17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis OLHAR E CONTRA-OLHAR AS NARRATIVAS DA ESTÉTICA POPULAR, DA MEMÓRIA E DO AFETO NAS GAVETAS FUNERÁRIAS NO BRASIL. Dra. Maria Elizia Borges ANPAP/ FAV/ FCHF - UFG Goiânia/ Brasil Resumo: Esta comunicação propõe relatar o resultado dos depoimentos escritos por jovens, mediante a leitura iconográfica de fotografias de gavetas funerárias - “gaveta de muro” - construídas no século XX. Elas estão instaladas no Cemitério da Saudade, na cidade de Ribeirão Preto, Estado de São Paulo. As fotografias foram tiradas em novembro de 2004, por um fotógrafo profissional, uma a uma, sob a orientação da presente pesquisadora. As gavetas de muro conseguem criar um diálogo estético, simbólico e emotivo entre as pessoas e os objetos expostos nos pequenos altares. O olhar dos informantes expressa, em linhas gerais, os seus valores culturais, morais e religiosos ao inventariarem os objetos. Ali se reconheceu ser um local de porte funerário; que guarda memórias dos mortos; que agrupa flores artificiais e imagens devocionais populares; que agrega sentimentos de perda e de dor diante da morte do outro. O olhar do outro nos ajuda a compreender melhor a identidade construída pelos familiares do morto, para homenagear seus entes queridos. Palavras-chave: arte funerária; gavetas de muro; século XX; Ribeirão Preto; Brasil. Abstract: This article describes the results of interviews from young writers, based on their iconographic perception of photographs from the Wall Vaults -"gavetas de muro", from the 20th Century graveyards, in grounds of the Cemiterio da Saudade, in the city of Ribeirao Preto, State of Sao Paulo. These photographs were taken in November of 2004, by a professional photographer, under the guidance of this author. The display of the wall vaults establishes dialogs of aesthetics, symbolism and emotionalism, amongst people and the exposed objects of the little altars. The gaze of the interviewers upon the objects, express their own cultural, moral and religious values. Recognitions were made of the funerary grounds, which protect the dead memoirs, which display artificial flowers and popular images of devotion and harbors feelings of grief and pain before the death of the other. The outside eye help us better understand the deceased identity created by their family, to homage the loved ones. Key words: Funerary Art; Wall Vaults; 20th Century; Ribeirao Preto; Brazil. As “gavetas de muro” foram construídas na parte interna dos muros laterais do Cemitério da Saudade pela Secretaria de Obras da prefeitura 468 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis municipal de Ribeirão Preto. Normalmente este tipo de túmulo aparece nos cemitérios quando o mesmo sofre de superlotação, isto é, quando surge à necessidade de ampliação do espaço físico e os administradores ampliam o local de forma improvisada atendendo as necessidades das famílias menos abastadas. Dado as proporções do muro, as gavetas funerárias são facilmente visíveis a partir da entrada do cemitério. Há um corredor entre as quadras e as gavetas que favorece a circulação dos transeuntes. Percebe-se que cada cemitério procura uma solução mais condizente com os problemas do espaço interno, instalando gaveta funerária de várias configurações. Com isso, racionaliza-se a ocupação do local por mais algum tempo e propicia-se condições de uma família adquirir uma sepultura individual, evitando assim, a humilhação de ver os restos mortais depositados em valas comuns, onde normalmente se perde o referencial do indivíduo para o coletivo (BORGES, 2005). Os familiares do morto recebem a gaveta funerária, depositam os restos mortais que são protegidos por uma parede e na frente há um vão de tamanho padrão – cada espaço livre mede em torno de 55 cm de largura por 40 cm de altura e 20 cm de profundidade. Elas estão dispostas em fileiras de três, tanto no sentido horizontal como vertical, fechadas por uma porta de vidro. Dentro dos vãos existe o que denominamos de “pequeno altar” e/ou “vitrine” e/ou “oratório” e/ou “espaço cenográfico”. Ali estão expostas uma profusão e uma variedade de artefatos selecionados e instalados pelos parentes-proprietários, conforme registra a pesquisa de Luciano Bortoletto Júnior (1988). Os “pequenos altares” podem