A SOLIDARIEDADE UMA RELAÇÃO ENTRE IGUAIS
The Solidarity a Relationship Between Equal
Helena Mendes da Silva1
“Esta rede de solidariedade traz à cena um novo personagem. O ato
que emerge é o cotidiano orientado por um espírito cívico que
encontra inspiração no associativismo”.
(Márcia Leite)
Resumo
Neste artigo apresento parte da pesquisa em que se investigou sobre as
relações de solidariedade entre crianças e jovens moradores de rua na cidade
de Fortaleza – Ceará, o foco foi voltado a perceber as relações de solidariedade
que se estabelecem, enquanto rede de resistência e que se constrói como
mecanismo de sobrevivência para a vida na rua entre os sujeitos citados. No
modo de pensar de Mance a teoria da solidariedade é um projeto que se
constrói entre iguais. Identificamos na pesquisa de campo que, a este
elemento, soma-se um processo de construção de Identidade firmada pela
resistência talvez por terem na rua a “casa” comum da vida marcada pelas
incertezas e insegurança da rua, desse modo, fortifica-se entre eles a vida de
uma comunidade criada em espaços físicos comuns: uma Praça ou, até mesmo,
um terreno desocupado, denominado por eles como um Casarão. As crianças e
jovens na rua sofrem a fusão de uma vida privada e coletiva; expõem sua
privacidade e se moldam por essa coletividade para demarcar seu espaço
próprio. Nesse jogo, escondem sua identidade da contravenção e criam códigos
que lhes possibilitem uma passagem para o mundo socialmente aceito. A rua
vai formando nessas crianças e jovens uma perspectiva de vida fragmentada,
fragilizada e vulnerável. Entretanto, nota-se que os passageiros dessa viagem
não perderam na totalidade a pouca bagagem que ainda lhes resta: a
capacidade de sonhar é uma realidade.
_______________________________
1
Helena Mendes da Silva, ICM, Mestre em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo-PUCSP, Profa. de Sociologia nos cursos de Administração e Direito-Faculdade Católica Dom
Orione-FACDO
Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - jan./dez. 2008
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Helena Mendes da Silva
Palavras-chave: Solidariedade; Resistência; Crianças e Jovens; Moradores de
Rua.
Abstract
In this article, I present part of the research that investigated about the
solidarity relations between children and young people that live on the street in
Fortaleza – Ceará. The focus was to realize the solidarity relations that establish,
like resistance chain that build like survive mechanism to life on the street
between the characters cited. Mance think about the theory of solidarity like a
project that build among themselves the equal people. We identify in the
research on the street that for this element to add a building process, marked
for uncertainties, maybe they have on the street their homes, so, be strong
among them selves the life of the community done is common espaces: like
squares, vacant lots, that they call big houses. The children and the young
people in the street suffer the fusion: the private life and collective life. They
show their privacity and make for this collectivety for to mark own spaces. In
this game, they hide the their | identity of the contravention and make codes
that be possible a passage to the world sociality accept. ''The Street'' is forming
in this children and young people a perspective of fragmented life, fragile and
vulnerable. In the meantime, it's possible to see that the passengers this trip
don't lose a little baggage that they have: the capacity to dream it is a reality.
Key-words: Solidirity; Resistance; Children and Young People; Homeless.
A Solidariedade Como Resistência.
Neste artigo apresentarei a discussão sobre solidariedade entendida
enquanto recurso de resistência e sobrevivência que, sem alarde para o público
que os circunda, subjaz as situações de vida. A solidariedade, embora na maior
parte das vezes em que é mencionada, ou seja, decisivamente referida, aparece
sempre atrelada à benemerência, filantropia, aqui ganha referencial de
resistência. Em nosso cotidiano, parece que ainda não se chegou neste
referencial que estamos chamando de solidariedade como resistência. É bem
provável que o uso de tal expressão possa causar estranhamento aos olhos dos
leigos, mas não tanto aos pesquisadores com dedicação longa ao trabalho de
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investigação participante, associada à pesquisa acadêmica. E, sobretudo, para
os pesquisadores que realizam trabalho de campo na área de investigação das
relações sociais de grupos em situação de vulnerabilidades como moradores de
rua. Assim, é provável que não demore compreender a relevância e os tecidos
de resistência e sobrevivência que a solidariedade desvela.
