VIII Seminario Regional (Cono Sur) ALAIC
“POLÍTICAS, ACTORES Y PRÁCTICAS DE LA COMUNICACIÓN:
ENCRUCIJADAS DE LA INVESTIGACIÓN EN AMÉRICA LATINA”
27 y 28 de agosto 2015 | Córdoba, Argentina
América Latina “na gringa”. Notícias e imagem
latino-americanas pelo correspondente internacional
do jornal The Guardian
Latin America “na gringa”. Latin American news and image by The Guardian
international correspondent
Maria Carolina VIEIRA
Universidade Estadual Paulista (Brasil)
[email protected]
Resumo
Em pesquisas anteriores de comunicação, definiu-se o termo “olhar estrangeiro”, o qual teria a
capacidade de denegrir ou mesmo mistificar a imagem não apenas que outros têm de certa
identidade, mas também a imagem que se constrói de si próprio. Diversas são as instituições
que possuem este poder de influência, denominado por muitos de “poder cultural”. A mídia, que
se orienta para a produção em larga escala e a difusão generalizada de formas simbólicas no
espaço e no tempo, é uma destas instituições. Partindo deste enfoque, podemos destacar
como produtora e difusora de amplo espectro não só a mídia internacional, mas também a
própria figura do correspondente internacional que, embora seja uma função em crise por conta
das mudanças estruturais nas redações, ainda cumpre o papel de formador de opiniões sobre
o país ou região de que reporta. Por este papel ele chega a ser considerado um verdadeiro
orientador cultural.
Tomando tais contextos como ponto de partida, este trabalho propõe um estudo sobre o olhar
estrangeiro construído sobre a América Latina a partir das matérias escritas pelo
correspondente internacional alocado no território latino-americano, Jonathan Watts, do jornal
inglês The Guardian. O The Guardian é visto como um dos melhores jornais do mundo da
atualidade, com destaque para sua tradição no jornalismo internacional. O periódico inglês já
reportava sobre a América Latina desde o século XIX e possui correspondente internacional
fixo na América do Sul desde a década de 90. Usando a análise de conteúdo como aporte
metodológico para sistematizar as matérias produzidas dentro do recorte do primeiro trimestre
de 2015, é possível, então, quantificar os temas e países mais abordados pelo correspondente
do jornal no período. A partir desta primeira análise, o trabalho se propõe, então, a fazer uma
análise mais ampla de três reportagens: uma sobre o Brasil, primeiro país em quantidade de
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matérias; uma sobre a Argentina, segundo país reportado; e uma sobre a visão geral da
América Latina, assunto central de três matérias em um todo de 27 textos. Com tal análise,
este trabalho tem como objetivo buscar quais temas latino-americanos são considerados
notícia pela mídia internacional (no caso, representada pelo jornal The Guardian), e, dentro
desta seleção noticiosa, qual a imagem que se forma da América Latina e seus habitantes
entre o leitorado estrangeiro, imagem a qual poderia, de certa forma, influenciar a visão que os
próprios latino-americanos têm de sua realidade.
Abstract
Previous communication researches has defined the “foreign view”, which would have the
capacity to denigrate and mythicize not only the image others have of some identity, but also
the one that this identity builds of itself. Many institutions own this symbolic power, often called
“cultural power”. The media, conducting itself to the large-scale production and generalized
diffusion of symbolic forms on the space and time, is one of these institutions. Based on this
approach, we can highlight as broad-spectrum producer and diffuser not only the international
media but also the international correspondent. This journalistic function, although in crisis
because of the structural changings on the communication offices, still fits the opinion maker
role about the country or region from where he reports. For this role, he can be considered a
truly cultural leader.
Taking these contexts as a starting point, this article intends a study about the foreign view
about the Latin America, built in the material written by the Latin American international
correspondent of The Guardian newspaper, Jonathan Watts. The Guardian is known to be one
of the best newspaper in the world on the present days, with tradition in the international
journalism. The British daily journal has been reporting about Latin American since XIX century
and it has been employing an international correspondent in South America since the 90’s.
Using the content analysis as methodological contribution to systematize the texts produced on
the first trimester of 2015, it is possible to quantify the most addressed themes and countries by
The Guardian correspondent on the period. After this first analysis, the article then intends make
a deep observation of three journalistic articles: one about Brazil, the most reported country,
one about Argentina, the second most reported country, and one about the general view about
Latin America, main topic on three texts on a total of 27. With this complete study, this article
has the goal of verify which Latin American topics the international media (in this case,
represented by The Guardian), considers to be worth news and, in this news selection, what is
the image that is built about Latin America and its habitats among the foreign readers. Image
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that could, in certain ways, influence the view that the Latin Americans themselves have of their
own reality.
Palavras-chaves: jornalismo internacional, correspondente internacional, representações
midiáticas, América Latina, The Guardian.
Key Words: international journalism, international correspondent, media representation, Latin
America, The Guardian.
