ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Produção de Discurso Crítico sobre Dança– Julho/2012 INTÉRPRETE-CRIADOR NA DANÇA CONTEMPORÂNEA: UM CORPO POLISSÊMICO E CO-AUTOR Alexandre Ferreira (DANÇA/FEF/UFG) Alexandre Ferreira, docente e pesquisador do curso de Dança da UFG, mestre em Biologia Celular e Estrutural com área de concentração em Anatomia (IB/Unicamp), doutorando em Artes da Cena (IA/Unicamp). Iniciou-se na Dança com Henrique Rodovalho (Quasar/Go), atuou como intérprete-criador e assistente de direção na Cia. Domínio Público (Campinas/SP). E-mail: [email protected] Resumo O texto a seguir traz uma reflexão sobre a condição do intérprete-criador na Dança Contemporânea a partir de uma viagem histórica que serve como base para discorrer sobre o caminho percorrido por este artista da cena de bailarino até intérprete-criador. O texto é dividido em três momentos: balé clássico romântico, dança moderna e dança contemporânea, trazendo uma breve discussão sobre a condição deste artista dentro de cada período. A construção do texto não é aleatória, mas pensada de forma didática para que sirva de suporte para discussões sobre o tema. Palavras-chave: Intérprete-criador, Bailarino, Dança . ARTIST-CREATOR IN CONTEMPORARY DANCE: A POLYSEMIC BODY AND CO-AUTHOR Abstract The following text presents a reflection on the condition of the artist-creator in Contemporary Dance from a historical journey that serves as a basis to discuss the path taken by this artist in the scene as a dancer to artist-creator. The text is divided into three periods: romantic classical ballet, modern dance and contemporary dance, bringing a brief discussion about the condition of the artist within each period. The construction of the text is not random, but thought a didactic manner to serve as support for discussions on the subject. Keywords: Artist-creator; Dancer; Dance Considerações Iniciais Sendo docente do curso de Dança da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutorando em Artes da Cena pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) tenho a oportunidade de estabelecer diálogos com vários estudantes e profissionais tanto da graduação quanto da pós. Dentro destas discussões me foi levantada, na turma de graduação em Dança da UFG, a questão do http://portalanda.org.br/index.php/anais 1 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Produção de Discurso Crítico sobre Dança– Julho/2012 bailarino e intérprete-criador, quais eram as aproximações e diferenças, pois os discentes não compreendiam bem estes termos e como se dava a mudança, não somente do termo, mas naquilo que era exigido em corporalidade. Pensando nisto, resolvi escrever um texto como suporte pedagógico para ampliação das discussões, possibilitando um panorama inicial para que a questão pudesse se desenrolar em reflexões mais aprofundadas. Tal artigo é apresentado abaixo. O Caminho Percorrido: uma visão panorâmica Escrever sobre o intérprete-criador na Dança Contemporânea é permitir um passeio por um processo histórico que permeia diversas construções de pensamentos, estéticas, filosofias e modos de atuação deste artista da cena. A mudança de bailarino até intérprete-criador não está somente na grafia, mas na relação que se estabelece nestas palavras frente aos seus Tempos (Tempo é escrito com inicial maiúscula por se referir aos períodos históricos), pois a Dança está ligada diretamente a organização da sociedade, refletindo seus desejos. Percebe-se, então, referir ao intérprete-criador em seu contexto atual é permitir uma viagem “ontológica criacional”, ou seja, tratando de olhar para aquele que dança a partir da sua própria evolução, por isto ontológico, ao longo do Tempo e de como lhe foi solicitado mudanças dentro do contexto da criação em Dança, causando-lhe não só alterações na denominação, mas também, exigências de posicionamento e de atitude corpórea, de busca de um corpo cênico participativo e atuante diante dos processos de criação na atualidade. Portanto, podemos traçar