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Língua Ing
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Inglesa
Renata Cristina Colasante*
Resumo: Considerando os objetivos propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (1998) e do Ensino Médio (2000),
que preconizam a leitura como habilidade comunicativa factível dentro da
sala de aula de língua inglesa, a proposta deste trabalho é discutir de que
modo a literatura pode contribuir como um conteúdo que transcende a simples aquisição de conhecimento lingüístico, contribuindo significativamente
para o desenvolvimento intelectual e humano do aluno das escolas da rede
oficial de ensino e colaborando para a elevação do status dessa disciplina no
currículo.
Palavras-chave: Parâmetros Curriculares Nacionais, literatura, língua
inglesa, cidadania.
Abstract: The aim of this essay is to discuss how literature can be used in
the classroom to contribute not only to the simple acquisition of language,
but also for the intellectual and human development of the students in state
schools.
Keywors: literature, English language, citizenship.
Embora muitos tenham sido os esforços de (pelo menos alguns) cursos
de Letras com Habilitação em Línguas Estrangeiras para propor alternativas e abor*
Mestre pela Área de Estudos Lingüísticos e Literários em Língua Inglesa FFLCH-USP;
Professora de Literatura em Língua Inglesa na Universidade Metodista de Piracicaba.
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dagens de ensino aos seus alunos e futuros professores de modo a permitir que
a sala de aula de língua inglesa deixe de ser o lugar onde, talvez com um certo
exagero, cada ano letivo começa indistintamente com o ensino do verbo to be e
termina com exercícios de preencher lacunas com verbos no Simple Present Tense,
o status desta disciplina nas redes oficiais de ensino ocupa um plano cada vez
mais secundário, a ponto do ensino de inglês ter se tornado freqüente alvo de
piadas em rede nacional. Quem já não assistiu os humoristas do Casseta &
Planeta lançarem mão da famosa frase “The book is on the table”, que virou em
emblema da ineficiência do ensino de inglês nas escolas, cada vez que precisam
simular que estão falando inglês? Ou então a propaganda de uma cervejaria
nada respeitável, visto sua posição central na recente operação Cevada da Receita Federal, cujo protagonista apela para a fictícia expressão enrolation para cantar a mulher a seu lado num bar, a qual falava inglês? A ineficiência do ensino nas
redes públicas é quase palpável. Para o professor universitário de língua inglesa,
especialmente nas universidades particulares, ela se faz sentir na falta de motivação e conteúdo dos alunos que são admitidos nas universidades a cada exame
vestibular e na descrença de que aprender a língua (qualquer que sejam as habilidades comunicativas) fora dos institutos de idiomas é possível. O impacto disto
na sociedade é ainda pior, já que a ineficácia desse ensino vai se traduzir no
questionamento da utilidade da disciplina Língua Inglesa no currículo e, já que
“não tem utilidade”, ou “não serve para nada”, ou ainda “não é na escola que se
aprende inglês”, a disciplina está sempre a vias de ter sua existência ameaçada.
A sociedade não questiona, porém, a necessidade de ter acesso à língua
inglesa hoje. Independentemente de questões ideológicas e políticas que estão
vinculadas à escolha de que idioma oferecer, saber uma língua estrangeira, e,
hoje, especialmente o inglês, é quase uma condição sine qua non para que um
indivíduo tenha acesso, entre outras coisas, a um bom emprego, e com isto,
adquira condições de vida que deveriam estar acessíveis a todos. Ora, se não ter
acesso ao idioma é um fator limitante a um direito básico do cidadão, como o
trabalho (conforme o estabelece o artigo 23 da Declaração de Direitos Humanos), então ter acesso a ele também deveria ser um direito de todos. E, numa
sociedade como a nossa, em que os altos níveis de desigualdade social não
permitem o acesso dos menos favorecidos aos – normalmente caros – cursos
de línguas, caberia ao ensino público e gratuito prover ao aluno tal conhecimento para que ele possa em tempo exercer sua cidadania.
É inegável, porém, que o trabalho dos professores de línguas nas salas
de aula é limitado por condições quase sempre desfavoráveis, como salas com
um grande número de alunos, heterogeneidade do nível de conhecimento dos
alunos e um reduzido número de aulas semanais. E, é chamando a atenção dos
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professores de língua estrangeira para as estas condições de trabalho, que os
Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (1998) e do Ensino
Médio (2000), documentos elaborados pelo Ministério da Educação com o objetivo de propiciar aos sistemas de ensino subsídios para a elaboração do currículo
e projetos pedagógicos, e orientar professores em suas abordagens, preconizam
a leitura como uma habilidade comunicava factível dentro da sala de aula de língua estrangeira no ensino formal e que pode contribuir significativamente para o
desenvolvimento do aluno e prepará-lo para o exercício da cidadania.
