A SOLIDARIEDADE UMA RELAÇÃO ENTRE IGUAIS The Solidarity a Relationship Between Equal Helena Mendes da Silva1 “Esta rede de solidariedade traz à cena um novo personagem. O ato que emerge é o cotidiano orientado por um espírito cívico que encontra inspiração no associativismo”. (Márcia Leite) Resumo Neste artigo apresento parte da pesquisa em que se investigou sobre as relações de solidariedade entre crianças e jovens moradores de rua na cidade de Fortaleza – Ceará, o foco foi voltado a perceber as relações de solidariedade que se estabelecem, enquanto rede de resistência e que se constrói como mecanismo de sobrevivência para a vida na rua entre os sujeitos citados. No modo de pensar de Mance a teoria da solidariedade é um projeto que se constrói entre iguais. Identificamos na pesquisa de campo que, a este elemento, soma-se um processo de construção de Identidade firmada pela resistência talvez por terem na rua a “casa” comum da vida marcada pelas incertezas e insegurança da rua, desse modo, fortifica-se entre eles a vida de uma comunidade criada em espaços físicos comuns: uma Praça ou, até mesmo, um terreno desocupado, denominado por eles como um Casarão. As crianças e jovens na rua sofrem a fusão de uma vida privada e coletiva; expõem sua privacidade e se moldam por essa coletividade para demarcar seu espaço próprio. Nesse jogo, escondem sua identidade da contravenção e criam códigos que lhes possibilitem uma passagem para o mundo socialmente aceito. A rua vai formando nessas crianças e jovens uma perspectiva de vida fragmentada, fragilizada e vulnerável. Entretanto, nota-se que os passageiros dessa viagem não perderam na totalidade a pouca bagagem que ainda lhes resta: a capacidade de sonhar é uma realidade. _______________________________ 1 Helena Mendes da Silva, ICM, Mestre em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUCSP, Profa. de Sociologia nos cursos de Administração e Direito-Faculdade Católica Dom Orione-FACDO Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - jan./dez. 2008 163 Helena Mendes da Silva Palavras-chave: Solidariedade; Resistência; Crianças e Jovens; Moradores de Rua. Abstract In this article, I present part of the research that investigated about the solidarity relations between children and young people that live on the street in Fortaleza – Ceará. The focus was to realize the solidarity relations that establish, like resistance chain that build like survive mechanism to life on the street between the characters cited. Mance think about the theory of solidarity like a project that build among themselves the equal people. We identify in the research on the street that for this element to add a building process, marked for uncertainties, maybe they have on the street their homes, so, be strong among them selves the life of the community done is common espaces: like squares, vacant lots, that they call big houses. The children and the young people in the street suffer the fusion: the private life and collective life. They show their privacity and make for this collectivety for to mark own spaces. In this game, they hide the their | identity of the contravention and make codes that be possible a passage to the world sociality accept. ''The Street'' is forming in this children and young people a perspective of fragmented life, fragile and vulnerable. In the meantime, it's possible to see that the passengers this trip don't lose a little baggage that they have: the capacity to dream it is a reality. Key-words: Solidirity; Resistance; Children and Young People; Homeless. A Solidariedade Como Resistência. Neste artigo apresentarei a discussão sobre solidariedade entendida enquanto recurso de resistência e sobrevivência que, sem alarde para o público que os circunda, subjaz as situações de vida. A solidariedade, embora na maior parte das vezes em que é mencionada, ou seja, decisivamente referida, aparece sempre atrelada à benemerência, filantropia, aqui ganha referencial de resistência. Em nosso cotidiano, parece que ainda não se chegou neste referencial que estamos chamando de solidariedade como resistência. É bem provável que o uso de tal expressão possa causar estranhamento aos olhos dos leigos, mas não tanto aos pesquisadores com dedicação