uma visão panorâmica para compreender o agora, e de forma didática distribuir essa viagem em três momentos que são distintos, porém, não excludentes, momentos que são complementares para que a estrada fosse construída. Devemos deixar claro que esse passeio histórico não é o eixo central da discussão, mas serve como base situacional para referenciar o caminho percorrido pelo bailarino até o intérprete-criador. Primeiro momento: o bailarino no contexto da Dança Clássica Romântica. Pensar especificamente na Dança Clássica Romântica é situar-se entre os séculos XVIII e XIX, período em que surge a “cultura do balé clássico”, ou seja, as padronizações referentes à técnica do balé clássico que construíram um corpo ou http://portalanda.org.br/index.php/anais 2 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Produção de Discurso Crítico sobre Dança– Julho/2012 exigiram deste, papéis bem definidos. De uma bailarina fazia-se necessário um corpo longilíneo, leve, quase emoldurado por um nevoa etérea a qual reluzia uma figura além do ser humano quando dançava (chamamos atenção aqui, mais como um momento de reflexão do que de aprofundamento, para a permanência desse pensamento na grande maioria das Escolas e Cursos Livres de Balé Clássico presente de forma irrefutável ainda no século XXI. Por que será?). Para o homem, via-se um ser dotado de força para carregar e manejar a bailarina pelo palco, enaltecendo mais ainda a sua posição de ser etéreo. Alguns autores, como Bourcier (2001) e Garaudy (1980) fazem um aprofundamento histórico desse momento em suas publicações, trazendo dados que dão suporte ao que foi descrito anteriormente. Mas o que era exigido do bailarino enquanto intérprete dos grand scène du ballet romantique? Segundo Bourcier (2001) o bailarino(a) era mero reprodutor e executor dos passos dados pelo mestre de balé, ou seja, aquele que coreografava os repertórios. Pode-se dizer que então não havia demonstração de individualidade de cada bailarino? Não, senão não teríamos diversos nomes e com eles referidos adjetivos a suas performances (ex. Marie Taglioni, Carlotta Grissi etc),visto que os balés eram montados para as tais divas românticas. Mas o que se tem é um tempero sutil dos bailarinos sobre uma partitura, por vezes, enrijecida criada pelos mestres. Os bailarinos eram fontes de inspiração, ficando para estes o valor performático (no sentido etimológico de sua grafia que vem do inglês to perform, significando alcançar, executar, derivado do francês antigo parfourmer, cumprir, acabar, concluir e que, por sua vez vem do latim formáre, formar, dar forma (HOUAISS e VILLAR, 2001), ou seja, lhe caberia cumprir e concluir de forma esplêndida a obra que lhe era proposta e, para os mestres a glória da criação lhes eram dada). A obra era bem definida, com narrativas lineares, todas as inferências sobre o trabalho partiam dos coreógrafos, cabendo aos bailarinos executarem os arranjos corporais. Percebe-se, desta forma, que os bailarinos estavam ancorados em uma corporalidade, ou seja, um corpo cênico votado para o fazer estruturado em partituras de movimentos e intenções determinados pelos mestres. No entanto, não era desprovido de beleza interpretativa, de construção de personagens, no entanto, as ações cênicas se davam em uma ambientação fabulosa, de enredo espetacular que era permeado por sílfides, fadas, príncipes, princesas, amores sofríveis e tragédias romanescas. http://portalanda.org.br/index.php/anais 3 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Produção de Discurso Crítico sobre Dança– Julho/2012 Segundo momento: o bailarino no contexto da Dança Moderna. Início do século XX surge paralelamente nos Estados Unidos e na Europa artistas insatisfeitos com a superficialidade e imposição de movimentos rígidos impostos aos corpos dos bailarinos pelo modelo do balé clássico. No entanto, devemos discordar um pouco da história em relação à falta de expressão das obras dos balés clássicos, pois se pegarmos fotos das obras e dos bailarinos