A CONSTRUÇÃO DISCURSIVA E IMAGÉTICA NO JORNAL ÚLTIMA HORA: A REPRESENTAÇÃO DISCURSIVA DO EXPRESIDENTE PARAGUAIO FERNANDO LUGO NO DIA DE SEU IMPEACHMENT DISCURSIVE CONSTRUCTION IN ULTIMA HORA JOURNAL: DISCURSIVE REPRESENTATION OF FORMER PRESIDENT OF PARAGUAY FERNANDO LUGO IN THE DAY OF HIS IMPEACHMENT Maria Liz Benitez Ameida Autora do artigo. Aluna especial do curso de graduação em Comunicação Social pela UFSM, CESNORS, aluna do curso de graduação em Letras pela UFSC. Lara Nasi Orientadora do artigo. Professora substituta do Departamento de Ciências da Comunicação da UFSM, CESNORS. Mestra em Ciências da Comunicação pela Unisinos Integrante do grupo de pesquisa Resto – Laboratório de Práticas Jornalísticas Resumo O intuito deste trabalho é realizar uma análise do discurso do jornal paraguiao Última Hora no processo de representação da imagem do ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo, quando de sua deposição, em 2012. O corpus está delimitado à capa da edição do dia 22 de junho, dia do juízo político que depôs Lugo. Este fato teve repercussões internas e externas para o país vizinho. Internas porque o processo de impeachment constituiu-se na primeira deposição judicial de um presidente paraguaio. Externas, porque o Paraguai foi suspenso do Mercosul e da Unasul pelos seus parceiros regionais. O processo gerou divergências, com setores sociais considerando que se deu no marco da legalidade, ao passo que outros acusavam que estava em curso um golpe de Estado. Diante deste cenário polarizado, neste trabalho, realizamos uma análise da representação discursiva e imagética da capa do jornal Última Hora no dia da deposição de Lugo. O artigo tem como fundamentos teórico-metodológicos a análise de discursos, a partir de elementos da semiologia dos discursos e da Análise do Discurso francesa. De acordo a Orlandi (2013), a língua encontra-se atrelada à ideologia, à história e ao sujeito. A autora sustenta que o indivíduo é inserido numa sociedade em que os dizeres já estão estabelecidos e que o sujeito encontra-se condicionado pelo contexto sociocultural e sócio-histórico. A partir desses pressupostos teóricos, nos deparamos com vários efeitos de sentido no corpus em análise. O conteúdo discursivo e imagético representa um presidente “irracional” e “incompetente” para governar o país. Na capa, vemos emergir vários elementos históricos do Paraguai, como a luta pela terra e a deslegitimização dos camponeses que reivindicam reforma agrária. Emergem sentidos pejorativos aos movimentos camponeses. A “periculosidade” característica dos camponeses, que é construída por meio do discurso, alcança por metonímia o presidente do Estado. Ao realizar uma análise da imagem, nos deparamos com uma espécie de premonição representada no jornal, pois o juízo político ainda não tinha iniciado, porém, a cadeira presidencial já se encontrava vazia. Palavras-chave: discurso, análise do discurso, Fernando Lugo, Última Hora In this essay, our purpose is to analyze the discourse of Paraguayan journal Última Hora in the process of representing the image of former president of Paraguay Fernando Lugo, in the day of his deposition, in 2012. Corpus is composed by the newspaper’s front page on June 22th, the day of the political judgment that took Lugo out of the office. The fact had internal and external repercussions. Internal one is referred to the fact that impeachment process was the first one in the history of the country. External ones because Paraguay’s membership in Mercorsur and Union of South American Nations was suspended by regional partners. The process generated divergences, with social sectors considering it was a legal action, while other ones accused a coup d'etat was happening. Considering this scenario, we propose to analyze the discursive representation Ultima Hora newspaper has made about Lugo’s figure in the day of his impeachment. Theoretical-methodological fundaments of the essay are discourse analysis, considering mainly French Discourse analysis and Semiology. According to Orlandi (2013), language is linked to ideology, history and the subject. The referred author sustains the individual is inserted in a society in which the sayings are already stablished and the subject is conditioned by sociocultural and sociohistorical contexts. From these theoretical assumptions, we find several meaning effects in the analysis. Content, referring to