longa ao trabalho de 164 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 A Solidariedade Uma Relação Entre Iguais investigação participante, associada à pesquisa acadêmica. E, sobretudo, para os pesquisadores que realizam trabalho de campo na área de investigação das relações sociais de grupos em situação de vulnerabilidades como moradores de rua. Assim, é provável que não demore compreender a relevância e os tecidos de resistência e sobrevivência que a solidariedade desvela. Na pesquisa que realizei com Crianças e Jovens moradores de rua na cidade de Fortaleza pude perceber a resistência e busca de sobrevivência desde as primeiras idas a campo, o que propiciara o surgimento de muitas indagações diretas ligadas à solidariedade, difíceis de visualizar à primeira vista. Algumas das indagações que surgiram tem a ver com o conjunto das organizações sociais vinculadas ao trabalho e, para compreendê-las, recorri primeiramente aos clássicos das Ciências Sociais, mais precisamente Émilie Durkheim dentre outros teóricos contemporâneos que tratam a solidariedade. Durkheim, ao discorrer sobre solidariedade, afirma que esta associa-se à divisão social do trabalho e, no seu modo de ver, privilegia em última instância a função de criar entre as pessoas o sentimento de solidariedade. Contrariando, assim, a opinião dos economistas, os quais afirmam que a divisão social do trabalho cria uma relação mercadológica de exploração, chegando na ponta da 2 linha com a geração da mais-valia , produto típico do sistema capitalista, que não se associa às relações de solidariedade. Em seus estudos, o clássico da sociologia percorre o caminho metodológico de agrupamento por tipo para chegar aos resultados de sua pesquisa. Ao final ele apresenta 2 tipos de solidariedades: 1- Solidariedade Mecânica, 2- Solidariedade Orgânica. Em verdade, para Durkheim, a solidariedade é composta por homens e mulheres que se associam de tal forma que ultrapassam os curtos períodos em que trocam serviços, ou seja, a sociedade é composta por indivíduos que dependem uns dos outros porque ambos são incompletos e na relação nada ________________________________ 2 Lembrando Karl Marx que afirma ser a extração da mais valia a forma especifica que assume a exploração sob o capitalismo em que o excedente toma a forma de lucro e a exploração resulta do fato da classe trabalhadora produzir um produto liquido que pode ser vendido por mais do que ela recebe como salário. Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 165 Helena Mendes da Silva mais fazem do que exteriorizar essa dependência mútua. Dessa forma, a solidariedade é a expressão de um estado mais profundo que vem do interior dos indivíduos. O princípio de fortalecimento da solidariedade é a freqüência de contatos físicos que ocorre entre homens e mulheres, o inverso também é uma verdade. A solidariedade aproxima as pessoas multiplicando a freqüência de contatos e oportunidades de seus relacionamentos. O sociólogo Florestan Fernandes, ao tratar a questão da solidariedade, em meio a uma multiplicidade de contatos diz: “Quanto mais solidários sejam os membros de uma sociedade, mais eles mantêm relações diversas, seja uns com os outros, seja com o grupo tomado coletivamente. Porque se os seus contatos fossem raros, eles não dependeriam uns dos outros senão de maneira frágil e intermitente”.(Florestan Fernandes 1990, p. 67) A solidariedade pressupõe a formação de uma consciência coletiva ou comum que é composta por integrantes mental e moralmente homogênea, ou seja, indivíduos com sentimentos e crenças comuns, desse modo, a solidariedade é uma atitude que se estabelece entre iguais. Por solidariedade mecânica Durkheim entende a solidariedade social que decorre de um certo número de estados de consciência comuns a todos os membros da mesma sociedade de forma que, tendo os interesses coletivos comuns, cada vez que eles se desencadeiam, os desejos se movem espontânea e conjuntamente no mesmo sentido. Solidariedade orgânica relaciona-se à compreensão de agrupamentos dos indivíduos por interesses pessoais neste caso a solidariedade se firma pelo enfraquecimento da consciência coletiva, ela só será possível se cada indivíduo tiver uma esfera própria de ação, mantendo os