DOMÍNIO DA CASA X DOMÍNIO DA ESCOLA: BANCA E POSSIBILIDADES PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DA BAHIA Surya Aaronovich Pombo de Barros/UNEB [email protected] Palavras-chave: Banca, História da Educação da Bahia, Público x Privado Introdução O objetivo desse trabalho é apresentar e discutir um espaço educativo que tem grande impacto no sistema educacional da Bahia, mas que ainda não é alvo de estudos sistemáticos na bibliografia disponível sobre escola, seja numa perspectiva atual, seja na perspectiva da história da educação: a Banca. Após apresentar a Banca, mostrando algumas possibilidades de interpretação para sua existência, discutiremos como esse espaço educativo pode ser analisado à luz da história da educação. O que é a Banca Chamada em outras regiões do Brasil de “reforço escolar” ou “aula particular”, a Banca assume na Bahia proporções muito maiores do que um simples auxiliar do processo educativo1. Neste trabalho vamos nos ater ao Recôncavo Baiano, mas é possível perceber o impacto da Banca também em outras regiões do Estado. Num breve caminhar pelas cidades da região (especialmente em Valença, cidade da região do Baixo Sul do Estado da Bahia, a cerca de 100 km de Salvador, onde a pesquisa se originou) é possível perceber diversas placas em frente a residências em que se lê: “dá-se banca” ou simplesmente “banca”. Inicialmente, nossa curiosidade de pessoa estranha à comunidade foi despertada por esses anúncios, até entender que banca é um espaço educativo complementar à escola, no sentido de opcional, extra-escolar. Como discutiremos a seguir, não é excludente à escola oficial, muito pelo contrário, a banca se relaciona complementarmente com a escola. Para entender melhor esse funcionamento, inicialmente foram realizadas entrevistas com pessoas ligadas ao mundo da Banca por interesses diversos. A partir das informações dadas por esses depoentes (alunos, ex-alunos, professores de Banca e exprofessores, familiares de alunos freqüentadores de bancas), foi possível avaliar o 1 Em uma busca efetuada no programa Google com os termos BANCA mais AULA PARTICULAR encontramos anúncios em páginas comerciais de aulas de reforço em Pernambuco com o nome Banca: BANCA DE ESTUDOS AULAS EM DOMICILIO, BANCA DE ESTUDO GF. Ver em: http://64.233.167.104/search?q=cache:E6Y9au4Lbq8J:www.listaonline.com.br/web/companyCategorySE .aspx%3Fgoo%3D1%26/11338/Aulas-Particulares/589/PERNAMBUCO/Aulas-ParticularesPERNAMBUCO.htm+Banca+aula+particular&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=20&gl=br&client=firefox-a Acessado em 18 de maio de 2008. No entanto, não encontramos referências a trabalhos acadêmicos sobre as Bancas ou Aulas Particulares pernambucanas. impacto que esta tem na região: alunos de diferentes escolas (públicas ou particulares, de nível fundamental I e II ou médio, de alto ou baixo poder aquisitivo) "fazem banca", ou seja, freqüentam esse espaço no horário oposto ao da escola regular, regularmente (não apenas em períodos de exames ou de dificuldades com disciplinas específicas, como é comum com as aulas particulares ou de reforço). É interessante frisar a diversidade de bancas existentes e de público (no sentido sócio-econômico, geográfico e cultural) para diferenciá-la da Explicadora carioca, diferença que será apresentada a seguir. Os entrevistados não explicam o surgimento, mas afirmam que gerações passadas (pais, avós) já freqüentavam ou davam banca. Ou ainda, professores que estão na ativa iniciaram suas atividades docentes “dando banca”. No texto autobiográfico “Da Cartilha para os livros de gente grande”, a professora Sônia van Dijck escreve sobre a infância vivida na década de 50 (século XX): “À tarde, lá em casa, minha avó sentavase à cabeceira da mesa da copa, cercada de meninas e meninos. Vovó, apesar de não ter completado sua educação formal, tinha sempre livros por perto e opinião sobre muitos aspectos da vida, além de conhecer o milagre dos chás e brincadeiras de adivinhação. Ela dava aulas de reforço – dizia-se