AMBIENTE URBANO: A RELAÇÃO ENTRE O AVANÇO DA IDEOLOGIA CAPITALISTA E A SUPER PRODUÇÃO DE “LIXO – RESÍDUO SÓLIDO” Urban “environment”: The Relationship Between the Advance of Capitalist Ideology and the Super Production of “Waste – Solid Residue” Elistênia da Fonseca Bezerra1 2 Lázaro Wandson de Nazaré Teles Resumo A urbanização acelerada e o rápido adensamento das cidades de médio e grande porte têm provocado inúmeros problemas para a destinação do grande volume de resíduos gerados em atividades humanas do cotidiano. Atrelado a isso temos o sistema capitalista vigente com sua ideologia do consumo exagerado, da moda “passageira”, dos descartáveis e do desuso de produtos considerados obsoletos. Os resíduos sólidos, popularmente difundidos como “lixo”, é um fenômeno característico desse sistema econômico, fazendo com que o ambiente urbano não suporte a super produção de tais resíduos. Embora entendamos que o capitalismo não seja o único responsável pela super exploração dos recursos naturais no ambiente urbano. Por outro lado, o poder público se omite quando não elabora e tão pouco executa políticas públicas ou sociais que busquem mitigar os efeitos dos resíduos sólidos no ambiente urbano. Palavras - Chave: ambiente, urbano, capitalismo, resíduos, lixo. ____________________________ 1 Professora do Curso de Letras da Faculdade Integrada de Ensino Superior de Colinas – FIESC. Mestranda em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade da Amazônia PPG – CASA da Universidade Federal do Amazonas – UFAM. Rua 13 de Maio, 1251. Setor: Novo Planalto. Colinas do Tocantins - TO. [email protected] 2 Graduando em Geografia pela Universidade Federal do Tocantins. Membro do grupo de pesquisa em geografia regional do NURBA - Núcleo de Estudos Urbanos Regionais e Agrários. Rua 13 de Maio, 1251. Setor: Novo Planalto. Colinas do Tocantins – TO. [email protected] Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - jan./dez. 2008 195 Elistênia da Fonseca Bezerra, Lázaro Wandson de Nazaré Teles Abstract The accelerate housing development and the fast densement of the medium size and the big cities have provocate many problems for the destination of the big quantity of residue done in human daily activities. Hitched in this we have the current capitalist system with your ideology of exaggerate consumption, the disposables, the ''passenger'' fashion and the disuse of products considered olds. The solid residues known like ''waste'' it's a characteristic phenomenon of this economic system, it does with that the urban environment doesn't stand the super production of this residues. Altought we understand that the capitalism doesn't be the only responsable of the exploitation of naturals resources on the urban environment. In addition, the public power omit when doesn't make and doesn't do public politics or socials that relieve the effects of solid residues in the urban environment. Key-words: environment, urban, capital, waste, trash. Introdução As questões ecológicas vêm ganhando uma amplitude mediática nunca antes vista na contemporaneidade. Da Conferência do Rio de 1992 (ECO 92), a polêmica confusão em torno do Protocolo de Quioto, muitos têm sido os eventos e acontecimentos que têm levado a reflexão ideológica da super exploração de recursos naturais para um plano de destaque. Segundo PESTANA (2006) a questão ambiental tem despertado a atenção das pessoas em diversas partes do planeta tendo em vista o alarmante grau de destruição e poluição de nossa biosfera. A autora ainda afirma que atualmente a proteção do meio ambiente passou a ser tema de discussão em todo o mundo. A problemática da preservação e conservação ambiental perpassa não apenas às questões do ambiente natural como também no ambiente não natural, aqui sendo utilizado ambiente urbano. Observando o conceito do geógrafo chinês Yi - Fu Tuan (1980) sobre meio ambiente podemos compreender que são as condições sob qualquer pessoa ou coisa, vive ou se desenvolve, ou ainda a soma total de influências que modificam o desenvolvimento da vida ou de qualquer caráter de vida. 196 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 195-207 - jan./dez. 2008 Ambiente Urbano: A Relação Entre o Avanço da Ideologia Capitalista e a Super Produção de “Lixo – Resíduo Sólido” Desta forma podemos compreender que o meio ambiente deve ser um espaço com condições de