Marcelo Cipis candido 40 NOVEMBRO 2014 www.candido.bpp.pr.gov.br jornal da biblioteca pública do paraná O tempo reencontrado Escritores e críticos refletem sobre a relação da literatura com o passado e a memória Entrevista | Sérgio Augusto • Novela | Ana Paula Maia • Ensaio | Ademir Demarchi 2 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná editorial CARTUM expediente Arnaldo Branco candido Cândido é uma publicação mensal da Biblioteca Pública do Paraná Governador do Estado do Paraná: Beto Richa Secretário de Estado da Cultura: Paulino Viapiana Diretor da Biblioteca Pública do Paraná: Rogério Pereira Presidente da Associação dos Amigos da BPP: Gerson Gross Coordenação Editorial: Rogério Pereira e Luiz Rebinski Junior Redação: Marcio Renato dos Santos e Omar Godoy. Divulgação BIBLIOTECA AFETIVA Divulgação A memória é do passado, já dizia Aristóteles. De fato, memória é um tema antigo, inclusive no que diz respeito à literatura. A professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Sissa Jacoby afirma que a memória está presente no fazer literário desde os poemas homéricos. Mas, pondera a professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Ana Cláudia Viegas, tanto o surgimento dos relatos em primeira pessoa, memórias, autobiografias e diários, como o desenvolvimento do gênero romance, estão relacionados à construção do indivíduo moderno. “Ao longo do século XIX, portanto, a memória foi se constituindo como matéria-prima literária”, diz Ana Cláudia. Memória e literatura é o assunto desta edição e uma ampla reportagem abre espaço para a discussão com autores brasileiros — Maria Valéria Rezende, Sérgio Sant’Anna e Siliviano Santiago: eles acabam de publicar obras nas quais memória é matéria-prima. O legado do escritor francês Marcel Proust (1871-1922), um marco neste tema, não foi esquecido. A professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Tânia Regina Oliveira Ramos também participa da discussão por meio de um artigo sobre memória e literatura. E o escritor Urariano Mota, que vive em Olinda (PE), escreveu um conto sobre memória a convite do Cândido. A edição também abre espaço para outros conteúdos, por exemplo, uma entrevista com o jornalista Sérgio Augusto, que faz uma análise profunda a respeito do jornalismo no momento em que o espaço para cultura é cada vez mais reduzido e praticado por noviços. A cantora e compositora Marina Lima é a personagem da seção Perfil do Leitor. Ana Paula Maia apresenta fragmento inédito de uma novela. Ademir Demarchi escreve sobre a antologia 101 poetas paranaenses, em dois volumes, publicada pela Biblioteca Pública do Paraná — e quatro autores incluídos nas coletâneas estão nas páginas do Cândido. Boa leitura! Estagiários: Lucas de Lavor e Thiago Lavado. Coordenação de Desenho Gráfico | CDG | SEEC Rita Solieri Brandt | coordenação Raquel Dzierva | diagramação Diferentemente do que vemos atualmente por aí na ficção brasileira, O fiel e a pedra, romance de 1961 do pernambucano Osman Lins, é uma obra séria, densa e que exige do leitor dedicação especial. Não se pode ter pressa para lê-lo, tampouco esperar que grandes acontecimentos surjam a cada capítulo. A saga (silenciosa e cotidiana) do trabalhador rural Bernardo Cedro na busca pelos seus direitos, pela manutenção de sua honra, é exemplar e nos encoraja a seguir vivendo de acordo com nossos princípios, ainda que, para isso, talvez, precisemos pagar um preço alto. O final de O fiel e a pedra, “a Eneida do sertão”, é surpreendente. É possível afirmar, superficialmente, que a trama da novela Liquidação, de Imre Kertész, gira em torno do narrador, Amargo, em busca de um manuscrito perdido de B., escritor que carrega o fardo de ter nascido em Auschwitz — não por muito tempo. Após o suicídio de B., Amargo revisita o passado em busca de respostas, tornando-se obsessivo e beirando a loucura. A “assim chamada realidade” não se sustenta em momento algum. A apologia, aqui, é ao suicídio. Wilame Prado tem 28 anos e nasceu em São Paulo (SP). É jornalista e João Lucas Dusi tem 19 anos, nasceu e vive em cronista em Maringá (PR). Estreou na literatura em 2011, com o livro de contos Curitiba. Teve textos publicados no jornal RelevO e na Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida? revista Jandique. Colaboradores desta edição: Arnaldo Branco, Ademir Demarchi, Ana Paula Maia, Bruna Ferrencz, Bruna Siena, Dario Vellozo, Erick Carjes, Glauco Flores de Sá Brito, José Marconi, Leo Gibran, Marcelo Cipis, Marciano Lopes, Nego Miranda, Erick Carjes, Tânia Regina Oliveira Ramos e Urariano Mota. Redação: [email protected] | (41) 3221-4974 Biblioteca Pública do Paraná Rua Cândido Lopes, 133. CEP: 80020-901 | Curitiba | PR. Horário de funcionamento: segunda à sexta, das 8h30 às 20h. Sábados, das 8h30 às 13h. Todos os textos são de responsabilidade exclusiva do autor e não expressam a opinião do jornal. jornal da biblioteca pública do paraná | Cândido 3 curtas da bpp Kraw Penas Uma Noite na Biblioteca Entre 8 e 9 de novembro, acontece a sexta edição do projeto “Uma Noite na Biblioteca”, realizado pela Biblioteca Pública do Paraná. Como o nome sugere, a proposta leva crianças, de 7 a 13 anos, para um divertido “acantonamento” dentro da BPP. As atividades iniciam às 17h e acabam somente na Prêmio Paraná divulga resultado no fim do mês A Biblioteca Pública do Paraná anuncia, na última semana do mês de novembro, os vencedores do Prêmio Paraná de Literatura. O vencedor de cada categoria receberá R$ 40 mil e terá sua obra publicada pela BPP, com tiragem de mil exemplares. Os premiados também receberão 100 cópias de manhã do dia seguinte. O evento é uma iniciativa da Seção Infantil da BPP e acontece desde 2010. Durante a noite, diversas atividades culturais são oferecidas às crianças, como dança, música, teatro, oficinas, gincanas e festas que acontecem nas diversas seções da Biblioteca. Na manhã de domingo, o evento termina com um café da manhã especial para as crianças e os pais, no Hall da BPP. seus livros. A entrega dos prêmios e livros acontece em 12 de dezembro. Elvira Vigna, Regina Zilberman e Lourival Holanda são os jurados da categoria Romance (prêmio Manoel Carlos Karam). Cíntia Moscovich, Antonio Carlos Viana e Paulo Venturelli escolhem o melhor livro de contos (prêmio Newton Sampaio). Luci Collin, Augusto Massi e André Seffrin analisam as obras de poesia (prêmio Helena Kolody). A comissão é presidida por Rogério Pereira, diretor da BPP. Virada Paraná A Virada Cultural Paraná 2014 acontece nos próximos dias 15 e 16 novembro em oito cidades do interior do Estado. O evento é uma realização da Secretaria de Estado da Cultura em parceira com wo Departamento de Trânsito do Estado (Detran), e conta com o apoio do SESI-PR, SESC-PR e prefeituras municipais. As cidades participantes, selecionadas via edital, receberão o Palco Conexões. Wanderléa, Almir Sater, Zeca Baleiro, Arnaldo Antunes, Monobloco e RPM são algumas das atrações. Flagrantes de leitura no concurso fotográfico Click Ducci solo O festival literário Litercultura, em parceria com o jornal Gazeta do Povo, lança o concurso fotográfico Click. O tema é “flagrantes de leitura” e os participantes devem sair às ruas com uma câmera em punho, em busca de fotos de leitores espontâneos. O vencedor do concurso leva um iPad mini e bonus de R$ 500 para comprar livros na Livraria Arte & Letra. As inscrições ficam abertas até 11 de novembro, no site do festival (www.litercultura.com.br). Podem participar pessoas que residem em Curitiba. Kraw Penas O ilustrador André Ducci acaba de lançar sua primeira HQ individual, chamada Fim do mundo. Sem diálogos, apenas com desenhos em preto e branco, Ducci narra a história de um homem que precisa enfrentar todas as adversidades que a natureza coloca em seu caminho. Um homem solitário lutando contra o vento, a neve e o mar por sua sobrevivência. 4 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná PUBLICAÇÃO Antologia traz 101 poetas paranaenses Em dois volumes, coletânea faz um mapeamento da produção poética do Estado ao longo de mais de um século e meio Da Redação A história da poesia paranaense acaba de ganhar um novo capítulo. A coletânea 101 poetas paranaenses — antologia de escritas poéticas do século XIX ao XXI, editada pela Biblioteca Pública do Paraná, por meio do Núcleo de Edições da Secretaria de Estado da Cultura (Seec), traz ao leitor uma inédita compilação da lírica do Estado. Organizada pelo poeta e crítico Ademir Demarchi, a antologia está dividida em dois volumes, cada uma com tiragem de 1.500 exemplares, que, juntas, somam mais de 800 páginas — as publicações serão distribuídas gratuitamente a todas as bibliotecas públicas do Paraná e instituições culturais do país. Os livros também serão vendidos na BPP a R$ 15 cada exemplar. No volume um, estão 50 poetas, nascidos entre a primeira metade do século XIX e a segunda metade do século XX. Já o volume dois, traz 51 autores nascidos entre 1959 e 1993. “Em vez de uma antologia que se baseasse apenas em alguns poucos autores tidos como fundacionais, por isso já instituídos nas leituras feitas por críticos e nas republicações de suas obras, preferi uma forma mais ampla, rizomática, de lidar com o cenário, encarando-se o risco da pesquisa extensa que levou ao significativo número de 101 poetas”, explica Ademir Demarchi que, em sua pesquisa, leu e consultou mais de 300 obras de autores paranaenses, em um trabalho que se desenvolveu ao longo de um ano e meio. O diretor da Biblioteca Pública do Paraná, Rogério Pereira, afirma que a produção poética paranaense é intensa, desde quando o Paraná se emancipou de São Paulo, em 1853, até hoje. “É impressionante a quantidade de poetas paranaenses. Esta antologia reúne desde Dario Vellozo e Emiliano Perneta, alguns dos mais antigos, passando por Helena Koldy e Sérgio Rubens Sossélla, até chegar aos contemporâneos, muitos dos quais publicando em sites e blogs”, diz Pereira, completando que o livro funciona tanto como uma recuperação de memória, para quem já conhece os autores, como uma apresentação dos poetas para as gerações mais recentes. g jornal da biblioteca pública do paraná | Cândido 5 ENSAIO A poesia que se vive “No correr dos anos observei que a beleza, como a felicidade, é frequente. Não passa um dia em que não estejamos, por um instante, no paraíso. Não há poeta, por medíocre que seja, que não tenha escrito o melhor verso da literatura, mas também os mais infelizes. A beleza não é privilégio de uns quantos nomes ilustres. Seria muito raro que este livro, que abarca umas quarenta composições, não entesourasse uma só linha secreta, digna de acompanhar-te até o fim”. Ademir Demarchi, organizador da antologia 101 poetas paranaenses, traça um panorama da poética no Estado ao longo de 160 anos e explica como se deu o trabalho de seleção de poemas e poetas presentes no livro Divulgação Nascido em Araraquara, Ademir Assunção passou parte de sua vida em Londrina. Junto com os poetas Rodrigo Garcia Lopes e Marcos Losnak, edita a revista de literatura Coyote. Em 2013 Assunção venceu o prêmio Jabuti com a coletânea de poemas A voz do ventríloquo. A epígrafe acima, de Jorge Luis Borges, ainda no gosto dos anos 1980 em que muitos nos formamos, na tradução do Pepe Escobar que líamos no famoso “Caderno 2” do Estadão, é muito apropriada para pensar o que seja uma antologia como esta, que foca o extenso período de aproximadamente um século e meio, tendo como marco inicial a data de emancipação do Estado, em 1853, chegando até os nossos dias e englobando 101 poetas, boa parte tão distintos quanto irregulares em sua produção poética. Ela responde à elogiável iniciativa da Biblioteca Pública do Paraná de publicar antologias da literatura do Estado, como forma de ampliar seu conhecimento e circulação, estimular a reflexão e fornecer conteúdo aos estudantes, mas também aos escritores em atuação e aos novos escritores, na medida em que cartografias assim possibilitam reconfigurações dos mapas conhecidos, através da leitura crítica que se possa fazer. Em vez de uma antologia que se baseasse apenas em alguns poucos autores tidos como fundacionais, por isso já instituídos nas leituras de críticos e nas republicações de suas obras, preferiu-se uma forma mais ampla, “rizomática”, de lidar com o cenário, encarando-se o risco da pesquisa extensa que levou ao significativo número de 101 poetas. Muitos dos que já morreram ou desistiram da poesia não chegaram a realizar uma obra que por si tenha sido significativa, por isso o desafio de historicização se impôs, levando a considerar-se o papel histórico e social de cada um, expresso também nos textos publicados, dos quais se selecionou algo que possa interessar ao leitor contemporâneo, ao mesmo tempo em que ilustre o tempo vivido pelo autor e sua poética, sempre na expectativa de que cada um deles tenha alcançado uma resolução estética eficiente. Em antologias que se andam publicando no país tem sido comum a tentação do julgamento estético, sujeitando-as a uma cegueira em relação à complexidade do campo. A motivação de evitar julgamentos estéticos e não fazer escolhas de apenas alguns numa antologia como esta, localizada, se justifica ainda mais quando se considera e se concorda com a constatação de Leminski de que a literatura do Estado é recente e que esta antologia, chegando até os nossos dias, encontra a metade dos poetas ainda em campo, com a experiência pelo meio do caminho ou no início. Assim é que se deu a escolha desse critério