que ela dava banca. Morávamos no interior da Bahia” (2006, p. 83). Possibilidades de abordagem Etnografia da Banca – A Banca interferindo na educação escolar atual Não temos conhecimento, na bibliografia disponível (foram realizadas consultas em páginas como scielo, google scholar, revistas científicas e literatura sobre políticas públicas e demais áreas do ensino) de trabalhos que mencionem a Banca. O mais próximo disso parece ser a Explicadora, no Rio de Janeiro, que parece desempenhar um papel que se assemelha à Banca, mas que tem suas diferenças. Algumas análises encontradas sobre a Explicadora centram-se na perspectiva do fracasso escolar e da escola atual (Neves, 2003), refletindo sobre o impacto que tal sistema de ensino poderia ter sobre a escola formal. Nas palavras de um autor que estudou a Explicadora, seu objetivo foi “entender os papéis exercidos por dois agentes sociais que me parecem estar fortemente presentes entre os recursos lançados por famílias de classes populares e médias para superar situações de insucesso de seus(suas) filhos(as) no ambiente escolar. Seriam eles(as), respectivamente: a explicadora e o(a) professor(a) particular” (p. 3, grifos do autor). A discussão que Neves apresenta em seu trabalho é a “relação que aponto entre classes populares/explicadora e classes médias/professor(a) particular” (idem, ibidem). Ele afirma que a classe média e alta chama o reforço escolar de “aula particular” e as classes baixas, de “explicadora”, existindo diferenças entre a relação que os grupos de cada classe social mantêm com esses elementos da educação extra-escolar. Já o trabalho de Beatriz Arosa de Mattos, “Escola e ‘explicadoras’ na Nova Holanda: considerações etnográficas sobre uma curiosa e instigante relação de complementaridade”, ao propor uma discussão sobre o papel das “explicadoras” numa região periférica do Rio de Janeiro, se refere à existência dessa categoria a partir da falta de familiaridade dos pais dos alunos das escolas públicas com os saberes escolares: “Além da falta de familiaridade dos pais com os ‘saberes escolares’, o recurso às ‘explicadoras’ parece ser igualmente revelador de um outro gênero de preocupação com a socialização ‘adequada’ dos filhos. As tarefas por elas desempenhadas consistem não apenas em dissipar dúvidas pontuais dos conteúdos escolares, mas também, em acompanhamento contínuo da vida destes alunos. Tarefas nas quais crianças e adolescentes têm seu tempo preenchido de maneira socialmente desejável, estando, portanto, longe dos perigos que a ‘rua’ potencialmente oferece” (2007, p. 1). Ainda que muitas explicações colhidas nas entrevistas que realizamos, apresentadas no decorrer deste trabalho, se aproximem da análise de Beatriz Airosa Mattos, diversas questões diferenciam bancas e explicadoras. Como afirmamos anteriormente, a experiência ter fazer ou não fazer a banca baiana não é determinada pela classe social. Existem diferentes professores de Banca, com diferentes valores das aulas, que conseqüentemente atendem alunos de diferentes classes sociais. No entanto, independentemente da classe social (classes populares ou médias e altas), do tipo de escola (pública ou particular), da localização geográfica (bairros mais centrais ou mais periféricos), das profissões dos pais e responsáveis pelos alunos das Bancas, a relação que se estabelece é muito semelhante: alunos que freqüentam, no horário alternativo à escola regular, a casa do professor que “dá banca”, em dias pré-fixados, em períodos que não se confundem necessariamente com o calendário escolar oficial (ou seja, não se “faz banca” apenas em períodos avaliativos), a fim de receber reforço escolar de determinadas disciplinas do currículo regular (podendo chegar a todas as disciplinas, dependendo do arranjo desejado pelos responsáveis pelos alunos). Muitas crianças começam a freqüentar uma banca antes de ingressar na escola regular, chegando a ser alfabetizadas por esses professores. No caso da Banca baiana, diversas questões relacionadas