Na pesquisa que realizei com Crianças e Jovens moradores de rua na
cidade de Fortaleza pude perceber a resistência e busca de sobrevivência desde
as primeiras idas a campo, o que propiciara o surgimento de muitas indagações
diretas ligadas à solidariedade, difíceis de visualizar à primeira vista. Algumas
das indagações que surgiram tem a ver com o conjunto das organizações sociais
vinculadas ao trabalho e, para compreendê-las, recorri primeiramente aos
clássicos das Ciências Sociais, mais precisamente Émilie Durkheim dentre
outros teóricos contemporâneos que tratam a solidariedade.
Durkheim, ao discorrer sobre solidariedade, afirma que esta associa-se
à divisão social do trabalho e, no seu modo de ver, privilegia em última instância
a função de criar entre as pessoas o sentimento de solidariedade. Contrariando,
assim, a opinião dos economistas, os quais afirmam que a divisão social do
trabalho cria uma relação mercadológica de exploração, chegando na ponta da
2
linha com a geração da mais-valia , produto típico do sistema capitalista, que
não se associa às relações de solidariedade.
Em seus estudos, o clássico da sociologia percorre o caminho
metodológico de agrupamento por tipo para chegar aos resultados de sua
pesquisa. Ao final ele apresenta 2 tipos de solidariedades:
1- Solidariedade Mecânica,
2- Solidariedade Orgânica.
Em verdade, para Durkheim, a solidariedade é composta por homens e
mulheres que se associam de tal forma que ultrapassam os curtos períodos em
que trocam serviços, ou seja, a sociedade é composta por indivíduos que
dependem uns dos outros porque ambos são incompletos e na relação nada
________________________________
2
Lembrando Karl Marx que afirma ser a extração da mais valia a forma especifica que assume a
exploração sob o capitalismo em que o excedente toma a forma de lucro e a exploração resulta do
fato da classe trabalhadora produzir um produto liquido que pode ser vendido por mais do que
ela recebe como salário.
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mais fazem do que exteriorizar essa dependência mútua. Dessa forma, a
solidariedade é a expressão de um estado mais profundo que vem do interior
dos indivíduos.
O princípio de fortalecimento da solidariedade é a freqüência de
contatos físicos que ocorre entre homens e mulheres, o inverso também é uma
verdade. A solidariedade aproxima as pessoas multiplicando a freqüência de
contatos e oportunidades de seus relacionamentos. O sociólogo Florestan
Fernandes, ao tratar a questão da solidariedade, em meio a uma multiplicidade
de contatos diz:
“Quanto mais solidários sejam os membros de uma sociedade, mais
eles mantêm relações diversas, seja uns com os outros, seja com o
grupo tomado coletivamente. Porque se os seus contatos fossem
raros, eles não dependeriam uns dos outros senão de maneira frágil e
intermitente”.(Florestan Fernandes 1990, p. 67)
A solidariedade pressupõe a formação de uma consciência coletiva ou
comum que é composta por integrantes mental e moralmente homogênea, ou
seja, indivíduos com sentimentos e crenças comuns, desse modo, a
solidariedade é uma atitude que se estabelece entre iguais.
Por solidariedade mecânica Durkheim entende a solidariedade social
que decorre de um certo número de estados de consciência comuns a todos os
membros da mesma sociedade de forma que, tendo os interesses coletivos
comuns, cada vez que eles se desencadeiam, os desejos se movem espontânea
e conjuntamente no mesmo sentido.
