Marcelo Cipis
candido
40
NOVEMBRO 2014
www.candido.bpp.pr.gov.br
jornal da biblioteca pública do paraná
O tempo
reencontrado
Escritores e críticos refletem sobre a relação
da literatura com o passado e a memória
Entrevista | Sérgio Augusto • Novela | Ana Paula Maia • Ensaio | Ademir Demarchi
2 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
editorial
CARTUM
expediente
Arnaldo Branco
candido
Cândido é uma publicação mensal
da Biblioteca Pública do Paraná
Governador do Estado do Paraná: Beto Richa
Secretário de Estado da Cultura: Paulino Viapiana
Diretor da Biblioteca Pública do Paraná: Rogério Pereira
Presidente da Associação dos Amigos da BPP: Gerson Gross
Coordenação Editorial:
Rogério Pereira e Luiz Rebinski Junior
Redação:
Marcio Renato dos Santos e Omar Godoy.
Divulgação
BIBLIOTECA AFETIVA
Divulgação
A
memória é do passado, já dizia
Aristóteles. De fato, memória é
um tema antigo, inclusive no que
diz respeito à literatura. A professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
Sissa Jacoby afirma que a memória está
presente no fazer literário desde os poemas homéricos. Mas, pondera a professora da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro (UERJ) Ana Cláudia Viegas,
tanto o surgimento dos relatos em primeira pessoa, memórias, autobiografias
e diários, como o desenvolvimento do
gênero romance, estão relacionados à
construção do indivíduo moderno. “Ao
longo do século XIX, portanto, a memória foi se constituindo como matéria-prima literária”, diz Ana Cláudia.
Memória e literatura é o assunto
desta edição e uma ampla reportagem
abre espaço para a discussão com autores brasileiros — Maria Valéria Rezende, Sérgio Sant’Anna e Siliviano Santiago: eles acabam de publicar obras nas
quais memória é matéria-prima. O legado do escritor francês Marcel Proust
(1871-1922), um marco neste tema, não
foi esquecido. A professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Tânia Regina Oliveira Ramos também
participa da discussão por meio de um
artigo sobre memória e literatura. E o
escritor Urariano Mota, que vive em
Olinda (PE), escreveu um conto sobre
memória a convite do Cândido.
A edição também abre espaço
para outros conteúdos, por exemplo,
uma entrevista com o jornalista Sérgio
Augusto, que faz uma análise profunda a respeito do jornalismo no momento em que o espaço para cultura é cada
vez mais reduzido e praticado por noviços. A cantora e compositora Marina
Lima é a personagem da seção Perfil do
Leitor. Ana Paula Maia apresenta fragmento inédito de uma novela. Ademir
Demarchi escreve sobre a antologia 101
poetas paranaenses, em dois volumes, publicada pela Biblioteca Pública do Paraná — e quatro autores incluídos nas coletâneas estão nas páginas do Cândido.
Boa leitura!
Estagiários:
Lucas de Lavor e Thiago Lavado.
Coordenação de Desenho Gráfico | CDG | SEEC
Rita Solieri Brandt | coordenação
Raquel Dzierva | diagramação
Diferentemente do que vemos atualmente por aí na
ficção brasileira, O fiel e a pedra, romance de 1961
do pernambucano Osman Lins, é uma obra séria,
densa e que exige do leitor dedicação especial. Não
se pode ter pressa para lê-lo, tampouco esperar que
grandes acontecimentos surjam a cada capítulo. A saga
(silenciosa e cotidiana) do trabalhador rural Bernardo
Cedro na busca pelos seus direitos, pela manutenção de
sua honra, é exemplar e nos encoraja a seguir vivendo
de acordo com nossos princípios, ainda que, para isso,
talvez, precisemos pagar um preço alto. O final de O fiel e
a pedra, “a Eneida do sertão”, é surpreendente.
É possível afirmar, superficialmente,
que a trama da novela Liquidação, de
Imre Kertész, gira em torno do narrador,
Amargo, em busca de um manuscrito
perdido de B., escritor que carrega o
fardo de ter nascido em Auschwitz — não
por muito tempo. Após o suicídio de B.,
Amargo revisita o passado em busca
de respostas, tornando-se obsessivo e
beirando a loucura. A “assim chamada
realidade” não se sustenta em momento
algum. A apologia, aqui, é ao suicídio.
Wilame Prado tem 28 anos e nasceu em São Paulo (SP). É jornalista e
João Lucas Dusi tem 19 anos, nasceu e vive em
cronista em Maringá (PR). Estreou na literatura em 2011, com o livro de contos
Curitiba. Teve textos publicados no jornal RelevO e na
Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida?
revista Jandique.
Colaboradores desta edição:
Arnaldo Branco, Ademir Demarchi, Ana Paula Maia, Bruna Ferrencz,
Bruna Siena, Dario Vellozo, Erick Carjes, Glauco Flores de Sá Brito,
José Marconi, Leo Gibran, Marcelo Cipis, Marciano Lopes, Nego Miranda, Erick Carjes, Tânia Regina Oliveira Ramos e Urariano Mota.
Redação:
[email protected] | (41) 3221-4974
Biblioteca Pública do Paraná
Rua Cândido Lopes, 133. CEP: 80020-901 | Curitiba | PR.
Horário de funcionamento:
segunda à sexta, das 8h30 às 20h.
Sábados, das 8h30 às 13h.
Todos os textos são de responsabilidade exclusiva
do autor e não expressam a opinião do jornal.
jornal da biblioteca pública do paraná |
Cândido 3
curtas da bpp
Kraw Penas
Uma Noite
na Biblioteca
Entre 8 e 9 de novembro, acontece a sexta edição do projeto “Uma Noite na Biblioteca”, realizado pela Biblioteca Pública do Paraná. Como o nome
sugere, a proposta leva crianças, de 7 a
13 anos, para um divertido “acantonamento” dentro da BPP. As atividades
iniciam às 17h e acabam somente na
Prêmio Paraná
divulga resultado
no fim do mês
A Biblioteca Pública do Paraná anuncia, na última semana do mês
de novembro, os vencedores do Prêmio Paraná de Literatura. O vencedor
de cada categoria receberá R$ 40 mil e
terá sua obra publicada pela BPP, com
tiragem de mil exemplares. Os premiados também receberão 100 cópias de
manhã do dia seguinte. O evento é uma
iniciativa da Seção Infantil da BPP e
acontece desde 2010. Durante a noite, diversas atividades culturais são oferecidas às crianças, como dança, música, teatro, oficinas, gincanas e festas
que acontecem nas diversas seções da
Biblioteca. Na manhã de domingo, o
evento termina com um café da manhã
especial para as crianças e os pais, no
Hall da BPP.
seus livros. A entrega dos prêmios e livros acontece em 12 de dezembro. Elvira Vigna, Regina Zilberman e Lourival Holanda são os jurados da categoria
Romance (prêmio Manoel Carlos Karam). Cíntia Moscovich, Antonio Carlos Viana e Paulo Venturelli escolhem o
melhor livro de contos (prêmio Newton
Sampaio). Luci Collin, Augusto Massi e André Seffrin analisam as obras de
poesia (prêmio Helena Kolody). A comissão é presidida por Rogério Pereira,
diretor da BPP.
Virada Paraná
A Virada Cultural Paraná 2014
acontece nos próximos dias 15 e 16 novembro em oito cidades do interior do
Estado. O evento é uma realização da
Secretaria de Estado da Cultura em
parceira com wo Departamento de
Trânsito do Estado (Detran), e conta
com o apoio do SESI-PR, SESC-PR e
prefeituras municipais. As cidades participantes, selecionadas via edital, receberão o Palco Conexões. Wanderléa,
Almir Sater, Zeca Baleiro, Arnaldo Antunes, Monobloco e RPM são algumas
das atrações.
Flagrantes de
leitura no concurso
fotográfico Click
Ducci solo
O festival literário Litercultura, em parceria com o jornal Gazeta do
Povo, lança o concurso fotográfico Click. O tema é “flagrantes de leitura” e os
participantes devem sair às ruas com
uma câmera em punho, em busca de
fotos de leitores espontâneos. O vencedor do concurso leva um iPad mini e
bonus de R$ 500 para comprar livros
na Livraria Arte & Letra. As inscrições
ficam abertas até 11 de novembro, no
site do festival (www.litercultura.com.br).
Podem participar pessoas que residem
em Curitiba.
Kraw Penas
O ilustrador André Ducci acaba de lançar sua primeira HQ individual, chamada Fim do mundo. Sem diálogos,
apenas com desenhos em preto e branco,
Ducci narra a história de um homem que
precisa enfrentar todas as adversidades que
a natureza coloca em seu caminho. Um
homem solitário lutando contra o vento, a
neve e o mar por sua sobrevivência.
4 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
PUBLICAÇÃO
Antologia traz 101
poetas paranaenses
Em dois volumes, coletânea faz um mapeamento da produção
poética do Estado ao longo de mais de um século e meio
Da Redação
A
história da poesia paranaense acaba de ganhar um novo capítulo.
A coletânea 101 poetas paranaenses — antologia de escritas poéticas
do século XIX ao XXI, editada pela Biblioteca Pública do Paraná, por meio
do Núcleo de Edições da Secretaria de
Estado da Cultura (Seec), traz ao leitor uma inédita compilação da lírica do
Estado. Organizada pelo poeta e crítico
Ademir Demarchi, a antologia está dividida em dois volumes, cada uma com
tiragem de 1.500 exemplares, que, juntas, somam mais de 800 páginas — as
publicações serão distribuídas gratuitamente a todas as bibliotecas públicas do
Paraná e instituições culturais do país.
Os livros também serão vendidos na
BPP a R$ 15 cada exemplar.
No volume um, estão 50 poetas,
nascidos entre a primeira metade do século XIX e a segunda metade do século XX. Já o volume dois, traz 51 autores
nascidos entre 1959 e 1993. “Em vez de
uma antologia que se baseasse apenas
em alguns poucos autores tidos como
fundacionais, por isso já instituídos nas
leituras feitas por críticos e nas republicações de suas obras, preferi uma forma
mais ampla, rizomática, de lidar com o
cenário, encarando-se o risco da pesquisa extensa que levou ao significativo
número de 101 poetas”, explica Ademir
Demarchi que, em sua pesquisa, leu e
consultou mais de 300 obras de autores
paranaenses, em um trabalho que se desenvolveu ao longo de um ano e meio.
O diretor da Biblioteca Pública
do Paraná, Rogério Pereira, afirma que a
produção poética paranaense é intensa,
desde quando o Paraná se emancipou de
São Paulo, em 1853, até hoje. “É impressionante a quantidade de poetas paranaenses. Esta antologia reúne desde Dario
Vellozo e Emiliano Perneta, alguns dos
mais antigos, passando por Helena Koldy e Sérgio Rubens Sossélla, até chegar
aos contemporâneos, muitos dos quais
publicando em sites e blogs”, diz Pereira,
completando que o livro funciona tanto como uma recuperação de memória,
para quem já conhece os autores, como
uma apresentação dos poetas para as gerações mais recentes. g
jornal da biblioteca pública do paraná |
Cândido 5
ENSAIO
A poesia
que se vive
“No correr dos anos observei que a beleza, como a felicidade, é frequente. Não passa
um dia em que não estejamos, por um instante,
no paraíso. Não há poeta, por medíocre que seja,
que não tenha escrito o melhor verso da literatura, mas também os mais infelizes. A beleza não
é privilégio de uns quantos nomes ilustres. Seria
muito raro que este livro, que abarca umas quarenta composições, não entesourasse uma só linha secreta, digna de acompanhar-te até o fim”.
Ademir Demarchi, organizador da antologia
101 poetas paranaenses, traça um panorama
da poética no Estado ao longo de 160 anos
e explica como se deu o trabalho de seleção
de poemas e poetas presentes no livro
Divulgação
Nascido em Araraquara, Ademir Assunção passou parte de sua vida em Londrina. Junto com os poetas Rodrigo
Garcia Lopes e Marcos Losnak, edita a revista de literatura Coyote. Em 2013 Assunção venceu o prêmio Jabuti
com a coletânea de poemas A voz do ventríloquo.
A epígrafe acima, de Jorge Luis
Borges, ainda no gosto dos anos 1980
em que muitos nos formamos, na tradução do Pepe Escobar que líamos no
famoso “Caderno 2” do Estadão, é muito apropriada para pensar o que seja
uma antologia como esta, que foca o extenso período de aproximadamente um
século e meio, tendo como marco inicial a data de emancipação do Estado,
em 1853, chegando até os nossos dias
e englobando 101 poetas, boa parte tão
distintos quanto irregulares em sua produção poética. Ela responde à elogiável
iniciativa da Biblioteca Pública do Paraná de publicar antologias da literatura
do Estado, como forma de ampliar seu
conhecimento e circulação, estimular a
reflexão e fornecer conteúdo aos estudantes, mas também aos escritores em
atuação e aos novos escritores, na medida em que cartografias assim possibilitam reconfigurações dos mapas conhecidos, através da leitura crítica que
se possa fazer.
Em vez de uma antologia que se
baseasse apenas em alguns poucos autores tidos como fundacionais, por isso já
instituídos nas leituras de críticos e nas
republicações de suas obras, preferiu-se
uma forma mais ampla, “rizomática”, de
lidar com o cenário, encarando-se o risco da pesquisa extensa que levou ao significativo número de 101 poetas. Muitos dos que já morreram ou desistiram
da poesia não chegaram a realizar uma
obra que por si tenha sido significativa, por isso o desafio de historicização
se impôs, levando a considerar-se o papel histórico e social de cada um, expresso também nos textos publicados, dos
quais se selecionou algo que possa interessar ao leitor contemporâneo, ao mesmo tempo em que ilustre o tempo vivido
pelo autor e sua poética, sempre na expectativa de que cada um deles tenha alcançado uma resolução estética eficiente.
Em antologias que se andam publicando no país tem sido comum a
tentação do julgamento estético, sujeitando-as a uma cegueira em relação à
complexidade do campo. A motivação
de evitar julgamentos estéticos e não fazer escolhas de apenas alguns numa antologia como esta, localizada, se justifica
ainda mais quando se considera e se concorda com a constatação de Leminski
de que a literatura do Estado é recente e que esta antologia, chegando até os
nossos dias, encontra a metade dos poetas ainda em campo, com a experiência
pelo meio do caminho ou no início. Assim é que se deu a escolha desse critério
em aberto, que olha para as escritas poéticas como “experiências” que se realizaram nos poemas publicados, nos movimentos poéticos como fatos sociais,
nas revistas, nos livros e, mais recentemente, na interatividade possibilitada
pela internet, que muda radicalmente a
forma como se produz a literatura.
