Casas de engenho do Rio de Janeiro – século XVIII – metodologia de estudo a partir de múltiplas fontes
Ana Lucia Vieira dos Santos
(Fundação Casa de Rui Barbosa)
O presente trabalho visa estabelecer metodologia multidisciplinar para a
análise de casas históricas e as formas de morar das elites dos séculos XVIII-XIX
no Rio de Janeiro, e se inscreve em parceria luso-brasileira para o projeto “A
Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro (sécs. XVII, XVIII e XIX). Anatomia dos Interiores”, estabelecida entre a Fundação Casa de Rui Barbosa, por intermédio do grupo de pesquisa Museu-casa: memória, espaço e representações, e
a Fundação Ricardo do Espirito Santo e Silva (FRESS) e a Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas (FCSH).
A primeira tarefa geral do projeto consiste num inventário completo das
casas senhoriais nas áreas geográficas consideradas, Lisboa e Rio de Janeiro.
Num primeiro estágio, a seleção de casas a serem estudadas foi guiada por sua
existência física e razoável grau de conservação. O conjunto dos imóveis selecionados resultou bastante heterogêneo, deixando clara a indefinição conceitual do
que seria uma casa senhorial no Rio de Janeiro.
Não foi possível estabelecer quais seriam as casas senhoriais por critérios meramente arquitetônicos. Um dos estudos que chega a uma classificação
tipológica das casas fluminenses é o artigo sobre as sedes de fazenda do vale do
rio Paraíba, escrito por Joaquim Cardoso e depois revisto por Alcides da Rocha
Miranda e Jorge Czajkowski1. A tipologia estabelecida nesses trabalhos para as
casas rurais não se aplica integralmente às casas urbanas, e é característica da
segunda metade do século XIX, não atendendo plenamente períodos anteriores.
A classe senhorial do Rio de Janeiro variou bastante, até pelas constantes
modificações de status político e econômico da própria cidade. Entender e definir
o que foi a elite da sociedade carioca certamente é tarefa para os historiadores,
e nos reportamos em especial aos estudos de João Fragoso. Após seu trabalho
sobre os negociantes da praça do Rio de Janeiro2, Fragoso recuou seus estudos
até a ocupação inicial da cidade do Rio de Janeiro, facilitando a compreensão das
famílias mais antigas, suas estratégias de aquisição e manutenção de patrimônio,
ocupação de território e até mesmo de representação social3. De acordo com Fragoso e Bicalho4, a formação da primeira elite colonial foi baseada na participação
na conquista, e consolidou-se pelo sistema de mercês que resultou no exercício
do poder municipal e concessão de terras. A propriedade de vastas extensões
de terras e a obrigação de torná-las produtivas transformou conquistadores em
senhores de engenho, produtores do principal bem de exportação da colônia. Ser
senhor de engenho exigia o controle de diversas variáveis, como explica Manoela
Pedroza: “...dependia estreitamente de relações no campo da política que permi51
tissem a acumulação de capital, a obtenção de terras e de mão-de-obra compulsória, e a manutenção de privilégios comerciais.”
A ocupação inicial da cidade foi objeto dos estudos de Maurício Abreu, reunidos em sua obra Geografia Histórica do Rio de Janeiro5. Nos reportamos, ainda, a
Fania Fridman, que se debruçou sobre as propriedades das ordens religiosas6.
A seleção das primeiras casas do século XVIII a serem trabalhadas contemplou bens sobreviventes, tombados pelo IPHAN, e são imóveis rurais do entorno próximo do Rio de Janeiro colonial que foram sedes de engenhos de açúcar.
São casas que pertenceram a “famílias senhoriais”, com todas as nuances e dificuldades de definição que o termo encerra para o Brasil Colonial7.
Iniciamos o trabalho pelas casas dos engenhos do Capão do Bispo, Columbandê, Taquara, Engenho d´Água e Viegas.
Fig. 1 - As cinco casas de engenho do século XVIII.
A partir dos citados estudos de Maurício Abreu e Fania Fridman sobre
a ocupação inicial do território carioca, elaboramos mapas que nos permitem
compreender melhor a situação desses engenhos em relação ao núcleo da cidade
colonial.
