LEITURA DE CINEMA E VISÃO DE MUNDO1
Ivana Bertolazo2
Lucinea Aparecida de Rezende3
Resumo
O Projeto de Pesquisa “Leitura-paixão: Fase II” - desenvolvido em uma instituição de ensino
superior do Paraná - parte do pressuposto que os graduandos são não-leitores habituais. Assim, se
faz necessário mudar a visão – cultura – que eles têm acerca da leitura. Para tanto é proposta
neste Projeto a ambiência de leitura. Isso significa oferecerem-se amplas condições de contatos
dos estudantes com diferentes tipos de texto e também com leitores assíduos. O cinema faz parte
desse universo. A pesquisa que vem sendo realizada pelo subgrupo que trata do cinema é o tema
deste artigo.
APRESENTAÇÃO
O Projeto de Pesquisa “Leitura-paixão: Fase II” parte do pressuposto que os graduandos são nãoleitores habituais; assim, se faz necessário mudar a visão – cultura – que eles têm acerca da
leitura. Para tanto é proposta neste Projeto a ambiência de leitura. Isso significa oferecerem-se
amplas condições de contatos dos estudantes com diferentes tipos de texto e também com leitores
assíduos. O que se pretende é criar um espaço para leitura e estabelecer-se um trânsito possível
neste espaço. para que esses alunos sintam-se estimulados a ler cada vez mais e melhor.
Para colocar os alunos em contato com diferentes tipos de texto, considera-se necessário ampliar a
noção de texto que eles possuem. Assim, passamos a trabalhar com a idéia de texto para além do
escrito, cuja leitura é feita comumente por meio da decodificação das letras do alfabeto.
Consideramos texto tudo aquilo que é tecido, compreendido, interligado. Assim, deixamos uma
concepção restrita de texto e passamos a uma concepção ampla. Texto, portanto, é tudo aquilo
que pode ser lido, por possuir em si uma informação. Portanto, com essa maneira de conceituar,
consideramos como textos possíveis de serem lidos os sons, as imagens, as palavras, expressões
corporais e as realidades sociais. Assim, uma história em quadrinhos é um texto, uma música de
rap ou hip hop é um texto. Ressaltamos, a propósito, que cada um desses textos tem a sua
linguagem, sua aplicação, seu momento social e um lugar de expressão que lhes é específico.
1
UNISINOS/2005 – São Leopoldo.
Ivana Nobre Bertolazo. – [email protected]
3
Universidade Estadual de Londrina – UEL - [email protected]
2
2
Além dos dados já mencionados cabe ressaltar um outro aspecto nesse processo de formação de
leitores: o prazer da leitura. Tratamos do texto não só como algo que o professor solicita a leitura
para a realização de uma prova ou outro trabalho. O texto não é só algo que está fora da realidade
cotidiana dos graduandos, mas pode ser também algo que lhes estimula, que lhes dá prazer, lhes é
agradável. O ser agradável não significa apenas algo superficial e fácil, mas sim uma maneira de
encontrarmos prazer naquilo que fazemos e também em relação ao produto que se obtém ao final
do trabalho.
Partindo dessas idéias o Projeto trabalha com a interação entre os leitores assíduos e os
graduandos. Esses leitores são os palestrantes convidados, professores associados e voluntários
colaboradores. Pessoas essas que já descobriram a paixão e o prazer de ler. Essa interação é
importante porque faz com que os alunos convivam com leitores assíduos e assim são estimulados
para adentrarem ao mundo dos leitores. Pensamos, como participantes do Projeto, que a leitura
também é uma atividade emocional. Quando há um vínculo emotivo entre quem indicou o texto e
quem pretende lê-lo, há maior possibilidade desse texto ser lido, não só pela necessidade ou
obrigação de lê-lo, mas também pelo fato de se alimentar um vínculo emocional importante.
É Importante comentar o fato de que, como esse é um projeto de pesquisa, os alunos são
convidados a participar dele e não obrigados a isso. Esse fato também ajuda a quebrar o
paradigma existente da leitura como obrigação. No entanto, nos chama a atenção para uma
repetição corrente que os alunos não lêem. A presença dos alunos no Projeto nos revela ao menos
o desejo dos alunos de querem aprender a ler.