apresentar vários tipos de acabamento: pintura caiada (original), pintura à base de tinta látex, pintura a óleo, revestidos de papel de parede, de pano, de azulejos decorados ou de cor única, conforme o gosto e as condições econômicas do proprietário. Estes revestimentos são sempre claros e refeitos, principalmente, no período que antecede a data de finados. Possivelmente, muitos dessas tintas e azulejos são sobras de reformas provenientes da construção civil. A quem cabe dispor os artefatos no pequeno altar? Normalmente são os parentes do morto os responsáveis pela montagem do espaço interno protegido pela porta de vidro e pelo cadeado. Costuma-se seguir o 469 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis procedimento de empilhamento, condizente com o gosto popular. Os parentes-montadores fazem agrupamentos espontâneos de alguns artefatos com o objetivo de materializar este espaço anteriormente vazio, agora transformado em local sagrado. Um processo de ação criativa repleto de sensibilidade e imaginação, condizente com os desejos coletivos desse grupo social, conforme atesta Nestor Garcia Canclini (1984). Ao deparar-se com a grande quantidade de gavetas alinhadas percebe-se que elas são providas de uma inesgotável invenção formal, constituindo assim um vasto repertório de design popular. Para Lélia Frota sabe-se “das relações estreitas no cotidiano do povo entre vida e criação, que se mesclam em redes de sociabilidade ligadas à experiência de festas como o carnaval, às formas de usar e habitar o espaço, e mesmo ao exercício de ofícios como o de poeta, carpinteiro, oleiro, músico, pedreiro, pintor da comunidade, escultor de areia, funileiro, xilógrafo (...) (2005:19)”. Acrescenta-se aqui o caso dos parentes-montadores das gavetas funerárias que, em um momento de suas vidas, se propõem a montar estas pequenas instalações, tornando no ato da sua feitura pedreiros, cenógrafos, pintores com o objetivo único de embelezar o recinto e eternizar o seu espaço físico. Enfim há um processo de inventividade que parte muito das situações do previsível e do imprevisível. Esta atitude do fazer contribui para o processo de elaboração do luto, isto é, uma das formas de viver e de relacionar com a perda. As gavetas funerárias tornam-se, por sua vez, pólo de resistência da sociedade, na qual as camadas populares marginalizadas têm pouco espaço para se expressar e aqui há um espaço específico, no tipo de cemitério secularizado, para demonstrar os seus sentimentos diante do infortúnio da morte. Essas vitrines dispõem os artefatos de forma aparentemente desordenada, para serem vistos através do vidro, dentro dos modos culturais dos seus proprietários, que mantêm uma relação intuitiva com esse espaço. Assim conseguem criar um diálogo estético simbólico e emotivo entre as pessoas e os artefatos. Vê-se que em algumas gavetas, as toalhas de plástico ou de pano, bordadas ou de papel cobrem a base do pequeno altar, desempenhando as 470 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis funções das toalhas usadas nos oratórios domésticos. Em outros casos, elas recebem cortinas de renda que contribuem para criar um espaço cenográfico ao recinto que guarda mimos da sociedade de consumo que certamente era de agrado do falecido como: cestas de vime, miniaturas de TV; animais de louça ou de pelúcia, de tamanhos variados. Acrescenta-se ainda a presença de velas-sete dias, rosário e cruzes, objetos de caráter religioso. As montagens-ações dos familiares são reconhecidas por todas as pessoas que circulam pelas imediações das gavetas de muro e elas nos ajudam a dialogar e cultuar o morto. O CONTRA-OLHAR AS NARRATIVAS DA ESTETICA POPULAR Os informantes foram 26 alunos universitários, da Faculdade de Artes Visuais, que cursavam o quarto ano dos cursos de Artes Visuais e Design Gráfico. Coube a cada um, no dia primeiro de abril de 2005, de posse de uma fotografia, narrar sucintamente o material fotográfico. À medida que foram entregando as narrativas, numerou-se cada documentação dentro de um envelope. Num primeiro momento, as fotografias causaram grandes estranhamente, uma vez que no Estado de Goiás, não existe este tipo de túmulo. O olhar dos jovens expressa, em linhas gerais, os seus valores culturais, morais e religiosos, ao inventariarem objetos que reforçam