SOCIABILIDADES ITINERANTES: IMAGENS E NARRATIVAS NOS
TERMINAIS DE TRANSPORTE COLETIVO DE SÃO LUÍS/MA
Carolina Vasconcelos Pitanga.
Mestranda do PPGCSoc/UFMA
http://www.ppgcsoc.ufma.br
Thiago Luíz Araújo Garcêz
Graduando de Artes Visuais/UFMA
Orientador: José Odval Alcântara Júnior.
Professor vinculado ao PPGSoc/UFMA
http://www.ppgcsoc.ufma.br
INTRODUÇÃO
As cidades caracterizam-se primeiramente por serem lugares de concentração,
de grande densidade populacional. Ao mesmo tempo em que concentra, o espaço
urbano possibilita a mistura e o entrelaço de relações, muitas vezes, rápidas e
descompromissadas entre os indivíduos. As cidades são lugares de heterogeneidade.
O espaço urbano possibilita ao olhar atento do antropólogo/sociólogo uma
infinidade de possibilidades de abordagem sobre as mais variadas formas de
sociabilidade. As abordagens que colocam o indivíduo e a estrutura urbana em extremos
opostos não consideram as oportunidades de mistura e de sociabilidade que o individuo
constrói a partir dos encontros, redes de relacionamento, instituições que se constroem
no meio urbano. Sendo assim, com o objetivo de analisar essas dinâmicas sociais, tornase necessário fazer uma abordagem de perto e de dentro (Magnani, 2002) opondo-se à
perspectiva macro-social, que valoriza a análise os grandes problemas das cidades e
desconsidera as questões referentes às sociabilidades entre os atores sociais.
O conceito de sociabilidade, construído por Georg Simmel, é indispensável
para o entendimento sobre a relação entre indivíduo e estrutura social e sobre as
dinâmicas do espaço urbano (Alcântara, 2006).
A respeito do conceito de sociabilidade, é importante considerar que:
[...] O motivo deriva de duas proposições: uma delas é que em
qualquer sociedade humana pode-se fazer uma distinção entre seu
conteúdo e sua forma. A outra proposição é que a própria sociedade
em geral se refere à interação entre indivíduos. Essa interação sempre
surge com base em certos impulsos ou em função de certos
propósitos. Os instintos eróticos, os interesses objetivos, os impulsos
religiosos e propósitos de defesa ou ataque, de ganho ou jogo, de
auxílio ou instrução, e incontáveis outros, fazem com que o homem
viva com outros homens, aja por eles, com eles, contra eles,
organizando desse modo, reciprocamente, as suas condições – em
resumo, para influenciar os outros e para ser influenciado por eles.
[...] (Simmel apud Moraes, 1983, p.165-166)
Não há dúvidas de que, ao se movimentarem pelo espaço urbano, os indivíduos
recebem um elevado nível de estímulos nervosos. Simmel destaca a importância do
sentido da visão no espaço urbano. (Simmel apud Caiafa, 2007, p. 109) Apesar disso,
deve-se considerar que os estímulos sonoros e táteis possuem um papel relevante no
contexto da experiência urbana.
Com a aglomeração humana e o crescimento das cidades, foi-se criando a
necessidade de deslocamentos contínuos dos seus habitantes. O lugar do trabalho, de
casa, de lazer foi se dispersando pelo mapa da cidade. Isso gerou a necessidade de
mobilidade, de circulação no espaço urbano.
Pode-se dizer que a cidade existe, fundamentalmente, por conta de uma
circulação, de um movimento próprio ocasionado por seus habitantes. Seja por conta do
trabalho, escola ou lazer, as pessoas utilizam os meios de transporte (ônibus, metrôs,
automóveis) para realizarem suas atividades cotidianas e específicas. A circulação,
desse modo, apresenta-se como uma das características marcantes das cidades.
Diariamente, a cidade se realiza através da circulação rápida e contínua de pessoas.