Solidariedade orgânica relaciona-se à compreensão de agrupamentos
dos indivíduos por interesses pessoais neste caso a solidariedade se firma pelo
enfraquecimento da consciência coletiva, ela só será possível se cada indivíduo
tiver uma esfera própria de ação, mantendo os limites das diferenças e
interesses para que se estabeleçam as funções que, reguladas pelo corpo social,
resultam numa solidariedade organicamente forte. A coesão torna-se
densamente forte, pois “onde esta solidariedade é muito desenvolvida o
indivíduo não se pertence” afirma o estudioso Mance (2001, p. 17), em seu livro
A revolução das redes, no qual evoca a solidariedade com o seu significado
originário da palavra “solidu” que significa algo forte, que dificilmente deixa de
existir ou se deixa destruir por uma força externa. Em Português claro, como nos
indicam os dicionários, a palavra solidariedade possui um sentido moral que
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vincula o indivíduo à vida, aos interesses e às responsabilidades de um grupo
social, de uma nação ou da própria humanidade. Ela indica uma relação de
responsabilidade entre as pessoas unidas por interesses comuns, de maneira
tal que cada pessoa do grupo se sinta na obrigação de apoiar as demais. É,
então, que Mance afirma,
Colaboração solidária significa, então, um trabalho e consumo
compartilhados, cujo vínculo, recíproco entre as pessoas advém,
primeiramente, de sentido moral de co-responsabilidade pelo bemviver de todos e de cada um em particular.(Mance 2001, p. 17)
Ao analisar a questão da solidariedade, objetivo deste trabalho
observamos e privilegiamos, o processo investigativo no campo e percebemos
ser necessário percorrer novos caminhos e recorrer a outras ferramentas
oriundas de outros modelos, ou seja, novos paradigmas.
Novos paradigmas
Há algum tempo, uma organização de sucesso era aquela que, fechada
em si mesma, procurava preservar e perpetuar seus padrões de qualidade de
modo individual e zeloso em base na teoria da ordem. Profissionais
competentes eram aqueles que se bastavam a si mesmo e julgavam-se bons
profissionais, trabalhando isoladamente. Esse modelo funcionou bem durante
o período em que havia muito mais estabilidade e verticalização na sociedade,
características orientadas pelo paradigma positivista. Os tempos mudaram,
mudaram-se os paradigmas e alteraram-se as expressões de solidariedade. O
que Durkheim chama de solidariedade mecânica parece não corresponder às
demandas dos nossos dias.
Hoje, o conceito de solidariedade permeia a organização social e
constitui uma condição fundamental para orientar a vida humana voltada à
formação do ser humano como pessoa plena. A agregação do valor ético e de
justiça coloca-se como condição de sobrevivência. Do ponto de vista humano,
são revistos os códigos de relacionamentos entre as pessoas, sendo aprovados
_____________________________________
3
Lei n°. 10.741, de 1° de maio de 2003.
4
PL 1399, de 09 de março de 2004.
5
Estatuto da criança e do adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
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3
códigos de direitos humanos, entre os quais ressalto Estatuto do Idoso , da
4
5
mulher , da criança e adolescente , entre outros, a fim de serem respeitadas
como pessoas em si mesmas e em suas dimensões sociais, impondo-lhes limites
à exploração da atividade humana e ao reconhecimento do seu direito a
desenvolver-se como ser social atuante e ativo. Assim, o realce é para que
entendamos que numa sociedade de direitos a solidariedade tem o seu o lugar
reservado.
É neste contexto que Mance menciona a solidariedade como parceria,
O estabelecimento de redes e parcerias que passam a constituir-se
em necessidade fundamental, que vai além da solidariedade
convencional e de senso comum. Desse modo, é que se registram as
novas formas de associações das pessoas, de um lado, como
estratégia de sobrevivência e, de outro, como parte do processo de
desenvolvimento.(Mance 2001, p. 17)
Na rua, entre as crianças e jovens, é notória a presença da solidariedade
que aparece como elemento de sobrevivência e resistência que podemos
verificar nos registros da pesquisa.
