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ALAN GOMES DOS ANJOS
EDUARDO PEREIRA
ELISÂNGELA GARCIA FERREIRA
LAYS RODRIGUES MONTEIRO
MARIA LÚCIA DOS SANTOS DE SOUZA
SANDRO ARAÚJO DE LIMA
A Tragédia da Indiferença e da Violência do Sistema Capitalista na Copa
do Mundo na África do Sul
Artigo
apresentado
à
disciplina
de
Antropologia da Religião, através da PróReitoria de Extensão (PROEX), da Diretoria
de Programas de Pastoral (DIPAS), do
Programa de Formação Humanística (PFH) e
do Centro de Reflexão Sobre Ética e
Antropologia da Religião (CREAR), da
Universidade Católica de Brasília (UCB –
Campos Taguatinga), como requisito para
obtenção de nota semestral e participação na
Semana Temática do segundo semestre de
2011.
Professor: Dro. José Lisboa Moreira de
Oliveira.
Turma: NAG
Brasília,
2011
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A TRAGÉDIA DA INDIFERENÇA E DA VIOLÊNCIA DO SISTEMA CAPITALISTA
NA COPA DO MUNDO NA ÁFRICA DO SUL
Alan Gomes
Eduardo Pereira
Elisângela Garcia Ferreira
Lays Rodrigues Monteiro
Maria Lúcia dos Santos de Souza
Sandro Araújo de Lima
Resumo: O presente artigo analisará a Tragédia da Indiferença e da Violência do Sistema
Capitalista na Copa do Mundo na África do Sul, escolhido a partir da análise documental de
entrevistas, artigos, depoimentos e demais referenciais teóricos sobre a Copa do Mundo de
2010, que trouxe em sua essência, a ideologia capitalista e burguesa (concentração de bens,
lucros e olhos vedados para a desigualdade social), deixando de observar, que no país sede da
Copa do Mundo, os Onze Princípios da Comunidade de Desenvolvimento Sul Africano
(SADC), estavam meramente violados. Neste sentido, os resultados permitirão uma reflexão
crítica do que esteve por de traz da realização da Copa do Mundo, contribuindo para a quebra
de visões fundamentalistas e positivistas do que é informado e transformado para a sociedade
como verdade.
Palavras-Chave: África do Sul. Copa do Mundo. Indiferença.
1 INTRODUÇÃO
Desde seus processos de libertação da Europa no final do século XIX, o continente
africano passa por efeitos devastadores, ficando á mercê da política capitalista mundial e se
mostrando, a partir do século XXI, bastante interessante aos olhos desta política,
principalmente no que refere aos recursos naturais, dentre eles, o ouro e a platina. (ARRICHI,
2006)
Sua história continua se desenvolvendo a partir de seqüelas negativas de
desenvolvimento, sendo a principal destas o regime Apartheid, vigente a partir de 1948 e com
o final em 1994, que teve como conseqüência a realização das primeiras eleições
multipartidárias e raciais, resultando na eleição de Nelson Mandela, que durante o regime
Apartheid foi sentenciado à prisão perpétua pela prática de ações armadas contra o regime
Apartheid. (OLIVEIRA, 2010).
Desde a eleição de Nelson Mandela, a África do Sul desenvolveu diversas ações na
tentativa de melhorar as condições de vida de sua população, mas estas, cercada de interesses
3
meramente capitalistas, se tornaram ineficazes, fazendo com que ocorressem em pleno século
XXI o aumento da pobreza e a exclusão social, que se tornou mais aparente com a chegada da
copa do mundo de 2010. (OLIVEIRA, 2010).
Esta indiferença racial, cultural, de gênero e religiosa da população, com também a
manipulação da comunicação pela burguesia, fez com que pouco mais da metade dos 49
milhões de habitantes famintos, não só de comida, mais de outros subsídios necessários para a
sua sobrevivência (como saúde, educação, segurança, dignidade, respeito, habitação e etc.),
convivessem em situações completamente desumanas devido há certa tragédia de
indiferenças. (PINTO, 2007).