As pequenas edições, as raríssimas reedições ou publicações de antologias que permitam conhecer os poetas e mesmo contrastá-los para o bom
aprendizado da formação de novas escritas também motivam um trabalho
como este, de trazer ao leitor uma representação textual amplificada da história da poesia realizada no Estado.
Optou-se por ordenar a antologia cronologicamente, a partir do ano de
nascimento de cada autor, definindo-se
um conjunto de páginas mais ou menos
semelhante para todos, variando pouco,
de acordo com o potencial encontrado
em cada um. Em geral, preferiu-se que
6 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
ENSAIO
o leitor encontrasse o prazer da leitura
no contraste desse babélico vozerio que
se entrecruza rizomaticamente, se aproxima, se distancia, na medida em que
sejam comparados uns aos outros, uma
vez que “uma das características mais
importantes do rizoma talvez seja a de
ter sempre inúmeras entradas”, conforme as palavras de Deleuze.
Deixou-se de incluir nesta antologia vários escritores que estão a merecer uma compilação de textos para
possibilitar sua circulação e avaliação
de importância literária, histórica e social, que, dada a dificuldade de acesso,
escassez de tempo e ao tamanho a que
se chegou esta antologia, não puderam
ser lidos. São os casos de poetas como
Bento Cego (Antonina?, 1821?), Salvador José Correa Coelho (Lapa, 1821),
Fernando Amaro (Paranaguá, 1831),
Georgina Mongruel (1861, Bélgica),
José Cadilhe (Antonina, 1874). Outros,
ainda que incluídos, estão a merecer
sair do esquecimento ou da precariedade de publicação, como João Itiberê
da Cunha, que publicou numerosos poemas em francês nas revistas simbolistas Azul, Club Curitibano, O Cenáculo e
Almanach Paranaense, tal como Georgina Mongruel, que precisam ser traduzidos. Essas revistas mesmas, assim como
Ideia, contemporânea da Joaquim, estão
necessitando de uma edição compilada
ou fac-similar, tal como se fez com Joaquim e como se faz este ano com o Nicolau, reeditado pela Biblioteca Pública do Paraná, para que os leitores deste
tempo reencontrem aquele tempo dessas publicações. Outra iniciativa que se
tem que tomar é digitalizar todas elas
para que atinjam ainda maior público
leitor em todo o Estado e por todo o
país e até mais, dada a importância configurada nessas publicações.
São inovações como essa que
possibilitaram, por exemplo, o acesso ao
banco de dissertações e teses da UFPR,
onde se destaca o trabalho orientador
Divulgação
recente de professores como Édison J.
Da Costa e Rodrigo Vasconcelos Machado em relação ao estudo da poesia
paranaense, antes iniciado com a professora Cassiana Lacerda, com relação
ao simbolismo, ela também uma continuadora dos estudos feitos por Andrade
Muricy, entre outros.
Nesses 161 anos de emancipação
do Estado podem se identificar, grosso modo, pelo menos quatro momentos intensos de vida cultural que tiveram
reflexos na criação poética. O primeiro
deles situa-se por volta de 1890 a 1910
aproximadamente, com o movimento simbolista e suas revistas e o Templo
das Musas, com Emiliano Perneta e Dario Vellozo à frente, sendo o segundo o
que tem a obra simbolista esteticamente
mais bem realizada, enquanto que Perneta destaca-se pelos poemas decadentistas e lúbricos e aos quais se soma, presente nesta antologia, Silveira Neto.
No modernismo, se não fosse
por Brasil Pinheiro Machado, que conseguiu a proeza de inserir-se no movimento modernista e publicar poemas
na Revista de Antropofagia, nada restaria de interessante. Isso apesar de Tasso
da Silveira ter tido atuação destacada,
criando revistas ou participando delas
ativamente, sem conseguir, porém, repercussão ou uma poética consistente, a
ponto de Mário de Andrade referir-se a
ele e aos seus como “um grupo de literatos no Brasil que vai passando por demais na sombra” por seus aspectos conservadores e alheios ao que mais vital o
cenário cultural apresentava.
O segundo momento está nos
anos 1940, quando a revista Joaquim,
com Dalton Trevisan à frente, e a revista Ideia, com José Paulo Paes e outros
como Armando Ribeiro Pinto, Glauco de
Sá Brito e Samuel Guimarães da Costa,
buscaram uma renovação de ideias contra
o paranismo bairrista imperante e estagnante. Como se sabe, Dalton e Paes foram longe com suas obras, sendo Dalton
Poeta e artista plástica, Jussara Salazar publicou os livros Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá, poemas de Leticia
Volpi (2002) e Carpideiras (2011), entre outros.
um marco estético por sua ficção e Paes
um exemplo por sua poesia de viés modernista/concretista, que repercute em
diálogo com obras como a de Marcelo Sandmann, mas também exemplo
tradutório que se soma ao do concretismo e se propaga em Leminski, Jaques Brand e grupo OSS, com Antonio Thadeu Wojciechowski, Marcos
Prado, Sérgio Viralobos, Roberto Prado e outros e chega até hoje, quando há
um significativo número de poetas traduzindo textos de várias línguas e tempos, especialmente a partir de cursos
da UFPR, numa experiência que terá
forte impacto nas criações poéticas em
curso e futuras.
Um terceiro momento situa-se
dos anos 1960 a 2000. De 1960 a 1980,
aproximadamente, com os influxos da
contracultura e da ditadura encontramos escritores de esquerda, militantes politizados a ponto de serem presos
ou exilados, como Walmor Marcellino
e Manoel de Andrade, ou preocupados
com novas formas estéticas, como Sossélla e Leminski. É impressionante o
que fez Sossélla, exilando-se no interior
do Estado e constituindo uma enorme
biblioteca e uma poética do fragmento,
com a edição de centenas de livros artesanais em pequenas tiragens, reproduzindo algo do modo característico da
chamada Poesia Marginal com o cuidado de um artista, obra essa que está relegada, precisando circular em uma boa
edição, para além das antologias limitadas já publicadas. Leminski, por sua
jornal da biblioteca pública do paraná |
vez, buscou diálogo com a vanguarda
concretista, distanciando-se anos-luz
do bairrismo, indo para o campo do experimentalismo expresso no Catatau,
de 1975, que chega nos anos 1980 com
o esforço de tradução de textos de várias línguas. Em meio a esse momento
há também a metafísica de Foed Castro Chamma e de João Manuel Simões,
que busca na agonia algum sentido. Jair
Ferreira dos Santos, com um único livro, porém impactante em sua forma
de ver o Estado a distância, através de
descrições dos familiares, sempre tendo
como fundo um país marcado pela restrição das liberdades.
Ainda dos anos 1970 para os
anos 1980 poetas participantes se somam com publicações inspiradas no
movimento da Poesia Marginal e do
Concretismo, com destaque para o grupo que publicou a antologia Sala 17,
vários deles presentes nesta antologia,
como Antonio Thadeu Wojciechowski,
Marcos Prado, Paulo Venturelli, Roberto Prado, mas também outros, como
Domingos Pellegrini, Hamilton Faria,
Reinoldo Atem, Solda, Nilson Monteiro e Nelson Capucho, que tiveram intensa participação no movimento estudantil nas universidades, em saraus, no
teatro (Pellegrini) ou participação em
cooperativas de escritores e jornais. Alberto Cardoso se destaca aí pela capacidade de realizar saraus e agregar escritores em múltiplas declamações, a
marca da sua poética, que acabaram invariavelmente no seu famoso Bar do
Cardoso, mesclando no próprio nome
do local o poeta etéreo e o éter da bebida como a marca de muitos desses poetas, afinal consumidos por cirrose antes
que as musas os consumissem...
De 1987 a 1996, circulou o jornal Nicolau, editado por Wilson Bueno, marcante pela repercussão obtida no
Estado, dando voz a numerosos escritores e poetas paranaenses, mas também
exercitando o que já se pode dizer que é
uma tradição, apesar do paranismo mais
arraigado, que é a busca do diálogo com
escritores e artistas de todo o país e até
mesmo do exterior, característica essa
que, no campo cultural, se ampliará nos
anos seguintes, especialmente a partir
de 2000. O jornal teve impressionantes tiragens, sendo distribuído nacionalmente e deu amplo espaço à poesia
e à tradução.
Os intensos anos da contracultura, dos quais Leminski e Alice Ruiz
são as maiores referências, começam a
se diluir nos anos 1990, anunciando poetas orgulhosos da influência, ou apontando a mudança da vida social sob a
sombra da Aids, como sugere a poética de Rollo de Resende que, com Jane
Sprenger Bodnar, fez o projeto Homeopoética pelos bares de Curitiba.
Um ponto criativo vital nesse momento esteve na página Musa Paradisíaca, publicada de 1995 a 2000 nos jornais
Gazeta do Povo e A Notícia, por Josely
Vianna Baptista e Francisco Faria, empenhada na discussão com interlocutores nacionais e estrangeiros, sinalizando
a vocação vanguardista e antropofágica
dos editores e escritores nela presentes e
a impressionante variedade de assuntos
abordados, que vão da cultura ameríndia à tradução e reflexão sobre escritores das Américas do Norte, Central e do
Sul. Musa Paradisíaca, ao começar após
o fim do Nicolau, como que o continua,
amplificando muitas das suas qualidades e características, tendo sido Josely
Vianna Baptista ela mesma partícipe da
equipe que o criou, e lá iniciado a publicação de textos da cultura Ameríndia,
entre outros trabalhos.
A cena mudaria fortemente na
primeira década do século XXI, o quarto período referido, que chega até este
momento, marcado pela criação de novas revistas de literatura de projeção nacional, todas com olhar globalizante, com
muitas traduções. De 1998 a 2000, com
seis edições, a revista Medusa sinaliza
esse novo momento. Surgem então as
revistas Coyote, Oroboro, EtCetera, Babel, Bólide, o jornal Rascunho, o jornal
RelevO, e uma significativa quantidade de novos poetas de escrita refinada,
à qual se soma, ou até mesmo antecede (com Josely Vianna Baptista em relação aos hispânicos, Ricardo Corona
e Rodrigo Garcia Lopes com os norte-americanos e outros, bem como as
experiências editoriais do Nicolau e da
Musa Paradisíaca), um impressionante esforço tradutório que não se limita
aos clássicos latinos (Guilherme Gontijo Flores, por exemplo, com as Elegias
de Sexto Propércio e as Odes de Horácio),
ingleses românticos (o Shelley traduzido por Adriano Scandolara), ou modernistas (o Ulysses de Joyce, por Caetano W.
Galindo), ingleses e irlandeses (por Luci
Collin), norte-americanos mais recentes
(Bukowski por Fernando Koproski), a
pegada variada de Ivan Justen Santana
Cândido 7
e Rodrigo Madeira e outros, e um blog
como Escamandro, de poesia, tradução
e crítica, também transformado numa
nova revista impressa, aprofundando
essa experiência.
Quanto aos poetas e seus poemas
propriamente ditos presentes nesta antologia, muitas outras relações e leituras podem ser feitas. Na poesia de Júlia
da Costa pode se conhecer a rudeza de
seu tempo e a sua vida trágica, expressa pelo viés do romantismo, que se pode
relacionar aos poemas de amor não correspondido da melhor fase de Helena
Kolody, também aos poemas ao som de
valsa e bar de Colombo de Sousa e com
o lirismo amoroso e por vezes irônico
de Fernando Koproski.
É instigante também descobrir o
que fez no Paraná um imigrante japonês
como Nenpuku Sato, em sua determinada disseminação do haicai e das poéticas e cultura japonesas, que encontra em
Reprodução
Célebre por sua ironia, língua ferina e aptidão à boemia, Emilio de Meneses foi poeta e jornalista. Nasceu em Curitiba, mas
aos 18 anos se mudou para o Rio de Janeiro, onde fez carreira. É autor de Marcha fúnebre (1892) e Poemas da morte
(1901), além de um extenso anedotário, quase todo disperso.
8 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
ENSAIO
Alice Ruiz uma continuadora persistente na observação da natureza, contra essa
paisagem agrícola que parece onitemporal no Estado; ou, por outro aspecto,
pode-se rir das diatribes de um Emilio
de Meneses, no que há de melhor de sua
poética, a irônica, que está também em
Antonio Thadeu Wojciechowski e Solda, em distintas modulações.
Outros escritores se somam nesses cenários com suas poéticas peculiares, como Fábio Campana, repercutindo o clima político dos tempos de
chumbo dos anos 1970; Mirian Paglia
Costa, com seu primeiro livro premiado
e de grande repercussão pela contundência poética com que retrata a infância em Londrina; Domingos Pellegrini,
com uma impressionável vitalidade que
vai do poema engajado dos anos 1970
ao soneto crítico mais recente, passando
pelos bem-humorados haicaipiras; os
poemas cancionados de Neuza Pinheiro; Wilson Bueno, do barroco à poesia
amorosa; a simplicidade irônica e crítica
de Hélio Leites; Miguel Sanches Neto,
com sua poética que vai da autobiografia à biografia dum outro si mesmo
na barroca Ouro Preto; Josely Vianna
Baptista, Sylvio Back e Ricardo Corona, entre outros motivos pelas poéticas
inspiradas na tradição indígena do Estado e na exploração da performance
estética do texto, ampliando-a para uma
relação com a arte, no espaço das galerias e da ação performática que envolve
o escritor como artista; Marcelo Sandmann com sua poesia sintética, rigorosamente formal, ao mesmo tempo irônica, que dialoga com o modernismo e
chega à canção; Mário Bortolotto com
poemas que ressoam blues, a violência
urbana e a marginalidade, que podem
ser lidos em contraste e pelas similaridades com os poemas de um novo escritor como Nelson Alexandre; a reinterpretação do simbolismo em Andreia
Carvalho; as paisagens e a vida interiorana na lírica poesia de Marco Aurélio
Cremasco, em contraste com o sujeito
poético “ultracontemporâneo” de Ana
Guadalupe, conforme remarcou Heloísa Buarque de Hollanda ao selecioná-la para uma antologia espanhola...