1. Introdução
Ao buscar analisar as imagens construídas sobre determinado tema, país ou grupo de pessoas
pela mídia, seja por um veículo impresso, audiovisual, local ou internacional, é difícil não tomar
como ponto de partida a questão do poder cultural que ela toma para si. Thompson (p. 42,
2005) usa o termo “poder simbólico” para se referir à capacidade de intervir no curso de
acontecimentos, influenciar as ações dos outros e produzir eventos por meio da produção e da
transmissão de formas simbólicas. Entre os detentores deste poder, estariam as instituições
midiáticas, que “se orientam para a produção em larga escala e a difusão generalizada de
formas simbólicas no espaço e no tempo” (THOMPSON, p. 43, 2005). Nos restringindo à
editoria internacional, esta capacidade não seria diferente, o que levou à sua escolha para
objeto de estudo deste trabalho – no caso, a do jornal inglês The Guardian.
Além de se manter como uma editoria importante no quadro geral dos veículos de
comunicação, muito pelo fato de que “publicar notícias sobre outros países sempre foi
associado a prestígio para o veículo jornalístico que as divulgasse” (LINS DA SILVA, 2011, p
25), o jornalismo internacional carrega a função de reportar diferentes culturas de diferentes
países a um leitorado local. Dessa forma, constrói mais frequentemente símbolos e imagens
sobre tais países e sua população, que acabam sendo levados para fora de suas fronteiras,
muitas vezes sem o filtro do olhar local. O “filtro”, ou a solução para este dilema de choque
entre realidades, se faz presente pela atuação do correspondente internacional. O
correspondente, “jornalista sediado em um país que não o seu de origem com a missão
remunerada de reportar fatos e características dessa sociedade em que vive para a audiência
da sua nação materna por meio de um veículo de comunicação” (LINS DA SILVA, 2011, p. 15),
é por muitos considerado um orientador cultural:
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“É muito comum que ele se ache não apenas a elite da elite, mas também um
guia das massas, influência fundamental no processo de decisões políticas, orientador
cultural de seu público, formador de opiniões a respeito do país de que reporta.
Provavelmente ele é muito menos do que se imagina, embora naturalmente um pouco
disso tudo a maioria realmente seja”. (LINS DA SILVA, 2011, p. 118)
Além de carregar esta responsabilidade, é o correspondente internacional que precisa lidar
com questões tão rotineiras quanto inerentes à editoria focada nas notícias estrangeiras. Entre
elas, o risco de se nacionalizar no país em que se encontra sediado (LINS DA SILVA, 2011, p.
33), ou ainda outras, listadas por Natali (2004), como o manejo de reclamações sobre o viés
partidário na apresentação da notícia; o pouco acesso a fontes que estão na origem da
informação publicada, já que este sofre intermediação de agências, consulados e
comentaristas estrangeiros; e, claro, as limitações oriundas de trabalhar com uma língua
estrangeira. O correspondente também não fica ileso das restrições financeiras das empresas
midiáticas, que atualmente reduzem ao máximo os repórteres in loco, optando por conteúdos
produzidos por colaboradores locais ou via internet, devido, claro, às vantagens econômicas.
Diante de tantos desafios e seu importante papel na construção final do que vem a ser o
noticiário internacional de um veículo, priorizou-se, neste trabalho, os textos referentes não
somente à América Latina na editoria internacional do jornal The Guardian, mas também
aqueles que tiveram como produtor o correspondente alocado na área, o jornalista Jonathan
Watts.
Por fim, à frente de certas mudanças no jornalismo internacional, como as causadas pela
influência dos cortes de orçamento – oriundas da adaptação à realidade mercadológica – e
pelas novas funções atribuídas a seus repórteres – já que, muitas vezes, é um único
correspondente internacional que precisa dar conta de todo o trabalho – ao menos uma
característica permanece praticamente intacta: sua gigantesca guilhotina da notícia. É a
maneira de Natali (2004, p. 10) de dizer que nenhuma outra editoria precisa utilizar critérios tão
refinados e qualificados de seleção. Tal afirmação nos leva, então, à teoria do gatekeeper, para
a qual o processo de produção da informação é concebido como uma série de escolhas onde o
fluxo de notícias tem de passar por diversos gates, isto é, ‘portões’” (TRAQUINA, 2005, p. 150),
sendo tais portões as áreas de decisão nas quais o jornalista escolhe se a informação é ou não
notícia. Porém, ao contrário do que o autor acredita ser um processo subjetivo e arbitrário,
baseado em um conjunto de experiências, atitudes e expectativas do próprio gatekeeper, o
jornalismo internacional segue um mínimo de padrão quando se refere aos valores-notícia, que
seriam “qualidades atribuídas, pelo jornalista, ao acontecimento, que permitem que o fato seja
incluído na lista dos noticiáveis” (MURAD, 2002, p. 4). Considerando isto, podemos visualizar
quais são os fatores primordiais a influenciar na determinação do que é ou não notícia sobre a
América Latina em uma editoria internacional.
