SHEILA D’ÁVILA KEPPEL O VESTIBULAR DA PUCMG E DA UFMG: UM ESTUDO DAS PROVAS DE LÍNGUA PORTUGUESA E DO PERFIL DO CANDIDATO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como parte dos requisitos para a obtenção do grau de Mestre em Língua Portuguesa, elaborada sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Maria de Lourdes Meirelles Matencio. Belo Horizonte 2004 2 FICHA CATALOGRÁFICA Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais K38v Keppel, Sheila D’Ávila O vestibular da PUCMG e da UFMG: um estudo das provas de língua portuguesa e do perfil do candidato / Sheila D’Ávila Keppel. Belo Horizonte, 2004. 203f. Orientadora: Maria de Lourdes Meirelles Matencio. Dissertação (Mestrado) - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Programa de Pós-Graduação em Letras Bibliografia. 1. Interacionismo simbólico. 2. Língua portuguesa – Avaliação. 3. Universidades e faculdades – Vestibular. I. Matencio, Maria de Lourdes Meirelles. II. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Letras. III. Título. CDU: 806.90:378.244 3 Dissertação Defendida publicamente no Programa de Pós-graduação em Letras da PUCMG e aprovada pela seguinte Comissão Examinadora: ____________________________________________________ Prof. Drª. Juliana Alves Assis (PUCMG) ____________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Regina Lúcia Pérete Dell’Isola ( UFMG) ____________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Maria de Lourdes Meirelles Matencio (Orientadora - PUCMG) Belo Horizonte, 23 de setembro de 2004. ____________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Ivete Lara Camargos Walty Coordenadora do Programa de Pós-graduação em Letras da PUC Minas 4 Dedico este meu trabalho aos meus pais, Hermann e Olga, ao meu companheiro fiel, Ailton, às minhas irmãs, Shirley e Shyrlene (in memorian), aos meus maiores presentes, meu filho Lutz e meu sobrinho Heckel, a todos os meus amigos, professores e mestres, em especial, à D. Ângela. 5 Sem uma história de interações suficientemente recorrentes, envolventes e amplas, em que haja aceitação mútua num espaço aberto às coordenações de ações, não podemos esperar que surja a linguagem. Se não há interações na aceitação mútua, produz-se a separação ou a destruição. Em outras palavras, se há na história dos seres vivos algo que não pode surgir na competição, isso é a linguagem (grifos do autor). MATURANA (1999, p. 24) 6 AGRADECIMENTOS à professora Maria de Lourdes Meirelles Matencio, pelo acolhimento da proposta de trabalho, pelo seu empenho e pelo seu esforço para conduzir as minhas limitações; às professoras Ângela Vaz Leão, Vanda de Oliveira Bittencourt e Márcia Marques de Morais, pela amizade e pelo carinho que sempre a mim dedicaram; aos professores do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCMG, por me permitirem trilhar outros caminhos; à minha família, por relevar as minhas ausências e fases de completa angústia; à Débora, à Isabel, à Ana Flávia e à Sandra, amigas que comigo compartilharam diversas situações, durante todo este período, testemunhas constantes das minhas dificuldades; à Cíntia, à Raide e ao Fábio, pela amizade, carinho e solidariedade; à Vera, à Marieta e à Berenice, que sempre me fizeram crer que eu seria capaz de superar as inúmeras aflições; ao TRE-MG, por me conceder a licença no momento preciso; ao Instituto J. Andrade e à UNIPAC, por acreditarem na minha capacidade de trabalho; à CAPES, pelo financiamento desta pesquisa. 7 RESUMO Considerando que a linguagem somente se constitui em meio às interações sociocomunicativas, objetivamos, com este trabalho, apresentar uma análise das provas de vestibulares da PUCMG e da UFMG, à luz dos PCNEM, tendo em vista o contrato de comunicação proposto por Charaudeau, almejando verificar as dimensões contextuais e as implicações do gênero avaliação. Nossa proposta buscou relacionar os aspectos priorizados e as habilidades requeridas nas provas objetivas e discursivas de Língua Portuguesa e de Redação dos vestibulares propostos pelas referidas instituições, visando delinear o perfil do candidato a ser selecionado. Palavras-chave: Interacionismo Contrato de comunicação Avaliação Vestibular 8 RESUMÉ Étant donné que le langage ne se constitue qu’étroitemente lié aux interactions sociocommunicatives, nous avons pour but, avec ce travail, la présentation d’une analyse des examens des concours “Vestibular” de l’Université Catholique du Minas Gerais (PUCMinas) et de l’Université Fédérale du Minas Gerais (UFMG), à la lumière des PCNEM tout en visant le contrat de communication proposé par Chauraudeau. Nous tenons à verifier également les dimensions contextuelles et les implications du genre “évaluation”. Notre proposition a bien essayé de raccorder les aspects mis en priorité et les habilités nécessaires requises à l”exécution des épreuves objectives (multiple choix) et écrites de Langue portugaise et de Rédaction des concours réalisés par les instituitions mentionnés ci-dessus, à fin d’esquisser le profil du candidat qui sera sélectionné. Mots-clé: Interaction Contrat de communication Évaluation Vestibular 9 SUMÁRIO 1. APRESENTAÇÃO DA PROPOSTA DE PESQUISA...........................................10 1.1 O objeto de estudo: as provas dos vestibulares.....................................................11 1.1.1 Da seleção do corpus .............................................................................................12 1.1.2 Da descrição do corpus e do tratamento metodológico atribuído........................13 1.2 Da organização da dissertação ...............................................................................14 1.3 Considerações finais ao capítulo ............................................................................15 2 A LINGUAGEM DO PONTO DE VISTA SÓCIO-INTERACIONISTA ............16 2.1 A importância do social para a aquisição da linguagem .....................................17 2.2 A linguagem viabiliza e promove ações .................................................................19 2.3 O sujeito produtor /recebedor ...............................................................................21 2.4 O sujeito e a representação dos mundos através da linguagem .........................24 2.5 Interação: objetivo do sujeito .................................................................................28 2.6 Reunindo idéias: uma descrição sobre o que é linguagem...................................29 2.7 A língua: material de reflexão e instrumento de trabalho ..................................30 2.8 O texto e sua função na aquisição da linguagem .................................................32 2.9 Para todo texto existe um conceito que condiciona a sua produção ..................34 2.10 O contexto como fator preponderante para a interpretação dos efeitos de sentido de um texto ..........................................................................................................................37 2.11 O contrato de comunicação .................................................................................39 2.12 A relação sujeito, cultura, língua, texto e discurso ............................................42 2.13 As relações entre texto, gêneros textuais e discurso ..........................................45 2.14 Os contratos de comunicação tipicamente escolares e os escolarizados ...........51 2.15 Um contrato de comunicação tipicamente escolar: a avaliação .......................52 2.16 A avaliação a serviço do processo de seleção ......................................................56 3. OS CONTRATOS DE COMUNICAÇÃO: AS PROVAS DOS VESTIBULARES DA PUCMG E DA UFMG EM FACE DOS PCNEM ......................................................60 3.1 As linguagens das provas e as orientações dos PCNEM ......................................61 3.2 Descrição global e inicial das provas de Língua Portuguesa da PUCMG e da UFMG 63 3.2.1-As provas objetivas de Língua Portuguesa da PUCMG ......................................63 3.2.2 As provas objetivas de Língua Portuguesa da UFMG ........................................71 10 3.2.3 As semelhanças e distinções entre as Provas de Redação da PUCMG e da UFMG 77 3.3 Análise interativa das provas .................................................................................81 3.3.1 Levantamento da ocorrência de questões, conforme classificação proposta. .....83 3.4 As provas objetivas da PUCMG/2003 e da UFMG/2002 .....................................86 3.4.1 A prova objetiva da PUC/MG................................................................................86 3.4.1.1 Comentário quanto à seleção do texto .............................................................88 3.4.1.2 As questões propostas pela prova da PUCMG/2003 ......................................90 3.4.1.3 A prova de Produção de Texto da PUCMG/2003...........................................99 3.4.1.3.1 Análise da proposta de produção de texto ......................................................100 3.4.2 A prova objetiva da UFMG/2002 ........................................................................101 3.4.2.1 Comentário quanto à seleção do texto ...........................................................103 3.4.2.2 As questões propostas pela prova objetiva da UFMG/2003 ........................106 3.5.3 Análise da Prova de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira A da UFMG 112 3.5.3.1 Das questões constantes da prova .................................................................112 CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................................................119 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................122 ANEXOS ......................................................................................................................125 11 1. APRESENTAÇÃO DA PROPOSTA DE PESQUISA O presente trabalho teve como objetivo estudar o perfil dos candidatos a serem selecionados pelos vestibulares da PUCMG e da UFMG, através, fundamentalmente, da análise de provas realizadas nessas instituições. Esta pesquisa foi uma conseqüência da observação não só das provas apresentadas pelos diversos vestibulares, mas também da experiência em sala de aula, na qualidade de professora, trabalhando na preparação de alunos para o vestibular. Embora nos cursos preparatórios para o vestibular o candidato estude provas de diversas instituições, em nossa pesquisa, por uma questão metodológica, necessitamos selecionar provas de um determinado período, 2000-2003, realizadas por duas instituições – PUCMG e UFMG. A razão para a escolha dessas instituições deveu-se ao fato de serem as universidades mais concorridas, em Belo Horizonte; uma, representando a iniciativa privada e a outra, pública, respectivamente. Também, quanto ao período selecionado, justificamos o recorte temporal realizado, 20002003, em função de corresponder a um momento em que os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio, cuja publicação se deu em 1998, já havia tido condições de ser consolidado e divulgado, ou seja, o período compreendido entre 1998 e 2000. Assim, julgamos ser prudente não considerar esse período para análise das provas, por isso, só fizemos o levantamento dos dados para a análise que apresentaremos, a partir de 2001. Outro aspecto a ser esclarecido diz respeito à função dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (doravante, PCNEM) para a pesquisa. Como sabemos que o vestibular é o tipo de exame realizado para o aluno egresso do Ensino Médio, que deseja dar continuidade aos estudos em uma faculdade, julgamos necessário fazer nossas reflexões e ponderações, pois, o papel tal documento na educação é o de redefinir os objetivos do ensino da comunicação e da expressão, enfatizando mudanças qualitativas para o processo de ensino/aprendizagem, no nível médio, que implicam a sistematização de um conjunto de disposições e atitudes como pesquisar, selecionar informações, analisar, sintetizar, argumentar, negociar significados, cooperar, de forma que o aluno possa participar do mundo social, incluindo-se aí a cidadania, o trabalho e a continuidade dos estudos. (cf. SIMÕES, 2000, p.112). Assim, verificamos ainda que, em decorrência das diversas pesquisas realizadas no campo da linguagem, era necessário confrontar as provas não somente com as teorias, fundamentalmente, a interacionista, mas também em relação ao que orientam os PCNEM, visto que a concepção teórica de tal documento apóia-se na premissa que orienta os estudos 12 sobre a linguagem, atualmente: “as linguagens existem para viabilizar a interação homem/mundo & homem/homem, pois é por meio das linguagens que os homens modificam as paisagens físicas e culturais” (grifos do original) (Ibidem. p.113). Considerando o que foi dito, procedemos à descrição tanto de nosso objeto de estudo quanto dos procedimentos de sua análise. Apresentamos o objeto de estudo de maneira a satisfazer as particularidades que consideramos pertinentes para a pesquisa, destacando não só o conceito de linguagem subjacente à elaboração das provas das instituições PUCMG e UFMG, como o “contrato de comunicação” Charaudeau (1996, p.39) existente – prova –, o que indica a caracterização do uso da linguagem no “nível do situacional, comunicacional e discursivo” (Ibidem). Selecionamos, como já foi dito, para o corpus as avaliações realizadas no período de 2000 a 2003, visando a uma classificação das questões objetivas propostas, contemplando os domínios abordados, tais como: interpretação; relações semânticopragmáticas; relações sintático-semânticas; referenciação e variação lingüística. Para as provas discursivas, as que se referem à produção de texto ou de redação, consideramos a temática proposta, o tipo textual, o ponto de vista solicitado pelo enunciado da questão. 1.1 Do objeto de estudo: as provas dos vestibulares A prova de vestibular sempre foi considerada uma situação polêmica do ensino no Brasil. O fato de o estudante ter de passar por um exame para dar continuidade aos estudos em nível superior é constantemente questionado por professores, estudiosos e alunos. A polêmica é decorrente não só do procedimento envolvido – a avaliação –, mas também do papel que essa desempenha no processo educacional, reproduzindo uma conduta social, comum às relações interpessoais em outras esferas da sociedade. Assim, nos dizeres de Perrenoud (1999), encontramos: bem antes de regular as aprendizagens, a avaliação regula o trabalho, as atividades, as relações de autoridade e a cooperação em aula e, de uma certa forma, as relações entre a família e a escola ou entre profissionais da educação. (p. 11) Assim, não poderíamos nos recusar à reflexão sobre o papel da avaliação. Por isso propusemos para o nosso trabalho não apenas uma análise da prova, especificamente, mas 13 consideramos a mesma como um “contrato de comunicação” (CHARAUDEAU, 1996), visto a necessidade de se verificar as condições de produção/recepção pertinentes. Analisamos, então, tanto as provas objetivas quanto as de redação. Buscamos fundamentação não só nos estudos lingüísticos, mas também nos estudos pedagógicos sobre o tema avaliação para nos auxiliar na tarefa de análise. Particularmente, promovemos o estudo do corpus visando depreender o delineamento das habilidades e domínios lingüísticos solicitados ao vestibulando, para chegarmos a um perfil do candidato selecionado por ambas as instituições. 1.1.1 Da seleção do corpus O corpus constitui-se de 7 (sete) provas objetivas de língua portuguesa da PUCMG, visto que essa instituição realiza dois vestibulares por ano, um em cada semestre, e 4 (quatro) da UFMG, além das provas de redação. Selecionamos para uma análise integral apenas uma prova de cada instituição, a do vestibular do 1º semestre de 2003 da PUCMG e a do vestibular 2002 da UFMG. Quanto às provas de redação, verificamos que as da UFMG acontecem na segunda etapa do vestibular, enquanto a da PUCMG é realizada no mesmo dia em que ocorre a prova objetiva, visto que o vestibular da PUCMG não apresenta segunda etapa, enquanto as da PUCMG são realizadas no mesmo dia em eu ocorre a prova objetiva, visto que o vestibular da PUCMG não apresenta segunda etapa. Recortamos o período de 2000 a 2003, por duas razões: uma, por serem mais recentes e, segundo, por serem posteriores à publicação dos PCNEM, considerando que, no período abordado, o documento já havia sido divulgado no meio escolar. Além disso, há que se ressaltar que, para o nosso objetivo, a amostragem ofereceu uma riqueza de material suficiente para a análise pretendida, visto ter sido possível, a partir do material selecionado, verificar a incidência de domínios e habilidades lingüísticas requeridas pelos vestibulares das referidas instituições, atualmente. 14 1.1.2 Da descrição do corpus e do tratamento metodológico atribuído Nossa preocupação ao selecionar as amostras foi buscar caracterizar os gêneros textuais selecionados para as provas, os tipos textuais solicitados pelas redações, bem como os aspectos abordados pelas questões das provas objetivas. Assim, desenvolvemos uma análise global das provas da PUCMG e da UFMG, apontando diferenças e semelhanças, o que nos levou a fazer um levantamento relativo aos aspectos abordados pelas questões acerca das situações de usos da linguagem, mediados pela língua e, finalmente, a análise integral de uma das provas dos vestibulares de cada instituição: PUCMG – 2003 e UFMG – 2002. Buscamos, para a referida análise, as provas constantes do período que apresentassem apenas um texto para a leitura, na prova objetiva, almejando assim um maior equilíbrio de características que pudessem nos permitir a adoção de critérios comuns para a realização de considerações apresentadas pela análise, o que nos permitiu verificar que o perfil das provas não se alteram relativamente ao período recortado. Outro aspecto importante para o critério de escolha foi o fato de, em uma análise preliminar do corpus, termos verificado que a temática trabalhada pelos textos das provas objetivas tende, às vezes, a se articular ou dialogarem com as propostas apresentadas pelas provas de redação. Em função do exposto anteriormente, desenvolvemos a análise do corpus em três dimensões: 1. dimensão interacional do uso da linguagem – buscando descrever as condições de produção e recepção, tanto aquelas solicitadas para a leitura e compreensão dos textos, quanto aquelas relativas aos enunciados referentes aos tópicos abordados pelas questões, além daquelas envolvidas nas propostas de produção de texto. Em outras palavras, procuramos descrever a interação pretendida pelo elaborador, tendo em vista, inclusive, o objetivo da questão em face da verificação da leitura e compreensão, bem como das competências e domínio das habilidades requeridas do candidato para a resolução das referidas questões, o que instaura em uma dimensão o “contrato de comunicação” (CHARAUDEAU,1996) estabelecido na emergência do gênero – prova –, fundando necessariamente, uma ação de linguagem, comum ao discurso da escola, portanto um contrato de comunicação privilegiado pela prática pedagógica segundo, Lukesi (1995), Perrenoud (1999), Hadji (2001), dentre outros e em outra dimensão, um “contrato de comunicação” previsto para a elaboração da redação; 15 2. dimensão textual-pragmática – procurando descrever a contextualização, ou seja, as circunstâncias em que tanto os textos apresentados pelas provas quanto os textos a serem produzidos deverão considerar, ou seja, o reconhecimento das circunstâncias envolvidas na relação avaliador/candidato; a intertextualidade, como forma de possível enriquecimento da interpretação, por meio de inferências, considerando a seleção de textos das provas analisadas, em sua íntegra, tendo em vista os gêneros e a tipologia textual solicitada. Verificamos, conforme nos aponta Charaudeau (1996), a importância da intencionalidade do produtor de texto, seja do autor dos textos selecionados pelas provas, seja do candidato ao produzir textos na prova de redação, seja do elaborador ao propor questões para serem resolvidas, o que determina uma outra relação a ser considerada no interior das provas, as relações entre enunciador/enunciatário. 