FICÇÕES NA METRÓPOLE: “A CIDADE E SUA ALMA” Laurita Salles - UFRN RESUMO O artigo descreve brevemente e apresenta reflexões acerca da obra “ A cidade e sua alma” da autora. Aponta que a obra instaura um território informacional multidirecional com caracteristicas multiplas onde cem pequenos vídeos sonorizados apresentam-se conjugados a sitios determinados no sistema de linhas de trens da CBTU/Companhia Brasileira de Trens de Natal, RN. Apresenta-se como um banco de dados geo-referenciado e acessível via celulares in loco, utlizando-se de software criado por Cícero Silva e Brett Staulbaum denominado Walkingtools. Pontua que estabelece-se uma obra aberta a multiplas leituras constituindo uma região narrativa que des-situa ou re-situa os que as acessam através de dispositivos que apresentam-se segundo a lógica do que se denomina cinema expandido ou microcinema,como intervenção urbana e em ultima instancia como instalação midiática. Palavras Chave Arte tecnologia Intervenção urbana Micro-cinema Instalação ABSTRACT The article briefly describes and presents reflections about the work"The city and its soul" of the author. Indicates that the work establishes a territory with multidirectional informational presenting one hundred short voiced videos conjugated to determinated places in the system of railway lines CBTU / Brazilian Trains Company of Natal, RN. It presents itself as a geo-referenced and accessible via mobile phones on the spot utlizando is software created by Cicero Silva and Brett Staulbaum called Walkingtools. Points out that it establissh a work open to multiple readings constituting a narrative region wich take aout us of one site or relocate us through devices that are presented according to the logic of what is called expanded cinema or microcinema, as urban intervention and as installation media. Key words Urban intervention Art technology Microcinema Installation Este artigo trata de questões levantadas pela obra de intervenção midiática em planejamento e execução final para apresentação junto ao sistema de trens da CBTU-Companhia de Trens Urbanos de Natal, referente ao Projeto de Ações Associadas obtido em 2011 em programa da UFRN/Universidade Federal do Rio Grande do Norte: Intervenções Midiáticas e Gráficas em trajetos da cidade. 81 Este projeto teve como objetivo realizar - entre outras ações - a intervenção midiática inicialmente denominada Outros lugares mapeados e atualmente com o título de A cidade e sua alma ao longo das estações das linhas de trem e nos vagões das linhas Natal/ Ceará Mirim e Natal/Parnamirim da CBTU-Companhia de Trens Urbanos de Natal. Imagem obtida através do Google Maps situando a Estação Natal do sistema CBTU em relação a paisagem da região metropolitana de Natal/RN. A intervenção implicou em determinar levantamento inicial via Google MAPS e posteriormente in loco através de sistema GPS - a partir de celulares - de cem (100) pontos midiáticos (cincoenta (50) pontos em cada linha do sistema CBTUNatal; sendo este total subdividido através das estações de cada linha com número de pontos variável, constituindo, assim, um roteiro aberto de apreciação de audiovisuais midiáticos ou de trajetória aberta de pontos de intervenção multimídia acessíveis por celulares do público em geral onde serão exibidos pequenos vídeos ou audiovisuais em cada um dos pontos ao longo das estações das duas linhas de trem; cada estação tem um determinado “tema”, onde é são apresentados ao público conjunto de pequenos filmes sonorizados com temática comum. O número de pontos GPS alocados em cada estação dependeu da importancia e tamanho de cada estação concreta e das condições de acesso 82 público e seguem descritos logo mais abaixo. Foram determinados através do Google Maps e in loco. Imagem-frame realizada a partir do Google Maps com levantamento inicial de pontos para estação Bom Pastor, Linha Norte, Sistema CBTU-Natal, RN. Segue tabela aproximada com as estações das Linhas Norte e Sul do sistema CBTU respectivos temas (nomes para uso interno ao projeto e localizações e pontuações ainda em fase de