O engenho do Capão do Bispo era o mais próximo da cidade. Essas terras
integravam a enorme sesmaria dos jesuítas, que confrontava com o termo da cidade. A fazenda foi confiscada à Companhia de Jesus em 1759, sendo desmembrada
e leiloada em 1761. A propriedade que ficou conhecida como Capão do Bispo
foi adquirida por D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas de Castelo Branco, o
primeiro brasileiro nato a ser nomeado bispo na colônia.
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Fig. 2 - Localização das casas em relação
ao antigo Largo do Paço no centro do Rio
de Janeiro.
O engenho de Columbandê localiza-se na região que se chamava “banda
d’além”, cujo acesso mais rápido exigia o cruzamento da baía de Guanabara.
Abreu esclarece que esta área foi inicialmente ocupada por grupos de cristãos
novos8, que aí se mantiveram até o início do século XVIII, quando sofreram perseguição pelo Santo Ofício. Os então proprietários de Columbandê eram Ana do
Vale, viúva de Duarte Rodrigues de Andrade, e seus filhos Manoel do Vale da
Silveira e José Ramires do Vale, que tiveram a propriedade confiscada pelo Fisco
Real, após processo da Inquisição.
O Engenho d’ Água e o da Taquara localizam-se na região açucareira da
baixada de Jacarepaguá, e foram inicialmente propriedade de Salvador Correia
de Sá, por duas vezes governador-geral do Rio de Janeiro. A família Correia de
Sá foi uma das que compuseram a primeira nobreza da colônia, obtendo propriedades na faixa subsequente à das terras dos jesuítas, com acesso mais fácil ao
núcleo urbano.
A fazendo do Viegas é a mais distante da cidade. A viagem da propriedade
até o centro urbano levava três dias, antes das melhorias dos caminhos ocorridas no início do século XIX. O proprietário original também foi personagem do
processo de conquista, mas o tamanho da propriedade e a distância da cidade
demonstram uma menor proeminência social.
Uma vez que essas propriedades já foram objeto de vários estudos, começamos o trabalho organizando os dados já conhecidos. Os imóveis foram
comparados em seus aspectos gerais, como localização, implantação, acesso,
e particulares, como planta e fachada. A intenção principal era buscar aspectos
comuns, e determinar lacunas nos estudos anteriores que se pode almejar preencher.
Foram preparadas plantas digitais padronizadas, a partir dos arquivos cedidos pela pesquisadora Maria Paula Van Biene9. As plantas foram colocadas na
mesma escala, e orientadas em relação ao Norte.
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Fig. 3 – Plantas orientadas em relação ao Norte.
O conjunto se revelou menos homogêneo do que o esperado, apesar de
todas os imóveis terem a mesma função de casa-grande de um engenho de cana.
Há certamente um partido comum, que pode ser resumido na descrição de Lucio
Costa para a casa do Capão do Bispo:
“três características fundamentais:
escada de alvenaria
alpendre e pátio
telhado sustentado por colunas da ordem toscana à maneira alentejana...”10
A orientação é totalmente distinta, independente da posição geográfica,
o que aponta para a locação das casas em função da topografia e da produção,
permitindo a constante vigilância dos trabalhos do engenho pelo proprietário. O
acesso às casas se faz lateralmente. O acesso central aparece no Engenho d’ Água
e na Taquara, aparentemente como fruto de reforma das fachadas.
A diferença de escala é marcante, sendo a casa da Taquara muito maior do
que as demais.
Além das diferenças que poderiam haver nas fortunas dos proprietários,
que certamente influenciavam o que eles podiam e queriam construir, outro dado
chama a atenção: nem todas as casas serviram como residência para seus donos,
podendo ser usadas apenas nos períodos em que era necessária sua presença na
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fazenda. A partir dos estudos de Fragoso e de Mauricio Abreu11, é possível perceber situações distintas: o imóvel era a principal propriedade da família, servindo
como moradia ao proprietário ou era uma propriedade secundária, a casa sendo
usada para estadas eventuais, ligadas à supervisão da produção; era a única propriedade rural, servindo ou não de residência ao proprietário.
Sabemos que a Taquara só foi habitada de forma permanente a partir de
1837, quando foi ocupada por Ana Maria Teles Barreto de Menezes e Francisco
Pinto da Fonseca, pais do Barão da Taquara, passando por várias reformas e ampliações que lhe deram as características atuais.