Por último faz-se necessário ressaltar que o Projeto vem se tornando bastante conhecido dentro da
instituição de ensino em que é executado. Dessa forma, na fase atual do Projeto - II – participam
graduandos de diferentes cursos. Assim, temos alunos pertencentes aos cursos de Letras, Direito,
Música, Educação Artística, Administração, além de professores e colaboradores de várias outras
áreas.
DESCRIÇÃO DO PROJETO E DOS SUBGRUPOS
1.1.1 O Projeto está estruturado de maneira a dividir-se em dois segmentos de trabalho. O grande
grupo, que engloba todos os alunos, professores e colaboradores associados e os
subgrupos, ou pequenos grupos, como são chamados pelos participantes do projeto.
Dentro do grande grupo são feitas atividades em que todos estão envolvidos e que interessam ao
todos; quais as leituras feitas durante a semana, quais as indicações de leitura que os membros do
grupo fazem uns para os outros. É dentro do grande grupo que acontecem as palestras. São doze
3
temas geradores anuais para as palestras. Esses temas foram escolhidos durante a elaboração da
proposta de implantação do Projeto, tendo-se como referência a vivência na Fase I do mesmo.
Alguns exemplos de temas que serão tratados durante esse ano: Leitura de música, Leitura de
Artes Visuais, Leitura do Cinema, Leitura do Corpo, Leitura da Mídia.
As palestras ocorrem a cada quinze dias e todos os alunos do projeto participam delas. É nessas
palestras que se toma contato com tipos de leituras que muitos nem imaginavam possíveis. Os
participantes trocam informações e fazem perguntas aos palestrantes. Em suma, é um momento
muito rico, de troca entre os estudantes e os leitores-palestrantes convidados. É um tempo de
aprendizado.
Para o registro dos dados, são elaborados portfólios.
Cada participante faz seu portfólio
escrevendo nele quais as palestras realizadas, qual a experiência de conhecimento e de vida em
cada palestra, as leituras feitas, porque foram feitas e as impressões causadas. Os portfólios são
como se fossem “diários reflexivos de viagem”. São os diários da grande viagem feita pelos vários
tipos de leitura, a um lugar onde os alunos refletem acerca da aventura de aprender.
Cada um desses temas de palestra dá origem a um subgrupo. Conforme os alunos vão se
inscrevendo no projeto, são apresentadas a eles as palestras previstas para serem realizarem
durante o ano e as datas de realização das mesmas. Cada aluno escolhe qual tema de palestra
mais o interessa ou sobre qual assunto ele gostaria de aprender mais e é encaixado no subgrupo
que estudará aquele tema. É tarefa de cada subgrupo organizar a palestra do tema que ele estuda
e aprofundar-se no estudo do tema escolhido, inclusive entrevistando previamente o palestrante.
Fazemos parte do subgrupo – ou pequeno grupo – que trata da Leitura do Cinema. Como a nossa
palestra será só no segundo semestre deste ano de 2005, enquanto não temos que nos preocupar
com a organização desse evento, estamos nos dedicando a construir um conhecimento que nos
permita “lermos” o que se passa nesse mundo das imagens em movimento.
LEITURA E HISTÓRIA DO CINEMA
Quando nos propusermos a estudar o cinema, na realidade não sabíamos por onde começar.
Assim, durante as reuniões de trabalho, chegamos à conclusão que precisaríamos estudar um
pouco da história do cinema. Assim, iniciamos por retomamos informações que nos falam da
origem do cinema.
O cinema teve sua origem na França, quando os irmãos Lumiére conseguiram gravar imagens em
movimento sobre uma película e depois reproduzi-la, ou seja, projetar essas imagens para que
outras pessoas pudessem ver. A origem do cinema ocorreu em um século de descobertas, século
4
no qual o potencial científico foi explorado amplamente. Procurar uma maneira de fixar a imagem
em movimento era um desafio proposto, desde que se conseguiu fixar à imagem ao papel por
meio da fotografia. E para que serviriam essas imagens?
Num primeiro momento as imagens fixadas não foram utilizadas para diversão. Elas tinham um
objetivo por assim dizer, científico. Mas percebeu-se que elas possuíam um potencial encantatório
muito grande: as pessoas ficavam maravilhadas quando viam as cenas de movimento dentro da
tela ou seria melhor dizer sobre a tela.