ser habitado e de ser usufruído de forma saudável por todas as pessoas que nele vivem. Para os biólogos, o ambiente que inclui organismos em interação com o meio físico é o ecossistema, um "... sistema resultante da integração de todos os fatores vivos e não vivos do ambiente" (Tasley, citado por Branco e Rocha, 1987, 3 20 ), ou seja, "... qualquer unidade que inclua todos os organismos (a 'comunidade') de uma determinada área interagindo com o meio físico de forma tal a originar um fluxo de energia definindo claramente uma estrutura trófica, uma diversidade biológica e um ciclo de matérias (intercâmbio de matéria entre partes vivas e não vivas)" (citado por Branco e Rocha, 1987, 20). Estes autores definem os elementos componentes do ecossistema - os elementos vivos (organismos) e não vivos (meio físico) em interações; definem a natureza destas interações - fluxos de energia e informações entre organismos e meio físico; e definem a finalidade destas nem a finalidade destas interações a nutrição e a biodiversidade. Desta forma entendemos que as ações antrópicas (humanas) encontram - se relacionadas com o ambiente e com a forma que utilizamos e usufruímos deste ambiente. Para os paisagistas o ambiente e paisagem são conceitos distintos e entrelaçados. Segundo MAGNOLI (1986,60), o ambiente é o resultado das interações entre a sociedade humana e a base física e biológica que a envolve, para sua sobrevivência biológica e espiritual, e a paisagem são as conformações e configurações do ambiente. Segundo MACEDO (1994,54) a paisagem é a expressão morfológica e temporal de um determinado objeto. Este objeto é a cada momento, o resultado da ação dos homens, dos movimentos geológicos e do movimento das águas, nos movimento das águas, nos diversos pontos do planeta. Segundo PELLEGRINO (1989, 72) "a interação entre indivíduo e seu ambiente e estabelece um contato de duplo sentido entre o sujeito interpretante e o signo objeto da interpretação... caracterizando um processo de percepção ambiental”. Assim mais uma vez podemos entender que as ações provocadas pelo homem podem ser refletidas nesse ambiente. E que a responsabilidade de cuidar e preservar o ________________________ 3 Citado no artigo “Conceitos de ambiente e de impacto ambiental aplicáveis ao meio urbano”. De Antonio Cláudio M. L. Moreira. Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 195-207 - jan./dez. 2008 197 Elistênia da Fonseca Bezerra, Lázaro Wandson de Nazaré Teles ambiente é do homem. Portanto o principal objetivo deste estudo é buscar compreender como o capitalismo está intimamente ligado a enorme quantidade de resíduos sólidos gerados e dispostos no ambiente urbano super explorando os recursos. Buscamos ainda entender como e por que este fenômeno vem acontecendo de forma global, e em grande escala. Material e Métodos Utilizando como metodologia principal a revisão bibliográfica sobre a temática e pesquisas já existentes sobre o assunto, a produção desse artigo partiu da premissa da existência da relação entre o avanço capitalista no mundo contemporâneo bem como aumento no consumo de bens duráveis e não duráveis e o crescente aumento na produção de “lixo – resíduo sólido”. Contextualizando o Capitalismo A grande maré capitalista que tomou conta do mundo, particularmente após a derrocada dos regimes estabelecidos nos países do Leste europeu e na extinta União Soviética, não significou somente a explosão das propostas neoliberais nos terrenos econômicos e político. Implicou, também, uma ofensiva sem precedente da ideologia burguesa - imperialista visando à conquista dos corações e mentes em escala mundial. Uma das manifestações mais emblemáticas dessa ofensiva foi, primeiramente, o artigo, aparecido ainda em 1989, com o título "O fim da história" e, posteriormente, em 1992, o livro “O fim da história e o último homem”, ambos do norte-americano Francis 4 Fukuyama. KLIGERMAN (2003) reflete sobre a sociedade de consumo: Após a Revolução Industrial, surge a sociedade de consumo. Na ______________________________ 4 O artigo de Fukuyama, com o título "The end of history” apareceu em 1989, na revista norteamericana The national interest. Em 1992, Fukuyama lançou o livro The end of history and the last man, editado no Brasil com o título “O fim da história e o último homem”, trad. Aulyde Soares Rodrigues, Rocco, Rio de janeiro, 1992. 