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O primeiro fator a se considerar é o leitorado desta editoria. Natali afirma que ele faz parte de
um segmento minoritário, metropolitano e mais bem informado do público, o que
consequentemente o faz mais exigente. Lins da Silva complementa ao dizer que, embora não
seja massivo, este leitorado, em grande parte, “determina os rumos da sociedade” (2011, p.
55). Outro fator específico a ser ressaltado é a acessibilidade, tanto geográfica quanto editorial,
à notícia, como lembra Natali. Informações sobre países de difícil acesso ou com liberdade de
informação muito restrita dificilmente chegam aos meios de comunicação. Já partindo para os
valores-notícia clássicos do jornalismo, é presumível que eles também estejam presentes na
editoria internacional. Critérios de noticiabilidade como importância, interesse, brevidade,
qualidade da história, uma composição equilibrada do noticiário, material visual disponível,
exclusividade, entre outros listados por Murad (2002, p. 5) são acompanhados por fatores que
chegam com destaque nos dias de hoje, por exemplo, a atualidade, trazida pelo aumento da
velocidade provinda das tecnologias digitais, e a frequência, que se caracteriza pela
atualização constante das informações, a fim de “promover sua audiência por meio de uma
continuidade da cobertura informativa” (MURAD, 2002 p. 6).
2. Objetivos e perguntas de pesquisa
Partindo da base teórica a qual considera a mídia uma detentora de poder cultural e, mais
especificamente, a editoria internacional um espaço em que símbolos sobre outras culturas e
países são construídos e difundidos; o correspondente uma figura central na dinâmica do
jornalismo internacional e que atua como um importante formador de opinião ou orientador
cultural; e os valores-notícia como critérios intrínsecos na determinação do que será noticiado
ou não nos veículos midiáticos, este trabalho se propõe duas principais perguntas: “o que é
notícia sobre a América Latina na cobertura proporcionada por um correspondente
internacional?”, e “qual a imagem construída, por meio destas notícias, da América Latina?”.
Perguntas secundárias poderiam ser: “quais as razões para determinadas notícias ou temas
latino-americanos se sobreporem a outros na cobertura de um correspondente internacional?”,
e “que fatores influenciam na visão do correspondente sobre a região e de que forma resultam
na construção da imagem da América Latina no noticiário internacional?”. Para buscar tais
respostas, tomou-se como objeto de pesquisa o jornal inglês The Guardian, utilizando-se o
material produzido sobre a América Latina por seu correspondente internacional alocado na
região, Jonathan Watts, para o veículo. Ao analisar este conjunto de textos jornalísticos com a
metodologia apropriada, tem-se como objetivo buscar quais temas latino-americanos são
considerados notícia pela mídia internacional (no caso, representada pelo jornal The Guardian),
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e, dentro desta seleção noticiosa, qual a imagem que se forma da América Latina e seus
habitantes entre determinada parcela do leitorado estrangeiro, imagem a qual poderia, de certa
forma, influenciar a visão que os próprios latino-americanos têm de sua realidade.
3. Objeto de pesquisa: uma perspectiva cultural sobre o jornal The Guardian
No cenário do jornalismo inglês, é possível distinguir alguns tipos diferenciados de publicações
impressas, em especial as consideradas tabloides – mais sensacionalistas e populares – e de
referência – maior peso jornalístico e qualidade. De acordo com a classificação de Dalpiaz
(2013), este último pode ser chamado de quality newspaper (jornal de qualidade), devido à
“quantidade de reportagens sobre política e economia, com qualidade de análise e opinião
editorial, que abordam ainda educação, artes e pautas em discussão” (DALPIAZ, 2013, p. 78).
Molina (2007), vai além da Inglaterra e coloca o The Guardian entre os maiores jornais do
mundo. Este posto é conquistado por uma soma de fatores, desde a relevância atual até a
importância histórica, a influência – normalmente, maior do que o próprio lucro – na formação
da esfera pública e por se constituir em um “repertório de informações que, muitas vezes, os
historiadores recorrerão a seus arquivos (hoje, vários já são digitalizados) para fazer
pesquisas” (MOLINA, 2007, p. 12).
O The Guardian foi fundado em 1821, em Manchester, na Inglaterra, e, desde suas origens,
carrega uma tendência à defesa dos valores liberais. Sua história mostra que, muitas vezes, foi
capaz de colocar seus ideais acima de qualquer questão mercadológica ou de
descontentamento do público com suas escolhas jornalísticas, consolidando “seu prestígio
como um jornal que arriscava a sobrevivência para manter os princípios” (MOLINA, 2007, p.