A partir disso, entende-se que as formas de sociabilidade que se processa nesse
espaço de fluxos e deslocamentos dos usuários de transporte público da cidade
apresentam-se como um elemento fundamental para o entendimento dos processos e
dinâmicas urbanas.
Este trabalho faz parte da pesquisa intitulada “Análise de Expressões da
Sociabilidade dos Passageiros de Ônibus em São Luís”, coordenada pelo Profº. Dr. José
Odval Alcântara Jr. que tem como principal objetivo observar, entender e analisar as
formas e os conteúdos da sociabilidade existente entre os passageiros do transporte
coletivo em São Luís/MA. Desse modo, a pesquisa está sendo construída no sentido de
observar e entender de que forma os indivíduos vivenciam este espaço público de
mobilidade urbana.
O foco principal da pesquisa está concentrado na questão do transporte
público, por conta da sua importância fundamental para a realização da cidade. Janice
Caiafa destaca que a necessidade da pesquisa sobre o transporte público não só pelo fato
dele fazer parte do cenário urbano, mas por ser o instrumento que estimula a
heterogeneidade e a mistura, causa uma aventura própria das cidades. (Deleuze apud
Caiafa, 2007)
Para um entendimento mais sistemático e aprofundado sobre as formas de
sociabilidade no contexto do transporte público, é fundamental que seja feito um estudo
e uma análise aprofundada sobre as condições sociais que envolvem a questão do
transporte e da mobilidade urbana. Nesse sentido, é necessário que se faça uma análise
da situação de descaso e precarização que se faz, cotidianamente, presente na cena do
transporte público urbano brasileiro e, especificamente, em São Luís. O entendimento
sobre as condições mais gerais será necessário para a análise das relações sociais que
acontecem entre os passageiros no espaço da mobilidade.
Contextualização do transporte público de São Luís/MA
Com base nos dados do IBGE do ano de 2007, a cidade de São Luís possui
aproximadamente 957.515 habitantes. O único meio de transporte público coletivo é o
ônibus. Segundo o documento “Sistema Integrado de Transporte: Diagnóstico e Análise
das Demandas”, a média da demanda diária é, aproximadamente, 440.000 passageiros.
Quanto ao número de viagens é em torno de 7.835. Ao todo, são 146 linhas que
circulam por toda a cidade e também alguns distritos. Sobre as linhas, deve-se ressaltar
que se dividem entre as que convergem para a zona central da cidade e as que fazem o
transporte dos bairros até os terminais de integração. Ao todo, 23 empresas são
responsáveis pelo serviço de transporte da cidade. Oito delas possuem em sua frota mais
de 50 veículos e 11 possuem menos que 20 veículos. Totalizando 742 ônibus.
A cidade de São Luís possui cinco terminais de integração de ônibus: Praia
Grande, Cohama-Vinhais, Cohab-Cohatrac, São Cristovão e Distrito Industrial. A
escolha do Terminal
de Integração da Praia Grande se deu por conta da grande
quantidade de pessoas que transitam por ele no decorrer do dia e, também, pelo fato de
ser localizado na área do Centro Histórico (zona central) da cidade. O fluxo de pessoas
é intenso durante toda a semana, inclusive nos sábados e domingos, em horários
específicos.
No espaço limitado por cercas e roletas de entrada e saída do Terminal da Praia
Grande, temos um universo de diferentes interações. Observa-se grupos de estudantes
secundaristas, universitários, trabalhadores, desempregados, camelôs, donas-de-casa,
vendedores ambulantes que transitam diariamente por aquele espaço interagindo entre si
e deixando “marcas” no mobiliário do terminal.
Apesar de ser, à primeira vista, considerado simplesmente como um lugar de
passagem, os terminais são espaços, muitas vezes, intermediários entre uma viagem e
outra e, por conta disso, são espaços que misturam e aglutinam vários grupos que
habitam a cidade.
A pouca oferta de transporte, altas tarifas, atendimento de má qualidade,
violência são alguns dos principais problemas que fazem parte do cotidiano das pessoas
que andam de ônibus em São Luís.