em aberto, que olha para as escritas poéticas como “experiências” que se realizaram nos poemas publicados, nos movimentos poéticos como fatos sociais, nas revistas, nos livros e, mais recentemente, na interatividade possibilitada pela internet, que muda radicalmente a forma como se produz a literatura. As pequenas edições, as raríssimas reedições ou publicações de antologias que permitam conhecer os poetas e mesmo contrastá-los para o bom aprendizado da formação de novas escritas também motivam um trabalho como este, de trazer ao leitor uma representação textual amplificada da história da poesia realizada no Estado. Optou-se por ordenar a antologia cronologicamente, a partir do ano de nascimento de cada autor, definindo-se um conjunto de páginas mais ou menos semelhante para todos, variando pouco, de acordo com o potencial encontrado em cada um. Em geral, preferiu-se que 6 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná ENSAIO o leitor encontrasse o prazer da leitura no contraste desse babélico vozerio que se entrecruza rizomaticamente, se aproxima, se distancia, na medida em que sejam comparados uns aos outros, uma vez que “uma das características mais importantes do rizoma talvez seja a de ter sempre inúmeras entradas”, conforme as palavras de Deleuze. Deixou-se de incluir nesta antologia vários escritores que estão a merecer uma compilação de textos para possibilitar sua circulação e avaliação de importância literária, histórica e social, que, dada a dificuldade de acesso, escassez de tempo e ao tamanho a que se chegou esta antologia, não puderam ser lidos. São os casos de poetas como Bento Cego (Antonina?, 1821?), Salvador José Correa Coelho (Lapa, 1821), Fernando Amaro (Paranaguá, 1831), Georgina Mongruel (1861, Bélgica), José Cadilhe (Antonina, 1874). Outros, ainda que incluídos, estão a merecer sair do esquecimento ou da precariedade de publicação, como João Itiberê da Cunha, que publicou numerosos poemas em francês nas revistas simbolistas Azul, Club Curitibano, O Cenáculo e Almanach Paranaense, tal como Georgina Mongruel, que precisam ser traduzidos. Essas revistas mesmas, assim como Ideia, contemporânea da Joaquim, estão necessitando de uma edição compilada ou fac-similar, tal como se fez com Joaquim e como se faz este ano com o Nicolau, reeditado pela Biblioteca Pública do Paraná, para que os leitores deste tempo reencontrem aquele tempo dessas publicações. Outra iniciativa que se tem que tomar é digitalizar todas elas para que atinjam ainda maior público leitor em todo o Estado e por todo o país e até mais, dada a importância configurada nessas publicações. São inovações como essa que possibilitaram, por exemplo, o acesso ao banco de dissertações e teses da UFPR, onde se destaca o trabalho orientador Divulgação recente de professores como Édison J. Da Costa e Rodrigo Vasconcelos Machado em relação ao estudo da poesia paranaense, antes iniciado com a professora Cassiana Lacerda, com relação ao simbolismo, ela também uma continuadora dos estudos feitos por Andrade Muricy, entre outros. Nesses 161 anos de emancipação do Estado podem se identificar, grosso modo, pelo menos quatro momentos intensos de vida cultural que tiveram reflexos na criação poética. O primeiro deles situa-se por volta de 1890 a 1910 aproximadamente, com o movimento simbolista e suas revistas e o Templo das Musas, com Emiliano Perneta e Dario Vellozo à frente, sendo o segundo o que tem a obra simbolista esteticamente mais bem realizada, enquanto que Perneta destaca-se pelos poemas decadentistas e lúbricos e aos quais se soma, presente nesta antologia, Silveira Neto. No modernismo, se não fosse por Brasil Pinheiro Machado, que conseguiu a proeza de inserir-se no movimento modernista e publicar poemas na Revista de Antropofagia, nada restaria de interessante. Isso apesar de Tasso da Silveira ter tido atuação destacada, criando revistas ou participando delas ativamente, sem conseguir, porém, repercussão ou uma poética consistente, a ponto de Mário de Andrade referir-se a ele e aos seus como “um grupo de literatos no Brasil que vai passando por demais na sombra” por seus aspectos conservadores e alheios ao que mais vital o cenário cultural apresentava. O segundo momento está nos anos 1940, quando a revista Joaquim, com Dalton Trevisan à frente, e a revista Ideia, com José Paulo Paes e outros como Armando Ribeiro Pinto, Glauco de Sá Brito e Samuel Guimarães da Costa, buscaram uma renovação de ideias contra o paranismo bairrista imperante e estagnante. Como se sabe, Dalton e Paes foram longe com suas obras, sendo Dalton Poeta e artista plástica, Jussara Salazar publicou os livros Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá, poemas de Leticia Volpi (2002) e Carpideiras (2011), entre outros. um marco estético por sua ficção e Paes um exemplo por sua poesia de viés modernista/concretista, que repercute em diálogo com obras como a de Marcelo Sandmann, mas também exemplo tradutório que se soma ao do concretismo e se propaga em Leminski, Jaques Brand e grupo OSS, com Antonio Thadeu Wojciechowski, Marcos Prado, Sérgio Viralobos, Roberto Prado e outros e chega até hoje, quando há um significativo número de poetas traduzindo textos de várias línguas e tempos, especialmente a partir de cursos da UFPR, numa experiência que terá forte impacto nas criações poéticas em curso e futuras. Um terceiro momento situa-se dos anos 1960 a 2000. De 1960 a 1980, aproximadamente, com os influxos da contracultura e da ditadura encontramos escritores de esquerda, militantes politizados a ponto de serem presos ou exilados, como Walmor Marcellino e Manoel de Andrade, ou preocupados com novas formas estéticas, como Sossélla e Leminski. É impressionante o que fez Sossélla, exilando-se no interior do Estado e constituindo uma enorme biblioteca e uma poética do fragmento, com a edição de centenas de livros artesanais em pequenas tiragens, reproduzindo algo do modo característico da chamada Poesia Marginal com o cuidado de um artista, obra essa que está relegada, precisando circular em uma boa edição, para além das antologias limitadas já publicadas. Leminski, por sua jornal da biblioteca pública do paraná | vez, buscou diálogo com a vanguarda concretista, distanciando-se anos-luz do bairrismo, indo para o campo do experimentalismo expresso no Catatau, de 1975, que chega nos anos 1980 com o esforço de tradução de textos de várias línguas. Em meio a esse momento há também a metafísica de Foed Castro Chamma e de João Manuel Simões, que busca na agonia algum sentido. Jair Ferreira dos Santos, com um único livro, porém impactante em sua forma de ver o Estado a distância, através de descrições dos familiares, sempre tendo como fundo um país marcado pela restrição das liberdades. Ainda dos anos 1970 para os anos 1980 poetas participantes se somam com publicações inspiradas no movimento da Poesia Marginal e do Concretismo, com destaque para o grupo que publicou a antologia Sala 17, vários deles presentes nesta antologia, como Antonio Thadeu Wojciechowski, Marcos Prado, Paulo Venturelli, Roberto Prado, mas também outros, como Domingos Pellegrini, Hamilton Faria, Reinoldo Atem, Solda, Nilson Monteiro e Nelson Capucho, que tiveram intensa participação no movimento estudantil nas universidades, em saraus, no teatro (Pellegrini) ou participação em cooperativas de escritores e jornais. Alberto Cardoso se destaca aí pela capacidade de realizar saraus e agregar escritores em múltiplas declamações, a marca da sua poética, que acabaram invariavelmente no seu famoso Bar do Cardoso, mesclando no próprio nome do local o poeta etéreo e o éter da bebida como a marca de muitos desses poetas, afinal consumidos por cirrose antes que as musas os consumissem... De 1987 a 1996, circulou o jornal Nicolau, editado por Wilson Bueno, marcante pela repercussão obtida no Estado, dando voz a numerosos escritores e poetas paranaenses, mas também exercitando o que já se pode dizer que é uma tradição, apesar do paranismo mais arraigado, que é a busca do diálogo com escritores e artistas de todo o país e até mesmo do exterior, característica essa que, no campo cultural, se ampliará nos anos seguintes, especialmente a partir de 2000. O jornal teve impressionantes tiragens, sendo distribuído nacionalmente e deu amplo espaço à poesia e à tradução. Os intensos anos da contracultura, dos quais Leminski e Alice Ruiz são as maiores referências, começam a se diluir nos anos 1990, anunciando poetas orgulhosos da influência, ou apontando a mudança da vida social sob a sombra da Aids, como sugere a poética de Rollo de Resende que, com Jane Sprenger Bodnar, fez o projeto Homeopoética pelos bares de Curitiba. Um ponto criativo vital nesse momento esteve na página Musa Paradisíaca, publicada de 1995 a 2000 nos jornais Gazeta do Povo e A Notícia, por Josely Vianna Baptista e Francisco Faria, empenhada na discussão com interlocutores nacionais e estrangeiros, sinalizando a vocação vanguardista e antropofágica dos editores e escritores nela presentes e a impressionante variedade de assuntos abordados, que vão da cultura ameríndia à tradução e reflexão sobre escritores das Américas do Norte, Central e do Sul. Musa Paradisíaca, ao começar após o fim do Nicolau, como que o continua, amplificando muitas das suas qualidades e características, tendo sido Josely Vianna Baptista ela mesma partícipe da equipe que o criou, e lá iniciado a publicação de textos da cultura Ameríndia, entre outros trabalhos. A cena mudaria fortemente na primeira década do século XXI, o quarto período referido, que chega até este momento, marcado pela criação de novas revistas de literatura de projeção nacional, todas com olhar globalizante, com muitas traduções. De 1998 a 2000, com seis edições, a revista Medusa sinaliza esse novo momento. Surgem então as revistas Coyote, Oroboro, EtCetera, Babel, Bólide, o jornal Rascunho, o jornal RelevO, e uma significativa quantidade de novos poetas de escrita refinada, à qual se soma, ou até mesmo antecede (com Josely Vianna Baptista em relação aos hispânicos, Ricardo Corona e Rodrigo Garcia Lopes com os norte-americanos e outros, bem como as experiências editoriais do Nicolau e da Musa Paradisíaca), um impressionante esforço tradutório que não se limita aos clássicos latinos (Guilherme Gontijo Flores, por exemplo, com as Elegias de Sexto Propércio e as Odes de Horácio), ingleses românticos (o Shelley traduzido por Adriano Scandolara), ou modernistas (o Ulysses de Joyce, por Caetano W. Galindo), ingleses e irlandeses (por Luci Collin), norte-americanos mais recentes (Bukowski por Fernando Koproski), a pegada variada de Ivan Justen Santana Cândido 7 e Rodrigo Madeira e outros, e um blog como Escamandro, de poesia, tradução e crítica, também transformado numa nova revista impressa, aprofundando essa experiência. Quanto aos poetas e seus poemas propriamente ditos presentes nesta antologia, muitas outras relações e leituras podem ser feitas. Na poesia de Júlia da Costa pode se conhecer a rudeza de seu tempo e a sua vida trágica, expressa pelo viés do romantismo, que se pode relacionar aos poemas de amor não correspondido da melhor fase de Helena Kolody, também aos poemas ao som de valsa e bar de Colombo de Sousa e com o lirismo amoroso e por vezes irônico de Fernando Koproski. É instigante também descobrir o que fez no Paraná um imigrante japonês como Nenpuku Sato, em sua determinada disseminação do haicai e das poéticas e cultura japonesas, que encontra em Reprodução Célebre por sua ironia, língua ferina e aptidão à boemia, Emilio de Meneses foi poeta e jornalista. Nasceu em Curitiba, mas aos 18 anos se mudou para o Rio de Janeiro, onde fez carreira. É autor de Marcha fúnebre (1892) e Poemas da morte (1901), além de um extenso anedotário, quase todo disperso. 