O TRABALHO PEDAGÓGICO REALIZADO EM AMBIENTE HOSPITALAR: ANÁLISE DE PRÁTICAS EDUCATIVAS EM HOSPITAIS DE BELO HORIZONTE/MG ANTUNES*, Renata Cristina Rodrigues - UEMG [email protected] CÉSAR**, Shirlea Rocha - UEMG [email protected] COSTA***, Camila Camilozzi Alves - UEMG [email protected] COSTA****, Thais Maria Teixeira - UEMG [email protected] * Resumo A Pedagogia Hospitalar é uma modalidade que amplia o espaço de atuação do pedagogo. Ela surge da necessidade das crianças hospitalizadas de terem um acompanhamento pedagógico em seu período de internação, assegurado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Sendo assim, o pedagogo deve estar apto a atender estas crianças. Com base nisso, esta pesquisa foi desenvolvida em instituições hospitalares com atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) que oferecem algum tipo de atividade pedagógica às crianças hospitalizadas. O objetivo foi compreender a natureza e o papel do trabalho educativo realizado em hospitais. Utilizou-se para isso a metodologia qualitativa, com duas etapas de investigação: pesquisa bibliográfica, e pesquisa de campo. Os resultados encontrados foram a escassez deste atendimento nos hospitais de Belo Horizonte, apesar de assegurado no ECA. Palavras-chave: Pedagogia Hospitalar; Criança Hospitalizada; Atendimento Pedagógico. Introdução A infância é uma idade de descobertas e para Ceccim (1997, p. 35) “se caracteriza pela ilimitada energia, pela curiosidade e inquietude e pela grande atividade corporal, intelectual e *Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais ** Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais ***Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais e em Ciências da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais **** Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais e em Enfermagem pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais 4027 afetiva”. Entendemos que a criança com alguma enfermidade sofre com as privações impostas pela patologia, assim como pelo afastamento do seu meio de convivência familiar, social e escolar. Sabe-se que a maioria das crianças com patologias que requerem maior tempo de internação hospitalar ou que fazem hospitalizações recorrentes, acabam excluídas da escola, o que gera um grande prejuízo ao seu desempenho social e escolar. O reconhecimento de que existem outras necessidades na vida de uma criança hospitalizada, não apenas clínicas, significa reconhecer que outros fenômenos possuem igual relevância e podem também contribuir de forma significativa para amenizar a sua internação no hospital e também para o seu pleno restabelecimento. Além de pensarmos na qualidade de vida oportunizada às crianças hospitalizadas, devemos pensar num estado de cura definitiva, em situações de doença, o que aumenta a responsabilidade social de integração desta criança ao meio social/escolar formal. A escolha do tema se deu mediante a percepção de que o trabalho pedagógico no ambiente hospitalar vem sendo desenvolvido por diversos profissionais, que não o pedagogo, o que motivou o objeto de estudo. Além disto, percebe-se que a atuação do pedagogo não se restringe apenas ao ambiente escolar e, portanto, faz-se necessário que este profissional atue em outros ambientes e conquiste novos espaços. Neste sentido, Libâneo (2002) contribui de forma significativa, pois acredita que o pedagogo pode atuar em campos diferenciados, não diretamente docentes, já que este possui uma formação ampla que abrange toda a diversidade de práticas educativas presentes na sociedade. O trabalho pedagógico no ambiente hospitalar proporciona a garantia da continuidade do processo de aprendizagem, fazendo com que as crianças ao retornarem à escola não venham a se sentir em defasagem em relação aos seus colegas e que não percam o vinculo com a escola e seu cotidiano. Por compreendermos de fato, a imprescindível contribuição do profissional pedagogo às crianças hospitalizadas, entendemos que o tema abordado é de fundamental importância, por ampliar a contribuição das ciências da educação ao trabalho da pediatria, mobilizando a sociedade no sentido de garantir o direito ao atendimento pedagógico às crianças hospitalizadas, assegurado no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), na Resolução no 41, do Conselho Nacional de Saúde, de Outubro de 1995, no item 9 – “Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde, acompanhamento do currículo escolar durante sua permanência hospitalar”. Com isto, ao pesquisar sobre este tema, temos como objetivos: 4028 a) Compreender a natureza e o papel do trabalho educativo realizado em hospitais e sua relação com a identidade do profissional que o executa; b) Analisar a reação das crianças com as atividades propostas e verificar como é estabelecida a relação entre o pedagogo ou outro profissional responsável pelo trabalho educativo com a escola onde a criança hospitalizada está matriculada; c) Descrever e analisar como se dá o processo de elaboração das atividades educativas no contexto hospitalar; d) Analisar como se dá à reintegração da criança hospitalizada na sociedade, especialmente, na escola; e) Avaliar se há diferença entre o trabalho pedagógico realizado pelo pedagogo e o realizado por outros profissionais. Para alcançar tais objetivos, utilizamos a metodologia da pesquisa qualitativa, através de entrevistas a pedagogos e profissionais que atuam com atendimento educacional hospitalar e com cursos de pós-graduação na área. Assim, no primeiro capítulo serão abordados os escritos e estudos já realizados sobre o tema e sua importância para o paciente hospitalizado. A partir destas leituras, foi definido como deve ser o trabalho pedagógico hospitalar, feita uma breve digressão sobre os hospitais, a educação especial, a educação no hospital e a atuação do pedagogo. O capítulo seguinte tratará da metodologia utilizada na realização do projeto de pesquisa, bem como o panorama de como a pesquisa foi desenvolvida. O capítulo intitulado “Apresentando e Discutindo os Achados da Investigação” apresentará os resultados da pesquisa de campo e suas implicações na atualidade. Além disto, analisa-se de modo detalhado o trabalho pedagógico nos hospitais, e como as pedagogas pesquisadas desenvolvem cursos de pós-graduação na área. Ao final, serão apresentadas algumas considerações do grupo, enfatizando a importância do tema, os achados mais significativos, bem como algumas recomendações para o trabalho pedagógico, sem a pretensão de finalizar o estudo. O Contexto da Educação Hospitalar O Hospital O hospital, como uma instituição médica destinada ao tratamento terapêutico, como conhecemos hoje, surgiu em meados do século XVIII (FOUCAULT, 1981). No período da Idade Média, não existia como meio de cura e nem foi concebido para este fim. Até meados do séc. XVII, os hospitais eram considerados instituições de caridade, dedicados à assistência, 4029 exclusão e separação dos pobres da sociedade, servindo para recolhê-los e para proteger os demais do perigo que representavam. A esses pobres era dedicada assistência material e espiritual e lá ficavam para receber seus últimos cuidados e sacramentos, o que era feito por pessoas tidas como caridosas, religiosos ou leigos, que lá estavam em busca de sua própria salvação (FOUCALT, 1981). Ou seja, os hospitais nesses tempos eram considerados morredouros, já que eram locais reservados à morte dos que lá estavam (FOUCALT, 1981). Além disso, as práticas da medicina nessa época, não eram desenvolvidas em hospitais, mas em consultas privadas, geralmente, nos momentos de crise, nas casas de seus doentes. Quem detinha o poder nessas instituições, eram os religiosos e, portanto, os hospitais tinham suas práticas mais vinculadas à religião do que à medicina, propriamente dita (FOUCALT, 1981). No fim do séc. XVII surge o chamado Hospital Geral, inaugurando-se uma nova etapa com o internato, na mesma instituição, de doentes, loucos, devassos, prostitutas, pobres e outros, mantendo-se, ainda, o Hospital com a função de instituição mista de exclusão, assistência e transformação espiritual e sem a função médica (FOUCALT, 1981). Com a evolução do pensamento médico, surge na Europa, a partir do séc. XVIII, o Hospital com função clínica, destinado à intervenção sobre a doença e o doente, ou seja, com o objetivo da cura. Com isto, de 1775 a 1780, foram realizadas (FOUCAULT, 1981), várias visitas, observações sistemáticas e comparadas dos hospitais já existentes, a fim de definir programas de reforma e reconstruções hospitalares, com a participação dos médicos. O Hospital deixa de ser uma simples obra arquitetônica e passa a preocupar-se com as correlações espaciais existentes entre os fenômenos patológicos e as condições gerais reais, como os deslocamentos das roupas e materiais, ou contato entre pacientes. Assim, surge a primeira grande organização hospitalar, que trouxe a medicina, definitivamente, para dentro dos hospitais, transformando a doença em um fenômeno natural, que acontece devido à ação do meio ambiente sobre o indivíduo. Segundo Foucault (1981) a característica mais marcante do Hospital passa a ser, a partir dessa época a arquitetura hospitalar, pois transformou-se em mais um fator e instrumento de cura, passando o poder a se concentrar nas mãos dos médicos, que por sua vez aumentaram o número de visitas ao hospital, tornando esta instituição um local de cura, registro e acúmulo, formação e transmissão do saber, já que passa a ter um sistema de registros permanentes. Ainda hoje, no século XXI, o Hospital mantém a característica de instituição dedicada ao trabalho terapêutico, embora tenha passado por algumas alterações. Para o Ministério da Saúde, 4030 o hospital é parte integrante de uma organização Médica e Social, cuja função básica, consiste em proporcionar à população Assistência Médica Sanitária completa, tanto curativa como preventiva, sob quaisquer regime de atendimento, inclusive o domiciliar, cujos serviços externos irradiam até o âmbito familiar, constituindo-se também, em centro de educação, capacitação de Recursos Humanos e de Pesquisas em Saúde, bem como de encaminhamento de pacientes, cabendo-lhe supervisionar e orientar os estabelecimentos de saúde a ele vinculados tecnicamente (MINISTÉRIO DA SAÚDE, apud URCAMP, 2006). As mudanças em torno da função social da instituição Hospital estão voltadas, hoje, para a humanização da saúde. Esta tendência surge pela necessidade de garantir o desenvolvimento futuro da medicina e da saúde, já que são vislumbradas alterações nesta dinâmica hospitalar, com as quais o atendimento da doença está se deslocando para o atendimento aos cidadãos, ou seja, o foco desloca-se da ênfase na intervenção tecnológica para ações sustentadas, nas relações humanas. Deste modo, os tratamentos buscam a individualidade e a integralidade, onde, por exemplo, os familiares passam de visitantes para colaboradores no tratamento, e os profissionais inseridos são valorizados não só por seu conhecimento científico, mas também por sua capacidade em realizar suas práticas sustentadas em princípios das relações humanas, com o que a realidade e os valores próprios dos pacientes passam a ser respeitados. A partir disto, o Ministério da Saúde cria uma política de humanização da saúde intitulada Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão do Sistema Único de Saúde, o Humaniza SUS. Esta é vista como uma política transversal, já que adquire o papel de conjunto de princípios e diretrizes que serão aplicadas nas diversas áreas da saúde. Assim, para o Ministério da Saúde, no Documento Base para Gestores e Trabalhadores do SUS – Humaniza SUS (2004): Por humanização entendemos a valorização dos diferentes sujeitos implicados nos processo de produção da saúde: usuários, trabalhadores e gestores. Os valores que norteiam esta política são a autonomia e o protagonismo dos sujeitos, a coresponsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários e a participação coletiva no processo de gestão (BRASIL, 2006). A política de humanização visa então, a participação conjunta entre os diferentes atores da rede de atenção à saúde, que, como dito pelo Ministério da Saúde (2004) na citação acima, se constitui tanto dos trabalhadores e gestores, como também dos usuários do sistema. Portanto, devem todos estes agir juntos em busca de seus direitos, pensando que o que for bom para um, será bom para o outro, que então, será bom para o sistema. Dentre os vários 4031 direitos pelos quais devem lutar, está a melhoria das condições de trabalho, da qualidade da assistência e, principalmente, da qualidade de vida de todos. Assim, para se atingir o verdadeiro sentido da Humanização, segundo o Documento Base para Gestores e Trabalhadores do SUS – Humaniza SUS (2004), a sua operacionalização deve atingir os seguintes pontos: a troca e a construção de saberes; trabalho em rede com equipe multiprofissional; identificação das necessidades, desejos e interesses dos diferentes sujeitos do processo; pacto entre os diferentes níveis de gestão e instância de efetivação da política e, por fim, a construção de redes solidárias e interativas, participativas e protagonistas do processo. Trazendo à Humanização da Assistência ao âmbito do contexto hospitalar, o Documento Base para Gestores e Trabalhadores do SUS – Humaniza SUS (2004) define alguns padrões para sua implantação: • A existência de grupos de trabalho de Humanização com plano já definido; • Garantia de visita aberta ao usuário, respeitando a dinâmica hospitalar e a necessidade de cada usuário; • Mecanismos de acolhimento do usuário; • Mecanismos de escuta para a população e seus trabalhadores; • Equipe multiprofissional de assistência para o usuário e familiares; • Mecanismos de desospitalização, como cuidados domiciliares; • Garantia da continuidade da assistência. A abertura à participação multidisciplinar de profissionais de outras áreas, no interior do Hospital surge como tentativa de melhorar a qualidade de vida dos pacientes internados. Assim, além dos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e terapeutas ocupacionais, são encontrados, por exemplo, administradores e, com menor freqüência, já é possível encontrar pedagogos. De acordo com Ceccim (1997), o atendimento hospitalar à criança precisa de capacitação no interior das próprias equipes da pediatria e da diversificação de profissionais que estudam a criança e o seu universo de representações e de construção de aprendizagens. Além disso, a inclusão da pedagogia na atenção à criança hospitalizada causa um estranhamento ao hospital e à escola. Ambos são necessários à integralização da atenção hospitalar e da educação da criança. No hospital a presença do pedagogo, disponibilizando o serviço da pedagogia hospitalar, como modalidade de ensino, contribui para que junto aos cuidados oferecidos pelos profissionais da saúde, unificando esforços e transpondo obstáculos, possa melhorar a 4032 qualidade dos serviços e assistência prestados em ambiente hospitalar, contribuindo para essa política de humanização dos hospitais. A Educação Especial A Resolução nº 2 do Conselho Nacional de Educação de 11 de fevereiro de 2001, que institui as Diretrizes Nacionais para a educação de alunos que apresentem necessidades educacionais especiais na educação básica, em todas as suas etapas e modalidades, fica assegurada a oferta de serviços de educação especial sempre que se evidencie a necessidade de atendimento educacional especializado. Conforme essa mesma Resolução, no Artigo 3º: Por educação especial, modalidade da educação escolar, entende-se um processo educacional definido por proposta pedagógica que assegure recursos e serviços educacionais especiais, organizados institucionalmente para apoiar, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir os serviços educacionais comuns, de modo a garantir a educação escolar e promover o desenvolvimento das potencialidades dos educandos que apresentam necessidades educacionais especiais, em todas as etapas e modalidades da educação básica (BRASIL, 2001). Assim, os educandos que apresentarem, durante o processo educacional, dificuldade acentuada de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento das atividades curriculares, terão direito aos serviços de educação especial. As dificuldades podem estar ou não vinculadas a uma causa orgânica específica, compreendendo também, aquelas relacionadas a condições, disfunções, distúrbios de conduta, limitações ou deficiências, assim como dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais alunos, demandando a utilização de linguagens e códigos aplicáveis e também altas habilidades/superdotação, grande facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes. Embora haja divergências, para a maioria dos autores consultados, a educação no hospital é modalidade de educação especial, pois as crianças internadas, independente da patologia, ficam afastadas do universo escolar e privadas da interação social possibilitada na vida cotidiana devendo, assim, serem consideradas alunos temporários de educação especial segundo Ortiz e Freitas (2001). Esta concepção é partilhada por Fontes (2005a, p. 25), ao afirmar que a pedagogia hospitalar “está contemplada no Referencial de Educação Especial (2001) como um direito da criança. Ela não está na escola dita regular, é um direito especial”. 