Segundo informações publicadas pela Secretaria de Transito e Transporte de
São Luís, mais de 50% da população considera regular o serviço prestado pelas
empresas de transporte.
Figura 1: Avaliação do Serviço Prestado pelas Empresas Operadoras de Ônibus
Ruim
16%
Ótimo
3%
Bom
23%
Regular
58%
Fonte: VERTRAN – Gerenciamento e Controle de Tráfego Ltda., Pesquisa Opinião dos Usuários, São Luís, 2000
O tempo de espera na parada e o longo de tempo de viagem são as principais
reclamações quanto ao desempenho do transporte público coletivo da cidade. Segundo a
pesquisa de opinião feita pela VERTRAN – Gerenciamento e Controle de Tráfego em
2001, 51% dos passageiros esperam mais de 15 minutos pelo ônibus.
Figura 2: Tempo de espera no ponto de parada até que o ônibus passe
40,0%
35,1%
35,0%
30,0%
25,0%
20,5%
23,3%
20,0%
16,8%
15,0%
10,0%
3,7%
5,0%
0,0%
Menos de 05
minutos
05 a 10
minutos
10 a 15
minutos
15 a 20
minutos
mais de 20
minutos
Fonte: VERTRAN – Gerenciamento e Controle de Tráfego Ltda., Pesquisa Opinião dos Usuários, São
Luís, 2000
A violência no espaço do transporte público também se apresenta como um
fator bastante recorrente no cotidiano das viagens de ônibus das cidades brasileiras.
Constantemente, os jornais publicam matérias e notícias sobre essas situações
de tensão e medo. Durante a semana do dia 28 de abril de 2009 até o dia 3 de maio de
2009, o Jornal Aqui Maranhão publicou uma série de matérias intitulada “Alvos da
Violência”. As informações publicadas no decorrer da semana eram sobre as ocorrências
de assaltos que tinham se intensificado e a falta de segurança que amedrontava tanto os
passageiros como os rodoviários no decorrer das viagens.
Segundo algumas informações divulgadas pelo SET - Sindicato das Empresas
de Transporte – e publicadas pelo jornal Aqui Maranhão, no ano de 2008 aconteceram
324 assaltos à ônibus em São Luís e só durante o mês de janeiro de 2009 foram
registrados 9 assaltos.
Fotografias e análise das sociabilidades
No decorrer dessa pesquisa, a fotografia está sendo utilizada como um
elemento que estimula a reflexão sociológica acerca do tema da pesquisa, e não só como
um documento que comprova a “verdade” dos fatos. Sobre a questão da fotografia
como prova da realidade, José de Souza Martins (2008) afirma que acreditar que a
fotografia não contém elementos de fantasia e imaginação é uma das grandes ciladas
que o sociólogo ou antropólogo visual pode cair em nome de uma falsa busca pela
objetividade cientifica.
Quanto à importância da fotografia no contexto da pesquisa sociológica,
destaco que:
[...] a reflexão sociológica sobre a fotografia pode contribuir significativamente para
o conhecimento das limitações dessa forma de documentação e, portanto, demarcar
com segurança o lugar que pode ter na Sociologia. Mais significativamente ainda,
pode contribuir para desvendar aspectos do imaginário social e das mediações nas
relações sociais que de outro modo seriam encarados sociologicamente com maior
déficit de informações. Se a fotografia nada acrescenta à precisão da observação
sociológica, muito acrescenta à indagação sociológica na medida em que a câmera e
a lente permitem ver o que por outros meios não poderia ser visto. Ao mesmo tempo
ela introduz alterações nos processos interativos, na pluralidade de sentidos que há
tanto no lado do fotógrafo quanto no lado do fotografado e do espectador da
fotografia. (Martins, 2008, p.36)
A análise comparativa entre as fotografias é uma etapa fundamental para o
exercício da observação das diferenças e possíveis semelhanças entre as formas de
sociabilidade em diferentes décadas e locais.
