ANNA PAULLA DE SOUZA BORGES JÔNATAS DANTAS FERNANDES O ERRO DE ENFERMAGEM COMO NOTÍCIA VEICULADA NA MÍDIA TELEVISIVA: UMA CONTRIBUIÇÃO NA DISCUSSÃO SOBRE O ERRO PROFISSIONAL Artigo apresentado ao curso de graduação em enfermagem da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Título de Bacharel em Enfermagem. Orientadora: Maria Liz Cunha de Oliveira Brasília-DF 2012 2 O ERRO DE ENFERMAGEM COMO NOTÍCIA VEICULADA NA MÍDIA TELEVISIVA: UMA CONTRIBUIÇÃO NA DISCUSSÃO SOBRE O ERRO PROFISSIONAL ANNA PAULLA DE SOUZA BORGES JÔNATAS DANTAS FERNANDES RESUMO O presente estudo teve como objetivos a análise das reportagens de telejornais, com matérias referentes ao erro profissional na enfermagem e a partir desta observação levantar uma discussão a respeito da qualidade do ensino dado pelas escolas de enfermagem brasileiras e sobre o conhecimento social existente a respeito da profissão. A pesquisa é exploratória, descritiva, empírica e com abordagem qualitativa. A busca de noticias sobre o erro de enfermagem teve como fonte o site youtube.com, com o uso da expressão “erro de enfermagem” como palavra chave. Os critérios de inclusão foram vídeos que retratam notícias referentes aos erros de profissionais de enfermagem no período de 2010 a 2012, em três emissoras brasileiras de televisão. Foram selecionados 12 (doze) vídeos, destes 04 (quatro) eram repetidos ou abordavam o mesmo erro. Destacamos 08 (oito) vídeos que possuíam a reportagem completa e se referiam ao objeto de estudo. O estudo nos apontou que a sociedade e as entidades de classe precisam estar atentas ao sujeito que comete o erro, técnico em enfermagem, auxiliar em enfermagem e enfermeiro, pois a mídia não explica a diferença de funções entre as categorias. Podemos afirmar que a mídia televisiva utiliza estratégias no processo de comunicação, com técnicas que podem persuadir os telespectadores sobre um ou mais argumentos, contribuindo para o resgate da imagem negativa do enfermeiro. Descritores: Enfermagem, Erros de medicação. 1. INTRODUÇÃO Os meios de comunicação são oniscientes, fornecendo conhecimentos, provocando emoções e estabelecendo uma moral comum. Dentre os meios de comunicação, destacamos a televisão por esta combinar a utilização simultânea de dois sentidos do ser humano, a visão e a audição. Sem contar que uma noticia de grande impacto, afeta as pessoas no lado emocional. Dependendo da intensidade, uma imagem que aparece no ar por escassos 15 segundos permanece na mente do telespectador por muito tempo, às vezes, para sempre. Se a televisão se impõe pela informação visual, ela prende a atenção do telespectador pela informação sonora. São características próprias de sua natureza como meio de comunicação (1) . A informação via televisiva atinge tanto os analfabetos quanto os letrados, os quais a recebem mesmo sem ter ido à sua procura. Os meios de comunicação afetam profundamente as atitudes da comunidade, as estruturas políticas e o estado psicológico de todo um país. A mídia pode alterar o curso de uma guerra, arrasar um presidente ou um rei, elevar os humildes e humilhar os orgulhosos. Os efeitos colaterais da mídia demonstram o mistério de seu funcionamento. Freqüentemente tais efeitos são mais poderosos do que a mensagem pretendida (2). A mídia é um espaço público mediado de poderes e conflitos, em um espaço de competição que é considerado como um campo de lutas, sendo caracterizado por agentes sociais devidamente posicionados, ou seja, em lados opostos (3). 3 Nesse campo de lutas, a arma é o discurso, que na teoria da comunicação envolve o emissor (aquele que produz a mensagem), o receptor (aquele a quem a mensagem é transmitida), a mensagem (elemento material), o código (sistema linguístico), o canal (conjunto de meios sensoriais ou materiais pelos quais a mensagem é transmitida) e o referente (situação que a mensagem remetente), que fazem parte do contexto da técnica de explicação da técnica de argumentação (3). No Brasil, especificamente, a mídia trabalhou mais no sentido de amedrontar do que propriamente de educar. Outra maneira de chamar a atenção do leitor é a utilização de uma linguagem técnica referente ao americano E.K. Strong no inicio do século XX, denominada AIDA (Atenção, Interesse, Desejo e Ação), partindo do seguinte pressuposto: “(...) para conquistar uma