limites das diferenças e interesses para que se estabeleçam as funções que, reguladas pelo corpo social, resultam numa solidariedade organicamente forte. A coesão torna-se densamente forte, pois “onde esta solidariedade é muito desenvolvida o indivíduo não se pertence” afirma o estudioso Mance (2001, p. 17), em seu livro A revolução das redes, no qual evoca a solidariedade com o seu significado originário da palavra “solidu” que significa algo forte, que dificilmente deixa de existir ou se deixa destruir por uma força externa. Em Português claro, como nos indicam os dicionários, a palavra solidariedade possui um sentido moral que 166 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 A Solidariedade Uma Relação Entre Iguais vincula o indivíduo à vida, aos interesses e às responsabilidades de um grupo social, de uma nação ou da própria humanidade. Ela indica uma relação de responsabilidade entre as pessoas unidas por interesses comuns, de maneira tal que cada pessoa do grupo se sinta na obrigação de apoiar as demais. É, então, que Mance afirma, Colaboração solidária significa, então, um trabalho e consumo compartilhados, cujo vínculo, recíproco entre as pessoas advém, primeiramente, de sentido moral de co-responsabilidade pelo bemviver de todos e de cada um em particular.(Mance 2001, p. 17) Ao analisar a questão da solidariedade, objetivo deste trabalho observamos e privilegiamos, o processo investigativo no campo e percebemos ser necessário percorrer novos caminhos e recorrer a outras ferramentas oriundas de outros modelos, ou seja, novos paradigmas. Novos paradigmas Há algum tempo, uma organização de sucesso era aquela que, fechada em si mesma, procurava preservar e perpetuar seus padrões de qualidade de modo individual e zeloso em base na teoria da ordem. Profissionais competentes eram aqueles que se bastavam a si mesmo e julgavam-se bons profissionais, trabalhando isoladamente. Esse modelo funcionou bem durante o período em que havia muito mais estabilidade e verticalização na sociedade, características orientadas pelo paradigma positivista. Os tempos mudaram, mudaram-se os paradigmas e alteraram-se as expressões de solidariedade. O que Durkheim chama de solidariedade mecânica parece não corresponder às demandas dos nossos dias. Hoje, o conceito de solidariedade permeia a organização social e constitui uma condição fundamental para orientar a vida humana voltada à formação do ser humano como pessoa plena. A agregação do valor ético e de justiça coloca-se como condição de sobrevivência. Do ponto de vista humano, são revistos os códigos de relacionamentos entre as pessoas, sendo aprovados _____________________________________ 3 Lei n°. 10.741, de 1° de maio de 2003. 4 PL 1399, de 09 de março de 2004. 5 Estatuto da criança e do adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 167 Helena Mendes da Silva 3 códigos de direitos humanos, entre os quais ressalto Estatuto do Idoso , da 4 5 mulher , da criança e adolescente , entre outros, a fim de serem respeitadas como pessoas em si mesmas e em suas dimensões sociais, impondo-lhes limites à exploração da atividade humana e ao reconhecimento do seu direito a desenvolver-se como ser social atuante e ativo. Assim, o realce é para que entendamos que numa sociedade de direitos a solidariedade tem o seu o lugar reservado. É neste contexto que Mance menciona a solidariedade como parceria, O estabelecimento de redes e parcerias que passam a constituir-se em necessidade fundamental, que vai além da solidariedade convencional e de senso comum. Desse modo, é que se registram as novas formas de associações das pessoas, de um lado, como estratégia de sobrevivência e, de outro, como parte do processo de desenvolvimento.