4033 Ao contrário desta concepção, Vasconcelos (2006a) defende que essa modalidade de ensino não se trata de educação especial, pois o principal objetivo é fazer um acompanhamento pedagógico a crianças hospitalizadas com dificuldades e limitações de saúde física ou mental e que estão definitiva ou temporariamente impedidos de freqüentar a escola regular. Para a autora, a diferença entre a classe hospitalar e a classe especial é o fato de que a “segregação das crianças não se deve à rejeição por outras classes, mas à doença que as impede de ir à escola. Longe de rejeitá-los, a escola vai até eles, no hospital” (Vasconcelos, 2006a). Assim, apesar das contradições, compreendemos que crianças e adolescentes internados em hospitais, independentemente da patologia, são considerados alunos temporários de educação especial, sendo a educação em hospital um direito assegurado em lei que ratifica seu direito à cidadania e a inclusão. Fonseca (2001) diz que “a passagem por essa modalidade de ensino contribui ou para o reingresso desta criança na sua escola de origem ou seu encaminhamento para matrícula após sua alta”, podendo assim minimizar também o risco de reprovação e evasão. Entendemos com isto, que, ao profissional da área da educação, compete o conhecimento necessário das particularidades da educação de alunos especiais, uma vez que a OMS – Organização Mundial da Saúde, estima que 10% da população têm necessidades especiais. Assim, no Brasil estima-se que há 15 milhões de pessoas com necessidades especiais. Apesar de apenas uma pequena parcela estar matriculada na rede regular de ensino, as tendências recentes são a melhoria da qualificação dos professores da educação básica e expansão da oferta de cursos de formação e especialização pelas universidades e escolas normais. Assim, indo de encontro com as tendências atuais em relação à educação especial, o atendimento pedagógico hospitalar, além de atender às necessidades pedagógico-educacionais da criança e do adolescente hospitalizados, deve levar em consideração as necessidades provenientes de atenção integral ao seu crescimento e desenvolvimento, conforme Ceccim (1997). Educação no Hospital No período de internação, a criança hospitalizada sofre rupturas em seu processo escolar e em seu convívio social. Isto acarreta prejuízos ao seu desenvolvimento, notadamente nos aspectos cognitivo, afetivo, social, fazendo-se necessário, então, a realização de um 4034 trabalho que busque resgatar estas vivências pela criança, bem como sua socialização, para que ela dê continuidade à sua aprendizagem e desenvolvimento. Dentro desta perspectiva, a educação no hospital se constitui como processo necessário, uma vez que “propicia a criança o conhecimento e a compreensão daquele espaço, ressignificando não somente ele, como a própria criança, sua doença e suas relações nessa nova situação de vida” (FONTES, 2005b, p. 135). Sendo assim, é importante se ter a idéia do hospital como espaço de educação para as crianças hospitalizadas, uma vez que neste ambiente também podem ocorrer práticas que propiciam o desenvolvimento da mesma. Além disso, a educação não é um fenômeno, exclusivamente escolar, pois: ninguém escapa da educação. Em casa, na igreja, ou na escola, de um modo ou de muitos, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação. Com uma ou com várias: educação? Educações. (...) Não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar em que ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a única prática, e o professor profissional não é seu único praticante (BRANDÃO, 1981, p. 7). Ao lançar mão de tal conceito de educação, fica claro que seu processo não se realiza apenas no ambiente escolar, e que a escola convencional não é a única forma de realização do processo educativo. Diante disto, cabe especificar as modalidades de educação, bem como em qual delas a educação no ambiente hospitalar se insere e se realiza. A educação de acordo com Libâneo (2002) se subdivide em duas modalidades: a educação não-intencional, também conhecida como educação informal ou paralela; e a educação intencional que se desdobra em educação não formal e formal. A primeira modalidade, ou seja, a educação não-intencional é caracterizada pelos processos sociais de aquisição de habilidades, conhecimentos, valores, hábitos, ocorrendo de modo nãosistemático e não-planejado. Já a segunda, a educação intencional, “surge como conseqüência da complexificação da vida social e cultural, da modernização das instituições, do progresso técnico científico, da necessidade de cada vez maior número de pessoas participarem das decisões que envolvem a coletividade” (LIBÂNEO, 2002, p. 87). Faz-se necessário, no entanto, a distinção entre as duas modalidades existentes de educação intencional: a não formal e a formal. A primeira refere-se àquela atividade definida 4035 pelo caráter de intencionalidade, porém com baixo grau de estruturação e sistematização, implicando relações pedagógicas, mas não formalizadas. Já a educação formal é aquela estruturada, organizada, planejada intencionalmente, sistemática. Entretanto, não significa dizer que não ocorra educação formal em outros tipos de educação intencional, ou seja, onde haja o ensino (escolar ou não) há educação formal, desde que nelas estejam presentes a sistematicidade, a intencionalidade e aspectos que caracterizam um trabalho didáticopedagógico, ainda que desenvolvidas fora do ambiente escolar, propriamente dito. Sendo assim, a modalidade de educação no hospital caracterizada pela intencionalidade, porém não formalizada, se encaixaria na educação intencional de caráter não formal, uma vez que implica relações pedagógicas com baixo grau de estruturação e sistematização. Tal modalidade de ensino, ou seja, a educação realizada no hospital, constituise como: o espaço do aprender em situação hospitalar, configurando uma ação educacional compatível com o entorno problematizador, para que o paciente-aluno, durante o tratamento médico ou após seu término, não seja absorvido em outra situação de conflito, que é o despreparo para a vida escolar (ORTIZ; FREITAS, 2001, p. 70). Deve-se ter em mente, no entanto, que o objetivo da educação hospitalar não se resume apenas em preparar o paciente-aluno para o retorno à escola, através do prosseguimento dos estudos regulares, mas objetiva, também, a completa reintegração do aluno, enquanto sujeito que necessita de cuidados especiais e, portanto, de trabalhos especiais a serem desenvolvidos pela equipe profissional, uma vez que o mesmo encontra-se debilitado, devendo ser considerado o seu estado clínico, suas necessidades e suas vivências anteriores. Outro aspecto que merece a devida atenção é o fato das crianças hospitalizadas serem alunos de educação especial, uma vez que exigem cuidados e tratamento diferenciado das crianças que continuam no convívio escolar e social. A educação, quando realizada no ambiente hospitalar, pode ser classificada como pertencente à Classe Hospitalar, bem como a Pedagogia Hospitalar. Diferenciando-se no aspecto de intervenção realizada pelos profissionais com as crianças, ou seja, cada uma dessas abordagens tratará de maneira diferenciada o paciente-aluno. Na primeira abordagem, ou seja, Classe Hospitalar, o professor atua como uma ponte entre o hospital e a escola, objetivando levar o aluno à não reprovação ao término do ano letivo. Sendo, portanto, de acordo com Fontes (2005a, p.22) “um entendimento da educação no hospital que desconsidera o processo 4036 subjetivo que a criança está vivenciando”. Já a segunda, seria aquela que, ainda de acordo com a mesma autora, visa “atividades lúdicas de reconhecimento do espaço, de sua própria doença e de si própria, no sentido de tranqüilizá-la acerca do ambiente hospitalar”. Sem ignorar, entretanto, o fato de uma criança poder, durante o período de sua internação, receber um atendimento escolar. O Pedagogo Segundo Libâneo (op. cit., p. 96), a “Pedagogia é a teoria e prática da educação”. É ela que se ocupa do ato de educar, da prática educativa legítima que acontece na sociedade. Mas para isto, são necessários outros conhecimentos além dos que compõem o campo das ciências da educação: filosóficos, sociológicos, antropológicos e técnico-profissionais. A formação do pedagogo, portanto, deve permitir a sua atuação em vários campos educativos para suprir as necessidades sócio-educativas de tipo formal, não formal e informal da sociedade atual. Diante disso, o pedagogo é o profissional que atua em várias instâncias da prática educativa direta ou indiretamente ligadas à organização e aos processos de transmissão e assimilação de saberes e modos de ação, tendo em vista objetivos de formação humana previamente definidos em sua contextualização histórica (LIBÂNEO, 2005, p. 96). O pedagogo, desta forma, tem a possibilidade de atuar em outros lugares, que não a escola, já que seu objetivo é a formação humana. O autor acredita ainda que o campo de atuação do pedagogo é tão vasto quanto são as práticas educativas na sociedade, isto é, em todo lugar onde houver uma prática educativa com caráter de intencionalidade, há aí uma pedagogia. Ou seja, a atuação do pedagogo não se restringe apenas ao ambiente escolar, mas pode ocorrer em todos os ambientes onde haja o processo de ensino aprendizagem, como, empresas, hospitais e as demais instituições, tornando-se necessária a presença do profissional de pedagogia para intermediar essa relação. Assim, é necessário que este profissional atue em outros ambientes, e conquiste, novos espaços. Neste sentido, Libâneo (2002) acredita que o pedagogo pode atuar em campos diferenciados, não diretamente docentes, já que este possui uma formação ampla que pode abranger a diversidade de práticas educativas presentes na sociedade. Libâneo (2005) cita três tipos de pedagogos: os pedagogos latu sensu, os que se dedicam à prática educativa em suas diferentes manifestações e modalidades, os pedagogos stricto sensu – especialistas, aqueles que não restringem sua atividade profissional ao ensino, e se ocupam de diferentes atividades, como pesquisa, educação especial, gestão educacional, 4037 formação continuada em escolas e outras instituições, e os pedagogos stricto sensu professores do ensino público e privado em todos os seus níveis. Ora, com esta classificação, subsumir a pedagogia à docência é, não somente produzir um reducionismo ingênuo a esta ciência, como também ignorar a complexidade da tarefa docente que, para se efetivar, requer o solo dialogante e fértil de uma ciência que a fundamente, que a investigue, que a compreenda e crie espaço para sua plena realização. Mas, para o pedagogo atuar neste ambiente, ele deve ter conhecimentos suficientes na área da educação e da saúde, para propiciar atividades condizentes com a realidade das crianças hospitalizadas. Já que no âmbito hospitalar, o pedagogo, segundo Nascimento (2004) deve se preocupar com a promoção de avaliação e atendimento psicopedagógico às crianças e adolescentes, assessoramento dos profissionais de saúde e educação, responsabilidade com a classe hospitalar para pacientes que ficarem internados por longo período, ocupar-se do desenvolvimento infantil como um todo, fomentar no paciente a adesão ao tratamento clínico, além de auxiliá-lo em sua acomodação e apoiá-lo e esclarecê-lo nessa nova situação. Essa autora cita também a psicopedagogia hospitalar como uma “identidade do futuro”, sendo que “De futuro porque é um trabalho de humanização hospitalar imprescindível, ao mesmo tempo que é Para o futuro, porque, seu arcabouço teórico sólido(...) já está, hoje, sendo construído, nas conquistas do nosso dia-a-dia" (NASCIMENTO, 2004, p. 54). Isto porque a psicopedagogia hospitalar vem a cada dia conquistando mais o seu espaço, pois é um trabalho fundamental para o processo desenvolvimentista e de aprendizagem das crianças. A hospitalização infanto-juvenil tem sido tema de constante interesse entre profissionais da saúde e da educação, ambos preocupados com os possíveis efeitos da mesma sobre os processos de desenvolvimento e de aprendizagem da criança e do adolescente. Isso porque o ingresso no hospital pode se tornar uma experiência extremamente complicada e difícil, já que pode ser visto como um lugar gerador de medo, dor e sofrimento (NASCIMENTO, 2004, p. 48). Fernandéz (1990), em seu livro “A Inteligência Aprisionada”, ela aponta para a perspectiva interdisciplinar no acompanhamento e atendimento pedagógico ambulatorial. Ou seja, acompanhamento pedagógico de estudantes em processo de aprendizagem que vivenciam internações eventuais, recorrentes em ambiente clínico, ambulatorial e hospitalar, categorizados como sendo portadores de necessidades especiais circunstanciais ou temporárias. Aqui não se restringe a escrita do escolar somente no ambulatório, mas também em clínicas, hospitais e em Centro Psicopedagógico, o que torna necessário trabalhar integralmente com outros profissionais em uma equipe interdisciplinar. 