pessoa, vender-lhe um produto ou uma idéia qualquer, precisamos captar sua atenção, seu interesse, seu desejo e, por fim leva-lo à ação” (3-4). Não basta chamar o cidadão para ação é necessário que a mídia tenha responsabilidade de promover informação de qualidade já que esta desempenha um papel social diante da população; papel que é um dos requisitos mais importantes em uma sociedade informada: a formação de opinião (5). Sendo assim, os meios de comunicação não podem se eximir da função de debater os processos de socialização, e principalmente relacionado aos erros de enfermagem. Dessa forma, o objetivo deste trabalho foi analisar as reportagens de telejornais, com matérias referentes ao erro profissional na enfermagem e a partir desta observação levantar uma discussão a respeito da qualidade do ensino dado pelas escolas de enfermagem brasileiras e sobre o conhecimento social existente a respeito da profissão. A justificativa para elaboração do estudo é contribuir com a discussão sobre a polêmica do erro profissional, relacionado aos erros de enfermagem, onde muitas mortes poderiam ser evitadas. 2. METODOLOGIA A presente pesquisa realizada é exploratória, descritiva, empírica e com abordagem qualitativa. A coleta de dados ocorreu no período de janeiro a outubro de 2012 e teve como fonte o site youtube.com, onde foi escrita a palavra chave erros de enfermagem. Os critérios de inclusão foram vídeos que retratam notícias referentes aos erros de profissionais de enfermagem no período de 2010 a 2012, em três emissoras brasileiras de televisão, sendo elas: TV Globo, TV Record e TV Bandeirante, tendo como divulgadores das reportagens, os seguintes telejornais: Jornal Hoje e Fantástico (TV Globo), Fala Brasil (TV Record) e Brasil Urgente (TV Bandeirante) de audiência em todo o território nacional. Todas as reportagens pesquisadas estão relacionadas à prática, onde o erro de enfermagem pode ser verificado. Os critérios de exclusão foram vídeos que possuíam reportagens não relacionadas ao objeto de estudo, aqueles que não possuíam características de telejornais e os que não estavam entre os mais vistos do site. 3. ANÁLISE DOS DADOS Para estudar os vídeos, utilizamos como estratégia o seu desmonte com base na análise do discurso e na compreensão das explicações técnico – argumentativas do conteúdo das notícias e suas estratégias de comunicação no referencial teórico de Platão e Fiorin (6). A forma de análise do discurso utilizada nesta pesquisa foi categorial temática, de onde selecionamos três categorias. A primeira delas é a imperícia decorrente da “falta de 4 observação das normas técnicas”, “por despreparo prático” ou “insuficiência de conhecimento”. É a mais freqüente na iniciativa privada por motivação mercantilista. A segunda categoria é a imprudência, donde nasce o erro quando o profissional por ação ou omissão assume procedimentos de risco para o paciente sem respaldo científico ou, sobretudo, sem esclarecimentos à parte interessada. A terceira é a da negligência, a forma mais frequente de ocorrência dos erros de enfermagem no serviço público. Esta é caracterizada quando o profissional trata com descaso ou pouco interesse os deveres e compromissos éticos com o paciente e até com a instituição (7). Para a elaboração da tabela utilizamos as variáveis: ano, local de ocorrência, classificação dos erros de enfermagem, além da categorização temática de cada erro nas categorias já citadas anteriormente, sendo elas imperícia, imprudência e negligência. Por se tratar de um estudo com dados coletados de matérias veiculadas pela mídia televisa, tendo assim ampla divulgação pública, não é necessário solicitar autorização do comitê de ética. 4. RESULTADOS Foram selecionados 12 (doze) vídeos, destes 04 (quatro) eram repetidos ou abordavam o mesmo erro. Destacamos 08 (oito) vídeos que possuíam a reportagem completa e se referiam ao objeto de estudo. Os resultados serão apresentados com o resumo do conteúdo da reportagem, buscando oferecer ao leitor uma noção da matéria veiculada, pois seria inviável apresentar todas as notícias na íntegra em um estudo como este, motivo pelo qual optamos por resumí-las. 1. Enfermeira aplica vaselina ao invés de soro e S.S.T. morre. “A garota de apenas 12 anos passou mal na tarde da última sexta feira, ela foi levada pela família para o Hospital Municipal São Luiz Gonzaga, zona Norte da cidade de São Paulo. Com sintomas de uma virose, S.S.T. foi colocada para tomar soro, como reagiu bem ao tratamento o médico informou à família que ela receberia alta, familiares viram quando uma enfermeira colocou um terceiro soro na menina e acharam estranho o fato do frasco ser de vidro, diferente dos outros que eram de plástico. Ela foi levada para a UTI e depois para outro hospital, a Santa Casa de Misericórdia, onde morreu cinco horas depois (Fala Brasil, Record, 04/12/2010). 