8 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná ENSAIO Alice Ruiz uma continuadora persistente na observação da natureza, contra essa paisagem agrícola que parece onitemporal no Estado; ou, por outro aspecto, pode-se rir das diatribes de um Emilio de Meneses, no que há de melhor de sua poética, a irônica, que está também em Antonio Thadeu Wojciechowski e Solda, em distintas modulações. Outros escritores se somam nesses cenários com suas poéticas peculiares, como Fábio Campana, repercutindo o clima político dos tempos de chumbo dos anos 1970; Mirian Paglia Costa, com seu primeiro livro premiado e de grande repercussão pela contundência poética com que retrata a infância em Londrina; Domingos Pellegrini, com uma impressionável vitalidade que vai do poema engajado dos anos 1970 ao soneto crítico mais recente, passando pelos bem-humorados haicaipiras; os poemas cancionados de Neuza Pinheiro; Wilson Bueno, do barroco à poesia amorosa; a simplicidade irônica e crítica de Hélio Leites; Miguel Sanches Neto, com sua poética que vai da autobiografia à biografia dum outro si mesmo na barroca Ouro Preto; Josely Vianna Baptista, Sylvio Back e Ricardo Corona, entre outros motivos pelas poéticas inspiradas na tradição indígena do Estado e na exploração da performance estética do texto, ampliando-a para uma relação com a arte, no espaço das galerias e da ação performática que envolve o escritor como artista; Marcelo Sandmann com sua poesia sintética, rigorosamente formal, ao mesmo tempo irônica, que dialoga com o modernismo e chega à canção; Mário Bortolotto com poemas que ressoam blues, a violência urbana e a marginalidade, que podem ser lidos em contraste e pelas similaridades com os poemas de um novo escritor como Nelson Alexandre; a reinterpretação do simbolismo em Andreia Carvalho; as paisagens e a vida interiorana na lírica poesia de Marco Aurélio Cremasco, em contraste com o sujeito poético “ultracontemporâneo” de Ana Guadalupe, conforme remarcou Heloísa Buarque de Hollanda ao selecioná-la para uma antologia espanhola... Um lirismo contemporâneo marcante, cujo “eu poético” ganha complexidade em poetas como Mauro Faccioni Filho, Marcos Losnak, Luiz Felipe Leprevost, Alexandre França e Rodrigo Garcia Lopes. Ou fica cindido com a exposição dos excessos da linguagem, conforme exposto nas poéticas de Ricardo Pedrosa Alves e Amarildo Anzolin. Essas questões estão todas presentes em poéticas mais recentes, em geral marcadas por um rigor na escrita ou pelo experimentalismo que chamam a atenção, sinalizando vigorosa renovação poética sob os influxos desse cenário cultural complexo em suas múltiplas manifestações. Destacam-se por suas peculiaridades, citando aleatoriamente, Mario Domingues, Rodrigo Madeira, Ivan Justen Santana, Ricardo Pozzo, Adriano Scandolara, Guilherme Gontijo Flores, Estrela Ruiz Leminski, Pedro Carrano, Homero Gomes, Beatriz Bajo, Adriano Smaniotto e Ricardo Schmitt Carvalho. Outra característica importante é o fato de que a poesia já não está somente na capital, mas muito ativa no interior do Estado, nem por isso, contudo, desconectada, como se pode constatar por poetas como Jairo B. Pereira, de Quedas do Iguaçu, com uma poesia experimental que parte de si e chega aos sem-terra e aos índios; e Solivan Brugnara, também de lá, com poemas que retratam de modo singular a fronteira. Como esses, outros poetas podem ser descobertos sob essa ótica transcendente do local, em pontos como Maringá, Foz do Iguaçu, Rio Negro... ou no Rio de Janeiro, Campinas, Florianópolis, São Paulo, Santos... Outra marca comum a vários autores é a metapoética, como na de Glauco Divulgação Radicada em São Paulo, a poeta londrinense Ana Guadalupe teve seus poemas publicados em antologias da Espanha, México e Estados Unidos. É autora do livro Relógio de pulso (2011). Flores de Sá Brito, que remete a Dalton Trevisan (no qual se pode ler Emiliano Perneta), ou na de Marcelo Sandmann em relação a José Paulo Paes, Dalton, Leminski; e de tantos outros poetas a estes últimos, como Sossélla, com um livro dedicado ao “cachorro louco Paulo Leminski”, além de vários livros ou poemas em que se refere a outros escritores paranaenses transformados em personagens, assim como João Manuel Simões com um livro de poemas que remetem a escritores. Essa escrita poética, assim configurada, estabelece uma prática de leitura crítica curiosa, alimentando um universo próprio de escritores que vão habitando esse espaço imaginário da poesia como se fosse o bairro imaginado do escritor português Gonçalo M. Tavares. É interessante também, sob esse aspecto, a predileção dos escritores paranaenses pela forma poética do haicai e do tanka, que se dissemina como prática e diálogo por quase todos, indo dos já observados Nenpuku Sato, Alice Ruiz, Antonio Thadeu Wojciechowski, Wilson Bueno, passando por uma variante divertida e naturalizada ao local como os “haicaipiras” de Pellegrini e chegando nas versões de Alvaro Posselt, tendo até mesmo em Dalton Trevisan, na ficção, uma espécie de horizonte perseguido por seu texto que, depurado à exaustão com o tempo, ganha contundência para se tornar quase um haicai jornal da biblioteca pública do paraná | Cândido 9 Reprodução Principal representante do simbolismo paranaense, Emiliano Perneta viveu entre 1866 e 1921. Autor dos livros Ilusão (1934) e Pena de Talião (1914), em 1911 Perneta foi coroado o “príncipe dos poetas paranaenses”, em uma cerimônia realizada no Passeio Público de Curitiba. Divulgação O poeta e tradutor tradutor José Paulo Paes estudou química industrial em Curitiba nos anos 1940, quando fez parte do grupo que editou a revista Joaquim, sob o comando de Dalton Trevisan. Em 1947, publicou na capital paranaense o livro de poemas O aluno. em poucas pinceladas que desvelam eficientemente seu universo ficcional. É marcante também a articulação da poesia contemporânea, que não fica mais confinada ao local, com os poetas em diálogo com outros e com revistas de todos os lugares, na medida do seu empenho e alcance, fato constatável nas biobibliografias. Isso se expressa também em premiações de todo tipo, sinalizando um espírito competitivo que deve, necessariamente, se refletir em poéticas mais rigorosas e críticas e obras mais bem realizadas que não parem nos primeiros livros. A inspiração rizomática da antologia, sob outro aspecto, permite várias conexões, como ler a Sulamita de Dalton Trevisan ecoando os simbolistas, em Emiliano Perneta mesmo, sendo ele um dos que a tematizou em sua poesia mais lúbrica; essa Sulamita de ambos ecoa também na escritora mais jovem incluída na antologia, Bruna Siena. Nessa massiva ação de leitura e releituras muito chamou a atenção, mas dois livros merecem destaque pela peculiaridade. O primeiro deles é Colar de maravilhas, de Mirian Paglia Costa, publicado em 1981 por Massao Ohno — Roswitha Kempf Editores, com ilustrações de Darcy Penteado, que recebeu o Prêmio de Revelação Literária da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e foi elogiado por escritores como Carlos Drummond de Andrade, Millôr Fernandes e Paulo Rónai; a contundência poética sobre a infância e a vida às margens do Tibagi dos anos 1950 para os anos 1960 é notável e algo dele pode ser lido na antologia. O outro é Brisais, de Jaques Brand, publicado em 1997 e que, nos poemas podemos encontrar exemplos de como a relação com a tradição pode ser divertida e interessante, sobre como a tradução pode ser transcriativa sem ser pedante; sobre como a poesia é sinônima de amizade e irmanamento que se dá tanto com os autores que se lê e se traduz ou transcria, quanto com os poetas e leitores contemporâneos com os quais se compartilha essa experiência. Feitas todas essas observações, caberia ainda dizer algo quanto aos critérios mais pessoais que nortearam as escolhas dos poemas, questão perfeitamente pertinente, uma vez que está no cerne da discussão quanto ao que seja a poesia para quem ousa se situar nesse campo. Devo dizer que depois do legado do alto Modernismo, em seu empenho de discussão estética que atingiu fortemente a poesia, não se pode mais querer fazê-la sem uma mínima consciência crítica do que seja, impondo-se ainda ao poeta contemporâneo aquelas primazias que caracterizam a poesia da modernidade, que são as categorias negativas, tal como apontadas por Hugo Friedrich, somadas ao antagonismo à sociedade, assunto caro a Adorno e outros estudiosos, como Barthes. Ilustrativa dessa questão do antagonismo social é a antologia Vinagre, feita no calor da hora das manifestações que tomaram o país em junho de 2013, na qual participaram diversos poetas paranaenses. Sob esse aspecto, portanto, encarar a missão de elaborar uma antologia tem um tanto de buscar respostas ao fato de que “a tensão dissonante é um objetivo das artes”, considerando-se que, para o antologista, essa tensão continua válida contemporaneamente, tanto quanto foi para a modernidade, cabendo, portanto, buscar nos escritores, sob diversos aspectos, esse sentido de dissonância em sua obra em relação ao tempo em que vivem ou viveram. No entanto, ainda que haja uma predileção por esse critério, oriundo de uma estética pessoal, ao definir a pesquisa numa gama tão ampla de escritores, há que se considerar não apenas o critério de “transformação”, fortemente associado ao referido antagonismo, mas também os de “sentimento” e de “observação”, tidas essas como as três maneiras possíveis de comportamento da composição lírica que domina a poesia moderna e ainda repercute. Paulo Leminski, num texto muito comentado, também intentava responder a essa demanda, pois ao referir-se à poesia, compreendendo seu sentido máximo de dissonância, dizia que ela está além da utilidade, pois a poesia é dessas coisas “que não precisam de justificação nem de justificativas” porque ela “é o princípio do prazer no uso da linguagem” e só tem sentido, só é poesia, se proporciona prazer e tem capacidade de produzir “mundos novos” ou sentidos novos, alheios ao utilitarismo da sociedade que impõe valor cambiável a tudo. Feitas essas observações todas, nunca suficientes, cabe ao leitor e aos poetas a fruição desse recorte, com a expectativa de que novas leituras, recortes e descobertas se realizem, produzindo “os novos mundos” de que falava Leminski, bem como o necessário prazer da linguagem. a poesia que se vive o leitor que se vire g Ademir Demarchi nasceu em Maringá, em 1960. Foi editor das revistas BABEL e Babel Poética. Também organizou a antologia Passagens, que reúne 26 poetas paranaenses. Como poeta, publicou Os mortos na sala de jantar (2007), Do sereno que enche o Ganges (2007) e Pirão de sereia (2012). Vive em Santos (SP). 10 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná POEMA | BRUNA SIENA OS FANTASMAS DA CIDADE QUE RI Arrumando as cidades enquanto escuto aquele disco que me lembra da sua retina grudada nos vidros blindados do parapeito e meu peito estourado de fumaça dos carros do cigarro do incêndio aqui dentro e queima tudo que é de gelo não descongelo. As cidades me desarrumam e no quadro do corredor você ri pra mim engulo o choro passo reto não te olho pra não ser obrigada a arrancar os meus olhos e a cidade toda ri o céu fechado o sinal aberto o café quente pra caralho queimando os dedos calejados de punheta. E tudo continua vazio tudo geme fecunda rebola na minha cara é lá na vida que eu descobri a coisa a coisa que atira e não resgata deixa o corpo apodrecer no ventre da cidade que ri no beco que estupra e não goza o asfalto molhado refletindo os fantasmas do alto bebendo conhaque voltando pra casa. Bruna Siena nasceu em 1993 em Maringá (PR), onde vive. É autora do livro Dolores morreu, ainda inédito. Bruna Ferrencz Ilustração jornal da biblioteca pública do paraná | Cândido 11 DARIO VELLOZO | POEMA AO CAIR DAS FOLHAS Hélàs! Les beaux jours sont finis! Théophile Gautier Teus vestígios buscando. E a sombra esquiva e dúctil De teu corpo, e o teu ser de enlevo e de harmonia. As acácias em flor... E a voz? E a luz macia De teus olhos? E a flor do teu sorrir? ... Inútil Meu afã de buscar-te!... A vida leve e fútil Empolgou-te... O jovem esquecido... A poesia Do céu, da natureza, evolada... Sombria, Deambula na noite a minha alma inconsútil. Linda e formosa! Linda! Eu quisera elevar-te Um templo de saber, de sentimento e de Arte, Culto de graça e amor à Musa do Ideal. Deslumbrou-te o clarão do mundo. Adeus, Senhora! Hoje: sombra... Ontem: luz, a flama inspiradora Do bardo... Eleita: e morta... Eleita: e tão fatal! Dario Vellozo nasceu em 1869, no Rio de Janeiro. Em 1909, construiu o Instituto Neo-Pitagórico, espaço de debates literários, da cultura helenística e do movimento simbolista em Curitiba. Também foi o criador da revista O Cenáculo (1895-1897). Publicou, entre outros, os livros Ephemeras (1890), Esquifes (1896) e Hélicon (1908). w Bruna Ferrencz Ilustração 12 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná POEMA | marciano lopes MIRANDO JANIS JOPLIN É nesta cadeira, vejam, é nesta cadeira vazia que ouço Janis Joplin e converso com Bertold Brecht sobre os absurdos do mundo. É nesta cadeira, vejam, que ouvimos Neruda cantar e converso com o mais estranho e eclíptico demente que com meus olhos meninos eu vi! Ele se delicia com rainhas, balões, porcos e pedras rolantes, Mirando Janis Joplin grita berra! e sussurra baixinho... que não tem certeza de nada e que a ignorância também é sábia. Fala de doidos amores, das mulheres que comeu e cuspiu nos podres vasos da aurora, nos bares imundos em que deixou o âmago quente do seu estômago cansado da burra servidão do dia. É nesta cadeira, vejam, É nesta cadeira vazia que ouço Janis Joplin. Não, não assuste não! São somente máscaras com que disfarçamos o medo, o vazio o vácuo a velocidade a voz que vem do nada por todos os lugares jorrando como sangue do coração fazendo esgares nos espelhos espalhados pelo caminho. É nesta cadeira, vejam, é nesta cadeira vazia que ouço Janis Joplin! Bruna Ferrencz Ilustração Marciano Lopes nasceu em Porto Alegre, em 1965. Foi professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Publicou os livros de poemas Torpor e A contrapelo. jornal da biblioteca pública do paraná | Cândido 13 glauco flores de sá brito | POEMA BALADA DE BELSEN Mais forte que a voz dos vivos e a voz dos soldados mortos Na grande libertação O clamor dos mortos, mortos Nos campos de concentração Incinerados nos fornos Cadáveres contorcidos Numa alucinação. Os mártires da vitória Que exigem reivindicação Não podem ser esquecidos Não, por muita geração Fantasmagóricas sementes De toda a libertação. Oh, tu, das mãos decepadas Oh, tu, sexo rasgado Oh, tu, crânio esfacelado Nas câmaras de “purificação” Menino enterrado vivo, Não esqueceremos, não! Oh, ressequidas sementes Semeadas nos fundos valos Dos campos de concentração Sóis as raízes fecundas Da grande libertação. Onde existir um tirano Houver uma inquisição Vossa lembrança na mente Dos que viram nossos corpos Convulsos, contorcionados No estático ballet A mente que vos lembrar Derrubará o tirano É a sua inquisição. Membros desarticulados, E rostos intumescidos A imensa podridão A que fostes reduzidos Será bandeira, uma flâmula Guiando à libertação. Vós dolorosa semente Do trigo da liberdade. Que a todos dará o pão. Bruna Ferrencz Ilustração Glauco Flores de Sá Brito nasceu na cidade gaúcha de Montenegro, mas se mudou para Curitiba em 1937, aos 18 anos, onde se destacou na atividade teatral, tendo sido, com Ary Fontoura, fundador do Teatro Experimental do Guaíra. Começou a publicar poemas nos anos 1940 e é autor de O marinheiro (1947) e O cancioneiro de amigo (1960). 