deste período, percebe-se a riqueza de expressão corporal, inclusive facial dos artistas. O que se pode dizer é que aquele padrão não cabia mais nos anseios de uma nova classe artística, em um período que o ser humano estava preocupado e questionava a organização de sua sociedade, vivia suas angustias e devaneios urbanos e não mais aqueles ligados às monarquias. Tal insatisfação culminou em um movimento de busca de novos, ou melhor, diferentes caminhos para se dançar, instaurando um período histórico chamando Dança Moderna, que teve seu início com Isadora Ducan (USA) Mary Wigman (Alemanha). Estas buscas culminaram em novos estilos de Dança com novas técnicas e processos de criação. Houve um deslocamento do favorecimento dos membros para a região do tronco (no que tange as questões corporais) concomitante com um olhar do artista para seu próprio tempo político-social-econômico, como se pode ver nos trabalhos de Martan Grahan e Doris Humphrey, por exemplo. Neste período os bailarinos experimentam várias técnicas corporais tanto do ocidente (como no caso da continuidade do balé clássico como parte integrante deste aprendizado, o delsartismo, sistema Laban, dentre outros) como do oriente (danças sagradas indianas, egípcias...). Percebe-se o início de um “corpo polissêmico”, ou seja, que vai beber em várias fontes, mas ainda fortemente ligado a uma hierarquização vertical, preso a padrões de castas, submetidos ainda a um corpo de baile e os primeiros bailarinos. Mas o que era exigido do bailarino enquanto intérprete das obras dos coreógrafos modernos? Apesar dos diferentes caminhos tomados pelos artistas dessa época, ainda se percebe que presentifica a relação hierárquica vertical dos coreógrafos em relação aos bailarinos. Os coreógrafos, nessa época segundo relatos de Cavrell (que atuou em espetáculos na Cia. de Marta Graham, dançou com outros grandes nomes da Dança Moderna e hoje é professora e pesquisadora do Departamento de Artes Corporais da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo, Brasil), retiravam dos http://portalanda.org.br/index.php/anais 4 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Produção de Discurso Crítico sobre Dança– Julho/2012 bailarinos movimentos e sequências, porém, sempre estava presente a égide do primeiro. O bailarino não podia questionar e não fazia parte do processo de criação (mesmo que o fizesse), ele era uma fonte no qual o coreógrafo podia beber, mas jamais o colocaria no status de criador, de participante e articulador ativo no processo de criação. Terceiro momento: do bailarino para o intérprete-criador, um corpo polissêmico e co-autor Meados da década de 50, Merce Cunningham dá uma reviravolta nos moldes modernos da Dança, abrindo caminho para o movimento pós-moderno na Dança, que por volta dos anos 80 passa a ser denominado de Dança Contemporânea. Este conceito engloba em si as técnicas tradicionais (balé clássico, jazz, moderno) associadas a outras técnicas que extrapolam o mundo da Dança, tais como as lutas, o esporte, as técnicas corporais orientais, a dança-teatro, deixando as obras dançadas apresentar-se em híbridos cênicos, em interates 1. Tal concepção firmou-se em diversos lugares como um movimento comum 2 que mantinha certas particularidades inerentes à organização social, política e cultural de cada região, por exemplo, a New Dance na Holanda, Danse d’Auteur e Nouvelle Danse nos países de língua francesa, Nova Dança no Brasil e Portugual (LEPECKI, 1998). Dessa forma, o cenário emergente é de uma Dança que tenta, e consegue extrapolar as fronteiras do tradicional e mistura as diversas linguagens, como cita Dantas (2005) “a partir dos anos 90 houve a diluição das fronteiras entre disciplinas artísticas como o teatro, a dança, a performance, as artes visuais, as artes midiáticas, o cinema, o vídeo e a música”. O bailarino continua a beber em várias fontes, porém as fronteiras entre as artes se tornam mais rarefeitas, permitindo que este não só mergulhasse na prática e estudos de outras