Contudo, a ênfase dada nos PCNs ao ensino da leitura, não nos parece
ser suficiente para, por si só, justificar a presença de textos literários na sala de
aula de línguas estrangeiras, se o professor pensar na leitura como uma mera
forma de aquisição de conteúdos lingüísticos (como gramática e vocabulário),
domínio de estratégias de leitura, e limitar-se a aplicar para os alunos exercícios
de compreensão de texto. Utilizar-se de qualquer texto desta maneira, mas sobretudo textos literários, seria um altamente limitante e redutor.
Entretanto, ao propor a leitura como “competência primordial do ensino de línguas estrangeiras” 1, os PNCEM postulam que alguns dos maiores desafios que o jovem deverá confrontar-se no mundo do social e do trabalho só
poderão ser resolvidos com o acesso a informações e a mobilização seletiva de
competências e habilidades apropriadas: aprender a conhecer e aprender a fazer. Os PCNEMs definem ainda três eixos para os conceitos estruturantes e
competências gerais da área: Representação e Comunicação, Investigação e Compreensão e Contextualização Sociocultural. Dentro destes eixos, considera-se
que é função do estudo das línguas estrangeiras modernas, entre muitas outras
coisas, levar o aluno a competências que transcendam o domínio das habilidades lingüísticas, como, por exemplo, a reflexão sobre estatutos de indivíduos
frente a outros, a formação de leitores capazes de se apropriar do conhecimento e usá-lo de modo autônomo, a capacidade de compreender melhor sua realidade e cultura através do contato com a cultura estrangeira, enriquecendo sua
visão crítica e seu universo cultural, expondo-o às diversidades culturais e eliminando estereótipos e preconceitos. 2 E para com estas funções o texto literário tem a contribuir – e muito!
Em “O Direito à Literatura”, Antonio Candido argumenta que a literatura tem sido um instrumento poderoso de educação, ao mesmo tempo em que
1
2
Brasil. Ministério da Educação. Departamento de Políticas do Ensino Médio. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio: Linguagens, Códigos e suas tecnologias. Brasília,
2000. p. 97.
Id. Ibid. p. 94-103.
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paradoxalmente apresenta uma ameaça a padrões socialmente estabelecidos.
Segundo ele, “os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da
ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apóia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas”3. Ele
nos lembra ainda que a literatura não é uma experiência inofensiva, atentando
para seu papel formador da personalidade segundo a força indiscriminada da
própria realidade, contrariando as convenções, e provocando um conflito entre a
idéia convencional de que a literatura eleva e edifica e os efeitos de sua força
indiscriminada de iniciação na vida, que corrompe e é indesejável para alguns
educadores. Para Candido, entretanto, a literatura nem corrompe, nem edifica,
mas, “trazendo livremente em si o que chamamos de bem e o que chamamos de
mal humaniza em sentido profundo, porque faz viver”4. E, este papel contraditório, mas humanizador, está ligado à complexidade de sua natureza. O que
Candido entende por humanização é “o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do
saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da
complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”5. nos tornando mais
compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, e nossos semelhantes.
Além de seu caráter humanizador, o crítico destaca na literatura o seu
papel como um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou de negação deles, como a miséria, a servidão e mutilação espiritual 6.
Aqueles que não são leitores ou que tem pouca familiaridade com textos
literários podem estar agora se questionando se ou como a literatura teria todo
este poder sobre o leitor. Acho, assim, importante notarmos ainda que, conforme explica Candido, a literatura – e seu caráter humanizador – tem várias faces
entre as quais está o fato de que ela é uma forma de expressão, já que manifesta
emoções e a visão do mundo dos indivíduos e dos grupos e de que é também
uma forma de conhecimento. Mas sua face primeira e crucial é que a literatura
é uma construção de objetos autônomos como estrutura e significado. É este o
aspecto que decide se um texto é literário ou não. Consciente ou inconscien3
4
5
6
ANTONIO CANDIDO. “O Direito à Literatura”. In: Vários Escritos. 4ª. Ed. São
Paulo/Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre o Azul, 2004, p. 175.
Id. Ibid. p. 175.
Id. Ibid. p. 180.
Id. Ibid. p. 186.
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temente, este caráter de construção ou organização nos deixa mais capazes de
organizar nossa visão de mundo. Em outras palavras, é a forma que assegura o
efeito do conteúdo, ou seja, um texto literário é composto de palavras articuladas para comunicar uma idéia, segundo meios que impressionam a percepção.
Na visão do crítico, estes aspectos atuam em nós simultaneamente e, em grande parte das vezes, “nas camadas do subconsciente ou do inconsciente, incorporando-se em profundidade como enriquecimento difícil de avaliar” 7.
A reflexão de Antonio Candido nos ajuda a compreender melhor o caráter formador da literatura. E não formador no sentido em que ela coloca o
indivíduo dentro de um molde. Pelo contrário, sua força está justamente na
capacidade que tem de libertar o pensamento do indivíduo do pragmatismo da
vida cotidiana e do convencionalismo, em larga medida imposto por uma sociedade em que o capital é o elemento norteador e para a qual, indivíduos
pensantes poderiam se colocar como uma ameaça. Ela é capaz de despertar no
sujeito uma consciência crítica, a qual permitirá que ele avalie e julgue o mundo
e os acontecimentos reais, e desenvolver nele um espírito questionador, que
permitirá que ele reflita, opine e proponha mudanças para a ordem das coisas.