Um lirismo contemporâneo marcante,
cujo “eu poético” ganha complexidade
em poetas como Mauro Faccioni Filho,
Marcos Losnak, Luiz Felipe Leprevost,
Alexandre França e Rodrigo Garcia
Lopes. Ou fica cindido com a exposição dos excessos da linguagem, conforme exposto nas poéticas de Ricardo Pedrosa Alves e Amarildo Anzolin.
Essas questões estão todas presentes em poéticas mais recentes, em
geral marcadas por um rigor na escrita ou pelo experimentalismo que chamam a atenção, sinalizando vigorosa
renovação poética sob os influxos desse cenário cultural complexo em suas
múltiplas manifestações. Destacam-se
por suas peculiaridades, citando aleatoriamente, Mario Domingues, Rodrigo
Madeira, Ivan Justen Santana, Ricardo
Pozzo, Adriano Scandolara, Guilherme
Gontijo Flores, Estrela Ruiz Leminski,
Pedro Carrano, Homero Gomes, Beatriz Bajo, Adriano Smaniotto e Ricardo
Schmitt Carvalho.
Outra característica importante é o fato de que a poesia já não está
somente na capital, mas muito ativa no
interior do Estado, nem por isso, contudo, desconectada, como se pode constatar por poetas como Jairo B. Pereira,
de Quedas do Iguaçu, com uma poesia experimental que parte de si e chega aos sem-terra e aos índios; e Solivan
Brugnara, também de lá, com poemas
que retratam de modo singular a fronteira. Como esses, outros poetas podem
ser descobertos sob essa ótica transcendente do local, em pontos como Maringá, Foz do Iguaçu, Rio Negro... ou no
Rio de Janeiro, Campinas, Florianópolis, São Paulo, Santos...
Outra marca comum a vários autores é a metapoética, como na de Glauco
Divulgação
Radicada em São Paulo, a poeta londrinense Ana Guadalupe teve seus poemas publicados em antologias da Espanha,
México e Estados Unidos. É autora do livro Relógio de pulso (2011).
Flores de Sá Brito, que remete a Dalton
Trevisan (no qual se pode ler Emiliano
Perneta), ou na de Marcelo Sandmann
em relação a José Paulo Paes, Dalton, Leminski; e de tantos outros poetas a estes
últimos, como Sossélla, com um livro
dedicado ao “cachorro louco Paulo Leminski”, além de vários livros ou poemas em que se refere a outros escritores
paranaenses transformados em personagens, assim como João Manuel
Simões com um livro de poemas que
remetem a escritores. Essa escrita poética, assim configurada, estabelece uma
prática de leitura crítica curiosa, alimentando um universo próprio de escritores que vão habitando esse espaço imaginário da poesia como se fosse
o bairro imaginado do escritor português Gonçalo M. Tavares.
É interessante também, sob esse
aspecto, a predileção dos escritores paranaenses pela forma poética do haicai e do tanka, que se dissemina como
prática e diálogo por quase todos, indo
dos já observados Nenpuku Sato, Alice Ruiz, Antonio Thadeu Wojciechowski, Wilson Bueno, passando por uma
variante divertida e naturalizada ao local como os “haicaipiras” de Pellegrini
e chegando nas versões de Alvaro Posselt, tendo até mesmo em Dalton Trevisan, na ficção, uma espécie de horizonte
perseguido por seu texto que, depurado
à exaustão com o tempo, ganha contundência para se tornar quase um haicai
jornal da biblioteca pública do paraná |
Cândido 9
Reprodução
Principal representante do simbolismo paranaense,
Emiliano Perneta viveu entre 1866 e 1921. Autor dos livros
Ilusão (1934) e Pena de Talião (1914), em 1911 Perneta
foi coroado o “príncipe dos poetas paranaenses”, em uma
cerimônia realizada no Passeio Público de Curitiba.
Divulgação
O poeta e tradutor tradutor José Paulo Paes estudou
química industrial em Curitiba nos anos 1940, quando
fez parte do grupo que editou a revista Joaquim, sob
o comando de Dalton Trevisan. Em 1947, publicou na
capital paranaense o livro de poemas O aluno.
em poucas pinceladas que desvelam eficientemente seu universo ficcional.
É marcante também a articulação da poesia contemporânea, que não
fica mais confinada ao local, com os poetas em diálogo com outros e com revistas de todos os lugares, na medida
do seu empenho e alcance, fato constatável nas biobibliografias. Isso se expressa também em premiações de todo
tipo, sinalizando um espírito competitivo que deve, necessariamente, se refletir
em poéticas mais rigorosas e críticas e
obras mais bem realizadas que não parem nos primeiros livros.
A inspiração rizomática da antologia, sob outro aspecto, permite várias
conexões, como ler a Sulamita de Dalton Trevisan ecoando os simbolistas, em
Emiliano Perneta mesmo, sendo ele um
dos que a tematizou em sua poesia mais
lúbrica; essa Sulamita de ambos ecoa
também na escritora mais jovem incluída na antologia, Bruna Siena.
Nessa massiva ação de leitura e
releituras muito chamou a atenção, mas
dois livros merecem destaque pela peculiaridade. O primeiro deles é Colar de
maravilhas, de Mirian Paglia Costa, publicado em 1981 por Massao Ohno —
Roswitha Kempf Editores, com ilustrações de Darcy Penteado, que recebeu o
Prêmio de Revelação Literária da Associação Paulista de Críticos de Arte
(APCA) e foi elogiado por escritores
como Carlos Drummond de Andrade, Millôr Fernandes e Paulo Rónai; a
contundência poética sobre a infância e
a vida às margens do Tibagi dos anos
1950 para os anos 1960 é notável e algo
dele pode ser lido na antologia. O outro é Brisais, de Jaques Brand, publicado
em 1997 e que, nos poemas podemos
encontrar exemplos de como a relação
com a tradição pode ser divertida e interessante, sobre como a tradução pode
ser transcriativa sem ser pedante; sobre
como a poesia é sinônima de amizade
e irmanamento que se dá tanto com os
autores que se lê e se traduz ou transcria, quanto com os poetas e leitores
contemporâneos com os quais se compartilha essa experiência.
Feitas todas essas observações, caberia ainda dizer algo quanto aos critérios
mais pessoais que nortearam as escolhas
dos poemas, questão perfeitamente pertinente, uma vez que está no cerne da discussão quanto ao que seja a poesia para
quem ousa se situar nesse campo. Devo
dizer que depois do legado do alto Modernismo, em seu empenho de discussão
estética que atingiu fortemente a poesia, não se pode mais querer fazê-la sem
uma mínima consciência crítica do que
seja, impondo-se ainda ao poeta contemporâneo aquelas primazias que caracterizam a poesia da modernidade,
que são as categorias negativas, tal como
apontadas por Hugo Friedrich, somadas ao antagonismo à sociedade, assunto
caro a Adorno e outros estudiosos, como
Barthes. Ilustrativa dessa questão do antagonismo social é a antologia Vinagre,
feita no calor da hora das manifestações
que tomaram o país em junho de 2013,
na qual participaram diversos poetas paranaenses.
Sob esse aspecto, portanto, encarar a missão de elaborar uma antologia tem um tanto de buscar respostas ao fato de que “a tensão dissonante é
um objetivo das artes”, considerando-se
que, para o antologista, essa tensão continua válida contemporaneamente, tanto quanto foi para a modernidade, cabendo, portanto, buscar nos escritores,
sob diversos aspectos, esse sentido de dissonância em sua obra em relação ao tempo
em que vivem ou viveram. No entanto, ainda que haja uma predileção por esse critério, oriundo de uma estética pessoal, ao definir a pesquisa numa gama tão ampla de
escritores, há que se considerar não apenas
o critério de “transformação”, fortemente
associado ao referido antagonismo, mas
também os de “sentimento” e de “observação”, tidas essas como as três maneiras
possíveis de comportamento da composição lírica que domina a poesia moderna e ainda repercute.
Paulo Leminski, num texto muito
comentado, também intentava responder
a essa demanda, pois ao referir-se à poesia, compreendendo seu sentido máximo
de dissonância, dizia que ela está além
da utilidade, pois a poesia é dessas coisas “que não precisam de justificação nem
de justificativas” porque ela “é o princípio
do prazer no uso da linguagem” e só tem
sentido, só é poesia, se proporciona prazer e tem capacidade de produzir “mundos novos” ou sentidos novos, alheios ao
utilitarismo da sociedade que impõe valor cambiável a tudo.
Feitas essas observações todas,
nunca suficientes, cabe ao leitor e aos
poetas a fruição desse recorte, com a expectativa de que novas leituras, recortes
e descobertas se realizem, produzindo
“os novos mundos” de que falava Leminski, bem como o necessário prazer
da linguagem.
a poesia
que se vive
o leitor
que se vire g
Ademir Demarchi nasceu em Maringá, em 1960. Foi editor
das revistas BABEL e Babel Poética. Também organizou a
antologia Passagens, que reúne 26 poetas paranaenses.
Como poeta, publicou Os mortos na sala de jantar (2007),
Do sereno que enche o Ganges (2007) e Pirão de sereia
(2012). Vive em Santos (SP).
10 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
POEMA | BRUNA SIENA
OS FANTASMAS DA CIDADE QUE RI
Arrumando as cidades
enquanto escuto aquele disco
que me lembra da sua retina grudada
nos vidros blindados do parapeito
e meu peito estourado
de fumaça dos carros
do cigarro
do incêndio aqui dentro
e queima tudo que é de gelo
não descongelo.
As cidades me desarrumam
e no quadro do corredor
você ri pra mim
engulo o choro
passo reto
não te olho pra não ser
obrigada a arrancar os meus olhos
e a cidade toda ri
o céu fechado
o sinal aberto
o café quente pra caralho
queimando os dedos calejados de punheta.
E tudo continua vazio
tudo geme
fecunda
rebola na minha cara
é lá na vida que eu descobri a coisa
a coisa que atira e não resgata
deixa o corpo apodrecer
no ventre da cidade que ri
no beco que estupra e não goza
o asfalto molhado refletindo
os fantasmas do alto
bebendo conhaque
voltando pra casa.
Bruna Siena nasceu em 1993 em Maringá
(PR), onde vive. É autora do livro Dolores
morreu, ainda inédito.
Bruna Ferrencz Ilustração
jornal da biblioteca pública do paraná |
Cândido 11
DARIO VELLOZO | POEMA
AO CAIR DAS FOLHAS
Hélàs! Les beaux jours sont finis!
Théophile Gautier
Teus vestígios buscando. E a sombra esquiva e dúctil
De teu corpo, e o teu ser de enlevo e de harmonia.
As acácias em flor... E a voz? E a luz macia
De teus olhos? E a flor do teu sorrir? ... Inútil
Meu afã de buscar-te!... A vida leve e fútil
Empolgou-te... O jovem esquecido... A poesia
Do céu, da natureza, evolada... Sombria,
Deambula na noite a minha alma inconsútil.
Linda e formosa! Linda! Eu quisera elevar-te
Um templo de saber, de sentimento e de Arte,
Culto de graça e amor à Musa do Ideal.
Deslumbrou-te o clarão do mundo. Adeus, Senhora!
Hoje: sombra... Ontem: luz, a flama inspiradora
Do bardo... Eleita: e morta... Eleita: e tão fatal!
Dario Vellozo nasceu em 1869, no Rio de Janeiro. Em 1909,
construiu o Instituto Neo-Pitagórico, espaço de debates
literários, da cultura helenística e do movimento simbolista
em Curitiba. Também foi o criador da revista O Cenáculo
(1895-1897). Publicou, entre outros, os livros Ephemeras
(1890), Esquifes (1896) e Hélicon (1908). w
Bruna Ferrencz Ilustração
12 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
POEMA | marciano lopes
MIRANDO JANIS JOPLIN
É nesta cadeira, vejam,
é nesta cadeira vazia
que ouço Janis Joplin
e converso com Bertold Brecht
sobre os absurdos do mundo.
É nesta cadeira, vejam,
que ouvimos Neruda cantar
e converso com o mais estranho
e eclíptico demente
que com meus olhos meninos eu vi!
Ele se delicia com rainhas,
balões, porcos e pedras rolantes,
Mirando Janis Joplin
grita berra! e sussurra baixinho...
que não tem certeza de nada
e que a ignorância também é sábia.
Fala de doidos amores,
das mulheres que comeu e cuspiu
nos podres vasos da aurora,
nos bares imundos em que deixou
o âmago quente do seu estômago
cansado da burra servidão do dia.
É nesta cadeira, vejam,
É nesta cadeira vazia
que ouço Janis Joplin.
Não, não assuste não!
São somente máscaras com que disfarçamos o medo,
o vazio o vácuo a velocidade
a voz que vem do nada por todos os lugares
jorrando como sangue do coração
fazendo esgares nos espelhos
espalhados pelo caminho.
É nesta cadeira, vejam,
é nesta cadeira vazia
que ouço Janis Joplin!
Bruna Ferrencz Ilustração
Marciano Lopes nasceu em Porto Alegre, em 1965. Foi
professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Publicou os livros de poemas Torpor e A contrapelo.
jornal da biblioteca pública do paraná |
Cândido 13
glauco flores de sá brito | POEMA
BALADA DE BELSEN
Mais forte que a voz dos vivos
e a voz dos soldados mortos
Na grande libertação
O clamor dos mortos, mortos
Nos campos de concentração
Incinerados nos fornos
Cadáveres contorcidos
Numa alucinação.
Os mártires da vitória
Que exigem reivindicação
Não podem ser esquecidos
Não, por muita geração
Fantasmagóricas sementes
De toda a libertação.
Oh, tu, das mãos decepadas
Oh, tu, sexo rasgado
Oh, tu, crânio esfacelado
Nas câmaras de “purificação”
Menino enterrado vivo,
Não esqueceremos, não!
Oh, ressequidas sementes
Semeadas nos fundos valos
Dos campos de concentração
Sóis as raízes fecundas
Da grande libertação.
Onde existir um tirano
Houver uma inquisição
Vossa lembrança na mente
Dos que viram nossos corpos
Convulsos, contorcionados
No estático ballet
A mente que vos lembrar
Derrubará o tirano
É a sua inquisição.
Membros desarticulados,
E rostos intumescidos
A imensa podridão
A que fostes reduzidos
Será bandeira, uma flâmula
Guiando à libertação.