A verdadeira solidariedade é aquela que tem como finalidade a
igualdade que, em última instância, busca a distribuição justa de oportunidade
e dos recursos básicos para uma vida decente, de tal modo que, entendendo a
solidariedade nesta perspectiva, ela passa a demandar um exercício de
_____________________________
6
Ao pensar em relações de rede, reporto-me a pensar no trabalho de Mauss (2003, p. 187) no
ensaio sobre a dádiva. Ele chama estas relações de dom, pois, para o autor, dom classifica-se e se
constitui como “regime do direito contratual e para o sistema das prestações econômicas entre as
diversas seções ou subgrupos de que se compõem as sociedades ditas primitivas e também as
que podemos chamar arcaicas”.Para além da reciprocidade e da redistribuição, o trabalho
clássico de Mauss sobre a dádiva, também critica a generalização da concepção utilitarista nas
Ciências Sociais, o que é atualmente retomado por Caillé (2002, p. 34), afirmando que “a ciência
só deveria ocupar-se com as categorias indígenas, com a alma ou com o espírito da coisa dada”.
7
É um termo usado por Marcel Mauss, sociólogo Francês do sec. XIX, para falar das formas e
razões das trocas nas sociedades arcaicas que se nutrem pelas obrigações de dar, receber,
retribuir. O que Muass denomina de Potlatch.
8
Godelier (2001, p. 17), entre outros autores, afirma que esses estudos têm apontado o que
existe em qualquer sociedade, situações em que os homens tomam ações econômicas em favor
do outro, sem esperar nada em troca, movidos pelo dom ou dádiva. “Essas relações não se
restringem a grupos familiares ou de amigos, mas se dão também entre desconhecidos, sem que
nem mesmo se veja o resultado da ação bem como entre os meninos e meninas em situação de
Rua em que as pessoas se expõem e até correm risco de vida”.
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cidadania e democratização dos direitos e acessos às oportunidades que
asseguram a dignidade humana.
A coesão social e a interdependência sugerida por Durkheim como
solidariedade foi se enfraquecendo em outros modelos sociais, sendo superada
e substituída por outras formas de interação, mais espontânea e no tecido
6
social configurando-se como relações de rede .
Nesse processo, formam-se redes de solidariedade de confiança,
regidas pelo dever de dar, receber e retribuir, nas quais, quando algo é
oferecido, não se sabe nem de que forma poderá se retornar. Daí, a dialética de
7
8
que a dádiva poderá ser interessada e desinteressada .
Para melhor compreensão das experiências das crianças e jovens em
situação de rua e da presença dos elementos da dádiva neste universo, cito as
diversas e repetidas experiências de diálogos gratuitos que se deram durante a
pesquisa de campo realizada em Fortaleza, tanto entre os entrevistados e
pesquisadora como entre os próprios moradores de rua.
A rede de solidariedade à qual nos referimos neste artigo tem pelo
menos dois aspectos:
O primeiro apresenta-se de forma cooperativa, pois os moradores de
9
rua contam com acompanhamento de diversas Instituições que colocam seus
serviços à sua disposição, garantindo-lhes maior probabilidade de infraestrutura tais como carro para visita médica, abrigo para situações
emergenciais, alimentação e outros. É a ação solidária dos que se unem por
possuírem o mesmo problema, por uma mesma necessidade, buscando um
benefício comum. Assim, parece ser a solidariedade dos que enfrentam os
mesmos problemas, o melhor caminho para que cada qual melhor os entenda e
melhor os enfrente, não no empobrecimento e anulação do seu eu individual,
mas numa nova forma de pensar e agir: a consciência do grupo e a forma de
cooperação.
O segundo aspecto diz respeito ao que Castells chama de Identidade
Resistência. Para o autor, esta é
(...) criada por atores que se encontram em posições ou condições
desvalorizadas ou estigmatizadas pela lógica da dominação,
construindo, assim, sem trincheiras de resistência e sobrevivência
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9
Pastoral do Menor, Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, Pequeno Nazareno,
Barraca da Amizade, FUNCI.
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com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições
da sociedade.(Castells 2006, p. 24)
Neste aspecto da identidade originam-se as formas de resistência
coletiva diante das situações de opressão que, do contrário, não seriam
suportáveis. Ao que pudemos perceber esta é a grande marca que se
desenvolveu na vivência dos jovens e crianças moradores de rua capacitandoos aos enfrentamentos das situações da rua.