finalização, portanto, não conclusivas): Linha Sul 10 Natal 16 Dunas Alecrim II 3 olhos sorrindo Pe. João Maria 3 mãos cruzadas Bom Pastor 3 vestidos furtivos Cidade da Esperança 5 o tempo palmeiras Promorar 3 ternos e gravatas no corpo Pitimbu 3 gritos de medo Cidade satélite 3 mao orelha olho Jardim aeroporto 5 sapatos parados Parnamirim 3 lembranças Linha Norte 12 Natal 16 Dunas Alecrim I 3 águas - encontro do rio com o mar Quintas 3 A cidade grande Igapó 3 Aterrizagem avião Santa Catarina 3 margem do rio Soledade 3 Nova Natal 3 rio correndo trem SP Nordelândia 3 São Paulo andanças Estrela do Mar 3 Ribeira andanças dunas Extremoz 5 rodoviária estrada 83 folhas TOTAL FINAL: 100 pontos Massangana 3 estrada olhar de dentro Lagoa Grande 3 o aeroporto olhar de dentro Ceará Mirim 5 ondas do mar Por fim, seguem algumas referencias sobre o sistema CBTU/Natal e atividades outras atividades realizadas no local: Sites: Trem CBTU Natal/RN/Br,http://www.youtube.com/watch?v=E4PITTKZK1M; Trem de Natal - RN Natal Ceará Mirim, http://www.youtube.com/watch?v=aoXwanGxtks&feature=related; PASSEIO DE TREM (Extremoz à Massangana) (Lado "R") EM NATAL RN (24), Imagens obtidas pelo maquinista “Serginho” da CBTU que mantém atividade de videasta no que se refere a documentários de suas viagens, usando filmadora acoplada ao próprio trem, http://www.youtube.com/watch?v=1MaqIuQLefY&feature=related; CBTU-Natal/SP Estampa, Bia Rocha,http://www.youtube.com/watch?v=83XJIzr9paY. Frame de um dos vídeos com a temática de “Palmeiras”- o passar do tempo. Descrita em termos gerais a obra em questão, apontamos que o projeto trata o território da cidade como espaço para a realização de acontecimentos os quais apresentam-se como heterotopias (outras experiências do lugar a partir da intervenção artística) junto à vias de trânsito ferroviário da região Metropolitana de Natal . Pretende transformar ambientes de trajetórias cotidianas em campo aberto para a realização de experiencias reais e midiáticas relacionando pontuações 84 informacionais a experiências urbanas e humanas, em vias de trânsito materiais e humanos. Nas palavras de Christine Mello, utilizadas para outro contexto, mas que podem ser aqui levantadas (MELLO:2009, pág. 283): “Os conteúdos e as formas e as formas de negociação com o espaço nas práticas artísticas contemporâneas conduzem às misturas entre ações performáticas, intervenções urbanas, site specifics, filmes, vídeos, fotografias, sons, internet, jogos, lambe-lambe, banco de dados, arquivos, diagramas, textos e instalações. Os trabalhos se apresentam como uma rede de procedimentos comunicacionais que se desdobram a cada nova estratégia, provocando transfomações nos modos de apresentação e circulação da arte....Surge assim uma paisagem móvel,inesperada, inexistente, relacional”. Podemos dizer que o trabalho atua em circuitos de trânsito instaurando um sistema multimidiático que implica na noção de cinema expandido conjugada a noções de intervenção urbana, situs e instalação midiática. Podemos dizer ainda que opera através de imagens situadas, ou seja, imagens que inserem-se em um contexto espaço-temporal determinado. O trabalho transita pela noção de Microcinemas como apontada por Lucas Bambozzi (BAMBOZZI: 2009,pág. 1): “O conceito de ‘microcinema’ por exemplo vem adquirindo nuances que se estendem para além das junções entre ‘micro’ e ‘cinema’, presentes na palavra. Trata-se de uma suposta classificação que reflete em narrativas de curtíssima duração, formatos de baixo custo e/ou linguagem compatível com os circuitos atuais, absorvendo o dinamismo de estruturas de exibição que se utilizam tanto da Internet como de espaços que se organizam em torno das facilidades tecnológicas mais recentes. O contexto atual vem propiciando as mais diversas configurações,como os circuitos nômades que se formam através de redes de telefonia, transmissão de dados e arquivos digitais sem fio. A suposta revolução digital criou nova disposição para a fruição de imagens numa ampla gama de resoluções e o espectador cada vez mais se adapta a uma variedade depadrões