356). Ele, inclusive, chegou a ser visto como um “jornal das minorias”, rótulo que, segundo
Molina, estaria se desfazendo gradualmente para focar no leitor comum. As transformações
também surgem no intuito de se adaptar aos novos leitores e aos tempos da internet, mudança
que tem se provado eficiente, já que “sua edição on-line é a mais visitada entre os jornais
ingleses (...) e é considerado o melhor jornal eletrônico do mundo, melhor do que o do The New
York Times e The Washington Post” (MOLINA, 2007, p. 370). Os investimentos na sua
plataforma on-line são decorrentes da queda das vendas do impresso – hoje, são uma média
de 176 mil exemplares diários, segundo dados de março de 2015 da ABC – e de um esforço
em ser um jornal que ultrapasse as fronteiras da Inglaterra, atendendo a um público cada vez
mais internacional.
Esta tendência recente pode ser considerada reflexo de uma forte tradição no jornalismo
internacional no The Guardian, onde “os assuntos internacionais, inclusive a América Latina e
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sua luta pela independência, receberam, desde o início, uma boa cobertura. As edições de 21
e 28 de setembro de 1822 incluíram uma longa carta do Brasil datada de 14 de julho”
(MOLINA, 2007, p. 351). O autor ainda cita a cobertura exemplar da Revolução Russa de 1914,
na qual ele “foi o único jornal que não seguiu a linha oficial ditada pela chancelaria de seu país”
(MOLINA, 2007, p. 358).
Focando na América Latina e em uma era mais recente, o The Guardian mantém
correspondentes na região desde a década de 90. Hoje, o correspondente internacional na
América Latina do The Guardian é representado por Jonathan Watts, premiado jornalista
britânico, além de autor do livro When a Billion Chinese Jump (sem tradução para o português).
Profissional por trás dos textos a serem analisados neste trabalho, Watts encontra-se sediado
no Rio de Janeiro, Brasil, e é o único correspondente fixo do jornal em todo o território latinoamericano (embora conte com a colaboração de outros jornalistas locais ou enviados de
Londres), atuando na função desde 2013. Anteriormente, ele já havia sido correspondente por
vários anos na Ásia, cobrindo China, Japão, Coréia, entre outros países, inclusive sendo o
responsável pela cobertura do tsunami que assolou mais de 14 países em 2004.
Embora correspondentes internacionais e, por consequência, Jonathan Watts, gozem de
relativa liberdade jornalística, as recomendações vindas do The Guardian são para que estes
profissionais não se restrinjam à mera reprodução das notícias locais, mas que “busquem
aprofundar as reportagens, apresentando um material analítico. A orientação editorial é que se
produzam textos sobre a cultura do país, o modo de viver das pessoas, o cotidiano” (DALPIAZ,
2013, p. 83). Porém, segundo a autora, a mesma recomendação enfrenta barreiras dentro do
próprio corpo editorial do veículo, já que “existe uma visão limitada por parte dos editores, pois
há um leque de interesse da parte deles que não comporta temas que não fazem parte de uma
ideia pré-concebida” (DALPIAZ, 2013, p. 84). São embates do tipo nós x eles que refletem,
segundo Hall (2002) um mundo em que, embora a globalização promova um afrouxamento de
fronteiras, identidades e culturas, ainda assim não deixa de ter as culturas nacionais como uma
das principais fontes de identidade cultural.
Desta maneira, certo enfoque acaba sendo predominante na cobertura jornalística do The
Guardian sobre a América Latina, o qual “segue um posicionamento editorial bastante centrado
no ‘olhar’ britânico” (DALPIAZ, 2013, p. 88). Tal olhar estrangeiro é citado por Rasia (2011) que
o caracteriza como artefato subjetivo que teria o poder de denegrir ou mitificar a ideia que
determinada cultura tem de si mesma, reforçando a visão das representações midiáticas como
processo cultural. Dessa forma, o The Guardian, objeto de estudo deste trabalho, seria mais
um exemplo dentre outros veículos midiáticos passíveis de análise que constroem e
influenciam como se vê a América Latina não só no exterior, mas também dentro dela.
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4. Metodologia, corpus de pesquisa e resultados iniciais
De maneira que o objetivo deste trabalho é analisar as notícias e a representação da América
Latina no material produzido pelo correspondente internacional Jonathan Watts e publicado no
jornal The Guardian, definiu-se a análise de conteúdo como a melhor metodologia para cumprir
tais propostos, já que esta ocupa-se basicamente “da análise de mensagens, o mesmo
ocorrendo com a análise semiótica e a análise de conteúdo. As principais diferenças entre
essas modalidades são que apenas a análise de conteúdo cumpre com os requisitos de
sistematicidade e confiabilidade” (FONSECA JUNIOR, 2009, p. 286). Ela ainda é derivada da
corrente positivista de pensamento, o que resulta na sua maior característica, apontada pelo
autor, de valorizar as “ciências exatas como paradigma de cientificidade e como referência do
espírito humano em seu estágio mais elevado” (FONSECA JUNIOR, 2009, p. 281). Assim,
trabalhando com categorizações – o tema “América Latina”, por si só, já é uma categoria dentro
do hall de assuntos abordados no período, jornal e editoria estudados – e, a partir de dados
coletados de forma sistêmica, com a interpretação destes, a análise de conteúdo foi
considerada a mais precisa para se chegar a resultados pertinentes e interessantes.