(Mance 2001, p. 17) Na rua, entre as crianças e jovens, é notória a presença da solidariedade que aparece como elemento de sobrevivência e resistência que podemos verificar nos registros da pesquisa. A verdadeira solidariedade é aquela que tem como finalidade a igualdade que, em última instância, busca a distribuição justa de oportunidade e dos recursos básicos para uma vida decente, de tal modo que, entendendo a solidariedade nesta perspectiva, ela passa a demandar um exercício de _____________________________ 6 Ao pensar em relações de rede, reporto-me a pensar no trabalho de Mauss (2003, p. 187) no ensaio sobre a dádiva. Ele chama estas relações de dom, pois, para o autor, dom classifica-se e se constitui como “regime do direito contratual e para o sistema das prestações econômicas entre as diversas seções ou subgrupos de que se compõem as sociedades ditas primitivas e também as que podemos chamar arcaicas”.Para além da reciprocidade e da redistribuição, o trabalho clássico de Mauss sobre a dádiva, também critica a generalização da concepção utilitarista nas Ciências Sociais, o que é atualmente retomado por Caillé (2002, p. 34), afirmando que “a ciência só deveria ocupar-se com as categorias indígenas, com a alma ou com o espírito da coisa dada”. 7 É um termo usado por Marcel Mauss, sociólogo Francês do sec. XIX, para falar das formas e razões das trocas nas sociedades arcaicas que se nutrem pelas obrigações de dar, receber, retribuir. O que Muass denomina de Potlatch. 8 Godelier (2001, p. 17), entre outros autores, afirma que esses estudos têm apontado o que existe em qualquer sociedade, situações em que os homens tomam ações econômicas em favor do outro, sem esperar nada em troca, movidos pelo dom ou dádiva. “Essas relações não se restringem a grupos familiares ou de amigos, mas se dão também entre desconhecidos, sem que nem mesmo se veja o resultado da ação bem como entre os meninos e meninas em situação de Rua em que as pessoas se expõem e até correm risco de vida”. 168 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 A Solidariedade Uma Relação Entre Iguais cidadania e democratização dos direitos e acessos às oportunidades que asseguram a dignidade humana. A coesão social e a interdependência sugerida por Durkheim como solidariedade foi se enfraquecendo em outros modelos sociais, sendo superada e substituída por outras formas de interação, mais espontânea e no tecido 6 social configurando-se como relações de rede . Nesse processo, formam-se redes de solidariedade de confiança, regidas pelo dever de dar, receber e retribuir, nas quais, quando algo é oferecido, não se sabe nem de que forma poderá se retornar. Daí, a dialética de 7 8 que a dádiva poderá ser interessada e desinteressada . Para melhor compreensão das experiências das crianças e jovens em situação de rua e da presença dos elementos da dádiva neste universo, cito as diversas e repetidas experiências de diálogos gratuitos que se deram durante a pesquisa de campo realizada em Fortaleza, tanto entre os entrevistados e pesquisadora como entre os próprios moradores de rua. A rede de solidariedade à qual nos referimos neste artigo tem pelo menos dois aspectos: O primeiro apresenta-se de forma cooperativa, pois os moradores de 9 rua contam com acompanhamento de diversas Instituições que colocam seus serviços à sua disposição, garantindo-lhes maior probabilidade de infraestrutura tais como carro para visita médica, abrigo para situações emergenciais, alimentação e outros. É a ação solidária dos que se unem por possuírem o mesmo problema, por uma mesma necessidade, buscando um benefício comum. Assim, parece ser a solidariedade dos que enfrentam os mesmos problemas, o melhor caminho para que cada qual melhor os entenda e melhor os enfrente, não no empobrecimento e anulação do seu eu individual, mas numa nova forma de pensar e agir: a consciência do grupo e a forma de cooperação. O segundo aspecto diz respeito ao que Castells chama de Identidade Resistência. Para o autor, esta é (...) criada por atores que se encontram em posições ou condições desvalorizadas ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, sem trincheiras de resistência e sobrevivência __________________________________ 9 Pastoral do Menor, Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, Pequeno Nazareno, Barraca da Amizade, FUNCI. Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 169 Helena Mendes da Silva com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade.(Castells 2006, p. 24) Neste aspecto da identidade originam-se as formas de resistência coletiva diante das situações de opressão que, do contrário, não seriam suportáveis. Ao que pudemos perceber esta é a grande marca que se desenvolveu na vivência dos jovens e crianças moradores de rua capacitandoos aos enfrentamentos das situações da rua. Do ponto de vista sociológico, toda e qualquer identidade é construída. Assim, identidade é um processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais interrelacionados, os quais prevalecem sobre outras fontes de significados. Sendo assim, identidades constituem fontes de significado para os atores sociais e também podem ser formadas pelas instituições dominantes. Desse modo Castells (2006, p. 24) define três formas e origens de construção de identidade que trabalharemos a seguir. Identidade Legitimadora: introduzida pelas instituições dominantes da sociedade com o intuito de expandir sua dominação em relação aos atores sociais. Essa identidade dá origem a uma sociedade civil, com organizações e instituições. Identidade de Resistência: criada por atores sociais que têm posições e princípios opostos às instituições da sociedade. Essa identidade dá origem à comunidade, que é uma forma de resistência coletiva diante de uma opressão. Identidade de Projeto: quando os atores sociais constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade. Essa identidade dá origem a sujeitos, estes criam uma história pessoal, atribuindo significado às experiências da vida individual. Entendemos que a identidade de resistência pode resultar em projetos, ou mesmo em identidade dominante, legitimando, assim, a sua dominação. O surgimento da sociedade em rede traz à tona processos de construção de identidade, induzindo, portanto, novas formas de transformação social, isso porque a sociedade em rede está fundamentada na disjunção sistêmica entre o local e o global, para a maioria dos indivíduos e grupos sociais. Para compreender essa transformação na identidade das crianças e jovens moradores de rua é importante considerar que sua identidade foi 170 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 A Solidariedade Uma Relação Entre Iguais 10 constituída com base em um fragmento da cidade, a Praça ou o Casarão . Assim, para justificar a contradição, a sociedade tem necessidade de negar a condição humana dos mesmos. Não poucas vezes observamos no rosto de transeuntes o semblante de negação, de estorno e até de repugnância. Nós poderíamos imaginar que os jovens se rendessem a esses comportamentos e pudessem se associar à sociedade como um todo, constituindo uma nova identidade e fazendo parte da “colcha de retalhos” étnica da sociedade. No entanto, constatamos que as crianças e jovens mostram o contrário, revelando11 se resilientes . Na verdade, os jovens, ao formar verdadeiros guetos, têm desenvolvido uma nova cultura, composta por uma mistura de bravura, revolta, fragilidades e conformismos que expressa uma identidade que poderia ser caracterizada como uma identidade de resistência. Os elementos base dessa nova experiência de grupos seriam ambientes, organizações sociais baseada em fragmentos e uso de violência como meio de vida. Tudo isso mostra que a sociedade vigente não fornece as bases para as experiências que se baseiam em rede de solidariedade. Criam-se novas bases com outros pilares, conforme vimos no cotidiano da rua. No entanto, é difícil conceber a importância da solidariedade compreendida como ação entre iguais numa sociedade marcada pela competição e pelo individualismo, pelas desigualdades sociais sendo que a lógica do mercado se regula pela concorrência, pela vitória de um sobre o outro, a cooperação perde o seu sentido de ajuda mútua para se reduzir a uma mera tática de intervir no mercado: unir-se com uns para competir com outros. Assim, coloca-se o desafio de construir organizações cooperativas no contexto de competição e luta desenfreada pela sobrevivência torna-se bastante complicado sem um espaço de reflexão sobre o significado do ato cooperativo, da importância da convivência e da solidariedade. Sendo assim, podemos afirmar que a compreensão do sentido da solidariedade é maior que o exercício de atitudes solidárias. Em vários momentos da história humana são registradas ações de caridade, de auxílio em __________________________________ 10 Casarão é um termo usado pelas Crianças e Jovens moradores de rua para denominar o espaço onde eles construíram imaginariamente suas casas, e todos dormem e comem neste lugar. 