jamais vista. Questões ligadas à definição e poder especular da imagem cedem lugar à expressividade das interfaces e capacidade de eloqüência, independente dos formatos, imersividade das salas ou duração.” O trabalho instaura-se também como uma instalação entendida nos termos propostos por Fernanda Junqueira in: “Sobre o conceito de instalação” (JUNQUEIRA:1996, pág.566/9): “O conceito mais amplo da Instalação foi gerado, sem dúvida, no contexto experimental dos anos sessenta....Diriamos que ela prescinde da necessidade de um suporte ou matéria específica para sua realizaçãocomo o necessitam a pintura ou escultura.... E o que parece ser a circunstancia mais evidente de sua proposta é a possibilidade deste “evento”, constituido por uma unidade tripartida:sujeito-obra-espaço. 85 Na verdade , só devemos chamar “obra” a totalidade resultante da relação entrea coisa instalada, o espaço constituido por sua instalação e o próprio espectador.”...Consciente deste apresentar-se como sua realidade primeira e que constitui a experiência imediata do espaço, tenta dispor da matéria “real” do mundo.... “. É possível pensarmos ainda nas palavras de Ronaldo Brito comentando a obra de Richard Serra sobre o site specific (BRITO:1998, pág. 27) :” Inexiste a rigor, espaço: só a existem atos de espacialização e suas conseqüências concretas”. Ronaldo Brito aponta alí a superação de uma noção de espaço idealista ( onde este é compreendido como espaço ideal, homogêneo, onde as coisas seriam colocadas), mas como fenômeno. A obra introjeta a lógica da rede e , como interface , audiovisuais acessíveis via telas diminutas como um sistema multimidiático de dados atrelados a localizações. Certamente, aqui, o específico ou determinado é o momento em que cada interator decide e mantém-se conectado à rede, atualizando a obra num presente cambiante pela renovada atualização de um tempo intenso1 , invocado pela obra. Portanto, o instante é situs através da linguagem, coincidindo com as palavras de Virílio (VIRILIO:1988, pág. 148): “ O deslocamento do centro de interesse da coisa à sua imagem e sobretudo do espaço ao tempo e ao instante”. Apresenta-se ainda como um ponto-evento no sentido de Milton Santos em noção generosa do termo situada como espaço-tempo. Podemos dizer então que nos proporciona uma present-ação - ação no presente2, em tempo real. Lembrando Milton Santos (SANTOS:2006,págs.143 e 144) : “Na teoria da relatividade da natureza, o conceito mais elementar é o de ponto-evento.”....Estes são ordenados combinando a ordenação temporal e espacial dos eventos da natureza em uma única ordem de quatro dimensões. E, ainda:”Os eventos são todos Presente. Eles acontecem em um dado instante, uma fração do tempo que eles qualificam. Os eventos são 1 2 86 simultaneamente a matriz do tempo e do espaço. Em seu livro A Philosophy of Future, Ernst Bloch (1963, 1970, p. 124) escreve que “Time is only because something happens, and where something happens time is”. São os eventos que criam o tempo como portadores da ação presente( G. Schaltenbrand, 1973, p.39) . O autor sublinhou a palavra é, nós sublinharíamos , também, a palavra onde”. Lembrando ainda Fred Forest ( apud COSTA:1995, pág .9): “ Os artistas da comunicação ........ partilham o sentimento de uma nova unidade do espaço e do tempo que dilata o presente e cria uma sensação de perda do lugar”? Apesar do trabalho operar midias locativas, estas também des-situam os passantes, ao instaurar no espaço físico e social um novo território informacional, acessível como banco de dados situado. Algo acontece em um situs determinado nos de -situando, deslocando-nos do lugar, para uma zona de ficção relacionada a este mesmo lugar. Porém, desde 1988 Paul Virílio (VIRÍLIO: 1988, pág. 136 e contracapa. Tradução da autora) ressalta que “o espaço público cede lugar à imagem pública ...faz-se necessário ater-se ao que a vigilância e iluminação deslocam das ruas e avenidas para este terminal de postagem a domicílio que suplanta aquele da Cidade...” . Aponta ele uma era da lógica paradoxal da imagem de síntese (Idem