3. dimensões lingüística, semântica e pragmática – procurando descrever a operacionalização dos recursos lingüísticos agenciados pelos aspectos priorizados pelas questões, tanto das provas de redação quanto das provas objetivas, oferecendo uma visão panorâmica, ou seja, global das abordagens realizadas por essas últimas, as provas objetivas, visto que o objetivo foi verificar a incidência de questões que exigissem habilidades e domínios, comuns não só às provas do período considerado, mas também comuns às duas instituições para, a partir daí poder abstrair o perfil da prova de cada instituição, a ser confirmado pela análise integral das provas selecionadas, análise essa fundamentada em Koch (2001), Britto (1997), Travaglia (1997), Kaufmann & Rodriguez (1995), dentre outros. É importante ressaltar, ainda, a recorrência constante aos PCNEM (Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio), documentos que deveriam, em princípio, orientar e organizar o ensino/aprendizagem e, portanto, a avaliação do vestibular, visto que essa constitui uma das etapas para o ingresso do aluno no ensino superior. 1.2 Da organização da dissertação A dissertação foi organizada da seguinte maneira: posterior ao capítulo 1, que constitui a apresentação da pesquisa, construímos o quadro teórico metodológico adotado, que se encontra exposto no capítulo 2, no qual apresentamos não só os conceitos, mas as relações 16 que esses propiciam ao se estabelecer a linguagem como objeto de estudo científico e objeto de ensino/aprendizagem. Após a exposição dos conceitos e suas implicações, partimos para a realização da análise do corpus, relativo às avaliações dos vestibulares da PUCMG e da UFMG, no período compreendido entre 2000-2003, apresentando não só as semelhanças, mas também as distinções que verificamos em nossa análise, de maneira global. Após tal exposição, buscamos, por amostragem, uma das provas de cada instituição, tanto a objetiva quanto a de Redação, também chamada no vestibular da PUCMG como prova de Produção de Texto, e a da UFMG, que até 2002, era conhecida como Prova de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira A, e, a partir de 2003, Prova de Redação. Para finalizar, apresentamos algumas considerações a respeito do gênero avaliação, das suas condições de produção e suas implicações no processo ensino/aprendizagem. 1.3 Considerações finais ao capítulo O presente capítulo apresenta uma descrição sucinta do objetivo da pesquisa, bem como a descrição de seu corpus, dos critérios utilizados para a seleção, da metodologia utilizada para a abordagem realizada. É nossa intenção que o trabalho possa contribuir para o aprimoramento do processo de elaboração das provas de vestibular de língua portuguesa, tendo em vista a contextualização das mesmas no processo de ensino/aprendizagem, no sentido do direcionamento proposto pelos PCNEM para as ações pedagógicas, bem como a contribuição para a formação da opinião pública, já que, conforme salienta Britto (1997, p.208), o vestibular funciona como um exercício de reflexão crítica que participa da construção dos papéis do sujeito, por meio da linguagem. Em outros termos, pressupomos com o autor que o vestibular, ao fundar um ato de linguagem, pressupõe a existência de sujeitos que assumem papéis sociais, no caso, os de avaliador e de candidato. 17 2. A LINGUAGEM DO PONTO DE VISTA SÓCIO-INTERACIONISTA É objetivo deste capítulo apresentarmos a concepção de linguagem que adotamos para a nossa pesquisa. Por uma razão metodológica, resolvemos, primeiramente, discutir a noção de linguagem, para, depois, discutirmos a de língua, já que esta, dentre as formas de manifestação da linguagem, constitui o material de reflexão e instrumento de trabalho prioritário na escola, como bem asseveram os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio – PCNEM. Para a análise do corpus desta dissertação – as Provas dos Vestibulares de Língua Portuguesa da PUCMG e da UFMG –, faremos uma explanação dos aspectos fundamentais da teoria interacionista da linguagem, teoria que também fundamenta os PCNEM, especificamente, na discussão que se encontra na parte II do documento, que trata sobre “Linguagens, Códigos e suas Tecnologias”. Ao iniciar a leitura, talvez, pode o leitor considerar que esteja havendo uma preocupação exacerbada em relação à tarefa de conceituar o que é linguagem. Porém, tal preocupação justifica-se, para nós, pelo fato de considerarmos todos os outros conceitos que remetem à comunicação ou à interação social como sendo decorrentes e/ou subordinados a esse, ou seja, pressupomos que o conceito de linguagem é o substrato para quaisquer outros conceitos que se limitam a falar de uma, dentre as várias formas existentes da expressão humana – verbal, gestual, visual, sonora, etc. -, visto que todo e qualquer conhecimento passa pela linguagem. Conscientes da dificuldade existente para a elaboração e explanação de um conceito, a tarefa de conceituar linguagem parece-nos um desafio ainda maior, pois sempre nos deixa aquela sensação de incompletude constante, o que nos leva a experimentar uma relativa certeza de que podemos não estar sendo suficientemente claros e atentos a todas as dimensões e aspectos envolvidos em um ato de linguagem. Sabemos também, por outro lado, que as dúvidas constituem o denominador comum a todos que buscam respostas e, principalmente, quando, em algum momento, necessitamos ativar um dos usos da linguagem para falar sobre o que ela é. Apesar dos obstáculos apontados, vamos perseguir o objetivo de caracterizar devidamente os aspectos que selecionamos concernentes à linguagem e suas implicações para a construção de um conceito, demonstrando a razão da presença de todos eles e, assim, explicitarmos a importância e o papel de cada um para o desenvolvimento da atividade 18 linguageira. É bom ressaltar que qualquer ato linguageiro não se reduz aos aspectos selecionados, porém, dentre outros, consideramos esses, selecionados, imprescindíveis à construção de tal conceito, já que aspiramos explicar algo aparentemente óbvio e inseparável da existência humana – a linguagem – motor que ativa a interação social. 2.1 A importância do social para a aquisição da linguagem A linguagem se funda na atividade social. Como já é sabido, o ser humano é, essencialmente, um ser social e sua socialização é mediada por atividades de linguagem. Assim, podemos dizer que a linguagem é uma atividade concomitante ao e decorrente do processo de socialização. Por isso é impossível conceituar linguagem sem priorizar o seu caráter social, já que o uso da linguagem visa às interações sociais. Magro (1998) justifica claramente a necessidade de, ao construirmos um conceito que recubra a noção de linguagem, realçarmos aquilo que lhe é inerente – o seu caráter social, pois, segundo a autora, "nenhuma formulação que aprisione a linguagem (ou a mate!)”, portanto, impedindo-a “de ver seu movimento no espaço das interações onde podemos dizer que ela se dá, especialmente em sua recursividade, reflexividade" (p.186) serviria para teorizarmos o que é linguagem. Em outras palavras, seria um despropósito valermos da linguagem para discorrer sobre aquilo que a constitui, negando ou excluindo do seu conceito elementos que caracterizam a sua essência natural de atividade social, fato que pressupõe o uso de recursos de naturezas diversas, capazes de refletir ou representar os sujeitos interactantes, tomados de seus respectivos universos, também representados, já que esses sujeitos objetivam atingir, de alguma forma, a interação social. Em Maturana (2000), verificamos a proposta de uma análise que vai até mais longe, pois já considerando que o nascedouro da atividade linguageira encontra-se no social, o autor apresenta como igualmente pertinente buscar aquilo que funda o social e conclui que a emoção funda o social. Assim, se nos dispusermos a exercitar o raciocínio proposto pelo autor, podemos dizer que a emoção funda o social e este, por sua vez, funda a linguagem ou, de outra forma: sem emoção não há o social, já que não há interação e, por conseguinte, a linguagem não seria construída. Por isso, ainda afirma o autor: “a linguagem, como o domínio de coordenações consensuais de conduta, não pode ter surgido na agressão, pois esta 19 restringe a convivência, ainda que, uma vez na linguagem, ela possa ser usada na agressão” (p.21-23). Prosseguindo, ao assumirmos o ponto de vista que prioriza o caráter social da linguagem concordamos com os estudiosos que afirmam a existência da interação social, um fenômeno humano, que privilegia o processo histórico de socialização, constituindo um ponto de vista comum não somente às ciências humanas. Entendemos que a socialização é o fator que viabiliza os demais processos envolvidos na atividade linguageira, como é o caso do processo de semiotização – forma de organizar o social, orientada pelas representações construídas tanto pela coletividade quanto pelo indivíduo – refletindo-se na linguagem ao mesmo tempo em que a linguagem interfere nos processos de qualquer organização social. É neste sentido também que verificamos nos PCNEM a tônica do tratamento dispensado à linguagem, considerada como a capacidade humana de articular significados coletivos e compartilhá-los, em sistemas arbitrários de representação, que variam de acordo com as necessidades e experiências da vida em sociedade. A principal razão de qualquer ato de linguagem é a produção de sentido. (p. 5) Ao considerarmos o que já foi dito sobre linguagem é que podemos reiterar tanto o posicionamento de Vigotsky (1991), psicólogo que mais radicalmente adotou o interacionismo em suas pesquisas sobre as relações entre linguagem, pensamento e sociedade, quanto o de Bakhtin (1992), filósofo da linguagem, contemporâneo de Vigotsky, visto que ambos compreendem o fato lingüístico de maneira mais ampla, não o restringindo à sua realidade física, mas ao conteúdo ideológico e vivencial experimentado pelo indivíduo em suas interações sociais mediadas por ações de linguagem. É em sociedade que experimentamos as situações de linguagem e aprendemos a estabelecer a finalidade do ato de linguagem, reconhecendo, inclusive, a quem dirigir o que dizemos e em que momento, o como construir o dito em um “invólucro”, que se constitui em textos, conforme trataremos mais adiante. Também nos PCNEM encontramos a importância do social registrada: “A linguagem é uma herança social, uma ‘realidade primeira’, que, uma vez assimilada, envolve os indivíduos e faz com que as estruturas mentais, emocionais e perceptivas sejam reguladas pelo seu simbolismo” (p.5). Nas próximas seções abordaremos a importância de reconhecer a linguagem enquanto ação que se subordina ao papel do sujeito, tendo em vista a sua intencionalidade nos atos de comunicação. 20 2.2 A linguagem viabiliza e promove ações Assim como é impossível falar de linguagem sem priorizar o seu caráter social, podemos dizer que o mesmo se repete em relação ao seu caráter de atividade. O propósito humano, decorrente da necessidade de criar ou modificar os seres implica a manifestação de uma força que nos impulsiona ao ato por meio do uso da linguagem. Porém, para promover essas transformações torna-se necessária a instauração contínua de um processamento de ações que resultem em linguagem. Mas a linguagem só se desenvolve quando um indivíduo está exposto ao social, ou seja, é o estado permanentemente ativo pela busca de interações sociais que impulsiona o ser humano a concretizar o seu propósito de interação em ações e é exatamente nesse continuum que se processa a descoberta tanto dos mecanismos quanto a dos usos de instrumentos que conduzem o indivíduo à aprendizagem e à construção da linguagem. Segundo Freitas (1998), baseando-se nos ensinamentos de Vigotsky, afirma: a cognição é vista como um produto social alcançado pela interação; a importância do outro, da cultura; a centralidade da linguagem e a mediação semiótica; a importância da educação, da escola, do professor nos processos de aprendizagem e desenvolvimento, (p.19) o que permite afirmar que as idéias do psicólogo justificam-se, não somente pela grande importância para o desenvolvimento das pesquisas realizadas, mas também por constituírem um direcionamento para a investigação da supremacia do componente sócio-cultural sobre o biológico-natural. As fontes para a ação do desenvolver o psicológico não se encontram no indivíduo, apenas biologicamente falando, mas nas necessidades de comunicação estabelecidas a partir das relações sociais mantidas entre o indivíduo e o grupo social no qual se encontra inserido. Então, a linguagem torna-se um jogo e, para entrar, participar, é preciso apreender o seu funcionamento. A partir do momento em que o indivíduo busca a sua inserção no jogo, motivado pelos outros, simultaneamente, vai se estabelecendo uma relação interpessoal e intrapessoal. No primeiro caso, temos uma ação que se constitui no efeito da participação com os outros, portanto, a ação é apenas externa, interpessoal; no segundo caso, essa ação, antes externa, passa por um processo de individualização, momento em que ocorre a reconstrução desta mesma ação, agora, de maneira intrapessoal, verificada a partir da identificação e do reconhecimento dos procedimentos utilizados, fato que marca o início da internalização do 21 jogo como um todo, inclusive da própria mediação que acontece por meio do uso da linguagem que, ao ser ativada pelo outro, dissemina as formas culturais a serem assimiladas. Continuando ainda com o raciocínio de Vigotsky (1991, p.53), a ação de internalização das formas culturais vai sendo mediada pela linguagem, através da adição de estímulos que auxiliam a resolução dos problemas – ferramentas e signos. As ferramentas seriam, segundo o autor, os instrumentos materiais, culturalmente transmitidos, que servem para transformar a realidade externa, e os signos, os símbolos e os sinais, os instrumentos psicológicos que levam o indivíduo exercitar a sua capacidade de busca de uma explicação semiótica ou de significado a ser atribuído e relacionado aos instrumentos materiais, fato que viabiliza a internalização do procedimento de mediação, através da linguagem. Por isso, para Vigotsky, (1991, p.108), a explicação semiótica para o comportamento humano se sobrepõe às reações biológicas. São os instrumentos psicológicos que permitem ao ser humano a construção do intercâmbio cultural artificialmente construído entre realidade externa e o comportamento ativo e individualizado frente a essa realidade a ele apresentada. Dessa forma, a ação linguageira prossegue continuamente e, à medida que vai se alterando, modifica, tanto por parte do indivíduo quanto da sociedade, a maneira de concepção da realidade, promovendo até mesmo a mudança da natureza da ação que se executa. As alterações promovidas pelo ato de linguagem são decorrentes de um único objetivo a ser alcançado – a interação social. Também nos PCNEM verificamos a afirmação do ponto de vista interacionista da linguagem: O caráter dialógico das linguagens impõe uma visão muito além do ato comunicativo superficial e imediato. Os significados embutidos em cada particularidade devem ser recuperados pelo estudo histórico, social e cultural dos símbolos que permeiam o cotidiano. Resumindo: quando ocorre a inserção do indivíduo no jogo da linguagem, ele se torna tanto um produtor de cultura quanto um produto da cultura, concomitantemente. Por isso, o processo inicial de internalização da linguagem é a prova concreta de que o ser humano está se individualizando, no sentido de que ele está se afirmando no seu papel social de sujeito, ou seja, é na e pela linguagem que o indivíduo torna-se apto a assumir a condição de social de sujeito para se inscrever culturalmente, momento em que ativa os papéis de produtor e de recebedor de linguagem, assunto que trataremos a partir de agora. 22 2.3 O sujeito produtor /recebedor É no conceito de sujeito que os demais elementos envolvidos no conceito de linguagem devem repousar. Conforme já dissemos, o ser humano é essencialmente um ser social, por isso toda e qualquer ação linguageira só ocorrerá em meio à sociedade, visando à interação. Mas a sociedade, da maneira como a reconhecemos organizada, apresenta os mais diversos papéis sociais e, é dentro dessa estrutura social que o ser humano se vê compelido a agir, ao visar à sua integração, mediando suas ações através de usos da linguagem, e assim realizar as interações necessárias ao seu convívio e desenvolvimento. Porém, de antemão, é bom esclarecer que existe um dinamismo inerente aos papéis sociais, ou seja, eles não são estanques e estão em constante movimento, diante das mais diversas circunstâncias que a experiência humana possa conceber. Assim, desde muito cedo, assimilamos, simultaneamente, ao adquirir a linguagem, alguns dos papéis sociais a serem representados e/ou assumidos em sociedade, como um meio de alcançar a interação. É neste momento, quando adquirimos a linguagem, que nos sentimos centrados em nós mesmos, embora, ilusoriamente, já que apenas através da experiência da linguagem é que adquirimos a consciência da necessidade de nos estabelecermos como sujeitos, fato que nos leva a atingir a sensação de domínio, de nós mesmos e da realidade, o que, por sua vez, impulsiona a nossa inserção no jogo da linguagem1. Por isso, quanto mais experiências sociais vivenciarmos para exercitarmos papéis sociais em nossas práticas linguageiras tanto maior poderá ser a nossa bagagem de conhecimento relativamente à forma de mediação propiciada pela linguagem. Apenas a título de comentário, é daí que decorre a importância de a escola, dentre outras instituições, promover, em suas práticas pedagógicas, atividades que possam desenvolver essencialmente situações variadas de interação, a fim de que o aluno exercite suas habilidades para representar outros papéis sociais distintos daqueles que habitualmente desempenha. A atividade de “representação” pressupõe usos diversos da linguagem, em diferentes circunstâncias, fato que propicia o aprendizado, levando o sujeito a estabelecer relativa consonância com o papel social a ser desempenhado, segundo as atividades propostas. Em face da busca de uma coerência mais ampla, para se falar de linguagem e diante também do exposto até aqui, é que nos julgamos em condições de assumir a perspectiva que 1 O conceito do papel de sujeito na sociedade está subordinado à sua inserção no jogo da linguagem. Assim, sem o domínio da linguagem, não há sujeito. 23 atribui ao sujeito o papel de maior relevância para a ocorrência do jogo linguageiro. Assim, verificamos que, desde o princípio do jogo, quando começamos a nos inscrever no processo de aquisição da linguagem, dois papéis vão se construindo de maneira bem definida e, circunstancialmente, organizando-se com maior ou menor revezamento entre os participantes – o de produtor de sentidos e o de recebedor – que, para Charaudeau (apud Carneiro, 1996) e também para nós, são próprios ao ato de linguagem, já que todo ato linguageiro traz implícitas estas duas atividades que, além de concomitantes são interdependentes: a de produção e a de interpretação, já que a existência de sujeitos interactantes é a condição mínima necessária para a ocorrência de qualquer ato de linguagem que objetiva a interação social. Com o intento de ilustrar um pouco mais o que afirmamos, remetemo-nos às palavras de Maturana (2000, p. 27-28) que exprimem uma outra ação simultânea, quer na condição de produtor quer na condição de recebedor, que o sujeito realiza continuamente,– a ação de interpretante, (cf. CHARAUDEAU,1996) frente ao ato de linguagem: a linguagem como fenômeno, como um operar do observador, não ocorre na cabeça nem consiste num conjunto de regras, mas ocorre no espaço das relações e pertence ao âmbito das coordenações de ação, como um modo de fluir nelas (...) Se muda meu linguajar, muda o espaço do linguajeio no qual estou, e mudam as interações das quais participo com meu linguajeio2. (p. 6) Entretanto, falar do sujeito apenas ressaltando a sua condição, ora de produtor ora de recebedor, não nos parece suficiente. É preciso, assim, buscar aquilo que leva, provavelmente, o sujeito a se afirmar como um ser linguageiro o qual, ao interagir, seleciona estes ou aqueles conteúdos, valendo-se de habilidades, de ideologias, de valores, de crenças, enfim, de todos os elementos que se inscrevem na linguagem e que se manifestam como traços típicos da construção de sua própria linguagem. É importante ressaltar que quando falamos de traços típicos da linguagem estamos considerando desde os aspectos estritamente lingüísticos, até o ideológico, entendido, aqui, principalmente, como manifestação do desejo idealizado de completude (cf. Brandão: 1996, p.67), já que o sujeito busca nas interações sociais a sensação de inteireza, ainda que ilusória. É exatamente por não se sentir completo, de maneira constante e uniforme, segundo o próprio desejo do sujeito, que o controle desse desejo escapa ao sujeito e, de maneira mais ou menos sutil, esse mesmo desejo, ao ficar subjacente a todas as suas ações de linguagem, 2 A transcrição está de acordo com a tradução do original que, no nosso entender, pelo contexto, equivale à expressão linguageiro. 