4038 Ceccim e Carvalho (1997), autores do livro “Criança Hospitalizada: atenção integral como escuta à vida” também tratam da importância de uma equipe integrada ou multidisciplinar, composta por diferentes profissionais da área de saúde e da área da educação. Além disto, os autores tratam de vários aspectos inerentes a atenção às crianças hospitalizadas, como acompanhamento pedagógico, acompanhamento a crianças com câncer ou fibrose cística, o atendimento psicológico a crianças e a família, as questões nutritivas, neurológicas e psiquiátricas, que estão envolvidas neste processo e vários outros assuntos correlatos. Quanto ao acompanhamento pedagógico, os autores afirmam que entendem que a criança, porque aprende, porque pensa, se desenvolve e, com isso, enfrenta melhor os acontecimentos de sua vida. A percepção de que, mesmo doente, pode aprender, brincar, criar, e, principalmente, continuar interagindo socialmente, muitas vezes ajuda na sua recuperação. Entendendo melhor o que acontece com ela, a sua doença e o contexto hospitalar, a criança terá uma atitude mais ativa diante da enfermidade, independente de suas conseqüências, ao invés de uma atitude passiva de vitimização (CECCIM; CARVALHO, 1997, p. 79). Os autores afirmam, ainda, que um dos objetivos do acompanhamento pedagógico a crianças internadas é acompanhar o desenvolvimento cognitivo em seu processo de aprendizagem, além disso, a partir do contato com a escola, trabalha-se os conteúdos curriculares, para evitar que ela fique em defasagem ao retornar à escola regular. Em uma reportagem, Ceccim (1999) trata do acompanhamento pedagógico e escolar da criança hospitalizada como um fator que favorece a construção subjetiva de uma estabilidade de vida, como continuidade e segurança diante dos laços sociais da aprendizagem, o que permite falar de uma Classe Escolar em ambiente hospitalar. Assim, o ensino e o contato da criança hospitalizada com o professor, neste ambiente, podem proteger o seu desenvolvimento e contribuir para sua reintegração à vida escolar, além de promover a aprendizagem. O pedagogo deve perceber e assumir sua identidade no espaço hospitalar, segundo Fontes (2005a). Ele deve, ainda, ser pesquisador da prática educativa e estudioso, que pense e reflita sobre a prática da educação hospitalar. A autora afirma também, que o pedagogo no hospital deve trazer a educação para tudo, aproveitando de todos os momentos das rotinas hospitalares para educar, e para que o trabalho não se torne mera recreação. Desta forma, a pedagogia hospitalar, envolve desde conquistar a criança, administrar o tempo das atividades, fazer o planejamento flexível e regulável pela disposição da criança até a elaboração das atividades para as crianças hospitalizadas. O pedagogo deve se preparar para trabalhar nesse 4039 ambiente que, embora diferente, apresenta semelhanças com a sala de aula e exige muito mais deste profissional, que atua como uma ponte entre a escola e o hospital. De acordo com autores que se ocupam desse assunto, pode-se perceber que o acompanhamento escolar de jovens e crianças hospitalizados, sejam quais forem as patologias, portadores ou não de deficiências, é uma prática que se inscreve sob o título da eqüidade – a equiparação de oportunidades apesar das diferenças – uma pauta de destaque nas agendas sobre qualidade de vida, cidadania e democratização, tão discutidas nesse início de milênio. A instituição da Classe Hospitalar, assim denominada ou por qualquer outra forma sinônima, compõe um movimento que, buscando neutralizar a exclusão e desvantagens sofridas por parcelas da população, insere a importância do desenvolvimento de práticas de discriminação positiva. Assim, não apenas o hospital deve se flexibilizar no sentido de permitir em seu espaço físico e rotinas de trabalho a presença de outras práticas institucionais – no caso, aquelas próprias de uma escola, como uma Classe Hospitalar que pretenda alcançar resultados satisfatórios e deve atuar para além do paradigma vigente na escola. Metodologia O problema da pesquisa é entender como é desenvolvido o trabalho pedagógico em ambientes hospitalares com crianças internadas por longo período de tempo ou recorrentes, e como é a atuação do pedagogo e de outros profissionais nestas atividades. A investigação realizada buscou responder aos seguintes objetivos: a) Compreender a natureza e o papel do trabalho educativo realizado em hospitais e sua relação com a identidade do profissional que o executa; b) Analisar a reação das crianças com as atividades propostas, e verificar como é estabelecida a relação entre o pedagogo ou outro profissional responsável pelo trabalho educativo com a escola, onde a criança hospitalizada está matriculada; c) Descrever e analisar como se dá o processo de elaboração das atividades educativas no contexto hospitalar; d) Analisar como se dá a reintegração da criança hospitalizada na sociedade, especialmente, na escola; e) Avaliar se há diferença entre o trabalho pedagógico realizado por pedagogo e por outros profissionais. A primeira etapa da investigação foi a realização de pesquisa bibliográfica para tomarmos conhecimento das produções literárias na área abordada. Para Lakatos (2001), a 4040 pesquisa bibliográfica compreende “toda a bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo (...) Sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto com tudo o que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto” (LAKATOS, 2001, p. 183). Através desta pesquisa é possível analisar este tema sob novo enfoque, permitindo reflexões diferentes sobre a mesma temática. Este aprofundamento teórico ocorreu através de consultas a livros, revistas, artigos, dissertações e outros tipos de documentos que abordam o assunto em questão, além da pesquisa na internet. Segundo orientações de Alves Mazzotti e Gewandoznajder (2004) antes da realização da coleta sistemática de dados, é necessário um aprofundamento no contexto estudado, para definir algumas questões e procedimentos adequados, para desenvolvermos a investigação. Para Minayo (1996), a abordagem qualitativa aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, além de responder a questões muito particulares e se preocupar com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ainda segundo este mesmo autor, “as metodologias qualitativas nos induz a pensá-las (...) como uma forma de aprofundar o caráter do social” (MINAYO, 2000, p. 12). Devido a isto, utilizamos como método de pesquisa, a abordagem qualitativa. Bogdan acredita que a investigação qualitativa deve ser usada como um termo genérico que agrupa diversas estratégias de investigação que partilham determinadas características. Os dados recolhidos são designados por qualitativos, o que significa ricos em pormenores descritivos relativamente a pessoas, locais e conversas e de completo tratamento estatístico. As questões a investigar não se estabelecem mediante a operacionalização de variáveis, sendo outrossim, formuladas com o objetivo de investigar os fenômenos em toda sua complexidade e contexto natural (1994, p. 16). Desta forma, fica claro que a metodologia qualitativa não admite regras precisas que possam ser aplicadas a vários tipos de casos, diferentemente da pesquisa quantitativa. Além de diferir quanto ao seu grau de estruturação prévia, permite mudanças ao longo do processo de pesquisa. Na etapa da investigação, com base na metodologia qualitativa, utilizamos entrevistas, que segundo Dencker (2001), é um método que permite maior flexibilidade para a obtenção de informações, já que desenvolve uma situação social em que o entrevistado e o entrevistador interagem-se, facilitando a comunicação. Esta natureza interativa “permite tratar de temas complexos que dificilmente poderiam ser investigados adequadamente através de 4041 questionários, explorando-os em profundidade”. (ALVES MAZZOTTI; GEWANDOZNAJDER, 2004, p. 168). Além disso, ela é um procedimento usado na investigação social, e se constitui de um encontro entre duas pessoas, com o intuito de obter informações sobre o tema abordado. Portanto, a pesquisa se deu em duas etapas, uma primeira de aprofundamento teórico, e posteriormente, a busca e interpretações da realidade estudada, procurando principalmente esclarecer a questão-problema da pesquisa, o trabalho pedagógico realizado em ambientes hospitalares, através das entrevistas. Para a realização da pesquisa de campo, entramos em contato com vários hospitais de Belo Horizonte, em busca de profissionais que realizam o atendimento pedagógico às crianças hospitalizadas, além de procurar instituições que oferecem cursos de pós-graduação na área de Pedagogia Hospitalar. Nos hospitais, em sua maioria, foi detectada a ausência de um profissional formado em pedagogia, sendo encontrados profissionais de outras áreas como terapeutas ocupacionais e enfermeiros que atuavam como agentes educativos. Quanto aos cursos, localizamos dois locais que oferecem especialização ou mestrado na área, sendo um em Belo Horizonte e o outro em Curitiba. Os hospitais procurados teriam que oferecer atendimento a crianças internadas por longo e/ou curto período de tempo, possuir brinquedotecas ou outros espaços que atendem as necessidades do ato de brincar e a socialização infantil. Procuramos 12 hospitais onde pudesse ser realizado este tipo de atendimento. Nesses, obtivemos resposta e realizamos a pesquisa em quatro ambientes. Os restantes dos hospitais, não possuíam esta modalidade de ensino, salvo um deles, que não respondeu à nossa procura. O primeiro destes ambientes trata-se de um hospital de reabilitação que, para o atendimento realizado, conta com equipamentos adaptados, mas não possui uma sala específica para tal. Este atendimento é realizado no próprio leito, solário, enfermarias e refeitório do hospital, pela pedagoga denominada pedagoga (A). O segundo hospital, por sua vez, possui sala específica para este atendimento, além de contar com sala de recreação e outras que julgam necessário, para complementar a recuperação e melhora do paciente infantil como: sala de psicologia, fonoaudiologia, dentre outras. A pedagoga que faz atendimento, neste hospital, é denominada pedagoga (B). O terceiro hospital pesquisado realiza atendimento em sala própria, mas no momento da realização da pesquisa estava interditado devido a uma reforma. Esta sala possui todo o aparato necessário para o atendimento pedagógico hospitalar, como adaptações, televisão, 4042 brinquedos, livros, mesas, etc. A profissional que realiza as atividades foi denominada como profissional (C). O quarto hospital pesquisado possui uma brinquedoteca e realiza atendimento somente neste espaço, por uma profissional denominada profissional (D). Quanto aos ambientes dos cursos pesquisados, não é possível descrevê-los, uma vez que não foi realizada pesquisa in loco, mas somente entrevistas com profissionais que atuam nos mesmos. Nos hospitais entrevistamos sujeitos envolvidos com a prática pedagógica, mesmo que esta não fosse sistematizada e possuísse cunho somente recreativo e lúdico. A amostra constituiu de duas pedagogas, uma terapeuta ocupacional e uma técnica em enfermagem. Já nos cursos, a amostra é composta por duas pedagogas que atuam na coordenação de pósgraduação. O instrumento de pesquisa e coleta de dados utilizados foi a entrevista. Conforme Alves Mazzotti e Gewandoznajder as entrevistas qualitativas são muito pouco estruturadas, sem um fraseamento e uma ordem rigidamente estabelecido para as perguntas, assemelhando-se muito a uma conversa. Tipicamente, o investigador está interessado em compreender o significado atribuído pelos sujeitos a eventos, situações, processos ou personagens que fazem parte de sua vida cotidiana (2004, p. 168). A escolha deste instrumento para a pesquisa se deu devido à possibilidade de recolher os dados descritivos sobre o trabalho pedagógico no ambiente hospitalar, na própria linguagem do sujeito entrevistado, sobre sua prática e experiência. Além disso, ela é um instrumento flexível que permite ao entrevistador, verbalmente, a informação necessária e o aprofundamento de determinados assuntos ou perguntas, face a face. A entrevista é classificada por cada autor de uma forma diferente. Para Alves Mazzotti e Gewandoznajder (2004), ela pode ser classificada em livre, semi-estruturada, estruturada e mista. Optamos por utilizar a entrevista semi-estruturada, pois ela combina perguntas abertas e fechadas e possibilita ao entrevistado discorrer sobre o tema proposto. O entrevistador deve seguir um conjunto de questões previamente definidas, mas a entrevista é realizada de uma forma muito semelhante ao de uma conversa informal. Além disso, há a possibilidade de elaboração de perguntas adicionais, para esclarecer questões que não ficaram bem definidas ou ajudar a recompor o contexto da entrevista. As entrevistas foram realizadas, em sua maioria, nos locais de trabalho das profissionais entrevistadas, sendo utilizadas duas entrevistas semi-estruturadas, uma para as coordenadoras de cursos de pós-graduação (APÊNDICE A) e outra para as demais 4043 profissionais pesquisadas que atuam em hospitais (APÊNDICE B). Para melhor desenvolvimento e aproveitamento das entrevistas, utilizamos gravador, com a permissão das entrevistadas. Em posse das entrevistas já realizadas, efetuamos a análise de conteúdos, por meio da categorização. Segundo Dencker (2001, p. 153), este procedimento favorece a “definição acertada das categorias formuladas para classificar o conteúdo do texto em função do objetivo de estudo”. Em linhas gerais, para Bardin (1977), a análise de conteúdo é definida como o conjunto de técnicas de análise das comunicações que segue como regras: a homogeneidade, a exaustão, a exclusividade, a objetividade, a adequação ou pertinências. Sendo assim, ela tem por finalidade a interpretação destas mesmas comunicações e ocupa-se dos significados das palavras. A técnica da análise de conteúdo por categorização, que foi utilizada em nossa pesquisa, “funciona por operações de desmembramento do texto em unidades, em categorias segundo reagrupamentos analógicos” (BARDIN, 1977, p. 153). Esta técnica permite que os elementos pesquisados sejam reagrupados por seus pontos comuns e tem por objetivo oferecer uma representação simplificada dos dados iniciais. As Práticas Educativas em Ambientes Hospitalares: situação e perspectivas Este capítulo aponta os dados coletados na pesquisa de campo e a posterior análise desses que se referem à atuação do pedagogo no ambiente hospitalar, tendo por objetivo a compreensão do trabalho realizado por esses profissionais e pelos demais que desempenham o trabalho pedagógico com crianças internadas por longo período de tempo ou recorrentes, oferecendo assim uma visão geral dos resultados obtidos. A análise foi realizada com a interlocução dos dados colhidos através das entrevistas com os profissionais, com as idéias de autores que tratam do assunto em questão, dando assim um caráter mais científico aos objetos coletados e então estudados. A apresentação dos dados coletados segue a lógica do roteiro das entrevistas semiestruturadas (APÊNDICES A e B). Assim, a dividimos em duas grandes amostragens, que serão consideradas como categorias, uma das coordenadoras de cursos na área de Pedagogia Hospitalar e outra das profissionais que atuam com atividades pedagógicas com crianças em hospitais. Essas profissionais entrevistadas perfizeram o total de seis, sendo elas uma Terapeuta Ocupacional, outra Técnica em Enfermagem, e as demais Pedagogas. Dentre essas pedagogas, duas fazem parte da primeira amostragem e as outras duas da segunda. 