à prática pedagógica e sua relação com o sistema educacional baiano poderiam ser levantadas. A existência de tal espaço tem grande impacto na educação formal da região, assim como na economia escolar local, na relação entre responsáveis por crianças e adolescentes com as instituições escolares e dos próprios alunos com as escolas regulares. Os alunos podem chegar a passar o mesmo tempo na Banca que o tempo na escola regular (o tempo destinado à Banca é incumbência de cada família: há aqueles que enviem os filhos duas vezes por semana, três vezes, ou até mesmo todos os dias no horário oposto à escola). Do exposto acima decorrem algumas possibilidades de análise. Em primeiro lugar, o Estado não regula a Banca. Não se sabe a quantidade de Bancas existentes; quem são os professores; qual sua qualificação (não existindo oficialmente, não são objetos de regulação das Secretarias Estadual ou Municipal de Educação); não há acompanhamento do impacto da banca no sistema educacional. As práticas pedagógicas desenvolvidas pelos professores de banca não são acompanhadas, existindo, por exemplo, a permanência de métodos há muito em desuso no sistema oficial. Um exemplo disso são os castigos físicos, muito presentes nas falas dos entrevistados. Vale a pena ler o depoimento de uma aluna do curso de pedagogia que freqüentou banca no horário oposto à escola oficial, quando estava no ensino primário: “A ironia começa pelo nome da escolinha que de ano feliz não tinha nada [segundo o depoimento, o nome da Banca era Escolinha e Banca Ano Feliz]. Meus irmãos e eu estudamos nela dois anos e poucos meses. A maravilhosa professora, formada em magistério, tinha um bebê e não permitia que nenhum dos seus alunos fizesse barulho ou levantasse na hora do recreio ou na aula para não acordar a criança e se por acaso a menina acordasse todas as crianças tomavam bolo e ficavam até mais tarde na banca, era um verdadeiro quartel ou um inferno, difícil diferenciar. Ela sempre tinha um dia da semana para tomar a tabuada de todos, quem errasse também tomava palmatória. Tinha uma menina que sempre apanhava mais do que qualquer outro e ela tomava uma surra com cinto ou um pedaço de madeira, interessante foi que a mãe da menina autorizava tudo isso, em meus irmãos e em mim ela quase que não dava bolo nas mãos por medo de nossos pais ficarem sabendo” (Entrevistada E., de Valença). Outros entrevistados, falando de bancas em cidades diferentes, comentam sobre as bancas que freqüentaram ou conheceram. Um jovem aluno do curso de pedagogia, ao ser perguntado se em sua cidade (200 km ao Noroeste de Salvador) existia a Banca, não entende a questão, como se fosse natural a existência da Banca. Esse mesmo entrevistado, nos conta: “sim, tinha palmatória, para quem não sabe ou não fez a atividade que a professora mandou não dia anterior” (Entrevista J., de Itaberaba). Em outra cidade, outra entrevistada: “naquela banca, um aluno (em 1993, ano que freqüentava a banca) tinha que castigar o outro quando ele erra, sob a vigilância da professora” (Entrevista E.J., de Amargosa). Essa prática de castigos pelos colegas é relatada em entrevistas com pessoas de diferentes regiões. A Banca pode ser analisada, num segundo aspecto, a partir da perspectiva das escolas regulares, sua relação com o sistema oficial de ensino. Nos perguntamos, por exemplo, se nas escolas regulares os professores poderiam não se sentir obrigados a se preocupar com todos os alunos já que "após a aula, os alunos vão para a banca". Nas entrevistas citadas, professores regulares afirmam indicar para as famílias que enviem seus filhos à banca quando necessário. Por sua vez, pais de alunos entrevistados afirmam seguir tais conselhos, procurando professores de banca para ajudar na vida escolar dos filhos. O responsável pela banca influencia no tipo de aula dado na escola porque interfere, reclama do jeito como o professor está ensinando? Segundo depoimentos de alguns professores da rede municipal, muitos desaconselham as famílias a buscar a