24 impulsiona o sujeito a buscar interações sociais que propiciem as suas representações, neste ou naquele papel. É por isso que a busca de compreensão sobre a importância do sujeito na linguagem somente se justifica se tomarmos como ponto de partida os usos de linguagem que efetivamente o sujeito realiza, usos que só devem ser considerados sob o ponto de vista sóciohistórico-cultural, cabíveis para os papéis sociais desempenhados ou até mesmo a serem desenhados e/ou re-desenhados, na e pela sociedade. Sob essa ótica, podemos dizer que este ser linguageiro apenas experimenta a ilusão do sentimento de completude através de um exercício contínuo de linguagem que se dá em meio às atividades de linguagem. Em outras palavras, é por meio da linguagem que buscamos no outro a complementação do que nos falta, e isso só acontece quando estamos inseridos no universo das relações sociais. É imerso nesse processo, ao longo da experiência linguageira acumulada individualmente, que o sujeito, segundo as relações sociais das quais compartilha, vai constituindo a sua subjetividade, embora sempre subordinada às circunstâncias histórico-culturais de cada núcleo social. Ainda, segundo Vigotsky (1991) afirma que toda criança, em um primeiro momento, depreende, fundamentalmente, das funções sociais exercidas pelos sujeitos, os papéis sociais que estes desempenham, a partir dos usos de linguagem que realizam. É a partir da prática da linguagem em meio às relações sociais nas quais a criança se encontra imersa que vai sendo formado o construto necessário ao afloramento de seu psiquismo. Portanto, é no coletivo que se tem estabelecida a condição mínima necessária para a construção da nossa subjetividade, desde a infância. É após essa primeira fase de inserção social, que viabiliza a assimilação da prática da linguagem e, por conseguinte, dos papéis sociais, que a criança vai se tornando capaz de internalizar tais relações sociais a ponto de converter tudo o que foi apreendido em matériaprima que irá compor o seu psiquismo e, à medida que ela transfere e aplica os mesmos mecanismos que a levaram a reconhecer o jogo da linguagem realizado pelos outros, que ela começa a verificar os efeitos do uso da linguagem também em relação a si mesma, visto que, de alguma forma, ela atesta que aqueles mesmos mecanismos são os mantenedores das relações sociais, reconhecidamente desejáveis e necessárias. Descobre ainda que são as relações sociais que proporcionam ações diversas e que proporcionam sentimentos também de várias nuances, ao serem mediados pela linguagem, durante o continuum desse processo. É nesse estágio em que há a transformação de tudo o que foi depreendido, com base no coletivo, que a criança realiza funções psíquicas tipicamente 25 individualizadas, mediadas na e pela linguagem a ser aprendida. Só aí nasce o sujeito, pois a passagem do coletivo para o indivíduo consiste no coroamento de todo o processo, como se fosse um ritual de alquimia em que somente pela linguagem estamos aptos a nos individualizarmos. A parti daí, tem-se então a subjetividade a se desenvolver, às vezes, contraditória em relação à realidade que se apresenta objetivamente, às vezes, complementar, mas sempre com a certeza de que o fazer linguageiro também transforma o entorno, provocando alterações não só no ambiente externo, mas também no interior do próprio sujeito. É neste jogo incessante que a linguagem preserva e mantém um relativo controle dos usos lingüísticos realizados pelos sujeitos, que se orienta pelo equilíbrio das relações sociais. Neste sentido, é bom lembrar as palavras de Brandão (1996) que diz: “o sujeito só se completa na interação com o outro” (p. 45), ou seja, na ausência do outro, eu não sou e se eu não sou, logo não me constituo sujeito, e se eu não me assumo como tal não há linguagem e nem interação, ou seja, nos dizeres de Maturana (2000): “A conseqüência disso tudo é que somos como somos em congruência com nosso meio e que nosso meio é como em congruência conosco, e quando esta congruência se perde, não somos mais” (grifos do original, p.63). Reiteramos que o papel do sujeito é de suma importância para o processo de comunicação, pois o sujeito, ao “utilizar-se das linguagens como meio de expressão, informação e comunicação em situações intersubjetivas, que exijam graus de distanciamento e reflexão sobre os contextos e estatutos de interlocutores” passa a “saber colocar-se como protagonista no processo de produção/recepção” (cf. PCNEM, p.10), desenvolvendo-se socialmente, ou seja, tornando-se apto a atuar em sociedade como cidadão. 2.4 O sujeito e a representação dos mundos através da linguagem A realidade, da forma como a representamos objetivamente, sofre variados recortes: individualmente, por parte de cada sujeito e em coletividade, por parte dos grupos sociais. Decorrente do caráter dinâmico impresso na realidade, a sua representação tende a repetir o mesmo ritmo. Por isso, os modos como os recortes dessa realidade são feitos também tendem a variar, com relativa freqüência, ao longo da experiência sócio-histórico-cultural humana. Assim, segundo Heidegger (apud MATOS, 1997), representar significa: 26 pôr diante de si o existente como um oposto; referi-lo e fazê-lo voltar a entrar nessa relação consigo mesmo como domínio decisivo. Quando isso acontece, o homem coloca-se em imagem sobre o existente [...]. O homem passa a ser o representante do existente no sentido do que está em frente, (p.109) ou, ainda, conforme dizeres de Brandão (1996) que afirma que, no momento em que o indivíduo torna-se capaz de representar o mundo, ele se constitui sujeito. Ainda, para ampliarmos o raciocínio, poderíamos inclusive dizer que, ao se constituir sujeito, o indivíduo passa, portanto, a ser um recorte da própria representação do mundo, já que sua linguagem será sempre permeada das inscrições captadas, a partir de um determinado ponto de vista da experiência histórico-sócio-cultural linguageira da qual compartilhou, o que, por sua vez, constitui parte da composição de sua subjetividade. Mas, o que motiva o indivíduo a descobrir e realizar a ação de representar? A necessidade de se representar diante do outro, através do uso da linguagem, leva o ser humano a descobrir como utilizar o mecanismo de representação para que possa compartilhar das atividades de linguagem. Representar é conseqüência de uma tarefa psíquica que presume a realização de procedimentos (talvez, semelhantes àqueles que nos permitem a elaboração das metáforas, construções simbólicas e análogas, mediadas pela linguagem), que resultam na ação de semiotização, atividade que viabiliza a inserção do indivíduo no jogo da linguagem. A semiotização – propriedade típica de simbolizar e atribuir sentido às realidades – sejam do mundo objetivo (físico), do mundo social ou do mundo subjetivo, conforme sugere Bronckart (1999), acontece em dois planos: no plano coletivo, o qual exerce o controle da atividade de representar, operação manifesta pelos signos, que sofrem “avaliação” quanto à pertinência ou não da semiotização realizada pelo grupo ou pelo indivíduo e, no plano individual, à proporção que o sujeito utiliza ou cria formas, às quais também recebem atribuição de sentidos, passando pelo mesmo tipo de “avaliação”. Ao se apropriar de e interiorizar propriedades sócio-culturais-comunicativas, decorrentes das funções e papéis sociais exercidos pelos demais interactantes, participantes de um evento comunicativo, temos a continuidade e a preservação de todo o processo. A capacidade inata para se realizar a semiotização, operação de natureza psíquica, como forma de criar efeitos de sentido mediados pela linguagem para garantir a interação social ou até mesmo a motivação para se promover um evento comunicativo, viabiliza o aprendizado da criança que, desde muito cedo, descobre como articular e organizar as peças utilizadas no jogo da linguagem. Assim, ao mesmo tempo em que a criança aprende a jogar, ela também aprende avaliar o seu ato linguageiro, pois, conforme sabemos, a consciência do 27 indivíduo somente se afirma à medida que ele se reconhece como sujeito de linguagem, e essa consciência só vai se construindo, aos poucos, a partir das experiências de linguagem que efetivamente ele realiza. Aliás, é bom lembrar que a própria forma “sujeito” refere-se àquele que está exposto, passível de algo e, no caso, exposto à aprendizagem, passível da descoberta de como “jogar” continuamente a linguagem para interagir, marcando seu espaço, representando, assumindo funções relativas aos papéis sociais possíveis de serem desempenhados nos jogos interativos. É desse modo, individual e coletivo que, concomitantemente, a criança vai se conscientizando de como e quando suas representações, manifestas em atos de linguagem, funcionam, visto que ela passa a exercer um relativo controle do quando e como seus desejos, prioritariamente, o de interação, podem ser satisfeitos. É assim que, paulatinamente, a criança vamos nos reconhecendo como sujeito, mediando suas ações pela linguagem, afirmando tanto para nós mesmos quanto para os demais, que nossa linguagem está adequada e, por isso, estamos aptos a desempenhar seu papel de sujeito, seja enquanto produtores de sentidos ou recebedores. Nos PCNEM, consoante ao que foi dito, encontramos a seguinte afirmação: No campo dos sistemas de linguagem, podemos delimitar a linguagem verbal e nãoverbal e seus cruzamentos verbo-visuais, áudio-visuais, áudio-verbo-visuais, etc. A estrutura simbólica da comunicação visual e/ou gestual como da verbal constitui sistemas arbitrários de sentido e comunicação. A organização do espaço social, as ações dos agentes coletivos, normas, os costumes, rituais e comportamentos institucionais influem e são influenciados na e pela linguagem, que se mostra produto e produtora da cultura e da comunicação social. Podemos assim falar em linguagens que se confrontam, nas práticas sociais e na história, e fazem com que a circulação de sentidos produza formas sensoriais e cognitivas diferenciada. (p. 6) Toda materialização verbal, visual, ou de qualquer outra natureza compartilha socialmente do processo comunicativo, apontando duas faces correspondentes, segundo entende Bronckart (1999, p.35): a do significante (parte material, encontrado nas “representações individuais e coletivas”) e a do significado (parte conceitual, enquanto “conjunto de representações particulares compreendidas em um significante coletivo”). Por isso, aqui, o importante é reconhecer com Vigotsky (1991) e outros estudiosos do assunto, como Bakhtin (1992), Barthes (1996) ou Bronckart (1999), dentre vários, que os signos consistem em instrumentos psicológicos capazes de propiciar a sistematização constante de significados. Esta capacidade de operar representativamente que possibilita a materialidade – o signo – tende a nos direcionar até o ponto de buscarmos uma explicação para o 28 comportamento humano, de maneira que sentimos a necessidade de concebê-lo a partir de um cunho semiótico, visto que todas as nossas ações sempre se concretizam, mediadas pela linguagem, cuja função representativa afirma-se de singular importância. É através deste operar representativo que a nossa mente, ao se valer dos signos, sistematiza a significação. Para Barthes (1996, p.12)3, qualquer sistema semiológico adotado para se estabelecer a comunicação, sempre recorre a um recorte da língua, visto que, para o autor, “o sentido só existe quando é denominado, e o mundo dos significados não é outro senão o da linguagem”, ou seja, a língua, enquanto sistema semiológico, engloba qualquer discurso, viabilizando a atribuição de sentidos, a partir do momento em que tudo se torna passível de denominação. Mais uma vez, afirmamos que o produto resultante da operação de semiotização é o que propicia a organização de sistemas de significação de linguagem, constituindo parte do objetivo e da estratégia para se atingir a interação social no nível interpessoal e intrapessoal, valendo-nos aqui das expressões utilizadas por Vigotsky (1991), poderíamos dizer que a atividade de representação não só possibilita a criação de formas para sentidos, como também constitui uma forma de o sujeito exercer o poder de conferir realidade às coisas. Porém, o signo, fruto da criação da linguagem humana, tem seu uso regulado por convenção social, maneira pela qual se controlam não só os usos, mas também a criação de novos signos, pois, afinal, é sabido que todo sentido advém do uso que se realiza socialmente. Além do que já foi dito, é bom lembrar que é através da linguagem que reconhecemos a existência das coisas. A construção dos signos pressupõe quatro operações: representar < materializar < significar < socializar. Ocorre, ainda, que é este ato de representar significados através dos significantes que propicia, para nós, a sensação de certeza da existência da realidade, embora saibamos que as nossas representações apenas nos revelam tão somente um aparente domínio sobre o estado das coisas (Vigotsky: 1991). Para encerrarmos esta breve reflexão acerca da capacidade de representar que possibilita a criação de signos, valemo-nos de Freitas (1998), que, baseando-se em Bakhtin, afirma: a atividade mental é expressa exteriormente (palavra, mímica ou outro meio) e internamente para o próprio indivíduo (discurso interior) sob a forma de signos. Fora deste material semiótico a atividade interior não existe. Assim, toda atividade mental é exprimível e esta função expressiva não pode ser separada da atividade mental, sem que se altere a sua própria natureza. (p.94) 3 Embora Barthes não seja interacionista, consideramos importante apresentar alguns de seus conceitos que abordam questões relativas ao sistema semiológico. 29 Neste sentido, poderíamos dizer o seguinte: para que haja o domínio e a utilização da linguagem, todo ser humano opera com dois discursos: um exterior e outro interior. Porém, o discurso interior só se processa a partir do exterior, ou seja, o discurso exterior motiva o processamento do discurso interior, expresso exteriormente em linguagem, e esse processamento segue essa ordem porque é o exterior que oferece os signos a serem processados em nível interior. 2.5 Interação: objetivo do sujeito Assumindo-se o ponto de vista que considera a linguagem como atividade social de interação, pode-se afirmar, junto a Bronckart (1999), que a função primeira da linguagem é exatamente a de ordem comunicativa ou pragmática. A necessidade de interagirmos nos leva a praticar atos de linguagem, de maneira compartilhada. Porém, toda produção de linguagem, necessariamente passa pelo crivo de avaliação social que prevê o cumprimento de certos critérios para a garantia da continuidade do processo comunicativo. Assim, esta “avaliação”, ao se fundamentar em critérios como os de coerência, coesão, continuidade, progressão, dentre outros, convencionalmente aceitos e concebidos como possíveis, faz com que a todo produto de linguagem sejam aplicados esses critérios. Então, podemos assegurar que tal avaliação funciona como um recurso de monitoramento do processo comunicativo como uma forma de preservar e garantir a adequação do uso de mecanismos que viabilizam o alcance da interação almejada. Sendo assim, é fato que, quando não há o sucesso da interação, tal malogro é uma pista de que há problemas de ordem pragmática, por isso torna-se necessário rever todo o processo para se descobrir em que momento houve o mal entendido que interferiu na interação: se no das representações, se nos signos selecionados, se no da referenciação, se no da interpretação dos interactantes, enfim, buscar, dentre as estratégias utilizadas, o que acarretou o conflito, o confronto, causas suficientemente capazes de impedir a interação, já que o efeito de sentido esperado não foi produzido. Toda produção linguageira traz embutida em si uma intenção, mais explícita ou implicitamente. Assim, em qualquer produção, podemos reconhecer intenções. Afinal, se sabemos que em cada produção já existe a inscrição de elementos sócioculturais e históricos, oriundos da própria prática de linguagem, efetivamente concretizada por 30 um sujeito em um ato linguageiro, conseqüentemente, restringir os questionamentos das funções da linguagem ao prisma de produtor e/ou de recebedor apenas, não basta, porquanto, acima de tudo, o que encontraremos é sempre um sujeito interpretante, segundo Charaudeau (1996, p.35), continuamente exposto a interações e , por isso, passível de interações.4 Logo, a interação é sempre o objetivo perseguido e, se para isso, o sujeito se ajusta às necessidades impostas pelas circunstâncias, tanto no que se refere à sua produção quanto à sua recepção, inclusive, porque, ao se demonstrar capaz de buscar e de se valer de instrumentos eficazes para a sua expressividade e interpretação, dificilmente, poderemos negar que a interação alcançada não tenha provocado alterações, segundo as próprias intenções dos interactantes manifestas em seus atos de linguagem. Tendo em vista as considerações anteriormente abordadas, percebemos que os PCNEM se pautam pela visão interacionista da linguagem, visto que priorizam a interação como objetivo maior da comunicação: “a interação é o que faz com que a linguagem seja comunicativa. Esse princípio anula qualquer pressuposto que tenta referendar o estudo de uma língua isolada do ato interlocutivo” (p.18). 2.6 Reunindo idéias: uma descrição sobre o que é linguagem Após todas as explanações realizadas, para as quais fizemos questão de não nos restringirmos a conceitos específicos que envolvam características particulares do uso do código verbal – a língua –, é hora, então, de reunirmos as idéias e descrevermos o que é linguagem, tendo em vista que a nossa proposta de descrição não tem outra intenção que não seja a de continuarmos a interagir com outros que também se ocupam do mesmo assunto: a linguagem. Linguagem é um conjunto de atividades sócio-cognitivas que ocorrem entre os humanos, através de um processo de semiotização apreendido e controlado socialmente. A identificação do como proceder para o operar semiótico se dá a partir da exteriorização material e semântica das representações, quer individual ou coletiva dos mundos – objetivo, social e subjetivo – que se entrecruzam com a finalidade maior de promover a comunicação, a qual, em todo momento, submete-se a normas reguladoras, também, de cunho pessoal e/ou 4 Segundo Charaudeau (1996), a todo sujeito é inerente os papéis de comunicante e de interpretante, porém, ao tomar a palavra, momento da enunciação, o sujeito pode assumir ou revezar a sua ação de linguagem tendo em vista dois papéis: o de enunciador ou o de enunciatário. 