198 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 195-207 - jan./dez. 2008 Ambiente Urbano: A Relação Entre o Avanço da Ideologia Capitalista e a Super Produção de “Lixo – Resíduo Sólido” sociedade de consumo, aumenta a necessidade de infraestrutura(caminhões para transporte; locais para tratamento e destinação, como usina de reciclagem e compostagem, aterro sanitário), devido à crescente quantidade de lixo, mas também cresce a resistência à criação de locais para esta destinação devido ao incomodo, desvalorização do imóvel etc. (p. 101). O resgate do momento a partir do qual a geração de resíduos sólidos passa a se constituir como algo notável, remete à expansão do capitalismo. O capitalismo, como sistema socioeconômico, constituiu-se com o declínio do feudalismo, e passou a se expandir no mundo ocidental no século XVI. O sistema capitalista sempre se apresentou muito dinâmico, sobrepondo-se, ao longo do tempo, a outras formas de produção, até se tornar hegemônico, o que ocorreu em sua fase industrial (século XIX). A partir do fim do século XIX e inicio do século XX inicia - se na Europa e posteriormente nos Estados Unidos uma “corrida” desenvolvimentista aportada principalmente na produção e consumo de bens. Ocorrendo um aumento significativo na produção de bens como aço, energia e um avanço nos transportes, sobretudo ferrovias, e nos transportes navais, metrô e transporte rodoviário. Foi a partir do inicio do século XX que o avanço no consumo impulsionado pelo fim da era socialista, nos países como União Soviética é que a sociedade ocidental passa a adquirir e a consumir bens e serviços em grande escala, fazendo surgir um modelo sócio político conhecido de forma global como “capitalismo”. O capitalismo, na sua fase contemporânea, respalda-se nos excessivos padrões de produção e consumo, ensejando, conseqüentemente, uma enorme geração de resíduos sólidos, popularmente difundido como “lixo” o que constitui um sério problema ambiental, sobretudo em áreas urbanas. 5 FELDMAN (2003) alerta que nos dias de hoje o consumo excede a capacidade do planeta de se regenerar, o que compromete os processos ecológicos planetários, trazendo-lhes conseqüências graves e não totalmente conhecidas. Dada à complexa e dialética relação que os seres humanos mantêm com o ambiente, são obrigados a reconhecer que sua condição de sobrevivência encontra-se, desta maneira, também ameaçada. _______________________________ 5 Citado por Djane Alcântara Barbosa Leite e José Carlos de Araújo em artigo publicado intitulado “Aspectos da política pública municipal de resíduos sólidos em Fortaleza”. Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 195-207 - jan./dez. 2008 199 Elistênia da Fonseca Bezerra, Lázaro Wandson de Nazaré Teles LAYRARGUES (2002) enfatiza: Os indivíduos são obrigados a consumir bens que se tornam obsoletos antes do tempo .... A vida útil dos produtos torna-se cada vez mais curta, e nem poderia ser diferente, pois há uma união entre a obsolescência planejada e a criação de demandas artificiais do capitalismo. É a obsolescência planejada simbólica, que induz a ilusão de que a vida útil do produto esgotou-se, mesmo que ele esteja em perfeitas condições de uso. (p. 7). Assim compreendemos que a intensificação da produção cria falsas necessidades, que acabam por não satisfazer as reais necessidades humanas, correspondendo a modos de vida espelhados na sociedade do descartável. Criando desta forma a imagem ideológica do consumo exagerado e desnecessário com base na aquisição de bens que muitas vezes não serão usados e não obstante o hábito de descartar os bens ainda em bom estado de uso e conservação. Aspectos Legais: Lixo e Ambiente O meio ambiente ecologicamente equilibrado, em sede legislativa, é um direito assegurado a todos pela Constituição Federal de 1988, como condição indispensável para que se garanta o direito à vida. O mesmo Diploma Legal atribuiu aos municípios competência legislativa e material quanto aos assuntos de interesse local. De acordo com a legislação em vigor no Brasil, a limpeza, conservação e destinação são atribuições de responsabilidade dos municípios. Etimologia e Classificação dos Resíduos Sólidos O “lixo” ou “resíduo sólido” é considerado um assunto bastante pertinente no campo das questões sócio ambientais. É necessário antes de qualquer pesquisa nesta área entender a