Este país, que tem boa parte de sua população composta por negros, sujos, pobres e
possuidores de fatores pragmáticos em sua cultura e desenvolvimento, (como a corrupção,
guerrilhas internas, devastações irrecuperáveis, deslocamento de populações, abandono de
lavouras, o descaso do próprio governo local, como também a falta de políticas públicas para
o controle da epidemia da AIDS e a fome) recebe como troféu, devido à chegada da Copa do
Mundo, a prova real de que ali somente prevaleceriam os interesses capitalistas e não os
sociais daquele país.
Este artigo busca de forma simples e inovadora trazer uma reflexão a cerca da tragédia
da indiferença racial, cultural, de gênero e religiosa da população africana e a violência do
sistema capitalista mundial na Copa do Mundo na África do Sul, relacionando estas ao
descaso capitalista com diversas questões humanas e sociais, que os mesmos desenvolvem
através da Copa do Mundo com o objetivo de aumentarem seus lucros e entravar o
desenvolvimento da sociedade menos favorecida.
1.1 Tema e Problema
A África do Sul, na tentativa de erradicar a pobreza e incentivar o desenvolvimento
sustentável, participou juntamente com os demais países membros da Comunidade de
Desenvolvimento Sul-Africano (SADC) na elaboração dos 11 princípios da Declaração da
Comunidade de Desenvolvimento Sul-Africano, sendo eles: a) Assegurar a paz, a Segurança e
democracia; b) Acelerar a liberação do comércio e desenvolvimento; c) Acelerar o
desenvolvimento de infra-estruturas para integração regional, a Erradicação da pobreza e o
desenvolvimento; d) Garantir a segurança alimentar, a Gestão dos recursos naturais e o
ambiente sustentável; e) Melhorar o desenvolvimento humano e social; f) Assegurar a
igualdade do gênero e desenvolvimento; g) Intensificar o combate contra o HIV/SIDA; h)
Dominar a ciência, inovação e tecnologia; i) Promover e reforçar a parceria com o setor
privado; j) Reforçar os mecanismos institucionais e a monitorização e avaliação; k)
Intensificar a mobilização de recursos. (SADC, 2008).
Com a chegada da Copa do Mundo de 2010, a declaração da Comunidade de
Desenvolvimento Sul-Africano foi meramente ignorada, pois a Federação Internacional de
Futebol e Associação (FIFA), organizadora da Copa do Mundo, exige em seu estatuto que o
país sede deva assegurar e fiscalizar os investimentos em áreas de bom desenvolvimento do
evento, tais como: Saúde, transporte, comunicação, energia, aduaneira e segurança.
(OLIVEIRA, 2010).
Mediante o exposto, surgem alguns questionamentos: Se é um evento mundial, porque
não elaborar políticas públicas com certa antecedência para o desenvolvimento daquela
4
nação? Seriam essa à alternativa para incluir o continente africano em condições iguais aos
demais países? Porque um evento de grande porte mundial, não poderia ter dentro de sua
bagagem um aparato de investimentos para socorrer uma nação que pede socorro a cada
milésimo de segundo?
1.2 Objetivos
1.2.1 Objetivo Geral
Analisar A Tragédia da Indiferença e da Violência do Sistema Capitalista na Copa do
Mundo na África do Sul.
1.2.2 Objetivos Específicos
Realizar uma revisão Histórica da África do Sul, no que concernem, desigualdades
raciais, sociais, culturais, religiosas e econômicas;
Avaliar o papel da Copa do Mundo relacionado às questões sociais.
1.3 Justificativa
A escolha do tema A Tragédia da Indiferença e da Violência do Sistema Capitalista na
Copa do Mundo na África do Sul, surgiu por meio da análise de discussões e referenciais
teóricos sobre a Copa do Mundo do ano de 2010 e seu país sede, tendo como relevância
social, levar a sociedade, em especial, os estudantes da disciplina de antropologia da religião
da Universidade Católica de Brasília (UCB) a uma reflexão sobre a importância de debater as
questões de indiferenças raciais, culturais, religiosa, como também a violência capitalista que
é desenvolvida na Copa do Mundo, que são mais segregadas pela cor, ainda que esteja
constante na vida do indivíduo, que segundo Castells (1999, p. 123):
“Desse exercício de poder predatório que caracteriza a maioria dos Estados
africanos, resultam três grandes conseqüências: primeiramente, os recursos
são apropriados por particulares ou pelo próprio governo, mas sempre
desvinculados da economia do país; em segundo lugar, o acesso ao poder de
Estado equivale ao acesso à riqueza, e também às fontes de futuras riquezas;
por fim, o povo deve submeter-se sempre à rede de patronagem para ter
acesso à distribuição de empregos, serviços e pequenos favores em todos os
níveis do Estado”.
