A CONSTRUÇÃO DISCURSIVA E IMAGÉTICA NO JORNAL
ÚLTIMA HORA: A REPRESENTAÇÃO DISCURSIVA DO EXPRESIDENTE PARAGUAIO FERNANDO LUGO NO DIA DE SEU
IMPEACHMENT
DISCURSIVE CONSTRUCTION IN ULTIMA HORA JOURNAL: DISCURSIVE
REPRESENTATION OF FORMER PRESIDENT OF PARAGUAY FERNANDO
LUGO IN THE DAY OF HIS IMPEACHMENT
Maria Liz Benitez Ameida
Autora do artigo. Aluna especial do curso de graduação em Comunicação Social pela UFSM, CESNORS,
aluna do curso de graduação em Letras pela UFSC.
Lara Nasi
Orientadora do artigo. Professora substituta do Departamento de Ciências da Comunicação da UFSM,
CESNORS. Mestra em Ciências da Comunicação pela Unisinos Integrante do grupo de pesquisa Resto –
Laboratório de Práticas Jornalísticas
Resumo
O intuito deste trabalho é realizar uma análise do discurso do jornal paraguiao Última
Hora no processo de representação da imagem do ex-presidente do Paraguai, Fernando
Lugo, quando de sua deposição, em 2012. O corpus está delimitado à capa da edição do
dia 22 de junho, dia do juízo político que depôs Lugo. Este fato teve repercussões internas
e externas para o país vizinho. Internas porque o processo de impeachment constituiu-se
na primeira deposição judicial de um presidente paraguaio. Externas, porque o Paraguai
foi suspenso do Mercosul e da Unasul pelos seus parceiros regionais. O processo gerou
divergências, com setores sociais considerando que se deu no marco da legalidade, ao
passo que outros acusavam que estava em curso um golpe de Estado. Diante deste cenário
polarizado, neste trabalho, realizamos uma análise da representação discursiva e
imagética da capa do jornal Última Hora no dia da deposição de Lugo. O artigo tem como
fundamentos teórico-metodológicos a análise de discursos, a partir de elementos da
semiologia dos discursos e da Análise do Discurso francesa. De acordo a Orlandi (2013),
a língua encontra-se atrelada à ideologia, à história e ao sujeito. A autora sustenta que o
indivíduo é inserido numa sociedade em que os dizeres já estão estabelecidos e que o
sujeito encontra-se condicionado pelo contexto sociocultural e sócio-histórico. A partir
desses pressupostos teóricos, nos deparamos com vários efeitos de sentido no corpus em
análise. O conteúdo discursivo e imagético representa um presidente “irracional” e
“incompetente” para governar o país. Na capa, vemos emergir vários elementos históricos
do Paraguai, como a luta pela terra e a deslegitimização dos camponeses que reivindicam
reforma agrária. Emergem sentidos pejorativos aos movimentos camponeses. A
“periculosidade” característica dos camponeses, que é construída por meio do discurso,
alcança por metonímia o presidente do Estado. Ao realizar uma análise da imagem, nos
deparamos com uma espécie de premonição representada no jornal, pois o juízo político
ainda não tinha iniciado, porém, a cadeira presidencial já se encontrava vazia.
Palavras-chave: discurso, análise do discurso, Fernando Lugo, Última Hora
In this essay, our purpose is to analyze the discourse of Paraguayan journal Última Hora
in the process of representing the image of former president of Paraguay Fernando Lugo,
in the day of his deposition, in 2012. Corpus is composed by the newspaper’s front page
on June 22th, the day of the political judgment that took Lugo out of the office. The fact
had internal and external repercussions. Internal one is referred to the fact that
impeachment process was the first one in the history of the country. External ones because
Paraguay’s membership in Mercorsur and Union of South American Nations was
suspended by regional partners. The process generated divergences, with social sectors
considering it was a legal action, while other ones accused a coup d'etat was happening.
Considering this scenario, we propose to analyze the discursive representation Ultima
Hora newspaper has made about Lugo’s figure in the day of his impeachment.