banca aos filhos porque “na banca, a professora ensina diferente” ou “na banca eles resolvem as questões pros alunos, não deixam os alunos pensarem. Eu já tive caso de pegar respostas iguaizinhas de alunos diferentes, todos que iam pra mesma banca” (Entrevistada R., de Valença). No depoimento de uma professora de banca, ela reclama de uma determinada escola: “eu não gosto de receber aluno da Escola C. Os alunos de lá dão mais trabalho, o método da escola é estranho” (Depoente N.) – a escola se apresenta na região como construtivista. Existem depoentes que comparam a escola regular com a banca: “eu aprendia muito mais na banca. Lá o ensino era mais individual, a professora me dava mais atenção, me ensinava melhor” (Entrevistada J., de Salvador). Há histórias inusitadas: a banca passa lição-de-casa: "meu irmão teve vezes que deixou de fazer a tarefa da escola para resolver a da banca" (Entrevista com L., de Salvador). A mesma entrevistada citada anteriormente, que guarda memórias negativas do tempo em que freqüentava a banca, afirma: “Meu pai nos mandava para a banca para fazer as tarefas, lá a professora obrigava a gente fazer outras tarefas sem a mínima relação com a que levávamos para ela nos ajudar e ainda mandava mais exercício para casa. Começamos a perder e baixar o rendimento na escola, não tínhamos tempo para brincar, brincávamos na sala de aula, meu pai descobriu que o nosso problema era a banca e nos tirou daquele inferno” (Entrevistada E., Valença). Numa terceira perspectiva, relacionada com as demais, e a mais individual, poderíamos pensar a partir da atuação das famílias. As famílias não precisam acompanhar o aprendizado dos filhos porque eles fazem banca? Ao serem indagados, alguns depoentes analisam a existência da banca como lugar de guarda das crianças, para proteção em relação ao mundo exterior: “tem muita família que não quer cuidar dos filhos, coloca na banca para passar a tarde lá” (Entrevista com Professoras da rede municipal). Ou como opção: “eu mando meu filho pra banca todas as tardes pra ele não ficar na rua, lá ele estuda, aprende mais” (Entrevista com C., mãe de aluno de banca). Falando da realidade de Irecê, cidade a ___ km de Salvador, não pertencendo, portanto, a região do Recôncavo, uma entrevistada conta: “sim, eu fui aluna da banca de Pró Darcy...(risos). A professora de português de Vítor (meu filhote de 8 anos) também dá banca pros alunos dela no turno oposto ao da escola e eu conheço pelo menos mais umas 3 prós que fazem isso aqui na cidade, fora aquelas plaquinhas que vejo nas portas: banca disso, banca daquilo... particularmente eu acho coisa de mãe que tem preguiça de revisar as tarefas dos filhos, não tem tempo, sei lá... mas sou suspeita em falar porque Vitor nunca teve dificuldade em aprender nem ‘baixo rendimento’ sem a tal banca” (Entrevista M., Irecê). A Banca pode ser referida também como opção profissional, contribuindo na economia local. Segundo depoimentos, há histórias de professores que iniciam a vida profissional dando banca, fazem “sucesso” e depois abrem escolas particulares. Há aqueles que, obtendo reconhecimento local, contrate outras pessoas (“professores”) para "terceirizar" a banca. Uma depoente, atualmente professora da rede municipal, explica como começou a carreira no magistério dando banca: “dei início à prática desse trabalho árduo e com total responsabilidade, assim que concluí o 2º grau de Contabilidade. Em pouco tempo fui morar em Salvador, com isso passou-se alguns anos e eu fui mãe de quatro filhos; voltei então para o mesmo lugar (Valença). Recomecei com a Banca para ajudar nas despesas da família” (Entrevista com R., Valença). Outra professora que ainda exerce a função de dar banca, conta: “cheguei de São Paulo, aposentada, aí pra ajudar um pouquinho nas despesas comecei a dar banca aqui em casa. Hoje até meu marido que tá afastado por causa de doença do trabalho me ajuda, ele cuida dos meninos de 3, 4 anos, ensina eles, enquanto eu dou atenção aos mais velhos” (Entrevista com