1.4 Metodologia
A metodologia utilizada para a concretização deste artigo foi à realização de uma
análise e revisão de literatura, associada à pesquisa em sites de órgãos oficiais e nãogovernamentais sobre as questões históricas, sociais, políticas e econômicas da África do Sul,
especialmente no que se refere à Copa do Mundo do ano de 2010, permitindo desta forma,
uma análise bibliográfica e documental mais ampla.
5
1.5 Estruturas do Trabalho
O presente artigo buscou apresentar a Tragédia da Indiferença e da Violência do
Sistema Capitalista na Copa do Mundo na África do Sul e para tanto, foi dividido em quatro
partes, além da parte introdutória que é o primeiro capítulo. Na segunda delas, foi apresentado
o contexto histórico e político da África do Sul. Já o terceiro capítulo, foi abordada a Copa do
Mundo de 2010 e a realidade de pobreza. Por fim, o quarto capítulo trouxe as considerações
finais acerca do artigo realizado.
2.0 A ÁFRICA DO SUL E SUA HISTÓRIA ATRAVÉS DA TRAGÉDIA DA
INDIFERNÇA DIVIDIDA PELA COR
Considerado como um dos continentes mais diversificados do planeta, devido aos seus
múltiplos povos, idiomas, credos e culturas, o continente africano, traz em seu processo
histórico, uma série de conflitos, mesmo antes de sua descoberta pelas expedições européias.
Seu povo se encontrava em guerra e dividido em tribos rivais, ficando estas mais evidentes
com a chegada dos europeus, que fez do continente uma infinita fonte de mão-de-obra
escrava, vista como dinheiro (valor de troca) e força de trabalho (valor de uso). (OLIVEIRA,
2010).
Localizada no extremo sul do continente africano, a África do Sul (fazendo parte da
chamada África Subsaariana), sofreu com constantes invasões e ocupações durante todo o
processo histórico, em virtude de holandeses e ingleses se revezar em suas ocupações, para
que dali extraísse ouro e diamante através do trabalho escravo, sem qualquer retorno para
aqueles que se encontravam nessa condição. (OLIVEIRA, 2010).
Como foco deste artigo é abordar a tragédia da indiferença, este capítulo apresentará o
contexto histórico da África do Sul, de forma clara e objetiva, passando por seu período de
colonização, o regime apartheid (que estabelecia a diferença entre negros e brancos), a era
Nelson Mandela e as novas eleições, para que, a partir desta revisão histórica, possamos
entender de forma crítica, o sistema capitalista e a copa do mundo de 2010.
2.1 O Amargo contexto histórico da África do Sul com influência do sistema capitalista
A trágica subordinação aos interesses dos colonizadores, a inserção do pensamento
positivista1 de que os negros eram inferiores aos brancos e que sua cor somada à força física
servia meramente como força de trabalho e produto para a venda, fez com que ocorresse a
criação de leis onde as diferenciações entre brancos e negros ficassem bem nítidas. Dentre
várias leis e atos aprovados para a confirmação da diferenciação e dominação2 capitalista de
recursos naturais, podemos destacar três que serviram como base para a criação do mais cruel
regime que fidelizaria esta diferenciação (Apartheid). São elas: a) O Regulamento Nativo do
Trabalho de 1911 (Native Labour Regulation Act, de 1911), que considerava ofensa criminal
o fato de um negro quebrar um contrato de trabalho; b) A Reforma do Modo de Agir da
Igreja Holandesa de 1911 (Dutch Reformed Church act de 1911), que bania os negros de se
tornarem membros de pleno direito da Igreja Reformadora Holandesa; c) Lei de Terras
1
Pensamentos adeptos por desprezar a determinação das causas, dando preferência à determinação das leis (JÚNIOR, J.R. O que é
Positivismo. São Paulo: ed. Brasiliense, 1.994);
2
A oportunidade de encontrar uma pessoa determinada pronta a obedecer a uma ordem de conteúdo determinado. (WEBER, Max. Ensaios
de Sociologia. Ed. Guanabara: Rio de Janeiro, 198);
6
Nativas de 1914 (Natives Land Act de 1914), que delimitou as áreas onde brancos e negros
poderiam possuir terras. (BRANCO, 2003).