As plantas dessas casas são uma espécie de “mapa mudo”, uma vez que
não conhecemos ao certo a destinação de cada cômodo. Além das diversas modificações, nem sempre claras, as casas chegaram até nós destituídas de seu conteúdo, e muitas têm hoje uso não-residencial. A leitura dos compartimentos internos
se faz com base nos costumes, e numa tipologia que se pode estabelecer a partir
de outros exemplares mais contextualizados. Na primeira fase da pesquisa optamos por comparar apenas os compartimentos cuja finalidade é mais clara.
Fig. 4 – Capelas.
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Todas as casas têm capela, indispensável ao atendimento das necessidades
religiosas, uma vez que as longas distâncias e dificuldades de acesso não permitiam uma fácil ida à sede da freguesia. O oratório particular era também um símbolo de status, estando presente em muitas casas urbanas de famílias importantes.
Em todos os nossos exemplos, a capela localiza-se de forma a atender também
à comunidade. Na casa do Capão do Bispo, o oratório está inserido no corpo da
casa, com acesso tanto interno quanto externo. No Engenho d’Água, Taquara e
Viegas, a capela se destaca da casa, mantendo com ela uma comunicação que
permite que a família a acesse sem precisar misturar-se aos demais participantes
da celebração. Em Columbandê a capela se separa da casa por um pátio.
A entrada se dá através de alpendre ou varanda, que também aparece nos
fundos da casa do Engenho d’ Água. A circulação interna é feita em grande parte
de cômodo para cômodo.
Em Columbandê, Taquara e Capão do Bispo aparece o pátio interno com
varanda periférica que proporciona outro tipo de circulação. Em Viegas o pátio
aparece nos fundos, com alguns compartimentos laterais, indício talvez de uma
ampliação que não se concretizou.
Fig. 5 - Varandas e pátios.
Em todas as casas é possível determinar os compartimentos que servem de
sala, por sua posição ligada à varanda de acesso e suas dimensões maiores.
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Fig. 6 - Salas.
Identificamos também compartimentos na faixa frontal da edificação, que podem ter servido como gabinetes ou alcovas, recebendo pessoas estranhas à família.
Alguns desses cômodos tem acesso tanto pela varanda quanto pelo interior da casa,
outros têm acesso exclusivamente pela varanda. É bem conhecida a necessidade da
hospitalidade na sociedade colonial, bem como a firmeza de separar o hóspede da
família. Esse é o uso mais provável dos cômodos que têm apenas acesso externo.
Uma revisão geral dos objetivos do projeto reduziu a extensa lista original
de casas a apenas dez exemplares a serem estudados numa primeira fase, ficando o
século XVIII representado pelos engenhos do Capão do Bispo, Taquara e Viegas.
As três casas selecionadas para aprofundamento da pesquisa foram inicialmente propriedade de famílias que alcançaram destaque na sociedade colonial. A
Taquara foi propriedade de uma das principais famílias estabelecidas na cidade, o
Capão do Bispo de importante membro da Igreja, e Viegas de famílias com menos
recursos políticos e relacionais do que as primeiras. Apesar das diferentes trajetórias
das propriedades, o trabalho preliminar com as plantas aponta para a possibilidade
de se estabelecerem tipologias. O uso de documentação escrita, ainda que referente
a outras casas do mesmo período e na mesma região, permite que se busque uma
melhor compreensão dos usos e modos de vida nessas propriedades.
No que se refere ao Capão do Bispo, encontramos os dados referentes à
conformação da propriedade comprada pelo bispo D. José Joaquim Justiniano
Mascarenhas de Castelo Branco do espólio desapropriado dos jesuítas. A pro57
priedade resultou de várias compras, ampliando os limites da fazenda original.
Seus outros bens ficavam na área do Passeio Público, mais especificamente no
“largo da mãe do Bispo” e rua dos Barbonos. A documentação demonstra que sua
família tinha também bens na área mais central da cidade, em torno do largo do
Paço. As propriedades do bispo são exemplo do patrimônio particular de religiosos. Muito se tem escrito sobre o patrimônio das ordens religiosas, mas não há
nada sistemático sobre as propriedades particulares de padres e bispos, que aparecem frequentemente na documentação. Muitas vezes herança de família,outras
patrimônio amealhado por eles próprios, esses bens eram transmitidos a parentes
colaterais,ou pessoas indicadas nos testamentos, em estratégias que ainda estão
por estudar.