2. Em Brasília uma enfermeira trocou o frasco na hora de vacinar um bebê de cinco meses. “Quando chegou em casa a mãe abriu o cartão de vacina do bebê de cinco meses e viu um recado anotado, na mensagem a enfermeira diz que errou ao aplicar a vacina pneumo10 e pede para que na próxima ida da criança ao posto seja aplicada a vacina correta, meningite C” (Fala Brasil, Record, 10/12/2010). 3. Uma enfermeira injetou suplemento alimentar na veia de um garoto de quatro anos. “A polícia investiga se uma enfermeira injetou por engano suplemento alimentar ao invés de soro na veia de um menino de quatro anos. O possível erro médico aconteceu no São Luís, hospital particular na zona sul de São Paulo. A criança foi internada há duas semanas para tratar de uma pneumonia e deveria ter alta neste fim de semana. Segundo a família, o 5 menino começou a se sentir mal depois de ter sido atendido pela enfermeira. A família acusa o hospital por erro médico e registrou um boletim de ocorrência.” (Jornal Hoje, Globo, 14/01/2011). 4. Auxiliar de enfermagem comete erro e corta parte do dedinho de uma criança de um ano no momento que ia tirar o esparadrapo, em um Hospital Público em São Paulo. “A menina de um ano já tinha recebido alta, só faltava retirar o esparadrapo que imobilizava a mão direita colocado para ela tomar soro, a auxiliar de enfermagem entrou no quarto e usou uma tesoura.” (Jornal Hoje, Globo, 30/01/2011). 5. M. L passou mal foi levada ao hospital e foi vítima de um erro por uma auxiliar de enfermagem. “M.L., 78 anos, moradora do município de Missão Velha, no interior do Ceará, passou mal, sentindo cansaço, dificuldade de respirar, foi levada para o hospital e acabou sendo vítima de um erro de uma auxiliar de enfermagem. De madrugada dona M. L. foi transferida as pressas para o Hospital Maternidade de São Vicente de Paulo, às 7h da manhã M. L. faleceu. Causa da morte embolia pulmonar por infusão de glicerina, no lugar do soro a auxiliar de enfermagem do hospital de Missão Velha injetou a substância oleosa usada para lavagem intestinal” (Fantástico, Globo, 23/09/2011). 6. Por conta de um erro grosseiro um bebê de 13 dias morreu em um hospital público em São Paulo, uma auxiliar de enfermagem injetou leite na veia de um recém-nascido. “K. A. S. havia nascido prematuro com sete meses e estava na UTI do Hospital e Maternidade Municipal Professor Mário Dégni, zona oeste de SP. Durante 13 dias recebia soro e medicamentos por uma sonda no pescoço, enquanto o leite materno passava por uma sonda nasal, na madrugada de segunda feira a enfermeira trocou e injetou o leite na veia do bebê, segundo o pai a equipe médica demorou para assumir o erro” (Brasil Urgente, Bandeirante, 08/11/2011). 7. Uma senhora de 88 anos morreu, depois de receber sopa na veia. “I. V. M. tinha 88 anos, a paciente tentava superar as conseqüências de um derrame, com boas possibilidades de voltar para casa, ela era mantida na enfermaria. A mesma se alimentava pela sonda e recebia medicamentos na veia. Uma enfermeira se confundiu e acabou injetando sopa na veia da idosa. A idosa recebeu atendimento, mas morreu poucas horas depois.” (Brasil Urgente, Bandeirante, 11/10/2012). 8. Estagiária injetou café com leite na veia de uma senhora de 80 anos. “A estagiária que injetou café com leite na veia da paciente admite que não tinha preparo. O erro dela custou a vida de uma senhora de 80 anos. ‘Injetei o leite, e botei pelo lugar errado.’ Era o seu terceiro dia de estágio para ser técnica em enfermagem. R.T junto com outra estagiária fez um procedimento que sabia que não podia fazer, no domingo passado, provocando a morte de uma senhora de 80 anos.” (Fantástico, Globo, 22/10/2012). 