Essa possibilidade de ilusão, de fantasia, fez com que
aquelas primeiras imagens se desenvolvessem e com o passar do tempo chegassem ao que hoje
nós chamamos de filme. O cinema acabou desenvolvendo uma forma própria de se expressar. A
essa forma chamamos de linguagem fílmica. Essa linguagem engloba imagem, movimento, cor,
som, voz, fala, todos os recursos utilizados dentro de um filme.
Durante o nosso estudo, percebemos que essa questão da linguagem dentro do cinema é muito
importante, tanto que ousamos afirmar que o estudo da história do cinema, de certa forma é o
estudo do desenvolvimento de uma linguagem específica que se adeqüe ao meio de expressão
descoberto. E, para nós do projeto, que não almejamos nos tornar críticos de cinema, mas temos
como objetivo a melhoria da nossa leitura de cinema, estudar um pouco da linguagem do cinema
tornou-se fundamental. Entretanto, como esse estudo da linguagem do cinema é incidental e
considerado apenas um meio para desenvolvermos melhor a nossa capacidade de lermos um
filme, ele será explorado por esse ângulo: um meio que será visitado com curiosidade para que
possamos atingir os objetivos do nosso trabalho.
Durante esse trabalho de “visitação” à linguagem do cinema, o que nos impressionou muito foi
que, atitudes que hoje são consideradas banais, cenas as quais estamos totalmente acostumados
a ver nos filmes foram desenvolvidas levando-se em consideração a necessidade dessa linguagem
específica para o cinema. Por exemplo: para nós, hoje, é totalmente aceitável que apareça apenas
um pedaço do corpo do ator (ou atriz) que está em cena. Ou só as mãos, ou só o rosto, só uma
perna. A primeira vez que a platéia viu uma cena filmada em que só havia uma parte do corpo do
ator ficou chocadíssima. E havia produtores que argumentavam que não queriam que aparecesse
apenas uma parte do corpo dos atores. Eles estavam recebendo um salário para o corpo inteiro,
então deviam atuar de corpo inteiro. Se aparecesse só uma parte no filme, então eles deveriam
receber só uma parte do salário. Essas “curiosidades” servem para ilustrar que o que pode hoje
ser considerado banal; já foi assunto das mais sérias discussões.
Esse estudo, ainda iniciante acerca da história do cinema e da linguagem fílmica serve para
5
embasar as nossas reflexões em torno da necessidade de uma leitura mais aprofundada do
cinema.
DIZER O QUE SE ESTÁ APRENDENDO AO LONGO DO CAMINHO
No mundo em vivemos, o saber transitar por vários tipos de linguagem - e conseqüentemente,
poder realizar vários tipos de leitura - nos possibilita ver a nós mesmos e ao Mundo de uma
maneira mais ampla e talvez aprofundada. Saber ler um filme - fazer a leitura do cinema - pode
ser tão fundamental como ler um texto escrito.
Esse tipo de leitura audiovisual adquire características importantíssimas, uma vez que vivemos em
um mundo cada vez mais audiovisual e no qual a importância das imagens ganha cada vez mais
força. O ser humano sempre foi um animal visual, visto que nos preocupamos com a reprodução
das imagens desde a época das cavernas, há quase trinta mil anos. Ele sempre foi influenciado
pelo que via ou podia ver. Aos poucos, no entanto, ele foi se dando conta que podia influenciar o
que via. Isso mudou a sua relação com a imagem. Já o surgimento da imagem em movimento - o
filme - não só podemos eternizar cenas, como na época das cavernas, mas principalmente
podemos, segundo explica Bernardet4 , escolher uma imagem para ser filmada. Nesse processo de
escolha quem escolhe deixa entrever muito de si próprio. Escolhe-se o que filmar, como, com que
material, em que ordem dispor o que for filmado. Tudo isso é feito de maneira a deixar nesse
processo “pedaços”, rastros, influências da pessoa que fez a escolha. Assim, o filme é um produto
do trabalho do homem e expressa suas concepções, seu modo de ver a vida, toda a sua
subjetividade inserida dentro desse contexto fílmico. Assim, percebe-se que quando falamos em
leitura do cinema, há que se considerar a leitura do texto fílmico propriamente, que permite
analisarmos se esse texto conta uma história e como a conta. É a hora em que se analisam as
imagens, a ligação entre elas, a música, a maneira de filmar. - como a cena foi construída, como
os personagens são dispostos. Esse é um tipo de texto e ele revela a visão de mundo do autor, é
influenciado pela subjetividade de quem o faz.