Theoretical-methodological fundaments of the essay are discourse analysis, considering
mainly French Discourse analysis and Semiology. According to Orlandi (2013), language
is linked to ideology, history and the subject. The referred author sustains the individual
is inserted in a society in which the sayings are already stablished and the subject is
conditioned by sociocultural and sociohistorical contexts. From these theoretical
assumptions, we find several meaning effects in the analysis. Content, referring to
discourse and also to the image, represents a president that is “irrational” and
“incompetent” to govern the country. On the front page, we encounter several historical
elements of Paraguay, such as the struggle for land (characterized by the delegitimation
of peasants who claim land reform). Pejorative senses related to peasants movements
emerge from the text. Dangerousness assigned to them by discourse, reaches, by
metonymy, the president, who supports the movements. When the focus is the image of
the front page, we observe a kind of “premonition”: while the impeachment had not
started yet, presidential chair was already empty on the newspaper.
Keywords: Discourse; Discourse Analysis; Fernando Lugo; Ultima Hora
1. Introdução
Neste trabalho realiza-se uma análise exploratória da capa de um jornal impresso
paraguaio, Última Hora, edição do dia 22 de junho do ano 2012. Nessa mesma data
iniciou-se o processo de Impeachment que depôs o ex-presidente da República do
Paraguai, Fernando Lugo Méndez.
Considerando que a capa de um jornal é composta de imagem e texto, busca-se
amparo teórico e metodológico na análise de discursos1 para entender de que maneira o
discurso produz efeitos de sentidos (ORLANDI, 2013). Eni Orlandi (2013, p. 47) sustenta
que o sentido é “uma relação determinada do sujeito – afetado pela língua – com a
história” e continua afirmando que é por meio da interpretação que se pode evidenciar
esta relação entre o sujeito com a língua, com a história e os sentidos. O que se buscará
nesse trabalho é desvelar os sentidos produzidos pela capa do jornal nesse dia de
emblemática importância política, jurídica e histórica para o Paraguai.
2. Breves apontamentos sobre o corpus e o juízo político
A capa em análise é do jornal Última Hora, que se constitui num dos jornais de
maior circulação em âmbito nacional no Paraguai. O meio iniciou suas atividades durante
a ditadura stronista2, no ano de 1973, como um jornal vespertino sob o nome La Tarde,
posteriormente adotou o nome Última Hora (BOSIO, 2008). Hoje, o jornal faz parte de
um conglomerado empresarial denominado Grupo Verci. Esse grupo empresarial reúne
outros meios de comunicação como o canal de televisão aberto Canal 4 Telefuturo,
televisão a cabo Canal 11 La tele, rádio FM La Estación e rádio FM Radio Urbana
(SEGOVIA, 2010).
O fato de o jornal Última Hora pertencer ao conglomerado Vierci é relevante para
a presente análise porque é uma prática recorrente que, nos programas jornalísticos
televisivos e radiofônicos, sejam projetadas as principais manchetes do jornal impresso,
com direito a comentários e observações das bancadas. Assim, as notícias de Última Hora
ganham destaque nos programas de televisão do canal Telefuturo e nos programas das
rádios La Estación e Radio Urbana. Desse modo, apresenta-se como dificuldade
metodológica a classificação do enunciatário do jornal Última Hora, pois não apenas os
leitores (assinantes e compradores de avulsos) são os destinatários da mensagem do
1
Christa Berger (1998), ao propor um trabalho de análise do discurso que considera não apenas a AD
Francesa, escolhe, assim como outros autores, trabalhar com o termo no plural: “análise de discursos”. É
neste sentido que aqui também nos referimos à análise no plural. Consideramos a tradição francesa, mas
buscamos elementos para este trabalho também na semiologia dos discursos.
