Crop, 11, 2006 O LLug ug ar do TTeext er ár io na Sala de AAula ula de ugar xtoo Lit Liter erár ário Língua Ing lesa Inglesa Renata Cristina Colasante* Resumo: Considerando os objetivos propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (1998) e do Ensino Médio (2000), que preconizam a leitura como habilidade comunicativa factível dentro da sala de aula de língua inglesa, a proposta deste trabalho é discutir de que modo a literatura pode contribuir como um conteúdo que transcende a simples aquisição de conhecimento lingüístico, contribuindo significativamente para o desenvolvimento intelectual e humano do aluno das escolas da rede oficial de ensino e colaborando para a elevação do status dessa disciplina no currículo. Palavras-chave: Parâmetros Curriculares Nacionais, literatura, língua inglesa, cidadania. Abstract: The aim of this essay is to discuss how literature can be used in the classroom to contribute not only to the simple acquisition of language, but also for the intellectual and human development of the students in state schools. Keywors: literature, English language, citizenship. Embora muitos tenham sido os esforços de (pelo menos alguns) cursos de Letras com Habilitação em Línguas Estrangeiras para propor alternativas e abor* Mestre pela Área de Estudos Lingüísticos e Literários em Língua Inglesa FFLCH-USP; Professora de Literatura em Língua Inglesa na Universidade Metodista de Piracicaba. 317 24 Crop 11.pmd 317 7/12/2010, 13:43 COLASANTE, Renata Cristina. O Lugar do Texto Literário na Sala de Aula de Língua Inglesa. dagens de ensino aos seus alunos e futuros professores de modo a permitir que a sala de aula de língua inglesa deixe de ser o lugar onde, talvez com um certo exagero, cada ano letivo começa indistintamente com o ensino do verbo to be e termina com exercícios de preencher lacunas com verbos no Simple Present Tense, o status desta disciplina nas redes oficiais de ensino ocupa um plano cada vez mais secundário, a ponto do ensino de inglês ter se tornado freqüente alvo de piadas em rede nacional. Quem já não assistiu os humoristas do Casseta & Planeta lançarem mão da famosa frase “The book is on the table”, que virou em emblema da ineficiência do ensino de inglês nas escolas, cada vez que precisam simular que estão falando inglês? Ou então a propaganda de uma cervejaria nada respeitável, visto sua posição central na recente operação Cevada da Receita Federal, cujo protagonista apela para a fictícia expressão enrolation para cantar a mulher a seu lado num bar, a qual falava inglês? A ineficiência do ensino nas redes públicas é quase palpável. Para o professor universitário de língua inglesa, especialmente nas universidades particulares, ela se faz sentir na falta de motivação e conteúdo dos alunos que são admitidos nas universidades a cada exame vestibular e na descrença de que aprender a língua (qualquer que sejam as habilidades comunicativas) fora dos institutos de idiomas é possível. O impacto disto na sociedade é ainda pior, já que a ineficácia desse ensino vai se traduzir no questionamento da utilidade da disciplina Língua Inglesa no currículo e, já que “não tem utilidade”, ou “não serve para nada”, ou ainda “não é na escola que se aprende inglês”, a disciplina está sempre a vias de ter sua existência ameaçada. A sociedade não questiona, porém, a necessidade de ter acesso à língua inglesa hoje. Independentemente de questões ideológicas e políticas que estão vinculadas à escolha de que idioma oferecer, saber uma língua estrangeira, e, hoje, especialmente o inglês, é quase uma condição sine qua non para que um indivíduo tenha acesso, entre outras coisas, a um bom emprego, e com isto, adquira condições de vida que deveriam estar acessíveis a todos. Ora, se não ter acesso ao idioma é um fator limitante a um direito básico do cidadão, como o trabalho (conforme o estabelece o artigo 23 da Declaração de Direitos Humanos), então ter acesso a ele também deveria ser um direito de todos. E, numa sociedade como a nossa, em que os altos níveis de