HISTÓRIAS DE PROFESSORES EM NOVO HAMBURGO LEOPOLDO/RS (1930-2000): MEMÓRIAS E ACERVOS. E SÃO Beatriz T. Daudt Fischer Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS A pesquisa caracteriza-se pela abordagem historiográfica e tem como objeto histórias de professores/as que tiveram trajetórias docentes desenvolvidas em dois municípios do Vale do Rio dos Sinos/RS, entre os anos 1930 e 2000. Através da recolha de narrativas e documentos, intenta reunir um conjunto de dados que ajudam a melhor compreender os acontecimentos relacionados à história da educação nestas localidades ao longo do período delimitado. Os procedimentos metodológicos incluem basicamente história oral e análise de documentos escritos. Os aportes conceituais que sustentam os procedimentos analíticos estão fundamentados basicamente em Foucault, em especial no sentido de não priorizar as histórias de sujeitos sob a perspectiva individual, mas histórias entrelaçadas em redes de poder e demais relações situadas no respectivo contexto sócio-político e cultural. Entre os resultados operacionais constam: a organização de acervo documental; produção de CDs com a digitalização dos documentos coletados; seminários com gestores de escola sobre a temática de preservação da memória pedagógica. Palavras-chave: história da educação; trajetórias docentes; memória; acervos. HISTÓRIAS DE PROFESSORES/AS EM NOVO HAMBURGO E SÃO LEOPOLDO/RS (1930-2000): MEMÓRIAS E ACERVOS. Beatriz T. Daudt Fischer Universidade do Vale do Rio dos Sinos / UNISINOS Na rua Tiradentes, 178, no bairro Industrial de Novo Hamburgo/RS, há uma escola que leva um nome: Maria das Neves Marques Petry. É provável que os estudantes, anualmente, façam homenagens reverenciando esta mulher. Talvez alguns conheçam um pouco sobre sua vida. Talvez. Mas o conjunto de alunos e até mesmo docentes da escola – e a comunidade em geral - sabe de fato como surgiu este nome? Pois cabe ter conhecimento que Maria das Neves foi uma das pioneiras mestras da localidade. Nasceu em 5 de agosto de 1887, num lugarejo denominado Taimbé, distrito de Lomba Grande. Quando moça, mais precisamente em 27 de agosto de 1907, lá mesmo iniciou a atuar com aula mista, permanecendo até 4 de dezembro de 1913. Depois disso... [...] A dedicada mestra, que foi um exemplo de abnegação e de virtude, no exercício do magistério público estadual... Nunca se via a professora triste, ainda que lecionasse em escolas distantes Esta é mais uma das histórias coletadas ao longo do desenvolvimento desta investigação, cujo objetivo principal consiste em preservar a memória e os possíveis acervos relacionados à vida de educadores/as da região do Vale do Rio dos Sinos. Não há o intuito em destacar esta ou aquela biografia em particular, mas as várias histórias entrelaçadas, identificando-as como constitutivas do contexto que se pretende melhor conhecer. Trata-se, pois, de aliar documentos escritos e orais, articulando-os entre si, buscando saber quais as condições de possibilidades que fazem emergir determinadas personagens, itinerários e acontecimentos no período delimitado. O trecho em epígrafe de certo modo evidencia a dimensão quase romantizada que se encontra quando se fala em professores de outros tempos. O episódio corriqueiro aí narrado – aparentemente despretensioso em termos históricos – traz à tona algumas das razões em decidir incursionar por um passado não tão distante. Ou seja, salvar informações que reportam a outra época, evidenciando situações diversas, permitindo não só identificar outros valores e comportamentos, como melhor entender trajetórias docentes relacionadas a determinados contextos sócio-políticos, existentes em dois principais municípios do Rio Grande do Sul, Novo Hamburgo e São Leopoldo, no recorte temporal definido (1930-2000). Como num jogo de caleidoscópio, onde cores e formas se transformam à mercê de suaves toques, é provável que na presente pesquisa discursos e contextos sejam misturados, formando um quadro de relações que, no momento de análise, exigem maior compreensão. Sabe-se que nos últimos anos o magistério, de um modo geral, tem enfrentado situações críticas, não só com relação a suas condições financeiras, mas igualmente no que diz respeito a seu reconhecimento e legitimidade profissional frente à sociedade. As representações que as futuros/as professores/as vêm construindo acerca da história do magistério em nada contribuem para entusiasmá-los/as em relação à opção a ser feita. 