Do ponto de vista sociológico, toda e qualquer identidade é construída.
Assim, identidade é um processo de construção de significado com base em um
atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais interrelacionados, os quais prevalecem sobre outras fontes de significados. Sendo
assim, identidades constituem fontes de significado para os atores sociais e
também podem ser formadas pelas instituições dominantes.
Desse modo Castells (2006, p. 24) define três formas e origens de
construção de identidade que trabalharemos a seguir.
Identidade Legitimadora: introduzida pelas instituições dominantes da
sociedade com o intuito de expandir sua dominação em relação aos atores
sociais. Essa identidade dá origem a uma sociedade civil, com organizações e
instituições.
Identidade de Resistência: criada por atores sociais que têm posições e
princípios opostos às instituições da sociedade. Essa identidade dá origem à
comunidade, que é uma forma de resistência coletiva diante de uma opressão.
Identidade de Projeto: quando os atores sociais constroem uma nova
identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade. Essa identidade dá
origem a sujeitos, estes criam uma história pessoal, atribuindo significado às
experiências da vida individual.
Entendemos que a identidade de resistência pode resultar em projetos,
ou mesmo em identidade dominante, legitimando, assim, a sua dominação. O
surgimento da sociedade em rede traz à tona processos de construção de
identidade, induzindo, portanto, novas formas de transformação social, isso
porque a sociedade em rede está fundamentada na disjunção sistêmica entre o
local e o global, para a maioria dos indivíduos e grupos sociais.
Para compreender essa transformação na identidade das crianças e
jovens moradores de rua é importante considerar que sua identidade foi
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constituída com base em um fragmento da cidade, a Praça ou o Casarão .
Assim, para justificar a contradição, a sociedade tem necessidade de negar a
condição humana dos mesmos. Não poucas vezes observamos no rosto de
transeuntes o semblante de negação, de estorno e até de repugnância. Nós
poderíamos imaginar que os jovens se rendessem a esses comportamentos e
pudessem se associar à sociedade como um todo, constituindo uma nova
identidade e fazendo parte da “colcha de retalhos” étnica da sociedade. No
entanto, constatamos que as crianças e jovens mostram o contrário, revelando11
se resilientes .
Na verdade, os jovens, ao formar verdadeiros guetos, têm
desenvolvido uma nova cultura, composta por uma mistura de bravura, revolta,
fragilidades e conformismos que expressa uma identidade que poderia ser
caracterizada como uma identidade de resistência. Os elementos base dessa
nova experiência de grupos seriam ambientes, organizações sociais baseada
em fragmentos e uso de violência como meio de vida.
Tudo isso mostra que a sociedade vigente não fornece as bases para as
experiências que se baseiam em rede de solidariedade. Criam-se novas bases
com outros pilares, conforme vimos no cotidiano da rua.
No entanto, é difícil conceber a importância da solidariedade
compreendida como ação entre iguais numa sociedade marcada pela
competição e pelo individualismo, pelas desigualdades sociais sendo que a
lógica do mercado se regula pela concorrência, pela vitória de um sobre o outro,
a cooperação perde o seu sentido de ajuda mútua para se reduzir a uma mera
tática de intervir no mercado: unir-se com uns para competir com outros.
Assim, coloca-se o desafio de construir organizações cooperativas no contexto
de competição e luta desenfreada pela sobrevivência torna-se bastante
complicado sem um espaço de reflexão sobre o significado do ato cooperativo,
da importância da convivência e da solidariedade.
Sendo assim, podemos afirmar que a compreensão do sentido da
solidariedade é maior que o exercício de atitudes solidárias. Em vários
momentos da história humana são registradas ações de caridade, de auxílio em
__________________________________
10
Casarão é um termo usado pelas Crianças e Jovens moradores de rua para denominar o espaço
onde eles construíram imaginariamente suas casas, e todos dormem e comem neste lugar.
11
Resilientes é um termo utilizado pela Pastoral do Menor para caracterizar atitude resistente
combinada com a esperança nos comportamentos dos que parecem não ter possibilidades de
superação do problema.