2
O general Alfredo Stroessner do Partido Colorado tomou a liderança do Paraguai no ano de 1954. Dirigiu
o país sob uma ditadura militar até o golpe de Estado que o derrocou em fevereiro de 1989; esse golpe foi
orquestrado por membros do próprio partido (LÓPEZ, 2010).
jornal, já que a mensagem chega a um público difuso, consumidor dos diversos produtos
oferecidos pelo Grupo Vierci.
Quanto à tiragem do jornal Última Hora, os dados são imprecisos. Perante a
ausência de dados oficiais, sites como E’A Pediódico de Análisis e interpretaciones e
Paraguay Global sustentam que a tiragem diária do jornal gira em torno de 15.000 a
25.000 exemplares3.
O recorte temporal que delimita o corpus de estudo corresponde ao dia 22 de junho
de 2012, porque foi nesse dia que ocorreria a decisão do processo de Impeachment do
presidente Fernando Lugo.
A escolha do tema se justifica porque a vitória de Fernando Lugo, em abril de
2008, se constituiu na ruptura da hegemonia do Partido Colorado – Asociación Nacional
Republicana (ANR) – que esteve no comando do Paraguai durante 61 anos, inclusive
durante os 35 anos da ditadura militar de Alfredo Stroessner. Após o golpe de Estado de
1989, que derrocou o então ditador, assume a presidência Andrés Rodriguez. A partir
desse período se inicia o que José Morínigo (2002) denomina de “transição circular”,
pois, embora haja o processo de abertura democrática e alternância de governantes, por
meio de eleições democráticas, esses governantes se mantiveram vinculados ao Partido
Colorado. A “alternância de poder” se deu entre membros do mesmo partido. Desse
modo, o Estado se manteve atrelado ao Partido Colorado até a chegada de Fernando Lugo
à Presidência da República.
Fernando Lugo iniciou sua campanha aliado a outro partido tradicional e principal
opositor do Partido Colorado, o Partido Liberal Radical Auténtico (PLRA). Assim, Lugo
e Federico Franco (PLRA), seu vice, iniciaram a campanha sob o movimento Alianza
Patriotica para el Cambio (APC). Esse movimento se caracterizou por reunir vários
grupos sociais, dando abertura a movimentos sociais, movimentos camponeses e
movimentos socialistas (SOLER, 2011). A campanha de Lugo baseou-se fortemente na
promessa de instaurar uma Reforma Agrária e uma Reforma Energética da Itaipu
Binacional (ROA, 2008).
3
Fuentes: Paraguay Global. (s.f.). Medios. Recuperado el 19 de abril de 2014, de Paraguay Global:
http://www.pyglobal.com/medios.php; E'a: Periódico de Interpretación y Análisis. (26 de junio de 2012).
Medios paraguayos están en pocas manos y reflejan intereses, según embajada de EEUU. Recuperado el
19 de abril de 2014, de E'a: Periódico de Interpretación y Análisis: http://ea.com.py/medios-paraguayosestan-en-pocas-manos-y-reflejan-intereses-segun-embajada-de-eeuu/.
Em 15 de junho de 2012, ocorreu um confronto armado entre policiais e
camponeses sem terra que demandavam a desapropriação de uma propriedade, no
departamento de Canindeyú, para a reforma agrária. Desse conflito, denominado pela
impressa de “Massacre de Curuguaty”, resultou a morte de 17 pessoas, sendo seis
policiais e 11 camponeses. Esse enfrentamento foi o gatilho para o processo de juízo
político, aprovado no dia 21 de junho de 2012 e concretizado no dia 22 de junho de 20124.
Dentre o vasto material de comunicação produzido neste importante momento da
história política do Paraguai, a capa do jornal Última Hora merece um olhar crítico que
permita vislumbrar os sentidos por ela veiculados. Consideramos que o jornal se constitui
como um mediador entre a realidade e a sociedade, pois o cotidiano chega ao leitor,
através do discurso midiático, constituindo-se a mídia num fator fundamental na
formação de opinião (MARTINO, 2012). Nesse sentido, o foco do estudo é analisar o
tratamento dado à representação do processo de juízo político no dia 22 de junho.