14 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná entrevista | sÉrgio augusto “Se pudesse, não escreveria mais uma linha” O escritor e jornalista Sérgio Augusto revê sua carreira de 54 anos no jornalismo e fala sobre os temas que mais o instigam ainda hoje, como a literatura, os grandes cronistas e o declínio do jornalismo cultural brasileiro Marcio Renato dos Santos e Luiz Rebinski jornal da biblioteca pública do paraná | Maria Lucia Rangel A história do jornalismo cultural brasileiro do século XX não pode ser contada sem que Sérgio Augusto empreste o nome a um verbete. Colaborador das principais publicações do país desde os anos 1960, quando estreou no jornalismo como crítico de cinema na Tribuna da Imprensa, aos 18 anos, Augusto representa hoje uma espécie em extinção no jornalismo cultural brasileiro: a do jornalista que consegue, sem ser cabotino, escrever com a mesma propriedade sobre temas tão variados como cinema, música, futebol, problemas sociais e política. O que lhe rendeu elogios superlativos ao longo da carreira, como o de “Montaigne brasileiro”, exaltado por Moacyr Scliar na orelha de As penas do ofício, uma reunião de artigos de Sérgio Augusto publicada na metade dos anos 2000. A literatura foi outro tema que rendeu ao jornalista muitos textos. Suas análises e memórias sobre autores importantes da nossa literatura povoam prólogos e posfácios de obras essenciais, em geral resgatadas do limbo editorial. É o caso recente de O mais estranho do países, livro de crônicas de Paulo Mendes Campos em que Sérgio Augusto dá ao leitor a dimensão do cronista mineiro dentro do cenário literário nacional. Há poucos anos, o jornalista coordenou a reedição dos livros de Rubem Fonseca pela editora Agir, um dos temas que ele comenta nesta entrevista. O escritor também fala sobre jornalismo pósinternet, a derrocada dos cadernos de cultura tradicionais e o mercado editorial brasileiro. Cândido 15 16 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná entrevista | sÉrgio augusto Com a crise da imprensa escrita, os cadernos de cultura estão sendo escritos por gente muito jovem, que se submete aos salários baixos que os jornais oferecem hoje. Qual a sua avaliação a respeito do jornalismo cultural praticado atualmente no Brasil? É uma cobertura utilitarista, norteada pelo mercado e pautada pelos divulgadores de editoras, artistas, produtores de filmes e peças etc, que se tornaram superegos dos editores. Se o noticiário político muito se ressente da promiscuidade que existe, sobretudo em Brasília, entre jornalistas e políticos, do jogo de favores que se estabelece entre eles, na cobertura cultural não é menor o compadrio, a complacência com os produtos lançados e a desigualdade de tratamento dispensado a quem é e não é amigo ou “funcionário da casa”. Em 54 anos de profissão nunca vi o jornalismo de patota ou dinástico praticado com tanta intensidade e desfaçatez como agora. Claro que em redações com alto índice de noviços e elevada rotatividade, onde o medo de perder o emprego só fez crescer nos últimos tempos, esse clima encontrou o ecossistema ideal para proliferar. As editoras mais poderosas praticamente editam o que sai sobre seus lançamentos e é publicado nos jornais; escolhem o dia, exigem primeira página, às vezes escolhem até qual veículo deverá ter prioridade ou mesmo exclusividade. Montaram um esquema que transformou os cadernos de cultura & amenidades em meras vitrinas, em extensões de seus press releases. E ai de quem ousar romper esse pacto sinistro. Nos últimos anos o cerco tem se fechado para as publicações dedicadas à cultura no Brasil. As últimas baixas foram a revista Bravo! e o caderno “Sabático”, do Estadão, ambos veículos em que você era colunista. Por outro lado, a cultura se expandiu de outra maneira, com mais publicações segmentadas surgindo fora do Eixo Rio-São Paulo, sem falar na internet. Assim como acontece com a informação de um modo geral, os grandes veículos perderam a hegemonia e a relevância na área cultural? Perderam, não sei quanto, e na certa perderão mais à medida em que a imprensa gutenberguiana apressar seu passo rumo à extinção. Há bastante jornalismo cultural de qualidade igual ou superior na internet, embora o lixo ainda predomine, quando nada porque na web o espaço é infinito e o que nela se divulga não é filtrado, editado, apenas manipulados por algoritmos desprovidos de qualquer senso crítico. Muita gente, especialmente as gerações mais novas, se informa pela internet, capta e troca opiniões pelas mídias sociais. O primado do jornalismo de serviço ao qual os segundos cadernos se escravizaram há duas ou três décadas, em detrimento de um jornalismo mais, digamos, reflexivo, crítico e impermeável à agenda de lançamentos, foi um tremendo retrocesso. Facilitou o trabalho e a ascensão de profissionais mal formados e informados, pois o jornalismo de serviço pouco exige deles, é quase um trabalho braçal, mas não atraiu novos leitores na quantidade almejada. Como o jornalismo impresso só terá futuro se tomar o caminho inverso, tornando-se reflexivo, analítico, nada de textinhos curtos e opiniosos, apanágio da internet, ainda lhe resta uma esperança. Mas o problema maior persiste: como superar a preguiça das pessoas para ler textos que excedam dois parágrafos curtos, sejam eles impressos ou pixelados numa tela? O maior paradoxo da internet foi ter inventado o hipertexto e estimulado o hipotexto. “Fazer listas, esse passatempo adolescente que a juvenilização do planeta transformou num esporte ecumênico e onipresente, vem enchendo a burra de um bocado de gente.” A frase está no texto “Para quando jornal da biblioteca pública do paraná | Cândido 17 Walter Craveiro o mundo acabar”, publicado na revista Bundas, em 21 de novembro de 2000, e incluído no livro Lado B. O jornalismo cultural utiliza-se do expediente. O que acha das listas? Faz sentido ter listas? Fazer listas é um folguedo infantil (ou adolescente, como queira), uma masturbação taxonômica, inócuo e inconsequente. Já brinquei muito disso, em priscas eras, mas tomei fastio, assim como me cansei de dar cotações a filmes, estrelinhas, bolas pretas e outras avaliações reducionistas, tão tolas quanto as reações do bonequinho de O Globo. Sei que fazer listas é uma das coisas que distinguem o ser humano dos animais, mas não faço a menor questão de me distinguir por essa habilidade dos bichos que tanto admiro e venero. Já os questionários, cujo modelo mais famoso é o de Proust, me agradam. Você é um entusiasta do jornalismo praticado em revistas americanas como The New Yorker e Atlantic. Temos uma tradição rica de grandes jornalistas, mas o jornalismo americano ainda é melhor que o nosso? Sempre foi? Sempre foi. Tivemos e ainda temos jornalistas culturais de enorme talento — hoje em menor quantidade, certo —, mas nesse ramo os americanos e ingleses continuam imbatíveis. Mas nem nos Estados Unidos nem na Europa houve um fenômeno da magnitude de Otto Maria Carpeaux, que era austríaco mas se fez jornalista aqui no Brasil. Recentemente a literatura nacional perdeu João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, dois escritores que, de alguma forma, pensaram o Brasil em seus romances. Um tema que parece não estar na rota dos escritores contemporâneos. O romance-painel, como Viva o povo brasileiro, já não tem mais função, nossa literatura já explorou suficientemente a formação da nação? Desconfio que sim. Ficaria surpreso se aparecesse aí um novo épico, um novo romance-painel do fôlego de Viva o povo brasileiro. Os romances encolheram, muitos são quase novelas ou contos espichados, consoantes a preguiça cada vez maior do leitorado, viciado pela internet e certos jornais na leitura de textos curtos. O roman-fleuve secou e nem podemos culpar a degradação do meio ambiente por esse desastre intelectual. Quando se pergunta a um escritor com mais de 60 anos o que ele anda lendo, é provável que ele responda que não tem acompanhado as novidades, que está relendo livros que foram importantes em sua trajetória, mas não suficientemente digeridos como deveriam. Como pauta suas leituras hoje? Também está na fase da releitura? Infelizmente não. Mas não é por falta de vontade. Não tenho mais aquela sofreguidão da onisciência, típica da imaturidade, que alguns chamam de juventude. Divido minhas leituras entre o desejo e a necessidade. O desejo está ligado, de certo modo, à curiosidade. A necessidade está sempre ligada ao trabalho. Gasto horas percorrendo links atrás de links para conhecer melhor um assunto sobre o qual escreverei (ou tentarei escrever) um artigo para o jornal, em geral para o “Aliás” do Estadão, que trata de questões mais ligadas à atualidade. Às vezes me meto a tratar de temas com os quais tenho pouco intimidade, justamente para superar essa lacuna. Há pouco gramei, em versão kindle, trezentas páginas de um fascinante estudo sobre o hidronegócio global— The Price of Thirst — porque cismei de tocar no problema da falta d’água em São Paulo. Talvez jamais o lesse se não tivesse de escrever sobre a escassez e a comercialização da água no planeta. Como quase sempre eu mesmo me pauto, pode me chamar de masoquista. Ah, sim, faço com livros o que 18 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná entrevista | sÉrgio augusto Walter Craveiro faço com filmes: se me aborrecer, largo no meio — ou mesmo no início. A vida é curta e são muitos os livros que ainda não li por falta de tempo. Com ficção costumo ser implacável. Se um romance ou uma novela não me seduz, não me intriga, começo a me cobrar por que, diabos, não estou relendo Flaubert. E a literatura de ficção brasileira contemporânea? Procura conhecer novos nomes? Não como deveria fazê-lo, nem que fosse por mero dever de ofício. Milton Hatoum, Cristovão Tezza, Sergio Sant’Anna e Bernardo Carvalho me interessaram desde o início; outros (não citarei nomes) nem no início; e outros abandonei à medida em que fomos envelhecendo e envilecendo. Tenho graves lacunas, nenhuma, creio, tão gritante quanto Evandro Affonso Ferreira, que não vejo a hora de degustar. Confesso, sem culpa ou vergonha, que leio mais e com maior interesse os autores de língua espanhola. Nacionalismo em arte não existe. Há certo consenso de que o mercado editorial brasileiro se profissionalizou nas últimas duas décadas, além de ter se expandido, com mais e melhores editoras. Isso passa tanto pela parte operacional do negócio, quanto, por exemplo, pelas traduções, hoje feitas diretamente de qualquer língua. Concorda com essa visão? Concordo plenamente. As duas coisas caminham juntas, não? Quando leio um livro estrangeiro, costumo marcar a lápis as frases e expressões capazes de derrubar um tradutor; se por acaso me cabe resenhar sua edição brasileira, já tenho meio caminho andado: se o tradutor superou aquelas armadilhas, posso confiar no restante. Quando Rubem Fonseca saiu da Companhia das Letras e passou a ser editado pela Agir/Nova Fronteira, você foi o responsável pela coordenação da reedição da obra do autor. Nesse trabalho, foram recuperados textos de outros autores sobre Fonseca, além de posfácios inéditos assinados por você. Como foi esse trabalho de revisão da obra de um escritor tão importante? A releitura dos livros de Fonseca foi reveladora em algum sentido? Apontou novas perspectivas? Embora amigo de Zé Rubem desde o início dos anos 1960, quando ele ainda trabalhava na Light, não soube por ele de sua saída da Cia. das Letras, mas de Paulo Roberto Pires, então diretor da parte editorial da Ediouro/Agir. A Nova Fronteira ainda não havia entrado na história. Paulo Roberto partiu logo para conquistar Zé Rubem para suas hostes e me propôs fazer a curadoria da reedição, o que, segundo ele, facilitou sua cantada no cobiçado escritor, pois, conforme já disse, somos amigos de longa data. Parêntese importante: fui responsável pela ida do Zé Rubem da Francisco Alves para a Cia. das Letras. Luiz Schwarcz me confidenciou que adoraria ter Zé Rubem em seu catálogo. A transação foi facilmente armada durante um almoço en petit comité no Copacabana Palace com a agente espanhola Carmen Barcells, a escritora chilena Isabel Allende, Luiz Schwarcz, Zé Rubem, Nélida Piñon, Affonso Romano de Sant’Anna, este que vos fala, e não me lembro mais quem, no Copacabana Palace. Zé Rubem não estava satisfeito com a Francisco Alves e fez muito bem em ir para a Cia. Fechado o parêntese. Fazer a curadoria foi uma tarefa tranquila. Zé Rubem não lê, ou pelo menos diz que não lê, o que escrevem sobre ele e seus livros, mas seu arquivo de recortes, organizado por uma amiga, é farto e organizado. Nele e nos meus guardados catei as resenhas e os ensaios que me pareceram os mais relevantes, montei um arremedo de “fortuna crítica”, reproduzimos as capas das traduções de cada livro no exterior, escrevi os posfácios, e pronto. Posfácio é um fardo: supõe-se que seja lido depois do texto principal, o que, se em parte nos libera do risco de “spoilers”, nos obriga a fugir da redundância o tempo todo. Conforme os volumes iam saindo, meu estoque de