Vós dolorosa semente
Do trigo da liberdade.
Que a todos dará o pão.
Bruna Ferrencz Ilustração
Glauco Flores de Sá Brito nasceu na cidade gaúcha de
Montenegro, mas se mudou para Curitiba em 1937, aos 18
anos, onde se destacou na atividade teatral, tendo sido, com
Ary Fontoura, fundador do Teatro Experimental do Guaíra.
Começou a publicar poemas nos anos 1940 e é autor de O
marinheiro (1947) e O cancioneiro de amigo (1960).
14 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
entrevista | sÉrgio augusto
“Se pudesse,
não escreveria
mais uma linha”
O escritor e jornalista Sérgio Augusto revê sua carreira de
54 anos no jornalismo e fala sobre os temas que mais o
instigam ainda hoje, como a literatura, os grandes cronistas
e o declínio do jornalismo cultural brasileiro
Marcio Renato dos Santos e Luiz Rebinski
jornal da biblioteca pública do paraná |
Maria Lucia Rangel
A
história do jornalismo cultural brasileiro
do século XX não pode ser contada
sem que Sérgio Augusto empreste o
nome a um verbete. Colaborador das
principais publicações do país desde os
anos 1960, quando estreou no jornalismo como
crítico de cinema na Tribuna da Imprensa,
aos 18 anos, Augusto representa hoje uma
espécie em extinção no jornalismo cultural
brasileiro: a do jornalista que consegue, sem ser
cabotino, escrever com a mesma propriedade
sobre temas tão variados como cinema, música,
futebol, problemas sociais e política. O que
lhe rendeu elogios superlativos ao longo da
carreira, como o de “Montaigne brasileiro”,
exaltado por Moacyr Scliar na orelha de As
penas do ofício, uma reunião de artigos de
Sérgio Augusto publicada na metade dos anos
2000. A literatura foi outro tema que rendeu
ao jornalista muitos textos. Suas análises e
memórias sobre autores importantes da nossa
literatura povoam prólogos e posfácios de
obras essenciais, em geral resgatadas do limbo
editorial. É o caso recente de O mais estranho
do países, livro de crônicas de Paulo Mendes
Campos em que Sérgio Augusto dá ao leitor
a dimensão do cronista mineiro dentro do
cenário literário nacional. Há poucos anos, o
jornalista coordenou a reedição dos livros de
Rubem Fonseca pela editora Agir, um dos
temas que ele comenta nesta entrevista. O
escritor também fala sobre jornalismo pósinternet, a derrocada dos cadernos de cultura
tradicionais e o mercado editorial brasileiro.
Cândido 15
16 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
entrevista | sÉrgio augusto
Com a crise da imprensa escrita, os cadernos de cultura estão sendo
escritos por gente muito jovem, que se
submete aos salários baixos que os jornais oferecem hoje. Qual a sua avaliação a respeito do jornalismo cultural
praticado atualmente no Brasil?
É uma cobertura utilitarista, norteada pelo mercado e pautada pelos divulgadores de editoras, artistas, produtores de filmes e peças etc, que se
tornaram superegos dos editores. Se o
noticiário político muito se ressente da
promiscuidade que existe, sobretudo em
Brasília, entre jornalistas e políticos, do
jogo de favores que se estabelece entre
eles, na cobertura cultural não é menor
o compadrio, a complacência com os
produtos lançados e a desigualdade de
tratamento dispensado a quem é e não é
amigo ou “funcionário da casa”. Em 54
anos de profissão nunca vi o jornalismo
de patota ou dinástico praticado com
tanta intensidade e desfaçatez como
agora. Claro que em redações com alto
índice de noviços e elevada rotatividade,
onde o medo de perder o emprego só
fez crescer nos últimos tempos, esse clima encontrou o ecossistema ideal para
proliferar. As editoras mais poderosas
praticamente editam o que sai sobre
seus lançamentos e é publicado nos jornais; escolhem o dia, exigem primeira
página, às vezes escolhem até qual veículo deverá ter prioridade ou mesmo
exclusividade. Montaram um esquema
que transformou os cadernos de cultura & amenidades em meras vitrinas, em
extensões de seus press releases. E ai de
quem ousar romper esse pacto sinistro.
Nos últimos anos o cerco tem se
fechado para as publicações dedicadas à
cultura no Brasil. As últimas baixas foram a revista Bravo! e o caderno “Sabático”, do Estadão, ambos veículos em que
você era colunista. Por outro lado, a cultura se expandiu de outra maneira, com
mais publicações segmentadas surgindo
fora do Eixo Rio-São Paulo, sem falar na internet. Assim como acontece
com a informação de um modo geral,
os grandes veículos perderam a hegemonia e a relevância na área cultural?
Perderam, não sei quanto, e na
certa perderão mais à medida em que
a imprensa gutenberguiana apressar seu
passo rumo à extinção. Há bastante jornalismo cultural de qualidade igual ou
superior na internet, embora o lixo ainda predomine, quando nada porque na
web o espaço é infinito e o que nela se
divulga não é filtrado, editado, apenas
manipulados por algoritmos desprovidos de qualquer senso crítico. Muita
gente, especialmente as gerações mais
novas, se informa pela internet, capta e troca opiniões pelas mídias sociais.
O primado do jornalismo de serviço ao
qual os segundos cadernos se escravizaram há duas ou três décadas, em detrimento de um jornalismo mais, digamos, reflexivo, crítico e impermeável à
agenda de lançamentos, foi um tremendo retrocesso. Facilitou o trabalho e a ascensão de profissionais mal formados e
informados, pois o jornalismo de serviço pouco exige deles, é quase um trabalho braçal, mas não atraiu novos leitores
na quantidade almejada. Como o jornalismo impresso só terá futuro se tomar o
caminho inverso, tornando-se reflexivo,
analítico, nada de textinhos curtos e opiniosos, apanágio da internet, ainda lhe
resta uma esperança. Mas o problema
maior persiste: como superar a preguiça
das pessoas para ler textos que excedam
dois parágrafos curtos, sejam eles impressos ou pixelados numa tela? O maior
paradoxo da internet foi ter inventado o
hipertexto e estimulado o hipotexto.
“Fazer listas, esse passatempo adolescente que a juvenilização
do planeta transformou num esporte ecumênico e onipresente, vem enchendo a burra de um bocado de gente.” A frase está no texto “Para quando
jornal da biblioteca pública do paraná |
Cândido 17
Walter Craveiro
o mundo acabar”, publicado na revista
Bundas, em 21 de novembro de 2000, e
incluído no livro Lado B. O jornalismo
cultural utiliza-se do expediente. O que
acha das listas? Faz sentido ter listas?
Fazer listas é um folguedo infantil (ou adolescente, como queira),
uma masturbação taxonômica, inócuo
e inconsequente. Já brinquei muito
disso, em priscas eras, mas tomei fastio, assim como me cansei de dar cotações a filmes, estrelinhas, bolas pretas e outras avaliações reducionistas,
tão tolas quanto as reações do bonequinho de O Globo. Sei que fazer listas é uma das coisas que distinguem o
ser humano dos animais, mas não faço
a menor questão de me distinguir por
essa habilidade dos bichos que tanto admiro e venero. Já os questionários, cujo modelo mais famoso é o de
Proust, me agradam.
Você é um entusiasta do jornalismo praticado em revistas americanas
como The New Yorker e Atlantic. Temos
uma tradição rica de grandes jornalistas, mas o jornalismo americano ainda
é melhor que o nosso? Sempre foi?
Sempre foi. Tivemos e ainda temos jornalistas culturais de enorme talento — hoje em menor quantidade,
certo —, mas nesse ramo os americanos
e ingleses continuam imbatíveis. Mas
nem nos Estados Unidos nem na Europa houve um fenômeno da magnitude
de Otto Maria Carpeaux, que era austríaco mas se fez jornalista aqui no Brasil.
Recentemente a literatura nacional perdeu João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, dois escritores que, de alguma forma, pensaram o Brasil em seus
romances. Um tema que parece não estar na rota dos escritores contemporâneos. O romance-painel, como Viva o
povo brasileiro, já não tem mais função,
nossa literatura já explorou suficientemente a formação da nação?
Desconfio que sim. Ficaria
surpreso se aparecesse aí um novo épico, um novo romance-painel do fôlego
de Viva o povo brasileiro. Os romances
encolheram, muitos são quase novelas
ou contos espichados, consoantes a preguiça cada vez maior do leitorado, viciado
pela internet e certos jornais na leitura de
textos curtos. O roman-fleuve secou e nem
podemos culpar a degradação do meio
ambiente por esse desastre intelectual.
Quando se pergunta a um escritor com mais de 60 anos o que ele anda
lendo, é provável que ele responda que
não tem acompanhado as novidades,
que está relendo livros que foram importantes em sua trajetória, mas não
suficientemente digeridos como deveriam. Como pauta suas leituras hoje?
Também está na fase da releitura?
Infelizmente não. Mas não é por
falta de vontade. Não tenho mais aquela sofreguidão da onisciência, típica da
imaturidade, que alguns chamam de
juventude. Divido minhas leituras entre o desejo e a necessidade. O desejo
está ligado, de certo modo, à curiosidade. A necessidade está sempre ligada
ao trabalho. Gasto horas percorrendo
links atrás de links para conhecer melhor um assunto sobre o qual escreverei
(ou tentarei escrever) um artigo para o
jornal, em geral para o “Aliás” do Estadão, que trata de questões mais ligadas
à atualidade. Às vezes me meto a tratar de temas com os quais tenho pouco intimidade, justamente para superar essa lacuna. Há pouco gramei, em
versão kindle, trezentas páginas de um
fascinante estudo sobre o hidronegócio global— The Price of Thirst — porque cismei de tocar no problema da falta d’água em São Paulo. Talvez jamais o
lesse se não tivesse de escrever sobre a
escassez e a comercialização da água no
planeta. Como quase sempre eu mesmo me pauto, pode me chamar de masoquista. Ah, sim, faço com livros o que
18 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
entrevista | sÉrgio augusto
Walter Craveiro
faço com filmes: se me aborrecer, largo
no meio — ou mesmo no início. A vida
é curta e são muitos os livros que ainda
não li por falta de tempo. Com ficção costumo ser implacável. Se um romance ou
uma novela não me seduz, não me intriga,
começo a me cobrar por que, diabos, não
estou relendo Flaubert.
E a literatura de ficção brasileira contemporânea? Procura conhecer
novos nomes?
Não como deveria fazê-lo, nem
que fosse por mero dever de ofício. Milton Hatoum, Cristovão Tezza, Sergio
Sant’Anna e Bernardo Carvalho me interessaram desde o início; outros (não
citarei nomes) nem no início; e outros
abandonei à medida em que fomos envelhecendo e envilecendo. Tenho graves lacunas, nenhuma, creio, tão gritante quanto Evandro Affonso Ferreira, que não
vejo a hora de degustar. Confesso, sem
culpa ou vergonha, que leio mais e com
maior interesse os autores de língua espanhola. Nacionalismo em arte não existe.
Há certo consenso de que o
mercado editorial brasileiro se profissionalizou nas últimas duas décadas,
além de ter se expandido, com mais
e melhores editoras. Isso passa tanto pela parte operacional do negócio,
quanto, por exemplo, pelas traduções,
hoje feitas diretamente de qualquer
língua. Concorda com essa visão?
Concordo plenamente. As duas
coisas caminham juntas, não? Quando
leio um livro estrangeiro, costumo marcar a lápis as frases e expressões capazes
de derrubar um tradutor; se por acaso
me cabe resenhar sua edição brasileira, já tenho meio caminho andado: se
o tradutor superou aquelas armadilhas,
posso confiar no restante.
Quando Rubem Fonseca saiu
da Companhia das Letras e passou a
ser editado pela Agir/Nova Fronteira,
você foi o responsável pela coordenação da reedição da obra do autor. Nesse
trabalho, foram recuperados textos de
outros autores sobre Fonseca, além de
posfácios inéditos assinados por você.
Como foi esse trabalho de revisão da
obra de um escritor tão importante? A
releitura dos livros de Fonseca foi reveladora em algum sentido? Apontou
novas perspectivas?
Embora amigo de Zé Rubem
desde o início dos anos 1960, quando
ele ainda trabalhava na Light, não soube por ele de sua saída da Cia. das Letras,
mas de Paulo Roberto Pires, então diretor da parte editorial da Ediouro/Agir.
A Nova Fronteira ainda não havia entrado na história. Paulo Roberto partiu
logo para conquistar Zé Rubem para
suas hostes e me propôs fazer a curadoria da reedição, o que, segundo ele, facilitou sua cantada no cobiçado escritor,
pois, conforme já disse, somos amigos
de longa data. Parêntese importante: fui
responsável pela ida do Zé Rubem da
Francisco Alves para a Cia. das Letras.
Luiz Schwarcz me confidenciou que
adoraria ter Zé Rubem em seu catálogo.
A transação foi facilmente armada durante um almoço en petit comité no Copacabana Palace com a agente espanhola Carmen Barcells, a escritora chilena
Isabel Allende, Luiz Schwarcz, Zé Rubem, Nélida Piñon, Affonso Romano
de Sant’Anna, este que vos fala, e não
me lembro mais quem, no Copacabana Palace. Zé Rubem não estava satisfeito com a Francisco Alves e fez muito
bem em ir para a Cia. Fechado o parêntese. Fazer a curadoria foi uma tarefa tranquila. Zé Rubem não lê, ou pelo
menos diz que não lê, o que escrevem
sobre ele e seus livros, mas seu arquivo
de recortes, organizado por uma amiga,
é farto e organizado. Nele e nos meus
guardados catei as resenhas e os ensaios
que me pareceram os mais relevantes,
montei um arremedo de “fortuna crítica”, reproduzimos as capas das traduções de cada livro no exterior, escrevi os
posfácios, e pronto. Posfácio é um fardo:
supõe-se que seja lido depois do texto
principal, o que, se em parte nos libera
do risco de “spoilers”, nos obriga a fugir
da redundância o tempo todo. Conforme os volumes iam saindo, meu estoque
de observações e achegas sobre o autor e determinados aspectos e personagens de sua obra foi-se esgotando. Quase entrei em pânico. Seu conceito como
mestre em narrativas curtas permanece,
a meu ver, inabalado. Zé Rubem enobreceu o gênero noir entre nós e criou
jornal da biblioteca pública do paraná |
uma legião de discípulos e imitadores
que nunca me apeteceram, até porque
nunca fui chegado à literatura policial.