a perda do outro diante da morte, conforme atesta em seus depoimentos. Para tornar mais didática as narrativas dos alunos, subdividimos os enfoques da seguinte forma: A) Leitura das gavetas funerárias, enquanto construções de porte funerário: 471 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis Cemitério da Saudade, Ribeirão Preto, fig. 19. Foto: César Mulati,2005. - “Jazigo bem cuidado pela sua limpeza e decoração” (fig. 03, S.L.M., 32 anos). - “Altar simples de devoção, passa a sensação de paz, de religiosidade” (fig. 08, A.L.C., 43 anos). - “Há uma simetria entre os vasos de flores” (fig. 19, A.F.B., 34 anos). -“Visualmente, a imagem se torna singela por constituir e formar elementos que trazem sinais de beleza” (fig.15, G.D.S., 22 anos). -“É interessante observar a colocação dos elementos simbólicos. As duas imagens nas extremidades, o crucifixo ao fundo, tudo isso dentro de um recipiente coberto por um tecido branco - referência ao imaculado, uma vela ao centro - luz que indica o caminho e dentro deste cenário as fotografias daqueles que já se foram...” (fig. 21, J.F.P., 22anos). -“A imagem retrata um local que não recebe uma rotina de cuidados freqüentes e nem uma preocupação com a estética (...) pintura mal executada (..) as flores foram colocadas de forma aleatória (...) placa escrita sem obedecer nenhuma norma técnica de tamanho ou disposição (...) sujeira acumulada (...) as pessoas não puderam bancar uma apresentação mais refinada”. (fig. 4, R.S.C.V., 23 anos). 472 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis - “A idéia de ambientar as gavetas funerárias é muito interessante. (...) Mas se o arranjo fosse menos poluído, haveria beleza” (fig. 26, M.A., 20 anos). Diante das colocações dos informantes pode-se observar que de forma intuitiva, os jovens perceberam que se tratava de um altar destinado à devoção, local acolhedor, intimista e singular. Apreenderam que os montadores desses espaços trabalham de uma forma particularizada, fazendo agrupamentos espontâneos, com o objetivo de materializar o culto. A intenção é embelezar o recinto do morto dentro do gosto popular, considerado pelos alunos, pejorativamente, como “local poluído”, “sem beleza” e de “montagem aleatória”. Mas a intenção dos parentes-montadores deste altar é eternizar este espaço físico, dar um toque particular a cada gaveta, transformando-a numa extensão do altar da igreja onde os objetos são vistos frontalmente com a vantagem aqui de serem renovados permanentemente. A quantidade dos artefatos é uma demonstração de afeto e carinho para com a pessoa ali enterrada. Há inclusive altares que agregam embalagens de produtos industrializados, consumidos no dia-a-dia e reaproveitados na função de vasos, como exemplo citamos os recipientes de café solúvel. B) Leitura das gavetas funerárias enquanto locais que guardam memórias dos mortos, os porta-retratos: 473 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis Cemitério da Saudade, Ribeirão Preto, fig. 21. Foto: César Mulati, 2005. . -“A gaveta está enfeitada com flores artificiais e cortina de renda, está recoberta com vidro transparente; em seu interior se encontra um panfleto com escritos e a foto do que teria provavelmente sido a habitante do lugar em questão” (fig. 22, G.M.L.S., 30 anos). -“Neste caso, os mortais são colocados próximos aos santos de devoção, muito embora as imagens sejam maiores que as fotografias dos falecidos. Foto que nos remete a idéia de tão menores ou até mesmo insignificantes somos em comparação a estes santos” (fig. 21, J.F. P., 22anos). -“As fotos remetem ao corpo hidratado, ao corpo com vida, a imagem de quem já se foi, mas que é importante para quem se lembra” (fig. 07, W.V., 29 anos). Das gavetas analisadas apenas sete contém fotografias de mortos, isso se deve provavelmente a dificuldade de se ter registro dos falecidos e/ou pode ser pela possibilidade de os objetos contidos na gaveta serem mutáveis, isto é, a gaveta de hoje pode ter tido uma fotografia do falecido em montagens anteriores. Pela observação de um dos informantes nota-se uma leitura hierárquica de valores entre o que é sacro e o que é profano. A preocupação da identificação do morto, neste caso não ocorre somente pelo registro fotográfico, mas também pelos dados contidos nos epitáfios. 