4044 Essas duas grandes categorias possuem dentro de cada uma, subdivisões que chamamos de subcategorias, que também sofrem outras pequenas subdivisões que abordam questões mais específicas. A primeira categoria, que é a das coordenadoras de cursos na área de Pedagogia Hospitalar, contém as subcategorias de identificação do entrevistado e de identificação do curso. Na subcategoria de identificação do entrevistado colhemos informações acerca da sua formação, realização de algum curso específico na área de educação especial, função exercida no espaço em que atuam, como ingressaram nesta função, tempo de atuação, e o interesse por esta área da pedagogia. Na outra subcategoria, a de identificação do curso, colhemos informações acerca de sua origem, público atual, objetivos do curso, sobre a demanda e a captação desta demanda, conteúdo e currículo do curso e a possibilidade de atuação dos alunos. A segunda categoria que é a das profissionais que atuam com atividades pedagógicas com crianças nos hospitais, contém as subcategorias de identificação dos entrevistados, da instituição, do ambiente onde atuam, dos educandos, das atividades desenvolvidas, e da relação do profissional com a escola de origem desse educando. Na subcategoria de identificação do entrevistado, colhemos informações acerca de sua formação, realização de algum curso especifico para trabalhar com educação especial, função exercida no espaço em que atua, como ingressou na função atual, tempo nesta função, os objetivos desta prática e como surgiu o interesse por esta área da pedagogia. Na subcategoria de identificação da instituição colhemos informações acerca do tempo de existência do hospital, a necessidade do surgimento da implantação deste trabalho e a classificação do trabalho realizado. Na subcategoria da identificação do ambiente colhemos informações acerca dos espaços utilizados para a realização do trabalho, adequação destes às atividades e o horário de funcionamento. Na subcategoria da identificação dos educandos colhemos dados sobre sua faixa etária, a origem escolar, o tempo de permanência na instituição, as limitações encontradas, suas correspondências às atividades, e sobre as patologias mais comuns. Na subcategoria da identificação das atividades desenvolvidas colhemos dados acerca da política e diretriz da educação seguida, qual a metodologia especifica, sobre o planejamento, os materiais utilizados, o envolvimento e participação de outros profissionais nas atividades, a integração do trabalho realizado com as demais atividades do hospital, e se há resistência pelos demais profissionais. Por fim, na subcategoria de identificação da relação profissional com a escola de origem do educando, colhemos dados acerca da relação do profissional com a 4045 escola do educando; procuramos identificar se a prática pedagógica auxilia na recuperação da criança, quais são seus benefícios e vantagens e, por fim, as dificuldades encontradas. Apesar de todos estes dados que foram colhidos, na análise só serão citados os que foram significativos para o objetivo da pesquisa. Pedagogas Coordenadoras de Cursos na Área de Pedagogia Hospitalar A primeira amostra entrevistada, como já dito, foi a de coordenadoras do curso na área de Pedagogia Hospitalar. As duas são graduadas em pedagogia, mas uma delas é mestre em educação na área das Ciências Sociais aplicadas à Educação e em Administração, e a outra é especialista em Psicopedagogia, mestre em educação e doutora em Engenharia de Produção, porém nenhuma delas possui formação específica em educação especial, que consideramos importante para a realização do trabalho pedagógico no ambiente hospitalar. Uma é coordenadora dos cursos de especialização em Psicopedagogia, Pedagogia Hospitalar e Metodologia do Ensino Superior e a outra faz parte do corpo docente de um curso de graduação e de um curso de especialização em Pedagogia Hospitalar, além de atuar no mestrado em Educação e participar de projetos, pesquisas e desenvolvimento, pela universidade em que trabalha. O ingresso de uma delas na função atual se deu porque era professora de um curso de pedagogia, fez o mestrado nesta área de pedagogia hospitalar e logo fez parte da implantação da disciplina sobre a teoria e prática no currículo do curso de pedagogia, que trata da Pedagogia Hospitalar, em uma universidade onde atua há 14 anos. As duas pedagogas entrevistadas são graduadas em pedagogia, com especialidades diversas, mas que não perpassam pela educação especial e nem a especialização na pedagogia hospitalar, especificamente. Uma delas se aproxima mais tendo em vista a especialização na Psicopedagogia, já que um de seus ramos de atuação é na área hospitalar, como afirma a autora Nascimento (2004, p. 50), em dizer que “além da clínica, escolas e empresas, a Psicopedagogia pode ser também desenvolvida em hospitais, tanto em serviços psicológicos, psiquiátricos e neurológicos, quanto em serviços hospitalares gerais”. O interesse pela área da pedagogia hospitalar surgiu para a primeira, a partir de um caso pessoal, onde tinha uma conhecida com uma filha leucêmica que enfrentou problemas na escola onde estudava. Devido às várias sessões de quimioterapia que fazia, quando retornava, era tida como uma estranha na sala e perdia muitas atividades, causando defasagem no seu aprendizado. Sendo assim, esta profissional foi solicitada para auxiliar sobre as legislações que amparavam a criança neste aspecto. Além disto, ela conhecia a diretora da escola desta criança que também a solicitou, para tomar conhecimento de como agir nesta situação. A 4046 partir daí, a coordenadora fez uma pesquisa extensiva e desenvolveu um projeto de implementação da pedagogia hospitalar e o apresentou a todos os hospitais pediátricos de Belo Horizonte, recebendo retorno de somente um dos hospitais. Quanto à outra pedagoga, o interesse pela área surgiu a partir de sua crença de que a educação e saúde são alicerces de um povo e de uma nação, além disto, ela atua também em uma ONG, e afirma que integrar cada vez mais esta consciência da necessidade da ligação entre educação e saúde, muita coisa pode ser reparada e melhorada; depende de cada um de nós, para acontecer significativas diferenças. Nota-se que o interesse pela pedagogia hospitalar das duas entrevistadas não surgiu do conhecimento pela área ou da vontade de estudar e pesquisar mais sobre o assunto, são todos encontros e interesses casuais. Assim, percebe-se que a inclusão da Pedagogia Hospitalar no contexto das faculdades ou cursos de Pedagogia e de especializações está crescendo aos poucos, mas ainda enfrenta certa barreira ou desconhecimento por parte dos alunos como dos educadores em geral, mas já se percebe uma importância do desenvolvimento e formação destes profissionais envolvidos. De acordo com Matos (2006c) “A Pedagogia Hospitalar é hoje um novo desafio para os cursos de Pedagogia, que poderão adaptar-se a estas mudanças para incluir o aluno/enfermo em uma nova realidade para que não perca o ano letivo que vinha cursando”. Isto, porque, segundo ela, a formação destas pessoas que trabalharão com a Pedagogia Hospitalar, requer uma formação continuada, com o desenvolvimento de novas habilidades para fazerem frente às demandas do serviço, integrando os profissionais da saúde e educadores no mesmo espaço, visando o bem-estar geral da criança e do jovem no tratamento e recuperação ampla de sua saúde. Quanto à identificação dos cursos de Pedagogia Hospitalar, a origem onde a primeira pedagoga é coordenadora, surgiu de uma demanda de seus alunos e ex-alunos da faculdade onde foi diretora e do centro de pesquisas onde é coordenadora. Porém, o curso demorou a ser aberto devido à baixa demanda. Já o curso onde a segunda pedagoga faz parte do corpo docente, é um curso de graduação em pedagogia de uma universidade antiga no local. Quanto ao curso de especialização em pedagogia hospitalar, em que esta ministra aulas, surgiu da necessidade de preparar profissionais para atuar em contexto hospitalar com uma visão mais ampla em relação a este fazer pedagógico, lúdico, recreativo, preventivo e humano em contexto também de recursos humanos e capacitação em serviço. É importante ressaltar a dificuldade em encontrar um curso na área de Pedagogia Hospitalar, inclusive no contexto de Minas Gerais, incluído na grade do currículo do curso de 4047 Pedagogia ou um curso de Especialização ou Mestrado na área. Isto acontece, pois este campo ainda não é muito conhecido e explorado pelos profissionais da educação, que ainda tem a visão reducionista de que a Pedagogia se resume à docência escolar, de formação de professores das séries iniciais do Ensino Fundamental. Portanto, quando estes cursos são encontrados, não conseguem formar grupos para a manutenção do curso, sendo obrigados a procurar outro meio de especialização que auxilie no assunto, como o curso em Psicopedagogia e outros. Assim, de acordo com Fonseca (1999), a falta do conhecimento e estudo deste assunto torna este atendimento às crianças ignorado e pouco valorizado. A insuficiência de teorias e estudos acerca desta natureza em território brasileiro gera, tanto na área educacional, quanto na área de saúde, o desconhecimento desta modalidade de atendimento tanto para viabilizar a continuidade da escolaridade àquelas crianças e adolescentes que requerem internação hospitalar, quanto para integralizar a atenção de saúde e potencializar o tratamento e o cuidado prestado às crianças e ao adolescente (FONSECA, 1999, p. 119). Contudo, a necessidade destes cursos se dá, devido à falta de preparo dos próprios cursos de Pedagogia em formarem profissionais habilitados, para atuar nas diversas áreas da educação, contrariando a opinião de Libâneo (2005), ao dizer que o curso de pedagogia destina-se a formar pedagogos-especialistas que atuem nos vários campos sociais da educação, decorrentes das demandas e necessidades atuais, podendo estes campos serem as escolas, sistemas escolares, pesquisa educacional, movimentos sociais, mídias, áreas da saúde e assistência social, empresas, sindicatos, e demais que se fizerem necessários. Desta maneira, a formação em nível de pós-graduação destes profissionais, para atuarem em hospitais, como é nosso foco, é mais utilizada e procurada pelos pedagogos que procuram atuar ou que já atuam nesta área, como afirma Fontes (2005b, p. 123) “apenas isso não basta. Precisamos garantir maiores e melhores condições de acompanhamento pedagógico-educacional à clientela infanto-juvenil internada, o que certamente virá com a formação específica de profissionais nessa área de conhecimento”. Quanto ao público atual destes cursos em Pedagogia Hospitalar, a procura pelo curso de especialização coordenado pela primeira pedagoga mencionada, são pedagogos, professores, psicólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, enfermeiros, médicos, terapeutas ocupacionais e interessados na área de atuação. Já no curso de especialização onde a segunda pedagoga atua, a clientela é de pedagogos, arte educador, 4048 enfermeiros, profissionais do serviço social, psicólogos, professores, gestores, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, musicoterapeutas, artistas e demais profissionais interessados. Nota-se que o público dos cursos de especialização em Pedagogia Hospitalar não são exclusivos de profissionais pedagogos, pois como dito anteriormente, são poucos os que se interessam por esta área que não seja a de docência escolar, ficando assim um curso generalizado, que dá a idéia de que qualquer um destes profissionais possa fazer o trabalho do pedagogo hospitalar, ou de que é um curso não especificamente voltado para a atuação do pedagogo no ambiente hospitalar. O pedagogo especializado para atuar na área da pedagogia hospitalar deve ter, além do grande objetivo de humanização na assistência de crianças e jovens hospitalizados, a clareza de que seu papel não é só de manter as crianças ocupadas ou fazendo atividades de recreação/lúdicas, e sim de que seu potencial de intervenção pedagógica-educacional é necessário, pois é mais específico, individualizado, e volta-se a construções cognitivas e à construção do desenvolvimento psíquico (FONSECA, 1999), além de saber que “deve ter a sensibilidade de respeitar o sofrimento, o medo, o anseio, a dor, a agressividade, a alegria, a depressão, enfim, todos os sentimentos da criança doente durante as atividades pedagógicas, além de lhe dar a oportunidade de expressar-se, que dá a certeza da continuidade da vida” (FONTES, 2004, p. 277) Portanto, é importante uma formação mais especializada ao pedagogo que atuará neste ambiente hospitalar, para que possam lidar com todas as questões que o cercam, como afirma Matos (2006c) “Para isso, é importante buscar educadores especializados e comprometidos profissionalmente e socialmente, pois a qualidade do trabalho é fundamental para alcançar os objetivos almejados”. Quanto aos objetivos dos cursos, o qual a primeira pedagoga mencionada é coordenadora, são os de contribuir para a formação de profissionais que atuam ou pretendem atuar no contexto hospitalar e similares, oportunizando-lhes a abordagem ao fenômeno educativo em sua multidimensionalidade e favorecendo-lhes o desenvolvimento de competências necessárias à ação transformadora, com vistas à humanização no atendimento hospitalar. Além de propiciar reflexões sobre as implicações da proposta de humanização hospitalar para as práticas vivenciadas nos hospitais, fundamentar a atuação em equipes multidisciplinares e a participação em projetos interdisciplinares de produção e difusão de conhecimentos e em programas sociais, capacitar o profissional com vista à mudança nos modelos da atenção e gestão dos processos de trabalho e na produção da saúde e habilitar para a docência no Ensino Superior. 