técnicas corporais como também de outras áreas da arte, tais como música, teatro, artes visuais. O processo de hierarquização se desloca da vertical para a horizontal, onde os coreógrafos passam a dialogar com o bailarino e a dar voz para 1 Entende-se por interartes não apenas o uso de outras áreas das artes associadas à Dança, mas a diluição de suas fronteiras, estabelecendo porosidades de relações que se afetam na produção de obras híbridas, onde o corpo torna-se extensão para outras esferas do fazer artístico, bem como, o movimento corporal se associa a outros componentes cênicos para apresentar uma obra que não mais é Dança, nem Teatro, nem Música, nem Artes Visuais, mas uma conjunto que se desterritorializa e se recombina no âmbito das Artes da Cena. 2 Entende-se como movimento comum uma circulação de ideias compartilhadas por diversos indivíduos e/ou grupos. http://portalanda.org.br/index.php/anais 5 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Produção de Discurso Crítico sobre Dança– Julho/2012 sua criação. Dessa forma, já não cabe mais a denominação bailarino e outra surge, intérprete-criador, como possibilidade de abarcar este sujeito que não mais é um executor, mas um que dialoga com a criação nos mais diversos níveis, passa a ser participante na construção cênica, interferindo de forma direta no processo criativo exigido pelo coreógrafo/diretor, ou seja, atinge um status do co-criador, tornando-se “pesquisador-intérprete” (RODRIGUES, 1997). Mas o que é exigido do intérpretecriador na Dança Contemporânea? As relações dentro dos processos de criação mudaram, deixaram de ser menos enrijecidas tornado-se mais porosas e rizomáticas (tomo emprestado esse termo de Deleuze e Guatarri (1995), ao me referir que o processo de criação é um entremeado de acontecimentos que parte tanto do coreógrafo/diretor quanto do intérprete-criador, num jogo múltiplo de perguntas e respostas que de repente emerge o que se é pedido dentro do processo de criação como um tubérculo brotando da terra para respirar o ar do mundo). Tratamos, também, de expandir o conceito de processo de criação para qualquer momento de ação ou trabalho do artista, visto que todas as situações lhe permitem se colocar em xeque, em construir-descontruir para novamente construir-se corporalmente em novos comportamentos que lhe ficarão armazenados em sua biblioteca corporal. Sob este ponto de vista, aquele que dança não mais tem a Dança, mas é a própria porque torna-se disponível para o processo de criação dentro de uma parceria entre aquele que propõe o trabalho (coreógrafo, diretor, regente de cena) e aqueles que propõem caminhos (coreógrafo/diretor/regente de cena e intérprete-criadores). As técnicas apreendidas podem ser utilizadas dentro dos processos de criação não mais como um caminho mecanicista, mas no sentido etimológico desta palavra de origem grega (techne), que significa ofício, habilidade, arte, como escreve Chauí (apud DANTAS, p. 30. Técnica para os gregos é um saber prático obtido empiricamente e realizado por habilidade, referindo-se a toda atividade humana realizada de acordo com regras que ordenam a experiência e exigem grande capacidade de observação, memória e senso de oportunidade. Desta forma, [...] a técnica opera com formas visíveis (eîdos) que são descobertas ou trazidas à existência como uma potencialidade da matéria (dýnamis) ou da Natureza; o artesão dá forma (produz um eîdos) porque conhece a http://portalanda.org.br/index.php/anais 6 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Produção de Discurso Crítico sobre Dança– Julho/2012 matéria e conhece as formas (os eîde) que são adequados a cada matéria. (CHAUÍ, 1994, p. 117) Portanto, o intérprete-criador toma para si a arte do fazer pelo corpo através das técnicas corporais como agente modificador de si mesmo, criador das suas próprias releituras corporais sobre os conhecimentos que a eles chegam por diversas vias (sonora, imagética, textual, visual e até mesmo corporal etc), ou seja, este artista se