diferença etimológica dos termos “lixo” e “resíduos sólidos”. Lixo é todo material inútil, tudo aquilo que se joga fora, enquanto resíduo sólido é toda sobra no processo produtivo, geralmente industrial. Embora na linguagem corrente lixo seja considerado igualmente a resíduo como “material desprovido de utilidade pelo seu possuidor” (Normas 200 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 195-207 - jan./dez. 2008 Ambiente Urbano: A Relação Entre o Avanço da Ideologia Capitalista e a Super Produção de “Lixo – Resíduo Sólido” Brasileiras Registradas – NBR 12.980, item 3.84, p.5). Além do estudo etimológico faz - se necessário compreender também a classificação do lixo bem como sua origem e quem deve ser o responsável pela coleta e distribuição do lixo produzido. Segundo ABNT (1987 a) o lixo pode ser classificado em três classes: quanto à natureza física: seco ou molhado; quanto à composição química: matéria orgânica e inorgânica e ainda os de riscos potenciais ao meio ambiente: classe I (perigosos), classe II (não – inertes), classe III (inertes) e outros resíduos que são os coletados em residências ou decorrentes de incineração de resíduos domésticos. Com relação à responsabilidade de coleta e de gerenciamento do lixo, devemos entender que o lixo domiciliar, comercial e público é de responsabilidade do poder público municipal, já o lixo gerado pelos serviços de saúde e os de origem industrial, agrícola, entulho são de responsabilidade de quem gera assim como aqueles que são gerados pelos portos, aeroportos, terminais rodoviários e ferroviários. Outro ponto interessante, a saber, é que, atualmente, a população mundial (cerca de seis bilhões de habitantes) produz trinta milhões de toneladas de lixo por ano (IPT/ CEMPRE 2000). Mas é importante salientar que o lixo produzido no mundo se difere de acordo com renda e densidade demográfica. Para efeito de classificação a produção de lixo (mundial) é divido em quatro categorias a se saber: Categoria I (maior densidade demográfica e nível de renda), categoria II (menor densidade demográfica e maior nível de renda), categoria III (maior densidade demográfica e menor nível de renda) e categoria IV (menor densidade demográfica e menor nível de renda). A maior parte dele resíduos sólidos produzidos no mundo acaba que, por falta de reaproveitamento, ou destino adequado poluindo a atmosfera e contaminando o solo e as águas subterrâneas. Nem mesmo os movimentos ambientalistas dos países considerados “desenvolvidos” conseguem conter a sua produção de lixo nem tão pouco encontrar um destino apropriado para “lixo – resíduo sólido”. 6 É importante mostrarmos que dados da OMS mostram como alguns países no mundo tratam e fazem uso da destinação de seu lixo. Em países como o Japão a reciclagem chega a 50%, não há lixões na cidade de Tóquio e os detritos são colocados em barcos e enviados a países vizinhos que cobram pelo ___________________________________ 6 Em pesquisa ao próprio site do órgão. Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 195-207 - jan./dez. 2008 201 Elistênia da Fonseca Bezerra, Lázaro Wandson de Nazaré Teles serviço. A cidade de Nova York, por exemplo, desativaram seu aterro sanitário em 2001 e paga 15 bilhões de reais por ano para que outras cidades recebam seus resíduos, a reciclagem chega a ser de até 18% do que é coletado. Em Vancouver, no Canadá a prefeitura recolhe lixo apenas das casas, quem mora em prédios é obrigado a contratar seu próprio serviço de coleta. A região metropolitana já começa a exportar seus resíduos pra outros municípios, alguns deles localizados até 350 km de distância. O Lixo no Brasil No Brasil o lixo que em sua maioria ainda é lançado a céu aberto, acaba sendo um sério problema para população já que 85% da população brasileira vive nas cidades. Com isso, o lixo se tornou um dos grandes problemas das metrópoles. Pela legislação vigente, cabe às prefeituras gerenciar a coleta e destinação dos resíduos sólidos. De acordo com o IBGE, 76% do lixo são jogados a céu aberto sendo visível ao longo de estradas e também são carregados para represas de abastecimento durante o período de chuvas. Embora muito esteja se fazendo nesta área em nível mundial, ainda são poucos os materiais aproveitados no Brasil onde é estimada uma perda de cerca de quatro bilhões de dólares por ano. Mas, há indícios de melhora na área