G., professora que dá banca). Para muitos entrevistados, a existência da Banca nas proporções apresentadas pode ser entendida a partir da precariedade da escola pública: as aulas de reforço serviriam para melhor desenvolvimento do aluno na escola oficial. No entanto, a presença da banca também como opção de alunos de escolas particulares parece demonstrar que essa explicação sozinha não dá conta da complexidade da questão. A Banca como objeto da História da educação: disputa entre mundo público e mundo privado? Embora consideremos possível estudar a existência da Banca a partir de diversas abordagens contemporâneas, como já foi apresentado, em nossa pesquisa buscamos entender o fenômeno da Banca no âmbito da história da educação. O objetivo da apresentação dessas primeiras formulações é discutir alguns possíveis encaminhamentos para a análise da Banca a fim de entender a história da educação da Bahia a partir do século XIX, quando os debates sobre a importância da escolarização para a modernização da Província e a formação do povo. Diversas vozes apresentam essa visão, como a do Presidente de Província que em 1841 afirma que a instrução é fator importante para “o progresso industrial e a moralidade de um povo, mormente daquelle que tem a ventura de possuir o regimen representativo”2 (p. 12). Nossa hipótese inicial é que a Banca pode ser vista como pista para entender a disputa entre a forma escolar e educação doméstica que vem se realizando no Brasil desde a institucionalização da educação básica. Ao apresentar o processo de institucionalização do ensino primário no Brasil a partir da perspectiva dos tempos e espaços escolares desde o século XIX, Diana Vidal e Luciano Faria mostram o funcionamento das primeiras escolas reguladas pelo Estado e, convivendo com isso, os autores afirmam que existia uma rede de escolarização funcionando em paralelo ao sistema oficial: “tem-se indícios de que a rede de 2 Relatório dos Presidentes de Província, BA, 1841, página 12. escolarização doméstica [...] atendia um número de pessoas bem superior à rede pública estatal. Essas escolas, às vezes chamada de particulares, outras vezes de domésticas, ao que tudo indica, superavam em número, até bem avançado o século XIX, àquelas escolas cujos professores mantinham um vínculo direto com o Estado” (Vidal e Faria Filho, 2000, p. 21). Esse processo de institucionalização da escola pode ser apreendido, entre outros documentos, nos Relatórios de Inspetores da Instrução Pública da Bahia no século XIX, que mostram a coexistência de escolas públicas e particulares. O Presidente de Província Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, em Relatório a Assembléia da Bahia em 1844, ao louvar o maior alcance da instrução pública entre a população, demonstra essa relação entre professores públicos e particulares: he necessario confessar, que assim mesmo a instrucção primaria acha-se hoje mais generalisada pela massa do povo, do que nos annos anteriores ao de 1835 , porque o estabelecimento de muitas escolas de primeiras letras, tem dispertado nos pais de familias, o conhecimento da necessidade dessa instrucção , a ponto de pagarem a um particular quando falta o Professor Publico, e a excepção dos que são muito indigentes, e moram em fazendas distantes dos povoados, todos mandam seos filhos ás escolas, ou pagam a quem os ensine em casa. Depois que forem completamente estabelecidas pelo Conselho de Instrucção Publica, que ja se acha creado, debaixo da Presidencia do Excel. e Revm. Prelado, as Comissoens , de que trata o Art. 3, da Lei n. 172 de 25 de Maio de 1842, he de esperar, que seja melhor corrigida a negligencia desses Professores menos exactos no cumprimento dos seos deveres” (p. 15)3. Os relatórios dos Presidentes de Província mostram também a relação conflituosa entre professores públicos e particulares, ou professores que por vezes ocupam os dois lugares no sistema educacional: Da-se dinheiro para casas a muitos Professores, á titulo de servirem de aula, e alguns d’elles, morando