FIGURA 3: “O cobrador de ônibus” de Hildelgard Rosenthal
A análise da fotografia (figura 3) intitulada “O cobrador de ônibus” de
Hildelgard Rosenthal (1996), feita na década de 1940 em São Paulo, nos mostra uma
relação amistosa entre cobrador e passageiro. A expressão de alegria e paciência ao lidar
com o passageiro é bastante diferente do que costuma acontecer nos dias atuais nas
grandes cidades. É possível observar que, freqüentemente, temos a figura do cobrador
de ônibus associada à idéia de um sujeito mal humorado, ranzinza e antipático. Além
disso, nota-se que o ônibus está praticamente vazio, possui cadeiras acolchoadas e está
em boas condições de uso.
Dessa forma, se compararmos a situação apresentada por essa fotografia e as
atuais condições do transporte público nas capitais do país, podemos ver, em princípio,
duas descontinuidades. A primeira, como já foi falada anteriormente, a figura do
cobrador que, agora, fica praticamente preso durante todo o percurso da viagem,
fazendo movimentos repetitivos e tendo que lidar com situações de risco e violência
constante. A segunda seria quanto às condições físicas básicas do ônibus. Um das
grandes reclamações dos passageiros é, justamente, o sucateamento do espaço interno
desses veículos. Cadeiras sujas, às vezes até mesmo quebradas e desconfortáveis são
encontradas na maioria dos ônibus que circulam pelas cidades.
Acredito que essa fotografia da Hildelgard Rosenthal é um exemplo do
conceito “momento decisivo” formulado pelo fotógrafo Henri Cartier-Bresson. Nota-se
que essa fotografia é um flagrante das situações cotidianas que aconteciam no espaço da
mobilidade urbana na década de 1940, mas, além disso, a fotografia não pode ser
considerada como simples resultado do acaso registrado pela fotógrafa. O momento
decisivo é justamente o instante que o fotógrafo consegue capturar e que sobrevive à
fugacidade e efemeridade das dinâmicas sociais cotidianas.
[...] Portanto, o fotógrafo que espera do ato fotográfico a foto que sobreviva ao
instante e permaneça densa de sentido e rica de expressão deve munir–se da
paciência para que a composição não cotidiana do cotidiano se desenha subitamente
diante de sua objetiva sem se diluir no seu caráter fugidio e banal e propriamente
cotidiano. (Martins, 2008, p.60-61)
Sendo assim, a fotografia “O cobrador de ônibus”, por ser uma fotografia que
retrata uma circunstância própria do dia-a-dia da vida urbana, na São Paulo de 1940,
possui as qualidades de ser fruto de uma construção estética e espera pelo momento
decisivo do click.
A partir disso, deve-se considerar que a fotografia está presente no contexto
dessa pesquisa de duas formas: primeiramente, enquanto instrumento de pesquisa, ou
seja, como técnica de documentação, juntamente com o caderno de campo para registro
de dados, mas também como objeto de análise. Desse modo, pode-se dizer que a
fotografia é um elemento constitutivo desse texto. Sobre essa questão, destaco que:
As fotos não só podem ajudar na descrição, como podem de fato reconstruir o
“clima” das situações vivenciadas nas cores que elas se apresentam, criar um
ambiente de verossimilhança e por conseguinte de persuasão. As imagens não se
deveriam limitar a “reviver” um estar lá, mas sedimentar os alicerces do caminho da
descrição interpretativa e auxiliar na articulação das tramas da indução, ajudar na
compreensão das interpretações, e não apenas distrair a atenção do leitor entre o
folhear das páginas. (Godolphim, 1995, p.131)
A fotografia, no contexto da pesquisa antropológica e sociológica, não deve ser
entendida enquanto um elemento dado, uma obra aberta (Godolphim, 1995). Ela é o
resultado de um olhar intencionado e treinado do próprio fotógrafo. Por isso a
importância do pesquisador ser o autor de suas imagens. (Peixoto, 2008)
Figura 4 – Movimentação no Terminal de Integração Praia Grande
Essa fotografia (Figura 4) apresenta uma cena que se repete cotidianamente no
Terminal de Integração da Praia Grande. Nota-se um grande fluxo de pessoas circulando
pelo terminal: jovens estudantes, adultos, crianças e rodoviários. Nota-se o movimento e
o fluxo contínuo de passageiros e ônibus.