coloca em um processo de construção cênica que tem diante de si vários elos que irão criar uma corrente de interpretação entre o processo, a cena e o espetáculo, recolocando-se sempre em um estado catártico cinestésico-sensorial que o fará se reconstruir em poéticas que serão alimentadas pelo próprio fazer do intérprete-criador, bem como, alimentaram também o fazer deste. Estabelecendo assim, um mútuo afetar que colocará este artista da cena “em relações potencializadas de retroalimentação de um afetar e ser afetado” (FERRACINI, 2010, p. 1), gerando uma zona de ínterins onde se localizam as potencias, ou seja, é um espaço virtual que contem os desejos em latência e que será acessado a qualquer instante para se materializar em movimentoexpressão, deixando a virtualidade e estabelecendo o que Gil (2009, p. 99) chama de “nuvem: uma concreção de sentido que surge numa atmosfera”. O movimento das nuvens altera as formas por surgimento e aparição, com se uma figura, um contorno, uma linha, uma crista viesse completar o que resta do desaparecimento dos traços anteriores – como se uma figura invisível virtual se atualizasse no prolongamento das que olhávamos e lá não mais estão. (idem, p. 100) Isto é, a nuvem é o espaço de mutabilidade, de [re]ligares nos quais permitem a simbiose entre o intérprete-criador e os outros corpos que compartilham o processo, estabelecendo movimentos de articulação e não de sobreposição. Imbricado ao laboro técnico vem à busca por estabelecer a manifestação de poéticas corporais, que se fazem como foco de pesquisa de vários artistas e até de programas de pós-graduação como, por exemplo, o do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, Artes da Cena, que traz em suas linhas de pesquisas questões relacionadas às Técnicas e Poéticas tanto do artista quanto da cena. Tomo por poética também em seu sentido etimológico: produzir, criar, compor (CUNHA, 2010), ou seja, compor com resultados, com intencionalidades, com um saber que não é somente apresentado, mas apreendido e resignificado criativamente durante o próprio processo. Isso vem se refletir em um intérprete-criador na Dança http://portalanda.org.br/index.php/anais 7 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Produção de Discurso Crítico sobre Dança– Julho/2012 Contemporânea capaz de fazer-se corporalmente em movimentos recheados de coloridos, ou seja, de substancializações psico-físicas que vão desembocar em uma dramaturgia de corpo e de intérprete na Dança e nas Artes da Cena em geral. O corpo desse artista da cena se torna um corpo disponível que de acordo com Dantas (1999, p. 104) se faz “numa capacidade do corpo de apreender, acrescentar e acumular técnicas e conhecimentos, o que pode estimular as imbricações e desdobramentos dos códigos de movimentos inscritos nos corpos”, pois sai de uma posição de executor, passa de um agente coadjuvante para um sujeito que compõem e gera a própria obra já que sua atuação torna-se reconhecida como artífice do processo e, consequentemente, da obra. Esta mudança de paradigma faz com que o intérpretecriador abandone o corpo reprodutor para torna-se um corpo encarnado (MERLEAUPONTY, 2006, p. 269), ou seja, “corpo sujeito de uma existência a que está indissoluvelmente ligado, envolvido pelo mundo circundante em que está inserido no interior das coisas e essas se tornam para ele “coisas mesmas”” já que a obra não mais é um local em que ele chega e se coloca como peça, mas é ele próprio a existência em pensamento-ação, concepção e produto. O que o torna co-autor dentro dos processos de criação, parceiro de si mesmo em sua própria atualização e dos outros na permuta, no escambo de suas experiências, de seus caminhos gerados a partir dos atravessamentos surgidos a partir do momento em que o artista se coloca como criador. Outra questão que se faz interessante de vislumbrar é a relação entre intérpretecriador e os protocolos de criação que artistas e pesquisadores da e na Dança Contemporânea tentam delinear na construção de