A casa deste engenho está hoje em meio ao tecido urbano, totalmente destituída de seu contexto original. Ainda não foi possível determinar se a casa foi
construída pelo bispo, ou se ele já encontrou alguma edificação no local. O documento de doação aos sobrinhos do bispo12 apenas cita a casa, não fornecendo
maiores detalhes. As análises preliminares da planta indicam que o pátio interno
e os cômodos posteriores podem ter sido acrescentados a uma casa menor preexistente.
A casa do Engenho da Taquara pertence aos descendentes da família Teles
de Menezes. Seu proprietário inicial não morava lá de forma permanente, tendo
diversas fazendas e uma boa casa na cidade.
Através de Rudge13, ficamos sabendo que essa casa foi construída a partir
de 1738, depois da reunificação dos engenhos Novo e de Dentro por Antônio
Teles de Menezes em 1717.
Por essa época Antônio reconstruiu no Largo do Paço a casa que ficou conhecida como do Arco do Teles, com projeto do brigadeiro José Fernandes Pinto
Alpoim, o que leva Rudge a especular que este profissional possa também ter
atuado na construção da casa do Engenho da Taquara.
Não foi ainda possível determinar se o edifício hoje existente corresponde
ao menos em parte à casa original. O segundo pavimento é apenas parcial, formando uma espécie de camarinha. É possível que não fizesse parte do edifício
primitivo. A entrada central pode ter sido feita junto com o segundo pavimento,
uma vez que a estrada que dá acesso à casa chega pelo seu lado direito, por onde
poderia haver escada para a varanda, dentro do padrão encontrado em outros
engenhos. Segundo Rudge, a varanda superior teria sido fechada numa reforma
em 1882.
Tínhamos poucas informações iniciais sobre o engenho do Viegas. Essa
propriedade localiza-se na antiga freguesia de Campo Grande. Uma elite que descendia diretamente dos primeiros povoadores, e teve acesso a fartas distribuições
de terras compunha o grupo de proprietários dessa área. Ao contrário dos senhores da área de Jacarepaguá, que mantinham boas casas na cidade, os proprietários
de Campo Grande residiam em suas fazendas. Boa parte desses senhores enfren58
tou dificuldades financeiras com o esgotamento do ciclo da cana, formando um
grupo que no século XIX ainda detinha certo prestígio social, mas pouco poder
econômico. O engenho do Viegas foi propriedade dos Garcia do Amaral e depois
dos Antunes Suzano.
Os Garcia do Amaral tornaram-se proprietários do Engenho do Viegas por
volta de 1721, provavelmente pelo casamento de um moço Amaral com uma
moça Viegas14. Conseguimos na documentação informações sobre a sucessão dos
proprietários, mas nenhuma descrição da casa. Compreender a sucessão é tarefa complicada, pois há muitos homônimos nas duas famílias. Manoela Pedroza
realizou um vasto estudo sobre as propriedades da área de Campo Grande15, e
confirma que o engenho do Viegas mudou de mãos no início do século XIX por
dívidas de seu proprietário, Antônio Garcia do Amaral. Os Garcia do Amaral
possuíam outras propriedades na região, assim como seus sucessores, os Suzano.
A casa fica hoje no bairro de Senador Camará, também sobre uma pequena colina, numa área de preservação ambiental. O exame preliminar da planta
mostra um claro acréscimo nos fundos, criando um estreito pátio interno. Há uma
simetria na planta, sugerindo que esta conserva em grande parte sua conformação
original.
Dos três imóveis em estudo, só foi possível visitar um, o do Capão do
Bispo, que está em processo de restauração. O antigo engenho do Viegas está
vazio e abandonado, em péssimo estado de conservação. A casa da Taquara ainda
pertence à família do Barão de Taquara, e está em melhor condição, embora não
se tenha ainda permissão para uma visita.
O mau estado das construções e as muitas obras por que passaram criaram
um certo impasse para o estudo. Não há mais qualquer vestígio da decoração interna original. A documentação escrita encontrada16 tampouco forneceu informações importantes sobre os interiores. No entanto, a visita ao Capão do Bispo pôs
em evidência a riqueza dos fluxos e da distribuição dos espaços internos.
A casa foi sempre um local de refúgio do indivíduo e da família, protegendo dos outros membros da comunidade, dos inimigos e mesmo do Estado. Ela
tem também uma função de representação, seja pela sua localização, seja por suas
características construtivas. A sua organização interna determina a distribuição
das pessoas e das atividades. A evolução dos conceitos de conforto e intimidade
podem ser estudados a partir das mudanças dos espaços domésticos.