nellas, hão commettido o escandalo de terem ao mesmo tempo, á mesma hora, e na mesma casa duas escola, uma nas salas melhores, dos discipulos particulares, que lhes pagão o ensino; e outra, dos discipulos publicos, mettidos pelos sotãos, ou lugares mais incomodos, e com os quaes se não importão. Taes Professores devem ser demittidos por este simples facto; e por qualquer modo que isto se encare, he muito conveniente comprar, ou alugar casas, que sirvão exclusivamente de aulas, em que ninguem more, e aonde os Professores sejão obrigados a comparecer em horas certas, como o são os discípulos4 (pág. 24). Os conflitos entre educação pública e privada podem ser apreendidos no mesmo ano, quando o Presidente de Província relata a insatisfação de familiares de um determinado professor em Ilhéus: Tenho encarregado o Presidente do Conselho de instrucção publica de me dar informações exactas sobre a conducta civil do Professor de 1ªs Letras da Villa de Ilheos, visto que os pais tem delle retirado os filhos, á quem transmitte os seos vicios da embriaguez e do jogo (Relatório, 1946, p. 25). 3 4 Relatório dos Presidentes de Província, BA, 1844. Relatório dos Presidentes de Província, BA, 1846. Os Relatórios da Instrução Pública da Bahia deixam entrever também as lacunas das escolas públicas em face da procura da população: As cadeiras de meninas da Cidade estão na razão de 1/3 para as de meninos; o que não satisfaz as precisões da Cidade, visto que um sem número de meninas refluem para escolas particulares, exclusivas para meninas, como para as que contem meninos e meninas , exercidas por professores particulares, e até por abuso as escolas publicas de meninos as recebem, mediante estipendio ou seja, por qualquer outro motivo” (p. 45)5. De acordo com Antonio Candeias, baseado em François Furet e Jacques Ozouf, “a passagem de sociedades assentes na oralidade para modos de cultura baseados na escrita não poderá ser compreendida na sua totalidade através do recurso único a modelos de imposição vindos das Igrejas ou, posteriormente, do Estado” (1998, p. 133). Além de ser desejada pelo “alto”, é preciso que o modelo escolar seja aspirado também pelos que vêm de “baixo”: a população demanda a escola. No entanto, o entendimento da importância da cultura escolar, o tipo de relação que se estabelece entre a comunidade e a instrução formal, não têm um movimento uniforme, podendo divergir de acordo com diversos fatores. Nesse sentido, consideramos que a banca pode ser entendida como uma das conseqüências dessa disputa. A quantidade de escolas públicas e particulares desde o Império, assim como sua relação que pode ser de complementaridade ou pode ser de concorrência, demonstra essa relação. Em 1846 o Presidente da Província responsabiliza as cadeiras particulares pelo decréscimo das escolas públicas: Em 1840 havião nas 9 escolas publicas da Cidade 484 meninas; em 1844 apenas 252. Este decrescimo em parte procede da multiplicação das cadeiras particulares (p. 46)6. Ao chamar a atenção para a necessidade de se destinar espaços apropriados para as aulas, esse mesmo Presidente da Província, Francisco Gonçalves Martins, afirma que a preocupação com os espaços escolares deve ser levada em consideração, pois: trara vantagens de muita importancia, sendo uma dellas a de evitar a relação dos Professores que ensinão dentro de suas proprias casas, e que dificilmente podem ser fiscalisados, tanto acerca de sua pessoa como das horas do ensino, distrahindo-se de continuo durante ellas com os negocios de família. (p. 10) Essa relação de disputa entre o professor público e o particular permanece na documentação baiana7, como demonstra a correspondência entre o Inspetor Literário e o Subdelegado da Vila da Purificação, que pede um atestado de procedimento de um professor público, em 1878, ao que esse responde: 5 Relatorio apresentado pelo Concelho da Instrucção Publica, a Assemblea Legislativa da Provincia da Bahia, 1846. 6 Relatorio apresentado pelo Concelho da Instrucção Publica, a Assemblea Legislativa da Provincia da Bahia, 1846. 