As mulheres na gestão das
federações esportivas no Brasil
Euza M. P. Gomes | [email protected]
Universidade Salgado de Oliveira, Rio de Janeiro
Ludmila Mourão | [email protected]
Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro
0 | Abstract
In spite of the growing participation of women in the Olympic
Games, the same is not found at high level sport
management, where there is also inequality in terms of
participation of men and women. In Brazil, a survey found
out in 2004 that only 6.24% of the management positions
were occupied by women in the 1,584 sports confederations
(national level) and federations (state level). The research
also identified the social profile of the women managers of
top sport at national level (confederations) as similar to those
of female Brazilian executives whose rates of participation
in companies vary according to the position of the woman in
the family and the presence of children.
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1 | Introdução
Estudos relacionados às mulheres vêm ganhando considerável espaço na literatura esportiva e em outras ciências sociais
no Brasil. Se acompanharmos a situação das esportistas
brasileiras no início do século XXI verifica-se que elas saem
dos campos esportivos e se mantêm, mesmo que com
algumas dificuldades, atuando na área da gestão em
Educação Física.
Observa-se que entre 1900 e 2004, houve um aumento
significativo no número total de mulheres atletas nos Jogos
Olímpicos, variando de 1,9% em 1900 a 40,7% em 2004
(Comitê Olímpico Brasileiro-COB em www.cob.org.br). Podese afirmar que estes percentuais garantiram uma maior
visibilidade das mulheres atletas, ampliando e rompendo
com a representação histórica de que esporte não era
“coisa” de mulher.
Apesar de convivermos com um maior engajamento e
participação das mulheres em Jogos Olímpicos, não se
encontra a mesma realidade em relação à gestão do esporte
de alto rendimento. No Brasil, a desigualdade da participação
dos gêneros neste campo (tal como em outros campos da
sociedade) tem se destacado a partir da política de ação
afirmativa para o fortalecimento da participação feminina em
todos os setores da gestão esportiva, a partir da I Conferência
Nacional do Esporte, realizada em 2004. Na segunda
Conferência, em 2006, estabeleceu-se um critério para as
bases municipais e estaduais de participação mínima de 20%
do sexo feminino para o exercício da gestão local do esporte.
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Desta forma, o presente artigo irá apresentar um “Survey”,
que se refere a um tipo particular de pesquisa social empírica.
De acordo com Babbie (2001), este tipo de levantamento
irá quantificar a distribuição de dados referentes à presença
de mulheres na gestão do esporte brasileiro. O instrumento
utilizado para levantamento dos dados foi uma exaustiva
busca na Internet nos sites oficiais das Confederações
(filiadas e vinculadas) e das Federações (registradas no
COB). Cumpre destacar que o COB admite como suas filiadas,
as entidades de direção nacional, dirigentes de esportes
olímpicos, que sejam filiadas às Federações Internacionais
Olímpicas (Estatuto COB, Cap. II, Art. 7º, 2000). As
Confederações esportivas vinculadas são responsáveis
pelos esportes não-olímpicos.
No contexto federativo, cabe aqui ressaltar a grande
dificuldade na realização do levantamento dos dados, pois
o COB não disponibilizou a listagem das federações registradas. Assim, rastrearam-se inicialmente as 584 federações
estaduais e depois aproximadamente 1.000 sites das novas
federações criadas após a inovação da legislação (Lei nº
9.615/98).
Após identificar as Confederações e Federações presididas
por mulheres, foi enviado um questionário com a intenção de
compreender as formas de inserção e construir um perfil das
gestoras esportivas nacionais. De um total de 40 mulheres
presidentes e vice-presidentes mapeadas pelo estudo,
contou-se com a pronta resposta de dez dessas mulheres.
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2 | Mulheres dirigentes nas Confederações
e Federações Esportivas
O levantamento realizado demonstra que a participação das
mulheres na gestão das Federações e Confederações esportivas
brasileira representa 6,24% dos cargos previstos. Constata-se
uma sub-representação das mulheres ao nível de dirigentes
do esporte de alto rendimento. Entretanto, ressalta-se a
presença das mulheres dentro da rede de poderes dos
dirigentes esportivos em níveis variados e em diversos cargos
de diretoria, coordenação geral e assessoria especial.
No Contexto Confederativo, somente a confederação de
ginástica é presidida por uma mulher - a profª Vicélia Ângelo
Florenzano. A proporção de mulheres no total de indivíduos
que ocupam cargos de dirigentes nas confederações
representa 1,8% - que quer dizer uma mulher para 56
homens, 1/56.
Destaca-se também a presença feminina de Caroline Kessler,
no quadro diretivo da Confederação de Badminton: eleita
para a vice-presidência da Confederação. Entretanto,
observou-se que as Confederações de Desporto Aquático e
de Handebol contam com algumas mulheres em seus
quadros diretivos, à frente de departamentos financeiros,
administrativos e de desenvolvimento.
No Contexto Federativo que representa o nível estadual,
as mulheres foram eleitas para presidir 38 federações, das
584 registradas; representando 6,5% pontos percentuais
(mulheres – 38; homens 546).