“Bunda” ainda é a sua palavra preferida da língua portuguesa? Por quê?
É. Por seu poder descritivo, por
sua sonoridade. Também era a palavra
favorita de Drummond. Gosto muito
de cafuné, dengoso (dengosa é melhor
ainda), chamego, pachola. Do ponto de
vista estritamente semântico, minha favorita, em qualquer língua, é alívio. É o
que sentimos quando superamos nossas
piores dores e aflições.
Você mesmo afirmou: a televisão emburrece, a televisão é a cocaína
do povo. Tem assistido algo na televisão? Caso sim, o quê?
Raramente vejo televisão. Para
quem passa o dia plugado na internet,
os telejornais pouco acrescentam. De
todo modo, meu canal default é, faute de mieux, a Globo News. Até a Copa
acompanhava de perto o futebol, mas
me desencantei tanto com o futebol
aqui praticado — e mais ainda com o
Botafogo — que cancelei minha assinatura do PFC (Premiere Futebol Clube), uma inutilidade se você quiser apenas assistir aos campeonatos europeus,
transmitidos de graça pela ESPN e pela
Fox. Sou, em parte por necessidade geográfica, digamos assim, assinante da
Sky Net, que é uma porcaria. Oferece
trezentos e tantos canais, se me sirvo
de meia dúzia é muito. Não podemos
fazer nosso próprio pacote, cancelando o que consideramos lixo, como, no
meu caso, por exemplo, os canais infantis (não tenho criança em casa), os
evangélicos, os de compra e venda, os
de leilão de gado etc. Dia desses descobri que estava pagando cinco reais por
um canal que nem de graça me interessa: o japonês NKD. Isso é um sacanagem com o consumidor. O problema é
que você não tem opção. A programa-
ção de filmes é uma tristeza — e até filmes dublados já passam na TV a cabo.
Salvam-se os seriados e o Netflix. Fui
um fanático seguidor de Mad men, desde o início, e também de House of cards,
Newsroom e Homeland.
Alguém já comentou que há
pontos de contato entre o seu texto e
o de Paulo Mendes Campos. Há algo
em comum? O que seria?
Nunca me disseram isso. Creia-me: você acaba de me fazer o maior
dos elogios. Se temos algo em comum,
só você, por enquanto, pode discorrer a
respeito, e adoraria que o fizesse. Invejava a maneira como Paulinho conseguia
ser, a um só tempo, erudito e claro, leve
e profundo, lírico, sem pedantismo, informativo e encantador. Um jornalista
cultural perfeito. Quem me dera pertencer a essa liga.
Atualmente há inúmeros textos autorais publicados na imprensa
brasileira, crônica, comentário, opinião, etc. Quem são os seus cronistas,
comentaristas favoritos? Quem você
não deixa de ler?
A turma da New Yorker é indispensável. Idem, a maioria dos colaboradores da New York Review of Books.
Assino uma porção de publicações, a
maioria online, atualmente, de modo
que seria fastidioso listar quem sigo, já
segui e deixei de seguir. Já li com mais
assiduidade Paul Krugman, mas economia não é minha praia. Da prata da casa,
Elio Gaspari, Janio de Freitas, Renato
Janine Ribeiro, Milton Hatoum, Fernando Calazans e Lucia Guimarães são
os primeiros nomes que me ocorrem, e
desde já peço desculpas aos que mereciam ter sido lembrados mas não foram
— vistam a carapuça da vaidade. Há
muito me dispensei dos cronistas que
não saem do lero-lero, ficam fazendo
embaixada com as palavras e nada me
ensinam. Também não tenho saco para
os cronistas-vovô, que nos impingem
as gracinhas de seus netinhos e netinhas. Para ganhar tempo, paro de ler de
imediato qualquer texto com clichês e
expressões que abomino. De imediato,
mesmo, ainda que o assunto me esteja
interessando. É minha forma de protestar em silêncio contra o insulto que
a meu ver representam coisas do tipo
“resgatar a memória”, “conquistar corações e mentes”, “ícone” disso e daquilo,
“emblemático”, e por aí vai, o glossário não para de crescer. Com a internet e seu vale-tudo vernacular, sintático e estilístico, esse descalabro atingiu
culminâncias inéditas. Há blogs que, só
de olhar, me provocam engulhos, com
seus pontos de exclamação torrenciais,
suas palavras “gritadas” em caixa alta,
seu gosto por hipérboles do tipo “o máximo”, “genial”, “imperdível”.
um romance ou
“umaSenovela
não me
seduz, não me intriga,
começo a me cobrar
por que, diabos, não
estou relendo Flaubert.”
De tempos em tempos você reúne sua produção mais recente em
livro, como fez ao publicar Lado B e
As penas do ofício. Teremos em breve
uma nova reunião de seus artigos e
ensaios?
Não tenho nada desse gênero programado. Vivem me cobrando uma coletânea do que escrevi sobre cinema, mas
não me animo. As editoras de ponta me
parecem cada vez mais arredias a com-
Cândido 19
pilações e similares. Por elas, o que saiu
em jornais e revistas deve lá permanecer
sepultado, à espera de que o autor morra e a próxima onda de nostalgia o traga
de volta, quiçá com o rótulo de “esquecido”, “maldito”.
Você tem formação em filosofia, é aficionado por cinema, militante do jornalismo e um leitor voraz.
Se tivesse que escolher apenas uma
dessas manifestações artísticas, com
qual ficaria?
Se pudesse, ficaria lendo e ouvindo música, não escreveria mais uma linha;
ao menos por obrigação, para ganhar dinheiro, não escreveria. Quem por acaso
aprecia o que escrevo deve torcer para eu
jamais acertar um bolão da Mega-Sena.
Você não teve filhos e, a exemplo da narrador de Machado de Assis,
“não transmitiu a nenhuma criatura o
legado de nossa miséria.” Não ter sido
pai explica o fato de você ser um sujeito acima da média em sua atividade,
que conseguiu se dedicar como poucos à cultura e à escrita? Ou essa observação não tem sentido?
Não sei se faz sentido. Não ter
filhos me proporcionou mais tempo
para viajar, disso tenho quase certeza.
Deixava os gatos com minha mãe, e
pé na estrada. Viajei muito, para tudo
quanto é lugar. Tirei praticamente um
ano sabático em 1974, viajando pela
América do Norte e Europa. Felizmente cansei de voos e aeroportos na
mesma época em que o jornal cancelou
os dois bilhetes aéreos internacionais
que todo ano me dava de bonificação.
Quanto aos filhos, às vezes me arrependo de não ter legado minha miséria a
uma criatura, de preferência do sexo feminino. Como minha mulher tampouco tem filho, nem irmãos, como eu, já
me vejo, bem velhinho, vivendo da caridade de estranhos, como a Blanche Dubois. Se tiver sorte, é claro.g
20 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
especial | MEMÓRIA
Memória é ficção
As experiências de vida
e de leitura, recriadas por
meio da linguagem, são
as principais matériasprimas para a prosa e a
poesia, afirmam escritores,
professores universitários
e estudiosos
Marcio Renato dos Santos
M
il rosas roubadas, o mais recente romance de Silviano Santiago, foi escrito a partir das memórias do autor. “O livro parte
de acontecimento real e seu capítulo de
abertura se passa no dia em que vejo o
amigo Zeca ir abandonando a vida no
leito do Hospital São Vicente, no dia
7 de julho de 2010”, conta Santiago. A
narração recupera fragmentos do percurso de Ezequiel Neves (1935-2010),
o Zeca, amigo de Santiago, conhecido como jornalista, produtor musical e
compositor, parceiro de Cazuza e Roberto Frejat, entre outros. Mas, em Mil rosas
roubadas, o leitor vai encontrar um outro
Zeca. “Escolhi exatamente a passagem
da vida do Zeca que as pessoas menos
conhecem e, ao mesmo tempo, o momento em que ele se forma como legítimo intelectual brasileiro”, diz o escritor.
Marcelo Cipis Ilustração
jornal da biblioteca pública do paraná |
Silviano afirma que as emoções
e os sentimentos vividos por ele foram
transferidos ao narrador do romance, apresentado propositalmente como
professor de História e não de Letras
— que é a referência real do autor: “A
‘invenção’ do narrador, que se descola
de parte da minha personalidade propriamente profissional, visa emprestar intensidade e sentido dramáticos à
narrativa ficcional. A ‘grafia-de-vida’, se
me permite o neologismo, está sempre
comprometida com a ficção.”
A professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul (PUCRS) Sissa Jacoby acredita que
toda criação artística está ancorada, em
maior ou menor grau, na experiência,
individual, alheia ou coletiva. Para comprovar o que diz, cita Mil rosas roubadas,
romance criado, no entendimento dela,
a partir da seguinte questão: um professor passou a vida fornecendo material
para o amigo de infância vir a biografá-lo no futuro e, ao contrário de seu desejo narcísico, se vê tendo que assumir o
papel de biógrafo desse amigo a partir
de sua morte.
“Silviano discute, entre outros subtemas, importantes e insolúveis questões
relacionadas à biografia e à autobiografia,
diretamente implicadas na tarefa assumida pelo narrador-biógrafo. Para biografar
Zeca, o professor — que também é pesquisador de História — sabe que terá de
preencher as lacunas da memória, sabe da
parcialidade do conhecimento e da impossibilidade do autoconhecimento, o que
é problema também na autobiografia”,
Walter Craveiro
Silviano Santiago recria fragmentos do percurso de Ezequiel Neves em Mil rosas roubadas. “A vida do Zeca, como toda vida alheia que é contada seja na memória individual seja em letra de
forma, tem algo e muito de ficcional”, afirma.
Cândido 21
22 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
especial | MEMÓRIA
argumenta Sissa. Em Mil rosas roubadas, observa a especialista, a imagem espelhada — o outro —, que já é uma inversão, se inverte duplamente. “De resto,
é o dilema de toda escrita memorialística, a necessidade humana de conhecer-se, e a única possibilidade de fazê-lo é
através do outro”, acrescenta a professora da PUCRS.
Preciosa matéria-prima
Sérgio Sant’Anna tem convicção
de que a memória é matéria-prima para
a literatura. Em O homem-mulher, o seu
mais recente livro de contos, os textos ficcionais foram elaborados a partir da vivência do escritor mineiro. “Eles dois”,
por exemplo, é, de acordo com o autor,
autobiográfico — o conto recria um período de adversidade financeira de um jovem casal que, ao mesmo tempo, experimentava uma breve, mas inesquecível,
temporada de prazer a dois. “Trata-se de
um amor intenso que vivi, numa ambientação como aquela”, conta Sant’Anna.
O escritor acrescenta que também é possível escrever ficção sem a vivência concreta de determinados fatos:
“Mas há, de fato, um acervo que vai se
formando a partir da vida do escritor. E,
para os fatos propriamente ditos, a imaginação é preciosa, nunca se esquecendo
da linguagem que, afinal, é o que torna
possível que as emoções perpassem um
texto. Sem a imaginação e a linguagem,
não há ficção que preste.”
O comentário de Sant’Anna ajuda a compreender o processo de escrita de Quarenta dias, de Maria Valéria
Rezende: mais de uma década separa a
ideia inicial e a publicação do romance.
Em 2002 ou 2003, ela passou 48 horas
em um hospital público de João Pessoa,
na Paraíba, ajudando uma família que
estava com uma pessoa internada. “Podia ter ficado 40 dias ou 40 anos. Mas
naqueles dois dias e noites de andanças,
descobri muita gente, através de frestas,
escondidos pela cidade, em lugares onde
antes eu nunca havia notado passagens
para outros mundos, para o avesso da
cidade onde alguém pode se ‘esconder’
para sempre”, comenta a escritora.
A partir daquela experiência,
Maria Valéria conta que sentiu impulso para escrever um romance com peregrinações e descobertas que durasse 40
dias, uma quaresma, uma quarentena —
algo como uma travessia: “Fiquei, sobretudo, com a memória dos sentimentos daquelas pessoas e também com os
meus, mais forte do que de tudo o mais
que tinha percebido naqueles dois dias.
Ao longo dos anos, a ideia do romance,
ficou girando na minha cabeça.”
Em 2011, ela recebeu um convite para escrever um romance, a respeito de um outro Estado brasileiro, no
caso, o Rio Grande do Sul, para compor
uma coleção que retrataria o Brasil —
com lançamento previsto para a Feira de
Frankfurt de 2013. O projeto não teve
prosseguimento. Mas a escritora decidiu
realizar a empreitada por conta própria.
Ainda em 2011, ela passou 15 dias em
Porto Alegre. Perambulou ao acaso: entrava em um ônibus e seguia até o ponto
final, descia e caminhava por ruas, vilas e
becos em busca de um sujeito que desapareceu — ação que dialoga com a via-crúcis da personagem Alice, a protagonista de Quarenta dias.
“Eu diria que a matéria-prima
do romance é realidade absorvida pela
memória, através do filtro dos meus limitados cinco sentidos e de sentimentos meus e dos outros, que reverberaram
em mim, e o produto final é resultado
de ficção, no sentido literal, de coisa
que a gente constrói, fabrica, inventa”,
afirma a escritora, que entregou o texto final ao editor no dia 30 de agosto de
2013 — Quarenta dias foi lançado em
junho deste ano.
A madeleine de Proust
A professora da PUCRS Sissa Jacoby afirma que a memória está presente
na literatura desde os poemas, a Ilíada e
a Odisseia. “Como epopeias, esses monumentais poemas narrativos se voltam
para um passado grandioso, o da civilização helênica e, neles, seja qual for a
tese autoral que prevaleça — a de um
poeta único ou vários —, vamos encontrar as mais variadas fontes da oralidade
e, claro, da memória, individual e coletiva, em qualquer dos casos”, diz Sissa.
Já a professora da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Ana Cláudia Viegas observa que, literariamente, a memória está relacionada à
construção do indivíduo moderno. “Ao
longo do século XIX, a memória foi se
constituindo como matéria-prima literária. Foi também naquela época que se
desenvolveram os diários, memórias e
autobiografias de escritores, que, à medida que se tornaram conhecidos, tornaram evidente o uso da memória como
matéria-prima para a ficção”, afirma a
especialista da UERJ.