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favor dos necessitados. Entretanto, essas atitudes solidárias nunca
conseguiram ser significativas como alternativas, pelo seu caráter paliativo,
isolado e descontinuado, não conseguindo configurar um movimento ou
organização que transformam as das bases sócio-políticas.
Quando nos auferimos ao sentido da solidariedade, estamos nos
referindo à necessidade de construirmos uma “cultura solidária” entre as
pessoas, não com base no simples altruísmo ou “espírito de ajuda ao próximo”,
mas com significado de resistência conjunta a adversidades comuns e de
criação de instrumentos coletivos para intervenção na realidade e superação de
problemas de maneira organizada. É esse o sentido da solidariedade: a
consciência de grupo diante de problemas comuns e a organização coletiva para
construir soluções.
Para mapear os laços de solidariedade existentes nas relações das
crianças e jovens moradores de rua necessitamos reportar-nos aos laços da
família. Lugar muitas vezes, ora de quebra da solidariedade, ora de sustentação
de algo quase invisível no cenário da família que é cumplicidade especialmente
da figura da mãe e no seu papel reconstituidor da representação dos laços
quebrados. No contraponto cito as famílias modernas. A qual família estamos
nos referindo? Seria todo o conjunto de famílias constituídas nos marcos da
modernidade? Em síntese, a família contemporânea como reduto de
intimidade e do individualismo que sempre esteve representado nas classes
mais privilegiadas.
Conforme autores pesquisados, entre outros, Da Matta12 (1997), a
intimidade é um privilégio da burguesia, pois as pequenas casas das favelas na
periferia das grandes cidades, na maior parte das vezes, amontoam-se, mãe,
pai, filhos e agregados em um só cômodo. É comum encontrar as redes
trançadas em alturas diferentes, para que as pessoas possam dormir.
Pude notar nas observações de campo, que as casas são muito
próximas uma das outras. Numa história, que chega a ser cômica uma mãe
conta-nos que quando a criança da vizinha chora à noite, ela grita: “cala boca
menino que eu quero dormir”. A convivência familiar dos pobres de grandes
cidades modernas acontece num espaço muito pequeno e pouco definido
entre a casa e a rua, pois a família muitas vezes dissolve-se no coletivo da
vizinhança. Viver no espaço familiar restrito dos pequenos casebres, com fome,
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Da Matta, Antropólogo brasileiro, escreve sobre a casa e a rua, como duas categorias associadas
ao privado e o publico, respectivamente.
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desespero dos pais, desalento em relação ao futuro pode representar a morte
da própria infância e/ou o estímulo indireto para que a criança saia de casa para
a rua. Além disso, a rua é mais agradável quando se pensa nos contrastes entre
casa que cheira mofo, dejetos e pequenos animais como rato e barata e a rua é o
lugar onde a criança terá um ambiente diferente do descrito anteriormente.
Nas famílias marcadas pela fome e miséria, a casa representa um
espaço de privação, de distanciamento dos laços de solidariedade, de vazio e
instabilidade. A casa deixa de ser um espaço onde a criança encontra abrigo,
cuidado, orientação, ocasiões de sociabilidade e tempo livre para tornar-se
o espaço de conflito, risco, solidão. O desespero, a violência e o álcool
freqüentemente fazem parte do cotidiano dessas famílias.
Nesse contexto, estou a pensar: em qual eixo a solidariedade está
sendo implantada na família? Penso ser possível relacionar a solidariedade à
confiança. O que poderá se constituir num dilema na vivência das crianças e
jovens de rua, pois, na casa e na família, a experiência de violência intensifica a
ausência de laços afetivos mais sólidos e dificulta a constituição de redes de
confiança. Os dados coletados na pesquisa mostram que na “casa”, a violência
se configura desde as mais simples até os maiores horrores dos abusos sexuais
isto faz as crianças e jovens pensarem que 'não têm mais nada a perder'. Sendo
assim, viver na rua significa ter autonomia precoce, pois neste local eles não
têm pai e mãe, nem patrão.