no país onde se tem como melhor exemplo as latas de alumínio, cuja produção é 63% reciclada (COZETTI, 2001). O lixo industrial apresenta índices maiores de 7 reciclagem. De acordo com a FIRJAN , no estado do Rio de Janeiro 70% das indústrias reciclam seus dejetos (BRANDÃO, 2002). Vale salientar que essa reciclagem de latas de alumínio não é uma questão de formação ou preocupação com o meio ambiente e sim uma questão econômica. Dados do IBGE apontam que muitas famílias brasileiras sobrevivem da coleta e reciclagem de latas de alumínio e outros materiais. Cada brasileiro produz 1 Kg de lixo doméstico por dia, ou seja, se a pessoa viver 70 anos terá produzido em torno de 25 toneladas. Se multiplicarmos pela população brasileira, pode-se imaginar a dimensão do problema (COZETTI, 2001). No Brasil por se ter disponibilidade de recursos, o desperdício se tornou parte de nossa cultura, isso tanto para pobres quanto ricos. _______________________________ 7 Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. 202 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 195-207 - jan./dez. 2008 Ambiente Urbano: A Relação Entre o Avanço da Ideologia Capitalista e a Super Produção de “Lixo – Resíduo Sólido” Estima - se que 20% dos alimentos são desperdiçados (desde a colheita até a mesa da comunidade) segundo o IBGE. Essas toneladas perdidas seriam suficientes para matar a fome de toda a população carente. Além disso, jogamos fora muito material reciclável (são despejadas na natureza 125 mil toneladas de rejeitos orgânicos e materiais recicláveis por dia). A cada tonelada de papel que se recicla, 40 árvores deixam de ser cortadas. Em ambos os casos o desperdício gera poluição ambiental. Esse pode ser considerado um problema mais urbano que rural, levando em consideração que como foi dito anteriormente 85% da população brasileira vive em cidades. Vale ressaltar que a produção de “lixo – resíduo sólido” quando não regularmente tratado pode tornar um sério problema sócio ambiental quando levamos em consideração a questão da saúde pública e faz-se necessário entender por que. PETERSEN & LUPTON, 1996 explica que: (...)a preocupação com os efeitos na saúde provocados pelas más condições ambientais é evidente desde a Antigüidade, envolvendo problemas como os efeitos do clima no balanço dos humores do corpo, os miasmas, as sujeiras e os odores. Assim, sempre esteve presente nos diferentes discursos e práticas coletivas que se constituíram como respostas sociais às necessidades e aos problemas de saúde. Essa preocupação parece se acentuar particularmente entre meados do século 18 e meados do século 19, quando os problemas ambientais sobre a saúde estiveram associados aos efeitos do rápido e intenso processo de industrialização e urbanização e, sobretudo pelo avanço do capitalismo que passaram a incidir nas condições de vida e trabalho. A partir da década de 70 faz surgir as primeiras preocupações com a relação entre o lixo e saúde humana. A coleta e a destinação do “lixo – resíduo” é relacionada a questões ambientais, sobretudo de saúde humana. Começa então a tentativa de compreensão da razão do avanço da produção de “lixo resíduo - sólido” fazendo surgir a especulação de que o capitalismo com suas ideologias de consumo exacerbado possa ser a grande causa. O avanço e a ideologia capitalista acabam corroborando a relação entre o próprio sistema com os problemas ambientais urbanos causados pela super produção do “lixo – resíduo sólido”. Dados recentes fornecidos pelo Programa Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 195-207 - jan./dez. 2008 203 Elistênia da Fonseca Bezerra, Lázaro Wandson de Nazaré Teles das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) mostraram que o mundo está consumindo 40% além da capacidade de reposição da biosfera (energia, alimentos, recursos naturais) e o déficit é aumentado 2,5% ao ano (COZETTI, 2001). Relatórios da ONU apontam que 85% de produção e do consumo no mundo estão localizados nos países industrializados que tem apenas 19% da população (VITOR, 2002). O relatório da PNUD também afirma que as três pessoas mais ricas do mundo têm lucro superior ao PIB dos 48 países mais pobres onde vivem cerca de 600 milhões de pessoas. Seguindo-se a trajetória dos resíduos, desde o recurso natural inicial até o bem de consumo e seu descarte, compreendem-se os vários passos pelos