474 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis Os epitáfios do século XX, normalmente são acompanhados de textos chavões como “saudades dos familiares”, “descansa em paz”, “aqui jaz”, além de dados sucintos sobre o falecido. Eles têm a função de reforçar o sentimento de pesar, de fé e de esperança, mesmo conservando este grau de banalização que lhe é próprio. Retomando, o emprego da fotografia do morto em túmulos passou a ser corrente a partir do século XX na forma de retratos de porcelana, cada qual vinculado à moda de época. As famílias de luto costumam escolher os portaretratos que mais representam à imagem ideal da pessoa em vida (BORGES, 1999b) e pode-se pensar na possibilidade de eles terem sido transferidos da casa para a gaveta funerária. C) Leitura das gavetas funerárias enquanto locais que agrupam flores artificiais: Cemitério da Saudade, Ribeirão Preto, fig. 12. Foto: César Mulati, 2005. - “As flores coloridas, amenizam a frieza da morte; mesmo que as próprias cores das flores sejam frias: azul e branco, e as mesmas são de tecido, não 475 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis tem vida, é um simulacro de vida que já não existe mais” (fig. 07, W.V., 29 anos). - “As flores coloridas, lembram um jardim florido (....) essas flores mostram a ingenuidade e a alegria de uma criança” (fig. 12, S.C.C., 22 anos). - “Acho muito feio e de mal gosto a utilização dessas flores de plástico” (fig. 26, M.A., 20 anos). A maioria dos informantes não se deu conta do uso abusivo de flores artificiais nas gavetas funerárias, os poucos destacaram sobre o seu valor simbólico e enfatizaram o preconceito sobre o produto. Elas estão ali para amenizar a dor da perda do ente querido, dada à riqueza cromática dessas peças ornamentais. Esses arranjos “artísticos” perdem a sua função inicial, que é de imitar os subsídios naturais, pois acentuam o caráter artificial dos elementos florais aqui representados. As gavetas funerárias são decoradas com flores artificiais, produzidas de plástico ou de papel, nos mais variados tamanhos, formas e cores que muitas vezes não correspondem à fidelidade das flores naturais. Somente este tipo de produto tem como sobreviver num recipiente fechado. Elas imitam margaridas, rosas, lírios, antúrios e copos-de-leite (BORGES, 2005). Todos estes tipos de flores têm um significo específico dentro da arte cristã, daí o seu uso em altares de igrejas e se estender automaticamente no espaço do cemitério. D) Leitura das gavetas funerárias enquanto locais que contêm imagens devocionais: 476 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis Cemitério da Saudade, Ribeirão Preto, fig. 17. Foto: César Mulati, 2005. -“Aqui houve uma mistura de várias imagens santas e até do cristo crucificado, representando um altar, ou seja, é como se estivesse contemplando as imagens que nele foi colocado”. ( fig. 17, D.C.F., 22anos). -“Nossa Senhora Aparecida é a Padroeira do Brasil” (fig. 08, A.L.C., 43 anos). -“Os santos têm a função de mediar o mundo dos vivos e dos mortos”, garantindo um lugar tranqüilo no reino dos céus (fig. 10, J.C.M., 41 anos). Como diz um informante acima, acredita-se que os santos têm a função de mediar o mundo dos vivos com os mortos. Dentro da postura do inconsciente coletivo, os familiares do morto lembram dele nas suas viagens de lazer, trazem lembranças que são colocadas nas gavetas funerárias como uma demonstração de amor e carinho. Embora os cemitérios secularizados simbolizem o processo de laicização da sociedade brasileira, a população persiste em associar o local dos mortos ao local de devoção e é nesta morada eterna que se reúnem imagens de santos de pequeno porte e, dentre as mais apreciadas, predomina a de Nossa Senhora Aparecida, a santa mais venerada pela população brasileira. Algumas gavetas possuem várias versões do mesmo santo. Normalmente as imagens são adquiridas na forma de souvenir pelos 477 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis familiares que as escolhem, no feitio de santinho, de imagem (de latão, de porcelana e de cerâmica) e dentro de uma cenografia de vidro, bem condizente com o gosto popular. Esse processo de piedade se estende por meio de outras imagens, tais como as de Cristo, São Benedito, São Cosme e Damião, São Jorge e São Francisco. O acúmulo de