Para a pesquisa, foi feito o recorte temporal de 1º de janeiro de 2015 a 31 de março de 2015,
constituindo-se, assim, um trimestre de conteúdo jornalístico. O acesso ao material se deu por
meio do site do The Guardian, no endereço www.theguardian.com. Lá, encontram-se tanto
reportagens produzidas para o jornal impresso e posteriormente postadas no site quanto as
produzidas especialmente para o meio digital – o The Guardian, inclusive, disponibiliza uma
versão on-line de todo seu caderno em papel diário.
No período determinado para estudo, então, foi possível encontrar 27 textos produzidos por
Jonathan Watts (para efeito de pesquisa, excluiu-se da contagem cinco postagens que
continham apenas material audiovisual), distribuídos de forma irregular pelos três meses: foram
treze textos em janeiro, quatro em fevereiro e dez em março. Em relação aos países
abordados, nota-se a predominância de reportagens focadas no Brasil, localidade onde o
correspondente encontra-se alocado, como podemos ver na tabela a seguir:
País
Brasil
Argentina
América do Sul (de forma generalizada)
Nicarágua
Quantidade de textos
14
5
3
2
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Cuba
Equador
2
1
Tabela 1: países abordados nos textos de Jonathan Watts para o jornal The Guardian (1º de janeiro a 31 de
março de 2015)
A diferença numérica pode ser reflexo natural da facilidade em cobrir temas que estejam
acontecendo próximos do local em que Jonathan Watts permanece sediado. Ainda assim, é
importante ressaltar que, de 20 países latino-americanos, apenas cinco entram para a lista de
noticiados no período. A atenção ampliada dedicada ao Brasil reflete-se também na gama de
temas escolhidos para serem abordados. Enquanto os textos referentes ao contexto brasileiro
variam entre fatos noticiosos recentes, análises e até reportagens mais elaboradas sobre
situações sociais do país, sem existir necessariamente um gancho factual, os que abordam
Argentina, Nicarágua, Cuba e Equador são baseados em notícias mais pontuais. A tabela a
seguir demonstra o relativo ecletismo na seleção de temas referentes ao Brasil:
Tema principal
Violência
Quantidade
3
Petrobrás
2
Pobreza
Consequências da
seca
Corrupção
1
1
Desflorestamento
1
Refugiados
1
Protestos
1
Crise
1
Leis nacionais
1
1
Manchetes (traduzidas)
“Chefe de polícia de elite demitido após ‘papo pró-Nazi’ ser
revelado”
“Surfista brasileiro ‘atingido por policial fora de serviço que estava
em bebedeira’”
“Sutiã de mulher brasileira pode ter parado uma bala perdida de
um bandido”
“Petrobrás pronta para perfurar apesar de ameaça ecológica e
mercado instável”
“Elite brasileira lucra 3 bilhões enquanto trabalhadores demitidos
pagam o preço”
“Vida entre o lixo de um desterro do Rio”
“Pior seca do Brasil na história incita protestos e apagões”
“Chefe de gigante de óleo se demite por escândalos de
corrupção brasileira colocarem pressão na presidente”
“Rei do desflorestamento no Brasil destronado na ânsia de
derrotar limpadores de terra”
“Um longo caminho de casa: sírios encontram um inesperado
refúgio no Brasil”
“Centenas de milhares de protestantes chamam pelo
impeachment de Rousseff”
“Análise/Brasil no modo crise enquanto partido governante vê
confiança pública rapidamente se dissolvendo”
Lei da amamentação em São Paulo iria multar aqueles que
tentarem parar uma mãe de amamentar”
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Cultura
1
“Colecionador recordista constrói maior guarda-tesouro de vinis
do mundo – seis milhões e contando”
Tabela 2: temas principais tratados nos textos sobre o Brasil de Jonathan Watts para o jornal The
Guardian (1º de janeiro a 31 de março de 2015)
São onze temas diferentes, que englobam desde problemas sociais sob uma ótima negativa,
como a violência – em especial a policial – o desflorestamento e a corrupção, quanto aspectos
econômicos e políticos, encarados de maneira analítica, sem deixar de passar pelas soft news,
como é o caso da Lei da Amamentação em São Paulo e da maior coleção de vinis do mundo.