7 Arquivo Público da Bahia, Maço 6560, Purificação, 1878. Attesto q o Professor publico primário desta Villa Manoel Firmino da Silva Freire sobre ser relaxado he dado ao vicio da embriaguez e perturbador do socego publico em horas nocturnas e companhia de pessoas devassas , e que não emportâdo-se com o encino tem dado logar aos pais de famlia pagarem o mestre particular como seja Marcos de Souza Paxão pª en sinar os seos filhos. Purificação 26 de Dezembro de 1878. Asterio Marques de Figueiredo Ao analisar a institucionalização da educação escolar, Luciano Faria Filho afirma que “no Brasil, a educação escolar, ao longo do século XIX, vai, progressivamente, assumindo as características de uma luta do governo do estado contra o governo da casa. Nesses termos, simbolicamente, afastar a escola do recinto doméstico, significava afastá-la também das tradições culturais e políticas a partir das quais o espaço doméstico organizava-se e dava a ver” (2000, p. 146). Essa luta do governo da casa pode ser entendida, segundo os trechos dos relatórios transcritos acima, pela insatisfação com o professor público, seja com o método, com as atitudes, com quaisquer outros aspectos que não possam ser apreendidos apenas por esse documento, levam as famílias a arcar com as despesas do ensino dos filhos contratando professores particulares. No entanto, o que nos perguntamos é em que momento se estabeleceu a relação de complementaridade entre a escola oficial (seja pública, seja particular) e a Banca, que pode ser observada nos dias de hoje. A Banca é resistência da família à cultura escolar oficial? O fato de atualmente haver procedimentos que a escola oficial não admite (castigos físicos como palmatória, um aluno castigando o outro sob supervisão do(a) professor(a), ensino via memorização como a tabuada, cópia de textos...) representa entendimento do que e como deve ser a escolarização por parte das famílias? Quando o Estado assume a educação da população, o mundo privado se impõe via Banca? São questões que pretendemos discutir com essa pesquisa. Outras hipóteses: Influência portuguesa, Presença negra Além da questão da disputa entre público e privado pelo controle da educação baiana, temos algumas outras hipóteses a ser investigadas para a existência da Banca. Uma delas é a influência portuguesa na Bahia, que se faz sentir também com bastante força no Rio de Janeiro (Estado que possui a Explicadora). Bahia e Rio de Janeiro são duas regiões com presença significativa de imigrantes portugueses no século XIX. Na mesma busca a pesquisas sobre a Banca, as aulas de reforço e as explicadoras, encontramos entre os resultados o trabalho de Maria Eulália de Faria Henriques, Os trabalhos de casa na escola do 1º ciclo da Luz: estudo de caso, no qual a autora aborda os “trabalhos para casa” na região de , buscando compreender em que consistem na prática os TPC através das perspectivas dos diferentes actores sociais (professores, pais/encarregados de educação (EEs), alunos, ATL, explicadoras e ama) e que tipos de relações existem face à sua dinâmica” (2006, p. 1, grifo meu). A perspectiva de seu artigo é semelhante ao trabalho anteriormente citado de Neves, isto é, pensar nos auxiliares do processo educativo extra-escolar e na relação entre escola e família no período atual, nesse caso, numa escola portuguesa. Ainda assim, consideramos curiosa a existência de uma categoria com a mesma denominação (explicadora) em Portugal que aquela existente no Rio de Janeiro. Existiria alguma influência da cultura escolar de origem portuguesa na Banca baiana, em função da presença de imigrantes daquela origem no Estado? Uma outra possibilidade aventada para entender esse processo é a presença na Bahia de um grande contingente de população negra, formada por escravos e exescravos, que poderiam disputar espaço na escola, fazendo com que algumas famílias preferissem dar outro tipo de educação aos filhos, escolhendo, professores particulares. Embora