3. Considerações sobre o Discurso
Na tradição francesa sobre o discurso, a teoria e metodologia de análise são
construídas a partir de três regiões de conhecimento: a Psicanálise, a Linguística e o
Marxismo (ORLANDI, 2013). Diferentemente da Linguística, que estuda a língua
fechada nela mesma, a Análise do Discurso procura estabelecer um diálogo entre o sujeito
e a história, pois,
(...) o sujeito de linguagem é descentrado pois é afetado pelo real da
língua e também pelo real da história, não tendo o controle sobre o
modo como elas o afetam. Isso redunda em dizer que o sujeito
discursivo funciona pelo inconsciente e pela ideologia (ORLANDI,
2013, p. 20).
Isso em vista, entende-se a língua condicionada pela ideologia, pela história, pelo
sujeito. O indivíduo é inserido numa sociedade em que os ‘ditos’ já estão
predeterminados. Desse modo, o discurso encontra-se atrelado às condições de produção,
isto é, o contexto sócio-histórico, o contexto ideológico, pela memória (interdiscurso)
(ORLANDI, 2013). De outro modo, “o enunciador, diria de certa forma foucaultiana, se
4
A deposição do então presidente ganhou ampla cobertura em toda a imprensa paraguaia, gerando uma
série de debates e divergências quanto à legitimidade do processo e quanto aos interesses políticos
envolvidos, além de ocasionar conflitos internacionais como a suspensão do país do Mercosul e da Unasur.
encontra capturado pela formação discursiva a que pertencer e pela sua cultura, de tal
maneira que o discurso que compõe já é devedor de valores e significados culturais”
(PERUZZOLO, 2004, p. 154). Faz-se fundamental o contexto de produção em que se
encontram inseridos os enunciadores e enunciatários devido a que essa condição irá
determinar o que pode ser dito ou não e de que maneira pode ser dito.
Ao estar o discurso interligado à subjetividade, à literalidade ou à transparência
de um discurso, fica desmitificado, pois não existe discurso sem sujeito e não existe
sujeito sem ideologia, ou seja, “Ideologia e inconsciente estão materialmente ligados. Pela
língua, pelo processo que acabamos de descrever” (ORLANDI, 2013, p. 47). Bakhtin
(2006, p. 29) também assevera que, “Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo.
Sem signos não existe ideologia”. Desse modo, ideologia, sujeito e signo estão
intrinsecamente ligados.
O jornalismo como discurso
O discurso jornalístico se constitui num espaço no qual se produzem e circulam
sentidos (BENETTI, 2010). Sendo assim, Márcia Benetti (2010) sustenta que o discurso
é opaco, polifônico, dialógico, cheio de possibilidades de sentidos. Por sua vez, Luís
Marino Sá (2012), ao explicar o modelo de estudo do Newsmaking, menciona que a
produção de discursos dos meios de comunicação possui suas próprias práticas, códigos
e modelos os quais geram eventos que já não condizem com a realidade senão geram um
novo evento, relido, adaptado, reapresentado.
Nesse sentido, o discurso jornalístico está atrelado à limitação da linguagem de
evocar uma realidade objetiva e às condições de produção inerentes ao fazer jornalístico,
assim como pelas limitações técnicas. De acordo a Bakhtin a linguagem é dialógica, esse
dialogismo pode ser pensado em dois planos, o plano da interdiscursividade e o plano da
intersubjetividade (BENETTI, 2010). Interdiscursivo porque está relacionado a outros
dizeres já existentes na história da sociedade (BRAIT, 2013). Intersubjetivo porque o
discurso não possui autonomia, está atrelado aos sujeitos (BENETTI, 2010).
Dessa maneira, a objetividade jornalística entra em xeque, o retrato fidedigno da
realidade fica insustentável, pois,
O discurso é, assim opaco, não transparente, pleno de possibilidades de
interpretação. Assumir essa característica como um dos pressupostos do
jornalismo leva-nos a reconhecer que o texto objetivo é apenas uma
intenção do jornalista, restando-lhe elaborar um texto que no máximo
direcione a leitura para um determinado sentido, sem que haja qualquer
garantia de que essa convergência de sentidos vá de fato ocorrer
(BENETTI, 2010, p. 107).