discourse and also to the image, represents a president that is “irrational” and “incompetent” to govern the country. On the front page, we encounter several historical elements of Paraguay, such as the struggle for land (characterized by the delegitimation of peasants who claim land reform). Pejorative senses related to peasants movements emerge from the text. Dangerousness assigned to them by discourse, reaches, by metonymy, the president, who supports the movements. When the focus is the image of the front page, we observe a kind of “premonition”: while the impeachment had not started yet, presidential chair was already empty on the newspaper. Keywords: Discourse; Discourse Analysis; Fernando Lugo; Ultima Hora 1. Introdução Neste trabalho realiza-se uma análise exploratória da capa de um jornal impresso paraguaio, Última Hora, edição do dia 22 de junho do ano 2012. Nessa mesma data iniciou-se o processo de Impeachment que depôs o ex-presidente da República do Paraguai, Fernando Lugo Méndez. Considerando que a capa de um jornal é composta de imagem e texto, busca-se amparo teórico e metodológico na análise de discursos1 para entender de que maneira o discurso produz efeitos de sentidos (ORLANDI, 2013). Eni Orlandi (2013, p. 47) sustenta que o sentido é “uma relação determinada do sujeito – afetado pela língua – com a história” e continua afirmando que é por meio da interpretação que se pode evidenciar esta relação entre o sujeito com a língua, com a história e os sentidos. O que se buscará nesse trabalho é desvelar os sentidos produzidos pela capa do jornal nesse dia de emblemática importância política, jurídica e histórica para o Paraguai. 2. Breves apontamentos sobre o corpus e o juízo político A capa em análise é do jornal Última Hora, que se constitui num dos jornais de maior circulação em âmbito nacional no Paraguai. O meio iniciou suas atividades durante a ditadura stronista2, no ano de 1973, como um jornal vespertino sob o nome La Tarde, posteriormente adotou o nome Última Hora (BOSIO, 2008). Hoje, o jornal faz parte de um conglomerado empresarial denominado Grupo Verci. Esse grupo empresarial reúne outros meios de comunicação como o canal de televisão aberto Canal 4 Telefuturo, televisão a cabo Canal 11 La tele, rádio FM La Estación e rádio FM Radio Urbana (SEGOVIA, 2010). O fato de o jornal Última Hora pertencer ao conglomerado Vierci é relevante para a presente análise porque é uma prática recorrente que, nos programas jornalísticos televisivos e radiofônicos, sejam projetadas as principais manchetes do jornal impresso, com direito a comentários e observações das bancadas. Assim, as notícias de Última Hora ganham destaque nos programas de televisão do canal Telefuturo e nos programas das rádios La Estación e Radio Urbana. Desse modo, apresenta-se como dificuldade metodológica a classificação do enunciatário do jornal Última Hora, pois não apenas os leitores (assinantes e compradores de avulsos) são os destinatários da mensagem do 1 Christa Berger (1998), ao propor um trabalho de análise do discurso que considera não apenas a AD Francesa, escolhe, assim como outros autores, trabalhar com o termo no plural: “análise de discursos”. É neste sentido que aqui também nos referimos à análise no plural. Consideramos a tradição francesa, mas buscamos elementos para este trabalho também na semiologia dos discursos. 2 O general Alfredo Stroessner do Partido Colorado tomou a liderança do Paraguai no ano de 1954. Dirigiu o país sob uma ditadura militar até o golpe de Estado que o derrocou em fevereiro de 1989; esse golpe foi orquestrado por membros do próprio partido (LÓPEZ, 2010). jornal, já que a mensagem chega a um público difuso, consumidor dos diversos produtos oferecidos pelo Grupo Vierci. Quanto à tiragem do jornal Última Hora, os dados são imprecisos. Perante a ausência de dados oficiais, sites como E’A Pediódico de Análisis e interpretaciones e Paraguay Global sustentam que a tiragem diária do jornal gira em torno de 15.000 a 25.000 exemplares3. O recorte temporal que delimita o corpus de estudo corresponde ao dia 22 de junho de 2012, porque foi nesse dia que ocorreria a decisão do processo de Impeachment do presidente Fernando Lugo. A escolha do tema se justifica porque a vitória de Fernando Lugo, em abril de 2008, se constituiu na ruptura da hegemonia do Partido Colorado – Asociación Nacional Republicana (ANR) – que esteve