Por não possuírem quaisquer tipos de organizações políticas, a revolta de boa parte da
população negra se tornou sem efeito diante de decisões impostas e aprovadas pelos brancos,
fazendo surgir ao longo do tempo, diversos partidos e associações para buscarem direitos
iguais entre as raças, onde mesmo com esse posicionamento, não obtiveram o retorno
desejado, em virtude da falta de apoio externo, posicionamento político interno e o
reconhecimento dos mesmos como sujeitos de direito. (OLIVEIRA, 2010).
O ardil3 capitalista, deixado pela primeira Guerra Mundial, passa a mostrar seus
efeitos na África do Sul, deixando sua agricultura destruída, como também o fechamento de
várias minas, aumentando o desemprego urbano e a saída dos negros do meio rural para a
cidade, fazendo com que a Câmara de Proprietários de Minas (Chamber of. Mines)
determinasse pela redução de trabalhadores brancos e a contratação de mão-de-obra negra,
por ser mais barata e com menos posicionamento político, gerando assim uma revolta da
classe operária branca contra os negros, cujo tema era: “Trabalhadores do Mundo, Unam-se e
Lutem Por uma África do Sul Branca” (Worker of the Word, Unite and Fight for a White
South Africa). (BUTING, 1969). Este dilema levou o governo a implementar medidas de
caráter segregacionista4·, alimentado por um sentimento de preconceito não contra aos negros
ou brancos, mas aos donos das minas que eram, em sua maioria, judeus.
Com o crescimento econômico após a Segunda Guerra Mundial, mesmo dependente
das minas de ouro e diamante, a África do Sul registrou um aumento em suas atividades
industriais, como também de sua população negra no meio urbano, fazendo com que os
empresários continuassem a contratar os negros, pagando-lhes salários bem abaixo do
estimado, indo ao encontro do interesse do branco em manter os negros fora de seus
patamares econômicos e sociais, transformando assim, a população negra em maioria na zona
urbana e com poderes aquisitivos bem abaixo dos brancos.
2.2 O Regime Apartheid
As atitudes tomadas por parte do governo sul-africano, sempre demonstrou ter
preocupação maior com a qualidade de vida da população branca, menosprezando de todas as
formas a população negra.
Com a eleição realizada em 1948, (que deu vitoria ao partido nacional-NP (Natinal
Party)), reafirmou-se essas indiferenças, através da proibição da integração política, a
formação de sindicatos e casamentos mistos entre a população negra, violando assim os
direitos humanos e excluindo os negros da condição de sujeito de direito5, vindo a atender
somente os interesses capitalistas e a satisfação de empresários brancos. Ainda que o aumento
de contratação da mão de obra negra visasse somente o desenvolvimento do capitalismo, boa
parte de conservadores brancos considerava esta uma ofensa, o que servil de base para o
Partido Nacional (NP) oficializar a Doutrina do Apartheid, que veio composta por atos cada
vez mais severos aos negros, com forte influência da Igreja Reformadora Holandesa, para que
3
S.m. Estratagema, armadilha, emboscada, cilada, astúcia, sutileza, manha, finura, sagacidade. (In: http://www.dicio.com.br/ardil/, acessado
em 12/09/2011 ás 15:01: 25);
4
Adj. e s.m. e s.f. Que ou aquele que é partidário da segregação racial;
5
S.m. Ente físico ou coletivo suscetível de direitos e obrigações, sendo sinônimo de sujeito de direito. (DINIZ, Maria Helena. Compêndio
de Introdução à Ciência do Direito. São Paulo: Saraiva, 1993, p.461);
7
prevalecesse à soberania dos brancos, e mudasse completamente as questões econômicas,
sociais e políticas. (OLIVEIRA, 2010).