santos em um mesmo altar vem reforçar os valores exacerbados do culto cristão que, nesse caso, adota uma atitude proveniente do kitsch religioso (BORGES, 2005). E) Leitura das gavetas funerárias enquanto locais que agregam sentimentos de perda e de dor diante da morte do outro: Cemitério da Saudade, Ribeirão Preto, fig. 23. Foto: César Mulati, 2005. -“O peso da vida que se faz seguido, num invólucro fechado, trancado, exposto, mas inalcançável” (fig. 5, R.B.S.F., 42 anos). -“Um espaço de memória, de reverência, ao que muitas vezes é esquecido pelos entes queridos” (fig. 07, W.V., 29 anos). -“Lembranças enclausuradas. Há um vazio reforçado pela inexistência do retrato” (fig. 13, S., 25 anos). 478 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis - “Vejo o amor e a devoção das pessoas que ficaram pelas que já se foram e acima de tudo a vontade de não esquecer nunca” (fig. 14, I.M.S., 23 anos). -“Luiz Carlos Chiodi, desapareceu e transformou-se em um número, ficaram as lembranças de quem o conheceu e o amou” (fig. O6, F.J.L.L., 23 anos). -“A imagem fotografada passa uma sensação de mal estar, tristeza e até de medo” (fig. 20, C.T.P.L., 21 anos). -“A leitura visual que faço desta imagem é sobre o desejo de paz trazido pelo céu, pelas flores, pelos vasos e imagens”. (fig. 23, S.G. N., 22anos). Pelos depoimentos dos informantes pode-se constatar que a gaveta funerária representa na sua essência um pequeno altar de devoção voltado para o falecido, repleto de memórias, de mensagens subjacentes, acolhedor, intimista e singular. O olhar do outro, no caso os informantes, nos ajudou a compreender melhor a identidade construída pelos familiares dos mortos, para homenagearem seus mortos. Eles não foram indiferentes ao artefato em questão, conseguiram pelo menos identificá-los, apresentou mensagens ambíguas a respeito da morte, postura comum dentro da sociedade contemporânea. Teve-se que ajustar este olhar na observância de que muitos textos estão imbuídos de preconceito com relação às manifestações de gosto popular. Vê-se o prazer dos proprietários no processo de uma produção pública concentrada em um recinto privado. Os elementos de impacto visual estão concentrados no colorido das gavetas e na profusão de artefatos devocionais. Acredita-se numa consciência da circularidade diante deste repertório documental que apresenta uma narrativa visual mediante certo padrão de gosto; do vaivém permanente de dados culturais que se entrecruzam, conforme enfatiza os estudos da história das mentalidades e da história da arte quando trata do patrimônio modesto do seu acervo material. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA BEUQUE, Jacques van de. Arte popular Brasileira. In: AGUILAR, Nelson (org.) Mostra do descobrimento: arte popular. São Paulo: Associação Brasil 500 anos, Artes Visuais, 2000. 479 17° Encontro Nacional da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas Panorama da Pesquisa em Artes Visuais – 19 a 23 de agosto de 2008 – Florianópolis BORGES, Maria Elizia. Expresiones artísticas de cuño popular en cementerios brasileños. Arte latinoamericano del siglo XX: Otras historias de la Historia. Rodrigo Gutiérrez Viñuales (diretor) – Zaragoza: Prensas Universitarias de Zaragoza, 2005. ______. Cemitérios convencionais: Espaço de Popularização da Arte Erudita no Brasil (1890-1930) In: XXIV Reunião Brasileira de Antropologia Nação e Cidadania, 2004, Olinda. Anais. Olinda: ABA, 2004. _____. Arte funerária no Brasil (1890-1930) ofício de marmoristas italianos em Ribeirão Preto = Funerary Art in Brazil (1890-1930): italian marble carver craft in Ribeirão Preto. Belo Horizonte: Editora C/ Arte, 2002. ______ Arte Funerária: Representação do vestuário da criança. LOCUS: Revista de História. Juiz de Fora, v. 5, n.2, p. 145-159, 1999 b. ______ Arte Funerária: Representação de criança despida. História (Fundação para o Desenvolvimento da UNESP), São Paulo, n.14, p. 173-187, 1995. BORTOLETTO JUNIOR, Luciano S. O Kitsch na gaveta tumular. Relatório de Iniciação Científica do CNPq. Ribeirão Preto, Universidade de Ribeirão Preto, 1988. CANCLINI, Nestor Garcia. A socialização da arte. São Paulo: Cultrix, 1984. FROTA, Lélia Coelho. Pequeno dicionário da arte do povo brasileiro, século XX. 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