seus trabalhos. Tomamos aqui a definição de protocolo dada por Tourinho (2009, p. 93) em sua tese de doutoramento: Em sentido restrito, a palavra protocolo significa algo que se pré-dispõe a pôr algo pronto a ser utilizado através de recursos a ele atribuídos. É a padronização de leis e procedimentos que são dispostos à execução de uma determinada tarefa. Todas as áreas do conhecimento possuem seus protocolos, que são diversos entre si, de acordo com cada procedimento. As dramaturgias com caráter de processo parecem ser um tipo de modo de fazer dramaturgia que se propõe a elaborar uma obra cênica através de recursos atribuídos ao processo de criação. Ou ainda, parece ser a padronização de leis e procedimentos dispostos à execução de uma determinada tarefa artística, espetáculo. http://portalanda.org.br/index.php/anais 8 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Produção de Discurso Crítico sobre Dança– Julho/2012 Dessa forma, tais protocolos não vêm como uma caixa hermeticamente fechada, mas como uma estrutura que permite aos envolvidos navegar com segurança durante o processo de criação, gerando uma rede de possibilidades superpostas no qual tanto o olhar do coreógrafo/regente de cena/diretor quanto do intérprete-criador estão atentos ao fazer, como pode ser percebido num processo de trabalho de um artesão ao moldar a argila que busca o feitio do vaso, mas não perde as nuances imbricadas no fazer sensível do contato existente entre suas mãos e tal substrato, permitindo o fazer se transpor para a esfera da experiência-existencializada. Donde existencializada nos é dado pela resultante da condição ou estado de abertura para a experiência. Essa abertura pode ser vivida, em primeiro lugar, como uma afetividade, em segundo, como compreensão e, em terceiro, como expressão. Heidegger chamou estes três aspectos de Existenciálias. (MARTINS e BICUDO, 1983, p. 35). Então, trazemos este binômio experiência-existencializada como um processo dentro dos processos de criação, onde esse é vivido pelo intérprete-criador a partir dos estímulos sugeridos pelos protocolos, trazendo a tona um corpo que se in-corpora e resignifica os movimentos em presença cênica, ou seja, polissêmico em atuações e imbricado de desejos expostos na condição cênica, sublimação do constante ato de criação mesmo quando este já parece ter chegado ao fim com a finalização da estrutura espetacular. Esse tornar-se sensível ao processo a partir dos caminhos sugeridos pelos protocolos criados permitindo que a propriedade da obra seja disseminada reafirmando mais uma vez a existência das co-autorias no diálogo intenso entre os intérpretes-criadores e os coreógrafos/regentes de cena/diretores. Como conclusão do aqui discutido, mas não como fim das inquietações sobre o assunto, percebemos que o caminho percorrido pelo bailarino até o do intérprete-criador está imbricado de afetações em que se estabelece relações dialéticas existentes entre o mundo a que se está inserido e esse mesmo mundo vivido pelo artista, o que o torna hoje, fazedor da cena dançada. Atuante, modificador, gerador e estruturador dos processos de criação e do seu diálogo com a obra produzida, bem como corporalidade que se âncora em um corpo polissêmico que é capaz de perceberse e mutabilizar-se de potencias para expressões, de percorrer o caminho do virtual para a materialidade que tende a uma magnitude de ser pleno no fazer, no criar,no compor, no gerir-se enquanto ser-no-mundo (da cena). http://portalanda.org.br/index.php/anais 9 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Produção de Discurso Crítico sobre Dança– Julho/2012 Referências BOURCIER, P. História da Dança no Ocidente. São Paulo: Martins Editora, 2001. CHAUÍ, M. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Brasiliense. v. 1. 1994. CUNHA, A. G. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Editora Lexicon. 2010 DANTAS, M. O Enigma do Movimento. Editora da Universidade. 1999. __________. 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