Se antes de o Partido Nacional subir ao poder tínhamos alguma esperança ou
ilusão com relação a ele, nós a perdemos sem demora. Quando o partido
ameaçou pôr os cafres6 no seu lugar, não estava brincando. Além da Lei de
Eliminação do Comunismo, em 1950 foram aprovadas duas novas leis que
foram as pedras fundamentais do Apartheid: A Lei do Registro da População
e a Lei das Zonas de Grupo [...] Os testes arbitrários e sem sentido que
serviam para distinguir um preto de um mestiço e o mestiço de um branco
com freqüência resultavam em casos trágicos em que membros da mesma
família recebiam diferentes classificações, tudo dependendo de um filho ter
pele mais clara ou mais escura. (MANDELA, 1995, p.106).
Vale à pena ressaltar que enquanto a autoridade suprema de brancos lutava pela cruel
subordinação e dependência do negro perante o branco, o regime Apartheid mantinha uma
visão mais ampla, estabelecendo uma cruel separação entre brancos e negros no que se referee
ao trabalho, posicionamento político, habitação e lazer, o que de fato presenciamos em
tempos atuais, com a diferenciação de salários e melhores empregos somente à população
branca, ficando os negros, excluídos do acesso a boas oportunidades de trabalho e melhorias
em sua qualidade de vida. (BRANCO, 2003).
A legislação de 1927 aprovou a Lei de Administração de Domínios (Nativer
Adminstration Act), que deixou amplamente estampado a ideologia da separação étnica e
geográfica da população, vindo o regime Apartheid, a ter um imenso apoio religioso e
ideológico de que a população negra e a superioridade que os brancos tinham sobre está
(econômica e financeira), tratavam-se de algo divino. (OLIVEIRA, 2010).
Com receio de contrariar os cristãos que o seguiam, o Partido Nacional (National
Party-NP) tomou como sua principal ação, a garantia de defesa da raça branca caso alguma
doutrina ou lei ameaçasse a sua existência, vindo também a rejeitar a opressão aos não
europeus pelos europeus, buscando desta forma, criar o máximo de leis que fidelizassem o
Apartheid, mesmo com governos que viessem a sucedê-los futuramente. (OLIVEIRA, 2010).
O Apartheid criou um monstro, um Estado branco enquistado numa região
multiétnica. Este Estado, enquanto responsável pela representação exterior,
reproduziu nesse âmbito sua concepção interna que evoluiu, entre 1947 e
1990, de considerar-se um país europeu estabelecido na África a um país
africano europeu [...] o Apartheid isolou a África do Sul da comunidade
internacional e sua política externa incorporou esse isolamento ao constituir
seu núcleo de formulação a ação em torno da defesa do regime e sua
sobrevivência. Ela não se caracterizou, nem nos momentos de extroversão,
com um movimento em direção ao mundo exterior, uma projeção que
ampliasse o horizonte nacional. (MENDONÇA, 2000, p.13).
Assim, na teoria, a política do Apartheid separaria totalmente os brancos dos negros,
defendendo ao mesmo tempo, as duas raças, e possibilitando o desenvolvimento por igual
entre elas, o que divergia na prática, que nada mais era que a simples separação das pessoas
através do critério da cor, gerando assim, a segregação racial. Através da Campanha do
Desafio Contra Leis Injustas (Defiance Compaign Against Unjust Laws), realizado em 1952,
os militares anti-apartheid, conseguiram mostrar de forma mundial o que se passava na África
6
S.m. Povo banto da Cafraria na África meridional (In: http://pt.wiktionary.org/wiki/cafres, acessado em 13/09/2011 ás 14:03);
8
do Sul, tendo como resposta imediata do Estado a prisão de 2.500 pessoas que para Mandela
(1995, p. 114): "Foi um começo auspicioso. Nossos soldados eram ordeiros e estavam
disciplinados e confiantes". Com as prisões, os militantes se viram obrigados a reestruturar
suas estratégias, publicando um documento denominado de "Carta Régia da Liberdade"
(Freedom Charter), composta por diversas reivindicações e metas, buscando desta forma, um
governo mais democrático e justo independente de raça. Isto levou novamente à prisão de
líderes do movimento, sob a acusação de traição, mostrando de imediato que qualquer
vontade gerada por negros seria totalmente ignorada. (OLIVEIRA, 2010).