A memória literal
“e minuciosa
seria
aborrecida. Não
tenho um porquê
para escrever assim.
Sem a imaginação e
a linguagem, não há
ficção que preste.”
Sérgio Sant’Anna
jornal da biblioteca pública do paraná |
Cândido 23
Kraw Penas
A partir de experiência de vida, muita leitura e árduo trabalho com a linguagem, Sérgio Sant’Anna escreveu os contos de O homem-mulher.
“Isso é muito comum no meu trabalho: passar para a ficção vivências diversas que se movem dentro de mim”, diz.
24 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
especial | MEMÓRIA
Dentro de tal contexto, a obra de
Marcel Proust (1871-1922) é considerada um marco — o autor francês escreveu
a série de sete romances Em busca do tempo perdido. “O célebre exemplo disso são
as madeleines com chá, cujo sabor traz
à memória do narrador proustiano momentos e sensações vividas no passado”,
comenta Ana Cláudia, que acrescenta: “A
obra de Proust é um marco por trabalhar
com a memória involuntária, isto é, aquela memória que vem à tona independentemente da vontade do indivíduo.”
O colunista do jornal O Globo e
escritor Arthur Dapieve considera o artifício literário criado por Proust, a madeleine mergulhada no chá, como genial para representar a imprevisibilidade
da aparição das lembranças. “O que as
desperta? Como as desperta? Por que
as desperta? Por que isso e não aquilo?”,
comenta Dapieve, citando Pedro Nava
(1903-1984), mineiro que se radicou no
Rio de Janeiro, como exemplo de grande e maior memorialista brasileiro.
Sissa Jacoby, da PUCRS, lembra
que, no caso de Pedro Nava, a inspiração proustiana é clara até no projeto,
que previa sete volumes — mas o último volume escrito por Nava ficou incompleto. “Baú de ossos (1972) e Balão
cativo (1973) — os dois primeiros títulos — são dois belos exemplos de sua
expressividade e da habilidade em transitar entre o particular e o universal, a
invenção e a memória. É o grande memorialista brasileiro”, analisa Sissa.
Mentira e verdade
“Não há arte sem memória. É
impossível”, diz Arthur Dapieve. Ana
Cláudia Viegas, da UERJ, completa o
raciocínio: “Toda escrita, em prosa ou
poética, parte de experiências, vivências e memórias. O que varia é o grau
em que essas memórias são utilizadas,
de forma explícita, assumida ou não. E
também o quanto se mistura, de modo
deliberado, de invenção a essas memórias.”
Reprodução
“é tomarO quesustome interessa
com as
coisas que invento, ou
que se inventam quase
à minha revelia, ao
escrever ficção.”
Maria Valéria Rezende
Maria Valéria Rezende transformou observação da realidade, durante a passagem do tempo, no romance Quarenta dias.
“Quando elas, as memórias, se plasmaram, quase por conta própria, comecei a escrever pra valer”, comenta.
A escritora Maria Valéria Rezende acrescenta: “Sem memória, creio, não há sequer
sujeito humano, muito menos sujeito escritor, sem memória não há sequer palavras e, portanto, nem fala nem escrita.”
Silviano Santiago conta que, no
início de seu percurso, ao ler o poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade, começou a refletir sobre a complexidade do que é memória, quando se fala
de mente criadora de literatura. “No poema, o menino sozinho lê na provinciana
Itabira a história de Robinson Crusoé. O
poeta é a experiência de criança interiorana somada à leitura das aventuras cosmopolitas dum náufrago inglês na sua ilha
deserta. O projeto de vida, para falar com
Sartre, do menino tem mais a ver com a
leitura do que com a vida vivida numa cidade interiorana”, analisa Santiago.
O romancista, autor de Mil rosas
roubadas, chama atenção para um detalhe
do poema de Drummond, publicado no
livro Alguma poesia (1930): “O texto não
diz que o menino lê ‘debaixo’ de uma
mangueira, diz que ele lê ‘entre’ mangueiras. Ali, no lugar ‘entre’ — metáfora da
ilha robinsoniana, cercada de águas por
jornal da biblioteca pública do paraná |
todos os lados — é que se dá o espaço
da leitura, da criação da própria identidade do sujeito, que é a dele, Carlos,
somada à do protagonista romanesco
na sua ilha, posta ‘entre’ águas. Carlos
e Robinson entretecem ‘uma comprida história que não acaba mais’, continua o poema.” Santiago diz que o
fragmento mencionado resume o que
ele acredita ser uma configuração e o
exercício da memória em literatura:
“A infância que o menino vive não é
a dele; é-lhe dada pelo lado de fora de
Itabira. Vive também a infância que
se lhe é ‘sobreposta’. A memória é oco
aberto no lugar ‘entre’ pela curiosidade intelectual que a criação literária
pode ou não preencher adequadamente. Diz o poema: ‘E eu não sabia que
minha história / era mais bonita que a
de Robinson Crusoé’.”
A memória, argumenta Sissa Jacoby, é um conceito genérico, que abre
espaço para uma longa e complexa discussão que a filosofia ocidental herdou
dos gregos, e que vem desde Platão e
Aristóteles até os nossos dias — e é matéria-prima e tema presente na obra de
autores do mundo todo, inclusive prosadores e poetas brasileiro: de Machado
de Assis a Cristovão Tezza, de Manuel
Bandeira a Jamil Snege, de Moacyr
Scliar a Tatiana Salem Levy. “Lacunar
e seletiva, a memória comporta tanto a
lembrança quanto o esquecimento”, comenta a especialista da PUCRS.
Arthur Dapieve observa que a
memória segue regras quase aristotélicas de compressão e simplificação dramáticas. “Chega-se ao ponto de se acreditar piamente na memória de coisas
que não ocorreram”, completa o escritor. O fato de essas “coisas” não terem
ocorrido na vida real não as torna, diz
Dapieve, ao menos não necessariamente, falsas: “Pelo contrário, elas podem
ser essencialmente mais verdadeiras que
a verdade.” g
Cândido 25
Não há arte sem memória.
“É impossível.
O autor é o que é
por conta da memória, pessoal e
intransferível, do modo como as
elabora e reelabora, consciente
ou inconscientemente.”
Arthur Dapieve
Marcel Proust (1871-1922) escreveu os sete romances da série Em busca do tempo perdido, considerado um marco no que diz respeito à memória e literatura. “O célebre exemplo
disse são as madeleines com chá, cujo sabor traz à memória do narrador proustiano momentos e sensações vividas no passado”, explica Ana Cláudia Viegas, da UERJ.
26 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
ARTIGO
Por uma
poética das
memórias
literárias
As memórias, enquanto gênero literário,
aproximam-se do romance. Cada texto
inaugura traços novos e específicos de
acordo com o material que o discurso
narrativo oferece
Tânia regina oliveira ramos
Ilustrações qie o francês Marcel Proust fez enquanto escrevia os sete volumes de Em busca do tempo perdido.
jornal da biblioteca pública do paraná |
C
omo a memória se processa na literatura? Toda a minha reflexão,
que resultou em uma tese de doutorado em Literatura, defendida na Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro (PUC-Rio), intitulada: Memórias, uma oportunidade poética,
parte do princípio da capacidade humana de recuperar pela linguagem as coisas vividas e da potencialidade do imaginário de verbalizar cenas e fatos.
Assim, as memórias literárias não
passam só pela autoria, por aquele que
lembra, mas por um narrador que traz
para o texto um somatório de experiências e essas experiências são sempre
revigoradas por possibilidades líricas. A
expressão da temporalidade em um texto de caráter subjetivo, comprometido
com a história de quem conta, extrapola
o real vivido.
Aquilo que se convencionou chamar de realidade em relação ao passado,
dificilmente pode ser definido ou isolado com precisão.
Não se pode confundir a realidade com aquilo que é contado, pois as
memórias escritas dão ao texto certas
garantias de realidade, mas ao mesmo
tempo elas se escrevem e se constroem
muito mais pelas possibilidades da invenção. Se há uma permuta entre o real
e o imaginário, há muito mais espaço
para a fantasia.
O sujeito que lembra, nas memórias escritas, é um controlador da autoria, da estruturação dos fatos, mas é
muito mais um manipulador da função
estética, dramática e lírica de todas as
suas lembranças, em torno do desdobramento do sujeito que viveu, agora, seu
personagem. O autor-escritor-narrador
Cândido 27
28 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
ARTIGO
Reprodução
passa a ser muito mais o sujeito do verbo das lembranças: eu me lembro, recordo
bem, ou passa ser objeto direto ou indireto de pessoas, coisas e fatos lembrados, pronome possessivo ou oblíquo.
Ilustro as minhas afirmações.
“Lembro-me da pena de pato com que
meu avô escrevia” ( José Américo de Almeida, no livro Antes que me esqueça);
“Hoje, passados tantos anos, eu o recordo com carinho e com saudade. Saudade do meu gato que, aliás, não era
propriamente meu, mas sim de minha
família. E seria ele, realmente, da família?” (Zélia Gattai, em Anarquistas, graças
a Deus); “Minha mãe lia devagar” (Graciliano Ramos, fragmento de Infância) e
“Educam-me na religião católica” (Murilo Mendes, na obra A idade do serrote).
Tal subjetividade desdobrada por
meio de outros sujeitos nas histórias
lembradas é a garantia da coerência interna do texto. O fato de ser a primeira pessoa a estruturar a narrativa, através de verbos rememorativos, garante
o presente narrativo, estruturador e selecionador das lembranças, no que se
pode chamar de tutela histórica.
Por outro lado, as memórias, enquanto gênero literário, aproximam-se
do romance. Cada texto inaugura traços novos e específicos de acordo com o
material que o discurso narrativo oferece.
Amigo de escritores como Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava escreveu uma obra única na literatura brasileira.
jornal da biblioteca pública do paraná |
Reprodução
As memórias sempre trabalham
esteticamente com as lembranças de
um sujeito que é exclusivo. Cada texto
pode ter uma estrutura temática original, às vezes mais ricos do que as autobiografias, pois o diálogo com o presente atualiza o passado, permitindo a
reconstituição da vida através da linguagem, onde as lembranças não serão
uma realidade, mas interpretações das
coisas findas e do próprio destino pessoal. Foi isto que fizeram, por exemplo,
entre tantos, Graciliano Ramos, José
Lins do Rego, Erico Veríssimo, Oswald
de Andrade e, antologicamente, Pedro
Nava, cuja obra memorialística, nos seus
seis volumes, seria suficiente para a comprovação da especificidade do gênero.
É ele, Pedro Nava, médico de
profissão, quem afirma, em Círio perfeito, o que seria uma poética das memórias: “Escrever memórias é libertar-se, é
fugir. Temos dois temores: a lembrança do passado e o medo do futuro. Pelo
menos um, a lembrança do passado, é
anulada pela catarse de passá-la para o
papel”. Aqui, em seu sexto e último volume de suas memórias, complementa o que
anunciara em seu texto inaugural, Baú de
ossos: “Existiu em determinada ocasião o
indivíduo cujo conhecimento pessoal não
valia nada, mas cuja evocação é uma esmagadora oportunidade poética”. g
Tânia Regina Oliveira Ramos nasceu em Lages (SC).
Doutora em Literatura, leciona e coordena o núcleo
Literatura e Memória da Universidade Federal de
Santa Catarina (USFC). É editora da Revista Estudos
Feministas. Vive em Florianópolis (SC).
Cândido 29
30 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
ESPECIAL | MEMÓRIA
Esse encontro
urgente,
capital,
inadiável
comigo mesma
A partir de fragmentos de vários textos literários e de
canções populares, a professora Tânia Regina Oliveira Ramos
constrói uma narratica memorialística, em que revê a sua
trajetória pessoal e profissional
N
asci oficialmente em Juiz de Fora.
Quanto à data do mês e ano, isto
é da competência do registro civil. Não me vi nascer, não me recordo de nada que se passou naquele
tempo. Na verdade, nascemos a posteriori. No mínimo uns dois anos depois.
Mesmo porque antes era o dilúvio.
Faço esforços de memória para
saber qual foi a primeira impressão de
minha vida, quando percebi que existia, que era um ser sensível e humano.
É uma lástima esquecer! Nada descubro como ponto de partida, como clarão
inaugural... Agora me lembro. Guardo a
vaga lembrança de um ajuntamento de
pessoas, subindo, em silêncio, a colina,
onde assentava a casa grande. Desde os
cueiros até aprender a falar, o choro foi
um gênio, minha força de opinião, meu
grande argumento. Sou teimoso. Vou
rasteando o tempo para exumar alguma
coisa do limbo. Servirá mesmo o quotidiano e o doméstico, contanto que tenha uma expressão e traduza realidade e
sentimento. Afinal de contas, a memória de um velho está cheia de labirintos.
Escrever memórias numa ordem rigorosamente cronológica seria uma tarefa difícil, perigosa, e, possivelmente, monótona.
De resto, o tempo do calendário e o do relógio pouco e às vezes nada
tem a ver com o tempo de nosso espírito. Vivo em memória tudo aquilo que
passou e não volta mais: a nossa cidade, a casa de vovó, onde vivemos os primeiros anos, o quintal que revejo com
os olhos daquele tempo, imenso, misterioso, cheio de atrativos; a velha cisterna
que me fascinava...
Servia-me o almoço às dez e o
jantar às quatro, e isso representava já
jornal da biblioteca pública do paraná |
uma concessão aos hábitos citadinos.
Meu pai nascera na roça, e horário ideal parecia o de tia Perpétua, que, às nove
papava o seu picadinho com angu, ao
meio-dia merendava, e às três despedia-se da mesa com uma sopa de feijão,
para se meter entre os lençóis assim baixasse a noite, conforme prescreviam os
antigos: “Janta com o sol alto, não terás
sobressalto; com o sol posto o rosto”.
À tarde, não havendo outros compromissos, dona Angelina reunia em sua
casa algumas vizinhas interessadas em
romances de folhetim. Os folhetins de
antigamente representavam o mesmo
papel das novelas de televisão nos dias
de hoje.
E como a vida era boa naquele tempo. É uma lembrança longínqua,
das mais longínquas, a figura ou antes,
a sombra do meu avô materno. Como
uma fotografia antiga, desbotada, quase desaparecida pela ação do tempo, vejo-me segura às suas pernas na sala de
jantar da casa de vovó. Sempre associei
o nome e a figura dessa avó materna a
certos odores, coisas de comer.