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Na amostra de federações constituída verifica-se que
mulheres estão atuando em oito modalidades esportivas:
sendo dezoito (18) de ginástica, sete (07) dos desportos
aquáticos, três (03) de ciclismo, três (03) de hipismo, duas
(02) de badminton, duas (02) de boxe, duas (02) de handebol
e uma (01) de futebol. E estão distribuídas nas seguintes
regiões: (14) na região norte/centro-oeste, onze (11) na
região nordeste, sete (07) na região sudeste e seis (6) na
região sul. Se a ginástica e os desportos aquáticos sempre
contaram com a participação feminina por serem
consideradas modalidades apropriadas para a prática da
mulher em nosso país, constata-se que estas também são
bem representadas em cargos diretivos pelas mulheres na
gestão do esporte (90% das dirigentes são mulheres na
ginástica e 22% nos desportos aquáticos). Entretanto,
encontram-se também, mulheres presidindo federações em
modalidades consideradas hegemonicamente masculinas,
como o boxe e futebol.
A análise dos dados (Quadro 1) permitiu traçar o seguinte
perfil das gestoras: elas se distribuem em diferentes cargos
e instituições: uma (01) na Presidência e uma (01) na VicePresidência de Confederações e oito (08) como Presidentes
de Federações.
A idade dessas gestoras situa-se entre 24 e 60 anos,
sendo que a média é de 40 anos; quanto ao estado civil,
seis (06) são solteiras, duas (02) casadas e duas (02)
divorciadas.
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Quadro 1 - Perfil Profissional e Familiar das Gestoras do
Esporte Brasileiro
Fonte: Gomes, 2006
Em relação à maternidade, sete (07) delas não têm filhos,
uma tem cinco (05) filhos, uma tem (03) três filhos e a outra
tem dois (02) filhos.
Quanto ao grau de instrução, nove (09) delas possuem curso
superior completo, e uma delas está cursando a graduação
em Educação Física. Em relação à formação acadêmica, uma
(01) é designer, uma (01) psicóloga, uma (01) engenheira
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agrônoma, e sete (07) são professoras de Educação Física
e especializadas na área de gestão. Da amostra, cinco
gestoras (05) foram atletas de alto rendimento e cinco (05)
não trazem experiência com o esporte.
A maioria das gestoras apresenta o perfil da terceira-mulher
(Lipovetsky, 2000, p. 231), em que figuram três fenômenos
de fundo: o poder feminino sobre a procriação, a “desinstitucionalização” da família e a promoção do referencial
igualitário no casal.
Desta forma, podemos dizer que elas estão prontas para
ocupar os mais altos cargos gerenciais do esporte de alto
rendimento, pois são experientes, autônomas e conhecedoras de toda estrutura administrativa das organizações
em que atuam, o que justifica sua permanência e ascensão
nesse campo até então de maioria masculina.
Nos cargos que ocupam, estas mulheres estão despontando
junto às empresas de marketing esportivo, na promoção de
eventos e na criação de projetos sociais esportivos e de lazer.
Desta forma, elas vão progredindo pela meritocracia associada
à competência técnica na área de gestão esportiva.
Conclui-se que as qualidades normalizadas na gestão do
esporte - comum ao gênero masculino – estão também
presentes nas administrações femininas, como a liderança, o
carisma e a competência, qualidades apontadas como atributos
básicos para a coordenação das diversas atividades que o
cargo de presidente de federação requer (Chelladurai, 2001).
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O espírito romântico está presente no perfil das gestoras e na
forma como administram suas federações. Elas afirmam que o
que dá sentido às suas vidas é o amor pelo esporte. Parece
haver uma relação unívoca entre a carreira de atleta e o “ideal
romântico” de gestão que apresentam, onde a persistência, a
dedicação, a vontade e o amor ao trabalho são representadas
como os principais ingredientes para os cargos.
O perfil das gestoras eleitas também acompanha as principais
tendências da inserção laboral das executivas brasileiras,
como se viu pelos dados da pesquisa de Araújo e Scalon
(2005), que demonstrou que as taxas femininas de
participação (mas não as masculinas) variam segundo a
posição da mulher na família e a presença de filhos. As taxas
eram mais elevadas entre as solteiras. Afirma-se que os
cargos de gestão, inclusive os do campo esportivo são cargos
que requerem alta dedicação. Dessa forma acredita-se que
esta atividade atrai um perfil de mulheres que tem
disponibilidade para dedicar-se integralmente ao trabalho.
Nesse ponto, as gestoras do esporte brasileiro se aproximam
do perfil histórico do homem – na disponibilidade do tempo e
na ausência de preocupação com os cuidados rotineiros os
filhos. Pode-se afirmar que é um novo perfil de mulher, e sem
preconceito, com características antes ditas apenas masculinas.
Referências
CHELLADURAI, P. Managing Organizations for Sport and
Physical Activity: a Systems Perspective. 2nd ed..
Holcomb: Hathaway Publishers, 2001.
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GOMES, E. M. P. A Participação das Mulheres na Gestão
do Esporte Brasileiro: Desafios e Perspectivas. 2006.
Tese (Doutorado em Educação Física) - Programa de PósGraduação em Educação Física, Universidade Gama Filho,
Rio de Janeiro, 2006.
GOMES, E. M. P. Esporte e Inclusão Social: A mulher na
gestão esportiva brasileira. In: DaCOSTA, L. (Org.). Atlas
do Esporte no Brasil. Rio de Janeiro: Shape, 2005. p.615
-617.
LIPOVETSKY, G. A Terceira Mulher: Permanência e
Revolução do Feminino. São Paulo: Companhia das
Letras, 2000.
MOURÃO, L. A Representação Social da Mulher
Brasileira na Atividade Físico-Desportiva: da
Segregação à Democratização. 1998. Tese em Educação
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Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, 1998.
MOURÃO, L.; MOREL, M. As narrativas sobre o futebol
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DaCOSTA, L. (Org.). Atlas do Esporte no Brasil. Rio de
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