A instabilidade política provocada durante esses movimentos, fez com que a economia
sul-africana passasse por uma forte crise, afastando os investidores que não viam nessas lutas
seus interesses capitalistas e mesmo com essa atitude cruel por parte da burguesia, o Estado
não recuou com o regime que a cada dia mostrava uma África do Sul mais desumana e
racista. As duas maiores prioridades do regime Apartheid eram a separação física das raças,
tanto na zona urbana com na rural, como também a transformação da África do Sul numa
república independente da Grã-Bretanha. (BRANCO, 2003).
Nelson Mandela destacou-se com o surgimento do grupo composto por membros mais
radicais (Umkhonto we Sizwe), conhecido pela sigla MK, que foi fundada em 16 de
Dezembro de 1961 (Dia de Dingane7).
Nós escolhemos o dia 16 de dezembro, Dia de Dingane, por um motivo.
Nesse dia, os sul-africanos brancos costumam comemorar a derrota do
grande líder Zuli Dingane na batalha do Rio do Sangue, em 1938. Dingane
era meio-irmão de Shaka e naquela época governava o Estado africano mais
poderoso que já existiu ao sul do rio Limpopo. Naquele tempo as balas dos
bôeres eram demais para as azagaias dos impis Zulus, de modo que as águas
do rio que passava por ali ficaram tintas do sangue deles. No dia 16 de
dezembro os africânderes comemoraram a derrota dos africanos, com uma
demonstração de que tinham Deus ao seu lado, enquanto os africanos
lamentavam o massacre de seu povo. Escolhemos o dia 16 de dezembro para
mostrar que nós, os africanos, estávamos começando a lutar e tínhamos a
justiça (e muita dinamite) do nosso lado. (MANDELA, 1995, p. 235).
Em busca de apoio para a luta armada contra os que eram a favor do regime
segregador, Nelson Mandela mostrou-se a favor das revoltas contra o domínio capitalista que
era imposto pelos Estados Unidos, conquistando assim, o apoio da então URSS (União
Soviética) e desta forma, o território africano passa a ser disputado pelas duas potências
mundiais durante a Guerra Fria (OLIVEIRA, 2010).
Na Umkhonto, sempre procuramos chegar à liberdade sem derramamento de
sangue e sem guerra civil. Mesmo nesta hora tardia esperamos que nossos
atos iniciais acordem todos para que percebam a situação desastrosa para a
qual o Partido Nacionalista está nos levando. Nossa esperança é levar o
governo e todos que o apóiam a cair em si antes que seja tarde demais, de
modo que o governo e as táticas governamentais mudem antes de sermos
levados ao estágio desesperado de uma guerra civil. (MANDELA, 1995,
p.235).
7
S.n. Zulu Chefe, que se tornou rei do reino Zulo em 1828. IN: http://en.wikipedia.org/wiki/Dingane_kaSenzangakhona, acessado em
22/09/2011 às 08:23: 13;
9
Ao verificar que as ações de Nelson Mandela estavam cada vez mais fortes, o governo,
acabou por prendê-lo e condená-lo a cinco anos de prisão por ter regressado clandestinamente
à Região da África do Sul (RAS) em 1962, angariando fundos para o movimento
revolucionário. Os líderes do movimento foram perseguidos até que fossem encontradas
provas de sabotagem e traição. Assim, em 2 de junho de 1967, Nelson Mandela foi
sentenciado, porém, dessa vez a prisão perpétua por ter sido confirmado atraves de provas, o
planejamento de ações armadas, em particular sabotagem (o que Mandela admite) e
conspiração para ajudar outros países a invadir a África do Sul (o que Mandela nega).
(OLIVEIRA, 2010).
Durante todo o período de julgamento, o governo tentou mostrar que as atitudes de
Mandela e seus seguidores eram comunistas, para que desta forma, prevalecesse à vontade
dos brancos e os interesses da "potência dos Estados Unidos", fazendo com que em novembro
de 1985 a justiça apresentasse a Mandela uma proposta de acordo que o convencesse a desistir
da luta armada, o que de nada adiantou. (BRANCO, 2003).