observações e achegas sobre o autor e determinados aspectos e personagens de sua obra foi-se esgotando. Quase entrei em pânico. Seu conceito como mestre em narrativas curtas permanece, a meu ver, inabalado. Zé Rubem enobreceu o gênero noir entre nós e criou jornal da biblioteca pública do paraná | uma legião de discípulos e imitadores que nunca me apeteceram, até porque nunca fui chegado à literatura policial. “Bunda” ainda é a sua palavra preferida da língua portuguesa? Por quê? É. Por seu poder descritivo, por sua sonoridade. Também era a palavra favorita de Drummond. Gosto muito de cafuné, dengoso (dengosa é melhor ainda), chamego, pachola. Do ponto de vista estritamente semântico, minha favorita, em qualquer língua, é alívio. É o que sentimos quando superamos nossas piores dores e aflições. Você mesmo afirmou: a televisão emburrece, a televisão é a cocaína do povo. Tem assistido algo na televisão? Caso sim, o quê? Raramente vejo televisão. Para quem passa o dia plugado na internet, os telejornais pouco acrescentam. De todo modo, meu canal default é, faute de mieux, a Globo News. Até a Copa acompanhava de perto o futebol, mas me desencantei tanto com o futebol aqui praticado — e mais ainda com o Botafogo — que cancelei minha assinatura do PFC (Premiere Futebol Clube), uma inutilidade se você quiser apenas assistir aos campeonatos europeus, transmitidos de graça pela ESPN e pela Fox. Sou, em parte por necessidade geográfica, digamos assim, assinante da Sky Net, que é uma porcaria. Oferece trezentos e tantos canais, se me sirvo de meia dúzia é muito. Não podemos fazer nosso próprio pacote, cancelando o que consideramos lixo, como, no meu caso, por exemplo, os canais infantis (não tenho criança em casa), os evangélicos, os de compra e venda, os de leilão de gado etc. Dia desses descobri que estava pagando cinco reais por um canal que nem de graça me interessa: o japonês NKD. Isso é um sacanagem com o consumidor. O problema é que você não tem opção. A programa- ção de filmes é uma tristeza — e até filmes dublados já passam na TV a cabo. Salvam-se os seriados e o Netflix. Fui um fanático seguidor de Mad men, desde o início, e também de House of cards, Newsroom e Homeland. Alguém já comentou que há pontos de contato entre o seu texto e o de Paulo Mendes Campos. Há algo em comum? O que seria? Nunca me disseram isso. Creia-me: você acaba de me fazer o maior dos elogios. Se temos algo em comum, só você, por enquanto, pode discorrer a respeito, e adoraria que o fizesse. Invejava a maneira como Paulinho conseguia ser, a um só tempo, erudito e claro, leve e profundo, lírico, sem pedantismo, informativo e encantador. Um jornalista cultural perfeito. Quem me dera pertencer a essa liga. Atualmente há inúmeros textos autorais publicados na imprensa brasileira, crônica, comentário, opinião, etc. Quem são os seus cronistas, comentaristas favoritos? Quem você não deixa de ler? A turma da New Yorker é indispensável. Idem, a maioria dos colaboradores da New York Review of Books. Assino uma porção de publicações, a maioria online, atualmente, de modo que seria fastidioso listar quem sigo, já segui e deixei de seguir. Já li com mais assiduidade Paul Krugman, mas economia não é minha praia. Da prata da casa, Elio Gaspari, Janio de Freitas, Renato Janine Ribeiro, Milton Hatoum, Fernando Calazans e Lucia Guimarães são os primeiros nomes que me ocorrem, e desde já peço desculpas aos que mereciam ter sido lembrados mas não foram — vistam a carapuça da vaidade. Há muito me dispensei dos cronistas que não saem do lero-lero, ficam fazendo embaixada com as palavras e nada me ensinam. Também não tenho saco para os cronistas-vovô, que nos impingem as gracinhas de seus netinhos e netinhas. Para ganhar tempo, paro de ler de imediato qualquer texto com clichês e expressões que abomino. De imediato, mesmo, ainda que o assunto me esteja interessando. É minha forma de protestar em silêncio contra o insulto que a meu ver representam coisas do tipo “resgatar a memória”, “conquistar corações e mentes”, “ícone” disso e daquilo, “emblemático”, e por aí vai, o glossário não para de crescer. Com a internet e seu vale-tudo vernacular, sintático e estilístico, esse descalabro atingiu culminâncias inéditas. Há blogs que, só de olhar, me provocam engulhos, com seus pontos de exclamação torrenciais, suas palavras “gritadas” em caixa alta, seu gosto por hipérboles do tipo “o máximo”, “genial”, “imperdível”. um romance ou “umaSenovela não me seduz, não me intriga, começo a me cobrar por que, diabos, não estou relendo Flaubert.” De tempos em tempos você reúne sua produção mais recente em livro, como fez ao publicar Lado B e As penas do ofício. Teremos em breve uma nova reunião de seus artigos e ensaios? Não tenho nada desse gênero programado. Vivem me cobrando uma coletânea do que escrevi sobre cinema, mas não me animo. As editoras de ponta me parecem cada vez mais arredias a com- Cândido 19 pilações e similares. Por elas, o que saiu em jornais e revistas deve lá permanecer sepultado, à espera de que o autor morra e a próxima onda de nostalgia o traga de volta, quiçá com o rótulo de “esquecido”, “maldito”. Você tem formação em filosofia, é aficionado por cinema, militante do jornalismo e um leitor voraz. Se tivesse que escolher apenas uma dessas manifestações artísticas, com qual ficaria? Se pudesse, ficaria lendo e ouvindo música, não escreveria mais uma linha; ao menos por obrigação, para ganhar dinheiro, não escreveria. Quem por acaso aprecia o que escrevo deve torcer para eu jamais acertar um bolão da Mega-Sena. Você não teve filhos e, a exemplo da narrador de Machado de Assis, “não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” Não ter sido pai explica o fato de você ser um sujeito acima da média em sua atividade, que conseguiu se dedicar como poucos à cultura e à escrita? Ou essa observação não tem sentido? Não sei se faz sentido. Não ter filhos me proporcionou mais tempo para viajar, disso tenho quase certeza. Deixava os gatos com minha mãe, e pé na estrada. Viajei muito, para tudo quanto é lugar. Tirei praticamente um ano sabático em 1974, viajando pela América do Norte e Europa. Felizmente cansei de voos e aeroportos na mesma época em que o jornal cancelou os dois bilhetes aéreos internacionais que todo ano me dava de bonificação. Quanto aos filhos, às vezes me arrependo de não ter legado minha miséria a uma criatura, de preferência do sexo feminino. Como minha mulher tampouco tem filho, nem irmãos, como eu, já me vejo, bem velhinho, vivendo da caridade de estranhos, como a Blanche Dubois. Se tiver sorte, é claro.g 20 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná especial | MEMÓRIA Memória é ficção As experiências de vida e de leitura, recriadas por meio da linguagem, são as principais matériasprimas para a prosa e a poesia, afirmam escritores, professores universitários e estudiosos Marcio Renato dos Santos M il rosas roubadas, o mais recente romance de Silviano Santiago, foi escrito a partir das memórias do autor. “O livro parte de acontecimento real e seu capítulo de abertura se passa no dia em que vejo o amigo Zeca ir abandonando a vida no leito do Hospital São Vicente, no dia 7 de julho de 2010”, conta Santiago. A narração recupera fragmentos do percurso de Ezequiel Neves (1935-2010), o Zeca, amigo de Santiago, conhecido como jornalista, produtor musical e compositor, parceiro de Cazuza e Roberto Frejat, entre outros. Mas, em Mil rosas roubadas, o leitor vai encontrar um outro Zeca. “Escolhi exatamente a passagem da vida do Zeca que as pessoas menos conhecem e, ao mesmo tempo, o momento em que ele se forma como legítimo intelectual brasileiro”, diz o escritor. Marcelo Cipis Ilustração jornal da biblioteca pública do paraná | Silviano afirma que as emoções e os sentimentos vividos por ele foram transferidos ao narrador do romance, apresentado propositalmente como professor de História e não de Letras — que é a referência real do autor: “A ‘invenção’ do narrador, que se descola de parte da minha personalidade propriamente profissional, visa emprestar intensidade e sentido dramáticos à narrativa ficcional. A ‘grafia-de-vida’, se me permite o neologismo, está sempre comprometida com a ficção.” A professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Sissa Jacoby acredita que toda criação artística está ancorada, em maior ou menor grau, na experiência, individual, alheia ou coletiva. Para comprovar o que diz, cita Mil rosas roubadas, romance criado, no entendimento dela, a partir da seguinte questão: um professor passou a vida fornecendo material para o amigo de infância vir a biografá-lo no futuro e, ao contrário de seu desejo narcísico, se vê tendo que assumir o papel de biógrafo desse amigo a partir de sua morte. “Silviano discute, entre outros subtemas, importantes e insolúveis questões relacionadas à biografia e à autobiografia, diretamente implicadas na tarefa assumida pelo narrador-biógrafo. Para biografar Zeca, o professor — que também é pesquisador de História — sabe que terá de preencher as lacunas da memória, sabe da parcialidade do conhecimento e da impossibilidade do autoconhecimento, o que é problema também na autobiografia”, Walter Craveiro Silviano Santiago recria fragmentos do percurso de Ezequiel Neves em Mil rosas roubadas. “A vida do Zeca, como toda vida alheia que é contada seja na memória individual seja em letra de forma, tem algo e muito de ficcional”, afirma. Cândido 21 22 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná especial | MEMÓRIA argumenta Sissa. Em Mil rosas roubadas, observa a especialista, a imagem espelhada — o outro —, que já é uma inversão, se inverte duplamente. “De resto, é o dilema de toda escrita memorialística, a necessidade humana de conhecer-se, e a única possibilidade de fazê-lo é através do outro”, acrescenta a professora da PUCRS. Preciosa matéria-prima Sérgio Sant’Anna tem convicção de que a memória é matéria-prima para a literatura. Em O homem-mulher, o seu mais recente livro de contos, os textos ficcionais foram elaborados a partir da vivência do escritor mineiro. “Eles dois”, por exemplo, é, de acordo com o autor, autobiográfico — o conto recria um período de adversidade financeira de um jovem casal que, ao mesmo tempo, experimentava uma breve, mas inesquecível, temporada de prazer a dois. “Trata-se de um amor intenso que vivi, numa ambientação como aquela”, conta Sant’Anna. O escritor acrescenta que também é possível escrever ficção sem a vivência concreta de determinados fatos: “Mas há, de fato, um acervo que vai se formando a partir da vida do escritor. E, para os fatos propriamente ditos, a imaginação é preciosa, nunca se esquecendo da linguagem que, afinal, é o que torna possível que as emoções perpassem um texto. Sem a imaginação e a linguagem, não há ficção que preste.” O comentário de Sant’Anna ajuda a compreender o processo de escrita de Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende: mais de uma década separa a ideia inicial e a publicação do romance. Em 2002 ou 2003, ela passou 48 horas em um hospital público de João Pessoa, na Paraíba, ajudando uma família que estava com uma pessoa internada. “Podia ter ficado 40 dias ou 40 anos. Mas naqueles dois dias e noites de andanças, descobri muita gente, através de frestas, escondidos pela cidade, em lugares onde antes eu nunca havia notado passagens para outros mundos, para o avesso da cidade onde alguém pode se ‘esconder’ para sempre”, comenta a escritora. A partir daquela experiência, Maria Valéria conta que sentiu impulso para escrever um romance com peregrinações e descobertas que durasse 40 dias, uma quaresma, uma quarentena — algo como uma travessia: “Fiquei, sobretudo, com a memória dos sentimentos daquelas pessoas e também com os meus, mais forte do que de tudo o mais que tinha percebido naqueles dois dias. Ao longo dos anos, a ideia do romance, ficou girando na minha cabeça.” Em 2011, ela recebeu um convite para escrever um romance, a respeito de um outro Estado brasileiro, no caso, o Rio Grande do Sul, para compor uma coleção que retrataria o Brasil — com lançamento previsto para a Feira de Frankfurt de 2013. O projeto não teve prosseguimento. Mas a escritora decidiu realizar a empreitada por conta própria. Ainda em 2011, ela passou 15 dias em Porto Alegre. Perambulou ao acaso: entrava em um ônibus e seguia até o ponto final, descia e caminhava por ruas, vilas e becos em busca de um sujeito que desapareceu — ação que dialoga com a via-crúcis da personagem Alice, a protagonista de Quarenta dias. “Eu diria que a matéria-prima do romance é realidade absorvida pela memória, através do filtro dos meus limitados cinco sentidos e de sentimentos meus e dos outros, que reverberaram em mim, e o produto final é resultado de ficção, no sentido literal, de coisa que a gente constrói, fabrica, inventa”, afirma a escritora, que entregou o texto final ao editor no dia 30 de agosto de 2013 — Quarenta dias foi lançado em junho deste ano. A madeleine de Proust A professora da PUCRS Sissa Jacoby afirma que a memória está presente na literatura desde os poemas, a Ilíada e a Odisseia. “Como epopeias, esses monumentais poemas narrativos se voltam para um passado grandioso, o da civilização helênica e, neles, seja qual for a tese autoral que prevaleça — a de um poeta único ou vários —, vamos encontrar as mais variadas fontes da oralidade e, claro, da memória, individual e coletiva, em qualquer dos casos”, diz Sissa. Já a professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Ana Cláudia Viegas observa que, literariamente, a memória está relacionada à construção do indivíduo moderno. “Ao longo do século XIX, a memória foi se constituindo como matéria-prima literária. Foi também naquela época que se desenvolveram os diários, memórias e autobiografias de escritores, que, à medida que se tornaram conhecidos, tornaram evidente o uso da memória como matéria-prima para a ficção”, afirma a especialista da UERJ. A memória literal “e minuciosa seria aborrecida. Não tenho um porquê para escrever assim. Sem a imaginação e a linguagem, não há ficção que preste.” Sérgio Sant’Anna jornal da biblioteca pública do paraná | Cândido 23 Kraw Penas A partir de experiência de vida, muita leitura e árduo trabalho com a linguagem, Sérgio Sant’Anna escreveu os contos de O homem-mulher. “Isso é muito comum no meu trabalho: passar para a ficção vivências diversas que se movem dentro de mim”, diz. 24 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná especial | MEMÓRIA Dentro de tal contexto, a obra de Marcel Proust (1871-1922) é considerada um marco — o autor francês escreveu a série de sete romances Em busca do tempo perdido. “O célebre exemplo disso são as madeleines com chá, cujo sabor traz à memória do narrador proustiano momentos e sensações vividas no passado”, comenta Ana Cláudia, que acrescenta: “A obra de Proust é um marco por trabalhar com a memória involuntária, isto é, aquela memória que vem à tona independentemente da vontade do indivíduo.” O colunista do jornal O Globo e escritor Arthur Dapieve considera o artifício literário criado por Proust, a madeleine mergulhada no chá, como genial para representar a imprevisibilidade da aparição das lembranças. “O que as desperta? Como as desperta? Por que as desperta? Por que isso e não aquilo?”, comenta Dapieve, citando Pedro Nava (1903-1984), mineiro que se radicou no Rio de Janeiro, como exemplo de grande e maior memorialista brasileiro. Sissa Jacoby, da PUCRS, lembra que, no caso de Pedro Nava, a inspiração proustiana é clara até no projeto, que previa sete volumes — mas o último volume escrito por Nava ficou incompleto. “Baú de ossos (1972) e Balão cativo (1973) — os dois primeiros títulos — são dois belos exemplos de sua expressividade e da habilidade em transitar entre o particular e o universal, a invenção e a memória. É o grande memorialista brasileiro”, analisa Sissa. Mentira e verdade “Não há arte sem memória. É impossível”, diz Arthur Dapieve. Ana Cláudia Viegas, da UERJ, completa o raciocínio: “Toda escrita, em prosa ou poética, parte de experiências, vivências e memórias. O que varia é o grau em que essas memórias são utilizadas, de forma explícita, assumida ou não. E também o quanto se mistura, de modo deliberado, de invenção a essas memórias.” Reprodução “é tomarO quesustome interessa com as coisas que invento, ou que se inventam quase à minha revelia, ao escrever ficção.” Maria Valéria Rezende Maria Valéria Rezende transformou observação da realidade, durante a passagem do tempo, no romance Quarenta dias. “Quando elas, as memórias, se plasmaram, quase por conta própria, comecei a escrever pra valer”, comenta. A escritora Maria Valéria Rezende acrescenta: “Sem memória, creio, não há sequer sujeito humano, muito menos sujeito escritor, sem memória não há sequer palavras e, portanto, nem fala nem escrita.” Silviano Santiago conta que, no início de seu percurso, ao ler o poema “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade, começou a refletir sobre a complexidade do que é memória, quando se fala de mente criadora de literatura. “No poema, o menino sozinho lê na provinciana Itabira a história de Robinson Crusoé. O poeta é a experiência de criança interiorana somada à leitura das aventuras cosmopolitas dum náufrago inglês na sua ilha deserta. O projeto de vida, para falar com Sartre, do menino tem mais a ver com a leitura do que com a vida vivida numa cidade interiorana”, analisa Santiago. O romancista, autor de Mil rosas roubadas, chama atenção para um detalhe do poema de Drummond, publicado no livro Alguma poesia (1930): “O texto não diz que o menino lê ‘debaixo’ de uma mangueira, diz que ele lê ‘entre’ mangueiras. Ali, no lugar ‘entre’ — metáfora da ilha robinsoniana, cercada de águas por jornal da biblioteca pública do paraná | todos os lados — é que se dá o espaço da leitura, da criação da própria identidade do sujeito, que é a dele, Carlos, somada à do protagonista romanesco na sua ilha, posta ‘entre’ águas. Carlos e Robinson entretecem ‘uma comprida história que não acaba mais’, continua o poema.” Santiago diz que o fragmento mencionado resume o que ele acredita ser uma configuração e o exercício da memória em literatura: “A infância que o menino vive não é a dele; é-lhe dada pelo lado de fora de Itabira. Vive também a infância que se lhe é ‘sobreposta’. A memória é oco aberto no lugar ‘entre’ pela curiosidade intelectual que a criação literária pode ou não preencher adequadamente. Diz o poema: ‘E eu não sabia que minha história / era mais bonita que a de Robinson Crusoé’.” A memória, argumenta Sissa Jacoby, é um conceito genérico, que abre espaço para uma longa e complexa discussão que a filosofia ocidental herdou dos gregos, e que vem desde Platão e Aristóteles até os nossos dias — e é matéria-prima e tema presente na obra de autores do mundo todo, inclusive prosadores e poetas brasileiro: de Machado de Assis a Cristovão Tezza, de Manuel Bandeira a Jamil Snege, de Moacyr Scliar a Tatiana Salem Levy. “Lacunar e seletiva, a memória comporta tanto a lembrança quanto o esquecimento”, comenta a especialista da PUCRS. Arthur Dapieve observa que a memória segue regras quase aristotélicas de compressão e simplificação dramáticas. “Chega-se ao ponto de se acreditar piamente na memória de coisas que não ocorreram”, completa o escritor. O fato de essas “coisas” não terem ocorrido na vida real não as torna, diz Dapieve, ao menos não necessariamente, falsas: “Pelo contrário, elas podem ser essencialmente mais verdadeiras que a verdade.” g Cândido 25 Não há arte sem memória. “É impossível. O autor é o que é por conta da memória, pessoal e intransferível, do modo como as elabora e reelabora, consciente ou inconscientemente.” Arthur Dapieve Marcel Proust (1871-1922) escreveu os sete romances da série Em busca do tempo perdido, considerado um marco no que diz respeito à memória e literatura. “O célebre exemplo disse são as madeleines com chá, cujo sabor traz à memória do narrador proustiano momentos e sensações vividas no passado”, explica Ana Cláudia Viegas, da UERJ. 26 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná ARTIGO Por uma poética das memórias literárias As memórias, enquanto gênero literário, aproximam-se do romance. Cada texto inaugura traços novos e específicos de acordo com o material que o discurso narrativo oferece Tânia regina oliveira ramos Ilustrações qie o francês Marcel Proust fez enquanto escrevia os sete volumes de Em busca do tempo perdido. jornal da biblioteca pública do paraná | C omo a memória se processa na literatura? Toda a minha reflexão, que resultou em uma tese de doutorado em Literatura, defendida na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), intitulada: Memórias, uma oportunidade poética, parte do princípio da capacidade humana de recuperar pela linguagem as coisas vividas e da potencialidade do imaginário de verbalizar cenas e fatos. Assim, as memórias literárias não passam só pela autoria, por aquele que lembra, mas por um narrador que traz para o texto um somatório de experiências e essas experiências são sempre revigoradas por possibilidades líricas. A expressão da temporalidade em um texto de caráter subjetivo, comprometido com a história de quem conta, extrapola o real vivido. Aquilo que se convencionou chamar de realidade em relação ao passado, dificilmente pode ser definido ou isolado com precisão. Não se pode confundir a realidade com aquilo que é contado, pois as memórias escritas dão ao texto certas garantias de realidade, mas ao mesmo tempo elas se escrevem e se constroem muito mais pelas possibilidades da invenção. Se há uma permuta entre o real e o imaginário, há muito mais espaço para a fantasia. O sujeito que lembra, nas memórias escritas, é um controlador da autoria, da estruturação dos fatos, mas é muito mais um manipulador da função estética, dramática e lírica de todas as suas lembranças, em torno do desdobramento do sujeito que viveu, agora, seu personagem. O autor-escritor-narrador Cândido 27 28 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná ARTIGO Reprodução passa a ser muito mais o sujeito do verbo das lembranças: eu me lembro, recordo bem, ou passa ser objeto direto ou indireto de pessoas, coisas e fatos lembrados, pronome possessivo ou oblíquo. Ilustro as minhas afirmações. “Lembro-me da pena de pato com que meu avô escrevia” ( José Américo de Almeida, no livro Antes que me esqueça); “Hoje, passados tantos anos, eu o recordo com carinho e com saudade. Saudade do meu gato que, aliás, não era propriamente meu, mas sim de minha família. E seria ele, realmente, da família?” (Zélia Gattai, em Anarquistas, graças a Deus); “Minha mãe lia devagar” (Graciliano Ramos, fragmento de Infância) e “Educam-me na religião católica” (Murilo Mendes, na obra A idade do serrote). Tal subjetividade desdobrada por meio de outros sujeitos nas histórias lembradas é a garantia da coerência interna do texto. O fato de ser a primeira pessoa a estruturar a narrativa, através de verbos rememorativos, garante o presente narrativo, estruturador e selecionador das lembranças, no que se pode chamar de tutela histórica. Por outro lado, as memórias, enquanto gênero literário, aproximam-se do romance. Cada texto inaugura traços novos e específicos de acordo com o material que o discurso narrativo oferece. Amigo de escritores como Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava escreveu uma obra única na literatura brasileira. jornal da biblioteca pública do paraná | Reprodução As memórias sempre trabalham esteticamente com as lembranças de um sujeito que é exclusivo. Cada texto pode ter uma estrutura temática original, às vezes mais ricos do que as autobiografias, pois o diálogo com o presente atualiza o passado, permitindo a reconstituição da vida através da linguagem, onde as lembranças não serão uma realidade, mas interpretações das coisas findas e do próprio destino pessoal. Foi isto que fizeram, por exemplo, entre tantos, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Erico Veríssimo, Oswald de Andrade e, antologicamente, Pedro Nava, cuja obra memorialística, nos seus seis volumes, seria suficiente para a comprovação da especificidade do gênero. É ele, Pedro Nava, médico de profissão, quem afirma, em Círio perfeito, o que seria uma poética das memórias: “Escrever memórias é libertar-se, é fugir. Temos dois temores: a lembrança do passado e o medo do futuro. Pelo menos um, a lembrança do passado, é anulada pela catarse de passá-la para o papel”. Aqui, em seu sexto e último volume de suas memórias, complementa o que anunciara em seu texto inaugural, Baú de ossos: “Existiu em determinada ocasião o indivíduo cujo conhecimento pessoal não valia nada, mas cuja evocação é uma esmagadora oportunidade poética”. g Tânia Regina Oliveira Ramos nasceu em Lages (SC). Doutora em Literatura, leciona e coordena o núcleo Literatura e Memória da Universidade Federal de Santa Catarina (USFC). É editora da Revista Estudos Feministas. Vive em Florianópolis (SC). Cândido 29 30 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná ESPECIAL | MEMÓRIA Esse encontro urgente, capital, inadiável comigo mesma A partir de fragmentos de vários textos literários e de canções populares, a professora Tânia Regina Oliveira Ramos constrói uma narratica memorialística, em que revê a sua trajetória pessoal e profissional N asci oficialmente em Juiz de Fora. Quanto à data do mês e ano, isto é da competência do registro civil. Não me vi nascer, não me recordo de nada que se passou naquele tempo. Na verdade, nascemos a posteriori. No mínimo uns dois anos depois. Mesmo porque antes era o dilúvio. Faço esforços de memória para saber qual foi a primeira impressão de minha vida, quando percebi que existia, que era um ser sensível e humano. É uma lástima esquecer! Nada descubro como ponto de partida, como clarão inaugural... Agora me lembro. Guardo a vaga lembrança de um ajuntamento de pessoas, subindo, em silêncio, a colina, onde assentava a casa grande. Desde os cueiros até aprender a falar, o choro foi um gênio, minha força de opinião, meu grande argumento. Sou teimoso. Vou rasteando o tempo para exumar alguma coisa do limbo. Servirá mesmo o quotidiano e o doméstico, contanto que tenha uma expressão e traduza realidade e sentimento. Afinal de contas, a memória de um velho está cheia de labirintos. Escrever memórias numa ordem rigorosamente cronológica seria uma tarefa difícil, perigosa, e, possivelmente, monótona. De resto, o tempo do calendário e o do relógio pouco e às vezes nada tem a ver com o tempo de nosso espírito. Vivo em memória tudo aquilo que passou e não volta mais: a nossa cidade, a casa de vovó, onde vivemos os primeiros anos, o quintal que revejo com os olhos daquele tempo, imenso, misterioso, cheio de atrativos; a velha cisterna que me fascinava... Servia-me o almoço às dez e o jantar às quatro, e isso representava já jornal da biblioteca pública do paraná | uma concessão aos hábitos