2 Pelo contrário, é como se concluíssem que somente o caos e a negligência existiram ao longo dos tempos. À medida que se presta maior atenção a tudo isso, percebe-se quão pouco conhecido é o passado do magistério entre nós, passado inclusive não tão remoto, chegando à conclusão de que algo nesse sentido deve ser feito. Há que se assumir um compromisso político em passar às novas gerações maiores dados acerca de acontecimentos e trajetórias relacionadas à história da educação, preferencialmente a partir de pesquisas solidamente fundamentadas. Em especial trazer à tona histórias que digam respeito à vida de homens e mulheres dedicados ao magistério. Daí a necessidade urgente de buscar não só documentos (escritos e iconográficos), mas especialmente encontrar fontes vivas que ainda possam narrar os acontecimentos a partir de suas reminiscências, ajudando a revirar os baús da memória. O ato de decifrar os acontecimentos históricos está alicerçado na reconstituição de fragmentos aparentemente dispersos, que aos pesquisadores cabe tentar melhor compreender, em especial se for considerada a riqueza de dados submersos ao longo dos anos, dados que necessitam vir à tona, a partir de criteriosa metodologia aliada a uma fundamentação teórica consistente. Diante do desafio de melhor compreender esse processo, faço a opção em trilhar o caminho portando uma “caixa de ferramentas” (FOUCAULT, apud GORDON, 1980), para disso me valer em momentos precisos da análise. Trabalhar com a memória constitui tarefa complexa, exigindo, entre outras coisas, estar atento para não radicalizar a defesa de princípios essencialistas e identitários (STEPHANOU, 1998). Exige, de quando em quando, “a memória conduzir a história” (SEIXAS, apud TRONCA, 2002). Trabalhar com a memória supõe também criteriosa responsabilidade. Ao direcionar o objeto de pesquisa para novas possibilidades, como é o caso aqui pretendido, articulando depoimentos vivos e materiais impressos, incide-se em descobertas sequer antes imaginadas, algumas inclusive com conotações políticas de singular importância. Na trama de relações de poder, em que os sujeitos estão situados ao longo de suas carreiras profissionais, é possível inclusive identificar interesses e motivações não absolutamente passíveis de tornarem-se públicos. Por outro lado, essas mesmas circunstâncias investigativas podem, ocasionalmente, favorecer a descoberta de projetos que ficaram à margem, ou mesmo abortados desde sua gênese. Ou seja, muitas histórias ficariam anônimas se não houvesse tentativas de trazê-las a partir da pesquisa, analisando-as a partir de contextos que as circunscrevem. Isso não significa, porém, absolutizar os depoimentos ou conjuntos de memórias acumuladas. Em relação a este aspecto, Stephanou em outro trabalho, inpirada em Sontag, aponta: “mais importante do que lembrar é entender, embora para entender também seja preciso lembrar” (2008). Nesta investigação, a história é considerada sob um ângulo diverso daquele tradicionalmente adotado em pesquisas voltadas ao passado. Como afirma Rosa Maria Bueno Fischer (1996), nada é tomado por fixo ou garantido, já que nas experiências investigadas nos defrontamos não mais com as “coisas em si”, mas com produtos do discurso, um discurso que se transforma, pois que está vivo em múltiplas lutas, em inúmeros jogos de poder. O sujeito não é considerado como titular ou desencadeador dos acontecimentos, mas situado no jogo contínuo das relações saber e poder, e delas dependente. Ao buscar apoio em Foucault (1987), renuncia-se à idéia de origem ou causalidade, para acolher cada momento do discurso, no preciso momento da irrupção 3 dos acontecimentos: busca-se “[...] não mais a pesquisa dos começos silenciosos, não mais a regressão sem fim em direção aos primeiros precursores, mas a identificação de um novo tipo de racionalidade e de seus efeitos múltiplos”. Seguindo essa lógica, a noção de tempo também passa a ser encarada sob outro enfoque; ou seja, devemos sacudir a quietude que nos faz