Buscamos suporte teórico na obra Architectures de la Vie Privée17, que
trata da evolução dos interiores residenciais na França, do século XVII ao XIX,
fazendo uma análise da especialização dos espaços, bem como da evolução da
distribuição e dos usos. O trabalho de Eleb e Debarre é fortemente focado nas
relações entre espaço doméstico e mentalidades, sem deixar de lado o papel dos
arquitetos, tanto como teóricos quanto como mediadores entre novos hábitos e
usuários. A pesquisa que desenvolvemos no projeto Casa Senhorial – Lisboa- Rio
de Janeiro aproxima-se dessa abordagem.
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De acordo com essas autoras, o período determinante para que se compreendam as mudanças na organização das casas é o início do século XVII. É na
década de 1620 que começam a aparecer na França dispositivos espaciais dissociando os espaços onde se fica daqueles onde se passa. Esses dispositivos resultaram na invenção e multiplicação dos espaços de passagem, permitindo a divisão
da circulação, e evidenciando transformações nas relações do grupo doméstico.
Os mecanismos de circulação são os corredores, as antecâmaras, escadas que se
multiplicam, entre outros. A sua posição relativa, a orientação e as ligações privilegiadas que criam revelam novas relações e usos no interior da casa.
Em minha tese sobre a casa carioca18, ficou clara essa função dos corredores. Nas pequenas casas estudadas, o corredor não era onipresente como se
esperava e estava descrito na literatura clássica sobre a casa brasileira, e a sua
introdução no programa da construção pareceu estar mais ligada à necessidade
de separar e organizar o trânsito de pessoas de diferentes estatutos sociais do que
simplesmente a uma solução espacial de circulação.
Antes de prosseguir, cabe esclarecer o conceito de dispositivo usado por
Eleb e Debarre, que passaremos a adotar. Dispositivo é a organização de elementos, colocados de forma particular para produzir determinado efeito, seja essa
intenção explícita ou não. Os dispositivos escolhidos para uma determinada solução espacial propõem um certo modo de relações interpessoais, mas também
relações econômicas (trabalho e produção nos espaços doméstico) e sociais mais
largas.
Até o início do século XVII as habitações eram compostas de espaços polivalentes. Com poucas divisões internas, os espaços eram usados para as diversas
atividades cotidianas indistintamente. Assim, o leito podia comumente ser encontrada no cômodo maior, onde também se recebia, se comia e se trabalhava; o
mesmo fogo que aquecia a família servia para cozinhar. Entre 1620 e 1880 esses
espaços começam a se especializar, acompanhados de forte teorização pelos os
arquitetos, mediadores entre usuários e novos modos de vida.
Até o primeiro terço do século XVII, os diversos cômodos se comunicam
diretamente, e são ao mesmo tempo lugar de estada e de circulação. Sala e quarto
são polivalentes e muitas vezes o mesmo cômodo serve aos dois usos, sendo a
nomenclatura dos espaços ainda bastante restrita. O uso é dado pelo mobiliário, e
não pela localização ou conformação espacial do compartimento.
Esse quadro pode ser confirmado para o Rio de Janeiro, até o final do
século XVIII. A documentação por mim estudada19 demonstra que a primeira
diferenciação perceptível é entre sala e “quartos” em geral, aparecendo em seguida a cozinha. Reitero que a expressão “alcova” referia-se ao lugar onde ficava o leito, criando uma diferenciação dos demais “quartos”, onde podiam desenvolver-se outras atividades. O fato de que o uso só era identificável através
do mobiliário explica por que muitas vezes os peritos avaliadores que produziram os laudos contidos nos inventários post-mortem não identificavam os espa60
ços, usando expressões genéricas como “quartos para cômodo”. Se os espaços
estivessem vazios, podiam servir para qualquer uso, não havendo padrões de
distribuição arquitetônica que os identificassem necessariamente. Isso explica
também o porquê das poucas plantas que temos para esses períodos mais recuados não terem legendas quanto ao uso dos cômodos. Se os espaços eram
polivalentes, não haveria necessidade de legendá-los. Cumpre agora determinar
a partir de que data as legendas apareceram, e que usos foram estabelecidos em
primeiro lugar.