31 coletivo (BRONKART, 1996, p.42). Essas normas reguladoras, objetivam a verificação da existência da eficácia, da pertinência, da adequação, da autenticidade, da coerência, enfim, de todos os critérios aplicáveis e necessários à continuidade e preservação dos atos linguageiros que promovem a interação. É por meio da prática de atos linguageiros que viabilizamos a elaboração de juízos e valores que moldam a cultura – fruto da construção de uma “semântica social” –, a qual nos permite tanto a apropriação quanto a criação, bem como a inserção de novas imagens mentais, responsáveis pelo desenvolvimento do pensamento o qual, em sua essência, consiste no agir – pensar – uma operação concomitante e decorrente do ato de linguagem, cujo substrato é o social, que se subordina à emoção. Assim, a importância atribuída ao caráter social da linguagem justifica-se facilmente pelo fato de que: sem o social, não há linguagem e diante da inexistência da linguagem, conseqüentemente, não há ação e não havendo ação, logo, não há pensamento. Então, podemos concluir que fora do social não há linguagem, portanto não há caminho. Da ampliação do raciocínio sobre essa relação que confere à linguagem o caráter de atividade subordinada ao social, elemento básico para a afirmação do sujeito, destarte, a ausência da interação negaria compulsoriamente a linguagem e negar a linguagem é negar a existência do ser. Dentre todas as manifestações da linguagem, temos a língua, um sistema semiológico privilegiado nas relações sociais, apto a englobar os vários discursos existentes e, por isso, merecedor de uma abordagem específica, assunto da próxima seção. 2.7 A língua: material de reflexão e instrumento de trabalho Dentre os vários sistemas de linguagem pelos quais o ser humano pode se expressar, encontramos a língua. Verificamos que os PCNEM (p.18) também, embora considerem que as expressões humanas incorporam todas as linguagens, destacam a língua, já que essa é o instrumento de trabalho com o qual opera o professor de língua materna. “Aprende-se, com a língua, ‘um sentido imediato de mundo’, que deve ser desvendado, no decorrer de um processo de resgate desse e de outros sentidos possíveis” (idem, p.10 -11). Para Bronckart (1999), “toda atividade verbal só se realiza no quadro de uma língua natural particular” (p.35). Talvez, por ser uma das sistematizações semióticas construídas de caráter social que constitui, inegavelmente, o de maior abrangência é que Barthes (1996), nas 32 palavras que se seguem, demonstra a importância do lugar ocupado pela língua, dentre as várias formas de manifestação da linguagem: “perceber o que significa uma substância é, fatalmente, recorrer ao recorte da língua: sentido só existe quando denominado, e o mundo do significado não é outro senão o da linguagem” (p.12). Considerando o que já foi dito, faz-se necessário conceber que é imanente ao uso da língua a propriedade de nomear para nos referirmos às nossas representações – tarefa fundamental à construção semiótica de quaisquer outros sistemas, independentemente de suas naturezas, já que, segundo Barthes (1996), o substrato para todos os sistemas, em alguma instância, repousa nas formas de representações lingüísticas, seja enquanto projeto, enquanto execução ou enquanto interpretação, não importa em qual momento. Observando essa mesma orientação, verificamos, nos PCNEM, a afirmação: “na gênese da linguagem verbal estão presentes o homem, seus sistemas simbólicos e comunicativos, em um mundo sócio-cultural” (p.18), ou seja, no documento também é atribuída à linguagem verbal o papel de organizadora do mundo sócio-cultural. É em meio a esse processar das ações que as representações tipicamente lingüísticas participam de uma reformulação e/ou configuração das imagens que o sujeito produz. Claro que mesmo ao se valer de outros instrumentos, próprios de um outro sistema semiótico que não o lingüístico, o sujeito sempre objetiva a algum nível de interação social. Para ilustrar o que acabamos de afirmar, recorremos novamente a Barthes (1996), que diz: “o saber semiológico não pode ser, atualmente, senão uma cópia do saber lingüístico; [...] porque esse saber deve aplicar-se já, pelo menos em projeto, a objetos não lingüísticos” (p.13). Em outras palavras, Barthes apresenta-nos a importância do saber lingüístico, considerando, inclusive, que o sentido seria uma espécie de cópia deste, verificando que até em situações nas quais se verifica o uso de objetos ou manifestações não lingüísticas, a priori, é na língua que se busca a atribuição de um possível sentido para estes objetos e manifestações linguageiras. Decorrente da ação de representar surge a necessidade humana de nomear. Parafraseando as palavras de Magro (1998), sentimos necessidade de nomear nossas representações porque é assim que criamos, distinguimos e reconhecemos os objetos, ou seja, é dessa forma que conferimos realidade ao que nos cerca. Só posteriormente é que passamos a tratar os objetos independentemente dos atos pelos quais foram trazidos à existência para nós. É através dessa propriedade intrínseca da língua que nomeamos os seres, por isso, para bem traduzi-la, um provérbio africano ensina: “A boca dá vida dando nomes”, como ressalta Magro (1998, p.180). 33 Podemos assim constatar que a língua encontra-se em uma condição privilegiada enquanto manifestação da linguagem e, sem ela, quer em sua modalidade oral ou escrita, nossas interações seriam radicalmente reduzidas. Porém, para que a língua seja colocada em funcionamento, textos devem ser criados, já que esses constituem a unidade básica da interação em linguagem verbal. Segundo Marcuschi (2002), o texto “é uma entidade concreta realizada materialmente e corporificada em algum gênero textual” (p.24), logo o autor atrela à noção de texto a noção de gênero. Visto assim, todo texto deve ser compreendido “como a fala e o discurso que se produz, e a função comunicativa, o principal eixo de sua atualização e a razão do ato lingüístico” (PCNEM, p.18). Dessa forma, é que podemos dizer que se toda língua é aprendida através de textos, são os textos os responsáveis pela divulgação dos vários gêneros existentes na sociedade. Tendo em vista a importância do texto em nossas interações sociocomunicativas, tal noção constitui assunto do próximo tópico. 2.8 O texto e sua função na aquisição da linguagem A respeito do funcionamento dos textos nas interações sociais, postula-se o seguinte, de acordo com Koch (2002): os interactantes desenvolvem estratégias para o processamento eficaz do texto e para a seleção apropriada do contexto, em particular. A investigação de tais estratégias, sem dúvida, traz subsídios importantes quer para a produção, quer para a compreensão de textos. (p.31) Tendo em vista a afirmação da autora, podemos dizer que o texto é a condição básica para colocarmos a língua em funcionamento, durante nossas interações sociais. Porém, todo texto subordina-se às condições de produção que, simultaneamente, envolvem a produção e a recepção, fatores que tendem a direcionar e/ou limitar os efeitos de sentido almejados pelos interactantes, pois, ao selecionarem estratégias que possam garantir a interação, moldam os textos produzidos, de acordo com os gêneros textuais existentes, embora a classificação daqueles, os gêneros, CHARAUDEAU, 1996). seja um assunto que apresenta relativa dificuldade (cf. 34 Primeiramente, partiremos de alguns conceitos que possam nos elucidar o que é texto para, posteriormente, tratarmos dos outros aspectos envolvidos em uma produção textual, durante um evento comunicativo: o contexto, as condições de produção, os efeitos de sentido, o processamento textual, as relações entre memória, cognição e texto, bem como a natureza dos mecanismos de textualização. O conceito de texto está diretamente subordinado às concepções de linguagem, de língua e de sujeito, segundo autores como Koch (2000), Marcushi (2002), Brandão (1996), dentre outros que poderiam ser enumerados. Seguindo orientação proposta pelo conceito, poderíamos dizer que é impossível considerarmos o texto de maneira isolada, tomando apenas o seu produtor como o único responsável pela produção, desconhecendo o seu recebedor e as circunstâncias envolvidas. Se concebêssemos a língua como representação da atividade mental e o sujeito como autônomo e independente em suas produções, o texto não seria nada além de um produto lógico do pensamento realizado por esse sujeito-produtor e a linguagem, por sua vez, estaria reduzida ao processamento de uma ação unilateral, já que o recebedor estaria excluído do processo da comunicação. Assim, a língua perderia o seu caráter de mediadora das interações sociais, e o papel do texto apenas se restringiria à idéia de um produto, conseqüência inevitável de uma ação do pensamento do sujeito-produtor, sem maiores implicações. Diante de concepções como essa, o objetivo maior relativo ao uso da linguagem está excluído: a interação social. A concepção interacionista da linguagem preconiza que a língua viabiliza a interação social promovida pela ação conjunta do sujeito-produtor e do sujeito-recebedor, e o texto, segundo Koch (2002), baseando-se em Beaugrande (1977), é o “lugar de constituição e de interação de sujeitos sociais, como um evento, portanto, em que convergem ações lingüísticas, cognitivas e sociais” (p.9). Diante dessa concepção, podemos dizer que o texto é fruto da co-participação do produtor e do recebedor, os quais, ao se inserirem em um evento comunicativo, têm por objetivo comum atingir a interação social. Adotando esta concepção, podemos afirmar que o texto-produto não é visto como “apenas uma unidade formal, mas, sobretudo, como uma unidade funcional, isto é, uma unidade de comunicação”, conforme Kato (1999, p. 71) ou, ainda, segundo Koch (2002, p.9), todo “texto é um construto histórico e social”. Consoante a esta concepção de texto, os PCNEM também afirmam a importância do estudo do texto para o trabalho com a língua materna: 35 O homem pode ser conhecido pelos textos que produz. Nos textos, os homens geram intertextos cada vez mais diversificados, o princípio das diferenciações encontra no social o alimento de referência. A língua dispõe dos recursos, mas a organização deles encontra no social sua matéria-prima. Mesmas estruturas lingüísticas assumem significados diferentes, dependendo das intenções dos interlocutores (p.21). Assim, em qualquer modalidade de língua, construímos textos para nos comunicarmos. Porém os textos seguem os gêneros típicos a cada modalidade da língua. Os gêneros, conforme veremos mais tarde, são formas, modelos que fornecem um conjunto de orientações para cada situação de uso da linguagem e, conseqüentemente, para a produção de nossos textos. Podemos dizer que os gêneros são apreendidos em nossas práticas sociais da linguagem e, muitas vezes, prestam-se a cumprir as funções da linguagem às quais melhor se adaptam, tendo em vista a interação sociocomunicativa pretendida. O texto tem uma importância crucial para que a língua seja colocada em funcionamento – a enunciação. Afinal, aprendemos a língua através dos textos que, por sua vez, correspondem aos gêneros praticados na sociedade. Por isso, o conceito de texto não se restringe à idéia de um aglomerado de frases. O texto é o produto resultante de uma situação de interação comunicativa, que apresenta uma unidade de sentido, independentemente de sua extensão, constituindo uma realidade concreta (perceptível pela visão ou pela audição), em que devem ser observadas as condições de produção e a intenção de sentido (cf. KOCH, 2002, p.16-20). Quando escrito, o texto-produto, segundo Kato (1999), também deve ser visto como “um conjunto de pegadas a serem utilizadas para recapitular as estratégias do autor e através delas chegar aos seus objetivos” (p.72). Há que se considerar sempre que o contexto terá papel decisivo para a construção de um texto. Pelo fato de o nosso objeto de estudo, as avaliações de vestibulares, utilizarem a modalidade escrita da língua, iremos, necessariamente, abordar, com maior ênfase, o texto escrito. 2.9 Para todo texto existe um contexto que condiciona a sua produção Da adoção do conceito de texto como sendo um “construto histórico e social”, de acordo com Koch (2002), podemos inferir que texto algum se constrói isento das interferências históricas e sociais, quer no momento de sua produção quer no momento de sua 36 recepção. As circunstâncias históricas e sociais são inscritas no texto pelas mãos do sujeito. A essas inscrições deixadas, cabe também, ao recebedor do texto, atribuir-lhe sentidos, o que, em seu tempo, depende, inclusive, da experiência e da bagagem que acumulou ao longo de sua vivência. Nos dizeres de Bronckart (1999), todo texto constitui uma produção social, visto que “a forma e o conteúdo se fundem no discurso compreendido como fenômeno social: ele é social em todas as esferas de sua existência e em todos os seus elementos, desde a imagem auditiva até as estratificações semânticas mais abstratas” (p.20). Ainda, podemos afirmar que qualquer situação de ação da linguagem refere-se, genericamente, às propriedades dos mundos formais, a saber: o físico, o social e o subjetivo (cf. BRONCKART, 1999, p.91). Porém, para cada situação de produção ou de recepção, o sujeito dispõe de suas versões estritamente subjetivas acerca dessas representações sociais tradicionalmente mais objetivas dos mundos. Por isso, metodologicamente, para Bronckart há a necessidade de separar o contexto que envolve as condições de produção mais gerais, portanto, mais externas, do outro contexto que envolve as condições mais particulares, logo, mais internas, que levam cada sujeito a agir de maneira distinta frente ao mesmo fato e às mesmas representações sociais mais exteriores. Se por um lado, em geral, as coordenadas de tempo e espaço tendam a ser comuns a todos os sujeitos, por outro lado, as formas de atribuir sentidos têm sempre uma dimensão singular. Ao participarmos de interações sociocomunicativas, ficamos submetidos a influencias de ordens as mais diversas – valores, concepções, dúvidas, ideologias, episódios, etc. –, o que nos leva a afirmar que as representações sociais mais objetivas sempre se inscrevem em nós, a partir de fatores externos aos quais, continuamente, estamos todos expostos. Porém, as representações sociais que participam da nossa formação de sujeito sempre passam por um processo de individualização, o que por sua vez, também irá se manifestar em nossos atos em nossos atos de linguagem, seja no papel de produtor seja no papel de recebedor. Mas, então, o que determinaria a diferença de reações frente a uma situação de linguagem? Para nós, a diferença decorre, principalmente, da versão específica que cada sujeito constrói em relação às representações sociais, embora subordinado as mesmas coordenadas de tempo e de espaço, objetivamente consideradas, em que se dá o ato de linguagem. É dentre os domínios que o sujeito tem das várias representações sociais que ele realiza suas escolhas e seleciona as estratégias consideradas satisfatórias para direcionar o seu ato linguageiro, de acordo com as necessidades impostas, tanto pelo contexto objetivo, mais genérico, como a norma lingüística a ser adotada, o papel social e o momento histórico, 37 quanto pelo contexto mais subjetivo, mais particular: a sua intenção, os seus objetivos, as suas emoções, os seus conhecimentos, etc., tudo que ele mobiliza para atingir a interação almejada, em meio a um evento sócio-comunicativo. Nos PCNEM verificamos a adoção da concepção que atribui importância significativa não só para o contexto, mas também para o desempenho lingüístico do sujeito em suas interações sociocomunicativas: as relações lingüísticas, longe de serem uniformes, marcam o poder simbólico acumulado pelos seus protagonistas. Não existe uma competência lingüística abstrata, mas, sim, uma delimitada pelas condições de produção/interpretação dos enunciados, determinados pelos contextos de uso da língua. (p.11) Objetivando traçar os parâmetros que apontam os limites do contexto objetivo, Bronckart (1999) relaciona a produção textual ao contexto físico em que um texto é construído, ao visarmos à interação social: todo texto resulta de um comportamento verbal concreto, desenvolvido por um agente situado nas coordenadas do espaço e do tempo; portanto todo texto resulta de um ato realizado em um contexto físico, que pode ser definido por quatro parâmetros precisos: o lugar de produção: o lugar físico em que o texto é produzido; o momento de produção: a extensão do tempo durante a qual o texto é produzido; o emissor (ou produtor, ou locutor): a pessoa (ou a máquina que produz fisicamente o texto, podendo essa produção ser efetuada na modalidade oral ou escrita; o receptor: a (ou as) pessoa(s) que pode(m) perceber (ou receber) concretamente o texto (grifos do original). (p. 93) Porém, a relativa facilidade que encontramos para apontar os parâmetros que se referem ao contexto sócio-histórico, objetivo, no qual se encontra envolvida a produção de um texto, não é a mesma para apontarmos quais são os parâmetros sócio-subjetivos, tendo em vista que cada sujeito vai se construindo, segundo as próprias experiências sociais que vivencia, fatores que interferem e se refletem na produção textual. A razão de tal dificuldade encontra-se, principalmente, no fato de a subjetividade sofrer mudanças contínuas, como é o caso, por exemplo, do conhecimento que cada sujeito vai adquirindo a respeito dos mecanismos de exibição-proteção da própria imagem nas situações de linguagem das quais participa, do papel social que ele desempenha, de acordo com o lugar social que ocupa, das diferenças de personalidade, enfim, da história particular concernente às vivências de cada um em realidades sociais únicas. Assim, a representações sobre o mundo social e sobre o mundo subjetivo distinguem-se de caso a caso, conforme nos assevera Bronckart (1999, p.97). Diante das considerações expostas é que podemos afirmar que os contextos sócioobjetivo e sócio-subjetivo interferem nas condições de produção de um texto. Assim, para que as pessoas possam interagir é preciso ainda que haja uma convergência de ações sócio- 38 cognitivas, conforme Koch (2002, p.23), ou seja, para que haja um equilíbrio entre as informações prestadas pelo produtor do texto e a compreensão do mesmo por parte do recebedor, o aspecto cognitivo envolvido na interação social será fator crucial. Por isso, ainda, segundo a autora, o sentido de um texto, qualquer que seja a situação comunicativa não depende tão somente da estrutura textual em si mesma (daí a metáfora do texto como um iceberg). Os objetos de discurso a que o texto faz referência são apresentados em grande parte de forma lacunar, permanecendo muita coisa implícita. O produtor do texto pressupõe da parte do leitor/ouvinte conhecimentos textuais, situacionais e enciclopédicos e, orientando-se pelo Princípio da Economia, não explicita as informações consideradas redundantes. (Ibidem. p.30) Em outras palavras, podemos dizer que o produtor competente é aquele capaz de equilibrar o número de informações que necessitam ser explicitadas pelo texto com aquelas que podem ser resgatadas pelo recebedor, através de inferências que esse possa realizar, a partir das marcas deixadas no texto, pelo produtor. Claro que, quando se trata do texto de modalidade escrita, essa ponderação torna-se uma exigência natural, visto que a oportunidade de o recebedor/leitor tirar suas dúvidas torna-se quase impossível, fato que não se verifica com tanta freqüência nos eventos comunicativos em que a interação se faz face a face. É em decorrência do contexto de natureza cognitiva que uma prática linguageira é avaliada pela sociedade como adequada ou não, tendo em vista os outros contextos: o de natureza sócioobjetiva e o de natureza sócio-subjetiva. Da articulação destes contextos, temos a organização textual proposta pelo produtor para a abordagem que ele realiza sobre um tema e, conseqüentemente, a atribuição de sentido, que cumpre ao recebedor, assunto da nossa próxima seção. 