4049 Já no curso de especialização em pedagogia hospitalar que a segunda pedagoga ministra aulas os objetivos são: atender a crianças e adolescentes em idade de escolarização hospitalizados, desenvolver projetos de cunho humanizador, recreativo, lúdico, pedagógico e outros; preparar profissionais, para atuar nesta realidade sob a ótica pedagógica, além de, estabelecer a importância da gestão de projetos em Pedagogia Hospitalar na inclusão das diversas realidades sociais no contexto das áreas de educação e saúde; integrar as áreas de Educação e Saúde em uma proposta inter, trans e multidisciplinar*; propiciar condições para que o profissional da saúde, educação e outras áreas se situem como trabalhadores em favor da vida, resgatando na sua prática a participação como reais sujeitos influentes da história e da vida das pessoas no contexto social; e, desenvolver capacidades para planejamento, implementação e atuação em projetos educativos em contexto hospitalar ou comunitários. Os objetivos dos dois cursos são voltados à humanização e à formação do pedagogo no sentido amplo como afirma Libâneo (2005), que contribui no assunto, pois afirma que pedagogo no sentido amplo, é todo profissional que lida com algum tipo de prática educativa relacionado ao saber e modos de ação, e nenhum deles aprofunda na atuação propriamente dita do pedagogo especialista, aquela que tem sentido estrito. Tudo o que dissemos até aqui nos leva a afirmar que todos os profissionais que lidam com alguma modalidade de prática educativa de caráter intencional são, a rigor, pedagogos: uns especialistas, outros docentes. Esses profissionais da educação devem ser formados, predominantemente, nas atuais faculdades de educação, que oferecerão o curso de Pedagogia para atividades escolares e extra-escolares, curso de formação de professores da educação Básica, programa especial de formação pedagógica e programas de educação continuada (LIBANEO, 2005, p. 98). Assim, mais uma vez vimos que a formação de pedagogos para atuação no ambiente hospitalar tem um objetivo mais abrangente, principalmente no primeiro curso. No segundo, a atuação do pedagogo já volta-se um pouco mais para o lado da escolarização do hospitalizado, mesmo sendo um curso que abrange não só estes profissionais. A demanda e captação da demanda para os cursos nos dois locais se dá com um trabalho de divulgação em outdoors, banners, folder, internet, e a partir da procura, é feita uma listagem dos interessados. Porém, a segunda pedagoga afirma que ainda é pequeno o * A autora Ivani Fazenda conceitua interdisciplinaridade, considerando seu prefixo “inter” como “troca”, e disciplina como “ciência”: daí o ato de troca, de reciprocidade entre as áreas do conhecimento, não sendo possível a interposição de disciplinas. Conceitua como transdiciplinaridade, o caráter dinâmico da interdisciplinaridade, na ação unificadora do conhecimento que é resgatada na dialética homem-mundo, ou seja, a cooperação entre as várias matérias é tanta, que não dá mais para separá-las surgindo uma nova “macrodisciplina”. E multidisciplinaridade, como imbricações dos diferentes campos do conhecimento, recorrendo a informações de várias matérias para estudar um determinado elemento, sem a preocupação de interligar as disciplinas entre si. 4050 número de especialistas nesta área e este serviço vai crescer bastante com o tempo pela necessidade que se fará não somente em contexto hospitalar, mas também nas clínicas, postos de saúde e escolas. A demanda e capacitação para estes cursos deveriam também ser realizadas, junto às faculdades de educação e de saúde, mas em especial nos cursos de pedagogia, para despertar, além do interesse pela área, o estudo e aprofundamento deste assunto e, assim um maior conhecimento e aceitação do pedagogo e da ciência de seus afazeres no campo de trabalho e consequentemente uma maior procura pelo curso de especialização, como assegura o Ministério da Educação – Secretaria de Educação Especial (2002, p. 27) que “deve-se estabelecer comunicação com a rede de ensino para que os projetos político-pedagógicos e regimentais incluam a clientela das classes hospitalares e do atendimento domiciliar”. Assim, conhecendo mais sobre o assunto e a importância deste profissional no ambiente hospitalar os estudos se desenvolverão e ficarão cada vez mais sólidos como afirma Matos (2006c): O importante é buscar alternativas para se desenvolver propostas nas instituições em que os discentes do curso de Pedagogia fiquem sensibilizados e desenvolvam projetos e pesquisas que venham a beneficiar e aliviar o sofrimento dessas(es) crianças/jovens, dando-lhes oportunidade para que não percam esse seguimento tão importante da educação em suas vidas. O conteúdo e currículo do curso de especialização mencionado pela primeira pedagoga, não pode ser divulgado, porque o curso ainda não havia iniciado. Já o segundo curso de especialização que mencionamos tem, como justificativam o convite aos profissionais de modo a desenvolver um aprimoramento pessoal, bem como estruturar as bases organizacionais e sociais em setores de serviços com projetos educativos, preventivos e humanizadores. Num enfoque multi, inter e transdisciplinar, potencializando “organizações que aprendem”, as quais poderão expandir suas capacidades de criarem os resultados que realmente desejam, onde surgirão novos padrões de raciocínio e projetos coletivos integrando pessoas no ato de desenvolver propostas e aprenderem em grupo. A tônica do momento centra-se em saber trabalhar em equipe numa sociedade complexa e para isto, é fundamental rever os propósitos pessoais e empreender-se em novos desafios, tais como, de gerenciar as atitudes diante dos impactos globais que estamos vivenciando. Este fazer e agir, poderá ser encontrado nas múltiplas linguagens que estão contemplando esta especialização, por meio de uma visão sistêmica, que aborda desde a sutileza da dança, da música, da arte dramatização, do conto, da poesia, da educação, da 4051 saúde, da bioética, da prevenção em prol da vida e de concepções mais complexas e humanizadoras, como também, nas ações do dia-a-dia nas evidências sociais, organizacionais, interpessoais e intrapessoais. As disciplinas são: a) Pedagogia Hospitalar e suas múltiplas linguagens - Teoria - Prática -Vivências b) Infecção Hospitalar Bioética: Uma Visão Multidisciplinar. c) Brinquedoteca em Hospitais: Arte, Brincadeira e Emoção Práxis Pedagógica na Escola Hospitalar. d) Oficina de Teatro e Maquiagem Cênica envolvendo a Psicologia dos Contos de Fadas. e) As estruturas psíquicas na dinâmica das relações hospitalares f) O Atendimento pedagógico no contexto hospitalar. g) A arte do movimento na promoção das relações interpessoais – Educação Somática: uma outra visão do corpo. h) Paradigmas no cenário dos aspectos metodológicos e na produção do conhecimento. i) Introdução a Música e a Terapêutica Musical. j) Recreação e Atividade Física em Hospitais - Vivências para a Qualidade de Vida. k) Psicopedagogia Hospitalar. l) Contornos Curativos do Conto – Ensino da arte como formação humana. m) Vivências e Portifólio. n) Seminário e Portifólio. O curso de especialização como já dizemos, não centra-se na formação do pedagogo hospitalar somente, ele engloba vários outros profissionais que possam atuar na área pedagógica, por isto as disciplinas procuram focar sempre o fazer pedagógico e as relações que o cercam como a convivência hospitalar que a permeia, bem como, por exemplo, as infecções hospitalares. O curso enfatiza o lado humano que esse profissional deve ter, uma vez que a introdução desta pedagogia no ambiente hospitalar faz parte da tentativa de humanização do atendimento, como afirma o MEC/ SEESP (2002, p. 11) “esta atenção também diz respeito ao paradigma de inclusão e contribui para com a humanização da assistência hospitalar”. Além desta visão mais generalizada, o MEC/SEESP (2002) propõe ao pedagogo hospitalar uma visão mais voltada ao fazer pedagógico, que seria parte da formação específica para este profissional. 4052 O professor deverá ter a formação pedagógica preferencialmente em Educação Especial ou em cursos de Pedagogia ou licenciaturas, ter noções sobre as doenças e condições psicossociais vivenciadas pelos educandos e as características delas decorrentes, sejam do ponto de vista clínico, sejam do ponto de vista afetivo. Compete ao professor adequar e adaptar o ambiente às atividades e os materiais, planejar o dia-a-dia da turma, registrar e avaliar o trabalho pedagógico desenvolvido (BRASIL, 2002, p. 22). As possibilidades de atuação para os alunos dos dois cursos de especialização é o trabalho em hospitais, que visa um acompanhamento das crianças hospitalizadas. Porém, o que dá ênfase à humanização da saúde, também abrange um aspecto maior que é o da pedagogia hospitalar como gestão do hospital, recrutamento e recursos humanos. Isto porque a pedagoga coordenadora do curso, defende duas possibilidades de atuação do pedagogo dentro de um hospital: ele pode trabalhar na área de gestão hospitalar, com vistas para a humanização, com preparativo de curso de capacitação que é também uma tarefa pedagógica, mas não é exclusiva do pedagogo licenciado em pedagogia, é uma tarefa pedagógica por natureza; e a outra possibilidade é a atuação como professor hospitalar, que remete a idéia de classe hospitalar, onde o profissional deve ser formado em pedagogia e tem como função, o acompanhamento escolar às crianças ou outros pacientes internados que tenham esta demanda. A segunda pedagoga defende que as possibilidades de atuação para estes alunos estão crescendo cada dia mais, haja vista as relações e concursos para atuar em diversos estados do Brasil em cenário hospitalar. Porém, há necessidade de sermos cada vez mais capacitados e habilitados para atuar com êxito nesta área. Nota-se que a atuação do pedagogo no ambiente hospitalar é bem ampla, apesar de não ser muito valorizada ou requisitada, alguns ainda acham que não é essencial a presença deste profissional para tais atividades, sendo necessário somente a presença de um recreador ou até mesmo que um terapeuta ocupacional ou psicólogo possa realizar tais atividades. A escuta pedagógica diferencia-se das demais escutas realizadas pelo serviço social ou pela psicologia no hospital, ao trazer a marca da construção do conhecimento sobre aquele espaço, aquela rotina, as informações médicas ou aquela doença, de forma lúdica e, ao mesmo tempo, didática (FONTES, 2005b, p. 123). Assim, é importante o conhecimento dos pedagogos por esta área da pedagogia hospitalar para que possam conquistar seu espaço e mostrem de maneira teórica e prática sua importância e necessidade de atuação, abrindo cada vez mais espaços para a mesma. 4053 Profissionais que Atuam com Atividades Pedagógicas com Crianças nos Hospitais As Profissionais Pesquisadas Conforme descrevemos, foram entrevistadas quatro profissionais que atuam com crianças em hospitais, realizando um trabalho pedagógico, nem sempre sistematizado. Dentre estas, duas são pedagogas, que denominaremos pedagoga (A) e (B), uma é terapeuta ocupacional, denominada profissional (C) e a outra é técnica em enfermagem, profissional (D). Quanto a formação destas, apesar do Capitulo 8 do Plano Nacional de Educação – Educação Especial, que fala da educação especial no ítem 19 dos objetivos e metas, defender a inclusão nos currículos de formação de professores, nos níveis médio e superior, conteúdos e disciplinas específicas para a capacitação ao atendimento dos alunos especiais, apenas a pedagoga (A), recebeu formação específica através de capacitações que se deram em seu local de trabalho, evidenciando a importância desta formação especial, pois, o trabalho pedagógico tem que se articular com a área da saúde, e é preciso conhecer as patologias e se informar com os profissionais da saúde sobre as restrições, para assim, construir um Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) e alcançar os objetivos da função. Quanto à função exercida no espaço em que atuam, as pedagogas (A) e (B), desempenham com clareza este papel. Conforme destaca Willes citado por Fonseca (2001) A função do professor de classe hospitalar não é apenas a de manter as crianças ocupadas. As crianças estão crescendo e se desenvolvendo estejam ou não no hospital. O professor está lá para estimulá-las através do uso de seu conhecimento das necessidades curriculares de cada criança. Por causa deste conhecimento, pode o professor agir como um catalizador e interagir com as crianças proporcionando condições para a aprendizagem. O professor também funciona de modo importante como uma pessoa de ligação com um padrão normal de retorno à casa e à escola de origem. Ambas desenvolvem um trabalho que não se reduz ao preenchimento de tempo da criança hospitalizada; existe planejamento, as limitações individuais são respeitadas, o grau de desenvolvimento cognitivo é levando em consideração, assim, como as necessidades, também. O vínculo com as escolas de origem é estabelecido como, também a relação com os demais profissionais que atuam no hospital, o que vai de encontro com o que defende as teorias. Deste modo, considerando ainda as colocações de Willes citado por Fonseca (2001), pode-se observar que os profissionais (C) e (D), apesar de contribuírem para amenizar a situação vivenciada no período de internação das crianças, pouco contribuem para o 4054 desempenho da verdadeira função do cargo que assumem, ocupando-se mais com atividades lúdicas, livres e sem planejamento, assumindo o papel de recreadoras. Assim, apesar da oferta de atividades recreativas e lúdicas no ambiente hospitalar ocuparem papel importante no enfrentamento da situação, não substitui a necessidade de atenção pedagógico-educacional, pois o seu potencial de intervenção é mais específico, mais individualizado e volta-se às construções cognitivas e à construção do desenvolvimento psíquico. A pedagoga (A) ingressou nessa função há 10 anos, através de concurso para professor hospitalar e, para exercer tal função, recebeu cursos específicos para entender melhor as patologias encontradas no hospital. A pedagoga (B) ingressou nessa função há dois meses, através do seu trabalho de conclusão de curso, cujo tema era sobre a pedagogia hospitalar e ela foi contratada pela instituição como estagiária. A profissional (C) ingressou na função há dois anos, após ter sido contratada como terapeuta ocupacional do hospital, entretanto, foi remanejada para a brinquedoteca, pois não havia ninguém para assumir tal cargo. Já a profissional (D) ingressou no hospital para o cargo de técnica em enfermagem, e, posteriormente, foi remanejada para coordenar a brinquedoteca, onde está há seis meses. Quanto ao ingresso na função, observa-se que apenas as pedagogas (A) e (B), ingressaram devido a necessidade deste serviço por profissionais da educação nas instituições contratantes, o que veio de encontro com o interesse pessoal dessas profissionais. As profissionais (C) e (D) assumiram esta tarefa por acaso, por terem sido desviadas de função, mas ambas demonstram prazer em assumirem o cargo delegado, porém demonstram dificuldade para desempenhar a função com enfoque pedagógico, por não possuírem formação adequada para tal função. Podemos assim observar que os objetivos da prática da pedagoga (A) são voltados para a questão de aprendizagem, humanização do espaço hospitalar, abrangendo tanto aqueles que estão na escola, visando assim a continuidade dos estudos no período de internação, como também abrange adultos que necessitam de algum acompanhamento específico, além do objetivo de inserção escolar para aqueles que estão fora da escola ou do espaço educativo. Os objetivos da prática da pedagoga (B) é trabalhar o desenvolvimento cognitivo da criança, através de atividades psicomotoras dentro das capacidades individuais, diminuindo com isso o déficit de desenvolvimento provocado pelas limitações ocorridas pela doença, tais como afastamento do meio educacional formal e de parte do convívio social, reações medicamentosas e estresse. Percebe-se com isso, que existe nas práticas das pedagogas (A) e (B), compromisso de cumprir o que a Legislação Brasileira obriga através do Conselho 4055 Nacional de Educação, por meio da Resolução nº 2, de 11 de fevereiro de 2001, no Artigo 13 Parágrafo 1o, que as classes hospitalares e o atendimento em ambiente domiciliar devem dar continuidade ao processo de desenvolvimento e ao processo de aprendizagem de alunos matriculados em escolas de educação básica, contribuindo para seu retorno e reintegração ao grupo escolar, e desenvolver currículo flexibilizado com crianças, jovens e adultos não matriculados no sistema educacional local, facilitando seu posterior acesso a escola regular. Os objetivos da profissional (C) são estritamente de cunho recreativo, possibilitando a criança o momento de brincar no ambiente em que se encontra hospitalizada. Além disto, ela também tem o objetivo de trabalhar com a terapia ocupacional, segundo pedido dos médicos. Quanto à profissional (D), os objetivos desta prática hospitalar, antes de sua entrada, era o de não interromper totalmente o vínculo escolar da criança hospitalizada, buscando realizar atividades que a fizessem retornar ao “clima escolar”. Percebeu-se, no entanto que não era possível realizar esse trabalho devido à “rotatividade” das crianças que ficavam hospitalizadas, iniciando-se então, o trabalho de recreação com as crianças, onde o objetivo principal é o de não permitir que a mesma se “renda” à doença, sendo este um espaço voltado para o brincar. Considerações das Profissionais Pesquisadas sobre os Ambientes Pesquisados Nas instituições pesquisadas, pode-se identificar variados ambientes utilizados para a realização das atividades pedagógicas desenvolvidas. Estes são definidos de acordo com o espaço físico do hospital. Segundo Matos (2006c) a estrutura física do hospital deve favorecer condições de se efetuar com êxito um trabalho humanizador, aliado à equipe hospitalar, à família, à escola e às intervenções realizadas. De acordo com a pedagoga (A), na instituição em que trabalha, não há uma sala específica para a realização do atendimento pedagógico, sendo utilizado para isso, espaços como o refeitório, o solário e o auditório. A única sala específica e própria para a realização deste trabalho é a sala de artes onde é realizada atividades de pedagogia. Já a pedagoga (B), conta, para este atendimento, com uma brinquedoteca onde realiza as atividades pedagógicas e brincadeiras, além de uma área externa com brinquedos. A profissional (C) relata que para a realização das atividades conta com uma pequena sala que atualmente está inutilizada, pois o hospital está em reforma. Esta sala é equipada com brinquedos, jogos, televisão e adaptações para oxigênio e possui o suporte necessário para o atendimento das crianças. A profissional (D) utiliza por sua vez, a brinquedoteca e uma sala de televisão e vídeo. 