ainda não tenhamos encontrando referências a essa questão nas fontes até agora consultadas, levantamos como hipótese o desconforto que a possível presença dessa camada da população poderia causar nas famílias brancas. Em São Paulo isso pode ser observado em diversos documentos, que atestam o incômodo que essa categoria de alunos causa entre professores e famílias brancas8. A presença desses alunos, na Bahia, poderia ter sido mais um fator a impulsionar a resistência do governo da casa contra o a escola pública oficial? Pagando professores particulares as famílias não ficariam livres apenas dos mestres indesejáveis, mas também de companhias indesejáveis aos seus filhos? Por outro lado, a historiografia já admite que escravos e ex-escravos não permaneceram ausentes do processo de instrução, mesmo quando proibidos pela legislação ou pela prática escolar de freqüentar escolas: “temos indícios de que a rede de escolarização doméstica, ou seja, de ensino e aprendizagem da leitura, da escrita e do cálculo, mas sobretudo daquela primeira, atendia a um número de pessoas bem superior ao da rede pública estatal” (Faria Filho, 2000, p. 145). Acessar essa rede não-oficial seria uma tática da população negra baiana para ter contato com a cultura letrada? Isso fortaleceria as escolas não-oficiais, auxiliando a origem à Banca? São algumas questões que deverão ser enfrentadas com o desenvolvimento desta pesquisa. Considerações finais As considerações realizadas neste trabalho apresentam a fase inicial de uma pesquisa em andamento. Em função disso, existem mais questões levantadas, dúvidas e hipóteses do que propriamente resultados, respostas. Ainda assim, a partir dos elementos apresentados, consideramos a Banca um possível objeto para a história da educação. Pretendemos, a partir dessas questões iniciais, contribuir para o debate sobre a história da educação da Bahia. Bibliografia BARROS, Surya Aaronovich Pombo de. “Negrinhos que por ahi andão”: a escolarização da população negra em São Paulo (1870-1920). São Paulo: Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2005. Dissertação de Mestrado. FARIA FILHO, Luciano Mendes. “Instrução elementar no século XIX” in LOPES, Eliane M. Teixeira, VEIGA, Cynthia Greive, FARIA FILHO, Luciano Mendes (orgs.). 500 anos de educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. FARIA FILHO, Luciano Mendes, VIDAL, Diana Gonçalves. “Os tempos e os espaços escolares no processo de institucionalização da escola primária no Brasil” in Revista Brasileira de Educação. n. 14, Mai/Jun/Jul/Ago 2000. 8 Sobre o assunto, consultar BARROS, S. “Negrinhos que por ahi andão”: a escolarização da população negra em São Paulo (1870-1920), São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005, Dissertação de Mestrado. HENRIQUES, Maria Eulália de Faria. “Os Trabalhos de Casa na Escola do 1.º Ciclo da Luz: Estudo de Caso” in Interacções, n. 2, 2006. Disponível em: http://66.102.1.104/scholar?hl=ptBR&lr=&q=cache:ZRoGXKfpRqsJ:nonio.eses.pt/interaccoes/verartigo.asp%3Fcod%3 D22+refor%C3%A7o+escolar+Explicadora Acessado em 19 de maio de 2008. MATTOS, Beatriz Arosa. “Escola e ‘explicadoras’ na Nova Holanda: considerações etnográficas sobre uma curiosa e instigante relação de complementaridade” (RJ). In VII RAM - UFRGS, Porto Alegre, Brasil, 2007 - GT 25 Ciudadanía, exclusión y diversidad sociocultural: niños y jóvenes en contextos de socialización. Disponível em: http://66.102.1.104/scholar?hl=ptBR&lr=&q=cache:rWE_9c1R5gMJ:www.uff.br/obsjovem/mambo/index.php%3Foptio n%3Dcom_docman%26task%3Ddoc_download%26gid%3D103+Banca+refor%C3%A 7o+escolar+Explicadora Acessado em 19 de maio de 2008. NEVES, Luiz Otavio Mattos. “Explicadoras do Rio de Janeiro: encontros e desencontros em trajetórias profissionais singulares” in Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 88. n. 218, p. 140-156, jan/abr. 2007. Disponível em http://www.publicacoes.inep.gov.br/arquivos/%7BB685F807-A459-4C83-BDD3380D6338E1AA%7D_RBEP%20218.pdf Acessado em 19 de maio de 2008.