2.10 O contexto como fator preponderante para a interpretação dos efeitos de sentido de um texto Ao ativar a língua, os sujeitos interactantes, simultaneamente, instauram um contexto em que repousam os seus textos e, no fim da troca verbal, das negociações realizadas, dos conflitos, o contexto pode estar bastante diferente em relação ao momento inicial do ato de linguagem, pois, segundo Maingueneau (2000) “as informações e os comportamentos introduzidos na interação o modificaram” (p.35). Prosseguindo, o autor diz ainda que um 39 mesmo texto pode circular em diversos contextos distintos daquele que o originou e, conseqüentemente, mudar de status, de gênero e, de acordo não só com o nosso entendimento, até de sentido: O sentido tem a ver com a intenção comunicativa e, portanto, com a função dos elementos lingüísticos, entendendo-se função como o papel lingüístico-discursivo de uma marca formal que é dado pela interpretação dos usuários da língua, conforme assevera Travaglia (1997, p.68), já que o texto é o resultado de uma ação de linguagem, um todo significativo em relação ao contexto em que aparece. Koch (2002) define contexto como sendo “um conjunto de suposições trazidas para a interpretação de um enunciado” (p.29), ou seja, a ação de interpretar pressupõe outra ação: a de ativar contextos que podem ser, inclusive, recuperados pela memória e, através das representações sociais, individuais ou coletivas, aquelas são atualizadas em função do contexto imediato, para que se possa atribuir sentidos. Ainda, de acordo com Travaglia (1997), temos que: o processo de significação e o uso dos elementos lingüísticos mantêm, portanto, uma inter-relação tão forte com o sócio-histórico e ideológico que não se pode argumentar o contrário, pois se mudam as circunstâncias ou a sociedade, podem mudar completamente as possibilidades (p.75) de atribuir sentido – esse é o papel preponderante da articulação de contextos para a interpretação de um texto. Porém, é sabido também que determinar de maneira precisa o quanto o contexto pode afetar a interpretação é algo bastante difícil, visto que o processo de interpretação implica reconhecer o “mapa de conteúdo”, que é dado a partir da significação de um texto, proposta pelo contexto. Assim, baseando-nos em Vallé (1998, p.201), podemos dizer que a nossa competência lingüística permite-nos alcançar a significação contextualizada da qual podemos depreender o conteúdo, ou os efeitos de sentido possíveis, momento em que se dá a ação de interpretar. Em outras palavras, interpretar é atribuir sentido a uma ocorrência provida de significação contextualizada e, às vezes, podemos até preencher o “mapa de conteúdo” sem utilizar o conhecimento lingüístico, já que boa parte da interpretação realizada depende do nosso conhecimento de mundo. Então, a ação de interpretar resulta no reconhecimento dos efeitos de sentido possíveis para um texto, dadas as condições de produção resultantes da articulação dos contextos sócioobjetivo, sócio-subjetivo e sócio-cognitivo. Ainda, de acordo com Matencio (2001), 40 tal como concebemos o texto, o processo de atribuição de sentidos não se resume à codificação e descodificação de informações, já que pressupõe um trabalho de elaboração de informações, que são selecionadas pelo produtor e pelo leitor, tendo em vista o modo com pretendem atuar em um determinado evento de interação (p.3-4). Vale lembrar ainda que interpretar ou se fazer interpretado não depende apenas do texto construído, mas também do desejo de interação dos sujeitos envolvidos em um evento sócio-comunicativo.5 Considerando esse aspecto, no próximo tópico, falaremos, especificamente das “condições comuns de realização dos textos – isto é, contrato de comunicação” (cf. CHARAUDEAU, 1996, p.39). 2.11 O contrato de comunicação Todo ato de linguagem pressupõe, por parte dos sujeitos participantes de uma interação sociocomunicativa, uma “intencionalidade” e, dependente da identidade deles, temos o “objetivo de influência”, que veicula um “propósito sobre o mundo”. A realização do ato ocorre num dado momento e em um espaço, determinando o que denominamos de “situação” 6 (CHARAUDEAU, 1996, p.34). Entretanto, de acordo com o autor, para que um ato de linguagem confirme a interação sociocomunicativa pretendida pelos participantes, é necessário que se reconheçam com o direito à palavra (o que depende da identidade de cada um), além de ser necessário que possuam em comum um mínimo de saberes que possam ser ativados durante o ato de linguagem (idem). Na situação de avaliação, os participantes do ato linguageiro reconhecem-se com o direito à palavra, avaliador e avaliado, sendo que o avaliador propõe, na modalidade escrita da língua, a verificação do conhecimento e de habilidades necessárias à execução da avaliação, segundo o que é estabelecido como saber necessário à continuidade dos estudos em nível superior, de acordo com o conhecimento que o candidato deve ter acumulado ao fim dos estudos do ensino médio, conforme prevêem também os PCNEM. Dessa forma, temos 5 Em qualquer evento sociocomunicativo só haverá interação se verificado o desejo dos participantes de promover tal interação, inclusive, no que diz respeito à ação de desfazer “mal-entendidos” (cf. CHARAUDEAU, 1996, p.23). 6 . Todas as expressões entre aspas e em negrito empregadas aqui estão consoantes aos usos realizados pelo autor mencionado. 41 estabelecido o contrato de comunicação: o avaliador assume o seu papel de autoridade para o exercício desta função social e o vestibulando assume o papel de avaliado, almejando o provável exercício do papel de aluno da instituição para a qual presta o exame. Baseando-nos em Charaudeau (1996, p.6), consideramos que a significação atribuída aos discursos é resultante de dois componentes: o lingüístico (que opera com material verbal – a língua) e o situacional (que opera com material psicossocial), componentes que “colaboram na definição dos seres ao mesmo tempo como atores sociais e como sujeitos comunicantes” (Ibidem. p.6). Assim, quanto à significação a ser atribuída às avaliações propostas pelos vestibulares, podemos dizer que elas participam das duas dimensões, visto que os dois componentes desempenham papéis preponderantes, poderíamos dizer, quase decisivos, para a qualidade do ato linguageiro que se funda: “as condições psicológicas” que limitam os “comportamentos linguageiros, segundo os tipos de situação de intercâmbio (‘contrato’)” (Ibidem. p.38). Ainda, de acordo com Charaudeau (1996, p.38), para a produção de qualquer texto, é no contrato de comunicação, “o qual preside toda a produção linguageira”, que encontramos estruturadas as condições de produção (idem). É em meio a um “espaço de limitações”, que corresponde ao mínimo necessário de dados para que se possa estabelecer a validade de um ato de linguagem, fruto do intercâmbio, e um “espaço de estratégias”, que corresponde às escolhas realizadas pelos participantes, que o autor propõe um modelo de estruturação do ato de linguagem em três níveis: - o nível do situacional – refere-se aos dados do espaço externo, quando são determinadas: a finalidade do ato de linguagem, que consiste em responder à pergunta: para que dizer ou fazer?; correlativamente, a identidade dos parceiros do intercâmbio linguageiro, respondendo à pergunta: quem fala a quem?; sempre correlativamente, o domínio do saber veiculado pelo objeto de intercâmbio, respondendo à pergunta: a propósito de quê?; enfim (mas não se trata de uma cronologia), o dispositivo constituído de circunstâncias materiais do intercâmbio, respondendo à pergunta: em que quadro físico de espaço e tempo?(Ibidem. p.35); - o nível do comunicacional – refere-se aos usos lingüísticos realizados, quer oral ou escrito, quando em função da situação sociocomunicativa, responde-se à pergunta: como dizer? Correlativamente, o sujeito falante (seja ele comunicante ou interpretante) se coloca a questão de saber que ‘papéis linguageiros’ ele deve ter que justifiquem seu ‘direito à palavra’ (finalidade), mostrem sua ‘identidade’ e lhe permitam tratar de um certo tema (propósito) em certas circunstâncias (dispositivo), (idem); 42 - o nível do discursivo – refere-se à “intervenção do sujeito falante, tornado sujeito enunciador”, no momento da realização do ato comunicativo. O sujeito enunciador deve atender satisfatoriamente três condições: de legitimidade (princípio da alteridade), de credibilidade (princípio de pertinência) e de captação (princípios de influência e de regulação), “para realizar um conjunto de ‘atos de discurso’, isto é, finalmente, um texto” (Ibidem. p.36). Assim, o projeto de fala do sujeito enunciador é construído em consonância aos objetivos que vão criar os objetivos comunicativos, dentre eles, podemos citar: 1. factitivo: corresponde à finalidade de “manipulação do outro para o fazer agir num sentido que seja favorável ao sujeito falante”, que pode ordenar ou sugerir, colocando em ação “parceiros que desempenham um papel de sujeito incitador”, (Ibidem. p.31); 2. informativo: corresponde à finalidade de “transmissão do Saber, que consiste, para o sujeito falante, em fazer saber alguma coisa ao outro”, (idem); 3. persuasivo: corresponde à finalidade de “controle do outro pelo viés da racionalidade, que consiste para o sujeito falante em fazer crer alguma coisa ao outro”, gerando comportamentos discursivos como o de argumentação, de composição, de organização do texto, etc. (Ibidem. p.32); 4. sedutor: corresponde à finalidade de “controle do outro, mas neste caso pelo viés de agradar. Ele consiste, para o sujeito falante, em fazer prazer ao outro”,( idem). Este objetivo gera comportamentos discursivos por meio “da narrativa, das qualificações, das avaliações e dos julgamentos consensuais (...) sobretudo o que é de ordem hedônica (‘os sentidos’) e estética (‘o gosto’)”, (Ibidem. p.33). Tendo em vista o que já foi mencionado, podemos dizer que o “projeto de fala” do sujeito enunciador não é abstrato, pois este depende do “contrato de comunicação” específico, de um lado e, de outro lado, do “olhar do avaliador que liga e constitui os sujeitos interlocutantes”, (Ibidem. p.29) – avaliador e avaliado – interlocutantes do ato de linguagem proposto. Além disso, tanto o avaliador quanto o avaliado, em uma segunda dimensão operam, diante dos textos constantes das provas, especificamente, como enunciador e enunciatário dos textos, conforme veremos no capítulo que apresentará a análise das provas da PUCMG e da UFMG. 43 A seguir, as possíveis relações estabelecidas entre o sujeito, usuário de uma língua, produtor/recebedor de textos, inserido em uma cultura, ambiente virtual das atividades discursivas. 2.12 A relação sujeito, cultura, língua, texto e discurso Das modalidades e dos traços que compõem uma língua natural particular, temos dependente a relação do conjunto de signos no interior dessa língua que apresenta uma semântica própria, segundo Barthes (1996). Por isso, dentre situações variadas de usos, como a que trata do contexto, os usos da linguagem terão sua interpretação sempre condicionada ao efeito de sentido possível de ser abstraído do contato resultante entre os vários sistemas de linguagem, num dado evento comunicativo. De acordo com os PCNEM, o caráter sócio-interacionista da linguagem verbal aponta para uma opção metodológica de verificação do saber lingüístico do aluno, como ponto de partida para a decisão daquilo que será desenvolvido, tendo como referência o valor da linguagem nas diferentes esferas sociais (p.18). As experiências de linguagem são resultantes das negociações lingüísticas realizadas por várias gerações, cujas interações, mediadas pela língua, são responsáveis por conferir a essa mesma língua o seu caráter social-histórico-cultural. Esse fato, necessariamente, é o principal motivador para o surgimento de culturas diferentes no seio de uma única cultura que, tradicionalmente, tende a ser apontada como a cultura típica de um povo. Para cada uso de linguagem atribui-se um conceito, um significado tipicamente dado pelo seu caráter social. Nos dizeres de Granger (apud BARTHES, 1996, p.13), “um conceito é um instrumento de uma história, isto é, um feixe de possibilidades e de obstáculos envolvidos num mundo vivido”, por isso é que podemos concluir, conseqüentemente, que toda língua tem a sua semântica particular, visto que a semântica espelha, inclusive, a organização social de um povo em um determinado lugar e momento. Em decorrência dessa variedade cultural existente, além das características peculiares a cada ser humano, verificamos a existência de formações distintas dos sujeitos que, necessariamente, se distinguem, ainda que, ao promoverem inúmeras interações, utilizam-se de uma mesma língua. 44 Em virtude da variação cultural dos diversos grupos que compõem a sociedade, constataremos que a formação discursiva, que, segundo Maingueneau (2000), é o que “designa todo o sistema de regras que funda a unidade de um conjunto de enunciados sóciohistoricamente circunscrito” (p.68), induz, quase que, compulsoriamente, o sujeito a afiliar-se a uma das formações discursivas existentes e anteriores à construção de sua própria subjetividade. De outra forma, em um evento comunicativo, uma sociedade em que se tenha definida a posição social e o momento em que acontece uma interação, apenas uma parte do dizível, ou seja, do discurso, é acessada pelos parceiros interactantes. Assim, ao tornar o dizível habitual em um contexto específico, a materialização de uma dada formação discursiva configura-se como regra e, assim, passa a formar um sistema, o qual interfere diretamente na delimitação da identidade do sujeito, funcionando como um suporte e um limite sustentável pelo discurso que, através da língua, fixa os usos textuais possíveis para o sujeito em suas produções. Mediante os usos discursivos que o sujeito atualiza através de textos, de sobremaneira, a língua, também, apresentará diversos usos, espelhando as variações discursivas, seja em sua modalidade oral, seja em sua modalidade escrita. Há que se lembrar ainda que para cada formação discursiva corresponde uma formação ideológica, ou seja, a visão de mundo particular de cada classe social materializa-se através do discurso. Desta perspectiva, a língua é um sistema de relações de signos histórico-socialcultural, e aprendê-la implica saber o significado cultural, como forma de interpretação e reconhecimento da realidade ao nosso redor, pois é assim que adquirimos condições para assumirmos a palavra e nos afirmarmos como sujeitos de linguagem, de maneira eficaz e coerente aos papéis sociais que desempenhamos, em meio ao grupo, no qual interagimos. Parece ser neste sentido que os PCNEM realçam a importância da “Língua Portuguesa como fonte de legitimação de acordos e condutas sociais e como representação simbólica de experiências humanas manifestas nas formas de sentir, pensar e agir na vida social” (p.20). Em outras palavras, afirma Bronckart (1999): o homem só tem acesso ao meio no quadro de uma atividade mediada pela língua, mas toda língua apresenta-se como uma acumulação de textos e de signos nos quais já estão cristalizados os produtos das relações com o meio, elaboradas e negociadas pelas gerações precedentes (p.37-38). 45 Assim, podemos afirmar que a construção histórica do conhecimento sobre o mundo é contínua e progressiva, portanto, está sempre a se atualizar, principalmente, por meio de textos, os quais também se articulam através da língua, a cada nova interação produzida. Consoante ao exposto até aqui, podemos assegurar que discorrer sobre a língua implica falar da construção de relações de sentido estabelecidas pelos sujeitos ao considerarem, em seus atos linguageiros, a exigência de um grande número de elementos que orientarão e precisarão suas interações, tais como – tempo, espaço, cultura, sociedade, ação, significado, sistema, imaginação, variedade, conhecimento, texto – e outros que ainda poderiam ser enumerados. Então, é no momento em que sujeitos interactantes relacionam os signos, considerando os elementos já citados que, implícita ou explicitamente, revelam a ideologia da qual compartilham, por meio de textos – reproduzidos e/ou reformulados –, em suas interações sociais, mediadas pela língua. Pelo fato de a aprendizagem da língua se dar através de textos os quais, intrinsecamente, vêm marcados por uma ideologia é que alguns dos traços ideológicos que atravessam os textos tendem a se inscreverem também nos sujeitos, de maneira a direcionar suas produções lingüísticas, segundo o entrecruzamento de idéias, conceitos e valores que irão constituir o escopo de seus imaginários, fator preponderante, inclusive, para a forma como serão construídas as suas interações. Igualmente, encontra-se registrado nos PCNEM: “A unidade básica da linguagem verbal é o texto, compreendido como a fala e o discurso que produz, e a função comunicativa, o principal eixo de sua atualização e a razão do ato lingüístico” (p.18). Por isso, conforme se pode verificar, a visão que o sujeito tem da realidade é ilusória, e seus textos serão o reflexo daquele ideal construído pelos grupos dos dominantes para o grupo dos dominados ou, às vezes, apenas a repetição bastante fiel do modelo construído previamente. Até o lugar social em que se encontra o sujeito pode ser, muitas das vezes, determinado pelos grupos sociais dominantes, tendo em vista que muitos sujeitos dos grupos sociais dominados passam a alimentar aspirações e desejos, inclusive, lingüisticamente falando, exatamente idênticos com aquilo que os dominantes organizam e apresentam como o lógico, o coerente, o real possível e o corretamente desejável para os dominados, o que, em outras palavras, constitui o chamado “mascaramento da realidade”, que dificulta o posicionamento, a crítica, o reconhecimento e até a expressão da subjetividade frente à realidade que nos cerca. Por isso, há um alerta nos PCNEM: deve a escola preparar o aluno para 46 compreender o texto que nem sempre se mostra, mascarado pelas estratégias discursivas e recursos utilizados para se dizer uma coisa que procura ‘enganar’ o interlocutor ou subjugá-lo. Com, pela e na linguagem as sociedades se constroem e se destroem. É com a língua que as significações da vida assumem formas de poesia ou da fala cotidiana nossa de cada dia 7(p.19) A reflexão que desenvolvemos objetivou apontar que, embora a língua seja única, cada sujeito manifestará em seus textos, valores, ideologias, crenças, aspirações, segundo a construção de sua subjetividade, envolta a contextos sociais que delineiam seu fazer textual único que, somado a outros, constroem na e pela linguagem a sociedade. Então, podemos dizer que cada candidato inscrito no vestibular, bem como o avaliador, recebe e produz textos de maneiras distintas, o que deve ser considerado, embora o conjunto das interações proporcionadas pelas provas, apresente características e traços comuns, o que nos permite perceber, conforme veremos mais adiante, um perfil dos candidatos selecionados pelos exames dos vestibulares. 2.13 As relações entre texto, gêneros textuais e o discurso Como o corpus de nossa pesquisa é de natureza escrita, passaremos, agora, a discutir as provas de Língua Portuguesa dos vestibulares. Para tal análise, iremos focalizar esse típico gênero da modalidade escrita da língua, a prova, visto que essa pressupõe domínios e habilidades referentes ao universo da leitura e da produção de textos escritos. Propomos, ainda, associar o estudo realizado sobre os gêneros textuais na modalidade referida de língua às estratégias de leitura, já que esse ato pressupõe, nas práticas pedagógicas, a produção de textos escritos, inclusive em situações de avaliação. Fazer considerações sobre os gêneros textuais implica falar de discurso. Se a noção de texto, segundo Bronckart (1999, p.137), concerne ao texto o traço de constitutivo de uma “unidade comunicativa de nível superior”, por serem os textos “produtos da atividade de linguagem em funcionamento permanente nas formações sociais”, a noção de gênero textual também será de natureza sociocomunicativa, já que a produção de texto está diretamente relacionada à noção de modelo textual que, por sua vez, está determinado no discurso – tudo que é dizível e que ainda não está materializado em texto. Em outras palavras: texto, gênero e 7 A atitude do leitor frente ao texto deve ser sempre semelhante a de um investigador, porém, é necessário que esteja instrumentalizado o suficiente para levantar questionamentos a serem confirmados ou desconsiderados, tendo em vista o próprio texto. 