no comando do Paraguai durante 61 anos, inclusive durante os 35 anos da ditadura militar de Alfredo Stroessner. Após o golpe de Estado de 1989, que derrocou o então ditador, assume a presidência Andrés Rodriguez. A partir desse período se inicia o que José Morínigo (2002) denomina de “transição circular”, pois, embora haja o processo de abertura democrática e alternância de governantes, por meio de eleições democráticas, esses governantes se mantiveram vinculados ao Partido Colorado. A “alternância de poder” se deu entre membros do mesmo partido. Desse modo, o Estado se manteve atrelado ao Partido Colorado até a chegada de Fernando Lugo à Presidência da República. Fernando Lugo iniciou sua campanha aliado a outro partido tradicional e principal opositor do Partido Colorado, o Partido Liberal Radical Auténtico (PLRA). Assim, Lugo e Federico Franco (PLRA), seu vice, iniciaram a campanha sob o movimento Alianza Patriotica para el Cambio (APC). Esse movimento se caracterizou por reunir vários grupos sociais, dando abertura a movimentos sociais, movimentos camponeses e movimentos socialistas (SOLER, 2011). A campanha de Lugo baseou-se fortemente na promessa de instaurar uma Reforma Agrária e uma Reforma Energética da Itaipu Binacional (ROA, 2008). 3 Fuentes: Paraguay Global. (s.f.). Medios. Recuperado el 19 de abril de 2014, de Paraguay Global: http://www.pyglobal.com/medios.php; E'a: Periódico de Interpretación y Análisis. (26 de junio de 2012). Medios paraguayos están en pocas manos y reflejan intereses, según embajada de EEUU. Recuperado el 19 de abril de 2014, de E'a: Periódico de Interpretación y Análisis: http://ea.com.py/medios-paraguayosestan-en-pocas-manos-y-reflejan-intereses-segun-embajada-de-eeuu/. Em 15 de junho de 2012, ocorreu um confronto armado entre policiais e camponeses sem terra que demandavam a desapropriação de uma propriedade, no departamento de Canindeyú, para a reforma agrária. Desse conflito, denominado pela impressa de “Massacre de Curuguaty”, resultou a morte de 17 pessoas, sendo seis policiais e 11 camponeses. Esse enfrentamento foi o gatilho para o processo de juízo político, aprovado no dia 21 de junho de 2012 e concretizado no dia 22 de junho de 20124. Dentre o vasto material de comunicação produzido neste importante momento da história política do Paraguai, a capa do jornal Última Hora merece um olhar crítico que permita vislumbrar os sentidos por ela veiculados. Consideramos que o jornal se constitui como um mediador entre a realidade e a sociedade, pois o cotidiano chega ao leitor, através do discurso midiático, constituindo-se a mídia num fator fundamental na formação de opinião (MARTINO, 2012). Nesse sentido, o foco do estudo é analisar o tratamento dado à representação do processo de juízo político no dia 22 de junho. 3. Considerações sobre o Discurso Na tradição francesa sobre o discurso, a teoria e metodologia de análise são construídas a partir de três regiões de conhecimento: a Psicanálise, a Linguística e o Marxismo (ORLANDI, 2013). Diferentemente da Linguística, que estuda a língua fechada nela mesma, a Análise do Discurso procura estabelecer um diálogo entre o sujeito e a história, pois, (...) o sujeito de linguagem é descentrado pois é afetado pelo real da língua e também pelo real da história, não tendo o controle sobre o modo como elas o afetam. Isso redunda em dizer que o sujeito discursivo funciona pelo inconsciente e pela ideologia (ORLANDI, 2013, p. 20). Isso em vista, entende-se a língua condicionada pela ideologia, pela história, pelo sujeito. O indivíduo é inserido numa sociedade em que os ‘ditos’ já estão predeterminados. Desse modo, o discurso encontra-se atrelado às condições de produção, isto é, o contexto sócio-histórico, o contexto ideológico, pela memória (interdiscurso) (ORLANDI, 2013). De outro modo, “o enunciador, diria de certa forma foucaultiana, se 4 A deposição do então presidente ganhou ampla cobertura em toda a imprensa paraguaia, gerando uma série de debates e divergências quanto à legitimidade do processo e quanto aos interesses políticos envolvidos, além de ocasionar conflitos internacionais como a suspensão do país do Mercosul e da Unasur. encontra capturado pela formação discursiva a que pertencer e pela sua cultura, de tal maneira que o discurso que compõe já é devedor de valores e significados culturais” (PERUZZOLO, 2004, p. 154). Faz-se fundamental o contexto