4056 Segundo o MEC/SEESP (2002), o hospital deve contar com ambientes projetados a fim de favorecer a construção e desenvolvimento do conhecimento da criança hospitalizada, desta forma, é necessária uma sala para desenvolverem as atividades pedagógicas, com móveis adequados, bancada com pia, e um espaço ao ar livre. Porém, o mesmo reconhece que além destes espaços, o pedagogo pode utilizar-se de outros espaços no hospital, como enfermaria, quarto de isolamento, leito, e até mesmo o solário, desde que estes tenham a capacidade de receber as crianças para as atividades, como no hospital da pedagoga (A), em que as macas e materiais de suporte têm rodinhas para facilitarem a locomoção. No que se refere a adequação destes ambientes para a realização das práticas educativas realizadas, as pedagogas pesquisadas relatam a necessidade de um ambiente mais apropriado, em contraposição das demais profissionais que não relataram a mesma necessidade. Segundo a pedagoga (A), falta um espaço mais reservado para a realização das atividades, principalmente para o acompanhamento escolar, pois para esse é necessário um ambiente mais tranqüilo, onde não haja constante movimentação de pessoas. Ainda segundo ela, mesmo realizando as atividades em vários lugares do hospital essa situação acaba por trazer benefícios, uma vez que a movimentação dos pacientes pelo hospital modifica de certa forma, a idéia de que o paciente deva ficar totalmente paralisado durante o período de internação. A pedagoga (B) enfoca a necessidade de uma sala para o atendimento individualizado para os pré-adolescentes que, por ficar muito tempo sem freqüentar a escola da educação básica, sofrem dificuldades quando chegam ao ensino médio. As profissionais, (C) e (D) relataram que os espaços utilizados são adequados embora a profissional (C) não esteja utilizando o espaço devido à reforma do hospital. Quanto aos espaços para o desenvolvimento das atividades pedagógicas hospitalares, Fonseca (2001) afirma que cabe aos hospitais a disponibilização de espaço físico para a realização das mesmas, e que, mesmo não tendo sido idealizados contando com a existência de uma Classe Hospitalar em suas dependências, a Secretaria de Educação deve prestar aos mesmos, maiores esclarecimentos quanto a esta modalidade de atendimento de forma a encontrar alternativas que levem a oferta de acomodações mais adequadas para o exercício desta modalidade educacional. O horário de desenvolvimento das atividades educativas varia de acordo com as instituições. Cada uma possui um horário adequado para desenvolver suas atividades de acordo com as possibilidades do serviço. Dentre as profissionais pesquisadas, apenas a pedagoga (A) relatou o horário das atividades desenvolvidas, sendo que estas ocorrem 4057 diariamente no horário de 8h às 17h, exceto no horário de almoço e a partir das 17 h que é o horário de visitas. As demais profissionais não relataram o horário de realização das atividades, pois o mesmo não é fixo. Apesar do horário para a realização das atividades pedagógicas ser fixo, apenas em uma das instituições pesquisadas é necessário que o tempo para essas atividades seja administrado, pois, conforme Fontes (2005a), o melhor horário para que as atividades pedagógicas sejam desenvolvidas é na parte da tarde, já que a maioria dos exames são realizados pela manhã. Há também uma série de intervenientes, como horário de visitas, horário de jantar, etc. Porém, com um planejamento flexível, estes aspectos não impedem a realização do trabalho. Fontes (2005a) acrescenta que um segmento da enfermagem acredita que estas atividades devem ser desenvolvidas na parte da manhã, quando as crianças estão mais despertas e dispostas. Uma pesquisa desenvolvida por Fonseca (2001), em 16 Classes Hospitalares no Brasil, concluiu que 44% destas funcionam exclusivamente no horário da tarde, devido à intensificação da demanda médico-clínica junto à criança na parte da manhã. Desta forma, cada hospital tem um horário mais adequado para desenvolver as atividades pedagógicas, cabendo ao pedagogo decidir por qual horário optar. Pacientes Atendidos nos Ambientes Pesquisados As práticas pedagógicas desenvolvidas em ambientes hospitalares possuem como foco, o paciente, ou seja, a criança, o adolescente e até mesmo o adulto que esteja hospitalizado, seja por um breve período de tempo, como aqueles que sofrem internações recorrentes. Segundo a pedagoga (A), os educandos atendidos por esse trabalho na instituição são pacientes de diversas faixas etárias, não se restringindo, portanto, o atendimento a crianças. Os educandos atendidos pela pedagoga (B), são pacientes da faixa etária de 0 a 18 anos, com câncer. Estes são em sua maioria, pacientes carentes, que necessitam de um acompanhamento mais intenso no sentido de, além de trabalharem com a parte pedagógica, trabalham também o psicológico que está abalado pela doença e seu tratamento. A profissional (C) por sua vez, atende a pacientes entre 0 a 12 anos com diversas patologias, e a profissional (D) atende pacientes do hospital na faixa etária de até 18 anos. Quanto a origem escolar destes pacientes, todas as pedagogas afirmaram que, a maioria é proveniente da rede pública, embora haja casos, em menor escala, de pacientes provenientes da rede privada. Há casos de atendimento a pacientes que nunca tiveram contato 4058 com a escola ou até pararam de estudar. Em todas as instituições pesquisadas, as profissionais relataram atender, na realização das atividades, pacientes tanto de Belo Horizonte e região metropolitana, como também de cidades do interior do Estado. É importante ressaltar que o tempo médio de permanência nestas instituições variam de acordo com a patologia diagnosticada, e que, em razão da mesma, as limitações enfrentadas na realização e desenvolvimento do trabalho pedagógico hospitalar são diversas, uma vez que estes se encontram debilitados e inseguros quanto ao momento vivido, além de possuírem, devido à doença e suas limitações, um outro ritmo de aprendizagem e acompanhamento nas atividades propostas, já que estão num contexto completamente diferente do habitual. As limitações dos pacientes atendidos vão desde motoras, físicas, psicológicas, além de limitações próprias do avanço e tratamento da doença em questão, tais como: cansaço, fraqueza, enjôos, nervosismo, agitações e distrações devido à ansiedade quanto ao tratamento. Constatamos ainda, num determinado hospital pesquisado, limitações como à impossibilidade de locomoção dos educandos que se encontram internados na ala infecto-contagiosa, e que, por isto, não podem se locomover ambiente, devendo as atividades serem realizadas no próprio leito. A respeito, Fontes (2005a) afirma que se deve propor uma atividade para que a mãe ou acompanhante possa desenvolvê-la com a criança, o que condiz com a prática realizada nesta instituição, de acordo com a terapeuta ocupacional responsável por este atendimento. Apesar das limitações enfrentadas por ocasião das patologias, aliado ao fato de estarem em um ambiente estranho a sua realidade, os pacientes que recebem essa modalidade de atendimento, correspondem às atividades propostas segundo as profissionais entrevistadas. Elas ressaltam que isso ocorre devido ao fato das mesmas proporcionarem uma nova vivência, além de ser o momento que estes pacientes possuem para se distraírem no hospital. De acordo com a pedagoga (A), que trabalha na Classe Hospitalar, os educandos atendidos na instituição em que trabalha só não correspondem às atividades quando não tiveram uma boa experiência escolar, e em sua maioria, são adolescentes. A pedagoga (B) e a profissional (C) afirmaram que os pacientes participam das atividades propostas, e que os mesmos só não se interessam por estas, quando não se sentem dispostos para realizá-la. A profissional (D) ressalta ainda que, além de corresponderem às atividades, por gostarem muito, os pacientes se sentem mais calmos quando são encaminhados para a brinquedoteca, uma vez que, em sua maioria, são enviados para lá antes de irem para a sala de cirurgia. Como relatado pela profissional (C), a indisposição pode levar o paciente a não participar das 4059 atividades, sendo assim, preciso respeitar as limitações próprias da doença em tratamento e a vontade do paciente/aluno, já que não deve forçá-lo a fazer algo que não queira (FONTES, 2005a). Através das entrevistas realizadas para o desenvolvimento da pesquisa, pode-se verificar que várias são as patologias que levam os pacientes a hospitalização. Nas instituições onde trabalha a pedagoga (A) e (B), entretanto, tais patologias são mais específicas, como patologias relacionada ao tratamento de reabilitação e de amenização do estágio do câncer respectivamente. A pedagoga (A) citou como as mais comuns a paralisia cerebral, o acidente vascular cerebral, a espinha bífida, doenças metabólicas que afetam o cérebro, doenças genéticas, a atrofia muscular espinhal, o traumatismo cranioencefálico, a lesão medular, a paralisia facial periférica, a paralisia braquial, a distrofia muscular progressiva, a artrogripose, o pé torto congênito, a Síndrome de Guillain-Barré, miopatias congênitas e malformações cerebrais. A pedagoga (B) citou como patologia principal o câncer em suas várias formas de manifestação. A profissional (C) citou as doenças infecto-contagiosas, as infecto-parasitárias, hematológicas e as doenças respiratórias como sendo as principais. A profissional (D) citou pneumonias, leucemias, adenóide, problemas nas amídalas e outros. Atividades Realizadas no Ambiente Hospitalar No que tange a subcategoria de identificação das atividades realizadas no ambiente hospitalar, a política e diretriz da educação seguida pelas pedagogas e profissionais são as seguintes: a pedagoga (A) utiliza a inclusão, buscando trabalhar intensivamente com as potencialidades dos pacientes; a pedagoga (B) não segue nenhuma política e diretriz específica; as profissionais (C) e (D) adotam como política o “brincar”, pois, acreditam que este é fundamental para a recuperação da criança. Segundo um estudo de Fonseca (2001) realizado entre 1997 e 1998, 40% de 16 Classes Hospitalares em todo o Brasil, segue a política e diretriz da educação especial. Nestes casos, a classe hospitalar é, de acordo com a legislação federal, modalidade de ensino da educação especial. O percentual restante das classes, seguem as diretrizes contidas na LDB 9394/96 ou a legislação educacional de seu estado ou município. Desta forma, podemos perceber que o trabalho pedagógico realizado pela pedagoga (A) é o que mais se aproxima das demais classes hospitalares em todo o Brasil, que é o da inclusão, aspecto fundamental da educação especial. Além disto, independente da política e diretriz seguida, o atendimento pedagógico educacional em hospitais, devem ter como 4060 objetivo “dar continuidade ao ensino de ambos os conteúdos da escola e/ou próprios da faixa etária dos alunos internados, levando-os a sanar dificuldades de aprendizagem e oportunizando aquisição de novos conteúdos.” (FONSECA, 2001). Outro ponto que deve ser destacado é a política do “brincar” adotada pelas profissionais (C) e (D). Esta política pode ser, muitas vezes, vista e entendida com certo preconceito, como somente para ocupar o tempo das crianças. Porém, de acordo com Sikilero, Morselli e Duarte (apud CECCIM, 1997, p.59) “o brincar é uma necessidade da criança em qualquer das etapas da sua vida”. Esta afirmação é uma concordância entre os profissionais da saúde e da educação e é entendida como uma necessidade do organismo, assim como o sono, a alimentação e outros. Ainda segundo os autores, o brinquedo no hospital assume uma função recreativa e terapêutica, pois tenta resgatar, junto à criança o seu lado saudável, possibilitando manifestações de lazer e alegria que recriam energia e vitalidade. As crianças hospitalizadas não deixam de ser crianças. Mesmo enfrentando momentos difíceis e envolvidas em sofrimento, mantêm dentro de si um potencial lúdico que pode e deve ser explorado: podem ouvir, escrever, ler, pintar, inventar, expressar, expressar-se criativamente e brincar (AMORIM, 2004, p. 75). Outro aspecto analisado com relação às atividades foi a metodologia específica, sendo que a pedagoga (A) baseia-se na inclusão e para cada paciente desenvolve um projeto específico de acordo com seu diagnóstico e limitações. A pedagoga (B), devido ao curto período de permanência na casa, não trabalha a alfabetização com as crianças, apenas o lúdico, mas de forma intencional. Segundo ela, pode-se, de acordo com o interesse e demanda da criança trabalhar os signos (números, letras, decodificação), mas não é a prioridade, pois, as crianças encontram-se muito nervosas e com muita dificuldade de concentração, sendo este o principal problema encontrado durante o trabalho. As demais profissionais não seguem nenhuma metodologia, e deixam a criança livre para brincar do que quiser. Quanto aos aspectos levantados pela pedagoga (B), Vasconcelos (2006b), afirma que as crianças hospitalizadas, devido à doença, são excluídas de seu ambiente e tem uma queda de auto-estima. Sendo assim, elas “sofrem pela doença, pelo distanciamento do ambiente familiar e dos amigos, e de seu ambiente social, a escola”. (VASCONCELOS, 2006b). O MEC/SEESP (2002) complementa na afirmação de que as condições clínicas individuais