Além disso quando falamos de leitura de cinema temos também que considerar a leitura que cada
expectador faz da realidade fílmica que vivencia. Um filme não se faz só no momento em que é
produzido, ele se completa quando é visto. Cada pessoa que assiste a um filme o completa
baseada em sua realidade, suas concepções, suas maneiras de ver o mundo, suas experiências de
vida. Cada filme possuiu ao menos duas leituras: uma, por quem o faz, no momento em que o
está fazendo. Outra, por quem o vê, no momento em que o assiste. E essas leituras se abrem em
4
BERNARDET. O que é cinema. 7º ed, 1985. Passim.
6
muitas outras, pois cada expectador faz a sua leitura individual, e um mesmo expectador pode
várias leituras diversas, influenciado pelo momento de sua vida, pelas experiências que teve.. E
mesmo quem fez o filme, ao assisti-lo pode fazer uma leitura completamente diferente de quando
o produziu. As leituras do cinema e as visões de mundo se entrelaçam – a do autor e a do leitor
ou expectador.
CONCLUSÃO
Dentro do espírito desenvolvido por esse Projeto, o cinema é um tipo de texto que pode ser e é
lido. Para que isso ocorra ele tem a sua linguagem própria, os seus códigos, e, ao ter uma noção
desses códigos, o expectador tem a sua leitura facilitada. Entretanto, não há uma obrigação de
conhecer esses códigos, uma vez que quem faz o filme é influenciado por sua subjetividade, suas
experiências, suas visões de mundo; da mesma forma que quem o assiste também é influenciado
por suas próprias especificidades de expectador.
Dentro do que estamos propondo, já estamos começando a fazer uma leitura do cinema como
uma possibilidade de ampliarmos e aprofundarmos nossa visão de mundo.
BIBLIOGRAFIA
BERNARDET, Jean-Claude. O que é cinema? Coleção Primeiros Passos.
7º ed. São Paulo:
Brasiliense, 1985.
COSTA, Antonio. Primeira Parte: o que é cinema? IN:___________. Compreender o Cinema. Rio
de Janeiro: Globo, s/ ano. p 21 a 40.
1.1.2 LEANDRO, Anita. Lições de Roteiro. Educ. Soc. vol.24 no.83 Campinas Aug. 2000.
1.1.3 Disponível
em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
73302003000200019&lng=en&nrm=isso. Acesso em: 07/ 06/ 05.
1.1.4
1.1.5 MARTINS, Celso. Anotação pessoais da autora sobre a palestra: Leitura da Imagem.
Realizada durante a Feira do Livro infantil., em Londrina-Pr. De 06 a 11 de junho de 2005.
Realização: SESC Londrina.
1.1.6
MENEZES, Paulo. Representificação: as relações (im)possíveis entre cinema documental e
conhecimento.
Rev.
bras.
Ci.
Soc. vol.18 no.51 São
Paulo Feb. 2003.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010269092003000100007&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 07/ 06/ 05.
Disponível
em:
7
ORTIZ
RAMOS,
JOSÉ
MARIO
and
BUENO,
MARIA
LUCIA.
Cultura audiovisual
e
arte
contemporânea. São Paulo Perspec., July/Sept. 2001, vol.15, no.3, p.10-17. ISSN 0102-8839.
SIVORI, Horácio Federico. Resenha sobre o livro No Escurinho do Cinema: Cenas de um
Público Implícito. ( livro de autoria de VALE, Alexandre Fleming Câmara. São Paulo/ Fortaleza:
AnnaBlume/ Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará. 178p ). IN: Mana vol.7 no.2 Rio
de
Janeiro Oct. 2001.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010493132001000200012&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 07/ 06/ 05
Disponível
em:
Download

1 UNISINOS/2005 – São Leopoldo. 2 Ivana Nobre Bertolazo. – iv