47 discurso estão correlacionados, estão intimamente ligados e não é possível a existência de um sem o outro: todo texto é construído tendo por base um gênero, um modelo ou esquema apreendido a partir das práticas sociais de linguagem, as quais se encontram no discurso. Assim, o texto sempre será a manifestação concreta do discurso, um produto da prática de linguagem vivenciada pelos sujeitos, em suas interações sociocomunicativas. Como os conceitos de texto e discurso se imbricam, mas não recobrem a mesma realidade, vamos distinguir texto de discurso. De acordo com Travaglia (1997, p. 68), parece haver um consenso entre os estudiosos interacionistas da linguagem no que tange a concepção de discurso como sendo uma atividade que se propõe à criação de sentidos, tendo em vista a interação sociocomunicativa almejada por sujeitos interactantes. o discurso é visto como qualquer atividade produtora de efeitos de sentido entre interlocutores, portanto qualquer atividade comunicativa (não apenas no sentido de transmissão de informação, mas também no sentido de interação), englobando os enunciados produzidos pelos interlocutores e o processo de sua enunciação, que é regulado por uma exterioridade sócio-histórica e ideológica que determina as regularidades lingüísticas e seu uso, sua função (p.68). Prosseguindo o raciocínio, podemos dizer que, se os discursos, também de acordo com Bronckart (1999), referem-se “às atividades de linguagem consideradas em seus contextos sociais, antes das suas realizações em formas textuais”, os textos seriam a materialização dos discursos, ou seja, os textos são formas comunicativas globais e ‘finitas’ constituindo os produtos concretos das ações de linguagem, que se distribuem em gêneros adaptados às necessidades das formações sócio-discursivas [sócio-langagières], permanecendo esses gêneros, cujo número e cujas fronteiras são por essência indeterminados, à disposição, como modelos, nesse construto sócio-histórico que é o intertexto (grifos do original). (p.149) Então, podemos afirmar que os gêneros nascem das nossas ações de linguagem nas quais se desenvolvem as formações sócio-histórico-discursivas. Os textos apresentam características próprias e distintas, segundo as construções que realizamos a serviço das nossas interações sociocomunicativas, em dada situação de comunicação. Assim, simultaneamente, os textos vão sendo agrupados e adaptados, segundo os traços comuns estabelecidos pelas representações mentais, de cunho histórico-social. Por conseguinte, essas representações passam a ser organizadas pelos sistemas de conhecimento de maneira coletiva e individual e, de forma gradativa, as representações vão sendo retidas pela memória à medida que as nossas interações sociais vão sendo estabelecidas pelos diversos contextos, de acordo 48 com as funções sociais que cumprem os textos na sociedade, cuja produção é regulada pelos gêneros. É assim que em nossas interações os modelos textuais passam a ser repetidos, propiciando a adequação e interpretação, respectivamente, de nossas produções e de nossas recepções dos textos, coerentes ao contexto, à situação, enfim, aos nossos objetivos. Uma vez definido o discurso como qualquer atividade de linguagem dizível por meio de um texto, que se organiza segundo os gêneros textuais existentes, temos de considerar a chamada competência discursiva8, ou seja, de acordo com Travaglia (1997) como sendo a capacidade do usuário da língua (produtor e/ou receptor de textos) de contextualizar sua interação pela linguagem verbal, adequando o seu produto textual ao contexto de situação, entendido este em seu sentido restrito (situação imediata em que a formulação lingüística se dá) ou em seu sentido amplo (contexto sóciohistórico e ideológico). Portanto, a competência discursiva e competência comunicativa podem, num certo sentido, ser emparelhadas, igualadas. (p. 97) Ainda, diz Travaglia: a “competência discursiva seria uma meta-competência ou uma hipercompetência” (Ibidem. p.97), pois ela é capaz de articular e dar forma a dois outros tipos de competência, a saber: a) competência gramatical ou lingüística, que se refere à capacidade de produzir seqüências lingüísticas gramaticais, segundo a observação dos usos de acordo com as regularidades lingüístico-discursivas; b) competência textual, que se refere à capacidade de observação dos usos de acordo com as regularidades, orientadas pelo princípio de organização e funcionamento textual. Conforme apontamos anteriormente, os gêneros são determinados historicamente, constituindo formas relativamente estáveis de enunciados, que estão disponíveis na cultura9 (BRONKART, 1999, p.73). Assim também para Travaglia (1997, p.97-98), os gêneros caracterizam-se, essencialmente, por três elementos: conteúdo temático, estilo e construção composicional. A intencionalidade e a aceitabilidade, como fatores típicos dos contextos em que os discursos são construídos, originam os usos sociais que irão dar forma aos textos, visto que diferentes objetivos exigem diferentes textos de diferentes gêneros. Recortamos dos PCNEM os seguintes dizeres, com o objetivo de demonstrar o diálogo que este documento mantém com a discussão até aqui exposta, tratando das relações existentes entre texto, gêneros textuais e discurso: 8 Para Travaglia, a competência discursiva é distinta, visto que considera a discursiva como uma competência que englobaria as demais: a lingüística e a textual. 9 O autor adota a concepção de gênero postulada por Bakhtin, a partir da qual é possível verificar que qualquer texto pertence a um determinado gênero, ou seja, todo texto insere-se em um conjunto de produções verbais socializadas. 49 toda e qualquer análise gramatical, estilística, textual deve considerar a dimensão dialógica da linguagem como ponto de partida. O contexto, os interlocutores, gêneros discursivos, recursos utilizados pelos interlocutores para afirmar o dito/escrito, os significados sociais, a função social, os valores e o ponto de vista determinam formas de dizer/escrever. As paixões escondidas nas palavras, as relações de autoridade, o dialogismo entre textos e o diálogo fazem o cenário no qual a língua assume o papel principal (p.21) Então, os textos resultantes de nossas atividades linguageiras podem ser agrupados segundo vários critérios de semelhança e, assim, fatalmente, estaríamos construindo uma tipologia. Porém, segundo Charaudeau (1996, p.39), “o problema é que não há uma só tipologia de textos, mas tantas tipologias quanto são os critérios estabelecidos”. De acordo com o autor, “tudo depende do que se escolhe: as formas, o sentido, os mecanismos” (idem). Além disso, correlativamente, prossegue o autor dizendo “o que é que identifica o modelo geral e o que é que identifica o subtipo ou subgênero?” Assim, tendo em vista as indagações propostas por Charaudeau, propomo-nos a construir uma tipologia “não de formas nem de sentido, mas de condições de realização dos textos – isto é, os contratos de comunicação –, considerando que existem contratos mais ou menos gerais que se ligam uns aos outros e que cada um deles pode dar lugar a variantes” (idem, grifos do autor). É considerando o ponto de vista estabelecido, das condições de realização dos textos, que temos um modelo que “permite estudar, ao mesmo tempo, as modificações eventuais que poderia sofrer um contrato no decurso do tempo, assim como as diferenças de realização de um mesmo contrato nos contextos socioculturais diferentes” (idem). Adotando-se esse modelo proposto, podemos dizer que o gênero estudado neste trabalho, a avaliação, pressupõe a realização de textos, cujo contrato de comunicação apresenta uma variante conhecida – a avaliação de vestibular. A avaliação escrita pressupõe condições para a realização de textos, tanto do ponto de vista do avaliador quanto do avaliado, e de leitura também, tanto por parte do produtor quanto do recebedor. Dentre os vários tipos de leitura que podem ser realizadas, segundo objetivos particulares de cada leitor, consideramos interessante realçar um tipo de leitura que, principalmente, pela necessidade imposta pela prática do discurso escolar, torna-se essencial às atividades escolares – a leitura de avaliação. Nesse tipo de leitura, focalizando o avaliado, enquanto leitor, ele se coloca em dois papéis simultâneos: o de produtor e o de “avaliador” do próprio texto, pois a partir da leitura que realiza, ele deverá produzir textos e avaliá-los, segundo as condições possíveis de realização dos textos que constituirão suas respostas. Ainda, é importante lembrar que, até 50 mesmo quando é solicitado ao avaliado apenas a marcação da alternativa correta, como acontece no caso específico da avaliação chamada objetiva, da qual trataremos mais adiante, o avaliado também realiza a leitura de avaliação. Em outra instância, temos o avaliador que também realiza a leitura de avaliação, em dois momentos distintos: primeiro, quando verifica, por exemplo, as condições de produção propostas pelas questões elaboradas, a temática abordada, o texto selecionado, etc., enfim, todos os aspectos comunicativos envolvidos nas questões e, posteriormente, quando realiza a leitura do texto produzido pelo avaliado, o candidato, para avaliá-lo. Porem, por ter o avaliador credibilidade social para realizar o papel de aferir resultados, este atribui valores que tendem a expressar, através de números, a qualidade do texto produzido pelo avaliado. Essa leitura avaliativa é comum à prática pedagógica e/ou a exames de caráter de seleção, que visam classificar, aprovar ou reprovar.10 Assim, a leitura de avaliação, freqüentemente, pressupõe ações comuns tanto ao avaliado quanto ao avaliador, visto que todo produtor de texto necessita ler o seu próprio texto com o objetivo de revisar e avaliar para verificar se, por exemplo, o sentido que deseja informar está sugerido adequadamente, se a forma pela qual organizou seu texto é satisfatória, se os sinais que utilizou são suficientes para produzir o efeito de sentido pretendido. Porém, é mister lembrar que as habilidades de leitura devem ser desenvolvidas continuamente, pois só assim poderá o sujeito aprender a ter o autocontrole da ação que realiza, sendo capaz de sozinho poder estabelecer seus próprios objetivos, questionamentos, criando suas relações de sentido de maneira independente e satisfatória para a compreensão e construção do sentido de um texto. Por outro lado, o ato de produzir textos envolve as habilidades que se desenvolveram graças à prática da leitura. Claro que um ato não substitui o outro, embora o ato de escrever pressuponha o desenvolvimento que se realizou da leitura, de maneira a integrar o conhecimento e domínio da língua escrita como um todo, para que seu uso seja eficiente nas diversas situações de comunicação em que o uso da linguagem escrita torna-se necessário. Além disso, pelo fato de estarmos inseridos em suma sociedade letrada, o domínio da escrita acaba sendo uma necessidade básica até para a própria afirmação do sujeito, desde a 10 Em uma outra leitura também avaliativa, como recurso pedagógico para verificação durante o processo da aprendizagem escolar, pode o avaliador apenas se valer desse tipo de leitura para qualificar o texto, sem a atribuição de notas, mas para apontar necessidades e deficiências que podem ser corrigidas ou um pouco mais trabalhadas em função dos objetivos aos quais se presta a produção de um texto, em dada situação. Isso ocorre, quando o objetivo do avaliador é, por exemplo, verificar se uma etapa da aprendizagem foi superada de maneira satisfatória, há a necessidade de revisão dos textos para que aconteça uma retextualização e, para isso, os textos deverão ser devolvidos ao produtor para que ele efetue as correções apontadas, no sentido de tornar o texto mais claro, objetivo e adequado ao que se propõe comunicar. 51 sua formação subjetiva, passando pelo ideológico, chegando aos extremos de inclusão social em diversos eventos comunicativos em que o sujeito só poderá participar, caso tenha desenvolvido tais habilidades relativas ao uso da modalidade escrita da língua. As estratégias utilizadas para o ato da leitura podem ser desdobradas no ato da produção de texto: se através da prática da leitura podemos alcançar a consciência do conhecimento utilizado para a construção do texto que nos foi apresentado como produto final da produção que o autor do texto realizou, então, em princípio, podemos transpor para os textos que produzimos a utilização dos conhecimentos e dos recursos utilizados no texto lido para provocar os efeitos de sentido que pretendemos. Tendo em vista as estratégias utilizadas, tanto para a leitura quanto para a produção de texto, poderíamos fazer um paralelo conforme o apresentado no quadro que se segue, valendo-nos de Charaudeau (1996), buscando estabelecer uma possível correspondência entre a utilização de estratégias básicas para a realização dos diversos tipos de leitura e as estratégias para a produção de texto, considerando tais atividades como imprescindíveis a qualquer candidato que se disponha a realizar uma avaliação: Quadro 1 Atividades que se refletem: leitura e produção de texto Estratégias para a leitura de texto Estratégias para a produção de textos Previsão do assunto que trata o texto, a partir do Planejamento do assunto a ser tratado no texto, título, das ilustrações, da configuração formal do tendo em vista a interação almejada entre o texto texto, tendo em vista a situação de interação que se produz e seu possível leitor, visada entre leitor e texto, a intenção pretendida estabelecendo-se dessa forma o “projeto de fala” pelo produtor. (CHARAUDEAU,1996, p.25). Verificação dos objetivos do texto, inclusive, o Escolha do contrato de comunicação a ser reconhecimento do “projeto de fala” utilizado, segundo o assunto delimitado, de (CHARAUDEAU, 1996, p.25) do produtor, fator acordo com os objetivos do projeto que se tem. que facilita a compreensão. Construção da interpretação, apoiada nas Leitura de avaliação realizada pelo produtor para hipóteses levantadas e verificadas quanto à verificação e análise quanto à clareza, à coerência, à pertinência, aos objetivos do texto e objetividade, à coerência, à coesão, tendo em do leitor para a construção do sentido. vista a construção de sentido pretendida. (CHARAUDEAU, 1996, p.25). 52 2.14 Os contratos de comunicação tipicamente escolares e os escolarizados Segundo Schneuwly (apud KOCH, 2002, p.59) existem, além dos demais gêneros – ou contratos de comunicação – (cf. CHARAUDEAU, 1996, p.39)11 da língua escrita, os textos dos gêneros escolares. Os gêneros escolares seriam basicamente o conjunto de textos utilizados como “instrumento de comunicação na instituição escolar, dos quais a instituição necessita para funcionar”. Para que a escola funcione, ela cria vários gêneros que viabilizam o seu próprio funcionamento: aula, seminários, exposições, avaliações, pesquisa, etc. Para Rojo (apud KOCH, 2002, p.59), seriam gêneros escolares aqueles criados para apoiar o funcionamento da escola e os gêneros escolarizados, aqueles que têm por função principal o ensino e a aprendizagem da escrita, também chamados de gêneros secundários do discurso, pois circulam apenas no interior da escola. Esses textos, ao serem adaptados para o discurso escolar, adquirem uma configuração tipicamente didática, e só existem dentro da prática de linguagem cultivada na escola. Quanto à prática de leitura e escrita na escola que se restringe aos chamados textos de gêneros escolarizados, Kaufman & Rodríguez (1995) apontam uma crítica severa, tendo em vista que: leitores não se formam com leituras de materiais escritos elaborados expressamente para a escola com a finalidade de cumprir as exigências de um programa. Os leitores se formam com a leitura de diferentes obras que contêm uma diversidade de textos que servem como ocorre nos contextos extraescolares, para uma multiplicidade de propósitos (informar, entreter, argumentar, persuadir, organizar atividades, etc). No entanto, isso não implica descartar a priori todos os textos escolares. Alguns destes textos – usados convenientemente – podem favorecer os trabalhos de produção e de compreensão (p.45) (grifos do original). Assim como nos ressaltaram as autoras, nos PCNEM (p.8), verificamos a orientação que defende que a prática da leitura e da produção de texto na escola seja ampla, no sentido de constituir uma extensão da prática linguageira aos eventos sócio-comunicativos comuns aos diversos contextos e situações de interação: “analisar, interpretar e aplicar os recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção”, deve constituir objetivo da escola ao utilizar a língua como instrumento de 11 Charaudeau prefere a utilização de “contratos de comunicação” a gêneros, já que a tipologia textual que propõe prioriza as condições de realização dos textos. Porém, por necessidade de outras informações e de fidelidade às transcrições feitas, extraídas em obras de outros autores, mantivemos a expressão gêneros. 53 reflexão e trabalho e, logo, “o estudo dos gêneros e dos modos como se articulam proporciona uma visão ampla das possibilidades de usos da linguagem, incluindo-se aí o texto literário” (Ibidem). É à luz dessas considerações que podemos afirmar que, quanto mais exposto o sujeito estiver a textos diversos, mais informações ele poderá processar e, portanto, dependendo da interação da qual participa, mais hábil ele se tornará para confrontar opiniões, criticar, atualizar e atribuir sentido social ao que é construído na e pela linguagem. Dentre os textos escolares, pontualmente, trataremos da avaliação, mais adiante. De um modo geral, podemos adiantar que a avaliação de natureza escrita constitui um “contrato de comunicação” que utiliza vários outros contratos em sua composição: desde os textos apresentados para a avaliação da leitura e da interpretação até as chamadas questões “discursivas” que solicitam, por parte do aluno, a produção de textos, segundo “variantes dos vários contratos de comunicação” existentes (cf. CHARAUDEAU, 1996, p.39). A seguir, as estratégias para a produção de textos escritos e para a recepção, com a criação de um quadro teórico necessário para abordarmos, posteriormente, a avaliação – um “contrato de comunicação” escolar usado para aprovar e/ou selecionar alunos. 2.15 Um contrato de comunicação tipicamente escolar: a avaliação Dentre os diversos textos oriundos do discurso escolar, temos a avaliação, a qual nasce da necessidade de a escola verificar tanto a aprendizagem dos alunos quanto a eficiência da metodologia empregada, dos objetivos alcançados, segundo o planejamento realizado. Cada vez mais, atualmente, a avaliação e exames escolares têm sido motivos de encontros, de debates e de estudos, porque o espaço que essa prática tem ocupado no interior da escola, e até mesmo na sociedade como um todo, tem sido alvo de preocupação e de críticas constantes. De acordo com Gama (1993, p.31), a avaliação tem se constituído cada vez menos como um objeto de estudo da técnica, pois tem sido vista, principalmente, como um objeto de estudo enquanto questão política, visto que, em um momento privilegiado, a avaliação torna-se por excelência a manifestação do poder. Segundo o estudioso inglês Ian Hextall (apud GAMA, 1993, p.31), temos o seguinte: “toda a avaliação na escola envolve a aceitação implícita de um conjunto particular de padrões e valores que subjazem numa determina estrutura econômica e ordem política”. Nos 54 dizeres de Soares (apud GAMA, 1993), a avaliação também é vista como sendo uma questão de natureza política: Sob a perspectiva de uma análise daquilo que realmente (grifo da autora) ocorre nos sistemas de ensino, a avaliação é um dos mais eficazes instrumentos de controle (idem) da oferta e do aproveitamento de oportunidades educacionais e sociais e de dissimulação (idem) de um processo de seleção. (p.32) Para Luckesi (1995), por sua vez, a característica que de imediato se evidencia na nossa prática educativa é de que a avaliação da aprendizagem ganhou um espaço tão amplo nos processos de ensino que nossa prática educativa escolar passou a ser direcionada por uma ‘pedagogia do exame’. (p.17) Para o autor, o problema ainda se agrava, principalmente, na última série do ensino médio, quando as escolas inserem nas atividades docentes e discentes a resolução de provas de vestibulares, sem contar os cursos preparatórios ao vestibular que intensificam esse processo de treinamento. O fato é que a prática pedagógica está polarizada pelas provas e exames – pais, sistema de ensino, profissionais da educação, professores e alunos, todos centram suas atenções para a questão da aprovação ou reprovação, efetuadas a partir de exames. Dessa forma, o principal objetivo pedagógico fica, muitas vezes, restrito a uma prática pedagógica que prioriza a avaliação como sendo a tônica de todo o processo ensino/aprendizagem, quando, na verdade, deveria ser a avaliação apenas um mecanismo integrante do processo. Na verdade, porém, essa prática da “pedagogia do exame” tem suas raízes inscritas nas pedagogias dos séculos XVI e XVII, “no processo de emergência e cristalização da sociedade burguesa, e perduram ainda hoje” (Ibidem. p.22). 