devem ser levadas em conta pelo professor ou pedagogo hospitalar, pois estas interferem na disponibilidade das crianças, como dificuldades de locomoção, imobilizações, efeitos colaterais de determinados medicamentos, restrições alimentares, procedimentos invasivos, efeitos de dores e indisposições gerais decorrentes do quadro de adoecimento. Desta forma, o 4061 pedagogo lida, na maioria das vezes, com crianças comprometidas, devido às suas condições clínicas, o que intervêm no trabalho pedagógico dentro do hospital. Também é interessante que as atividades realizadas sigam um princípio de continuidade, sendo este um obstáculo, pois cada criança hospitalizada tem um tempo de internação segundo os relatos, por isto de acordo com Fontes (2005a, p.27), “as atividades realizadas no dia devem ter início, meio e fim (...) é aconselhável dar um desfecho para atividade do dia, fazer uma avaliação junto com as crianças e expor os trabalhos produzidos”. Assim, será possível acompanhar o desenvolvimento cognitivo da criança em seu processo de aprendizagem, que é o objetivo do trabalho pedagógico no hospital, segundo Ceccim (1997). Além disto, a questão metodológica facilita o trabalho pedagógico, que objetiva nortear e organizar as atividades que serão realizadas com pacientes diferentes todos os dias. Sem uma organização, não é possível realizar um trabalho efetivo que dê resultados positivos na aprendizagem da criança. O planejamento das atividades também foi contemplado no roteiro da entrevista (APÊNDICE 2). Desta forma, a pedagoga (A) conta com cinco programas para adultos e crianças que atuam tanto a nível interno, como externo. Em cada programa há atividades específicas para cada diagnóstico, como exemplo: atividade de comunicação alternativa, atividades de leitura, escrita e memória. A pedagoga (B) planeja suas atividades de acordo com a demanda e o interesse do paciente. A profissional (C) planeja suas atividades direcionadas, apenas quando solicitadas pelos médicos, atividades estas, próprias da terapia ocupacional. A profissional (D) não planeja atividades a serem feitas pelas crianças, uma vez que estas são livres. Para facilitar o trabalho, Ceccim (1997) sugere um planejamento que facilite o acompanhamento pedagógico: uma divisão em dois grupos de acompanhados, às crianças com internações eventuais e curtas e às crianças com internações recorrentes ou extensas. Porém, como percebido, o planejamento depende da política e diretriz seguida por cada hospital para atender bem aos pacientes, como planeja por exemplo a pedagoga (A). Apesar disto, o planejamento é necessário e deve ser flexível e regulado pelo interesse e disposição da criança, segundo Fontes (2005a). Se as atividades forem de longa duração, as crianças podem cansar-se facilmente ou dispersar a atenção devido à fragilidade da doença. Além disto, a flexibilidade contempla tanto o conteúdo em relação à faixa etária da criança, quanto às questões de ordem pragmática que não foram consideradas no planejamento inicial, como os imprevistos. A pedagoga (B) em seu relato privilegia esta questão no planejamento 4062 das atividades. Por isso, o pedagogo deve estar sempre atento ao prontuário para saber as limitações das crianças. Os materiais utilizados para a realização das atividades nos hospitais variaram conforme o hospital e o tipo de atendimento do mesmo, prevalecendo o uso de livros e brinquedos, conforme descritos. A pedagoga (A) utiliza materiais diversos como livros, materiais enviados pela escola, materiais confeccionados nas oficinas realizadas pelos pacientes, além de outros como computadores, suporte técnico e etc. Os equipamentos são adaptados para os pacientes como, por exemplo, o computador utilizado, que possui adaptação para o pé, boca, cabeça e mão, quando a doença compromete o desenvolvimento das atividades. Além de adaptação para transporte facilitado. Estes materiais são importantes, pois, quando um adulto que sofreu acidente deixa de trabalhar devido à limitação, o hospital verifica a possibilidade de adaptação para reinserção deste no ambiente de trabalho. Já a pedagoga (B) e as profissionais (C) e (D) utilizam-se de materiais como livros, brinquedos, recreativos, e outros. Observa-se que a pedagoga (A) conta com mais e melhores recursos que as demais profissionais, facilitando assim seu trabalho. Segundo a cartilha do MEC/SEESP (2002), as classes hospitalares ou hospitais que desenvolvam trabalho pedagógico devem contar com jogos e materiais de apoio pedagógico fáceis de ser manuseados e transportados, suportes para lápis e papel, teclados de computador adaptados, vídeos educativos e etc. Além de recursos audiovisuais, como computador em rede, televisão, videocassete, máquina fotográfica, aparelho de som, telefone, materiais pedagógicos e outros. Estes recursos e adaptações, como eliminações de barreiras arquitetônicas e físicas, são essenciais para o planejamento, desenvolvimento e avaliação do trabalho pedagógico, facilitando também o contato com a escola de origem do educando, como no caso do hospital em que trabalha a pedagoga (A), a escola manda o material em que a criança já estava trabalhando, para que ela dê continuidade em seus afazeres e não se sinta excluída da sociedade. Envolvimento de Outros Profissionais com o Trabalho Pedagógico Realizado Em se tratando do envolvimento e participação de outros profissionais nas atividades, a pedagoga (A) realiza semanalmente uma reunião com a equipe interdisciplinar para discussão de cada caso acompanhado. A partir desta reunião, é feito o planejamento de quais atividades serão realizadas com cada paciente. Enquanto que a pedagoga (B) e as 4063 profissionais (C) e (D) não tem nenhum envolvimento com os demais profissionais, sendo as duas últimas por não possuírem uma proposta de trabalho a ser cumprida. O envolvimento com outros profissionais que trabalhem no hospital é fundamental para o pedagogo, e como afirma Ortiz e Freitas (2001, p. 74), deve haver a elaboração de uma “proposta interdisciplinar, contextualizada, convidando a equipe de saúde para as atividades de ensino”, como é o trabalho desenvolvido pela pedagoga (A). Assim, é a partir destas reuniões que o pedagogo elabora o seu planejamento e discute com a equipe sobre o desenvolvimento da criança com determinadas atividades. Além disto, a equipe pode solicitar serviços específicos de outra modalidade (fisioterapia, fonoaudióloga, terapia ocupacional e outros especialistas da saúde), discutir o diagnóstico da mesma e suas limitações, tudo em prol da recuperação da criança. Para reafirmar este envolvimento dos profissionais, as orientações do SEESP/MEC (2002) para o professor o qual irá coordenar a proposta pedagógica no hospital, é que ele deve articular-se com toda a equipe de saúde, com a Secretaria de Educação e com a escola de origem da criança, o que é comprovado pelo estudo de Fonseca (1998), em que 63% dos hospitais que têm classes hospitalares realizam reuniões entre a equipe de saúde e os professores/pedagogos. A negação deste envolvimento entre a equipe de saúde e o pedagogo é o renegar da integralidade da assistência à mesma que é um dos princípios que regem legal e moralmente estes serviços e é entendida e defendida com veemência por Ceccim como a articulação/integração/simultaneidade de ações e serviços, preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do Sistema de Saúde. (...) a atenção integral abarca inquéritos epidemiológicos, avaliação de riscos ambientais, planejamento e programação de ações individuais e coletivas, além da incorporação, na prática clínica, das normas e procedimentos oriundos dos campos da educação, psicanálise e epidemiologia (1997, p. 27). A atenção integral à criança se associa ao conceito de saúde como defesa da vida e como sendo a escuta à vida. Portanto, somente com a integração dos profissionais de saúde e educação é possível esta escuta a criança, não só no que se refere ao tratamento, mas também ao acompanhamento dos processos assistenciais envoltos nesta prática. Sobre a integração do trabalho realizado com as demais atividades realizadas no hospital, a pedagoga (A) diz que não somente há integração, como esta é necessária para o bom andamento do trabalho proposto. Portanto, ela realiza atividades com outros profissionais como fisioterapeutas, psicólogos e outros. Atualmente neste hospital são três professores 4064 hospitalares que trabalham integrados: uma professora de artes, uma de educação física e um de nível médio. Algumas unidades tem professor de dança, porém nesta, ainda não tem. As demais profissionais não realizam trabalho integrado com outros profissionais e atuam a maior parte do tempo sozinhas. O trabalho do pedagogo integrado aos profissionais de saúde e ao contexto hospitalar, como já visto, garante a escuta à vida da criança hospitalizada. Além disto, ele é importante para que juntos “promovam ações que possam envolver esta criança (...) de uma forma mais harmoniosa e humana, pois a vida com saúde é o maior patrimônio que cada um de nós tem, e quando isso está em jogo toda ação em prol de sua recuperação é bem-vinda.” (MATOS, 2006c). Além disso, a autora também acredita que o envolvimento da atuante equipe profissional e sua integração é fator essencial e ao mesmo tempo crucial para o sucesso desse trabalho. Esta integração deve, com a devida prevalência, favorecer e conciliar as situações problematizadoras, com ênfase nesse processo de cura. Também, aí se instala a relevância dos atendimentos psicossociais e pedagógicos, inseridos num único processo, como fator de restabelecimento. É quando surge a necessidade de uma nova mentalidade na formação desses profissionais, o que lhes vem assegurar um real e adequado desempenho, com ênfase neste momento, ao do pedagogo, na qualidade de novo profissional na equipe de saúde (MATOS, 2006c, p. 12). Assim sendo, o trabalho integrado entre educadores e profissionais de saúde possibilita à criança hospitalizada uma recuperação mais aliviada e uma adaptação das suas necessidades dentro deste novo ambiente estranho, que causa dor, além de facilitar o desenvolvimento e o sucesso das atividades e tornar o ambiente mais agradável para toda a equipe que atende as crianças hospitalizadas. Felizmente, quanto à resistência por parte dos demais profissionais, somente uma pedagoga afirma sofrê-lo, sendo que as demais reconhecem não haver este tipo de resistência. Para a pedagoga (B) há certa resistência dos outros profissionais com o trabalho realizado por ela, pois não compreendem que seu trabalho é planejado, possuindo assim, uma intenção educacional. As profissionais (C) e (D) dizem que os outros profissionais acham a brinquedoteca importante no tratamento dos pacientes e incentivam a ida das crianças para lá. Infelizmente, dentro do hospital, o pedagogo ainda é rotulado como um recreador, ou o “tio”, como acontece com a pedagoga (B). As outras profissionais já conseguiram conquistar um espaço dentro dos hospitais em que atuam. Apesar disto, enfermeiros, médicos, e nutricionistas vêem os “professores/pedagogos como recreadores, aqueles que promovem brincadeiras com a criança para ‘matar’ o tempo ou para fazer com que ela não dê trabalho” (FONTES, 2005a, p.25). 4065 Através das entrevistas, pode-se perceber que esta visão tem-se modificado com o tempo, mesmo que lentamente. É comum, segundo Fontes (2005a) que os enfermeiros interrompam as atividades das crianças e as levem forçosamente para realizarem medicações ou fazerem exames. Estas atitudes demonstram que a relação destes profissionais ainda é fragmentada, não havendo um trabalho realmente integrado. A relação entre o profissional que realiza o trabalho pedagógico e a escola de origem do educando A última subcategoria pesquisada foi sobre o relacionamento entre o profissional e a escola de origem do educando. Segundo a pesquisa, a pedagoga (A) relata que a família recebe uma orientação quando a criança é internada, de procurar a escola e nela buscar materiais que estão sendo utilizados pela professora. Pode ser que a escola os envie ou não. Quando é feito o contato, algumas escolas preferem se preocupar com o estabelecimento da criança, desconhecendo os benefícios destas atividades na melhora da mesma. Assim, o hospital busca esclarecer os benefícios destas atividades para a escola. Algumas, depois deste contato feito pelo hospital, mandam o material, e quando isto não ocorre, o hospital trabalha com os recursos que possui. Às vezes, a escola não envia o material, mas indica quais conteúdos podem ser trabalhados. Quando a escola envia prova, esta é aplicada, mas não é avaliada pela equipe do hospital. É enviada para a própria escola, para que ela avalie. Freqüentemente é mandado à escola um relatório do trabalho feito pela criança durante a internação, além do hospital realizar seminários para esclarecimentos nas escolas das crianças acompanhadas sobre diagnósticos, materiais alternativos, educação física, e estudos de caso, de forma a levar a escola a pensar alternativas de trabalho com essas crianças. Portanto, a pedagoga (A) quando é necessário vai até a escola, e faz o possível para manter contato com a mesma. A pedagoga (B) realiza contato com a escola de origem da criança, quando é necessário. E as profissionais (C) e (D) não realizam contanto com as escolas dos pacientes. Conforme as respostas sobre a relação com as escolas de origem do paciente, observase que as pedagogas têm a preocupação de realizar o contato com a escola de origem do educando. Infelizmente, visão esta que não atingem as outras profissionais que também realizam um trabalho pedagógico no hospital. Porém, o contato com a escola permite um trabalho contínuo que garanta à criança condições de aprendizagem e a não ruptura dos processos cognitivos que envolvem essa criança que agora se encontra em um outro ambiente. Ceccim (1997, p. 79) afirma que “a partir do contato com a escola, trabalha-se os conteúdos 4066 curriculares para evitar que ela fique com uma defasagem muito grande ao retornar à escola regular”. Esta relação é uma preocupação que deve nortear o pedagogo em suas ações no hospital, visando à continuidade do ensino de conteúdos da escola de origem da criança ou um programa próprio à faixa etária da mesma, possibilitando sanar as dificuldades de aprendizagem e oportunizando a aquisição de novos conteúdos intelectuais. Além disso, pode facilitar o retorno e a reintegração da criança ao seu grupo escolar regular e incentivar aquelas que ainda não estão matriculadas a procurar uma escola após a alta hospitalar (CECCIM, 1999). No hospital onde trabalha a pedagoga (A) existe um cuidado com as crianças que ainda não estão matriculadas em escolas, no sentido de procurar inseri-las, e para isso, realizam contato com escolas, providenciando uma vaga para a criança e explicando ao corpo docente sobre as limitações e preocupações que deve se ter com a criança, devido à doença. Ceccim (1997) aconselha que a interação entre o pedagogo hospitalar e a escola de origem forneça ao professor da escola o conhecimento da doença, principalmente, para que quando o a criança volte à escola, ela se sinta integrada, devido ao esforço de manter a vida escolar através das informações sobre o que a escola espera do aluno enquanto este estiver internado. Por outro lado, a escola