11 Resilientes é um termo utilizado pela Pastoral do Menor para caracterizar atitude resistente combinada com a esperança nos comportamentos dos que parecem não ter possibilidades de superação do problema. Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 171 Helena Mendes da Silva favor dos necessitados. Entretanto, essas atitudes solidárias nunca conseguiram ser significativas como alternativas, pelo seu caráter paliativo, isolado e descontinuado, não conseguindo configurar um movimento ou organização que transformam as das bases sócio-políticas. Quando nos auferimos ao sentido da solidariedade, estamos nos referindo à necessidade de construirmos uma “cultura solidária” entre as pessoas, não com base no simples altruísmo ou “espírito de ajuda ao próximo”, mas com significado de resistência conjunta a adversidades comuns e de criação de instrumentos coletivos para intervenção na realidade e superação de problemas de maneira organizada. É esse o sentido da solidariedade: a consciência de grupo diante de problemas comuns e a organização coletiva para construir soluções. Para mapear os laços de solidariedade existentes nas relações das crianças e jovens moradores de rua necessitamos reportar-nos aos laços da família. Lugar muitas vezes, ora de quebra da solidariedade, ora de sustentação de algo quase invisível no cenário da família que é cumplicidade especialmente da figura da mãe e no seu papel reconstituidor da representação dos laços quebrados. No contraponto cito as famílias modernas. A qual família estamos nos referindo? Seria todo o conjunto de famílias constituídas nos marcos da modernidade? Em síntese, a família contemporânea como reduto de intimidade e do individualismo que sempre esteve representado nas classes mais privilegiadas. Conforme autores pesquisados, entre outros, Da Matta12 (1997), a intimidade é um privilégio da burguesia, pois as pequenas casas das favelas na periferia das grandes cidades, na maior parte das vezes, amontoam-se, mãe, pai, filhos e agregados em um só cômodo. É comum encontrar as redes trançadas em alturas diferentes, para que as pessoas possam dormir. Pude notar nas observações de campo, que as casas são muito próximas uma das outras. Numa história, que chega a ser cômica uma mãe conta-nos que quando a criança da vizinha chora à noite, ela grita: “cala boca menino que eu quero dormir”. A convivência familiar dos pobres de grandes cidades modernas acontece num espaço muito pequeno e pouco definido entre a casa e a rua, pois a família muitas vezes dissolve-se no coletivo da vizinhança. Viver no espaço familiar restrito dos pequenos casebres, com fome, __________________________________ 12 Da Matta, Antropólogo brasileiro, escreve sobre a casa e a rua, como duas categorias associadas ao privado e o publico, respectivamente. 172 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 A Solidariedade Uma Relação Entre Iguais desespero dos pais, desalento em relação ao futuro pode representar a morte da própria infância e/ou o estímulo indireto para que a criança saia de casa para a rua. Além disso, a rua é mais agradável quando se pensa nos contrastes entre casa que cheira mofo, dejetos e pequenos animais como rato e barata e a rua é o lugar onde a criança terá um ambiente diferente do descrito anteriormente. Nas famílias marcadas pela fome e miséria, a casa representa um espaço de privação, de distanciamento dos laços de solidariedade, de vazio e instabilidade. A casa deixa de ser um espaço onde a criança encontra abrigo, cuidado, orientação, ocasiões de sociabilidade e tempo livre para tornar-se o espaço de conflito, risco, solidão. O desespero, a violência e o álcool freqüentemente fazem parte do cotidiano dessas famílias. Nesse contexto, estou a pensar: em qual eixo a solidariedade está sendo implantada na família? Penso ser possível relacionar a solidariedade à confiança. O que poderá se constituir num dilema na vivência das crianças e jovens de rua, pois, na casa e na família, a experiência de violência intensifica a ausência de laços afetivos mais sólidos e dificulta a constituição de redes de confiança. Os dados coletados na pesquisa mostram que na “casa”, a violência se configura desde as mais simples até os maiores horrores