de produção em que se encontram inseridos os enunciadores e enunciatários devido a que essa condição irá determinar o que pode ser dito ou não e de que maneira pode ser dito. Ao estar o discurso interligado à subjetividade, à literalidade ou à transparência de um discurso, fica desmitificado, pois não existe discurso sem sujeito e não existe sujeito sem ideologia, ou seja, “Ideologia e inconsciente estão materialmente ligados. Pela língua, pelo processo que acabamos de descrever” (ORLANDI, 2013, p. 47). Bakhtin (2006, p. 29) também assevera que, “Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia”. Desse modo, ideologia, sujeito e signo estão intrinsecamente ligados. O jornalismo como discurso O discurso jornalístico se constitui num espaço no qual se produzem e circulam sentidos (BENETTI, 2010). Sendo assim, Márcia Benetti (2010) sustenta que o discurso é opaco, polifônico, dialógico, cheio de possibilidades de sentidos. Por sua vez, Luís Marino Sá (2012), ao explicar o modelo de estudo do Newsmaking, menciona que a produção de discursos dos meios de comunicação possui suas próprias práticas, códigos e modelos os quais geram eventos que já não condizem com a realidade senão geram um novo evento, relido, adaptado, reapresentado. Nesse sentido, o discurso jornalístico está atrelado à limitação da linguagem de evocar uma realidade objetiva e às condições de produção inerentes ao fazer jornalístico, assim como pelas limitações técnicas. De acordo a Bakhtin a linguagem é dialógica, esse dialogismo pode ser pensado em dois planos, o plano da interdiscursividade e o plano da intersubjetividade (BENETTI, 2010). Interdiscursivo porque está relacionado a outros dizeres já existentes na história da sociedade (BRAIT, 2013). Intersubjetivo porque o discurso não possui autonomia, está atrelado aos sujeitos (BENETTI, 2010). Dessa maneira, a objetividade jornalística entra em xeque, o retrato fidedigno da realidade fica insustentável, pois, O discurso é, assim opaco, não transparente, pleno de possibilidades de interpretação. Assumir essa característica como um dos pressupostos do jornalismo leva-nos a reconhecer que o texto objetivo é apenas uma intenção do jornalista, restando-lhe elaborar um texto que no máximo direcione a leitura para um determinado sentido, sem que haja qualquer garantia de que essa convergência de sentidos vá de fato ocorrer (BENETTI, 2010, p. 107). A intersubjetividade do discurso requer uma análise que considere os processos históricos, estando sujeitos a questões sociais e culturais (BENETTI, 2010). Esses aspectos permitem observar a inexistência de discursos genuínos como bem assinala Maingueneau (2013, p. 62) “O discurso só adquire sentido no interior de um universo de outros discursos, lugar no qual ele deve traçar seu caminho. Para interpretar qualquer enunciado, é necessário relacioná-lo a muitos outros”. Tampouco se poderia considerar que determinados paradigmas de dizeres são imutáveis. Essa noção de que o dito só pode ser realizado dessa maneira e não de outra demonstra que existem determinadas formações discursivas (FDs) que determinam o que pode ser enunciado e o que não pode ser enunciado (BENETTI, 2010). Nessa conjuntura, observamos que os sentidos não estariam condicionados necessariamente pela língua senão pelas relações de poder, pelas condições de produção, pelos lugares de fala (ORLANDI, 2013). Orlandi (2013) explica essa dinâmica utilizando como exemplo o significado que adquirem as palavras em determinados lugares que são enunciados. Por outro lado, cabe mencionar que o discurso jornalístico é polifônico, ou seja, o texto jornalístico não se restringe a um só locutor (MAINGUENEAU, 2013). Um texto normalmente é produzido sob a cooperação de diversos sujeitos, no entanto, num primeiro olhar não se percebe as diversas perspectivas que se inserem no enunciado. Márcia Benetti (2010) sustenta que é preciso realizar um mapeamento que permita vislumbrar os diversos enunciadores que se inserem na produção do texto. Umas das estratégias utilizadas pelo jornalismo para manter sua áurea de imparcialidade é a chamada de vários enunciadores num texto (PERUZZOLO, 2004), o jornalista seria um simples locutor das vozes que se inserem no enunciado. No entanto, a heterogeneidade das fontes, dos sujeitos que são invocados no texto jornalístico não é sinônimo de pluralidade de perspectivas, pois, se essas fontes estiverem “sob a mesma perspectiva, filiadas aos mesmos interesses e inscritas na mesma posição de sujeito, apenas complementando-se umas às outras, podemos dizer que configuram um único enunciador” (BENETTI, 2010, p. 119). Sendo assim, se os atores estiverem inseridos nos mesmos lugares de fala, essa polifonia não passaria de uma simples falácia. Compreendendo essas características do discurso jornalístico, nos lançamos à análise da referida capa do jornal Última Hora. Análise dos sentidos subjacentes na capa do Jornal Ultima Hora: primeiras aproximações Figura 1: Capa do jornal Última Hora no dia 22/06/2012 A capa do jornal é uma amálgama de imagem e texto. A composição é feita por uma imagem fotográfica, que abrange todo o espaço da capa, sobreposta pelas manchetes. O título e as chamadas têm como objeto de seus enunciados o mesmo assunto: o juízo político ao presidente da República. De acordo a Peruzzolo (2004), o texto jornalístico utiliza estratégias que buscam produzir efeitos de ‘objetividade’, ‘afastamento’ do objeto da enunciação. Conforme o autor, as estratégias utilizadas são o uso da terceira pessoa do singular, citação de fontes, assinatura dos jornalistas ou mesmo a colocação de diversos enunciadores por meio do discurso direto ou indireto. A capa do jornal dá a impressão de aglomerar um grupo heterogêneo de atores sociais. O Poder Executivo, a Igreja, os cidadãos, o Ministério da Educação e Cultura (MEC), assim como os Chanceleres da Unasul ganham espaço no texto. Embora pareça existir uma pluralidade, observa-se que todos eles, a exceção dos Chanceleres da Unasul, são instituições que ocupam um mesmo lugar, exercem posição de poder no Estado paraguaio. Os lugares nos quais esses enunciadores se inscrevem outorga-lhes uma posição de autoridade e veracidade como é o caso da Igreja, que desde os tempos da colônia ocupa um lugar de status e poder na sociedade paraguaia. A Igreja, o MEC, Poder Executivo, os Senadores têm influência ideológica na sociedade. A cidadania que aparece numas das chamadas pareceria não se encaixar nessa análise, não obstante, é momento de se questionar, que cidadania é essa de que fala o jornal Última Hora? Quais são os critérios tomados para caracterizar essa cidadania? Poderia referir-se ao público leitor do jornal? Ou aos representantes de algumas instituições? Ou ainda aos representantes de alguns movimentos sociais? Se tomarmos o público leitor do jornal como base para caracterizar esses cidadãos, é importante considerarmos os dados de uma pesquisa realizada pelo próprio jornal para identificar seu público. Ele seria constituído pela classe alta da sociedade paraguaia (ÚLTIMA HORA, 2014), formada por governantes, grandes produtores de terra, empresários, dentre outros. Sob essa ótica, poderia se compreender que os cidadãos aos quais o jornal se refere é constituído pela classe média alta da sociedade paraguaia. Deste modo, pode-se notar que a capa do jornal constitui-se num texto monofônico e não polifônico, pois, os discursos ali representados são de atores sociais que estão inseridos nas mesmas posições de sujeitos; compartilham, na maioria, os mesmos lugares de fala e, poderia se dizer, estão filiados, nesse momento, nos mesmos interesses, que se traduzem basicamente em iniciar o juízo político ao presidente. 4. Fernando Lugo: um presidente que representa um perigo para a sociedade Por meio da análise discursiva da capa do jornal, se pode constatar a criação de diversos sentidos de realidade. Numa primeira aproximação analítica pode-se dizer que já no verbo utilizado no título, há efeitos de sentido: “Lugo se aferra al cargo y hay temor a más violencia”. O verbo “aferrar” que, no seu conteúdo semântico traz em uma de suas acepções a seguinte explicação: “agarrarse fuertemente”5. O uso do verbo “aferrar” indica uma escolha proposital, ainda mais porque complementada por outra sentença que traz como verbo “temor” e o substantivo “violência”. Essa construção sugere uma espécie de ato irracional na complementação da sentença, pois o presidente, ao se “aferrar” ao cargo, expõe os cidadãos a um aumento da “violência”. O título tem complementação na chamada que dá destaque a igreja. Assim, no enunciado “La Iglesia pidió la renuncia al presidente para evitar más derramamiento de sangre”, observa-se que o enunciador é uma instituição de grande importância na sociedade paraguaia. Ao se trazer para a análise