A intersubjetividade do discurso requer uma análise que considere os processos
históricos, estando sujeitos a questões sociais e culturais (BENETTI, 2010). Esses
aspectos permitem observar a inexistência de discursos genuínos como bem assinala
Maingueneau (2013, p. 62) “O discurso só adquire sentido no interior de um universo de
outros discursos, lugar no qual ele deve traçar seu caminho. Para interpretar qualquer
enunciado, é necessário relacioná-lo a muitos outros”. Tampouco se poderia considerar
que determinados paradigmas de dizeres são imutáveis. Essa noção de que o dito só pode
ser realizado dessa maneira e não de outra demonstra que existem determinadas
formações discursivas (FDs) que determinam o que pode ser enunciado e o que não pode
ser enunciado (BENETTI, 2010).
Nessa conjuntura, observamos que os sentidos não estariam condicionados
necessariamente pela língua senão pelas relações de poder, pelas condições de produção,
pelos lugares de fala (ORLANDI, 2013). Orlandi (2013) explica essa dinâmica utilizando
como exemplo o significado que adquirem as palavras em determinados lugares que são
enunciados.
Por outro lado, cabe mencionar que o discurso jornalístico é polifônico, ou seja, o
texto jornalístico não se restringe a um só locutor (MAINGUENEAU, 2013). Um texto
normalmente é produzido sob a cooperação de diversos sujeitos, no entanto, num primeiro
olhar não se percebe as diversas perspectivas que se inserem no enunciado. Márcia
Benetti (2010) sustenta que é preciso realizar um mapeamento que permita vislumbrar os
diversos enunciadores que se inserem na produção do texto. Umas das estratégias
utilizadas pelo jornalismo para manter sua áurea de imparcialidade é a chamada de vários
enunciadores num texto (PERUZZOLO, 2004), o jornalista seria um simples locutor das
vozes que se inserem no enunciado.
No entanto, a heterogeneidade das fontes, dos sujeitos que são invocados no texto
jornalístico não é sinônimo de pluralidade de perspectivas, pois, se essas fontes estiverem
“sob a mesma perspectiva, filiadas aos mesmos interesses e inscritas na mesma posição
de sujeito, apenas complementando-se umas às outras, podemos dizer que configuram um
único enunciador” (BENETTI, 2010, p. 119). Sendo assim, se os atores estiverem
inseridos nos mesmos lugares de fala, essa polifonia não passaria de uma simples falácia.
Compreendendo essas características do discurso jornalístico, nos lançamos à
análise da referida capa do jornal Última Hora.
Análise dos sentidos subjacentes na capa do Jornal Ultima Hora: primeiras
aproximações
Figura 1: Capa do jornal Última Hora no dia 22/06/2012
A capa do jornal é uma amálgama de imagem e texto. A composição é feita por
uma imagem fotográfica, que abrange todo o espaço da capa, sobreposta pelas manchetes.
O título e as chamadas têm como objeto de seus enunciados o mesmo assunto: o juízo
político ao presidente da República.
De acordo a Peruzzolo (2004), o texto jornalístico utiliza estratégias que buscam
produzir efeitos de ‘objetividade’, ‘afastamento’ do objeto da enunciação. Conforme o
autor, as estratégias utilizadas são o uso da terceira pessoa do singular, citação de fontes,
assinatura dos jornalistas ou mesmo a colocação de diversos enunciadores por meio do
discurso direto ou indireto.