dos abusos sexuais isto faz as crianças e jovens pensarem que 'não têm mais nada a perder'. Sendo assim, viver na rua significa ter autonomia precoce, pois neste local eles não têm pai e mãe, nem patrão. Na corrida emancipatória e no vazio deixado pela lacuna familiar estes jovens pesquisados, parecem aprender muito cedo o sentido mais profundo da solidariedade que microscopicamente se percebe no emaranhado inclusive da violência da rua. Cartografia do Desmanche da Solidariedade A dimensão da ordem nas cidades modernas estabelece-se nas tensões entre o eterno e o passageiro, mesmo o suposto lado da ordem é tecido na dinâmica do fazer e refazer-se permanentes. Conforme Debord,(1997, p. 30) a cidade moderna aparece então no cenário da descontinuidade, como palco das ações dissonantes. Sem vínculos com o passado e sem “compromissos” de durabilidade, de eternidade, portanto sem projeção de futuro. As cidades modernas projetam o pragmatismo do lucro e como mercadoria inscrevem-se na lógica do descartável e do imediato. Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 173 Helena Mendes da Silva No entanto, esse progresso e desenvolvimento urbano extinguiram das tramas sociais toda e qualquer chance de desenvolvimento e fortalecimento da cumplicidade e solidariedade dos seres humanos. Na Av. Monsenhor Tabosa, principal avenida freqüentada pelos Turistas em Fortaleza, estampam-se os códigos da exclusão social nas vitrines, pois neste lugar há guardas de lojas e lanchonetes que cumprem a função de espantar possíveis moradores de rua que delas se aproximam. Os preços inacessíveis geram constrangimento para pessoas que ganham um salário mínimo, uma vez que é muito comum se encontrar uma única peça de roupa pelo valor de um salário mínimo. Nesse contexto, de uma cidade espetacular, os Jovens e Crianças moradores de rua, situados na grande metrópole, cidade Fortaleza, nos fazem lembrar o homem da multidão criado por Benjamim porém, neste caso, “o homem da multidão não é um flaneur” (Benjamim, 1975, p. 52) ela anda abrindo espaços na massa amorfa dos passantes. “Banderlaire fala do homem que mergulha na multidão como um reservatório de energia elétrica” (Benjamim, 1975, p. 54) como quem busca evitar o choque entre os transeuntes e vive na eterna ausência do presente. O que nos parece ser a figura dos meninos contrastando à grande tendência do consumo do tipo Av. Monsenhor Tabosa. Fortaleza é uma magma entre o passado e o futuro-presente; um mosaico onde o que é e o que há de ser se embaralham e se confundem, de um lado, a constante dinamicidade do espaço urbano, de outro, a linearidade por dentro do campo das descontinuidades. Enquanto prolifera nas periferias de Fortaleza uma quantidade inumerável de favelas e ocupações, a Aldeota amplia-se na sua vocação elitizante. É como se a pobreza e a riqueza se reproduzissem linearmente. A face moderna da cidade de Fortaleza captada pela pesquisa despista o seu passado e relega a barbárie às sombras da periferia. Os calçamentos de antigos paralelepípedos vão sendo substituídos pelo manto asfáltico, viadutos, parque ecológico, como o Parque do Cocó, pontuam o cenário da cidade, onde as ocupações verticais tomam o lugar dos velhos casarões. A pobreza é mais evidente na periferia de Fortaleza e há maior concentração de excluídos na região Oeste. Já os ricos, privilegiados, encontram-se na região Leste, considerada a zona nobre desta cidade. Muito embora os espaços geográficos e sociais distinguem-se nas regiões Leste e Oeste, encontramos personagens excluídos na região Leste de 174 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 A Solidariedade Uma Relação Entre Iguais Fortaleza, os quais se encontram na condição de moradores ou pedintes, que muitas vezes “perturbam” a ordem estabelecida e desenhada para as elites residentes que residem nesta cidade ou turistas que buscam contemplar a beleza da cidade do sol, assim chamada nos folders de divulgação turística. Neste contraponto entre riqueza e miséria situamos o percurso das crianças e jovens moradores de rua sujeitos da pesquisa. Ao registrar sua saída da casa e ida para a rua, parece que isso acontece com certa naturalidade, uma vez que a casa já significava desde cedo o símbolo da violência