Já quando passamos para os outros países que configuram a lista de citados pelo
correspondente do jornal The Guardian, a situação é outra. Todos os cinco textos veiculados
sobre a Argentina, por exemplo, dizem respeito à morte do procurador argentino Alberto
Nisman e aos seus consequentes desdobramento e investigações. As reportagens, inclusive,
foram publicadas com, no máximo, uma semana de diferença (do dia 27 de janeiro a 4 de
fevereiro de 2015), sem que o assunto tenha sido retomado após a data. Os dois textos que
apresentam a Nicarágua como tema principal focam nas polêmicas entorno da construção do
Canal da Nicarágua. Quando a temática é Cuba, o correspondente publicou dois textos em
semanas seguidas (dias 6 e 13 de janeiro, respectivamente): um sobre a lenta liberação de
presos políticos no país e outro sobre os discursos de tais presos políticos recém-soltos, com a
manchete “Dissidentes cubados libertados falam de suas esperanças por mudança”. O único
texto que traz o Equador para as páginas on-line do jornal aborda o inusitado fato de que um
grupo de anônimos está corrigindo erros gramaticais em pichações nas ruas de Quito. Para
finalizar, o The Guardian, por meio do trabalho de seu correspondente, expressa certa
preocupação com questões ambientais latino-americanas, já que, dos três textos que
abordaram a América Latina de forma geral, dois deles chamam a atenção para este tema: o
primeiro reporta um estudo que relaciona a alta do preço do ouro com o desflorestamento na
América do Sul e o segundo alardeia sobre a piora na poluição na região. O terceiro texto
difere dos demais ao tomar as realidades de Brasil, Argentina e Venezuela para construir uma
análise com a manchete “Escândalos, protestos, crescimento fraco: está a América Latina
abandonada em retirada?”.
5. Discussão: representações latino-americanas sob o olhar de Jonathan Watts
Não é à toa que a facilidade de acesso e a localização onde ocorre o fato são colocadas como
critérios de noticiabilidade fundamentais da editoria internacional. Embora, em um primeiro
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momento, possa se interpretar que o Brasil apareça mais nas páginas do The Guardian devido
à sua posição de maior relevância no cenário global, é mais acertado afirmar que a grande
influência nesta seleção de notícias se dá pelo local em que o correspondente Jonathan Watts
está alocado: a cidade do Rio de Janeiro. O que acontece a poucos quilômetros de sua base
jornalística tem mais chances de virar pauta, mesmo sem possuir a urgência de cobertura por
conta dos demais valores-notícias. Um exemplo seria o texto sobre a maior coleção de vinis do
mundo, pertencente ao paulista Zero Freitas. A reportagem pode ser classificada como soft
news e entra para o noticiário com o papel de retratar o cotidiano dos brasileiros, ou ainda,
possivelmente, como mero fator de curiosidade. Porém, dificilmente teria lugar no jornal se
tivesse ocorrido em uma localidade que precisasse de muito deslocamento ou fosse de difícil
acesso.
Já quando um fato mais “quente” de outro país exige que se reporte sobre ele, como é o caso
da morte do procurador argentino ou da libertação de presos políticos em Cuba, há um esforço
redobrado para a cobertura. O que não quer dizer que o correspondente irá se deslocar de sua
cidade-sede. Ao escrever sobre Argentina e Nicarágua, por exemplo, Jonathan Watts assina os
textos das respectivas capitais destes países. Ao abordar Cuba e Equador, no entanto, ele cita
a colaboração de agências de notícias ou outros jornalistas, que atuam como enviados
especiais ou colaboradores locais do The Guardian. Essa escassez de material sobre as
diversas regiões da América Latina – nações como Peru, Chile, Colômbia, entre tantas outros,
sequer são lembradas no período – não necessariamente reflete um desinteresse do leitorado
inglês sobre o que acontece aqui, mas pode ser prova da dificuldade que um único
correspondente internacional fixo enfrenta em cobrir um território tão extenso e heterogêneo –
decisão editorial que, por sua vez, pode ser reflexo do corte de despesas do jornal. Focando
nos grandes centros latino-americanos, muitos de seus pormenores passam despercebidos ou
até mesmo desconhecidos.
Em relação à escolha dos temas das reportagens, Jonathan Watts tenta trazer aspectos da
realidade e do cotidiano local à editoria, fugindo do lugar-comum jornalístico. Podemos citar o
texto sobre o grupo de “corretores ortográficos” de pichações no Equador, sobre a lei de
amamentação em São Paulo ou sobre os refugiados sírios no Brasil, informação que, inclusive,
pode acabar negligenciada até mesmo no noticiário nacional. É possível perceber também a
importância dada em ouvir fontes locais, pessoas comuns, e não só autoridades ou
representantes oficiais. Este tipo de escolha tem a capacidade de construir uma imagem mais
“real” da população e seus pontos de vista, no sentido de se aproximar da realidade latinoamericana, além de humanizar a cobertura do jornal. Porém, este tipo de reportagem não
constitui a maioria do corpus analisado.