citadinos. Meu pai nascera na roça, e horário ideal parecia o de tia Perpétua, que, às nove papava o seu picadinho com angu, ao meio-dia merendava, e às três despedia-se da mesa com uma sopa de feijão, para se meter entre os lençóis assim baixasse a noite, conforme prescreviam os antigos: “Janta com o sol alto, não terás sobressalto; com o sol posto o rosto”. À tarde, não havendo outros compromissos, dona Angelina reunia em sua casa algumas vizinhas interessadas em romances de folhetim. Os folhetins de antigamente representavam o mesmo papel das novelas de televisão nos dias de hoje. E como a vida era boa naquele tempo. É uma lembrança longínqua, das mais longínquas, a figura ou antes, a sombra do meu avô materno. Como uma fotografia antiga, desbotada, quase desaparecida pela ação do tempo, vejo-me segura às suas pernas na sala de jantar da casa de vovó. Sempre associei o nome e a figura dessa avó materna a certos odores, coisas de comer. Não sei porque me vêm à memória certas coisas de minha infância, sempre que pego na pena; talvez porque naquela época, coisas pequenas me impressionassem mais e eu guardo tudo muito. O que há de especial nessas reminiscências é que não obstante serem tão vagas, encerram para mim um conteúdo inesgotável de emoção. Debruço-me sobre este caderno e fico alguns minutos, imóvel, com a pena apontando a página em branco. De vez em quando, no ermo da madrugada para entreter os intervalos de minhas insônias, desço aos porões da memória, em busca desses instantes antigos. Uma das mais terríveis noites de minha vida foi a de 2 de dezembro daquele ano de 1922. E por que tantos enterros e ressurreições em meus sonhos? Qual seria a explicação? Já encontrei explicação muitos anos mais tarde. Desgosta-me usar a primeira pessoa. Se se tratasse de ficção, bem; fala um sujeito mais ou menos imaginário; fora daí é desagradável adotar o pronomezinho irritante, embora se façam malabarismos para evitá-lo. Desculpo-me alegando que ele me facilita a narração. Além disso, não desejo ultrapassar o meu tamanho ordinário. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Entre dois nadas os pronomes dançam. Assim, vagando no tempo, voltando de manhã para ontem (que nem cápsula espacial que pode girar quatro, cinco, seis dias, sol e noite, claro-escuro, nas vinte e quatro horas dum dia só), volto àquela Rua Haddock Lobo na sua eternidade. Saudade. Readquiro outra idade. Saudade. Sim. De mim na hora em que começava outra fase da vida nas ruas que se destinava a ser minha cidade. Saudade. Eugênia! Que saudades me ficaram daqueles instantes de alumbramento! Fogo de carne que ainda hoje me queima como brasa. A memória é manhosa, tenho de negacear. Primeiro reproduzo o painel assim como me vem à mente; depois investigo pormenores, procuro restituir a pintura primitiva, removendo as finas pinceladas com que sobre ele, o tempo compôs outros quadros. Quero da memória apenas a essência das lembranças. Estarei assim dentro da verdade? Importa a verdade? Ah! Pilatos, Pilatos... Para quem escreve memórias, onde acaba a lembrança? Onde começa a ficção? Talvez sejam inseparáveis. Minha opção é sempre a segunda, porque só há dignidade na recriação. O resto é relatório. (É bom ser ficcionista, pois se eu fosse sociólogo, etnólogo ou qualquer outra coisa em ó l o g o não estaria fazendo tantas afirmações levianas. O impulso de escrever para mim mesmo, em caráter autoconfessional, ditou os feixes de palavras que fui acumulando e que um dia... destruí. Do conjunto sacrificado salvaram-se algumas páginas que hoje reúno em livro. Animou-me a ingênua presunção de que possam dar ao leitor um reflexo do tempo vivido de 1943 a 1977, menos por mim e pelas pessoas em volta, fazendo esmerar coisas literárias e políticas daquele Brasil sacudido por ventos contrários. Rasgamos papéis, rasgamos os fatos que eles testemunhavam. Passar a vida a limpo. Eu me pergunto se a memória não estará tentando enganar-me, bem como agora talvez eu esteja procurando ludibriar quem me lê. É o caso de eu ter escrito e continuar a escrever estas minhas pobres memórias. Elas estão longe do que eu desejaria que fossem. Não me considero grande escritor por tê-las rabiscado. Foram produzidas porque eu queria ter — roubando aqui o pensamento de Proust — esse encontro urgente, capital, inadiável comigo mesmo. E mesmo de olhos abertos eu sonhava. Inventava meu mundo e convocava meus mitos, fugindo do meu ambiente para mostrar outros quadros. Nesses momentos de fuga ia ao ponto de plantar minha paisagem e gerar outras vidas, por obra da imaginação. Demorava-me Cândido 31 nessa atmosfera fictícia e meus sonhos tomavam corpo. A imagem estava sempre presente e eu brincava com essa ilusão. E assim me fiz romancista. As palavras “outrora”, “naquele tempo”, “antigamente”, “há séculos” impressionavam-me muito. Queria saber se não seria possível colar os tempos uns nos outros, se o tempo era vertical ou horizontal. Estou só e a vida vai custar a reflorir. Estou só. Dolorosamente encaro o velho que tomou conta de mim e vejo que ele foi configurado à custa de uma espécie de desbarrancamento, avalanche, desmonte — queda dos traços e das partes moles deslizando sobre o esqueleto permanente. Erosão. Meu retrato está de corpo inteiro nestas memórias. Ó tempo! Ó anti-Pitanguy, meu e nosso carrasco. A memória é a repetição da vida que multiplica o passado, mas bom mesmo é esquecer. Quem ousaria negar que — ao menos para uma memória fértil — o passado situa-se a posteriori? Policio minha linguagem. Censuro, escamoteio qualquer coisa que possa lembrar terra, caixão e tumba/c’roa pedr’e e catacumba. Não vou citar nomes. Nesse trabalho coletivo a memória e a imaginação cooperam de tal jeito que nos é impossível saber se o informe decisivo é falso ou verdadeiro. As coisas findas/muito mais que lindas/estas ficarão. Todo mundo tem sua Madeleine, num cheiro, num gosto, numa cor, numa releitura... A saudade que dói mais fundo — e irresistivelmente — é a saudade que temos de nós. És um senhor tão bonito, tens a cara do meu filho/Tempo, tempo, tempo, tempo. g 32 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná CONTO | URARIANO MOTA E Filho contra pai Erick Carjes Ilustração le, hoje ele, o filho que é um homem, deu um pulo da cama para assim pular do sonho. Pulou e lhe deu uma câimbra, porque na altura dos 60 anos não mais podia fazer movimentos bruscos. Mas a dor da câimbra foi menor que a lembrança do pesadelo. Ou seria um sonho? Naquela quadra da sua vida, os sonhos não eram mais a lembrança imediata do dia ou da semana que passou. Os sonhos agora partiam da memória mais antiga, que se transforma e encarna em fatos mais recentes. Seria como um Alzheimer para intelectuais? Não sabe, nem quer saber, porque havia um sabor ácido e doce em recordar o inferno em que não está mais. E para o filho, agora uma pessoa, assim foi, há pouco e há muito, um minuto antes de pular da cama. Então ele se fala, de si para si, só ele e o suplício do presente passado. Hoje eu fui espancado porque gosto de música. Espancado com todas as forças e vigor da palavra que se materializa em tortura. Mas fui espancado antes do espancamento. Espancado antes pelo medo do que viria, e o que é mais humilhante, por motivo de gostar da música que me afirmava o meu modo de ser, autônomo, independente, algo como a minha personalidade. Supondo que a isso eu tivesse o direito. No sonho, eu já estava grande, crescido, mas continuava a ser um menino espancado, tão grande mas ainda pequeno, porque estava diante da autoridade absoluta jornal da biblioteca pública do paraná | do meu pai. Então eu disse, nem falei, apenas disse a ele: “Eu não aceito mais ser desrespeitado nesta casa”. E repeti, até como uma tentativa de a mim mesmo atingir na consciência: “Eu não vou mais ser espancado por você”. Você?! “O Senhor”, pude sentir, em um soco que se erguia. E tamanho era o conflito, o ódio que eu travava com a minha impotência, contra o desmedido que era lutar contra o poder absoluto, a saber, aquele que não perdoa e me matava em minha totalidade, que o rosto, o físico do pai, não aparecia na sala. Mas Ele estava presente, eu sabia. Então, para esse oculto que voltará com os punhos de boxeador peso pesado, ou com o agudo suplício da surra com a mangueira do jardim, ou do chicote, o conflito cresce. O pai pega um instrumento de me abater como cachorro doido. Ele se transforma em uma faca peixeira. Então ele, o que não aparecia na sala, aparece na sua arma. Ele vem para cima de mim como aquele que vem me destruir. Ele está crente do seu domínio, apesar de ter pela frente um filho que deseja apenas ser um homem pleno. O pai não vai aceitar semelhante ambição, pois o filho vê o anúncio de uma tempestade, do mar que cresce em um tsunami. O pai não vai aceitar tão grande desrespeito. O pátrio poder vê um inominável insulto quando o filho, a se levantar do pântano, por entre a lama, lama que é alma, lhe diz: “Eu não vou ser mais desrespeitado”. ousas? — Resto da minha porra, como O filho sente que o conflito evolui por um caminho sem volta. Nesse ponto não existe mais a guerra na pura consciência, porque a guerra saiu do terreno do silêncio, ou do projeto que não vira ação. O pai vai matá-lo pelo atrevimento, por se negar logo ele, um simples filho, a ser espancado. O pai vai matá-lo. Mas ele, o que pretende ser ele, um alguém, uma pessoa, ele filho esse louco não quer ser morto. O filho não quer ser morto mais uma vez. Ele não será morto como tem sido desde a infância. Morto desde quando ele, sob o poder da infâmia, não pôde entrar para o teatro, ou ser desenhista, pintor, essas coisas de fresco. O pai vai matá-lo. Mas ele não quer ser morto de novo, como tem sido desde a infância. O filho não quer ser morto nunca mais. O filho tem, ou deve ter, pelo menos o direito de gostar da música estranha que o pai não aceita. Mas ele, esse novo ser no sonho, não gostaria de matar o pai. Mas ele, o filho, também não quer ser morto. Se pudesse agarrar o pulso do pai, que vem com uma faca peixeira, que sabe cortar ventre e rasgar fígado e estômago, se pudesse em um lance de mágica imobilizá-lo, e que essa imobilização o pai não visse como uma afronta, um modo de humilhar o poder único, porque se o Pai se sentir humilhado, voltará mais poderoso, como um Anteu, o terror mitológico que cresce quando é jogado à terra, era o ideal. Se o pai não visse na defesa do filho a mais vil agressão, seria bom. O filho não quer matar o pai. E não quer, ao mesmo tempo, agora ser morto. É um caminho sem volta, réprobo, maldito. Então ele, o filho que ousa uma revolta, com o braço trêmulo, fraco, braço de adorno que jamais poderia ser erguido contra o pai, então o braço inútil do filho pega uma cadeira — que louca pretensão! — para se defender, louca e mais louca das pretensões. O filho quer se defender primeiro e agora, porque o pai avança com uma faca, crente soberbo como um deus vingativo, diante do qual é frágil qualquer defesa. Então o pai avança com uma faca, crente de que o filho crescido é o menino cujo caráter é a resignação de ser espancado. No fundo da sala, existe a maldade e a perversão da madrasta, que a tudo assiste com um sorriso onde mora a luxúria. Qual dos dois homens vencerá? O que vencer a ganhará no sexo como prêmio. Então o filho pulou da cama. E durante o dia todo não o abandonou o sentimento do crime que poderia ter cometido, se o pai estivesse vivo, e agora viesse lhe levantar o braço que sempre o espancou, desde a infância. De tudo, talvez, o pior foi o sentido do sorriso da madrasta naquele homicídio. Então lhe ficou o gosto amargo da frase com que resumiu o crime: “Era um lar de pus”. E fez de conta que matando o pai havia matado a sua lembrança. g Cândido 33 Urariano Mota é jornalista, com passagem por diversos veículos, como os jornais Movimento (SP) e Opinião (RJ). É autor, entre outros, do romance Soledad no Recife (2009) e Dicionário amoroso do Recife (2014). Nasceu no Recife, em 1950, e vive em Olinda (PE). 