6 O sensacionalismo exibido nas manchetes é: o sexo, o sangue, o drama e o crime, fazendo vender notícias e aumentando o índice de audiência (8-9). Contudo neste estudo destacam-se o sangue e o crime como formas de sensacionalismo, evidenciando o erro cometido por profissionais da área de enfermagem durante o exercício de suas funções. Em outras palavras, quem seleciona as matérias reconhece que deve chamar a atenção do telespectador, destacando o assunto, num texto bem construído da manchete, induzindo-o a ver a reportagem. As manchetes, segundo Rosa e Cunha, são constituídas de: “um sujeito (alguém que faz algo), um verbo (o que o sujeito faz), um complementador do verbo, esclarecedor” (5). Na primeira manchete, por exemplo, “Enfermeira aplica vaselina ao invés de soro e S.S.T. morre”, observamos todos os elementos descritos por Rosa e Cunha e o sensacionalismo presente nas manchetes, dando ênfase para o fato de que nas reportagens o telespectador vai encontrar que a profissional em questão é na verdade uma auxiliar de enfermagem e não uma enfermeira como o termo realçado na manchete afirma. Das reportagens selecionadas, duas se tratam do profissional enfermeiro, “Uma enfermeira injetou suplemento alimentar na veia de um garoto de quatro anos” e “Em Brasília uma enfermeira trocou o frasco na hora de vacinar um bebê de cinco meses”, ou seja, no caso, realmente foi este profissional que cometeu o erro. Sendo que outras três reportagens se referem ao profissional enfermeiro de forma equivocada, não sendo o mesmo, responsável diretamente por tais erros, “Enfermeira aplica vaselina ao invés de soro e S.S.T. morre”, “Por conta de um erro grosseiro um bebê de 13 dias morreu em um hospital público em São Paulo, uma auxiliar de enfermagem injetou leite na veia de um recém-nascido” e “Uma senhora de 88 anos morreu, depois de receber sopa na veia”. Assistindo a essas reportagens, percebe-se que na verdade duas auxiliares e uma técnica de enfermagem respectivamente que cometeram os erros. A reportagem “Estagiária injetou café com leite na veia de uma senhora de 80 anos”, só confirma a crise na formação profissional em enfermagem, demonstrando a precariedade de algumas instituições e o despreparo dos futuros profissionais, agravando assim a desvalorização e a deficiência da própria trajetória acadêmica. Portanto, ao passo que uma matéria destaca um erro cometido por um profissional, seja a qual área pertencer, ela automaticamente gera para a opinião pública, o questionamento a respeito da qualidade da formação deste profissional. 7 Tabela 1 – Processo de sistematização analítica das reportagens televisivas. Imagem principal do vídeo Identificação da reportagem 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. Ano 2010 2010 2011 2011 2011 2011 2012 2012 Local São Paulo Brasília São Paulo São Paulo Ceará São Paulo Rio de Janeiro Rio de Janeiro Classificação do erro Categorização Administração de medicamento incorreto. Imprudência/ Administração de medicamento incorreto. Imprudência/ Via de administração incorreta. Imprudência/ Retirada de curativo. Negligência Negligência Negligência Imperícia Administração de medicamento incorreto. Imprudência/ Via de administração incorreta. Imprudência/ Via de administração incorreta. Imprudência/ Via de administração incorreta. Imperícia/ Referências imagens retiradas do site youtube; Imagem 1: http://www.youtube.com/watch?v=UZ5FF4Gif_4; Imagem 2: http://www.youtube.com/watch?v=X6BNrNHR4K0&feature=related; Imagem 3/4: http://www.youtube.com/watch?v=dA3rZoPv2kg&feature=related; Imagem 5: http://www.youtube.com/watch?v=l6D9rRqZyHI&feature=related; Imagem 6: http://www.youtube.com/watch?v=-orWKXrdIL0&feature=fvwrel; Imagem 7: https://www.youtube.com/watch?v=Es0ixysKcfQ; Imagem 8: http://www.youtube.com/watch?v=ipHaFVb4jCY. Negligência Negligência Negligência Negligência 8 5. DISCUSSÃO A linguagem utilizada pela mídia televisiva com base na técnica denominada AIDA mencionada por Rosa e Cunha, denuncia os erros dos profissionais de enfermagem quando os seus usuários são acometidos, sendo divulgados na mídia pelos noticiários com articulação ao seu conteúdo noticioso. Dessa forma a notícia passa ser convincente através da seriedade, declarações e argumentações fortes, com provas concretas, sendo exatamente a forma de exploração para vender notícia com vista a fazer com que o leitor possa