A sociabilidade que se apresenta é a marcada pelos conteúdos da vida
contemporânea: impessoalidade, inquietude, anonimato etc. Acrescenta-se a isso, a
pressa imposta pela dinâmica das capitais e, especialmente, o barulho de motores dos
ônibus. Todos esses elementos dificultam a interação direta e longa entre os indivíduos
no espaço da mobilidade.
Sendo assim, resta a interação pelo olhar. Já que é nas grandes cidades que os
indivíduos começam a experimentar a situação de ficarem nos trens e ônibus se
olhando, durante horas, mas sem falarem uns com os outros (Simmel apud, Caiafa,
2007, p.107)
Apesar de cenário de individualização e solidão urbana, é possível observar
que, seja dentro dos ônibus, nos terminais ou paradas de ônibus, conversas e olhares
acontecem a todo o momento. As conversas e olhares são ações de interação entre os
indivíduos que envolvem inúmeros conteúdos e formas de sociabilidade. Essas
conversas, muitas vezes, são referentes à questão do transporte coletivo. Algumas vezes
comentários sobre a demora do ônibus resultam em interações mais longas, que acabam
sendo conversas sobre questões particulares referentes à família e trabalho.
Outra situação que ocorre constante, não só nos terminais de ônibus de São
Luís, mas também dentro dos ônibus, é a presença de algum pastor com uma Bíblia na
mão que tenta chamar a atenção dos passageiros para suas crenças religiosas. Na
próxima fotografia (figura 5), por exemplo, o pastor evangélico dirige suas palavras à
fila que espera o ônibus do Campus da UFMA. Ele articula braços e usa o tom alto de
sua voz para chamar atenção das pessoas que estão na fila. As pessoas costumam rir e
comentar sobre o fanatismo dos pastores. Outros ficam, simplesmente, indiferentes.
Figura 5 – Pastor – Terminal de Integração da Praia Grande
Figura 6 – Desembarque no Terminal de Integração da Praia Grande
Nessa fotografia (figura 6), vemos o instante de desembarque de passageiros.
Apesar disso, é possível perceber que várias pessoas aglomeram-se na porta para
embarcar antes mesmo que os outros passageiros acabem de descer do ônibus. A lógica
da fila não se faz presente momento. Crianças, adultos e idosos disputam o melhor lugar
independente de sua posição anterior na fila. Desse modo, pode-se afirmar que a fila
não acontece enquanto um sistema de organização legítimo para os passageiros.
As viagens em que as pessoas vão em pé e amontoadas são situações
constantes do transporte público em São Luís. Se acrescentarmos a isso o período longo
de espera, temos os componentes que, em certo grau, estimulam e potencializam essas
situações de sociabilidade em que uns estão contra outros com o objetivo de alcançar
determinado objetivo, ou seja, conseguir um lugar para se acomodar durante a viagem.
As fotografias nos mostram indícios de que as condições ruins do transporte
público não somente influenciam como chegam a determinar as formas de sociabilidade
dos passageiros. Em situações como estas, a relação de uns contra outros é bastante
significativa para entendermos um pouco mais sobre as dinâmicas urbanas. Todos
querem viajar sentados, por isso, são capazes de furar filas e até mesmo dificultar o
desembarque de outros.
Considerações finais
É importante destacar que a infinidade de formas de sociabilidades que
acontecem nos espaços de mobilidade urbana é um elemento estimulante para a
realização da pesquisa. O Terminal de Integração da Praia Grande é um lugar de fluxo
de desconhecidos, mas também um lugar de encontro de trajetórias e contextos sociais
diversos. A interação social entre esses indivíduos acontece nesse espaço que é de
intercâmbio com diversos bairros da cidade e, a partir disso, para diferentes estilos de
vida.