ibidem, resumo da contracapa. Tradução da autora do artigo)”. E, ainda: (Idem ibidem, pág.143) “...imagem paradoxal de uma presença em tempo real que suplanta, assim, o espaço real seja do sujeito seja do objeto”. Lembrando também Virílio que levanta a questão de um tempo intenso das imagens de síntese. Diz ele (Idem ibidem, págs. 150-1): “Dissimulando o futuro na duração ultra-curta de um telemático direto, o tempo intensivo tomará o lugar então desse tempo extensivo ...” Esclarece ainda : “Eternidade intensiva , ou instantaneidade permitida pelas últimas tecnologias ... . Centro do tempo, átomo temporal situado em cada instante presente, ponto de percepção infinitesimal donde a extensão e a duração se concebem diferentemente, esta diferença relativista reconstituindo uma nova geração do real , ... onde a velocidade a transporta sobre o tempo , sobre o espaço, como a luz a transporta já sobre a matéria ou a energia sobre o inanimado.... Por um lado, tendo o futuro desaparecido na 87 programação dos computadores, de outra, falsamente nesse tempo pretendido “real” que contém simultaneamente uma parte do presente e uma parte do futuro imediato.” Desta maneira, estamos em um espaço-tempo, onde a lógica, segundo Christine Mello também para outras obras e contextos, mas aqui lembrada por sua pertinencia em relação ao presente trabalho (MELLO:2009, pág 276): “....experiências com o espaço agenciam em nossos sentidos uma zona fluida de relações entre o espaço da exposição e a cidade, entre ações pessoais e coletivas, entre grandes e pequenas escalas, enre o fixo e o transitório, entre o dentro e o fora da obra, entre arquiteturs ficcionais e nãoficcionais, entre circuitos da arte e da midia. Pág.276 Sob a forma de uma realidade dinâmica de rede, espaços divergentes e simultâneos surgem de suas ações como a necessidade de acentuar noções de transitoriedade, circulação e contextualização da obra em torno de processos de interação entre diferentes espaços”. Ou ainda (Idem, ibidem, pág 279): “”...o espaço é apresentado de forma híbrida, em seus aspectos heterogêneos eem suas interfaces móveis. Como um organismo, ou um sistema fluido de sinais, a experiência social é acionada na simultaneidade entre o espaço-dentro e o espaço-fora de ambiência informacionais.É como se tivesemos diante de nós uma espécie de fisicalidade ampliada entre o espaço fiico e o virtual. Ganhamos com isso , a dimensão de um espaço conectado a temporalidaes simultaneas, cuja natureza é contraditória 279. Continuando(Idem, ibidem, pág. 279): “O espaço em sua forma híbrida é um tipo de espaço que provoca uma densidade de intersecções comunicacionais, coloca em cnflito estados móveis e imóveis,amplia a noção de lugar e paisagem,a noção de espaço público e privado, e, por consequencia, coloca em xeque o estatuto do sujeito e da percepção”. Por fim(Idem, ibidem, pág. 280): “O espaço no campo da arte é, assim, menos associado a noção de representar algo e algo maisassociado a noção de acontecimento”. 280 E também(Idem, ibidem, pág. 281): “O espaço intensivo é, como na cinemática relativística, um espaço-tempo, um acontecimento. Faem parte do seu objeto experiênias que inscrevem o tempo, que problematizam o espaço temporalizado e o fluxo do tempo.Diz respeito, com isso, a estudar formas artísticas de caráter móvel e transitório”. “Pelo enfoque do espaço intensivo,... ele não é mais encontrado apenas no enunciado da obra, mas como experiência relacional, comoespaço da 88 comunicação da obra com o receptor e com o meio ambiente em que tal comunicação é vivenciada”. A cidade e seus fluxos Por outro lado a cidade é “uma construção no espaço (...) em grande escala; uma coisa só percebida no decorrer de longos períodos de tempo” (LYNCH: 1997, pág.1), apresentando-se como uma paisagem a ser vivenciada pelos seus habitantes. E cada cidadão, Lynch afirma, “tem vastas associações com alguma parte de sua cidade, e a imagem de cada um está impregnada de lembranças e significados” (Idem, ibidem: 1997, pág.1). A imagem resultante é uma combinatória de percepções, síntese de