ser levado a uma determinada ação (5-4). O reflexo do erro atinge os pacientes, os profissionais da saúde e a instituição, comprometendo sua imagem na qualidade do atendimento, e provocando desconfiança nos clientes que, quando necessário, não retornam à instituição, além de gerar custos elevados, multas e processos institucionais. Para os profissionais da saúde há punições que vão desde advertências verbais e/ou escritas, demissões e algumas vezes enfrentamento de processos civis, penais e éticos. Tendo como resultado, em algumas situações, o impedimento do exercício legal da profissão e custos emocionais, como sentimento de culpa, depreciação da imagem e demissão voluntária (10-11). Em um estudo conduzido em 36 instituições hospitalares americanas demonstrou que erros potencialmente perigosos ocorrem mais de 40 vezes por dia em um hospital de 300 leitos e que um paciente está sujeito, em média, a dois erros por dia. De acordo com a Agency for Healthcare Research and Quality, mais de 770.000 pacientes hospitalizados sofrem algum tipo de dano ou morte a cada ano por um evento medicamentoso adverso (12). Dados apontados em um relatório de notificação da United States Pharmacopeia (USP) sinalizam que estudos apresentaram frequências de 18% e 19% de erros de via, entre todos os erros de medicação. Para evitar erros de via, o profissional da saúde deve ler a prescrição médica com atenção e atentar para os cinco certos, que inclui via certa (13-14). A contínua educação dos profissionais da saúde pode auxiliar na diminuição desses erros com medicamentos. É indispensável à participação de todos os profissionais envolvidos nas etapas do processo de medicação, incluindo médicos, farmacêuticos, auxiliares de farmácia, enfermeiros, técnicos de enfermagem; todos sem distinção devem passar por reciclagens e treinamentos periódicos. Contudo essas mudanças, para serem eficazes, devem estar vinculadas a modificações de estrutura hospitalar (15). A associação entre sobrecarga de trabalho e falta de atenção, somada à inexperiência, potencializa a ocorrência de erros. O número de escolas técnicas em nosso país aumentou significativamente nos últimos anos, com promessas de campos de trabalho, bons salários e baixas cargas horárias. Essa oferta exagerada de cursos, muitos com docentes despreparados e com estrutura física inadequada, formam profissionais despreparados e desqualificados para enfrentar a complexidade que é uma unidade de saúde (15). A aplicabilidade da punição tem sido considerada ineficaz na maioria das instituições de saúde; porém, inconsciente ou conscientemente, os profissionais continuam vivenciando esse medo, associado à vergonha. Quando ocorre o erro, a tendência é escondê-lo, perdendose uma grande oportunidade de aprendizado. A mídia é um inimigo em potencial nessa questão, já que os profissionais se sentem expostos e desprotegidos. Profissionais de enfermagem realizam administrações de soluções intravenosas rotineiramente. Administrar um fármaco a um paciente corretamente, parece simples, entretanto um enfermeiro pode administrar mais de 100 mil fármacos durante toda sua carreira, por vezes em circunstâncias desfavoráveis, e, assim, é difícil esperar que não cometa erros, principalmente quando não dispõe de sistemas de prevenção (15). Quando a mídia chama a atenção para os erros ocorridos na assistência hospitalar referentes à profissão de enfermagem, em muitas reportagens são utilizadas as expressões “a 9 enfermeira cometeu um erro de procedimento”, “a enfermeira responsável pelo erro” ou “o erro cometido pela enfermeira”. Estas expressões utilizadas são generalistas quanto à identificação do profissional. A manchete não deve enganar o telespectador no conteúdo da notícia, ou seja, o título da notícia não deve levá-lo a pensar uma coisa quando na verdade é outra, fazendo sensacionalismo, não sendo uma matéria jornalística, bem como devemos observar que os verbos nas notícias costumam vir no presente do indicativo (5). Quando um paciente relata ter falado com a enfermeira ou ter sido atendido pela mesma pode estar se referindo tanto a esse profissional como a técnicos ou auxiliares de enfermagem. Ainda não é clara para a sociedade a distinção entre as categorias profissionais de enfermagem, embora, no que se refira às competências e