aspectos sócio-históricos do Paraguai, podem-se vislumbrar questões subjacentes no discurso, considerando-se que o país é predominantemente católico e historicamente a igreja ocupou um espaço importante na vida social e política do país desde os tempos da colonização, assim como nos diversos processos políticos (MORÍNIGO, 2002) (SOLER, 2011). Ainda que, desde a Constituição de 1992, o vínculo entre a igreja e o estado tenha ficado claramente delimitado, constituindo-se o país num Estado laico, a importância dos sacerdotes e a instituição que representam continuaram vigentes no imaginário social da sociedade. José Nicolás Morínigo (2002) também aponta que esta instituição religiosa continuou mantendo uma grande influência nos processos eleitorais, como o prova a própria eleição de Fernando Lugo, ex-bispo da Igreja Católica. Também se pode vislumbrar a relação de poder entre a igreja e a sociedade. De acordo com Orlandi (2013) as condições de produção de discursos estão pautadas por relações de autoridade. A autora, inclusive, ilustra essa relação com um exemplo bastante pertinente para o corpus de análise, dizendo que a posição desde a qual um padre fala lhe confere autoridade perante seus fiéis, posto que as sociedades estão constituídas por relações de força e de poder. Deste modo, vê-se refletida no texto a presença e importância que a igreja continua ocupando no imaginário social paraguaio. A igreja se constitui num argumento de autoridade claramente forte, além de ser a mediadora entre os cidadãos e o presidente da República. É a igreja quem pede a renúncia do presidente, não a população; é a igreja 5 ESPAÑOLA, Real Academia Lengua. Aferrar. Disponível em: <http://lema.rae.es/drae/?val=aferrar>. Acesso em: 04 jun. 2014. quem pede cordura ao chefe do Estado, não os cidadãos, é a igreja que vela pela segurança dos paraguaios. Merece atenção outra das chamadas que traz a seguinte construção “Inquietud ciudadana ante llegada de grupos campesinos luguistas”. Nesta sentença se pode ver o estigma social que ganham os camponeses nas linhas do jornal. O Paraguai, assim como vários outros países latino-americanos, enfrenta diversos problemas sociais originados pela distribuição assimétrica de terras. Esse é um assunto explorado por vários autores paraguaios como Carlos Pastore (2013), Orué Pozzo e Alegre Sasián (2008), Oscar Torres (2012), dentre outros. Eles relatam as origens da concentração de terras no país, assim como a necessidade imperiosa de uma verdadeira reforma agrária. No decorrer dos anos surgiram vários movimentos com o objetivo de reivindicar esses direitos, porém, suas ações têm sido deslegitimadas por meio do discurso da imprensa (SANCHEZ, 2009). Nesse contexto, a imagem de Fernando Lugo esteve estreitamente ligada aos movimentos camponeses, tanto é que, nas suas promessas de campanha eleitoral, estava contemplada a proposta de uma reforma agrária. O governo de Lugo foi caracterizado pela sua abertura a diferentes movimentos sociais e movimentos de esquerda (SOLER, 2011). Na chamada, pode-se evidenciar que, na formação discursiva, há o reforço da criminalização dos camponeses, os “cidadãos” sentem temor perante a chegada deles. Os grupos camponeses são adjetivados de “luguistas”, deste modo, nota-se que os camponeses, ao gerarem temor entre os cidadãos, por metonímia, o presidente Lugo também geraria temor entre os cidadãos. Outro aspecto que pode ser lido na chamada estaria na própria construção sintática da sentença, o sujeito da ação são os “cidadãos”, o objeto da sentença são “os grupos camponeses”. Nessa sentença, também se pode notar que, por exclusão, os camponeses não são cidadãos, não passariam de um amontoado de atemorizadores da tranquilidade dos cidadãos. Esse temor, esse perigo vê-se refletido na chamada: “El MEC deja a cargo de los padres si envían a sus hijos a la escuela”. O perigo ronda as ruas das cidades, o perigo dos ‘camponeses luguistas’. A palavra ‘camponês’, no discurso do jornal, perdeu seu valor semântico que determina que camponês seja aquele que trabalha no campo. Nas linhas do jornal, o ‘camponês’ está reduzido a um ‘grupo’, a um amontoado de pessoas que representam um perigo à tranquilidade dos cidadãos paraguaios. Finalmente, lhe é vedado o caráter de cidadão. Esse ‘grupo de camponeses’ é perigoso, é ‘luguista’, e por metonímia o presidente da Nação também se converte num governante