Na corrida emancipatória e no vazio deixado pela lacuna familiar estes
jovens pesquisados, parecem aprender muito cedo o sentido mais profundo da
solidariedade que microscopicamente se percebe no emaranhado inclusive da
violência da rua.
Cartografia do Desmanche da Solidariedade
A dimensão da ordem nas cidades modernas estabelece-se nas tensões
entre o eterno e o passageiro, mesmo o suposto lado da ordem é tecido na
dinâmica do fazer e refazer-se permanentes. Conforme Debord,(1997, p. 30) a
cidade moderna aparece então no cenário da descontinuidade, como palco das
ações dissonantes. Sem vínculos com o passado e sem “compromissos” de
durabilidade, de eternidade, portanto sem projeção de futuro. As cidades
modernas projetam o pragmatismo do lucro e como mercadoria inscrevem-se
na lógica do descartável e do imediato.
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No entanto, esse progresso e desenvolvimento urbano extinguiram das
tramas sociais toda e qualquer chance de desenvolvimento e fortalecimento da
cumplicidade e solidariedade dos seres humanos. Na Av. Monsenhor Tabosa,
principal avenida freqüentada pelos Turistas em Fortaleza, estampam-se os
códigos da exclusão social nas vitrines, pois neste lugar há guardas de lojas e
lanchonetes que cumprem a função de espantar possíveis moradores de rua
que delas se aproximam. Os preços inacessíveis geram constrangimento para
pessoas que ganham um salário mínimo, uma vez que é muito comum se
encontrar uma única peça de roupa pelo valor de um salário mínimo.
Nesse contexto, de uma cidade espetacular, os Jovens e Crianças
moradores de rua, situados na grande metrópole, cidade Fortaleza, nos fazem
lembrar o homem da multidão criado por Benjamim porém, neste caso, “o
homem da multidão não é um flaneur” (Benjamim, 1975, p. 52) ela anda
abrindo espaços na massa amorfa dos passantes. “Banderlaire fala do homem
que mergulha na multidão como um reservatório de energia elétrica”
(Benjamim, 1975, p. 54) como quem busca evitar o choque entre os transeuntes
e vive na eterna ausência do presente. O que nos parece ser a figura dos
meninos contrastando à grande tendência do consumo do tipo Av. Monsenhor
Tabosa.
Fortaleza é uma magma entre o passado e o futuro-presente; um
mosaico onde o que é e o que há de ser se embaralham e se confundem, de um
lado, a constante dinamicidade do espaço urbano, de outro, a linearidade por
dentro do campo das descontinuidades. Enquanto prolifera nas periferias de
Fortaleza uma quantidade inumerável de favelas e ocupações, a Aldeota
amplia-se na sua vocação elitizante. É como se a pobreza e a riqueza se
reproduzissem linearmente.
A face moderna da cidade de Fortaleza captada pela pesquisa despista
o seu passado e relega a barbárie às sombras da periferia. Os calçamentos de
antigos paralelepípedos vão sendo substituídos pelo manto asfáltico, viadutos,
parque ecológico, como o Parque do Cocó, pontuam o cenário da cidade, onde
as ocupações verticais tomam o lugar dos velhos casarões.
A pobreza é mais evidente na periferia de Fortaleza e há maior
concentração de excluídos na região Oeste. Já os ricos, privilegiados,
encontram-se na região Leste, considerada a zona nobre desta cidade.
Muito embora os espaços geográficos e sociais distinguem-se nas
regiões Leste e Oeste, encontramos personagens excluídos na região Leste de
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Fortaleza, os quais se encontram na condição de moradores ou pedintes, que
muitas vezes “perturbam” a ordem estabelecida e desenhada para as elites
residentes que residem nesta cidade ou turistas que buscam contemplar a
beleza da cidade do sol, assim chamada nos folders de divulgação turística.
Neste contraponto entre riqueza e miséria situamos o percurso das
crianças e jovens moradores de rua sujeitos da pesquisa. Ao registrar sua saída
da casa e ida para a rua, parece que isso acontece com certa naturalidade, uma
vez que a casa já significava desde cedo o símbolo da violência e do medo.