Após um longo período de negociação, o parlamento sul-africano, aprovou a
constituição interina, que na prática encerraria o Apartheid, vindo em 27 de abril de 1994 a
ocorrer às primeiras eleições multirraciais do país, proclamando de forma unanime o nome de
Nelson Mandela como presidente do país. Ao tomar posse, Nelson Mandela encontrou um
funcionalismo público composto por 85% de homens brancos nos cargos de chefia, o que
representava um problema para as reformas propostas.
Em 1999 foram realizadas novas eleições quando foi eleito Thabo Mbeki, vice
presidente do governo Mandela, tendo como prioridade do sucessor, continuar o caminho de
tornar a África do Sul mais humana e com melhores condições de vida para a população. Está
política se manteve durante a presidência de Kgalema Motlanthe (set/2008-mai/2009) e no
governo de Jacob Zuma (a partir de mai/2009), onde todos eram membros do Congresso
Nacional Africano (ANC). (OLIVEIRA, 2010).
3.0 A COPA DO MUNDO DE 2010 E A REALIDADE DE POBREZA
Considerada como uma das maiores competições esportivas do mundo, a copa do
mundo realizada na África do Sul reuniu 32 países, sendo seis deles africanos. Segundo
Bocayuva (2010), desde seu anúncio até o seu término, várias infra-estruturas foram
realizadas e empregos gerados, mas esses só atenderam as exigências da FIFA, que era de
garantir o andamento do evento, permanecendo assim, a realidade social que o país enfrenta
constantemente.
O quadro abaixo mostra o investimento econômico para a realização da copa do
mundo de 2010.
Atividade
Investimento para economia entre 2006 e 2010
Geração de empregos
Geração de impostos
Turistas esperados para o período dos jogos
Gastos dos turistas durante a estada no país
Gastos do Governo com infra-estrutura entre 2006 e
20010
Valor (Rande - Moeda Sul Africana) Resultado
55,7 bilhões
415.400
19,3 bilhões
483.250 de turistas
8,5 milhões
600 bilhões
Fonte: Fact Sheet, 2010 FIFA Word Cup
10
O custo da copa do mundo, conforme apresentado no quadro acima mostra um super
faturamento no período entre 2006 e 2010, que segundo o comitê de organizações não
governamentais locais, seriam suficientes para construir casa para 12 milhões de sul-africanos
que vivem em favelas, levando em conta também que a FIFA, arrecadou 3,2 bilhões em renda
com o evento e sem pagar nada de impostos ao país sede, levando boa parte da população
deste país a considerar como "miopia” 8 o olhar crítico sobre a forma devastadora com que o
sistema capitalista passou por este país. (CHADE, 2010).
Segundo a classificação elaborada pela Organização das Nações Unidas (ONU),
mesmo a África do Sul sendo considerada como país de renda média, o desemprego é
extremamente elevado e a desigualdade de renda é aproximadamente igual a do Brasil. A falta
de elaboração de políticas públicas com qualidade e eficiência, faz com que uma média de 52
pessoas sejam assassinadas diariamente, como também, o registro oficial de 500 mil estupros
por ano, elevando para a 10ª colocação entre os 60 países mais violentos do mundo. Estes
estupros em sua maioria ocorrem com maior incidência contra crianças e bebês, passando a
ser visto por grupos de jovens sul-africanos, como "algo divertido", como também, a
confirmação de que um a cada quatro homens já cometeu estupro. (UFSC, 2009).
Por fim, vale à pena ressaltar que a África do Sul vem experimentando uma "fuga de
cérebros” 9 nos últimos 20 anos potencializando a prejudicação da economia regional e da
saúde, tendo em conta a epidemia de HIV/AIDS. A fuga de cérebros na África do Sul tende a
demonstrar contornos raciais (naturalmente, dado o legado de distribuição de competências da
África do Sul) resultando em grandes comunidades de brancos sul-africanos no exterior.
(OLIVEIRA, 2010).