perigoso. Análise da imagem da capa Eliseo Verón diferencia a imagem da imprensa testemunhal – pela qual a foto é um signo que passa a substituir a própria realidade, o objeto real é substituído pela representação – daquilo que ele denomina fundo semântico. O fundo semântico seria a imagem que “deve simplesmente evocar, de uma maneira ou de outra, o campo semântico designado pelo texto que a acompanha” (VERON, 2004, p. 171). Desse modo, na capa, ao se realizar uma leitura da imagem, observa-se que na fotografia há uma sala de estilo pós-colonial, duas cadeiras - uma delas é maior que a outra, sugere que estaria destinada ao presidente do Paraguai. Na fotografia, encontramse algumas pessoas atrás de Fernando Lugo. Na capa se representa a ‘crise que se instalava no país’ e a eleição da foto aponta para a interpretação, ao ver a cadeira presidencial vazia, de que o próprio país estaria sem dirigente: o processo de juízo político tinha sido aprovado pelo Parlamento e se avizinhava o veredito final. Verifica-se, retomando a conceitos de Eliseo Verón, que texto e imagem remetem um ao outro em um equilíbrio semântico fechado. Circular porque a natureza testemunhal da imagem foi completamente apagada, na medida em que a imagem se torna, de algum modo, a visualização de um conceito e não o testemunho de um acontecimento, a possível imprecisão de certas imagens é automaticamente anulada (VERON, 2004, p. 173). Portanto, a imagem apresentada na capa não é importante apenas pelo retrato do momento, mas sim por seu valor simbólico, eis que uma metáfora da situação vivenciada pelo então presidente. Ademais, há uma simbiose entre texto e imagem que permite vislumbrar o conteúdo semântico da capa do jornal, que indica – e de algum modo legitima – a destituição de Fernando Lugo da presidência da República. Lugo encontra-se cercado por algumas pessoas, mas essas parecem estar afastadas dele. E, na fração em que a foto foi capturada pela objetiva da câmera do fotógrafo, o leitor se encontra com um presidente aflito, abandonado pelas instituições, pelos seus parceiros, com a cabeça para abaixo, com o olhar de derrota, tendo entregado já as armas, pois se encontra com as mãos cruzadas para trás. O presidente da República espera o veredito, porém a imagem fotográfica parece constituir-se numa espécie de premonição ou adiantamento da decisão final: a cadeira presidencial encontra-se vazia. 5. Considerações finais Neste trabalho, procurou-se, à a luz da análise de discursos, realizar uma aproximação exploratória da capa da edição do dia 22 de junho de 2012 do jornal Última Hora, tendo presente que todo discurso é dialógico, e que se estabelece num discurso intersubjetivo e interdiscursivo. Desse modo, não existe linguagem ou discurso transparente e com a capacidade de retratar a realidade como ela é. A objetividade jornalística é desmitificada à luz desses conceitos. Assim, observa-se que o contexto sociocultural e sócio-histórico é fundamental para definir as formações discursivas, estabelecendo o que pode ser dito e o que não pode ser dito. Após a análise se constatou que, embora o jornal apresente uma capa aparentemente polifônica, traz, quase na sua totalidade, um discurso monofônico. Os enunciadores se posicionam desde uma mesma perspectiva e encontram-se inscritos nas mesmas posições sociais, posições que lhes confere autoridade. Também a capa oferece a impressão (ilusão) de uma polifonia social, porém, os enunciatários ocupam quase a mesma posição socioeconômica e há um apagamento de outros atores sociais, como camponeses, movimentos sociais, dentre outros. Também se pode constatar o reforço da criminalização dos movimentos camponeses; estes não só foram despojados das suas terras, mas também de seu direito de ser cidadãos. Ao se criminalizar os movimentos camponeses, criminaliza-se também o presidente da República, em função de elementos como o uso do adjetivo “luguista” aos que se identificam com os movimentos do campo. O título, a cartola, as chamadas e a fotografia convergem na construção de um presidente perigoso e irracional. Há um discurso que objetiva a manutenção do status quo, a busca de um consenso, pois não há divergências nos enunciados, assim como não se espera divergência na sociedade quanto às condições sociais antagônicas. Referências BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 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