quais passa a matéria, em sua transformação pela ação humana. É necessário resgatar o encadeamento "recursos naturais - bens de consumo - rejeitos", como forma de visualizar - se por completo os processos que culminam na geração de resíduos, para que se possa propor qualquer intervenção. A respeito dos altos padrões de produção e consumo, BERNARDES E FERREIRA (2003) refletem: A era moderna, fascinada pela produtividade com base na força humana, assiste ao aumento considerável do consumo, já que todas as coisas se tornam objetos a serem consumidos. Como membros de uma sociedade de consumidores, na atual fase do capitalismo, vivemos num mundo em que a economia se caracteriza pelo desperdício, onde todas as coisas devem ser devoradas e abandonadas tão rapidamente como surgem, em que as coisas surgem e desaparecem “sem jamais durarem o tempo suficiente para conter em seu meio o processo vital”. (p. 21). Ideologicamente o capitalismo vem produzindo na mente e se reproduzindo no nível de consumo do homem um excesso de produtos considerados desnecessários. É essa ideologia que faz surgir uma gama da população considerada consumidores “em potencial”. Esses consumidores adquirem bens duráveis em uma escala de tempo menor que o normal. Um bom exemplo disso são os celulares e carros que são trocados ou descartados em um curto espaço de tempo. E então surgem as perguntas, qual o destino dos celulares em desuso? Qual o impacto ambiental desses celulares e seus componentes? E os carros? Onde são guardados depois de algum tempo de uso? E quando voltam a circular? E os que estão em desuso total? 204 Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 195-207 - jan./dez. 2008 Ambiente Urbano: A Relação Entre o Avanço da Ideologia Capitalista e a Super Produção de “Lixo – Resíduo Sólido” Conclusões Podemos compreender que o alto padrão de consumo imposto pelo capitalismo e sua ideologia do consumo é visto pelos autores como uma espécie de perda de valores, forçando a sociedade contemporânea a fazer uso de uma moda que não gosta, a consumir o que não deseja, a comer uma comida que não lhe faz bem enfim a ideologia capitalista nos força a viver de uma forma que não almejamos. 8 PESTANA (2006) afirma que: ...a sociedade capitalista na qual vivemos e o seu respectivo modelo de exploração dos recursos economicamente apreciáveis organizamse em torno das práticas e dos comportamentos potencialmente produtores de situações de riscos. Assim entendemos que esse “modelo” de organização econômica, política e social expõe de forma bastante acentuada o meio ambiente ao risco eminente de uma crise através da super exploração do “lixo – resíduo sólido”. 9 Dessa forma, afirma PESTANA (2006) é possível vislumbrar, em nosso cotidiano, um processo de agravamento dos problemas ambientais das cidades, decorrente do crescimento urbano desordenado, em função da escassez de recursos de forma suficiente, ausência ou ineficiência de serviços urbanos e dos padrões ambientais de infra-estrutura urbana e dos espaços construídos. SILVA (2006), explica que a dinâmica da acumulação capitalista é que determina a forma de produção e transformação dos resíduos sólidos em sua forma global. A relação entre o avanço no consumo de bens impulsionada pela ideologia do consumo está intimamente ligada à forma com que a população usa, descarta, coleta e destina o seu “lixo”, explica a autora. Entendemos que a produção de “lixo – resíduo sólido” encontra-se correlacionada com o modelo capitalista vigente, apontando para uma questão demasiadamente urbana e histórica. Desta forma podemos entender que o capitalismo por si só não é o ______________________________ 8 Revista do Direito /v.1/ n.1/220p./ maio 2006. 9 Idem ibdem. Revista São Luis Orione - v. 1 - n. 2 - p. 195-207 - jan./dez. 2008 205 Elistênia da Fonseca Bezerra, Lázaro Wandson de Nazaré Teles único responsável pela degradação ambiental do meio urbano causada pela má coleta e destinação dos resíduos. Embora possamos compreender que a ideologia do consumo, e da super exploração dos recursos (naturais ou não) agregada a uma falta de formação, cultura e educação possam ser responsáveis por uma parte considerável de problemas e questões ambientais no ambiente urbano que a sociedade contemporânea vem tentando compreender e, sobretudo resolver. 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