desigualdade social não permitem o acesso dos menos favorecidos aos – normalmente caros – cursos de línguas, caberia ao ensino público e gratuito prover ao aluno tal conhecimento para que ele possa em tempo exercer sua cidadania. É inegável, porém, que o trabalho dos professores de línguas nas salas de aula é limitado por condições quase sempre desfavoráveis, como salas com um grande número de alunos, heterogeneidade do nível de conhecimento dos alunos e um reduzido número de aulas semanais. E, é chamando a atenção dos 318 24 Crop 11.pmd 318 7/12/2010, 13:43 Crop, 11, 2006 professores de língua estrangeira para as estas condições de trabalho, que os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (1998) e do Ensino Médio (2000), documentos elaborados pelo Ministério da Educação com o objetivo de propiciar aos sistemas de ensino subsídios para a elaboração do currículo e projetos pedagógicos, e orientar professores em suas abordagens, preconizam a leitura como uma habilidade comunicava factível dentro da sala de aula de língua estrangeira no ensino formal e que pode contribuir significativamente para o desenvolvimento do aluno e prepará-lo para o exercício da cidadania. Contudo, a ênfase dada nos PCNs ao ensino da leitura, não nos parece ser suficiente para, por si só, justificar a presença de textos literários na sala de aula de línguas estrangeiras, se o professor pensar na leitura como uma mera forma de aquisição de conteúdos lingüísticos (como gramática e vocabulário), domínio de estratégias de leitura, e limitar-se a aplicar para os alunos exercícios de compreensão de texto. Utilizar-se de qualquer texto desta maneira, mas sobretudo textos literários, seria um altamente limitante e redutor. Entretanto, ao propor a leitura como “competência primordial do ensino de línguas estrangeiras” 1, os PNCEM postulam que alguns dos maiores desafios que o jovem deverá confrontar-se no mundo do social e do trabalho só poderão ser resolvidos com o acesso a informações e a mobilização seletiva de competências e habilidades apropriadas: aprender a conhecer e aprender a fazer. Os PCNEMs definem ainda três eixos para os conceitos estruturantes e competências gerais da área: Representação e Comunicação, Investigação e Compreensão e Contextualização Sociocultural. Dentro destes eixos, considera-se que é função do estudo das línguas estrangeiras modernas, entre muitas outras coisas, levar o aluno a competências que transcendam o domínio das habilidades lingüísticas, como, por exemplo, a reflexão sobre estatutos de indivíduos frente a outros, a formação de leitores capazes de se apropriar do conhecimento e usá-lo de modo autônomo, a capacidade de compreender melhor sua realidade e cultura através do contato com a cultura estrangeira, enriquecendo sua visão crítica e seu universo cultural, expondo-o às diversidades culturais e eliminando estereótipos e preconceitos. 2 E para com estas funções o texto literário tem a contribuir – e muito! Em “O Direito à Literatura”, Antonio Candido argumenta que a literatura tem sido um instrumento poderoso de educação, ao mesmo tempo em que 1 2 Brasil. Ministério da Educação. Departamento de Políticas do Ensino Médio. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio: Linguagens, Códigos e suas tecnologias. Brasília, 2000. p. 97. Id. Ibid. p. 94-103. 319 24 Crop 11.pmd 319 7/12/2010, 13:43 COLASANTE, Renata Cristina. O Lugar do Texto Literário na Sala de Aula de Língua Inglesa. paradoxalmente apresenta uma ameaça a padrões socialmente estabelecidos. Segundo ele, “os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apóia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas”3. Ele nos lembra ainda que a literatura não é uma experiência inofensiva, atentando para seu papel formador da personalidade segundo a força indiscriminada da própria realidade, contrariando as convenções, e provocando um conflito entre a idéia convencional de que a literatura eleva e edifica e os efeitos de sua força indiscriminada de iniciação na vida, que corrompe e é