4.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo buscou apresentar a tragédia da indiferença e da violência do sistema
capitalista na copa do mundo, com ênfase na áfrica do Sul. A análise empreendida demonstra
que além dos problemas típicos dos países, cuja colonização teve caráter de exploração e
pilhagem ao invés de desenvolvimento, o país acabou por absorver uma cultura de
superioridade dos brancos sobre os negros, vindo a refletir dramaticamente em seu processo
de desenvolvimento. Sendo assim, o presente trabalho realizou um resgate histórico do
processo de democratização da República da áfrica do Sul, desde sua colonização, a
instauração e queda do regime de segregação racial (Apartheid), até a realização da primeira
eleição multirracial, em 1994, onde aclamou o recém libertado líder de oposição ao regime
(Nelson Mandela), como presidente, sendo possível verificar também que a discriminação
racial de seu povo para seus próprios pares durou mais de quatro décadas e ainda hoje, apesar
dos mais de quinze anos passados da queda do Apartheid, reflete na vida das pessoas que ali
residem.
Sabes ainda, que enquanto houver racismo, a segregação de um povo dentro de seu
próprio país e uma egoísta burguesia que detêm a maior parte do território para a exploração e
escravização do povo, as raízes dessa terra nada mudarão, pois ao mesmo tempo em que a
África do Sul seja um território riquíssimo, em vida natural, ouro, diamantes e petróleo se
8
S.n. condição em que os olhos podem ver objetos que estão pertos, mas não são capazes de enxergar claramente os objetos que estão longe.
IN: htpp://www.miopia.com.br. Acessado em 24/09/2011 ás 17:33: 35;
9
S.n. é uma emigração em massa de indivíduos com aptidões técnicas ou de conhecimentos, normalmente devido a fatores como conflitos
étnicos e guerras civis, falta de oportunidade, riscos à saude, instabilidade política nestes países. IN:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fuga_de_c%C3%A9rebros. Acessado em 24/09/2011 ás 18:23:33.
11
depara com inúmeros problemas como desigualdades na distribuição de renda, fome,
educação, desemprego e uma séria epidemia nos casos de infecção com HIV/SIDA/AIDS.
Nelson Mandela, sem sombra de dúvida, foi o principal e grande lutador da liberdade
do povo sul-africano, mas os que lhe sucederam , deixaram-se corromper, fazendo com que
hoje não lutem pela liberdade e igualdade dos sul-africanos, vindo a prevalecer à ganância
pela riqueza que alguns brancos lhe oferecem como condição para que um dia passe eles a
serem os senhores mandantes do país negro e sofrido.
Por fim, podemos abordar que a Federação Internacional de Futebol e Associações
(FIFA), focada somente em seus ganhos, lucros e investimentos somente em áreas que
garantem o bom andamento do evento, deixou de observar com os 32 países, (sendo seis deles
africanos) que devido à falta de um olhar mais humano para os problemas sociais da África do
sul violaram o pacto da erradicação da pobreza, assinado pela África do Sul com os demais
países sul-africanos, fazendo com que um ano após a realização da copa do mundo, os
estádios da África do Sul se tornassem elefantes brancos e o governo local completamente
corrompido, tivessem “dificuldades” em torná-los viáveis e rentáveis.
THE TRAGEDY OF INDIFERENÇA AND THE VIOLENCE OF THE
CAPITALIST SYSTEM IN THE WORLD CUP IN SOUTH AFRICA
Abstract:
The present article will analyze the Tragedy of the Indifference and the Violence of the
Capitalist System in the Pantry of the World in the South Africa, chosen from the
documentary analysis of interviews, articles, depositions and excessively references
theoreticians on the Pantry of the World of 2010, that it brought in its essence, the capitalist
and bourgeois ideology (concentration of good, profits and eyes forbidden for the social
inaquality), leaving to observe, that in the country headquarters of the Pantry of the World,
the Eleven Principles of the Community of Desenvolviment Sul African (SADC), mere was
violated. In this direction, the results will allow a critical reflection of what it was for of
brings of the accomplishment of the Pantry of the World, contributing for the fundamentalist
and positivist’s vises in addition of what it is informed and transformed for the society as
truth.
Word-Key: South Africa. Pantry of the World. Indifference.
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Desastre da Copa do MUndo - Universidade Católica de Brasília