A capa do jornal dá a impressão de aglomerar um grupo heterogêneo de atores
sociais. O Poder Executivo, a Igreja, os cidadãos, o Ministério da Educação e Cultura
(MEC), assim como os Chanceleres da Unasul ganham espaço no texto. Embora pareça
existir uma pluralidade, observa-se que todos eles, a exceção dos Chanceleres da Unasul,
são instituições que ocupam um mesmo lugar, exercem posição de poder no Estado
paraguaio. Os lugares nos quais esses enunciadores se inscrevem outorga-lhes uma
posição de autoridade e veracidade como é o caso da Igreja, que desde os tempos da
colônia ocupa um lugar de status e poder na sociedade paraguaia. A Igreja, o MEC, Poder
Executivo, os Senadores têm influência ideológica na sociedade.
A cidadania que aparece numas das chamadas pareceria não se encaixar nessa
análise, não obstante, é momento de se questionar, que cidadania é essa de que fala o
jornal Última Hora? Quais são os critérios tomados para caracterizar essa cidadania?
Poderia referir-se ao público leitor do jornal? Ou aos representantes de algumas
instituições? Ou ainda aos representantes de alguns movimentos sociais? Se tomarmos o
público leitor do jornal como base para caracterizar esses cidadãos, é importante
considerarmos os dados de uma pesquisa realizada pelo próprio jornal para identificar seu
público. Ele seria constituído pela classe alta da sociedade paraguaia (ÚLTIMA HORA,
2014), formada por governantes, grandes produtores de terra, empresários, dentre outros.
Sob essa ótica, poderia se compreender que os cidadãos aos quais o jornal se refere é
constituído pela classe média alta da sociedade paraguaia.
Deste modo, pode-se notar que a capa do jornal constitui-se num texto
monofônico e não polifônico, pois, os discursos ali representados são de atores sociais
que estão inseridos nas mesmas posições de sujeitos; compartilham, na maioria, os
mesmos lugares de fala e, poderia se dizer, estão filiados, nesse momento, nos mesmos
interesses, que se traduzem basicamente em iniciar o juízo político ao presidente.
4. Fernando Lugo: um presidente que representa um perigo para a sociedade
Por meio da análise discursiva da capa do jornal, se pode constatar a criação de
diversos sentidos de realidade. Numa primeira aproximação analítica pode-se dizer que
já no verbo utilizado no título, há efeitos de sentido: “Lugo se aferra al cargo y hay temor
a más violencia”. O verbo “aferrar” que, no seu conteúdo semântico traz em uma de suas
acepções a seguinte explicação: “agarrarse fuertemente”5. O uso do verbo “aferrar” indica
uma escolha proposital, ainda mais porque complementada por outra sentença que traz
como verbo “temor” e o substantivo “violência”. Essa construção sugere uma espécie de
ato irracional na complementação da sentença, pois o presidente, ao se “aferrar” ao cargo,
expõe os cidadãos a um aumento da “violência”.
O título tem complementação na chamada que dá destaque a igreja. Assim, no
enunciado “La Iglesia pidió la renuncia al presidente para evitar más derramamiento de
sangre”, observa-se que o enunciador é uma instituição de grande importância na
sociedade paraguaia. Ao se trazer para a análise aspectos sócio-históricos do Paraguai,
podem-se vislumbrar questões subjacentes no discurso, considerando-se que o país é
predominantemente católico e historicamente a igreja ocupou um espaço importante na
vida social e política do país desde os tempos da colonização, assim como nos diversos
processos políticos (MORÍNIGO, 2002) (SOLER, 2011). Ainda que, desde a
Constituição de 1992, o vínculo entre a igreja e o estado tenha ficado claramente
delimitado, constituindo-se o país num Estado laico, a importância dos sacerdotes e a
instituição que representam continuaram vigentes no imaginário social da sociedade. José
Nicolás Morínigo (2002) também aponta que esta instituição religiosa continuou
mantendo uma grande influência nos processos eleitorais, como o prova a própria eleição
de Fernando Lugo, ex-bispo da Igreja Católica.
Também se pode vislumbrar a relação de poder entre a igreja e a sociedade. De
acordo com Orlandi (2013) as condições de produção de discursos estão pautadas por
relações de autoridade. A autora, inclusive, ilustra essa relação com um exemplo bastante
pertinente para o corpus de análise, dizendo que a posição desde a qual um padre fala lhe
confere autoridade perante seus fiéis, posto que as sociedades estão constituídas por
relações de força e de poder.