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VIII Seminario Regional (Cono Sur) ALAIC
“POLÍTICAS, ACTORES Y PRÁCTICAS DE LA COMUNICACIÓN:
ENCRUCIJADAS DE LA INVESTIGACIÓN EN AMÉRICA LATINA”
27 y 28 de agosto 2015 | Córdoba, Argentina
Dos 27 textos selecionados, a grande maioria foca em reportar assuntos recentes e pontuais
sobre a América Latina. Conseguimos inferir que esta é uma escolha natural e até quase
obrigatória para o correspondente, que precisa seguir critérios de noticiabilidade como urgência
e importância na hora de selecionar os fatos que deverão ser reportados, ao mesmo tempo que
lida sozinho com a demanda por informação. Porém, é interessante destacar que,
propositalmente ou não, neste quesito, chamadas mais negativas acabam sendo priorizadas:
“Petrobrás pronta para perfurar apesar de ameaça ecológica e mercado instável” ou “Oponente
do canal da Nicarágua diz que foi espancado pela polícia” são alguns exemplos. Assim,
violência, corrupção, desmatamento, protestos e crise econômica aparentemente chamam
mais a atenção de Jonathan Watts e do público para o qual escreve. Mas, ao contrário do que
possa parecer, não é um tom sensacionalista ou alarmista que predomina, mas, sim, um
caráter analítico, que busca compreender as questões latino-americanas que, muitas vezes,
devem chegar como inusitadas ou estranhas ao leitorado inglês.
Para uma observação mais aprofundada não só do que é notícia sobre a América Latina para o
correspondente internacional do The Guardian, mas também para verificar que imagens latinoamericanas predominam nesta já seleção de fatos, optou-se por utilizar três textos para
análise, de acordo com os países e temas mais frequentes que foram encontrados dentro do
período em que se encontra o material pesquisado. Desta forma, os três textos se constituem
por: 1) o intitulado “Sutiã de mulher brasileira pode ter parado uma bala perdida de um
bandido” (do dia 6 de fevereiro), que representa o país de maior menção – Brasil – e o tema
dentro deste país que mais foi tratado, no caso, a violência; 2) o com manchete “‘Procurador
argentino temia fanáticos pró-governo’, diz empregado” (do dia 31 de janeiro), representando,
por sua vez, o segundo país de maior menção – Argentina – e o único tema pelo qual foi
noticiado – a morte do procurador Alberto Nisman; e 3) o que abrange a América Latina de uma
forma geral, de título “Poluição por chumbo do século XX na América do Sul é a pior em dois
milênios” (do dia 6 de março), escolhido como reflexo da predominância de temas ambientais
focalizados pelo jornal ao tratar do continente como um todo.
No primeiro texto citado, o correspondente usa um fato inusitado – um sutiã salvando a carioca
Ivete Medeiros de uma balda perdida – para abordar a crescente violência urbana no Rio de
Janeiro. Ele utiliza informações de outros veículos de comunicação para construir seus dados,
chegando a citar depoimentos cedidos a canais de tevê e a repercussão do caso na mídia
local, por exemplo. Não fica claro se as frases destacadas da vítima e de seu marido são de
entrevistas feitas pelo repórter ou se são meras reproduções de diferentes meios. Nenhuma
fonte oficial foi ouvida, tampouco buscada para oferecer explicações ou soluções. Embora, em
um primeiro momento, a história de Ivete seja a informação principal do texto, fica claro pela
escolha de angulação que ela é um gancho para trazer à tona a questão das balas perdidas.
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“Escape por um triz de Ivete Medeiros destaca problema de balas perdidas, que é um perigo
crescente no Brasil”, é a linha fina da matéria. O correspondente ainda diz que o caso da
carioca é apenas o incidente mais recente “de tiros acidentais que são uma praga no país de
200 milhões de habitantes”, chegando a citar outros exemplos de vítimas no Rio de Janeiro. Ele
também afirma que “balas perdidas são um problema crescente no Brasil, que tem mais
assassinatos por arma do que qualquer outro país”, citando estatísticas de vítimas no Rio de
Janeiro e a relação com a polícia militar pesadamente armada da cidade, “que frequentemente
se envolve em troca de tiros com gangues”. Nota-se, portanto, em linhas gerais, que o foco se
mantém em como as balas perdidas são um “problema”, uma “praga”, uma “ameaça” nacional,
evidenciando a imagem de um país que ainda engatinha na segurança pública urbana.
O segundo texto, que trata da morte do procurador argentino Alberto Nisman, traz informações
atualizadas sobre o caso, sem que se deixe de fazer uma recapitulação das informações
essenciais já veiculadas. O texto condiz com a manchete que afirma que Alberto Nisman temia
fanáticos pró-governo, já que, cada vez que menciona sua morte, conecta-a às acusações que
o procurador iria fazer à atual presidente, Cristina Kirchner, do envolvimento do governo
argentino a ataques terroristas do passado. Mesmo sem provas, o correspondente sugere que
a morte está inevitavelmente ligada às denúncias, usando frases que sempre trazem um fato (a
morte) em relação ao outro (as denúncias do procurador) como em “o procurador argentino que
foi encontrado morto após acusar a presidente de conspirar para cobrir o maior atentado
terrorista do país temia mais simpatizantes fanáticos do governo do que terroristas
estrangeiros” ou “Alberto Nisman foi encontrado deitado em uma poça de sangue em seu
banheiro no dia 18 de janeiro – um dia antes que ele iria formalmente apresentar ao Congresso
suas alegações...”. Além disso, é relevante no texto a importância conferida aos depoimentos
de Diego Lagomarsino, última pessoa a ver Alberto Nisman vivo, que emprestou a ele a arma
do crime e também suspeito de envolvimento com sua morte, dado a Jonathan Watts tanto
pessoalmente quanto por meio de seu advogado. Enquanto tal depoimento é a fonte principal
de novas informações para a construção da matéria, também proporciona um bate-rebate com
as falas oficiais sobre a investigação. Diferentemente do primeiro texto analisado, este segundo
tem sua narrativa central focada em um fato mais isolado, sem implicações tão grandes na
imagem da Argentina como um todo. Porém, ainda assim é possível visualizar uma situação
nacional instável, em que várias versões entram em choque: “procurador morto”, “presidente
acusada”, “tempestade na polícia”, “governo apontando o dedo a espiões”, “inundação de
especulações”, “vítima de uma conspiração”, entre outras expressões, podem evidenciar um
clima de caos, o qual o país não consegue dominar completamente.