34 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná PERFIL DO LEITOR | MARINA LIMA Caderno íntimo A cantora fala sobre poesia, romancistas preferidos, seu primeiro livro e uma possível biografia Omar Godoy jornal da biblioteca pública do paraná | Divulgação N o país das “cantoras ecléticas”, as mulheres compositoras nem sempre têm o mesmo destaque das intérpretes. Nomes como Dolores Duran, Maysa e Adriana Calcanhoto fazem parte de um pequeno grupo de autoras que realmente conseguiu atingir o grande público e deixar seu legado na história da música popular brasileira. Mas nenhuma delas foi tão longe quanto Marina Lima, que segue em atividade depois de mais de três décadas de sua estreia em disco. Seu grande feito foi consolidar um estilo ao mesmo tempo pop e sofisticado, marcado por textos acima da média do que se ouve nas FMs. Não à toa, grande parte de sua obra é assinada em parceria com importantes letristas-poetas da MPB — Tavinho Paes, Alvin L, Arnaldo Antunes, Ronaldo Bastos, Vinícius Cantuária e, especialmente, Antonio Cicero, seu irmão dez anos mais velho. Co-autor dos maiores clássicos de Marina (“Fullgás”, “Pra Começar”, “Acontecimentos”, “À Francesa”, só para citar alguns), ele também é o responsável por incutir na artista o gosto pela poesia. “Antes de compor comigo, o Cicero lia poemas em voz alta para mim. Poemas latinos, ingleses, Shakespeare. Foi através dele que entrei em contato com esse universo e, depois, descobri poetas brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar. Eu também já gostava de poesia musicada, Caetano Veloso, Chico Buarque, Bob Dylan”, conta a cantora, que iniciou a colaboração com o irmão aos 16 anos (hoje ela tem 59). Marina passou a infância nos Estados Unidos, onde seu pai atuou como executivo no Banco Interamericano de Desenvolvimento. “Ele tinha uma vasta biblioteca, com livros de Filosofia, Direito, Economia. Sabe aqueles intelectuais nordestinos cultíssimos? Pois então, ele era um desses. Além disso, havia um grande estímulo à leitura na escola, que vendia romances para pré-adolescentes em formato pocket. Eu mergulhava nesses livros por meses”, lembra. Antes de compor “comigo, o Cicero lia poemas em voz alta para mim. Poemas latinos, ingleses, Shakespeare.” De volta ao Brasil, a cantora viveu uma espécie de hiato literário por alguns anos, principalmente por falta de incentivo no colégio. O interesse por livros só voltou anos depois, com a carreira artística já iniciada. “Sempre gostei de fazer muitas coisas. Ouvir música, tocar, dançar, praticar esportes. Então eu dividia meu tempo e criava espaços Cândido 35 para a minha rotina conter tudo isso. A literatura se tornou realmente importante na minha vida depois dos 20 anos”, afirma. Sua lista de poetas preferidos inclui, além dos nomes já citados, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Capinam, Waly Salomão e até Chico Science. “Todos os que lidam com o universo nordestino me comovem profundamente, pois me remetem aos meus pais”, explica. A poesia, no entanto, não tem ocupado muito o seu tempo ultimamente. “O que eu mais leio hoje em dia são romances. Silvia Avallone, Alice Munro, Inês Pedrosa, Orhan Pamuk. Gosto principalmente desses.” Em 2012, depois de tantos anos escrevendo música, Marina Lima decidiu publicar seu primeiro livro: Maneira de ser, um apanhado de textos reflexivos, cartas antigas, fotos de arquivo e matérias publicadas na imprensa sobre o seu trabalho. Segundo a cantora, a obra não é uma biografia, e sim um “caderno íntimo”, em que ela repassa a própria trajetória e apresenta sua visão de mundo. Mas e se alguém se dispuser a escrever sua história? Ela permitiria? “Sinceramente? Podem lançar uma biografia não autorizada mesmo. Não estou preocupada com isso. Se eu não gostar, procuro a Justiça. Simples assim”, afirma, deixando implícito que não deu muita bola para a polêmica levantada em 2013 pelo grupo Procure Saber, formado por artistas que discutem questões de direitos autorais e regulamentações na área musical. g 36 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná eNSAIO | NEGO MIRANDA CLIQUES EM CURITIBA jornal da biblioteca pública do paraná | Leitor da obra de Dalton Trevisan, o fotógrafo Nego Miranda retratou a Curitiba do contista paranaense em 2010. O livro A eterna solidão do Vampiro traz imagens da cidade que são recorrentes nas histórias do escritor. Estão registrados os motéis baratos do centro velho, o Passeio Público, o Lago da Ordem e outros pontos por onde os personagens de Trevisan vêm circulando ao longo de cinco décadas. Fotógrafo publicitário, Miranda tem extenso trabalho autoral, que inclui projetos sobre a arquitetura de Morretes (PR) e a erva-mate. Cândido 37 38 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná NOVELA | ANA PAULA MAIA Leo Gibran Ilustração desalma Ao longo dos meses de outubro e novembro, a escritora Ana Paula Maia publica na internet a novela Desalma. O Cândido adianta o quinto capítulo do folhetim, que pode ser lido na íntegra no endereço desalmafolhetim.blogspot.com.br. — Espero que hoje dê tudo certo. Carnicara abaixa o volume do rádio. Bronco Gil apanha uma caixa preta no banco de trás do carro, abre-a e desembala quatro seringas. Enfia uma por uma num frasco de antibiótico e as enchem até a metade. Ao concluir, tampa cuidadosamente a agulha de cada uma e coloca-as novamente na caixa. — Acho que são eles — diz Carnicara. Os quatro rapazes saem de uma boate segurando copos descartáveis e visivelmente bêbados. Seguem para o final da rua onde estacionaram o carro. — Se a gente não acabar com eles, vão acabar matando alguém no trânsito — diz Carnicara. — Estamos tirando o lixo das ruas — diz Bronco Gil. — O Estado deveria nos pagar por isso. É prestação de serviço público — conclui Carnicara dando a partida no carro. Seguem os rapazes até um trecho deserto. Carnicara acelera, dá uma guinada e fecha o carro dos rapazes. Bronco Gil desce e enfia uma escopeta na cara do motorista. Entra pela porta de trás e os outros dois rapazes se espremem um contra o outro. Com a arma apontada para a cabeça do motorista, manda que siga o carro à frente. Um dos garotos vomita. Outro chora. Outro diz que seu pai é delegado. Outro que tem que ir ao banheiro. — Mas só uma coisa, senhor, é sequestro? Por que se for, nossas famílias vão negociar, pagar o resgate... — Não é sequestro e se alguém der mais um pio, um gemido sequer, eu mato aqui mesmo, entendido? — Sim, senhor — responde o motorista. Bronco Gil dá uma bebida para os rapazes. Todos bebem, inclusive o que dirige. Os rapazes vão desmaiando um a um. Bronco Gil toma a direção e conduz tranquilamente até a Fazendinha. São três da manhã quando chegam. Arrastam os rapazes para dentro do salão da casa. Colocam-nos enfileirados no chão. Trocam as luvas de couro por luvas de borrachas. Bronco Gil aplica o antibiótico em cada um. — Bronco, eu queria saber o que você coloca nesse boa noite cinderela. — Segredo de família. Uso uns diazepans, umas ervas, uns ácidos, e aí, vira isso. Amanhã não lembram de nada. Nem depois, nem depois. Eles riem. — Isso aqui é boa noite Chuck Norris. Carnicara amarra firme a base do pênis do primeiro rapaz, corta-o fora e o jornal da biblioteca pública do paraná | joga numa tigela. Repete o procedimento com os outros três. — Às vezes lá na tribo alguém perdia o pau. — Era castigo? — Às vezes era. — Sutura e faz os curativos nesses aí que eu faço aqui. Carnicara levanta-se e apanha uma maletinha com linha e agulha cirúrgica. Coloca-a no chão e aproxima um abajur com uma lâmpada fluorescente antes de começar a suturar. — O mandante não vinha também? — pergunta Bronco Gil. — Desistiu. Acho que se apavorou. — Acontece. Eu prefiro matar, nesses casos assim, a gente sempre corre algum risco de ser reconhecido. — Eu sei. Por isso é bem mais caro. Confio nesse coquetel que você faz. Depois desse trabalho aqui, vou sumir por um tempo. — Esse caso vai aparecer na televisão. — Não sei, Bronco. Os moleques não vão mostrar a cara e a família vai querer sigilo. Ninguém quer ter um filho de pau decepado. — Ninguém quer ter o pau decepado. — Esse gordinho aqui se cagou todo. — Cuidado pra não infeccionar. — Preferia matar os desgraçados. — Mas aí perde toda a graça, a ironia da vingança. Dá mais trabalho, mas os clientes gostam mais do resultado. Carnicara enfia linha na agulha mais uma vez e ao concluir a sutura corta-a com uma tesoura. Faz um curativo rapidamente e vai para o rapaz ao lado. — Quantos anos tem a garota? — Quinze. — O pior é que não importa quantos sujeitos como você e eu exista nesse mundo. Os desgraçados filhos da puta nunca acabam. Bronco Gil apanha a tigelinha com os pênis e sacode a cabeça negativamente. — Que foi, Bronco? — Que faço com essa miséria? — Enterra debaixo da bananeira. Os procedimentos levam pouco mais de uma hora. Colocam os rapazes no carro novamente e dirigem por meia hora, até um rio. Acomodam um a um no chão, em meio às árvores, e o carro submerge nas águas quando o empurram para dentro do rio. Carnicara tira toda a roupa e coloca-a num saco preto. Veste uma calça de linho barata cor bege e uma camisa listrada de manga comprida e botões. Enfia a camisa para dentro da calça. Limpa os sapatos pretos sujos de lama com a barra de uma toalha velha. Joga-a dentro do saco. Caminham até a estrada, onde deixou seu carro estacionado. Penteia os cabelos para trás com a ajuda de um gel fixador. Os fios lisos e finos constantemente se tornam alvoroçados pelo vento. Bronco Gil está calado e com os olhos espremidos. Às vezes é capaz de permanecer um dia inteiro em silêncio. Dá a partida no carro e vão embora, pouco antes que o dia amanheça. Quase uma hora dirigindo, encontram uma parada de caminhoneiros e decidem tomar um café da manhã. O movimento no lugar é crescente desde os últimos vinte minutos que estão ali. Comem fartamente pão, salsicha, ovos mexidos, suco de laranja, café, queijo, presunto e bolinho de chuva. — Fazia tempo que eu não parava aqui — diz Carnicara. — Não conhecia esse lugar. — Vou tomar um banho e dormir o dia todo. — Tá morando aonde? — Em lugar nenhum, como sempre. Vou pra um motelzinho aqui perto mesmo. Esta semana eu vou pegar o pagamento e te repasso, ok? Eles se levantam e saem juntos. Carnicara deixa Bronco Gil num ponto de ônibus e depois dirige até um motelzinho com fachada cor de rosa chamado Pâmela, onde costuma se hospedar quando está por essa região. — Bom dia. — Bom dia. — Quarto 202. O homem pega as chaves no painel de madeira atrás do balcão. — Já soube o que aconteceu aqui no Pâmela? — O quê? — Um sujeito se hospedou aqui ontem a noite e deu um tiro na cabeça. Agora, eu pergunto, quem vai ter que limpar e pintar o quarto todo? Carnicara sacode a cabeça negativamente e aperta os lábios. Baixa os olhos como se lamentasse. — Por isso não gosto de hospedar gente sozinha. Até o colchão vou ter que trocar. — Já tiraram o corpo? — Tiraram sim, pastor. Tá uma imundície lá dentro. As meninas da limpeza disseram que não são pagas pra limpar sangue, só porra. — É, irmão. A vida é dura. — Pastor, o senhor ora por mim, estou precisando. As coisas por aqui estão difíceis. — Vou orar sim. A vigília dessa noite foi muito boa. Orei bastante. O homem atrás do balcão abre um sorriso de alívio e enrosca a ponta do bigode. — Gosto quando o senhor se hospeda aqui. Sinto muita paz. Fica até quando? — Vou embora hoje à noite. — Muitas vigílias, pastor? — Muitas. Não posso parar de orar. Carnicara suspende a bíblia sagrada Cândido 39 que está segurando. — Aqui está o caminho e a revelação para uma nova vida. Muita gente precisa do que carrego aqui. — É verdade, pastor. O senhor é uma benção. Carnicara dá meia volta e segue pelo corredor. Passa em frente ao quatro com uma fita plástica amarela na porta. Cumprimenta as arrumadeiras que confabulam sobre o ocorrido e deseja a elas um bom trabalho indicando com a cabeça o quarto vitimado. Tira as roupas e nu, examina-se diante do espelho. No chão, faz algumas flexões e sente o braço enrijecer. Olha-se novamente e acha que precisa intensificar os exercícios. Antes de ir para o banheiro, abre o zíper da capa preta da sua bíblia que deixou sobre a cama ao entrar e apanha uma pistola. Desmunicia a arma rapidamente através do ferrolho, apanha as balas caídas sobre a cama e coloca-as dentro de uma meia preta juntamente com outras munições. Folheia algumas páginas da bíblia guardada dentro da capa preta. Toma um banho quente e demorado enquanto balbucia alguns versículos bíblicos que costuma decorar diariamente. Está cada vez mais convencido de que ter se disfarçado de um homem de fé, de alguma forma, o deixa mais perto de Deus, ainda que caminhe lado a lado com o diabo. g Ana Paula Maia é escritora e roteirista. Autora de cinco romances, entre eles Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (2009), Carvão animal (2011) e De gados e homens (2013). Seus livros também foram publicados na Sérvia, Alemanha e França. Alguns de seus contos foram incluídos em antologias no Brasil e no exterior, traduzidos para o alemão, croata, espanhol, inglês, italiano. Vive no Rio de Janeiro (RJ). 40 Cândido | jornal da biblioteca pública do paraná REtrato de um artista | pedro nava As memórias de Pedro Nava foram um acontecimento literário no Brasil dos anos 1970. Até 1972, o escritor só havia publicado poemas esparsos em coletâneas, como a Antologia dos poetas bissextos, organizada por Manuel Bandeira. Mas com Baú de ossos, o primeiro tomo de suas memórias, Nava sacode o meio literário com um estilo narrativo singular, em que a reconstituição dos detalhes do passado mais remoto é feita de maneira minuciosa. Nascido em Juiz de Fora (MG), em 1903, Nava publicou seu primeiro livro de prosa quando já tinha 65 anos. Até sua morte, no início dos anos 1980, o escritor ainda publicaria Balão cativo (1973), Chão de ferro (1976), Beira-mar (1978), Galo-das-trevas (1981) e O círio perfeito (1983). Em 1927, Nava se formou em medicina pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Ainda na década de 1920, fica amigo de escritores, políticos e intelectuais eminentes como Carlos Drummond de Andrade, Juscelino Kubitschek e Afonso Arinos de Melo Franco. Testemunha privilegiada da história do Brasil no século XX, o escritor realizou uma obra que vai muito além da mera crônica autobiográfica, realizando um vasto panorama da sociedade e da cultura brasileiras no século XIX e no início do século XX. O escritor se suicidou no Rio de Janeiro, em 1984. José Marconi é um dos fundadores do grupo Croquis Urbanos Curitiba. Também atua como professor do Departamento de Design Industrial da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Possui doutorado em Design da Informação pela Universidade de Reading (2008) e Mestrado em Industrial Design pela Birmingham City University (1992), ambas inglesas. É graduado em Design pela Universidade Federal da Paraíba (1990). Vive em Curitiba (PR). Ilustração: José Marconi