12 Além disso, essa prática pedagógica, ao centrar sua atenção nos exames, não favorece a aprendizagem, pois ofusca o real significado do ensino e da aprendizagem para o desenvolvimento do sujeito como um todo. Outra crítica é que, psicologicamente, a avaliação ao se tornar um fetiche – uma “entidade”, que nos dizeres de Luckesi (1995, p.23) é “criada pelo ser humano para atender a uma necessidade, mas que se torna independente dele e o domina universalizando-se” –, é útil ao desenvolvimento da autocensura. Assim, o 12 Uma das conseqüências mais gritantes dessa pedagogia é o cultivo do sentimento de medo, mecanismo importante para o processo de controle social, como uma maneira de evitar comportamentos indesejáveis ou em desvio relativamente à ordem imposta, fazendo com que as ações sejam repetidas e mantidas, conforme se deseja. O medo exercido seja pelo Estado, pela Igreja, pela família ou pela escola gera o exercício da submissão forçada, que produz efeitos onerosos para a personalidade e a saúde das pessoas. 55 autocontrole torna-se a forma mais eficiente do exercício de coerção, sem que os padrões externos que cerceiam os sujeitos continuem dependentes da ação exterior para que o controle continue, pois o próprio sujeito torna-se “presa de si mesmo”. Os padrões de comportamento internalizados podem ser positivos ou negativos, mas, segundo o próprio autor, a avaliação escolar tem sido internalizada de forma muito mais negativa do que positiva. Do ponto de vista sociológico, a avaliação fetichizada é bastante útil para os processos de seletividade social. Se os procedimentos da avaliação estivessem articulados com o processo de ensino-aprendizagem propriamente dito, não haveria a possibilidade de dispor-se deles como se bem entende. Estariam articulados com os procedimentos de ensino e não poderiam, por isso mesmo, conduzir ao arbítrio (Ibidem.p.26). Embora as críticas aos processos de avaliação sejam uma constante na sociedade, o fato é que continuamos a avaliar e sermos avaliados. As funções que tradicionalmente são atribuídas à avaliação na sociedade encontram-se, de uma maneira ou de outra, sempre presentes em nossas relações sociais. Segundo Perrenoud (1999), bem antes de regular as aprendizagens, a avaliação regula o trabalho, as atividades, as relações de autoridade e a cooperação em aula e, de uma certa forma, as relações entre a família e a escola ou entre profissionais da educação. (p.11) Assim, os debates atuais sobre avaliação revelam, principalmente, uma nova crise de valores, da cultura, do ensino, da escola e indicam, também, que precisamos descobrir novos sentidos. Há que se considerar, ainda, que conforme afirma Perrenoud (1999), em torno da norma e das hierarquias de excelência, nenhuma sociedade vive na serenidade e no consenso. A questão é saber, antes, se cada época reinventa, à sua maneira e em sua linguagem, as figuras impostas de um eterno debate, ou se hoje acontece algo de novo... Que a avaliação possa auxiliar o aluno a aprender não é uma idéia nova. Desde que a escola existe, pedagogos se revoltam contra as notas e querem colocar a avaliação mais a serviço do aluno do que do sistema. Essas evidências são incessantemente redescobertas, e cada geração crê que ‘nada mais será como antes’. O que não impede a seguinte de seguir o mesmo caminho e de sofrer as mesmas desilusões. (grifos do original). (p.10) Diante do exposto, o que podemos deixar claro é que a avaliação pode se prestar a duas orientações básicas e distintas: selecionar ou promover a aprendizagem. Quando a avaliação, também chamada de normativa, assume a sua função tradicionalmente seletiva, há a “criação de hierarquias de excelência, os alunos são comparados e depois classificados em virtude de uma norma de excelência, definida no absoluto ou encarnada pelo professor e 56 pelos melhores alunos” (Ibidem. p.13). Nesse caso, a avaliação também pode assumir a função de certificar aquisições de conhecimento perante terceiros, garantindo, sobretudo, “que um aluno sabe globalmente ‘o que é necessário saber’” (idem, grifo do original). Então, a avaliação deixa de ser um fim em si mesma, passando a constituir uma peça importante para o funcionamento didático e, fundamentalmente, um instrumento para selecionar e orientar, atribuindo significado para todo o agir escolar, ou seja, “ela serve para controlar o trabalho dos alunos e, simultaneamente, para gerir fluxos” (idem). Por outro lado, a avaliação que busca promover acima de tudo a aprendizagem, também chamada de formativa, tem por objetivo uma intervenção diferenciada, de maneira a promover o melhor aproveitamento escolar do aluno. Este tipo de avaliação tende muito mais a regular a ação, a prática pedagógica do que simplesmente “medir em hierarquias de excelência” (PERRENOUD, 1999). O desempenho do aluno em uma avaliação, supostamente, é considerado como demonstração do conhecimento. Nesse sentido, a avaliação formativa não deve simplesmente deter-se a realizar um diagnóstico, mas buscar as causas, questionar as circunstâncias em que o “erro” aconteceu, analisar a eficiência do método de trabalho adotado, dos procedimentos realizados, enfim, tudo analisado e descrito de maneira a perseguir o objetivo maior, a aprendizagem vista, inclusive, como forma de superação do “erro”. A avaliação formativa é uma expressão da prática pedagógica que revela a luta contra o fracasso, contra as desigualdades. Lamentavelmente, as provas dos vestibulares ainda estão inseridas apenas na primeira situação relativa à avaliação normativa, visto que a avaliação tem por objetivo apenas selecionar candidatos ao ensino superior, apesar dos esforços das instituições no sentido de divulgarem para a sociedade seus trabalhos e estudos, não somente acerca da análise das provas, comentários das questões, mas também no que se refere à promoção de cursos de aprimoramento e reciclagem de professores, bem como a realização de reuniões que antecedem os vestibulares, cuja pauta consiste em esclarecimentos relativos ao processo seletivo, abertas à participação da comunidade escolar. Tais estratégias, obviamente, objetivam minimizar o distanciamento existente entre o ensino superior e o ensino médio e fundamental, buscando uma possível integração entre esses níveis de ensino, tendo em vista o conhecimento necessário à continuidade dos estudos, as competências e habilidades a serem desenvolvidas, principalmente, quanto ao progresso individual. Porém, essas observações poderiam nos levar a um debate muito mais extenso, com questionamentos de naturezas diversas, desde o ideológico até a mais ínfima prática avaliativa comum à sociedade, o que não nos cabe realizar neste momento. 57 Importante talvez seja reconhecer o que de fato pode ser feito para atenuar os reflexos negativos dessa prática avaliativa – a normativa – que, no nosso entender, tem sido tentado, fundamentalmente, no que se diz respeito à elaboração das provas, à qualidade dos questionamentos apresentados, assunto que será abordado em um outro item, quando analisaremos as provas propostas pelas instituições focalizadas nesta pesquisa. Outra grande contribuição para um maior engajamento entre o ensino médio e o ensino superior, deve-se ressaltar, foi oferecida pelos PCNEM, que orientam os conteúdos a serem ministrados, as habilidades e competências necessárias ao desenvolvimento do aluno. Enfim, essas diretrizes podem contribuir para a orientação de uma prática que leve à afirmação do ser como cidadão na sociedade em que se encontra inserido, sabendo que somente a linguagem viabilizará todo este processo. Assim, podemos dizer que a avaliação, como nos lembra Hadji (2001, p.36), está envolvida em um contexto no qual “os processos psicossociais complexos postos em jogo pela avaliação não dependem somente dos conteúdos em jogo, mas também das condições sociais da própria prova de avaliação”13. De outra forma, a avaliação deve ser analisada como um elemento que compõe um sistema de ação de ensino, pois nem tudo que é ensinado é avaliado, assim como nem tudo que é avaliado pode ser considerado devidamente ensinado, parafraseando as palavras de Perrenoud (1999, p.18-19). Logo, a prática pedagógica precisa ser aprimorada por todos que de fato estejam interessados em conquistar não só a verdadeira democratização do ensino, mas também o acesso à democratização da escola (idem). 2.16 A avaliação a serviço do processo de seleção Conforme havíamos dito anteriormente, o saber utilizar o conhecimento e a linguagem de maneira adequada, considerando as diversas realizações e circunstâncias sociais, demanda um aprendizado complexo, até mesmo para resolver os problemas mais cotidianos. Em situação escolar, resolver os problemas propostos por uma avaliação pode ser, às vezes, um desafio muito maior. E quando ainda se trata de prova de vestibular, as dificuldades podem parecer, para muitos candidatos, intransponíveis, já que sabemos que somente o domínio do 13 Por isso, preferimos também a noção de “contrato de comunicação” proposta por Charaudeau, já que ele adota para a construção de uma tipologia textual o critério que se baseia nas condições de realização dos textos, critério que consideramos mais coerente, a nosso ver, para falar do tipo textual avaliação. 58 conhecimento necessário aos exames não é suficiente para nos livrar do malogro. Assim, apesar das mudanças que ocorreram ao longo da história do vestibular, não podemos negar que a avaliação realizada, por mais bem planejada e elaborada que seja, ainda continua, nos dias atuais, a serviço da seleção, processo que se torna extremamente mais perverso diante dos números da concorrência por uma vaga na universidade – situação que nas instituições públicas de ensino superior em todo o País torna-se muito mais grave. Foi em conseqüência principalmente do número de vagas nas universidades que, no Brasil, a partir da década de 70, as chamadas provas objetivas ganharam notoriedade entre os estudos pedagógicos, segundo Di Dio (1977). Em decorrência da sua propagação como forma de seleção de estudantes foi que diferentes instituições adotaram esse tipo de avaliação para solucionar parcialmente o problema do número de vagas, já que ainda hoje é crescente o número de alunos que concluem o ensino médio e que desejam ingressar no ensino superior. Um dos argumentos apontados na obra de Di Dio (1977, p.13) como favorável à aplicação de testes desta natureza, objetivos, diz respeito ao fato de que a educação em massa só comporta esse tipo de avaliação por constituir uma maneira “mais prática, simples e menos dispendiosa para classificar candidatos em função de seu desempenho”, além de a evolução tecnológica moderna facilitar a correção dessas provas. Fato é que, conforme também aponta o autor, os problemas decorrentes da forma de seleção do sistema de vestibular em vigor e da adoção de critério meramente classificatório, a partir da aplicação dos testes objetivos, “ao mesmo tempo que resolveram alguns problemas de caráter político-social, criaram outros, de ordem pedagógica e científica” (Ibidem, p.17). Para minimizar alguns dos problemas que se agravaram após a adoção das provas objetivas pelos vestibulares, foi que se estabeleceu a inclusão nos vestibulares das provas de natureza discursiva, conhecidas também como prova de Redação e/ou Produção de Texto. Segundo o que encontramos na obra de Di Dio (1977), embora outras críticas também de cunho pedagógico e científico tenham surgido, como, por exemplo, aprender a escrever em função da necessidade imposta pela avaliação, pelo menos tal medida, de inserir a prova discursiva nos vestibulares, conseguiu atenuar uma das conseqüências mais severas consideradas por aqueles que repudiavam a adoção das provas objetivas: “o aparecimento de uma geração sem palavras” (Ibidem, p.17). Claro que tal afirmação reflete um relativo radicalismo, pois se as pessoas se comunicam oralmente, é óbvio que elas não estariam sem palavras! Mas a preocupação dos críticos consistia exatamente em relação ao uso da língua escrita, no que se refere à construção de textos, fator decisivo para a continuidade dos estudos. 59 De acordo com Perrenoud (1999), fato é que a escola, ao longo de sua trajetória, sempre criou hierarquias de excelência, tendo em vista a norma de excelência adotada, ou seja, primeiro se compara e depois se classifica – rotinas que são uma constante do sistema educativo. Diante disso, a verdade é que nenhuma sociedade ainda atingiu um consenso em torno da norma e das hierarquias de excelência. A avaliação, de qualquer natureza, objetiva ou discursiva, tem se estabelecido muito mais a serviço do sistema político-ideológico do Estado do que a serviço da aprendizagem do próprio aluno. Toda essa reflexão tem por objetivo apontar algumas circunstâncias políticoeducacionais e sócio-culturais em que verificamos a prática da avaliação em nossa sociedade, visto que, quase sempre, segundo autores como Di Dio (1977), Gama (1993), Hadji (2001), Luckesi (1994) e Perrenoud (1999), dentre outros, o papel da avaliação tem se restringido muito mais à necessidade de garantia do funcionamento do próprio sistema do que basicamente uma necessidade decorrente do processo ensino-aprendizagem. Segundo palavras de Cardinet (apud HADJI, 2001), de um ponto de vista simultaneamente ético e pedagógico, torna-se correto recusar-se a ceder à obsessão da seleção e da busca de excelência, quando se operam dentro de uma competição sem trégua. Permitir a cada um tornar-se excelente, sim. Organizar uma competição selvagem para fazer emergir uma elite, não. (p.63) Por isso, ainda que utopicamente, a avaliação escolar deve, inclusive, segundo Perrenoud (apud HADJI, 2001, p.20) tornar-se uma forma de auxiliar o aluno na construção de seu conhecimento, de suas experiências, de seus valores para a realização de suas aspirações mais íntimas bem como de seus objetivos mais palpáveis, quer sejam culturais, sociais e/ou profissionais. Nesse caso, a avaliação abandonaria o seu caráter normativo, por excelência, e assumiria o seu real papel dentro do processo ensino-aprendizagem, o de formação e, por isso, propõe Perrenoud: “seria melhor falar de ‘observação formativa do que de avaliação’” (Ibidem). Nesse sentido, continua Hadji (2001, p.20): Duas coisas são, pois, claramente declaradas: a avaliação torna-se formativa na medida em que se inscreve em um projeto educativo específico, o de favorecer o desenvolvimento daquele que aprende, deixando de lado qualquer outra preocupação. 60 Por isso, nas palavras de Perrenoud (apud HADJI, 2001, p.20) “A observação é formativa quando permite guiar e otimizar as aprendizagens em andamento”, e continua Hadji (2001): E é sua virtude informativa que é seu caráter essencial. A partir do momento em que informa, ela é formativa, quer seja instrumentalizada ou não, acidental ou deliberada, quantitativa ou qualitativa (...) Para facilitar o próprio processo, bastalhe informar os atores do processo educativo: (p.20) professor e aluno – o professor, sobre os efeitos reais de seu trabalho pedagógico, para que possa regular a sua ação a partir disso, e o aluno, para que seja informado de suas dificuldades, tome consciência das mesmas, para que possa se tornar capaz de corrigir os próprios erros (cf. HADJI, 2001, p.20). Por isso, a avaliação formativa ainda continua sendo um modelo ideal que indica o caminho, mas que ainda não está construído. Selecionamos algumas palavras de Perrenoud (1999) para ilustrar essa seção: Enquanto a escola der tanto peso à aquisição de conhecimentos descontextualizados e tão pouco à transferência e à construção de competências, toda avaliação correrá o risco de se transformar em um concurso de excelência. (...) Não se pode pedir que a avaliação substitua o ensino. Em contrapartida, ela não deveria jamais impedir uma pedagogia diferenciada, ativa, construtivista, aberta, cooperativa, eficiente, mas se colocar a seu serviço. (...) Daí porque, conhecendo o peso das palavras, seria bom que ao agrupamento daqueles que trabalham sobre as diversas facetas e funções da avaliação, façam o contrapeso das associações, departamentos universitários, programas e projetos de pesquisa ou de desenvolvimento que reúnam abordagens transversais e abordagens didáticas do ensino e da aprendizagem, em torno do tema da diferenciação, da regulação, da individualização dos percursos. (p.168) Assim, ainda, segundo Weiss (apud HADJI, 2001, p.34-35), “a avaliação é primeiramente ‘problema de comunicação’ (...) compreendeu-se que a avaliação é uma ‘interação, uma troca, uma negociação entre um avaliador e um avaliado, sobre um objeto particular e em um ambiente social dado” (grifos nossos). Por isso, podemos afirmar que, muitas das vezes, ainda verificamos que avaliação continua servindo como critério de seleção no processo educativo, demonstrando uma intolerância àqueles que se desviam da norma de excelência adotada, fato que somente contribui por inviabilizar o acesso ao saber. Nesse sentido, apesar de todos os esforços para aprimoramento do processo do vestibular, na tentativa de atenuar os reflexos negativos provocados pela avaliação proposta, lamentavelmente, o vestibular continua sendo um mecanismo de exclusão social, junto a outras seleções já impostas pela sociedade. 