indesejável para alguns educadores. Para Candido, entretanto, a literatura nem corrompe, nem edifica, mas, “trazendo livremente em si o que chamamos de bem e o que chamamos de mal humaniza em sentido profundo, porque faz viver”4. E, este papel contraditório, mas humanizador, está ligado à complexidade de sua natureza. O que Candido entende por humanização é “o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”5. nos tornando mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, e nossos semelhantes. Além de seu caráter humanizador, o crítico destaca na literatura o seu papel como um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou de negação deles, como a miséria, a servidão e mutilação espiritual 6. Aqueles que não são leitores ou que tem pouca familiaridade com textos literários podem estar agora se questionando se ou como a literatura teria todo este poder sobre o leitor. Acho, assim, importante notarmos ainda que, conforme explica Candido, a literatura – e seu caráter humanizador – tem várias faces entre as quais está o fato de que ela é uma forma de expressão, já que manifesta emoções e a visão do mundo dos indivíduos e dos grupos e de que é também uma forma de conhecimento. Mas sua face primeira e crucial é que a literatura é uma construção de objetos autônomos como estrutura e significado. É este o aspecto que decide se um texto é literário ou não. Consciente ou inconscien3 4 5 6 ANTONIO CANDIDO. “O Direito à Literatura”. In: Vários Escritos. 4ª. Ed. São Paulo/Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre o Azul, 2004, p. 175. Id. Ibid. p. 175. Id. Ibid. p. 180. Id. Ibid. p. 186. 320 24 Crop 11.pmd 320 7/12/2010, 13:43 Crop, 11, 2006 temente, este caráter de construção ou organização nos deixa mais capazes de organizar nossa visão de mundo. Em outras palavras, é a forma que assegura o efeito do conteúdo, ou seja, um texto literário é composto de palavras articuladas para comunicar uma idéia, segundo meios que impressionam a percepção. Na visão do crítico, estes aspectos atuam em nós simultaneamente e, em grande parte das vezes, “nas camadas do subconsciente ou do inconsciente, incorporando-se em profundidade como enriquecimento difícil de avaliar” 7. A reflexão de Antonio Candido nos ajuda a compreender melhor o caráter formador da literatura. E não formador no sentido em que ela coloca o indivíduo dentro de um molde. Pelo contrário, sua força está justamente na capacidade que tem de libertar o pensamento do indivíduo do pragmatismo da vida cotidiana e do convencionalismo, em larga medida imposto por uma sociedade em que o capital é o elemento norteador e para a qual, indivíduos pensantes poderiam se colocar como uma ameaça. Ela é capaz de despertar no sujeito uma consciência crítica, a qual permitirá que ele avalie e julgue o mundo e os acontecimentos reais, e desenvolver nele um espírito questionador, que permitirá que ele reflita, opine e proponha mudanças para a ordem das coisas. E isto é sem dúvida dar a ele elementos para o exercício de sua cidadania. Diante disto, penso que o acesso de professores e estudantes de língua estrangeira a suas respectivas literaturas, pode ainda contribuir como um elemento de referência para que ele possa compreender melhor e refletir sobre as culturas de outros países, não fazendo apenas com que eles consigam entender melhor aspectos relacionados a própria organização cultural, social e política do Brasil, mas também desmistificando aqueles que são peculiares aos países estrangeiros e fazendo com que deixem de reproduzir posturas e idéias do senso comum de que o que tudo o que é externo, de primeiro mundo, dos países dominantes deve ser valorizado em detrimento do que temos no Brasil, que é tipo como menor e de menos valor. Ancorando-se nas quatro premissas apontadas pela UNESCO com eixos estruturais da educação na sociedade contemporânea – que são, resumidamente: 1) aprender a conhecer, enquanto forma de compreender a complexidade do mundo de modo a viver dignamente, desenvolver possibilidades pessoais e profissionais e se comunicar e estimular a curiosidade intelectual; 2) aprender a fazer, criando condições necessárias para o enfrentamento de novas situações; 3) aprender a viver, desenvolvendo o conhecimento do outro e possibilitando a gestão inteligente de conflitos inevitáveis; e 4) aprender a ser, preparando o indi7 Id. Ibid. p. 179. 