Deste modo, vê-se refletida no texto a presença e importância que a igreja
continua ocupando no imaginário social paraguaio. A igreja se constitui num argumento
de autoridade claramente forte, além de ser a mediadora entre os cidadãos e o presidente
da República. É a igreja quem pede a renúncia do presidente, não a população; é a igreja
5
ESPAÑOLA, Real Academia Lengua. Aferrar. Disponível em: <http://lema.rae.es/drae/?val=aferrar>.
Acesso em: 04 jun. 2014.
quem pede cordura ao chefe do Estado, não os cidadãos, é a igreja que vela pela segurança
dos paraguaios.
Merece atenção outra das chamadas que traz a seguinte construção “Inquietud
ciudadana ante llegada de grupos campesinos luguistas”. Nesta sentença se pode ver o
estigma social que ganham os camponeses nas linhas do jornal. O Paraguai, assim como
vários outros países latino-americanos, enfrenta diversos problemas sociais originados
pela distribuição assimétrica de terras. Esse é um assunto explorado por vários autores
paraguaios como Carlos Pastore (2013), Orué Pozzo e Alegre Sasián (2008), Oscar Torres
(2012), dentre outros. Eles relatam as origens da concentração de terras no país, assim
como a necessidade imperiosa de uma verdadeira reforma agrária. No decorrer dos anos
surgiram vários movimentos com o objetivo de reivindicar esses direitos, porém, suas
ações têm sido deslegitimadas por meio do discurso da imprensa (SANCHEZ, 2009).
Nesse contexto, a imagem de Fernando Lugo esteve estreitamente ligada aos movimentos
camponeses, tanto é que, nas suas promessas de campanha eleitoral, estava contemplada
a proposta de uma reforma agrária. O governo de Lugo foi caracterizado pela sua abertura
a diferentes movimentos sociais e movimentos de esquerda (SOLER, 2011).
Na chamada, pode-se evidenciar que, na formação discursiva, há o reforço da
criminalização dos camponeses, os “cidadãos” sentem temor perante a chegada deles. Os
grupos camponeses são adjetivados de “luguistas”, deste modo, nota-se que os
camponeses, ao gerarem temor entre os cidadãos, por metonímia, o presidente Lugo
também geraria temor entre os cidadãos. Outro aspecto que pode ser lido na chamada
estaria na própria construção sintática da sentença, o sujeito da ação são os “cidadãos”, o
objeto da sentença são “os grupos camponeses”. Nessa sentença, também se pode notar
que, por exclusão, os camponeses não são cidadãos, não passariam de um amontoado de
atemorizadores da tranquilidade dos cidadãos.
Esse temor, esse perigo vê-se refletido na chamada: “El MEC deja a cargo de los
padres si envían a sus hijos a la escuela”. O perigo ronda as ruas das cidades, o perigo dos
‘camponeses luguistas’. A palavra ‘camponês’, no discurso do jornal, perdeu seu valor
semântico que determina que camponês seja aquele que trabalha no campo. Nas linhas
do jornal, o ‘camponês’ está reduzido a um ‘grupo’, a um amontoado de pessoas que
representam um perigo à tranquilidade dos cidadãos paraguaios. Finalmente, lhe é vedado
o caráter de cidadão. Esse ‘grupo de camponeses’ é perigoso, é ‘luguista’, e por
metonímia o presidente da Nação também se converte num governante perigoso.
Análise da imagem da capa
Eliseo Verón diferencia a imagem da imprensa testemunhal – pela qual a foto é
um signo que passa a substituir a própria realidade, o objeto real é substituído pela
representação – daquilo que ele denomina fundo semântico. O fundo semântico seria a
imagem que “deve simplesmente evocar, de uma maneira ou de outra, o campo semântico
designado pelo texto que a acompanha” (VERON, 2004, p. 171).