Não sei porque me vêm à memória certas coisas de minha infância, sempre
que pego na pena; talvez porque naquela época, coisas pequenas me impressionassem mais e eu guardo tudo muito. O
que há de especial nessas reminiscências
é que não obstante serem tão vagas, encerram para mim um conteúdo inesgotável de emoção. Debruço-me sobre este caderno e fico alguns minutos, imóvel, com
a pena apontando a página em branco. De
vez em quando, no ermo da madrugada
para entreter os intervalos de minhas insônias, desço aos porões da memória, em
busca desses instantes antigos.
Uma das mais terríveis noites
de minha vida foi a de 2 de dezembro
daquele ano de 1922. E por que tantos
enterros e ressurreições em meus sonhos? Qual seria a explicação? Já encontrei explicação muitos anos mais
tarde. Desgosta-me usar a primeira
pessoa. Se se tratasse de ficção, bem;
fala um sujeito mais ou menos imaginário; fora daí é desagradável adotar o pronomezinho irritante, embora
se façam malabarismos para evitá-lo.
Desculpo-me alegando que ele me
facilita a narração.
Além disso, não desejo ultrapassar o meu tamanho ordinário. Eu, tu,
ele, nós, vós, eles. Entre dois nadas os
pronomes dançam. Assim, vagando no
tempo, voltando de manhã para ontem
(que nem cápsula espacial que pode girar quatro, cinco, seis dias, sol e noite,
claro-escuro, nas vinte e quatro horas
dum dia só), volto àquela Rua Haddock
Lobo na sua eternidade. Saudade. Readquiro outra idade. Saudade. Sim. De
mim na hora em que começava outra
fase da vida nas ruas que se destinava a
ser minha cidade.
Saudade. Eugênia! Que saudades me ficaram daqueles instantes de
alumbramento! Fogo de carne que ainda hoje me queima como brasa. A memória é manhosa, tenho de negacear. Primeiro reproduzo o painel assim como me
vem à mente; depois investigo pormenores, procuro restituir a pintura primitiva,
removendo as finas pinceladas com que
sobre ele, o tempo compôs outros quadros.
Quero da memória apenas a essência das
lembranças. Estarei assim dentro da verdade? Importa a verdade? Ah! Pilatos, Pilatos... Para quem escreve memórias, onde
acaba a lembrança? Onde começa a ficção? Talvez sejam inseparáveis.
Minha opção é sempre a segunda, porque só há dignidade na recriação.
O resto é relatório. (É bom ser ficcionista, pois se eu fosse sociólogo, etnólogo ou qualquer outra coisa em ó l o g
o não estaria fazendo tantas afirmações
levianas. O impulso de escrever para
mim mesmo, em caráter autoconfessional, ditou os feixes de palavras que fui
acumulando e que um dia... destruí.
Do conjunto sacrificado salvaram-se algumas páginas que hoje reúno em livro. Animou-me a ingênua
presunção de que possam dar ao leitor
um reflexo do tempo vivido de 1943 a
1977, menos por mim e pelas pessoas
em volta, fazendo esmerar coisas literárias e políticas daquele Brasil sacudido
por ventos contrários.
Rasgamos papéis, rasgamos os
fatos que eles testemunhavam. Passar a
vida a limpo. Eu me pergunto se a memória não estará tentando enganar-me,
bem como agora talvez eu esteja procurando ludibriar quem me lê. É o caso de
eu ter escrito e continuar a escrever estas minhas pobres memórias. Elas estão
longe do que eu desejaria que fossem.
Não me considero grande escritor por tê-las rabiscado. Foram produzidas porque
eu queria ter — roubando aqui o pensamento de Proust — esse encontro urgente, capital, inadiável comigo mesmo.
E mesmo de olhos abertos eu sonhava.
Inventava meu mundo e convocava meus mitos, fugindo do meu ambiente para mostrar outros quadros. Nesses momentos de fuga ia ao ponto de
plantar minha paisagem e gerar outras vidas, por obra da imaginação. Demorava-me
Cândido 31
nessa atmosfera fictícia e meus sonhos
tomavam corpo. A imagem estava sempre presente e eu brincava com essa ilusão. E assim me fiz romancista.
As palavras “outrora”, “naquele tempo”, “antigamente”, “há séculos”
impressionavam-me muito. Queria saber se não seria possível colar os tempos
uns nos outros, se o tempo era vertical
ou horizontal. Estou só e a vida vai custar a reflorir. Estou só.
Dolorosamente encaro o velho
que tomou conta de mim e vejo que ele
foi configurado à custa de uma espécie
de desbarrancamento, avalanche, desmonte — queda dos traços e das partes
moles deslizando sobre o esqueleto permanente. Erosão. Meu retrato está de
corpo inteiro nestas memórias.
Ó tempo! Ó anti-Pitanguy, meu e
nosso carrasco. A memória é a repetição
da vida que multiplica o passado, mas
bom mesmo é esquecer. Quem ousaria
negar que — ao menos para uma memória fértil — o passado situa-se a posteriori? Policio minha linguagem. Censuro, escamoteio qualquer coisa que possa
lembrar terra, caixão e tumba/c’roa pedr’e
e catacumba. Não vou citar nomes.
Nesse trabalho coletivo a memória e a imaginação cooperam de tal
jeito que nos é impossível saber se o
informe decisivo é falso ou verdadeiro. As coisas findas/muito mais que
lindas/estas ficarão. Todo mundo tem
sua Madeleine, num cheiro, num gosto, numa cor, numa releitura... A saudade que dói mais fundo — e irresistivelmente — é a saudade que temos
de nós. És um senhor tão bonito, tens
a cara do meu filho/Tempo, tempo,
tempo, tempo. g
32 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
CONTO | URARIANO MOTA
E
Filho
contra
pai
Erick Carjes Ilustração
le, hoje ele, o filho que é um homem, deu um pulo da cama para
assim pular do sonho. Pulou e lhe
deu uma câimbra, porque na altura
dos 60 anos não mais podia fazer movimentos bruscos. Mas a dor da câimbra
foi menor que a lembrança do pesadelo. Ou seria um sonho? Naquela quadra
da sua vida, os sonhos não eram mais a
lembrança imediata do dia ou da semana que passou. Os sonhos agora partiam
da memória mais antiga, que se transforma e encarna em fatos mais recentes.
Seria como um Alzheimer para intelectuais? Não sabe, nem quer saber, porque
havia um sabor ácido e doce em recordar o inferno em que não está mais. E
para o filho, agora uma pessoa, assim foi,
há pouco e há muito, um minuto antes
de pular da cama. Então ele se fala, de
si para si, só ele e o suplício do presente passado.
Hoje eu fui espancado porque
gosto de música. Espancado com todas as forças e vigor da palavra que se
materializa em tortura. Mas fui espancado antes do espancamento. Espancado antes pelo medo do que viria, e o que
é mais humilhante, por motivo de gostar da música que me afirmava o meu
modo de ser, autônomo, independente,
algo como a minha personalidade. Supondo que a isso eu tivesse o direito.
No sonho, eu já estava grande, crescido,
mas continuava a ser um menino espancado, tão grande mas ainda pequeno, porque estava diante da autoridade absoluta
jornal da biblioteca pública do paraná |
do meu pai. Então eu disse, nem falei,
apenas disse a ele: “Eu não aceito mais
ser desrespeitado nesta casa”. E repeti,
até como uma tentativa de a mim mesmo atingir na consciência: “Eu não vou
mais ser espancado por você”. Você?!
“O Senhor”, pude sentir, em um soco
que se erguia.
E tamanho era o conflito, o
ódio que eu travava com a minha impotência, contra o desmedido que era lutar
contra o poder absoluto, a saber, aquele que não perdoa e me matava em minha totalidade, que o rosto, o físico do
pai, não aparecia na sala. Mas Ele estava presente, eu sabia. Então, para esse
oculto que voltará com os punhos de
boxeador peso pesado, ou com o agudo suplício da surra com a mangueira do jardim, ou do chicote, o conflito
cresce. O pai pega um instrumento de
me abater como cachorro doido. Ele se
transforma em uma faca peixeira. Então ele, o que não aparecia na sala, aparece na sua arma. Ele vem para cima de
mim como aquele que vem me destruir.
Ele está crente do seu domínio, apesar
de ter pela frente um filho que deseja
apenas ser um homem pleno. O pai não
vai aceitar semelhante ambição, pois o filho vê o anúncio de uma tempestade, do
mar que cresce em um tsunami. O pai
não vai aceitar tão grande desrespeito. O
pátrio poder vê um inominável insulto
quando o filho, a se levantar do pântano,
por entre a lama, lama que é alma, lhe
diz: “Eu não vou ser mais desrespeitado”.
ousas?
— Resto da minha porra, como
O filho sente que o conflito evolui por um caminho sem volta. Nesse
ponto não existe mais a guerra na pura
consciência, porque a guerra saiu do
terreno do silêncio, ou do projeto que
não vira ação. O pai vai matá-lo pelo
atrevimento, por se negar logo ele, um
simples filho, a ser espancado. O pai vai
matá-lo. Mas ele, o que pretende ser ele,
um alguém, uma pessoa, ele filho esse
louco não quer ser morto. O filho não
quer ser morto mais uma vez. Ele não
será morto como tem sido desde a infância. Morto desde quando ele, sob o
poder da infâmia, não pôde entrar para
o teatro, ou ser desenhista, pintor, essas
coisas de fresco. O pai vai matá-lo. Mas
ele não quer ser morto de novo, como
tem sido desde a infância.
O filho não quer ser morto nunca mais. O filho tem, ou deve ter, pelo
menos o direito de gostar da música estranha que o pai não aceita. Mas ele,
esse novo ser no sonho, não gostaria de
matar o pai. Mas ele, o filho, também
não quer ser morto. Se pudesse agarrar
o pulso do pai, que vem com uma faca
peixeira, que sabe cortar ventre e rasgar
fígado e estômago, se pudesse em um
lance de mágica imobilizá-lo, e que essa
imobilização o pai não visse como uma
afronta, um modo de humilhar o poder
único, porque se o Pai se sentir humilhado, voltará mais poderoso, como um
Anteu, o terror mitológico que cresce
quando é jogado à terra, era o ideal. Se
o pai não visse na defesa do filho a mais
vil agressão, seria bom. O filho não quer
matar o pai. E não quer, ao mesmo tempo, agora ser morto. É um caminho sem
volta, réprobo, maldito. Então ele, o filho
que ousa uma revolta, com o braço trêmulo, fraco, braço de adorno que jamais
poderia ser erguido contra o pai, então
o braço inútil do filho pega uma cadeira — que louca pretensão! — para se defender, louca e mais louca das pretensões.
O filho quer se defender primeiro e agora, porque o pai avança com uma faca,
crente soberbo como um deus vingativo,
diante do qual é frágil qualquer defesa.
Então o pai avança com uma faca, crente
de que o filho crescido é o menino cujo
caráter é a resignação de ser espancado.
No fundo da sala, existe a maldade e a perversão da madrasta, que a
tudo assiste com um sorriso onde mora
a luxúria. Qual dos dois homens vencerá? O que vencer a ganhará no sexo
como prêmio.
Então o filho pulou da cama. E
durante o dia todo não o abandonou o
sentimento do crime que poderia ter
cometido, se o pai estivesse vivo, e agora
viesse lhe levantar o braço que sempre
o espancou, desde a infância. De tudo,
talvez, o pior foi o sentido do sorriso da
madrasta naquele homicídio. Então lhe
ficou o gosto amargo da frase com que
resumiu o crime: “Era um lar de pus”.
E fez de conta que matando o pai havia
matado a sua lembrança. g
Cândido 33
Urariano Mota é jornalista, com passagem por diversos
veículos, como os jornais Movimento (SP) e Opinião (RJ).
É autor, entre outros, do romance Soledad no Recife
(2009) e Dicionário amoroso do Recife (2014). Nasceu no
Recife, em 1950, e vive em Olinda (PE).
34 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
PERFIL DO LEITOR | MARINA LIMA
Caderno
íntimo
A cantora fala sobre poesia,
romancistas preferidos, seu primeiro
livro e uma possível biografia
Omar Godoy
jornal da biblioteca pública do paraná |
Divulgação
N
o país das “cantoras ecléticas”, as
mulheres compositoras nem sempre têm o mesmo destaque das
intérpretes. Nomes como Dolores Duran, Maysa e Adriana Calcanhoto fazem parte de um pequeno grupo de
autoras que realmente conseguiu atingir o grande público e deixar seu legado
na história da música popular brasileira.
Mas nenhuma delas foi tão longe quanto Marina Lima, que segue em atividade depois de mais de três décadas de sua
estreia em disco.
Seu grande feito foi consolidar
um estilo ao mesmo tempo pop e sofisticado, marcado por textos acima da
média do que se ouve nas FMs. Não à
toa, grande parte de sua obra é assinada em parceria com importantes letristas-poetas da MPB — Tavinho Paes,
Alvin L, Arnaldo Antunes, Ronaldo
Bastos, Vinícius Cantuária e, especialmente, Antonio Cicero, seu irmão dez
anos mais velho. Co-autor dos maiores clássicos de Marina (“Fullgás”, “Pra
Começar”, “Acontecimentos”, “À Francesa”, só para citar alguns), ele também
é o responsável por incutir na artista o
gosto pela poesia.
“Antes de compor comigo, o Cicero lia poemas em voz alta para mim.
Poemas latinos, ingleses, Shakespeare.
Foi através dele que entrei em contato
com esse universo e, depois, descobri poetas brasileiros como Carlos Drummond
de Andrade, João Cabral de Melo Neto,
Ferreira Gullar. Eu também já gostava de poesia musicada, Caetano Veloso, Chico Buarque, Bob Dylan”, conta a
cantora, que iniciou a colaboração com o
irmão aos 16 anos (hoje ela tem 59).
Marina passou a infância nos Estados Unidos, onde seu pai atuou como
executivo no Banco Interamericano de
Desenvolvimento. “Ele tinha uma vasta
biblioteca, com livros de Filosofia, Direito, Economia. Sabe aqueles intelectuais nordestinos cultíssimos? Pois então, ele era um desses. Além disso, havia
um grande estímulo à leitura na escola, que vendia romances para pré-adolescentes em formato pocket. Eu mergulhava nesses livros por meses”, lembra.