aceitar continuidades desde sempre dadas. Cabe enfatizar ainda que, sob esta perspectiva teórica, os tradicionais recortes no tempo podem ser analisados ao lado de outros, em suas relações complexas, imbricadas em redes de poder; recortes provisórios são ensaiados, o que não significa romper com todas as alusões a acontecimentos anteriores. A busca da descontinuidade – tão enfatizada por Bachelard e retomada com insistência por Foucault – não quer dizer anulação dos acontecimentos que se dizem precedentes, já que as teorias e as práticas de uma época não são completamente independentes do que passou. Existem sempre condições de possibilidade antecedentes e/ou de contexto. Como conseqüência, torna-se quase impossível para a investigação histórica detectar rupturas absolutas entre as diversas épocas (MACHADO, 1982). Outro aspecto conceitual diz respeito ao caráter interpretativo dos dados: muito mais importante do que saber o que está dito (ou o que está por trás do dito), é saber sob que condições de possibilidade o tal dito emergiu. Conforme já referido, a verdade passa a ser encarada de maneira diferenciada. Ela é vista a partir dos jogos de poder, que ao longo do tempo instituem regimes de verdade. Sob essa perspectiva o poder é visto como uma positividade, subentendido como processo relacional, nunca situado num determinado ponto, mas operando em rede, distribuído entre todos os indivíduos, numa infindável trama de relações, institucionalizadas ou não. Como decorrência, os esforços de investigação focalizam práticas sempre situadas numa determinada ordem espaçotemporal. Tal ordem se situará sempre num determinado campo de relações de poder, exigindo que a análise vá além do discurso em si, já que a materialidade das práticas se dá através e no interior de instituições concretas, ou seja, em contextos sócio-políticoculturais. Nesse sentido, este estudo demanda proceder a ações investigativas complementares aos depoimentos, buscando ampliar o universo pesquisado, incluindo análise de documentos escritos e iconográficos, incluindo, se possível, eventuais objetos materiais que possam ser encarados como “produtos e produtores da cultura escolar” (MIGNOT, 2008). Inspirada na experiência do grupo de pesquisa da cidade de São Gonçalo/Rio de Janeiro (ARAÚJO et alli, 2007) reforço o compromisso com a recuperação de informações para compor a memória escolar de nossos dois municípios. Esta pesquisa, pois, torna-se emergente não só para contribuir com tal preservação, mas fundamentalmente para estabelecer eixos articuladores que nos permitam historicizar e problematizar políticas públicas, projetos e propostas educacionais, do passado e do presente. Há muitas histórias a serem coletadas, permitindo a escrita não só de itinerários individuais, mas de conexões entre histórias de vida e de instituições, ou seja, permitindo produções que abarquem a história da educação nestas comunidades. Embora existam inúmeros trabalhos acadêmicos sobre o tema trajetórias docente/história da educação - como é caso de alguns considerados clássicos entre nós: Lopes (1991), Goodson (1992), Catani (1998), Arroyo (2006), Nóvoa (2000), Hypolito (2002), Abraão (2005), entre outros – é possível afirmar que em termos regionais a produção é praticamente inexistente, excetuando-se o trabalho de Kreutz (1991) e Mayer (2000), porém com aportes diferenciados do que aqui se propõe. 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS É possível relembrar uma experiência ou o que se relembra é apenas a lembrança previamente posta em discurso, e assim só há uma sucessão de relatos sem possibilidade de recuperar nada do que pretendem como objeto? Qual é a garantia da primeira pessoa para captar um sentido da experiência? Deve prevalecer a história sobre o discurso e renunciar-se àquilo que a experiência teve de individual? Entre um horizonte utópico de narração da experiência e um horizonte utópico de memória, que lugar resta para um saber do passado? (SARLO, 2007). Estas e outras questões se colocam diante do desafio metodológico. Conhecer histórias de outras épocas, localizar documentos e fontes orais, adentrar a vida de professores/as de outros tempos supõe, entre outras exigências, sensibilidade e rigor