Desse modo, na capa, ao se realizar uma leitura da imagem, observa-se que na
fotografia há uma sala de estilo pós-colonial, duas cadeiras - uma delas é maior que a
outra, sugere que estaria destinada ao presidente do Paraguai. Na fotografia, encontramse algumas pessoas atrás de Fernando Lugo. Na capa se representa a ‘crise que se
instalava no país’ e a eleição da foto aponta para a interpretação, ao ver a cadeira
presidencial vazia, de que o próprio país estaria sem dirigente: o processo de juízo político
tinha sido aprovado pelo Parlamento e se avizinhava o veredito final.
Verifica-se, retomando a conceitos de Eliseo Verón, que
texto e imagem remetem um ao outro em um equilíbrio semântico
fechado. Circular porque a natureza testemunhal da imagem foi
completamente apagada, na medida em que a imagem se torna, de
algum modo, a visualização de um conceito e não o testemunho de um
acontecimento, a possível imprecisão de certas imagens é
automaticamente anulada (VERON, 2004, p. 173).
Portanto, a imagem apresentada na capa não é importante apenas pelo retrato do
momento, mas sim por seu valor simbólico, eis que uma metáfora da situação vivenciada
pelo então presidente. Ademais, há uma simbiose entre texto e imagem que permite
vislumbrar o conteúdo semântico da capa do jornal, que indica – e de algum modo
legitima – a destituição de Fernando Lugo da presidência da República.
Lugo encontra-se cercado por algumas pessoas, mas essas parecem estar afastadas
dele. E, na fração em que a foto foi capturada pela objetiva da câmera do fotógrafo, o
leitor se encontra com um presidente aflito, abandonado pelas instituições, pelos seus
parceiros, com a cabeça para abaixo, com o olhar de derrota, tendo entregado já as armas,
pois se encontra com as mãos cruzadas para trás. O presidente da República espera o
veredito, porém a imagem fotográfica parece constituir-se numa espécie de premonição
ou adiantamento da decisão final: a cadeira presidencial encontra-se vazia.
5. Considerações finais
Neste trabalho, procurou-se, à a luz da análise de discursos, realizar uma
aproximação exploratória da capa da edição do dia 22 de junho de 2012 do jornal Última
Hora, tendo presente que todo discurso é dialógico, e que se estabelece num discurso
intersubjetivo e interdiscursivo.
Desse modo, não existe linguagem ou discurso transparente e com a capacidade
de retratar a realidade como ela é. A objetividade jornalística é desmitificada à luz desses
conceitos. Assim, observa-se que o contexto sociocultural e sócio-histórico é fundamental
para definir as formações discursivas, estabelecendo o que pode ser dito e o que não pode
ser dito.
Após a análise se constatou que, embora o jornal apresente uma capa
aparentemente polifônica, traz, quase na sua totalidade, um discurso monofônico. Os
enunciadores se posicionam desde uma mesma perspectiva e encontram-se inscritos nas
mesmas posições sociais, posições que lhes confere autoridade. Também a capa oferece
a impressão (ilusão) de uma polifonia social, porém, os enunciatários ocupam quase a
mesma posição socioeconômica e há um apagamento de outros atores sociais, como
camponeses, movimentos sociais, dentre outros.
Também se pode constatar o reforço da criminalização dos movimentos
camponeses; estes não só foram despojados das suas terras, mas também de seu direito
de ser cidadãos. Ao se criminalizar os movimentos camponeses, criminaliza-se também
o presidente da República, em função de elementos como o uso do adjetivo “luguista”
aos que se identificam com os movimentos do campo.
O título, a cartola, as chamadas e a fotografia convergem na construção de um
presidente perigoso e irracional. Há um discurso que objetiva a manutenção do status quo,
a busca de um consenso, pois não há divergências nos enunciados, assim como não se
espera divergência na sociedade quanto às condições sociais antagônicas.
Referências
BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. [S.l.]: Hucitec, 2006.
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