atribuições de cada profissional, a distinção seja grande. Por exemplo, na manchete “Enfermeira aplica vaselina ao invés de soro e S.S.T. morre” (Fala Brasil, Record, 04/12/2010), a mídia se refere a uma enfermeira quando na verdade foi uma auxiliar de enfermagem que cometeu o erro, levando o telespectador a acreditar na primeira informação, não sabendo diferenciar as categorias de enfermagem e suas distintas funções. Enfermeiros são profissionais de nível superior, que fizeram cursos de graduação, em nível integral ou parcial, nos quais são oferecidos conteúdos diversos que fundamentam os cuidados de enfermagem necessários à proteção, promoção, recuperação e reabilitação da saúde nos diferentes ciclos da vida do ser humano. De acordo com a legislação dos profissionais de enfermagem decreto de nº 94.406/87 art. 8° (16). Ao enfermeiro incumbe: I – privativamente: a) Direção do órgão de enfermagem integrante da estrutura básica da instituição de saúde, pública ou privada, e chefia de serviço e de unidade de enfermagem; b) Organização e direção dos serviços de enfermagem e de suas atividades técnicas e auxiliares nas empresas prestadoras desses serviços; c) Planejamento, organização, coordenação, execução e avaliação dos serviços da assistência de Enfermagem; d) Consultoria, auditoria e emissão de parecer sobre matéria de Enfermagem; e) Consulta de Enfermagem; f) Prescrição da assistência de Enfermagem; g) Cuidados diretos de Enfermagem a pacientes graves com risco de vida; h) Cuidados de Enfermagem de maior complexidade técnica e que exijam conhecimentos científicos adequados e capacidade de tomar decisões imediatas. O Auxiliar de enfermagem possui ensino fundamental completo e realiza um curso técnico de 900 horas, sendo capacitado para realizar as funções de troca de roupa de cama, cuidados com a alimentação e higiene do paciente, verificação da pressão arterial e aplicação de injeção. O Técnico em enfermagem possui ensino médio completo e realiza um curso técnico de 1.800 horas, sendo responsável pela administração de medicamentos e soro. Já o enfermeiro possui ensino superior completo com a realização de um curso superior com 5 (cinco) anos de duração, sendo responsável por todos os procedimentos em enfermagem, além de possuir capacitação para cuidar de pacientes graves e colocação de sonda ou cateter. Assim, um dos aspectos a considerar na prática da enfermagem brasileira é a proporção de profissionais de nível médio, que ainda se apresenta muito maior à de profissionais de nível superior. Desse modo, na prática observa-se que grande parte das ações de enfermagem acaba sendo realizada por profissionais de nível médio, que possuem 10 conhecimentos e habilidades técnicas capazes de permitir o desenvolvimento de atividades práticas de menor complexidade, pois não possuem conhecimentos científicos que sustentem o planejamento da tomada de decisão necessária para a implementação do cuidado de enfermagem e, sendo assim, devem seguir orientações, prescrições e desenvolver todas as funções sob a supervisão direta de um enfermeiro (13). Nesse contexto identifica-se que o desenvolvimento das atividades e o cuidado de maior complexidade devem ser executados exclusivamente pelo enfermeiro, que, além de desenvolvê-las, deve planejar e supervisionar todas as demais ações executadas pela equipe de enfermagem. Esse excesso de atribuições e atividades do enfermeiro, não diretamente vinculadas á realização do cuidado de enfermagem prestado ao paciente, pode predispor a ocorrência de erros na assistência de enfermagem, pois produzem uma sobrecarga de trabalho e de responsabilidade tanto para os próprios enfermeiros como para técnicos e auxiliares, fazendo com que as atividades sejam, por vezes, inexequíveis, conforme formas planejadas, ou deveriam ser implementadas para garantia e segurança do paciente (17). A ocorrência de erros no exercício profissional faz com que o enfermeiro tenha sua imagem denegrida, perda do emprego, acusação em processos civis, legais e éticos, além de incorrer no risco de impedimento do exercício profissional. Por sentir medo de represálias, aqueles que trabalham em organizações de saúde onde a cultura é de punição individual e não de segurança, não notificam as ocorrências de erros, prejudicando o conhecimento dos fatores de risco, por parte dos gestores, assim como a construção de medidas capazes de impedir a repetição dos mesmos (18-19). É preciso consciência, segurança e conhecimento para efetuar a preparação e administração de medicamentos. Dúvidas e dificuldades não esclarecidas levam à insegurança e à incerteza, e isso se torna um fator de risco para a ocorrência de erros no processo de enfermagem (15). 