teórico. A dimensão temporal incorporada no presente trabalho determina que se busque no campo do saber histórico a linha mestra para a operacionalização do processo investigativo e, em nível micro, que se busque na história local o aporte conceitual mais adequado. Nesta perspectiva, a história oral (THOMSON, 1997, entre outros) constitui procedimento metodológico determinante no desenvolvimento do presente projeto. E isso não somente para documentar testemunhos vivos, mas também na recolha de depoimentos de outros acerca de educadores que já não se encontram entre nós. Neste caso também o método biográfico (Levi, 1996, entre outros) deverá ser acionado. Vale enfatizar que este procedimento metodológico é aprofundado também sob a perspectiva teórica, vindo a constituir-se num dos desafios no decorrer da investigação. Outro aspecto a destacar é que, sob a base teórica aqui assumida, os sujeitos entrevistados não nos remetem a uma essência e, sim, a uma posição, que pode ser ocupada por indivíduos variados. Trata-se de análise discursiva sob perspectiva foucaultiana, indo além do centramento no sujeito, para preocupar-se com as condições de possibilidade de determinadas práticas (FOUCAULT, 1987; VEYNE, 1978). Todo discurso supõe a relação do enunciado com os acontecimentos extra-discursivos, com o contexto em que se situam, com relações de poder que se atravessam neste específico contexto. Ou seja, pode se dizer tudo, mas tudo não se diz, pode se escrever e documentar tudo, mas nem tudo se escreve e se documenta, já que existem condições de possibilidade (ou de impossibilidade) para tal. Deste modo, discursos de um sujeito singular, ou textos e imagens portados em determinado documento podem ser captados como discursos que envolvem instâncias diversas. Na análise, é preciso estar atento para vozes de eus incorporadas em nós, e vice-versa. A escolha teórica que aqui se faz propõe romper radicalmente com a abordagem dual, que imagina a existência de um outro lado a que é preciso ter acesso. O que não significa, entretanto, investir por caminhos de um relativismo inconseqüente ou, como diz Le Goff, valer-se da preguiça epistemológica. Trata-se antes de procurar por verdades (no plural), encarando-as como instituídas em determinada época e a partir de determinadas circunstâncias que lhes dão guarida. Não se trata, outrossim, de abandonar as questões sociais, políticas e econômicas. Pelo contrário, é essencial que elas sejam incorporadas ao contexto que se estuda. Só que serão encaradas como práticas, isto é, como coisas feitas (ou ditas, já que o discurso é uma prática como outras) pelos indivíduos inseridos naquele momento histórico. E aqui há que se deixar clara a dimensão em que tais práticas se configuram: elas não são necessariamente concebidas pela consciência ou racionalidade dos indivíduos. De fato, quase sempre são atualizadas sem que os sujeitos dela se dêem conta. Isto em princípio parece difícil de aceitar, já que 5 haveria uma tendência generalizada e aprendida historicamente a enxergar uma finalidade em todos os fatos humanos. Suspender as “instâncias totalizadoras” (TERÁN, 1995, p. 31) que nos sufocam, eis outra postura importante para quem se propõe a fazer leituras do passado sob esse enfoque. Isto, porém, não significa que se abandonem as periodizações. Elas permanecem necessárias, já que os acontecimentos são sempre históricos e, como tal, datados num tempo. O que muda são os marcos que tradicionalmente classificam os períodos, a partir de um quadro fixo, que usa como critério absoluto determinados acontecimentos do campo político. Há, portanto, que nos desfazermos das etiquetas comumente afixadas nos sub-títulos das narrativas históricas, já que as mesmas foram ali edificadas como se só fosse possível ver os fatos a partir de um único ponto de vista. Seguindo um caminho metodológico inspirado por Foucault, valho-me especialmente de dois de seus conceitos básicos: práticas (incluindo aí os discursos) e relações de poder, buscando identificar possíveis regularidades, isto é, uma espécie de gramática que determina o que os indivíduos fazem. Tais regras, ainda que não imediatamente visíveis, estão sempre presentes no mundo que aí se efetiva. Para que possamos