321 24 Crop 11.pmd 321 7/12/2010, 13:43 COLASANTE, Renata Cristina. O Lugar do Texto Literário na Sala de Aula de Língua Inglesa. víduo para elaborar pensamentos autônomos e críticos e exercitar sua liberdade de pensamento, discernimento, sentimento e imaginação, estabelecendo um compromisso da educação com o desenvolvimento total da pessoa – os PCNEM propõem que “o currículo, enquanto instrumentação da cidadania democrática, deve contemplar conteúdos e estratégias de aprendizagem que capacitem o ser humano para a realização de atividades nos três domínios da ação humana: a vida em sociedade, a atividade produtiva e a experiência subjetiva, visando a integração de homens e mulheres no tríplice universo das relações políticas, do trabalho e da simbolização subjetiva” 8. As disciplinas de língua inglesa podem e devem participar ativamente deste processo de educação e integrar-se aos demais componentes curriculares, tais como História, Geografia, Filosofia e todas as demais disciplinas, e contribuir de modo efetivo e eficaz para o desenvolvimento do aluno. E a presença do texto na sala de aula é uma alternativa viável e possível para que isto aconteça, a qual, devo enfatizar, não é nem de longe excludente de outras habilidades comunicativas, já que, para que tudo o que discuti aqui possa ser realizado, a leitura na sala de aula de LE não deve ser encerrada em si mesma, através de exercícios gramaticais ou de compreensão geral ou de vocabulário. O texto pode tanto instigar uma discussão e troca de experiências, como resultar numa atividade escrita, mas vou me limitar aqui a meu objetivo, que foi o de propor uma reflexão sobre o texto literário como uma alternativa para a sala de aula de língua inglesa. É, entretanto, óbvio que o professor que queira enfrentar este desafio deve antes de tudo ser ele mesmo um leitor e conhecedor do universo literário. Aos que já são, deixo aqui como fonte de provocação e/ou reflexão as sempre sabias palavras de Antonio Candido: “Negar a fruição da literatura é mutilar nossa humanidade” 9. Aos que ainda não são, espero ter exposto de modo claro aquilo do que estão se privando e de que privarão seus alunos ao rejeitar a idéia de que a literatura pode lhes oferecer alternativas para o ensino. Quem sabe com ela possamos deixar as aulas de verbo to be como algo do passado e recuperar a credibilidade do ensino de língua inglesa nas escolas do ensino fundamental e médio e fazer com que ela deixe seu status de marginalidade para trazer sua real contribuição para a educação no Brasil. Só assim, enterraremos definitivamente o estigma de que nada ensinamos além de “The book is 8 9 Brasil. Ministério da Educação. Departamento de Políticas do Ensino Médio. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio: Linguagens, Códigos e suas tecnologias. Brasília, 2000. p. 97. CANDIDO. Ibid. p. 186. 322 24 Crop 11.pmd 322 7/12/2010, 13:43 Crop, 11, 2006 on the table” e com ele o fantasma da exclusão definitiva da disciplina de língua inglesa dos currículos da rede pública de ensino. Bibliografia: BRASIL. Ministério da Educação. Departamento de Políticas de Educação Infantil e Ensino Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Fundamental. Brasília, 1998. BRASIL. Ministério da Educação. Departamento de Políticas do Ensino Médio. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Brasília, 2000. BRASIL. Ministério da Educação. Departamento de Políticas do Ensino Médio. PCN+: Linguagens, Códigos e suas tecnologias. Brasília, 2000. CANDIDO, Antonio. “O Direito à Literatura”. In: Vários Escritos. 4ª. Ed. São Paulo/ Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre o Azul, 2004. 323 24 Crop 11.pmd 323 7/12/2010, 13:43