As relações de solidariedade apresentam-se como um elemento
necessário para que crianças e jovens dêem novos significados à vida, pois,
como já explicitado anteriormente, não há relações pessoais ou mesmo vínculo
entre eles e seus familiares. Sendo assim, a rua se apresenta como um lugar
onde as crianças e jovens criam novos referenciais ou pelo menos atribuem
novas características para aqueles que na rua assumem papel de liderança e,
por vezes, o papel de pai e mãe, como é o caso da Cristina.
Na verdade, a solidariedade, no dizer de Demo (2002, p. 147), é
entendida no quadro de posturas dialéticas e com matizes de noções
ambivalentes, não é, portanto, a única experiência da sociedade moderna,
porém sociedades mais solidárias são viáveis, desde que não sejam
manipulações ou o que ele chama de criações e efeitos do poder.
As sociedades solidárias viáveis são responsáveis por construir novos
eixos de relações igualitárias, marcada pelo cooperativismo. Segundo Demo,
(2002, p. 147), sociedade de igual é algo linear, não dialético, improdutivo. Nas
sociedades igualitárias contemplam-se os ideais de equalização de
oportunidades.
A construção das relações de solidariedade é um processo lento e com
nuances muitas vezes nas contradições, haja vista o que observamos no
trabalho de campo e estão citados nos depoimentos. No processo inverso pode
se constituir numa solidariedade ingênua que tende a encobrir a realidade.
Demo (2002, p. 148) Compreende que o discurso sobre a solidariedade pode
ser ingênuo quando se acredita nas transformações evolucionárias históricas a
toque de caixa, num relance como se fosse negar o passado.
O que ocorre no ritual de passagem da casa para a rua é que se
configura de modo natural, uma vez que este processo se dá sem visíveis
agressões, pois, na verdade, a vida da casa já é o contexto da rua. Esse rito
parece não ser fisicamente violento, mas há de conter a violência que marca o
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encontro de dois sujeitos em lados opostos. O oposto não é a casa e a rua que se
confundem, mas a solidariedade e o individualismo.
Assim, afirma Demo (2002 p. 149): “os excluídos precisam ser solidários
consigo mesmos, estabelecendo comunhão de ideais utópicos mobilizadores”. E
ainda Demo, chama esse comportamento de “compromisso da competência
coletiva. Este convite é para que não só se fechem sobre si mesmos e busquem a
solidariedade para além do grupo”.
Nesta busca Demo afirma:
Podemos estabelecer hierarquias de proximidade com a causa: vêm
antes aqueles, mesmo não sendo do grupo, possuem problemas
similares aos do grupo, ou seja, são oprimidos por outras razões e
sabem o que é a opressão; depois podem vir às instituições sensíveis à
causa, como igrejas, universidades, ONGs, etc. podem vir em seguida,
potenciais, parceiros a conquistar. (Idem, ibidem, p. 150).
Na soma de forças e de solidariedade as crianças e jovens, pesquisados
parecem fazer o papel de combatentes, conforme mencionado por Demo; a
própria rebeldia da natureza dos jovens referenda esta postura como sujeitos
que sabem emancipar.
Harvey (2001, p. 52) menciona esta atitude de emancipação do sujeito
como essencial no projeto plural pós-moderno. Para o autor, “a idéia de que
todos os grupos têm o direito de falar por si mesmos com sua própria voz e ter
aceitado essa voz como autêntica e legítima”, e enfatiza ainda que a linha de
trabalho, de pesquisador e escritor assumida por Foucault com grupos
marginais e intersticiais influenciou muitos pesquisadores, em campos diversos
como a Criminologia e Antropologia a assumir novas maneiras de reconstruir e
representar vozes e experiências de seus sujeitos.
E por fim, podemos afirmar que ao abordarmos a solidariedade nesta
perspectiva da resistência que se constrói baseada nas relações de
reciprocidades e direitos, visualizamos que na ponta da linha precisamos
começar por mudanças estruturas sócio-política e econômica que cria e recria
os sujeitos de uma nova ordem.
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A Solidariedade Uma Relação Entre Iguais
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