enxergá-las, como já referi anteriormente, é preciso um exercício constante de desapego às concepções críticas, tão fortemente em nós arraigadas, especialmente aquelas que nos forçam a ver em tudo um fundo ideológico (no sentido de não verdadeiro). Dito de outro modo, nas circunstâncias históricas instituídas ao longo do tempo, os indivíduos agem de acordo com determinadas regras, sem que delas se dêem conta, na mesma proporção de que se valem de outras, como das convenções gramaticais, por exemplo, sem delas saber. As coisas acontecem a partir de um conjunto de tramas, que se enredam de acordo com o possível, naquele determinado tempo, e sob aquele determinado regime de verdade. E mais: sem que haja especificamente um sistema ou uma estrutura que possa ser apontada como causadora de tudo. Cabe, pois, investigar quais são as constantes dessas tramas, e que conjunto de verdades as sustentam, verdades essas que, por sua vez, são instituídas pelas redes de saber e poder ali em jogo. Atentar para o corriqueiro, estranhar o que aparentemente está dado constitui desafio permanente em pesquisa como esta já que envolve sujeitos de comunidade próxima. Outra dimensão importante em investigações desta natureza é a que diz respeito ao significativo interesse pelo passado, ainda que alguns menos avisados acusam o retorno ao passado como “uma prática moderna ultrapassada”. Neste sentido, ouso valer-me das idéias Foucault. Ele, quando inquirido acerca de sua insistência em investigar determinados períodos da história, argumentou que a beleza dos velhos tempos é razão e efeito de nostalgia. E acrescentou: “Eu sei muito bem que tudo isso é nossa própria invenção. Mas é muito bom ter este tipo de nostalgia... É bom ser nostálgico na medida em que esta é uma forma de você manter uma relação positiva e atenta com seu presente...” (MARTIN et al., 1988). Tal abordagem - é importante que se diga - não significa apenas alterar formas de análise. Significa, sobretudo, conceber diferentemente a relação entre dados coletados e contexto ou condições de emergência dos mesmos. A partir daí, encaminho a reflexão para outro ponto que gostaria de abordar, e que diz respeito aos pressupostos que sustentam a opção teórica nesta jornada envolvendo fontes escritas e fontes orais. Antes de tudo, vale destacar a crença que fundamenta meus pressupostos, crença resumida aqui em três aspectos fundamentais: todo conhecimento será sempre parcial, a realidade é uma construção, e a identidade é sempre um estado em processo. Desta forma, a utilização de depoimentos ou relatos de alguém sobre si mesmo tem como objetivo menos a busca da verdade e muito mais a 6 identificação das condições de possibilidade para que determinada narrativa possa emergir enquanto discurso. Idem com relação a documentos escritos. Quanto à dimensão de tempo, ela pode ser encarada em diferentes níveis dependendo do foco em questão no momento da recolha dos dados. Datar o recorte temporal em torno do século XX supõe lidar com tempos diversos. Tempos diferentes podem homogeneizar-se no interior da história individual. Nesse sentido, as fontes orais merecem o maior zelo e atenção, pois geralmente carregam também informações correlatas que poderão ser omitidas caso o pesquisador não esteja permanentemente alerta, consciente de seus objetivos. Neste sentido, vale lembrar as palavras de Nunes que, a partir de sua experiência como pesquisadora no campo da educação, alerta: “As fontes escritas, orais ou iconográficas, enquanto marcas transitórias de comportamento modelado, mostram-se estranhas, elípticas, incoerentes, suspeitas, tendenciosas, contaminadas, vivas. A motivação para o seu deciframento passa pelo pensamento que, por aproximações sucessivas, se ensaia. O que dá inteligibilidade ao texto histórico são as perguntas que o orientam” (NUNES,1992). Assim, tendo clareza acerca dos propósitos desta investigação, tem-se incursionado pelo campo empírico valendo-se dos aparatos instrumentais exigidos para coleta das fontes escritas, iconográficas e orais. ANDAMENTO ATUAL DA PESQUISA O estudo encontra-se em sua primeira etapa (são 3 etapas no total), tendo selecionado os primeiros nomes para coleta de dados a partir do seguinte critério: iniciar por nomes de professores/as que tenham sido escolhidos como patronos de escolas nos dois município, incluindo instituições públicas e privadas. Tal seleção foi feita por consulta a páginas da internet, por telefonemas feitos diretamente às instituições ou através de contato com as secretarias municipais e estadual de educação. Após tal levantamento, houve a visita direta à escola para a coleta de dados, verificando primeiramente as fontes da própria instituição, ou seja, o que a escola preserva como histórico de seu patrono em termos de dados biográficos. Nesta ocasião, também são solicitados possíveis nomes de familiares com quem é possível manter contato para busca de mais informações e depoimentos. Também nesta oportunidade, ao serem esclarecidos os objetivos da pesquisa, outros nomes de interesse da investigação podem surgir, isto é, também surge a indicação de outros educadores/as que teriam deixado marcas significativas ao passarem pela instituição e mereceriam ser biografados. Num balanço quantitativo, constata-se que, em relação ao município de Novo Hamburgo, já foram coletados dados referentes à totalidade de patronos (16), com exceção de um nome cujos dados estão ainda em fase de busca. Quanto ao município de São Leopoldo, a pesquisa encontra-se em fase intermediária, faltando completar informações de parte dos educadores/patronos. Ao mesmo tempo, em ambos os municípios estão sendo coletados e digitalizados materiais como livros do ou sobre o sujeito, recorte de jornal, ou mesmo manuscritos do sujeito ou referente a ele. Paralelamente, conforme já aludido anteriormente, também já há informações organizadas/digitalizadas sobre professores/as não patronos, mas que de um modo ou outro tenham sido indicados pela comunidade escolar como integrantes desta pesquisa. Todos estes dados provem de fontes escritas e de fontes orais, dependendo das ofertas disponíveis. Talvez seja interessante apontar (em especial aos jovens pesquisadores) alguns detalhes acerca dos procedimentos operacionais da investigação, como é o caso da necessidade em estar sempre munido de máquina fotográfica quando da ida ao 7 campo empírico, tendo em vista que poderá ser surpreendido por fotografias (ou demais documentos) que necessitem ser digitalizados posteriormente. De acordo com o cronograma previsto no projeto, a etapa atual não prevê a efetivação dos procedimentos analíticos, embora já estejam sendo registrados alguns elementos significativos em relação aos objetivos propostos. Entre eles, por exemplo, a necessidade premente de desenvolver junto à comunidade escolar seminários de discussão, bem como oficinas de capacitação, acerca da preservação da memória e do patrimônio da instituição. É possível afirmar, lastimavelmente, que algumas escolas possuem dados genéricos sobre seus patronos, inclusive há situações em que, no máximo, sabem o nome completo, sem sequer ter certeza se no passado teriam tido o magistério como profissão. Há algumas exceções, entretanto, em que, além de a instituição preservar informações sobre seu patrono, também guarda fotografias e até mesmo objetos de seus pertences pessoais que tenham sido ofertados pela respectiva família. Tendo em vista a base teórica deste estudo, em termos conceituais nesta etapa da pesquisa seria precipitado iniciar elaborações analíticas, indo além das histórias de sujeitos sob a perspectiva individual, identificando histórias entrelaçadas em redes de poder e demais relações situadas no respectivo contexto sócio-político e cultural. Tais procedimentos estão sendo esboçados, porém ainda carecendo de maior aprofundamento. Conforme já aludido anteriormente, embora a pesquisa encontre-se na primeira de três etapas, já se comprova o acerto de seus propósitos e a relevância em se levar adiante as metas previstas, alargando-se em termos geográficos, ou seja, desdobrando-se para demais municípios da região do Vale do Rio dos Sinos, em futuro não muito distante REFERÊNCIAS ABRAÃO, Maria H. M. B. História e história de vida: destacados educadores fazem a história da educação rio-grandense. Porto Alegre, Edipucrs, 2005. ARROYO, Miguel. Oficio de mestre. Petrópolis, Vozes, 8ª edição, 2006. 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