As casas cariocas eram construídas em parcelas mais fundas do que largas,
com dois ou três vãos. A ideia de intimidade parece surgir a partir da introdução
do quinto cômodo, quando já existe um quarto destacado, de acesso mais difícil
e menos público. É interessante notar que nas casas cariocas o corredor aparece
a partir da introdução do quinto cômodo, sendo raro em casas menores que isso.
As casas que tinham uso profissional, com loja na frente, são as que primeiro vão
apresentar corredor lateral, permitindo o acesso direto aos fundos, onde ficava a
parte privada da edificação.
A partir do surgimento de uma teoria da distribuição, observável nos tratados de arquitetura, os cômodos se multiplicam, assim como a terminologia que
destaca novos usos. Há uma multiplicação de salas e quartos, conforme atividades específicas encontram espaços planejados para elas: salas de espera , salas de
jantar, salas de música, quarto de costura, etc. Os cômodos em sucessão, com uso
variável, são substituídos por arranjos espaciais dentro de novas regras. A casa
torna-se cada vez mais uma expressão do aparato.
As casas do Capão do Bispo, do Viegas e da Taquara foram objeto de análise gráfica das plantas, especialmente no que se refere à distribuição e circulação,
conforme figuras 7, 8 e 9. A casa do Viegas parece ser a mais antiga, embora
tenha sofrido acréscimos claros.
Em nenhum dos casos foi possível ainda precisar uma data de construção.
Tampouco ficou claro se a casa do Capão do Bispo já existia quando passou a D.
Justiniano, sendo nesse caso obra dos jesuítas, ou se foi construída por ele mesmo. Em todo caso, as casas se estruturam de modo distinto.
As casas possuem uma grande sala ocupando o trecho central da fachada
principal, voltadas para a varanda de acesso. Essa sala dá acesso a uma varanda
de fundos, voltada para um pátio. A distribuição torna-se totalmente diferente a
partir daí, como se pode ver nas plantas em anexo.
Na casa do Viegas, a sala é o principal dispositivo de distribuição, dando
acesso aos cômodos laterais, quartos e/ou alcovas. De acordo com Ranum20, até
fins do século XVIII a sala é o “espaço primordial do habitat”, local onde toda a
vida familiar se desenrola. A sala do engenho do Viegas parece ter essa função
central, sendo ponto de passagem quase inevitável na circulação. Em torno do pátio aparecem outros cômodos, sem comunicação direta com a sala, que parecem
ter sido acrescentados à construção ao longo dos anos. Essa distribuição sugere
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que os cômodos em volta do pátio fossem dedicados ao serviço, e possivelmente
armazenagem. Aparecem também nesta casa cômodos que estão no corpo principal mas só tem acesso externo, seja pela varanda frontal, pelo pátio ou mesmo
pelo quintal. No caso dos quartos que dão para a varanda frontal, pode-se admitir
que sejam os aposentos reservados para hospedagem de estranhos, fartamente
descritos na literatura. Os cômodos voltados para fora nos fundos da casa deveriam estar ligados ao serviço e à produção, podendo mesmo ter servido como
senzalas.
Na casa do Capão do Bispo, a sala é um elemento de ligação entre a varanda de acesso e o pátio central. É este que assume a principal função de distribuição, dando acesso a todos os cômodos, com exceção da capela e de um quarto que
a ela corresponde, na outra extremidade da varanda frontal. Este quarto poderia
funcionar como gabinete ou antecâmara do quarto maior que lhe é contíguo. Ressalto que o termo antecâmara é comum na literatura sobre a casa europeia, mas
ainda não apareceu na documentação do Rio de Janeiro, embora suas funções sejam reconhecíveis em determinados cômodos. O gabinete é descrito por Ranum
como um aposento de origem monástica, sendo um dos primeiros cômodos a ter
uso privado dentro da casa. É um local de refúgio, leitura, contabilidade e oração,
não exigindo grande mobiliário. O quarto que está ligado ao possível gabinete
também se comunica com a sala e a varanda que circunda o pátio central, sendo o
cômodo que parece ter circulação privilegiada, compatível com o uso pelo dono
da casa.
Não se sabe em que momento a casa do Capão do Bispo passou a ser habitada de forma permanente, se é que o foi. D. Justiniano deixou a propriedade
em testamento para seus sobrinhos, assim como os bens existentes na região do
atual Passeio Público. Não havia uma família a ser considerada na configuração
original da casa, e os descendentes do Bispo talvez nunca a tenham usado como
moradia ou propriedade de recreio (há uma longa disputa pelos bens, que tem
como principais objetos as propriedades da cidade).