operações fragmentárias e parciais. A cidade apresentase, pois, como um “símbolo poderoso de uma sociedade complexa, (...) onde o observador deve ter um papel ativo na percepção do mundo e uma participação criativa no desenvolvimento de sua imagem” (Idem, ibidem: 1997, págs.5-6). Tais imagens tornam-se informação para a localização no espaço urbano a partir da interação entre sujeito , espaço e cena observada (Idem, ibidem: 1997,pág. 52): “os habitantes de uma cidade observam-na à medida que se locomovem por ela, e, ao longo dessas vias, os outros elementos ambientais se organizam e se relacionam. O conjunto do trabalho constitui-se de alguma maneira como uma grande intervenção urbana. Articula intervenções midiáticas em espaços físicos e sociais, vivenciados por sujeitos que atuam através de seu corpo e dispositivos informacionais no espaço, como Kwon (KWON: 1997, pág. 168) nos aponta: “O desafio epistemológico de deslocar o significado de dentro do objeto artístico para as contingências do seu contexto. A reestruturação radical do sujeito do antigo modelo cartesiano para um modelo fenomenológico de experiência corporal vivenciada.” A obra apresenta-se ainda como uma espécie de narrativa aberta ao sabor dos fluxos dos passantes, instaurando lugares em não-lugares (noção de Marc Augé) e talvez heterotopias inesperadas em espaços de uso cotidiano. O trabalho apresenta-se como um circuito apreendido processualmente, por sujeitos em percursos cotidianos e vivenciados no espaço público das multidões. 89 Frame de um dos vídeos de um conjunto onde homens e mulheres gritam ou trazem a tona sua dor ou suas dores , usualmente asfixiada(s). Sabemos através da fala de André Lemos que os sistemas de comunicação transformaram os espaços sociais urbanos das metrópoles contemporâneas. As mídias locativas ( onde o celular é um representante significativo), superpõem informação digital a situs e locais específicos, oferecendo ,como diz ”novas formas de ação no espaço urbano", tais como:” ...mudanças na agregação de pessoas em áreas Wi-Fi, na busca por zonas de acesso às redes de telefonia celular" entre outras. Diz ele (LEMOS:2007, ,acessado via rede em 01/04/2012): 90 ”As mídias reconfiguram os espaços urbanos, os subúrbios, os centros, dinamizam o transporte público e tornam mais complexo esse organismorede que são as cidades...as formas sociais emergentes dessas mídias de função pós-massiva, aliadas às tecnologias móveis (dispositivos e redes de comunicação como palms, laptops, GPS, celulares, etiquetas RFID, Wi-Fi, bluetooth), criam novos processos de controle informacional do espaço, em novos “territórios informacionais”. É dele a noção de território informacional como heterotopia3 (a partir de Foucault). Esta noção foi resumida por Foucault no texto Outros espaços (FOUCAULT:1967, tradução livre da autora do artigo via acesso pela rede) : “Há também, e, provavelmente, em cada cultura, cada civilização, lugares reais, concretos, lugares que têm desenhado na própria instituição da sociedade, e quais são tipos de contra-locais, tipos de utopias efetivamente realizadas em sitios reais, onde todos os outros sítios reais que podem ser encontrados dentro da cultura são simultaneamente representados, contestados e invertidos, espécies de lugares que estão fora de todos os lugares, embora ainda que sejam de fato localizáveis. Esses lugares, porque eles são absolutamente diferentes de todos os sitios que eles refletem e dos quais falam, eu os chamo, em oposição às utopias, heterotopias.” Por outro lado se faz necessário pontuar o que são mídias locativas. Segundo André Lemos (LEMOS: 2010,págs. 1-3, acessado via rede): “Entramos na era da mobilidade informacional. Serviços e tecnologias baseados em localizaçãoestão em expansão com a disseminação de dispositivos móveis (telefones celulares, smartphones,GPS), redes telemáticas sem fio (Wi-Fi, Wi-Max, Bluetooth, GPS) e sensores (RFID principalmente)possibilitando aliar, pela primeira vez, localização, vigilância e mobilidades física e informacional (capacidade de consumir, produzir e distribuir