deve receber toda orientação que julgue necessária para manter o aluno em classe. Outro aspecto abordado foi como a prática pedagógica auxilia na recuperação da criança. Todas as profissionais relataram que é visível a recuperação e os benefícios da prática educativa ou lúdica realizada com as crianças internadas. Além disso, elas afirmam também que a comunidade hospitalar reconhece as vantagens deste serviço e a importância do mesmo. O aspecto cognitivo interfere o tempo todo no emocional e com a saúde, pois “ao compreender a causa e os sintomas de sua doença, a criança pode controlar melhor sua ansiedade e isto, dentro de um quadro clínico, contribui para a sua saúde” (FONTES, 2005a, p.23). Ou seja, auxilia na recuperação da mesma, pois objetiva que ela entenda o processo pelo qual está passando, deixando-a a par de seu diagnóstico e de suas possibilidades. Assim, Ceccim (1999) acredita que o atendimento sistemático contribui para um melhor desenvolvimento das mesmas, pois a possibilidade de sair do leito, bem como a realização de atividades motivadoras e a observação de que outras crianças também passam por experiências dolorosas, contribui para um melhor desenvolvimento e a mais rápida recuperação de saúde das crianças. O trabalho pedagógico se assemelha a uma ponte entre a escola a criança, fazendo com que a mesma se sinta integrante da sociedade e também 4067 produtiva, já que aprende mesmo estando comprometida pela doença, o que auxilia de forma intensa, na sua recuperação. Os benefícios e vantagens das práticas educativas no ambiente hospitalar são visíveis por todas as profissionais entrevistadas que concordam que o trabalho realizado proporciona aos pacientes benefícios, sendo visível, segundo as mesmas, a melhora tanto no comportamento quanto na recuperação da doença, pois ameniza os sintomas e as limitações causadas pela mesma. Diante disso, fica claro como o trabalho pedagógico realizado com as crianças hospitalizadas ameniza o difícil processo de internação pelo qual elas passam. Segundo Fonseca (2001), o benefício da oportunidade de trabalhar as necessidades das crianças, desvinculando-se mesmo que por pouco tempo da problemática da saúde assume um caráter importantíssimo para a criança. A aprendizagem no hospital ganha outro significado para Fontes (2005a), pois aprender é sinal de saúde para a criança hospitalizada, além disso, a pedagogia hospitalar trabalha a potencialidade da criança e não o seu fracasso, e quando ela se vê capaz de produzir e de aprender, ganha vida. Além disso, a sugestão do pedagogo desenvolver atividades lúdicas que trabalhem o reconhecimento do espaço, de sua doença e de si mesmo com a criança aflora o desejo na mesma por outras atividades de cunho escolar espontaneamente, possibilitando o seu desenvolvimento cognitivo. Este é o benefício principal do trabalho pedagógico, além da socialização, das oportunidades de esquecimento da doença, enquanto aprende, e outros. No entanto, algumas dificuldades são encontradas no trabalho pedagógico hospitalar. A primeira dificuldade encontrada pelas profissionais é a que os próprios educandos enfrentam, devido ao processo do diagnóstico da doença, ao seu posterior tratamento, reações e limitações, devido a alterações no comportamento das crianças, como o humor, temperamento, bem estar e outros, sendo assim difícil estabelecer quais as atividades serão utilizadas. Há também aquelas enfrentadas pela pessoa responsável por esse trabalho desenvolvido, pois segundo as profissionais (C) e (D) a falta do profissional específico para lidar com as questões educacionais do paciente acarreta uma dificuldade no trabalho. A Pedagoga (A) cita ainda a dificuldade em lidar com muitos pacientes vindos do interior, o que dificulta a relação da profissional com a escola de origem. Cabe salientar que é necessário para um bom desenvolvimento desse trabalho, um conhecimento por parte da pessoa responsável sobre as diferentes patologias para que assim, 4068 possa “respeitar os limites clínicos de cada criança e para que se tenha a sensibilidade de perceber quando a criança não está bem, não exigindo atividades que estejam acima de seus limites físicos”, como afirma Ceccim (1997, p. 78). E esta é uma dificuldade que se apresenta no trabalho pedagógico, pois exige do pedagogo a habilidade de improvisar e de estudar as mais variadas patologias que podem ser encontradas no hospital. Neste ponto, ele assume um caráter de pesquisador. Quanto à dificuldade que as profissionais (C) e (D) relataram sobre a falta do pedagogo no hospital, cabe salientar que no município de Belo Horizonte, ainda é pequeno o número de hospitais que oferece esta modalidade de ensino. Porém, segundo o MEC/SEESP (2002), o profissional habilitado para ocupar este espaço deve ter a formação em Educação Especial ou em cursos de Pedagogia ou licenciaturas e não é esta a realidade encontrada na maioria dos hospitais do município. Fonseca (2006) complementa que a Secretaria de Educação é que deve prestar aos hospitais as informações e esclarecimentos a respeito do trabalho a ser desenvolvido pelo pedagogo dentro do hospital, junto às crianças hospitalizadas, motivando-os para que possam encontrar formas que levem à oferta de acomodações mais adequadas para o efetivo exercício desta modalidade educacional. Portanto, é necessária uma integração entre a Secretaria de Educação, que tem como encargo o suporte pedagógico e material, além da cessão de corpo docente para exercer funções educativas nos hospitais, e a Secretaria de Saúde, que deve criar esta nova função nos hospitais, com vista à melhoria do atendimento à criança e a sua recuperação, já que a resistência por parte de outros profissionais ao pedagogo também é uma dificuldade enfrentadas por esses. Considerações Finais O estudo do trabalho pedagógico dos profissionais, principalmente pedagogos, no ambiente hospitalar, traz uma importante contribuição para a realidade atual, pela possibilidade transformadora da prática em suas diversas dimensões na contemporaneidade, uma vez que o tratamento de saúde da criança e jovem hospitalizado envolve os aspectos biológicos do atendimento médico, mudança de rotinas, separação de familiares e amigos e afastamento da escola. Além disto, o estudo do tema também é importante, pois favorece a elaboração de estratégias para o acompanhamento pedagógico educacional hospitalar no processo de desenvolvimento e construção do conhecimento de crianças e jovens hospitalizados, bem como a manutenção do vínculo com as escolas através de um currículo flexibilizado e/ou adaptado e o ingresso ou reingresso após o período de internação. 4069 Através desta pesquisa, pudemos observar que o número de instituições hospitalares que desenvolvem um trabalho pedagógico com crianças e jovens hospitalizados, em Belo Horizonte, ainda é escasso, e que na maioria destas, o trabalho dito pedagógico é representado por uma brinquedoteca ou sala de recreação. As atividades desenvolvidas com estas crianças e jovens hospitalizados possuem, na maioria das vezes, caráter recreativo, sem nenhum direcionamento e planejamento pedagógico, e sem vínculo com a escola de origem do paciente. Porém, a infância é também a fase do aprender e não somente do fazer, o que exige maior atenção para o desenvolvimento e sistematização das atividades propostas. Apesar de ser um direito assegurado em Lei, algumas instituições escolares e até hospitalares o desconhecem como tal. Assim, a desinformação, é um dos fatores responsáveis pela pequena oferta desse serviço pelos hospitais e pela não procura pelos pais/familiares. Isto contribui, então, para que outros profissionais que não são da área de educação ocupem o espaço. Percebemos ainda que os profissionais destinados para essa função, são na maioria das vezes, desviados de tarefas e não tem formação específica para a atividade. Outro fator importante é a falta de espaço próprio para a realização das atividades, o que dificulta o atendimento e a qualidade das mesmas, além de descaracterizar a atuação do profissional responsável por esse trabalho. Ao respeitar esse direito, a instituição, estará respeitando o princípio da inclusão, pois um dos fatores que levam a repetência e a desistência escolar é o afastamento da criança da instituição de ensino. O presente trabalho contribuiu para traçarmos um panorama da realidade educacional nos hospitais, em Belo Horizonte, e compreender o quanto é importante o pedagogo no ambiente hospitalar, pois só este profissional tem a competência técnica para exercer essa atividade, de dar continuidade aos estudos do paciente, não perdendo de vista o objetivo principal dessa tarefa que é a educação. Assim, é necessário que o pedagogo não se limite somente aos conhecimentos específicos do curso, mas amplie sua formação, tomando conhecimento de informações necessárias para lidar com as patologias e limitações do paciente. A humanização do sistema de saúde é uma iniciativa que vem colaborar para o sucesso do trabalho pedagógico no hospital, uma vez que os profissionais da área de saúde devem ser os principais parceiros do pedagogo hospitalar, para juntos amenizar essa situação de internação vivenciada pelas crianças. Pretendemos assim, sensibilizar as autoridades para a realidade do quadro de Belo Horizonte, que muito embora essa modalidade de atendimento ainda seja precária, vimos 4070 também, que em outros estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, ela acontece de forma avançada, fazendo cumprir o que é garantido em lei. É possível perceber que alcançamos os objetivos propostos, uma vez que todos eles foram contemplados nas entrevistas e análises das mesmas, como: compreender a natureza e o papel do trabalho educativo realizado em hospitais e sua relação com a identidade do profissional que o executa; analisar a reação das crianças com as atividades propostas e verificar como é estabelecida a relação entre o pedagogo ou outro profissional responsável pelo trabalho educativo com a escola onde a criança hospitalizada está matriculada; descrever e analisar como se dá o processo de elaboração das atividades educativas no contexto hospitalar; analisar como se dá à reintegração da criança hospitalizada na sociedade, especialmente, na escola; e, avaliar se há diferença entre o trabalho pedagógico realizado por pedagogo e por outros profissionais. Desta forma, sugerimos que no currículo de formação de pedagogos, seja incluída a disciplina de trabalho pedagógico hospitalar, bem como o conhecimento da legislação específica que trata do assunto, pois adoecer faz parte da vida e na infância existe o fator escolar, que não deve ser renegado na presença da doença. Sugerimos aos órgãos competentes, Secretaria de Educação, Ministério e Secretaria de Saúde e Conselho Tutelar, capacitação e implantação desse atendimento, em toda a rede de saúde e educação do estado e do município de Belo Horizonte, além de fiscalização destas atividades, para que existam de forma correta e padronizada. Cabe a estes órgãos, possibilitar que escolas e hospitais estejam adequados, tanto fisicamente, como profissionalmente, para o atendimento pedagógico no hospital, atendendo ao Conselho Nacional de Educação, por meio da Resolução no 2, de 11 de fevereiro de 2001, que institui as Diretrizes Nacionais para a educação de alunos que apresentem necessidades educacionais especiais na Educação Básica, em todas as suas etapas e modalidades, assegurando a oferta de serviços de Educação Especial sempre que se evidencie a necessidade de atendimento educacional especializado; e ao documento elaborado pelo MEC, por meio de sua Secretaria de Educação Especial, intitulado “Classe Hospitalar e Atendimento Pedagógico Domiciliar” que propõem estratégias e orientações. Enfim, constatamos que, enquanto profissionais da área de educação, temos um longo caminho a percorrer, até conseguirmos a definitiva implantação no sistema de saúde e ensino, da modalidade de educação hospitalar, não apenas como um elo de ligação, mas como um fator preventivo de prejuízos na aprendizagem e na escolaridade, e atenuação das conseqüências do momento. 4071 REFERÊNCIAS ALVES-MAZZOTTI, Alda Judith; GEWANDSZNAJDER, Fernando. O método nas ciências naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 2004. AMORIM, Ivani Carvalho. Atendimento Psicopedagógico em enfermaria pediátrica. Revista Psicopedagogia. 2004. p. 72-83, 23 de fev. 2001. BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. BOGDAN, Robert; BIKLEN, Sari. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Lisboa: Porto, 1994. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. 6.ed. São Paulo: Brasiliense, 1981. BRASIL. 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Acesso em: 5 maio 2006b. APÊNDICE I Roteiro das Entrevistas com Pedagogas Coordenadoras de Cursos de Pós-Graduação Identificação do entrevistado: • Qual a sua Formação? • Você recebeu alguma formação específica para trabalhar com educação especial? • Qual é a sua função neste espaço? • Como você ingressou nesta função atual? • Quanto tempo trabalha nesta função? • Como surgiu o interesse por essa área da pedagogia? Identificação do curso • Qual a origem do curso? • Qual a clientela atual? • Quais os objetivos do curso? • Qual a demanda e como é feita a captação da mesma? • Qual o conteúdo e currículo do curso? • Quais as possibilidades para a atuação dos alunos? 4074 APÊNDICE II Roteiro das Entrevistas com Pedagogas e Outros Profissionais que Atuam em Hospitais Identificação do entrevistado: • Qual a sua formação? • Você recebeu alguma formação específica para trabalhar com educação especial? • Qual é a sua função neste espaço? • Como você ingressou nesta função atual? • Quanto tempo trabalha nesta função? • Quais são os objetivos desta prática? • Como surgiu o interesse por essa área da pedagogia? Identificação da Instituição: • Há quanto tempo existe o hospital? • Como surgiu a necessidade de implantação deste trabalho ? • Como é classificado dentro do hospital? Como projeto, como voluntariado, como atividade extra oferecido aos pacientes, como setor /departamento... Identificação do Ambiente: • Quais espaços são utilizados para o desenvolvimento do trabalho? No seu ponto de vista são satisfatórios/suficientes? • Qual o horário de funcionamento? Identificação do educando: • Quem são os educandos? (Todos que entram no hospital? / Só os da escola pública? Etc..) • Qual a faixa etária dos educandos? • Qual o tempo médio de permanência no hospital? (na classe) • Quais as limitações dos educandos? • Eles correspondem as atividades? 4075 • Quais as patologias mais comuns? Identificação das atividades: • Qual a política e diretriz da educação seguida? • Existe uma metodologia específica? • Como é feito o planejamento? (individual, por faixa etária, por grau de comprometimento, etc...) • Quais os materiais utilizados? • Quais os procedimentos? • Existe envolvimento/participação de outros profissionais nas atividades? • Há alguma integração deste trabalho com as demais atividades realizadas no hospital? • O trabalho desenvolvido encontra alguma resistência por parte dos demais profissionais? Profissional x Escola: • Existe relação com a escola do educando? • A prática pedagógica hospitalar auxilia na recuperação da criança? • Quais benefícios/vantagens? • Quais as dificuldades?