e do medo. As relações de solidariedade apresentam-se como um elemento necessário para que crianças e jovens dêem novos significados à vida, pois, como já explicitado anteriormente, não há relações pessoais ou mesmo vínculo entre eles e seus familiares. Sendo assim, a rua se apresenta como um lugar onde as crianças e jovens criam novos referenciais ou pelo menos atribuem novas características para aqueles que na rua assumem papel de liderança e, por vezes, o papel de pai e mãe, como é o caso da Cristina. Na verdade, a solidariedade, no dizer de Demo (2002, p. 147), é entendida no quadro de posturas dialéticas e com matizes de noções ambivalentes, não é, portanto, a única experiência da sociedade moderna, porém sociedades mais solidárias são viáveis, desde que não sejam manipulações ou o que ele chama de criações e efeitos do poder. As sociedades solidárias viáveis são responsáveis por construir novos eixos de relações igualitárias, marcada pelo cooperativismo. Segundo Demo, (2002, p. 147), sociedade de igual é algo linear, não dialético, improdutivo. Nas sociedades igualitárias contemplam-se os ideais de equalização de oportunidades. A construção das relações de solidariedade é um processo lento e com nuances muitas vezes nas contradições, haja vista o que observamos no trabalho de campo e estão citados nos depoimentos. No processo inverso pode se constituir numa solidariedade ingênua que tende a encobrir a realidade. Demo (2002, p. 148) Compreende que o discurso sobre a solidariedade pode ser ingênuo quando se acredita nas transformações evolucionárias históricas a toque de caixa, num relance como se fosse negar o passado. O que ocorre no ritual de passagem da casa para a rua é que se configura de modo natural, uma vez que este processo se dá sem visíveis agressões, pois, na verdade, a vida da casa já é o contexto da rua. Esse rito parece não ser fisicamente violento, mas há de conter a violência que marca o Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 175 Helena Mendes da Silva encontro de dois sujeitos em lados opostos. O oposto não é a casa e a rua que se confundem, mas a solidariedade e o individualismo. Assim, afirma Demo (2002 p. 149): “os excluídos precisam ser solidários consigo mesmos, estabelecendo comunhão de ideais utópicos mobilizadores”. E ainda Demo, chama esse comportamento de “compromisso da competência coletiva. Este convite é para que não só se fechem sobre si mesmos e busquem a solidariedade para além do grupo”. Nesta busca Demo afirma: Podemos estabelecer hierarquias de proximidade com a causa: vêm antes aqueles, mesmo não sendo do grupo, possuem problemas similares aos do grupo, ou seja, são oprimidos por outras razões e sabem o que é a opressão; depois podem vir às instituições sensíveis à causa, como igrejas, universidades, ONGs, etc. podem vir em seguida, potenciais, parceiros a conquistar. (Idem, ibidem, p. 150). Na soma de forças e de solidariedade as crianças e jovens, pesquisados parecem fazer o papel de combatentes, conforme mencionado por Demo; a própria rebeldia da natureza dos jovens referenda esta postura como sujeitos que sabem emancipar. Harvey (2001, p. 52) menciona esta atitude de emancipação do sujeito como essencial no projeto plural pós-moderno. Para o autor, “a idéia de que todos os grupos têm o direito de falar por si mesmos com sua própria voz e ter aceitado essa voz como autêntica e legítima”, e enfatiza ainda que a linha de trabalho, de pesquisador e escritor assumida por Foucault com grupos marginais e intersticiais influenciou muitos pesquisadores, em campos diversos como a Criminologia e Antropologia a assumir novas maneiras de reconstruir e representar vozes e experiências de seus sujeitos. E por fim, podemos afirmar que ao abordarmos a solidariedade nesta perspectiva da resistência que se constrói baseada nas relações de reciprocidades e direitos, visualizamos que na ponta da linha precisamos começar por mudanças estruturas sócio-política e econômica que cria e recria os sujeitos de uma nova ordem. 176 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 163-177 - jan./dez. 2008 A Solidariedade Uma Relação Entre Iguais Referências Bibliografias ASSNANN, Hugo. 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