informação). Podemos definir as mídias locativas como a conjunção de LBS e LBT2, como dispositivos,sensores e redes digitais (e os serviços a eles associados) que reagem ao contexto local (Kellerman,2006; Benford, 2005, 2006; Pope, 2005). O termo é uma expressão criada por artistas para sediferenciarem de projetos comerciais e mostrar ambiguidades de questões atuais como mobilidade,localização, espaço público, vigilância. A expressão foi proposta, em 2003, por Karlis Kalnins em evento homônimo em Karosta, Latvia e vários autores têm aderido a essa terminologia. Um dospioneiros foi Russel (1999) propondo um manifesto em que dizia que, de agora em diante, ociberespaço estaria “pingando” nas coisas: “the internet has already started leaking into the real world”. Ou, ainda, no Manifesto sobre as Mídias Locativas (LEMOS: 2009,pág. 1 acessado via rede em 01/04/2010) : “Mídia – Todo artefato e processo que permite superar constrangimentos infocomunicacionais do espaço e do tempo. Mídias produzem espacialização, ação social sobre um espaço. Mídias produzem lugares. Locativo – Categoria gramatical que exprime lugar, como “em” ou “ao lado 91 de”, indicando a localização final ou o momento de uma ação.Mídia Locativa – Tecnologias e serviços baseados em localização (LBT e LBS) cujos sistemas infocomunicacionais são atentos e reagem ao contexto. Ação comunicacional onde informações digitais são processadas por pessoas, objetos e lugares através de dispositivos eletrônicos, sensores e redes sem fio. Dimensão atual da cibercultura constituindo a era do “ciberespaço vazando para o mundo real” (Russel, 1999), a era da “internet das coisas”. Frame de vídeo onde as águas passam, também como metáfora do tempo. O trabalho agencia espaços concretos ( acepção de Jacques Aumont) e ciberespaço, segundo Arlindo Machado ( in MACHADO, 2009, pág. 76): “A expressão ciberespaço não designa propriamente um lugar físco para onde podemos dirigir nossos corpos matéricos. É mais precisamente uma uma figura de linguagem ara designar o que ocorre num lugar “virtual” , tornado possível pelas redes de comunicação.” Apresenta-se como um amplo dispositivo situado no espaço concreto enquanto sistema que instaura uma miríade de terminologia de Jacques Aumont) espaços abstratos virtuais ( na vistos através da janela ou moldura da tela diminuta de um celular geo-referenciado, portanto situando imagem-som a lugares determinados. Apresenta as imagens, portanto, como imagens situadas, animando seus contextos e recebendo significação e sentidos pelas relações que estabelece 92 com os lugares concretos onde estão instaurads e,ainda, com o conjunto de imagens com as quais apresenta-se conexa, em uma espiral de conotações mútuas. O trabalho faz largo uso da câmera subjetiva para produzir efeito de imersão. Ainda segundo Arlindo Machado(Idem, ibidem, pág. 79):“A câmera subjetiva insere imagináriamente o espectador dentro da cena, permitindo-lhe vivenciá-la como um sujeito vidente implicado na ação. “ Apresenta distintos modos de agenciamento mantendo uma multiplicidade de pontos de vista, ora externo a cena, ora internalizados, manifestando-se uma cidade como vivida ou vista. Porém, mesmo sendo vista, mantém a intenção de apresentar-se como projeções de um eu subjetivo que confunde-se com a vivência da cidade e como a própria cidade . Obra aberta O trabalho instaura uma obra aberta, no sentido original de Umberto Eco, que apontou o conceito.Em "A poética da obra aberta", o autor argumenta que a intencionalidade é considerada um pressuposto da obra aberta, onde esta possibilita várias interpretações, apresentando-se sob várias formas onde autoria e co-autoria acabam se confundindo de tal maneira que se pode falar de várias "obras". O autor lembra, no entanto, que deste seu caráter indeterminado, de onde podem surgir inúmeras configurações formais, ainda assim, há uma "obra", na medida em que as várias possibilidades combinatórias estão previstas de antemão como uma matriz de possibildades pela estrutura mesma da obra que se propõe aberta. 