A casa não tem a circulação de cômodo a cômodo, tão comum na casa colonial, assim como nas casas europeias. Esse tipo de circulação é considerada por
Monique Eleb como uma circulação privilegiada, exclusiva das pessoas íntimas.
As portas de ligação dos cômodos podem ter sido fechadas mais recentemente,
em nome de uma maior intimidade, mas isso teria deixado traços detectáveis
na restauração. Não há menção à existência dessas portas nos documentos do
IPHAN. Assim sendo, é bastante provável que os cômodos à volta do pátio central fossem usados para o serviço, gestão da propriedade, e mesmo acomodação
da entourage do Bispo. É mais ou menos pacífico que os dois grandes cômodos
dos fundos funcionavam como cozinhas. Entre a sala e a capela, um cômodo
alongado que denominamos saguão dá acesso ao pátio interno, sem que seja necessário passar pela sala. Dali é possível assistir às celebrações religiosas de forma mais reservada.
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Fig.7 – Fluxos, usos e distribuição na casa do Capão do Bispo.
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O imóvel do engenho da Taquara é o maior de nossa amostra, e o único
que possui um segundo pavimento, ainda que parcial. Sabemos que a configuração atual data aproximadamente da década de 1880, quando houve uma
grande reforma. A casa teria sido construída sobre outra, mais antiga e arruinada. Notam-se traços dessa construção original na parte frontal da casa, que
tem paredes significativamente mais grossas do que o restante do edifício. Parece que o pátio central surgiu numa segunda etapa de construção, sendo que
a sequência de cômodos que fecha o pátio aos fundos pode representar uma
terceira campanha de obras. O principal dispositivo de distribuição é o pátio
central, aparecendo dois corredores que dão acesso direto ao exterior, um deles
na altura da capela, possivelmente proporcionando um acesso reservado para a
família. Os quartos do segundo pavimento ficam bastante isolados do resto da
construção, sendo possível acessá-los sem passar pelo interior da casa, e nem
mesmo pelas salas.
Ainda de acordo com Monique Eleb, a divisão da casa em 3 setores – social, íntimo e serviço – só se concretiza em meados do século XIX. Até então
as funções se misturavam, sendo a primeira divisão a exclusão dos serviços das
áreas de vivência da família. As casas em estudo são coerentes com essa teoria.
As cozinhas aparecem bem delimitadas nos fundos das casas, e em especial em
Viegas é possível que num primeiro momento a cozinha fosse totalmente separada do corpo principal da casa. A faixa frontal mistura as funções sociais e íntimas,
e há cômodos intermediários, com função de difícil definição, uma vez que não
se encontraram descrições coevas.
O estudo das casas de engenho setecentistas no Rio de Janeiro apresenta muitos desafios. As múltiplas fontes de que podemos dispor para o estudo
das formas de morar não são facilmente encontráveis para o Rio de Janeiro,
e os imóveis estão em péssimo estado de conservação, com acesso restrito. A
análise dos fluxos e da distribuição permite avançar na compreensão dos interiores, sendo necessário a expansão da amostra, para que se busquem padrões
que levem a uma classificação tipológica. A comparação com outras casas
portuguesas, na metrópole ou nas colônias da África e Índia é importante para
a compreensão da circulação de modelos e tipos arquitetônicos no império
português.
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Fig.8 – Fluxos, usos e distribuição na casa da Taquara.
65
Fig.9 – Fluxos, usos e distribuição na casa do Viegas.
66
Notas e referências
1. CARDOSO, Joaquim. Um tipo de casa rural do Distrito Federal e Estado do Rio. Arquitetura Civil II.
São Paulo: FAU/USP e MAC/IPHAN, 1975. (Textos Escolhidos da Revista do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional.) .MIRANDA, Alcides da Rocha; CZAJKOWSKI, Jorge. Aspectos de
uma arquitetura Rural do século XIX. In PIRES, Fernando Tasso Fragoso. Antigas Fazendas de Café da
Província Fluminense. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
2. FRAGOSO, João Luís. Homens de Grossa Aventura – Acumulação e Hierarquia na Praça Mercantil
do Rio de Janeiro. 1790-1830. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.