6. CONCLUSÃO Reconhecemos que no estudo algumas lacunas permaneceram, por exemplo, os recursos gráfico-visuais, que são estratégias de impacto na comunicação, ou seja, são aparatos técnicos utilizados pela mídia para atrair o telespectador, que não foram discutidos neste estudo. Foi realizada a abordagem e análise do crescente enfoque dado pela mídia para com a profissão de enfermagem, por consequência da grande ocorrência de erros envolvendo a profissão, além de propor discussões, das quais destacamos a apresentação à sociedade dos atores protagonistas dos erros, das diferenças e funções das categorias de enfermagem existentes, sendo elas, auxiliar de enfermagem, técnico de enfermagem e enfermeiro. Além da atenção que deve ser dada quanto ao interesse recente da mídia televisiva em explicitar os erros de enfermagem, expondo os casos relacionados aos erros cometidos pela profissão e levando a uma reflexão sobre a formação destes profissionais. Portanto, conforme relatamos no início, o presente estudo se justifica pela contribuição da discussão sobre o erro profissional, relacionado aos erros de enfermagem, no sentido de uma ampla polêmica pela sociedade e pelos profissionais da área, o que aqui tentamos fazer de uma forma sistematizada, conforme preconiza a metodologia da pesquisa, para contribuir no debate. O estudo nos apontou que a sociedade e as entidades de classe precisam estar atentas ao sujeito que comete o erro, técnico em enfermagem, auxiliar em enfermagem e enfermeiro, pois a mídia não explica a diferença de funções entre as categorias. Podemos afirmar que a 11 mídia televisiva utiliza estratégias no processo de comunicação, com técnicas que podem persuadir os telespectadores sobre um ou mais argumentos, contribuindo para o resgate da imagem negativa do enfermeiro. O que vemos é que levamos a vida inteira para construir uma reputação e em menos de um minuto podemos ver tudo que construímos, destruído. NURSING ERROR PUBLISHED ON MEDIA TELEVISION: A CONTRIBUTION TO THE DISCUSSION ON PROFESSIONAL ERROR. ABSTRACT The objective of this study was analyze the reports of TV news, with articles relating to professional misconduct in nursing and from this observation to draw conclusions about the quality of education given by nursing schools in Brazil and the existing social knowledge about the profession. The research is exploratory, descriptive and qualitative approach. A search of news about the error of nursing had the source the site youtube.com, using the term "nursing error" as keyword. Inclusion criteria were videos that depict news regarding the errors of nurses in the period from 2010 to 2012 in three Brazilian television stations. We selected 12 (twelve) videos, from these four (04) were repeated or addressed the same mistake. Eight (08) videos that possessed the full report and referred to the object of study were chosen. The study showed that the society needs to be attentive to the guy who makes the mistake, technical, nursing, auxiliary nursing and nurses, because the media does not explain the difference between the categories. We said that this use of strategies in the communication process with techniques that can persuade viewers on one or more arguments. Descriptors: Nursing, Medication errors. 12 7. REFERÊNCIAS 1. SOARES FC. Tecnologia na educação: televisão no âmbito escolar [dissertação]. Divinópolis: Universidade do Estado de Minas Gerais, Fundação Educacional de Divinópolis; 2008. 2. SCHWARTZ T. Mídia: o segundo deus. São Paulo: Summus Editorial; 1985. 3. PORTO F, LUCA NASCIMENTO MA. O parto como notícia veiculada na mídia escrita: uma contribuição na discussão sobre o Enfermeiro obstetra realizar o parto. Esc. Anna Nery Rev. Enferm. 2002; vol. 6 (núm. 3): Dez. pp. 501- 513. 4. ROSA JA, CUNHA TCG. Jornal de empresa: administração. São Paulo: Editora STS; 1999. criação, elaboração e 5. 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