93 Frame de vídeos que apresentam um homem geral incomodado com suas vestes, remetendo a vestimenta como persona social contraposta ao sujeito que vive ou gostaria de espraiar-se como vivente. O trabalho superpõe ao espaço físico e social da cidade, a paisagem cotidiana uma zona de ficção que conecta em conflito os espaços público e privado, os circuitos de trânsito e as vivências das multidões a uma dada insterpretação da cidade oferecida segundo uma matriz de possibilidades. Porém, esta matriz aberta superpõe-se a leitura e percurso dos passantes em seu devir e trajetos junto ao sistema de trens e estações. Ao território da cidade superpõe-se um território do imaginário aberto e tornado possível dadas as multiplas vivencias dos habitantes da cidade de Natal e adjacentes que, assim, organizam atraves de suas escolhas e percursos possibilidades de uma obra aberta em multiplicidades cambiantes. Notas 1 Tempo intenso e extenso - idéias de Paul Virílio expostas in La machine de la vision, Paris, Éditions Galillée, 1988 e pontuadas recentemente no curso Cinemáticas , realizado no segundo semestre de 2007, no CapDepartamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. 2 Paul Virilio fala em presentação. 3 Foucault escreveu o texto citado em 1967, mas sómente autorisou a publicação do texto em 1984 94 Referencias BAMBOZZI, Lucas. Microcinemas. Microcinema e outras possibilidades do vídeo digital - São Paulo: @ Livros Digitais, 2009 BRITO, Ronaldo, Espaço em ato in Richard Serra , catálogo de exposição realizada no Centro Cultural Hélio Oiticica em 1998, pág. 27. Negrito da autora do artigo. COSTA, Mario . O sublime tecnológico, São Paulo, Editora Experimento, 1995 FOUCAULT, Michel. Dits et écrits 1984 , Des espaces autres (conférence au Cercle d'études architecturales, 14 mars 1967), in Architecture, Mouvement, Continuité, n°5, octobre 1984, pp. 46-49.Acessado via rede in http://foucault.info/documents/heteroTopia/foucault.heteroTopia.fr.html JUNQUEIRA,Fernanda: “Sobre o conceito de instalação” in Revista GÁVEA, Vol. 14. Rio de Janeiro, Pontificia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 1996, págs.551-559 LEMOS. André. Mídias locativas e vigilância. in Bruno, F., Kanashiro, M., Firmino, R., Vigilância e visibilidade - Espaço, tecnologia e identificação,Porto Alegre, Editora Sulina, 2010 ou http://andrelemos.info/artigos/vigilancia.pdf acessado em 01/04/2012 ___________.Cidade e mobilidade. Telefones celulares, funções pós-massivas e territórios informacionais . Acessado via rede em 01/04/2012 in http://www.intermidias.com/txt/ed9/cidade%20e%20mobilidade_andrelemos.pdf ___________.Manifesto sobre as Mídias Locativas, ANO 9, VOL 1, N. 71, Maio - Junho/ 2009 in http://andrelemos.info , http://andrelemos.info/404nOtF0und/404_71.htm Acessado em 01/04/2012 KWON, Miwon. One place after another. Revista October 80, spring, 1997. KNOW, Miwon. Um lugar após o outro: anotações sobre Site Specificity. Tradução Jorge Menna Barreto. LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1997 MACHADO, Arlindo. Regimes de imersão e modos de agenciamento in Transcinemas (MACIEL, Katia, (org) . Livraria Contracapa, Rio de Janeiro, 2009 MELLO, Christine. “Espaço em relação:fluidez e simultaneidade” in “Trilha do desejo, a Arte Visual brasileira”- catálogo Rumos artes Visuais.Editora Senac São Paulo: Itaú Cultural, 2009, págs.275-285. SANTOS, Milton. A natureza do espaço, São Paulo, Edusp, 2006 VIRILIO, Paul . La machine de la vision, Paris, Éditions Galillée, 1988 Laurita Salles É artista visual com atuação nas área gráfica e de intervenções audiovisuais, trabalhado com imagens eletrônicas. É Profa. Adjunta I no Departamento de Artes da 95 UFRN/Universidade Federal do Rio Grande do Norte.É coordenadora geral do Projeto 10 Dimensões - Diálogos em rede, corpo, arte e tecnologia- ciclo 2; membro do Grupo de Pesquisa Matizes do DEART/UFRN desde 2010; de 2007 a 2010 pertenceu ao Grupo de Pesquisa ECCOAR - Estudos no Campo Contemporâneo da Arte do Instituto de Artes da UNICAMP- Universidade Estadual de Campinas. Ganhou a Bolsa Vitae de Artes de 1998. 96