3. FRAGOSO, João Luis. “A nobreza da República: notas sobre a formação da primeira elite senhorial do
Rio de Janeiro (séculos XVI e XVII)”. Topoi - Revista de História. vol. 1 - nº 1- jan-dez/2000. Programa
de Pós-Graduação em História Social da UFRJ.
4. Ibidem; BICALHO, Maria Fernanda Baptista. Conquista, mercês e poder local: a nobreza da terra na América portuguesa e a cultura política do Antigo Regime. Alm. Braz., São Paulo, n. 2,
nov. 2005. Disponível em <http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-81392005000200002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 09 set. 2012.
5. ABREU, Mauricio de Almeida. Geografia Histórica do Rio de Janeiro (1502-1700).Rio de Janeiro:
Andrea Jakobsson Estúdio & Prefeitura do Município do Rio de Janeiro, 2010.
6. FRIDMAN, Fania. Freguesias do Rio de Janeiro ao final do século XVIII. In Anais do II Encontro
Internacional de História Colonial. Mneme – Revista de Humanidades. UFRN. Caicó (RN), v. 9. n. 24,
Set/out. 2008. ISSN 1518-3394. Disponível em www.cerescaico.ufrn.br/mneme/anais
FRIDMAN, Fania. Donos do Rio em nome do Rei. Uma história fundiária da cidade do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor/Garamond, 1999.
7. Ver FRAGOSO, op.cit. e BICALHO, op.cit.
8. ABREU, op.cit.,v. 2, p. 93-104.
9. VAN BIENE, Maria Paula. A arquitetura das casas-grandes remanescentes dos engenhos de açúcar
no Rio de Janeiro setecentista. Diss. Rio de Janeiro: UFRJ/Artes Visuais, 2007.
10. Parecer de Lucio Costa no processo de tombamento da fazenda do Capão do Bispo. IPHAN/Processo
de Tombamento.0367-T-47. Casa: Suburbana (Avenida), nº 4616 (Fazenda Capão do Bispo), no município do Rio de Janeiro, estado do Rio de Janeiro. (Rio de Janeiro/RJ).
11. FRAGOSO, op. cit. ABREU, Mauricio de Almeida. Um quebra-cabeças (quase) resolvido: Os engenhos da Capitania do Rio de Janeiro - séculos XVI e XVII . In Revista Electrónica de Geografía y
Ciencias Sociales. Vol. X, núm. 218 (32), Barcelona: Universidad de Barcelona,ago 2006.
12. ANRJ, CODES, Fundo EJ, Casa de Suplicação, Jacinto Furtado de Mendonça. No 2230, Caixa 208,
1811. EJ.0.ACI.1524.
13. RUDGE, Raul Telles. As sesmarias de Jacarepaguá. São Paulo: Kosmos, 1983.
14. PEDROZA, Manoela. Engenhocas da moral: Uma leitura sobre a dinâmica agrária tradicional (freguesia de Campo Grande, Rio de Janeiro, século XIX). Tese. Campinas: IFCH/UNICAMP, 2008., p. 75.
15. PEDROZA, Manoela. op.cit. PEDROZA, Manoela. Passa-se uma engenhoca. Ou como se faziam
transações com terras, engenhos e crédito em mercados locais e imperfeitos (freguesia de Campo Grande,
Rio de Janeiro, séculos XVIII e XIX). VARIA HISTORIA, Belo Horizonte, vol. 26, nº 43: p.241-266,
jan/jun 2010.
16. Escrituras e inventários post-mortem.
17. ELEB-VIDAL,Monique, DEBARRE-BLANCHARD, Anne. Architectures de la vie privée, XVIIe-XIXe siècles. Bruxelles, Archives d’Architecture Moderne, 1989.
18. SANTOS, Ana Lucia Vieira dos. A Casa Carioca. Estudo sobre as formas de morar no Rio de Janeiro. 1750-1850. Tese. Niterói: PGGHis/UFF, 2005.
19. Laudos de avaliação contidos em inventários post-mortem, disponíveis no Arquivo Nacional do Rio
de Janeiro.
20. RANUM, Orest. Os refúgios da Intimidade. In ARIÈS, Philippe. DUBY, Georges (orgs.). História
da Vida Privada. Da Renascença ao Século das Luzes. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. v. 3, p.
211-265.
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Casas de engenho do Rio de Janeiro – século XVIII – metodo