Por fim, o terceiro texto trata de um tema relativamente mais ameno, mas não por isso menos
desagradável: poluição. Desta vez, Jonathan Watts restringe-se a reportar dados de um
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estudo, realizado na Suíça, que verificou que “menos de meio século de uso de gasolina com
chumbo na América do Sul causou mais poluição do que qualquer outra coisa nos últimos dois
milênios, apesar da longa história pré-colonial de mineração e trabalho com metal na região”. A
descoberta refletiria os resultados negativos do crescente uso de combustível fóssil nos
automóveis. Além de explicitar os métodos usados na pesquisa, o correspondente ainda diz
que este foi o primeiro estudo a confirmar a tendência na América do Sul, “que é a casa de
algumas das minas mais antigas em atividade do mundo”. Dos três textos analisados com mais
profundidade, este foi o primeiro a apontar alguma solução tomada, embora ela não aparece
com grande destaque: na legenda da foto ilustrativa da matéria (que mostra um ponto de
ônibus), encontra-se a informação de que em Bogotá, na Colômbia, existem vários esquemas
para reduzir o uso de carros e, assim, reduzir a poluição atmosférica. Outro ponto que pode ser
notado é que, mesmo que o estudo tenha medido a poluição apenas na região dos Andes
colombianos, a manchete destaca a piora na poluição de chumbo na América do Sul como um
todo, talvez se esquecendo de que o termo englobaria áreas completamente distintas da
contida na pesquisa suíça.
6. Considerações
O jornal The Guardian, enquanto tem um histórico admirável de investimentos no jornalismo
internacional e na cobertura plural de fatos de diversas áreas, também enfrenta, assim como
diversos outros meios de comunicação, questões rotineiras que influenciam na seleção de
notícias e apuração dos fatos, por exemplo as financeiras e as de organização de trabalho. Na
editoria internacional não poderia ser diferente. Ao analisar as matérias produzidas por seu
correspondente internacional, Jonathan Watts, na América Latina, percebe-se que possuir
apenas um profissional para cobrir um território tão extenso quanto heterogêneo é um dos
fatores que mais determinam como as informações latino-americanas chegam ao leitorado do
jornal. Reflexo desta situação seria o foco em determinados centros urbanos – em especial os
brasileiros, já que Jonathan Watts encontra-se alocado no Rio de Janeiro – em detrimento das
demais regiões e países da América Latina. Desta forma, qualquer reportagem que saia do
mais pontual ou urgente e aborde aspectos mais cotidianos da realidade local acaba tratando
de tais lugares que permitem um acesso mais fácil e rápido ao fato. Um segundo reflexo seria o
uso de generalizações: mesmo que algo diga respeito apenas a determinada parte da América
Latina, o correspondente opta por generalizar e tomar aquilo como uma verdade latinoamericana geral, desconsiderando as particularidades de cada cultura, cada país, cada
população que engloba o território citado.
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Em relação à imagem da América Latina que predomina na cobertura do correspondente do
The Guardian, nota-se que fatos negativos constituem a maioria do material analisado, em
especial os que dizem respeito a problemas sociais. Isso não significa que a abordagem do
jornal seja negativa, pelo contrário. Enquanto a narrativa mantém seu caráter factual e analítica
(e tendo como ponto positivo respeitar a dinâmica dos locais reportados, já que não foi
encontrada nenhuma comparação entre a notícia e o contexto britânico), o fato escolhido como
noticiável, em si, é o que determina tal negatividade. A máxima jornalística de que “notícias
ruins são notícias boas” termina sendo aplicada, já que, ao cumprir critérios de noticiabilidade
tais quais importância e interesse, Jonathan Watts constrói a imagem de uma América Latina
que ainda cambaleia para enfrentar problemas inacreditáveis para o contexto britânico, como
balas perdidas ou uma investigação turbulenta de assassinato que envolve denúncias ao atual
governo.
Bibliografia
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América Latina “na gringa”. Notícias e imagem latino