Esses desconhecidos com quem cruzamos na rua ou que encontramos no ônibus – os
estranhos que não podemos localizar muito bem, ao contrário das figuras conhecidas
dos meios familiares – nos fazem vislumbrar a possibilidade de outras experiências,
outras vidas diferentes da nossa: outros mundos. (Caiafa, 2007, p.92)
A intensa precarização do sistema de transporte coletivo, não acarreta,
simplesmente, a privatização do serviço, mas também influencia, diretamente, as formas
de sociabilidades entre os passageiros. As ocorrências de assaltos, barulho dos motores,
lotação dos ônibus provocam uma situação de isolamento e, consequentemente, solidão.
Os olhares e as conversas também são influenciados pelo contexto social da
mobilidade, tanto na forma quanto no seu conteúdo.
Nesse contexto, a utilização da fotografia feita no contexto do trabalho de
campo apresenta-se como uma necessidade não só de registro de situações e momentos
da pesquisa, mas, principalmente, pelo fato de conter o indizível (Barbosa, 2008), o que
o texto etnográfico não pode expressar.
O aprofundamento do estudo sobre as inúmeras formas de sociabilidades
urbana através da análise de fotografias tem sido uma atividade bastante interessante no
decorrer da pesquisa. Através da produção e análise de fotografias é possível observar
as inúmeras formas de interações sociais e de como os atores sociais se (re) apropriam
do espaço urbano.
A produção e análise das fotografias no Terminal da Praia Grande e a
comparação com outras fotografias feitas em lugares e épocas diferentes é interessante
em dois sentidos: o de ver as mudanças e aspectos diferentes que envolvem os dois
momentos e o de ver as semelhanças e continuidades. A observação das expressões,
detalhes, gestos e intenções contidas na fotografia torna-se um exercício interessante e
bastante produtivo para um melhor entendimento sobre as sociabilidades que acontecem
num determinado espaço.
REFERÊNCIAS
Documentos:
IBGE, População residente, em 1º de abril de 2007, Publicação Completa. Acessado
em 20 de abril de 2009.
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/contagem2007/contagem.pdf
São Luís, Sistema Integrado de Transporte: Diagnóstico e Análise das Demandas,
Secretaria de Trânsito e Transporte de São Luís, São Luís: VETRAN, 2001.
Livros:
ALCÂNTARA JR., José. Georg Simmel e a sociabilidade. IN: Georg Simmel e as
sociabilidades do moderno: uma introdução, (Org.) João Carlos Tedesco, Passo
Fundo, RS: Ed. Universidade de Passo Fundo, 2006, págs.188 - 198 .
BARBOSA, Andréa. A força do silêncio: significados e sentidos em imagens e textos.
IN: Anais 26ª Reunião Brasileira de Antropologia – cd virtual. Porto Seguro/BA.
2008.
CAIAFA, Janice. Aventura das Cidades: ensaios e etnografias. Riode Janeiro: Editora
FGV. 2007.
CAIAFA, Janice. Jornadas Urbanas: Exclusão, trabalho e subjetividade nas viagens
de ônibus na cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002.
GODOLPHIM, Nuno. A fotografia como recurso narrativo: problemas sobre a
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Antropológicos. Ano 1. Nº 2. Porto Alegre/RS: UFRGS. 1995.
MAGNANI, J. Guilherme. "De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana".
IN: Revista Brasileira de Ciências Sociais, 17 (49), jun., São Paulo. 2002.
MARTINS, José de Souza. Sociologia da Fotografia e da Imagem. São Paulo:
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MORAES FILHO, Evaristo de (org.). George Simmel: sociologia. São Paulo: Ática,
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PEIXOTO, Clarice Ehlers. Antropologia audiovisual: sobre o fabricante de imagens.
IN: Anais 26ª Reunião Brasileira de Antropologia – cd virtual. Porto Seguro/BA.
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ROSENTHAL, Hildelgard. Cenas Urbanas. São Paulo: Instituto Moreira Salles. 1996
Jornais:
Alvos da Violência. Jornal Aqui Maranhão. São Luís. 28/04/2009-03/04/2009. p.4.
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