E isto é sem dúvida dar a ele elementos para o exercício de sua cidadania.
Diante disto, penso que o acesso de professores e estudantes de língua
estrangeira a suas respectivas literaturas, pode ainda contribuir como um elemento de referência para que ele possa compreender melhor e refletir sobre as
culturas de outros países, não fazendo apenas com que eles consigam entender
melhor aspectos relacionados a própria organização cultural, social e política
do Brasil, mas também desmistificando aqueles que são peculiares aos países
estrangeiros e fazendo com que deixem de reproduzir posturas e idéias do senso comum de que o que tudo o que é externo, de primeiro mundo, dos países
dominantes deve ser valorizado em detrimento do que temos no Brasil, que é
tipo como menor e de menos valor.
Ancorando-se nas quatro premissas apontadas pela UNESCO com eixos estruturais da educação na sociedade contemporânea – que são, resumidamente: 1) aprender a conhecer, enquanto forma de compreender a complexidade
do mundo de modo a viver dignamente, desenvolver possibilidades pessoais e
profissionais e se comunicar e estimular a curiosidade intelectual; 2) aprender a
fazer, criando condições necessárias para o enfrentamento de novas situações;
3) aprender a viver, desenvolvendo o conhecimento do outro e possibilitando a
gestão inteligente de conflitos inevitáveis; e 4) aprender a ser, preparando o indi7
Id. Ibid. p. 179.
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víduo para elaborar pensamentos autônomos e críticos e exercitar sua liberdade de pensamento, discernimento, sentimento e imaginação, estabelecendo um
compromisso da educação com o desenvolvimento total da pessoa – os PCNEM
propõem que “o currículo, enquanto instrumentação da cidadania democrática, deve contemplar conteúdos e estratégias de aprendizagem que capacitem o
ser humano para a realização de atividades nos três domínios da ação humana:
a vida em sociedade, a atividade produtiva e a experiência subjetiva, visando a
integração de homens e mulheres no tríplice universo das relações políticas, do
trabalho e da simbolização subjetiva” 8.
As disciplinas de língua inglesa podem e devem participar ativamente
deste processo de educação e integrar-se aos demais componentes curriculares,
tais como História, Geografia, Filosofia e todas as demais disciplinas, e contribuir de modo efetivo e eficaz para o desenvolvimento do aluno. E a presença
do texto na sala de aula é uma alternativa viável e possível para que isto aconteça, a qual, devo enfatizar, não é nem de longe excludente de outras habilidades comunicativas, já que, para que tudo o que discuti aqui possa ser realizado,
a leitura na sala de aula de LE não deve ser encerrada em si mesma, através de
exercícios gramaticais ou de compreensão geral ou de vocabulário. O texto
pode tanto instigar uma discussão e troca de experiências, como resultar numa
atividade escrita, mas vou me limitar aqui a meu objetivo, que foi o de propor
uma reflexão sobre o texto literário como uma alternativa para a sala de aula de
língua inglesa.
É, entretanto, óbvio que o professor que queira enfrentar este desafio
deve antes de tudo ser ele mesmo um leitor e conhecedor do universo literário.
Aos que já são, deixo aqui como fonte de provocação e/ou reflexão as sempre
sabias palavras de Antonio Candido: “Negar a fruição da literatura é mutilar
nossa humanidade” 9. Aos que ainda não são, espero ter exposto de modo claro
aquilo do que estão se privando e de que privarão seus alunos ao rejeitar a idéia
de que a literatura pode lhes oferecer alternativas para o ensino.
Quem sabe com ela possamos deixar as aulas de verbo to be como algo
do passado e recuperar a credibilidade do ensino de língua inglesa nas escolas do
ensino fundamental e médio e fazer com que ela deixe seu status de marginalidade para trazer sua real contribuição para a educação no Brasil. Só assim, enterraremos definitivamente o estigma de que nada ensinamos além de “The book is
8
9
Brasil. Ministério da Educação. Departamento de Políticas do Ensino Médio. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio: Linguagens, Códigos e suas tecnologias. Brasília,
2000. p. 97.
CANDIDO. Ibid. p. 186.
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on the table” e com ele o fantasma da exclusão definitiva da disciplina de língua
inglesa dos currículos da rede pública de ensino.
Bibliografia:
BRASIL. Ministério da Educação. Departamento de Políticas de Educação Infantil e
Ensino Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Fundamental. Brasília,
1998.
BRASIL. Ministério da Educação. Departamento de Políticas do Ensino Médio.
Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Brasília, 2000.
BRASIL. Ministério da Educação. Departamento de Políticas do Ensino Médio. PCN+:
Linguagens, Códigos e suas tecnologias. Brasília, 2000.
CANDIDO, Antonio. “O Direito à Literatura”. In: Vários Escritos. 4ª. Ed. São Paulo/
Rio de Janeiro: Duas Cidades/Ouro sobre o Azul, 2004.
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