Antes de compor
“comigo,
o Cicero lia
poemas em voz alta para
mim. Poemas latinos,
ingleses, Shakespeare.”
De volta ao Brasil, a cantora viveu uma espécie de hiato literário por
alguns anos, principalmente por falta de
incentivo no colégio. O interesse por livros só voltou anos depois, com a carreira artística já iniciada. “Sempre gostei de fazer muitas coisas. Ouvir música,
tocar, dançar, praticar esportes. Então
eu dividia meu tempo e criava espaços
Cândido 35
para a minha rotina conter tudo isso.
A literatura se tornou realmente importante na minha vida depois dos 20
anos”, afirma.
Sua lista de poetas preferidos inclui, além dos nomes já citados, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Vinicius
de Moraes, Capinam, Waly Salomão
e até Chico Science. “Todos os que lidam com o universo nordestino me comovem profundamente, pois me remetem aos meus pais”, explica. A poesia, no
entanto, não tem ocupado muito o seu
tempo ultimamente. “O que eu mais leio
hoje em dia são romances. Silvia Avallone, Alice Munro, Inês Pedrosa, Orhan
Pamuk. Gosto principalmente desses.”
Em 2012, depois de tantos anos
escrevendo música, Marina Lima decidiu publicar seu primeiro livro: Maneira
de ser, um apanhado de textos reflexivos,
cartas antigas, fotos de arquivo e matérias publicadas na imprensa sobre o seu
trabalho. Segundo a cantora, a obra não
é uma biografia, e sim um “caderno íntimo”, em que ela repassa a própria trajetória e apresenta sua visão de mundo.
Mas e se alguém se dispuser a
escrever sua história? Ela permitiria?
“Sinceramente? Podem lançar uma biografia não autorizada mesmo. Não estou
preocupada com isso. Se eu não gostar,
procuro a Justiça. Simples assim”, afirma, deixando implícito que não deu
muita bola para a polêmica levantada
em 2013 pelo grupo Procure Saber, formado por artistas que discutem questões
de direitos autorais e regulamentações na
área musical. g
36 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
eNSAIO | NEGO MIRANDA
CLIQUES
EM CURITIBA
jornal da biblioteca pública do paraná |
Leitor da obra de Dalton Trevisan, o fotógrafo Nego Miranda
retratou a Curitiba do contista paranaense em 2010. O livro A eterna
solidão do Vampiro traz imagens da cidade que são recorrentes nas histórias do escritor. Estão registrados os motéis baratos do centro velho,
o Passeio Público, o Lago da Ordem e outros pontos por onde os personagens de Trevisan vêm circulando ao longo de cinco décadas. Fotógrafo publicitário, Miranda tem extenso trabalho autoral, que inclui
projetos sobre a arquitetura de Morretes (PR) e a erva-mate.
Cândido 37
38 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
NOVELA | ANA PAULA MAIA
Leo Gibran Ilustração
desalma
Ao longo dos meses de outubro e novembro,
a escritora Ana Paula Maia publica na internet
a novela Desalma. O Cândido adianta o quinto
capítulo do folhetim, que pode ser lido na íntegra
no endereço desalmafolhetim.blogspot.com.br.
— Espero que hoje dê tudo certo.
Carnicara abaixa o volume do rádio. Bronco Gil apanha uma caixa preta
no banco de trás do carro, abre-a e desembala quatro seringas. Enfia uma por
uma num frasco de antibiótico e as enchem até a metade. Ao concluir, tampa
cuidadosamente a agulha de cada uma e
coloca-as novamente na caixa.
— Acho que são eles — diz Carnicara.
Os quatro rapazes saem de uma
boate segurando copos descartáveis e
visivelmente bêbados. Seguem para o
final da rua onde estacionaram o carro.
— Se a gente não acabar com eles,
vão acabar matando alguém no trânsito
— diz Carnicara.
— Estamos tirando o lixo das ruas
— diz Bronco Gil.
— O Estado deveria nos pagar por
isso. É prestação de serviço público —
conclui Carnicara dando a partida no
carro.
Seguem os rapazes até um trecho
deserto. Carnicara acelera, dá uma guinada e fecha o carro dos rapazes. Bronco Gil desce e enfia uma escopeta na
cara do motorista. Entra pela porta de
trás e os outros dois rapazes se espremem um contra o outro. Com a arma
apontada para a cabeça do motorista,
manda que siga o carro à frente. Um dos
garotos vomita. Outro chora. Outro diz
que seu pai é delegado. Outro que tem
que ir ao banheiro.
— Mas só uma coisa, senhor, é sequestro? Por que se for, nossas famílias
vão negociar, pagar o resgate...
— Não é sequestro e se alguém
der mais um pio, um gemido sequer, eu
mato aqui mesmo, entendido?
— Sim, senhor — responde o motorista.
Bronco Gil dá uma bebida para os
rapazes. Todos bebem, inclusive o que
dirige. Os rapazes vão desmaiando um
a um. Bronco Gil toma a direção e conduz tranquilamente até a Fazendinha.
São três da manhã quando chegam.
Arrastam os rapazes para dentro
do salão da casa. Colocam-nos enfileirados no chão. Trocam as luvas de couro
por luvas de borrachas. Bronco Gil aplica o antibiótico em cada um.
— Bronco, eu queria saber o que
você coloca nesse boa noite cinderela.
— Segredo de família. Uso uns
diazepans, umas ervas, uns ácidos, e
aí, vira isso. Amanhã não lembram de
nada. Nem depois, nem depois.
Eles riem.
— Isso aqui é boa noite Chuck
Norris.
Carnicara amarra firme a base do
pênis do primeiro rapaz, corta-o fora e o
jornal da biblioteca pública do paraná |
joga numa tigela. Repete o procedimento
com os outros três.
— Às vezes lá na tribo alguém perdia o pau.
— Era castigo?
— Às vezes era.
— Sutura e faz os curativos nesses
aí que eu faço aqui.
Carnicara levanta-se e apanha uma
maletinha com linha e agulha cirúrgica.
Coloca-a no chão e aproxima um abajur com uma lâmpada fluorescente antes de começar a suturar.
— O mandante não vinha também? — pergunta Bronco Gil.
— Desistiu. Acho que se apavorou.
— Acontece. Eu prefiro matar, nesses casos assim, a gente sempre corre algum risco de ser reconhecido.
— Eu sei. Por isso é bem mais caro.
Confio nesse coquetel que você faz. Depois desse trabalho aqui, vou sumir por
um tempo.
— Esse caso vai aparecer na televisão.
— Não sei, Bronco. Os moleques
não vão mostrar a cara e a família vai
querer sigilo. Ninguém quer ter um filho de pau decepado.
— Ninguém quer ter o pau decepado.
— Esse gordinho aqui se cagou todo.
— Cuidado pra não infeccionar.
— Preferia matar os desgraçados.
— Mas aí perde toda a graça, a ironia da vingança. Dá mais trabalho, mas
os clientes gostam mais do resultado.
Carnicara enfia linha na agulha
mais uma vez e ao concluir a sutura corta-a com uma tesoura. Faz um curativo
rapidamente e vai para o rapaz ao lado.
— Quantos anos tem a garota?
— Quinze.
— O pior é que não importa quantos sujeitos como você e eu exista nesse
mundo. Os desgraçados filhos da puta
nunca acabam.
Bronco Gil apanha a tigelinha com
os pênis e sacode a cabeça negativamente.
— Que foi, Bronco?
— Que faço com essa miséria?
— Enterra debaixo da bananeira.
Os procedimentos levam pouco
mais de uma hora. Colocam os rapazes
no carro novamente e dirigem por meia
hora, até um rio. Acomodam um a um
no chão, em meio às árvores, e o carro
submerge nas águas quando o empurram para dentro do rio. Carnicara tira
toda a roupa e coloca-a num saco preto. Veste uma calça de linho barata cor
bege e uma camisa listrada de manga
comprida e botões. Enfia a camisa para
dentro da calça. Limpa os sapatos pretos sujos de lama com a barra de uma
toalha velha. Joga-a dentro do saco. Caminham até a estrada, onde deixou seu
carro estacionado. Penteia os cabelos
para trás com a ajuda de um gel fixador.
Os fios lisos e finos constantemente se
tornam alvoroçados pelo vento. Bronco
Gil está calado e com os olhos espremidos. Às vezes é capaz de permanecer
um dia inteiro em silêncio. Dá a partida
no carro e vão embora, pouco antes que
o dia amanheça.
Quase uma hora dirigindo, encontram uma parada de caminhoneiros e
decidem tomar um café da manhã. O
movimento no lugar é crescente desde
os últimos vinte minutos que estão ali.
Comem fartamente pão, salsicha, ovos
mexidos, suco de laranja, café, queijo,
presunto e bolinho de chuva.
— Fazia tempo que eu não parava
aqui — diz Carnicara.
— Não conhecia esse lugar.
— Vou tomar um banho e dormir
o dia todo.
— Tá morando aonde?
— Em lugar nenhum, como sempre. Vou pra um motelzinho aqui perto mesmo. Esta semana eu vou pegar o
pagamento e te repasso, ok?
Eles se levantam e saem juntos.
Carnicara deixa Bronco Gil num ponto
de ônibus e depois dirige até um motelzinho com fachada cor de rosa chamado Pâmela, onde costuma se hospedar
quando está por essa região.
— Bom dia.
— Bom dia.
— Quarto 202.
O homem pega as chaves no painel
de madeira atrás do balcão.
— Já soube o que aconteceu aqui
no Pâmela?
— O quê?
— Um sujeito se hospedou aqui
ontem a noite e deu um tiro na cabeça.
Agora, eu pergunto, quem vai ter que
limpar e pintar o quarto todo?
Carnicara sacode a cabeça negativamente e aperta os lábios. Baixa os
olhos como se lamentasse.
— Por isso não gosto de hospedar
gente sozinha. Até o colchão vou ter
que trocar.
— Já tiraram o corpo?
— Tiraram sim, pastor. Tá uma imundície lá dentro. As meninas da limpeza disseram que não são pagas pra limpar sangue,
só porra.
— É, irmão. A vida é dura.
— Pastor, o senhor ora por mim,
estou precisando. As coisas por aqui estão difíceis.
— Vou orar sim. A vigília dessa
noite foi muito boa. Orei bastante.
O homem atrás do balcão abre um
sorriso de alívio e enrosca a ponta do
bigode.
— Gosto quando o senhor se hospeda aqui. Sinto muita paz. Fica até
quando?
— Vou embora hoje à noite.
— Muitas vigílias, pastor?
— Muitas. Não posso parar de orar.
Carnicara suspende a bíblia sagrada
Cândido 39
que está segurando.
— Aqui está o caminho e a revelação para uma nova vida. Muita gente
precisa do que carrego aqui.
— É verdade, pastor. O senhor é
uma benção.
Carnicara dá meia volta e segue
pelo corredor. Passa em frente ao quatro
com uma fita plástica amarela na porta. Cumprimenta as arrumadeiras que
confabulam sobre o ocorrido e deseja a
elas um bom trabalho indicando com a
cabeça o quarto vitimado.
Tira as roupas e nu, examina-se
diante do espelho. No chão, faz algumas
flexões e sente o braço enrijecer. Olha-se novamente e acha que precisa intensificar os exercícios. Antes de ir para o
banheiro, abre o zíper da capa preta da
sua bíblia que deixou sobre a cama ao
entrar e apanha uma pistola. Desmunicia a arma rapidamente através do ferrolho, apanha as balas caídas sobre a
cama e coloca-as dentro de uma meia
preta juntamente com outras munições.
Folheia algumas páginas da bíblia guardada dentro da capa preta.
Toma um banho quente e demorado enquanto balbucia alguns versículos bíblicos que costuma decorar diariamente. Está cada vez mais convencido
de que ter se disfarçado de um homem
de fé, de alguma forma, o deixa mais
perto de Deus, ainda que caminhe lado
a lado com o diabo. g
Ana Paula Maia é escritora e roteirista. Autora de cinco
romances, entre eles Entre rinhas de cachorros e porcos
abatidos (2009), Carvão animal (2011) e De gados e
homens (2013). Seus livros também foram publicados na
Sérvia, Alemanha e França. Alguns de seus contos foram
incluídos em antologias no Brasil e no exterior, traduzidos
para o alemão, croata, espanhol, inglês, italiano. Vive no
Rio de Janeiro (RJ).
40 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná
REtrato de um artista | pedro nava
As memórias de Pedro Nava foram um acontecimento literário no Brasil dos anos 1970. Até 1972, o escritor
só havia publicado poemas esparsos em
coletâneas, como a Antologia dos poetas
bissextos, organizada por Manuel Bandeira. Mas com Baú de ossos, o primeiro tomo de suas memórias, Nava sacode
o meio literário com um estilo narrativo singular, em que a reconstituição dos
detalhes do passado mais remoto é feita
de maneira minuciosa. Nascido em Juiz
de Fora (MG), em 1903, Nava publicou
seu primeiro livro de prosa quando já tinha 65 anos. Até sua morte, no início
dos anos 1980, o escritor ainda publicaria Balão cativo (1973), Chão de ferro
(1976), Beira-mar (1978), Galo-das-trevas (1981) e O círio perfeito (1983). Em
1927, Nava se formou em medicina pela
Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Ainda na década de 1920, fica
amigo de escritores, políticos e intelectuais eminentes como Carlos Drummond de Andrade, Juscelino Kubitschek e Afonso Arinos de Melo Franco.
Testemunha privilegiada da história do
Brasil no século XX, o escritor realizou
uma obra que vai muito além da mera
crônica autobiográfica, realizando um
vasto panorama da sociedade e da cultura brasileiras no século XIX e no início do século XX. O escritor se suicidou
no Rio de Janeiro, em 1984.
José Marconi é um dos fundadores do grupo
Croquis Urbanos Curitiba. Também atua como professor
do Departamento de Design Industrial da Universidade
Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Possui
doutorado em Design da Informação pela Universidade
de Reading (2008) e Mestrado em Industrial Design
pela Birmingham City University (1992), ambas
inglesas. É graduado em Design pela Universidade
Federal da Paraíba (1990). Vive em Curitiba (PR).
Ilustração: José Marconi
Download

o tempo reencontrado - CÂNDIDO - Jornal da Biblioteca Pública do