução oral, 3 vezes por dia. Crianças entre os 6 e 12 anos: 100 mg (5 ml) de FLUIMUCIL 2% solução oral, 3 vezes por dia. Crianças até aos 6 anos: 100 mg (5 ml), 2 ou 3 vezes por dia a estabelecer segundo critério médico. 4.3. Contra-indicações: A Acetilcisteína está contra-indicada em pacientes que sejam alérgicos a este composto ou no caso de úlcera gastroduodenal. 4.4. Advertências e precauções especiais de utilização: O FLUIMUCIL 2% solução oral não contém sacarose, pelo que pode ser administrado a diabéticos. 4.5. Interacções medicamentosas e outras: A administração de acetilcisteína com medicamentos contendo sais de ouro, cálcio ou ferro deve ser realizada a horas diferentes, devido a uma possível interacção. A acetilcisteína pode também interagir (diminuindo a biodisponibilidade) com antibióticos do grupo das cefalosporinas, pelo que a administração deve ser efectuada a horas diferentes. O FLUIMUCIL 2% solução oral não interactua com antibióticos tais como a amoxicilina, eritromicina, doxiciclina ou bacampicilina, assim como a associação amoxicilina + ác. clavulânico. 4.6. Gravidez e aleitamento: Gravidez: Embora não se tenha demonstrado que a Acetilcisteína possua acção teratogénica, recomenda-se a sua administração com precaução durante a gravidez. Lactação: Embora não se tenha demonstrado que a Acetilcisteína se dissolva no leite materno, recomenda-se a sua administração com precaução durante a lactação. 4.7. Efeitos sobre a capacidade de conduzir e utilizar máquinas: Não foram observados efeitos sobre a capacidade de conduzir e utilizar máquinas. 4.8. Efeitos indesejáveis: Ocasionalmente podem produzir-se alterações digestivas (náuseas, vómitos e diarreias) raramente apresentam-se reacções de hipersensibilidade, como urticária e broncoespasmos. Sobretudo nos asmáticos existe a possibilidade de se produzir broncoconstrição. Nestes casos deve interromper-se o tratamento e consultar um médico. 4.9. Sobredosagem: A Acetilcisteína foi administrada ao homem em doses de até 500 mg/kg sem que tenha provocado sintomas de sobredosagem. No caso de se produzirem reacções como as já mencionadas, após doses elevadas, considera-se suficiente a administração de um tratamento sintomático. 5. PROPRIEDADES FARMACOLÓGICAS 5.1. Propriedades farmacodinâmicas: Grupo farmacoterapêutico: VI-4 Fluidificantes, antitússicos e expectorantes. Código ATC: R05C B01 – Mucolíticos. A Acetilcisteína é um aminoácido sulfurado que se caracteriza pela sua acção fluidificante sobre as secreções mucosas e mucopurulentas nas patologias do aparelho respiratório que se caracterizam por evoluírem com hipersecreção e mucoestase. A sua acção farmacológica traduz-se por uma redução da viscosidade das secreções e pela melhoria da funcionalidade mucociliar. Pelo seu carácter antioxidante, a Acetilcisteína exerce uma acção citoprotectora no aparelho respiratório face aos fenómenos tóxicos que se desencadeiam pela libertação de radicais livres oxidantes de diversa etiologia. 5.2. Propriedades farmacocinéticas: A Acetilcisteína é absorvida na sua totalidade após a sua administração por via oral, alcançando a concentração máxima ao fim de aproximadamente 1 hora e meia. Distribui-se no organismo com rapidez, 80% em forma de metabolitos e 20% na forma inalterada, predominantemente a nível pulmonar, secreção traqueobrônquica, fígado e rim. O metabolismo da Acetilcisteína realiza-se a nível do intestino e excreta-se principalmente pela urina, com menos de 1% da dose inicial excretada na forma inalterada. A sua semi-vida de eliminação é de 60 minutos após a sua administração por via oral. 5.3. Dados de segurança pré-clínica: 6. INFORMAÇÕES FARMAC UTICAS: 6.1. Lista de excipientes: Para-hidroxibenzoato de metilo, Benzoato de sódio, Edetato de sódio, Carboximetilcelulose sódica, Sacarina sódica, Aroma de framboesa, Hidróxido de sódio, Água purificada. 6.2. Incompatibilidades: Não aplicável. 6.3. Prazo de validade: 2 anos. Após abertura do frasco 15 dias. 6.4. Precauções particulares de conservação: Conservar à temperatura ambiente (15ºC-25ºC). 6.5. Natureza e conteúdo do recipiente: Embalagem contendo 1 frasco de vidro tipo III, cor âmbar, com volumes nominais de 109 ml ou 225 ml para as apresentações de 75 ml e 200 ml respectivamente. O frasco é fechado com tampa de plástico, roscada, com selo elastomérico de clorobutil. A embalagem contém ainda um copo medida, transparente, de polipropileno, com marcas para administração de 2,5; 5 e 10 ml de solução. 6.6. Instruções de utilização e manipulação: Dosear a quantidade indicada com o copo de medição que se encontra na embalagem. 7. TITULAR DA AUTORIZAÇÃO DE INTRODUÇÃO NO MERCADO: Zambon, Produtos Farmacêuticos, Lda.; Rua Comandante Enrique Maya, nº 1; 1500-370 Lisboa. 8. NÚMERO(S) DE AUTORIZAÇÃO DE INTRODUÇÃO NO MERCADO: FLUIMUCIL 2% solução oral, frasco contendo 75 ml – 3311081; FLUIMUCIL 2% solução oral, frasco contendo 200 ml – 3311180. 9. DATA DA PRIMEIRA AUTORIZAÇÃO/RENOVAÇÃO DA AUTORIZAÇÃO DE INTRODUÇÃO NO MERCADO: 19 de Setembro de 2000 10. DATA DE REVISÃO DO TEXTO: Agosto 2000. MEDICAMENTO SUJEITO A RECEITA MÉDICA. PREÇOS E COMPARTICIPAÇÕES: Fluimucil 2% solução oral - frasco com 200 ml PVP (IVA incluído) 2,98 €; Regime geral - Estado 1,19 €, Utente 1,79 €; Regime especial Estado 1,64 €, Utente 1,34 €. NOVO Enfalac Premium com DHA e ARA Os DHA e ARA são Ácidos Gordos Polinsaturados de Cadeia Longa, importantes no desenvolvimento dos tecidos do sistema nervoso central e desempenham um papel importante tanto no desenvolvimento neurológico como no da acuidade visual.1,2 Começar bem … … Continuar melhor! “As mulheres grávidas ou mães de recém-nascidos devem ser informadas das vantagens do aleitamento materno. As mães devem ser orientadas sobre como amamentar e saberem que a decisão de evitar ou interromper a amamentação pode ser irreversível. A introdução parcial de um leite dietético por biberão pode ter efeitos negativos sobre o aleitamento materno.” Código Internacional dos Substitutos do Leite Materno Edifício Fernão de Magalhães • Quinta da Fonte • 2780-730 Paço de Arcos Tel: 21 440 70 89 • Fax: 21 440 70 97 • www.meadjohnson.com 1. Birch, E., Uauy, R., et al. A Randomized Controlled Trial of Early Dietary Supply of Long-Chain Polyunsaturated Fatty Acids and Mental Development in Term Infants. Developmental Medicine & Child Neurology 2000, 42: 174-81. 2. Birch, E., Uauy, R., et al. Visual Acuity and the Essentiality of Docosahexaenoic Acid and Arachidonic Acid in the Diet of Term Infants. Pediatric Research 1998, 44: 201-209.