61 3. OS CONTRATOS DE COMUNICAÇÃO: AS PROVAS DOS VESTIBULARES DA PUCMG E DA UFMG EM FACE DOS PCNEM Agora trataremos, especificamente, do gênero textual avaliação escrita, tendo em vista os textos utilizados nas provas de Língua Portuguesa dos vestibulares da PUCMG – Belo Horizonte – e da UFMG –, as provas objetivas e as provas discursivas, em face das competências e habilidades que o aluno, ao concluir o Ensino Médio, deve estar apto, conforme declaram os PCNEM, que se pautam em alguns dos estudos teóricos neste trabalho apresentado, a fim de: (i) construir o quadro teórico-metodológico que fundamenta a análise, de acordo com os autores mencionados; (ii) identificar de que modo as provas respondem às demandas dos autores pesquisados e dos próprios PCNEM, que orientam (ou deveriam orientar) as práticas escolares, junto às obras teóricas abordadas. Vamos nos remeter à Parte II dos PCNEM, que trata sobre as Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, pois, nessa parte, fica realçada a natureza transdisciplinar da linguagem, fato que pressupomos ser relevante para a nossa análise, já que a articulação entre as linguagens, seus suportes e os veículos de circulação constitui uma orientação não só comum à concepção interacionista adotada por nós, como também uma orientação para o trabalho de ensino/aprendizagem. Como já foi anunciado, as instituições focadas realizam seus vestibulares propondo avaliações que apresentam características comuns, como, por exemplo, uma prova com questões objetivas e outra, discursiva, também chamada prova de redação. A PUCMG realiza seu vestibular em apenas uma etapa, os candidatos realizam a prova objetiva de Língua Portuguesa e a de Produção de Texto em um único dia, diferentemente do que ocorre no vestibular da UFMG, já que a prova objetiva dessa instituição refere-se à primeira etapa, eliminatória e classificatória, e a prova de Redação, que se distancia da primeira por um período de trinta dias, constitui a chamada segunda etapa do vestibular da UFMG. Outra diferença a ser apontada, de início, diz respeito ao fato de a PUCMG realizar dois vestibulares por ano, um em cada semestre, enquanto a UFMG realiza um vestibular por ano. Considerando o recorte temporal realizado para a composição de nosso corpus, as provas dos vestibulares de 2000 a 2003, podemos observar que as provas de Língua 62 Portuguesa realizam uma subdivisão de assuntos relativos aos conhecimentos de Língua e de Literatura, havendo, porém, um equilíbrio relativo entre o número de questões propostas para as duas áreas do conhecimento. Porém, conforme abordam os PCNEM (p.16), a visão dicotomizada do estudo da língua materna na escola desde a época da LDB nº 5.692/71, que separa os estudos de gramática, literatura e redação, constitui um modelo de separação tão arraigado que também acabou sendo mantido pelos “livros didáticos, em geral, e mesmo os vestibulares”, fato que contraria a orientação dos PCNEM, que orientam o estudo da língua “para uma reflexão sobre o uso da língua na vida e na sociedade” (Ibidem). Assim, como hoje essa divisão ainda é praticada pelas provas dos vestibulares, e a Academia ainda mantém essa separação, iremos nos ater à análise das provas cuja parte trata fundamentalmente dos conhecimentos relativos à língua e à produção de textos, distribuídos entre provas objetivas e provas analítico-dissertativas ou de redação, excluindo de nossa análise a parte que trata, em particular, dos assuntos literários. Então, podemos ressaltar que as avaliações analisadas são compostas de questões que compreendem dois fazeres distintos propostos aos candidatos: em um primeiro momento, verifica-se a capacidade de ler, de interpretar e realizar análise textual/discursiva, essencialmente, apresentando-se questões de múltipla escolha ou objetivas e, em um segundo momento, verifica-se a capacidade de ler e de interpretar, acrescida da atividade de produção de textos, que constitui as provas também conhecidas como discursivas. 3.1 As linguagens das provas e as orientações dos PCNEM É das interações sociocomunicativas mediadas pela fala que o ser humano produz outros sistemas de linguagens, e as condições e formas de comunicação refletem a realização social em símbolos que ultrapassam as particularidades do sujeito, pois “no ato interlocutivo, o contexto verbal relaciona-se com o extra-verbal e vice-versa” (PCNEM, p.6). Apesar da dicotomização não recomendada para o estudo da língua materna (a divisão entre estudos da língua e da literatura), verifica-se nos PCNEM uma subdivisão por áreas no tocante ao estudo das linguagens, o que decorre de uma necessidade metodológica, tendo em vista que o estudo da linguagem, como um todo, pressupõe, em sua essência, a transdisciplinaridade e isso implica o desenvolvimento de habilidades e de competências que levam o ser humano a articular significados coletivos, cujas representações, que são 63 compartilhadas, embora arbitrárias, variam segundo as necessidades e experiências, conseqüentes da vida em sociedade. Como se disse, a linguagem envolve os indivíduos de maneira a viabilizar a simbolização, regulando as estruturas mentais, emocionais e perceptivas, propiciando a compreensão da própria natureza arbitrária da linguagem. É em meio a essas condições que a linguagem se faz produto cultural e mecanismo de produção cultural. A linguagem, pelo seu “caráter criativo, contraditório, pluridimensional, múltiplo e singular” (PCNEM, p.5), só existe em função das práticas sociais, ao possibilitar a interação. Considerando o ponto de vista adotado é que se espera que o aluno que conclui o Ensino Médio seja capaz de reunir condições e formas de comunicação as quais lhe permitam a inserção em qualquer jogo de linguagem, reconhecendo os vários contextos sóciocomunicativos e, conseqüentemente, adequando-se a eles, sendo capaz de refletir sobre os usos sociais realizados das várias normas existentes, bem como da análise da inter-relação produção/recepção, ações que implicam o assumir uma postura crítica: de investigação, de compreensão e de construção e/ou transformação da própria realidade e do mundo que o acolhe, e todo esse trabalho se dá por meio da linguagem. De acordo ainda com os PCNEM (p.6), o aluno, ao procurar entender as várias linguagens existentes e suas manifestações, quer as viabilizadas por novas tecnologias, como a informática, as de expressão artística, ou ainda as das áreas das Ciências, deverá concluir que todos os discursos se constroem na e pela linguagem, oral ou escrita, representada pela língua materna, em sua unidade básica que é o texto, cujo eixo encontra-se na função comunicativa, de natureza social e interativa, o que faz com que todos os usuários sejam recebedores e produtores de textos, razão de qualquer ato lingüístico. Por isso, dentre os objetivos propostos pelos PCNEM, temos o desenvolvimento das competências e habilidades a serem constituídas no processo ensino/aprendizagem, em Língua Portuguesa: - considerar a Língua Portuguesa como fonte de legitimação de acordos e condutas sociais e como representação simbólica de experiências humanas manifestas nas formas de sentir, pensar e agir na vida social; - analisar os recursos expressivos da linguagem verbal, relacionando textos/contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura, de acordo com as condições de produção/recepção (intenção, época, local, interlocutores participantes da criação e propagação de idéias e escolhas); - confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes manifestações da linguagem verbal; - compreender e usar a Língua Portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade (p.20-23). 64 Tais objetivos orientam o trabalho a ser desenvolvido pela escola, porque o objetivo central de todo o texto dos PCNEM é a própria escola, realçando que “o respeito à diversidade é o principal eixo da proposta” (Idem. p.1), fato que também não impede a coerência aos princípios legais, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394/96. Além do que já foi dito, deixa claro o documento que o conhecimento sobre a linguagem, a ser socializado na escola, deve ser visto sob o prisma da mobilidade da própria linguagem, evitando-se os apriorismos. O espírito crítico não admite verdades sem uma investigação do processo de sua construção e representatividade (p.7). Assim, diante do que já foi exposto, podemos afirmar que é por meio do domínio da linguagem verbal, oral e escrita, representada pela língua materna, que o sujeito terá viabilizado o seu encontro com os discursos constantes das diversas esferas sociais. Porém, esse trabalho deve ser contínuo e a escola precisa instrumentalizar o seu aluno, já que o fazer comunicativo exige formas bastante complexas de aprendizagem, as quais passam por várias instâncias do descobrir, do conhecer, do experimentar para se chegar ao saber utilizar (PCNEM, 1998). 3.2 Descrição global e inicial das Provas de Língua Portuguesa da PUCMG e da UFMG Considerando o que já foi dito a respeito dos traços em que se assemelham e daqueles que distinguem o processo dos vestibulares referentes às duas instituições, passaremos agora à descrição das provas, de forma separada e, posteriormente, a um estudo comparativo das mesmas. 3.2.1 As provas objetivas de Língua Portuguesa da PUCMG As questões das provas objetivas dos vestibulares de Língua Portuguesa da PUCMG perfazem um total de 10 (dez) e, até o ano de 2000, apresentavam 5 (cinco) alternativas cada. 65 A partir de 2001, as provas passaram a apresentar questões com apenas 4 (quatro) alternativas. De um modo geral, as questões exigem dos candidatos a leitura e interpretação de textos que circulam na mídia, extraídos de revistas, panfletos e jornais, de maneira que os chamados conhecimentos enciclopédico, lingüístico e sócio-interacional (cf. KOCH, 2002), adquiridos pelo estudante ao longo dos anos de escola, sejam inferidos para contrapor a informação correta a ser considerada a partir dos textos constantes da prova, em relação às demais incorretas, ou, ainda, às vezes, dentre as várias informações corretas, é solicitado ao candidato que identifique a informação incorreta em contraposição às demais, sempre tendo por base os textos apresentados, o que revela o cuidado dos elaboradores de contextualizar a informação. Vejamos, por exemplo, a questão 1 da prova do vestibular da PUCMG, 1º semestre de 2000, na qual é solicitada a alternativa correta, no caso letra d. Vejamos o texto14 sobre o qual a questão 1 refere-se: Arc* e o candidato Arc, o marciano, quer saber quem é esse moço que quer ser prefeito de São Paulo. - Ele já foi deputado, prefeito e governador pelo Estado dele, e depois foi presidente da República. Aí ele não se comportou bem e foi tirado da Presidência pelo povo e pelo congresso. * E quem não se comporta bem pode voltar a ser candidato? - Passa um tempo sem poder, Arc, mas depois pode, sim, se quiser... * E por que ele não recomeça pelo Estado dele? - Porque não é nada disso que ele quer, Arc. Ele quer testar a popularidade, porque o que ele quer mesmo é ser presidente de novo. * E vocês deixam um sujeito que se comportou mal ser presidente de novo? - Ser candidato, Arc, candidato. Não quer dizer que lê vai se eleito, entende? Não. ----------------------------------------------------------------------------------------------------------------• Arc é marciano e invisível e vem regularmente à terra – inclusive ao Brasil – para ver se vale a pena Marte investir aqui. Por enquanto, ele está achando que não dá... (VEJA, 06/10/99, p.36) 14 Reproduzimos os grifos e sinais utilizados no texto, idênticos aos encontrados no documento original, ou seja, a prova do vestibular de 2000. 66 Questão 1 - Interpretação15 Assinale a alternativa que traz consideração ADEQUADA sobre o texto. a) A estratégia de não se usar, explicitamente, o nome do futuro candidato à prefeitura de São Paulo decorre da intenção de garantir o suspense, uma das características do texto. b) As respostas dadas pelo brasileiro às perguntas de Arc nos levam a crer que ele deseja que o marciano não leve para Marte uma visão negativa dos políticos brasileiros. c) O que Arc mais demonstra estranhar no Brasil é a falta de escrúpulo de determinados políticos. d) No texto, Arc demonstra se espantar com determinadas atitudes do povo brasileiro com relação aos políticos. e) Há pistas no texto que nos levam a crer que aquele com quem Arc conversa é um político. A questão proposta pelo avaliador verifica se o candidato é capaz de articular as diversas competências envolvidas pela competência comunicativa, de maneira que ele possa inferir a melhor informação proposta por uma das alternativas, ou seja, reconhecer qual alternativa apresenta a informação que se sustenta pelo texto, segundo a argumentação proposta pela própria alternativa. Assim, a leitura a ser realizada pelo candidato deve possibilitar que ele construa um quadro de possibilidades de interpretação para cada alternativa, tendo como referência o texto apresentado para enfrentar a situação-problema: avaliar qual o sentido que confirma aquele proposto pelo produtor do texto. Agora, um exemplo de questão em que apenas uma alternativa encontra-se em desacordo com o que foi informado no texto, na prova do vestibular do 1º semestre de 2002 da PUCMG, em que a alternativa indicada foi a da letra b: 15 Em nossa análise, consideramos, como possibilidade para a classificação das questões propostas pelas provas objetivas, os aspectos da competência comunicativa priorizada em cada uma, tendo em vista as habilidades e domínios requeridos: interpretação, relações semântico-pragmáticas, relações sintático-semânticas, referenciação e variação lingüística (cf. quadro 2). 67 68 Questão 4 – semântico-pragmática Considerando-se o jogo lingüístico realizado no trecho que vai de cartão azul até anuidade grátis, é possível afirmar que a substituição do verbo tirar por acrescentar poderia acarretar: a) incompatibilidade formal com o seu complemento. b) comprometimento do sentido da palavra completo. c) perda da credibilidade do anúncio. d) ambigüidade da palavra grátis. Na questão, o avaliador propõe diversas alternativas, mas apenas uma contém a resposta correta. Para resolvê-la, é necessário que o candidato volte ao texto e, assim, depreenda o sentido indicado a ser considerado, a partir da leitura de todo o texto, para depois, considerar o efeito de sentido possível provocado pela substituição da palavra tirar pela palavra acrescentar. Enfim, o candidato deverá confrontar as possibilidades de sentido decorrentes da alteração do vocabulário em relação ao sentido indicado pelo texto. Às vezes, também, há provas em que se verifica a presença de questões que retomam um conceito veiculado pela gramática tradicional, questões cujo objetivo é testar a capacidade de o candidato analisar e investigar a veracidade e aplicabilidade de tal conceito, segundo usos lingüísticos verificados em diferentes contextos. Esse é o caso, por exemplo, da questão 09, proposta pelo vestibular da PUCMG, 2º semestre de 2000, cuja alternativa correta indicada é a letra a: AS QUESTOES 09 E 10 PRETENDEM EXAMINAR SUA CAPCIDADE DE REFLEXÃO SOBRE CONCEITOS DIFUNDIDOS PELA TRADIÇÃO GRAMATICAL, OS QUAIS, DE MODO GERAL, SÃO ENCONTRADOS EM GRAMÁTICAS NORMATIVAS E ALGUNS LIVROS DIDÁTICOS. ANTES DE RESPONDER A ELAS, LEIA COM ATENÇÃO AS DEFINIÇÕES APRESENTADAS A SEGUIR16 Questão 9 – interpretação I. Verbo é a palavra que exprime ação, estado ou fenômeno. II. Pronome é a palavra que representa o ser ou ao ser se refere, indicando-o como pessoa do discurso. III. Adjetivo é a palavra que expressa qualidade, propriedade ou estado do ser. IV. Interjeição é a expressão que transmite emoções súbitas. 16 Embora a instrução deva ser considerada pra resolver as questões0 9 e 10 da prova do vestibular do 2º semestre de 2000, consideramos, para a análise somente a questão 09, para exemplificar o que afirmamos. Mantivemos a instrução escrita em caixa alta, conforme o documento original. 69 V. Sujeito é o ser de que se diz algo. LEIA, AGORA, OS COMENTÁRIOS SOBRE AS DEFINIÇÕES: 1. De acordo com a definição I, a palavra grifada em “A saída dos ônibus foi adiada” é um verbo. 2. De acordo com a definição II, em “Vi o seu pai hoje”, tanto vi quanto seu podem ser considerados pronomes. 3. De acordo com a definição III, a palavra presidente em “O presidente FHC chega de Londres amanhã” é adjetivo. 4. De acordo com a definição IV, a expressão alô em “Alô, eu gostaria de falar com Celso” não é uma interjeição. 5. De acordo com a definição V, o sujeito da oração “Para Jane e Malu, os amigos têm lugar especial” seria Jane e Malu. 09. São CORRETOS: a) todos os comentários. b) somente 1, 3 e 4. c) somente 1, 2 e 5. d) somente 2 e 5. e) somente 3. A questão propõe ao candidato que realize, também, a interpretação de conceitos gramaticais, promovendo a reflexão e o questionamento acerca das descrições expostas pelos conceitos gramáticos, objetivando que o candidato seja capaz de verificar que tais conceitos não se sustentam, diante das várias realidades da língua. Para ilustrar, consoante, à proposta apresentada pela questão, inclusive, realçamos a seguinte passagem dos PCNEM (p.7): “O espírito crítico não admite verdades sem uma investigação do processo de sua construção e representatividade”. As questões que se seguem, a de nº 07 e a de nº 08, do vestibular do 2º semestre de 2001, refere-se ao texto composto por três opiniões distintas, contextualizadas e com a indicação de seus respectivos autores: I. “Anota aí: vou virar o sistema”. (Idemir Carlos Ambrosio, o “sombra”, líder do PCC, dois dias antes da rebelião em 29 presídios de São Paulo, detonada pelo comando). 70 II. “Não há hipótese de o crime organizado comandar a penitenciaria. Quem comanda é o governo, com disciplina”. (Geraldo Alckimin, governador de São Paulo, depois da rebelião). III. “Cadeia é castigo, e não colônia de férias”. (José Vicente da Silva, coronel e pesquisador do Instituto Fernand Braudel, comentando a rebelião). (VEJA, 20 de fevereiro de 2001, Veja essa.) Questão 7 – semântico-pragmática Assinale a alternativa que NÃO apresenta a análise adequada do enunciado I e das informações que o acompanham. a) A expressão virar o sistema significa mudar as regras do jogo. b) Em virar o sistema, o vocábulo sistema tem uma referência específica: o sistema penitenciário brasileiro. c) A expressão o sombra não contribui para a compreensão de quem é o autor do enunciado e de que forma atuou na rebelião em São Paulo. d) Mesmo que o leitor não saiba o significado da sigla PCC, que aparece na identificação do autor do enunciado, pode compreender o que se diz no enunciado. A questão enfocada exige que o leitor esteja apto a interpretar e inferir de maneira a verificar os efeitos de sentido provocados pela seleção lexical proposta, em confronto com o texto, ou seja, exigiu-se que o candidato excluísse a alternativa que apresentasse uma possível incoerência em relação ao afirmado pelos autores dos enunciados constantes do texto. É interessante ressaltar que, a época, o texto selecionado, ao expor opiniões de autoridades e do líder do PCC acerca da rebelião organizada pelos criminosos, constitui um texto atual, que propõe uma reflexão contextualizada, visto que focaliza um tipo de episodio freqüente em nosso País. Assim, conforme encontramos nos PCNEM, o espírito crítico exige sempre a investigação, admitindo como verdade somente o que se pode confirmar: seja pelo senso comum, seja pela representação dos fatos por meio da linguagem, em nossas interações sociocomunicativas. Outra observação que podemos fazer em relação às provas de Língua Portuguesa dos vestibulares da PUCMG é que, de forma bastante acentuada, verifica-se uma cobrança constante quanto à relação entre os conceitos apresentados pelas teorias da linguagem mais recentes e, em particular, a teoria da enunciação, já que o candidato deve ser capaz de identificar quem são os interlocutores que interagem nos textos, aprovável intenção do 71 produtor do texto, as estratégias mobilizadas para a construção dos textos, os contextos em que os textos circulam, as condições de produção e de recepção, enfim, as questões exigem que o candidato esteja apto a compreender o texto que nem sempre se mostra, como, por exemplo, a questão 08, do vestibular da PUCMG, 2º semestre de 2001: Questão 08 – semântico-pragmática Assinale a alternativa que NÃO apresenta análise adequada dos enunciados. a) O fato de o enunciado II ter sido proferido pelo governador de São Paulo, após a rebelião, indica que, do ponto de vista do governo daquele Estado, o governo saiu vitorioso na disputa iniciada pelo crime organizado com a rebelião. b) O fato de o enunciado I iniciar-se com o vocábulo anota indica que seu provável receptor era um jornalista. c) A leitura de III leva a concluir que, para o autor desse enunciado, aquele a quem ele se dirigiu ao proferir o enunciado disse que cadeia é colônia de férias. d) Em III, estabelece-se oposição entre os termos castigo e colônia de férias e relação de igualdade entre cadeia e castigo. A questão proposta, cuja alternativa indicada como correta é a de letra c, solicita do candidato habilidades de inferência e interpretação, principalmente, para reconhecer, a partir dos enunciados apresentados pelo texto, a distinção entre enunciador e enunciatário, de maneira a identificá-los, embora o texto mascare, como é o caso encontrado nas alternativas b e c. Nesse aspecto, consideramos que a questão exige uma habilidade de leitura bastante refinada, o que, ao nosso ver, às vezes, não condiz com a realidade de boa parte dos leitores egressos do ensino médio, ainda, infelizmente! Apesar da ressalva apresentada relativamente às provas objetivas de Língua Portuguesa dos vestibulares da PUCMG, podemos dizer que, de um modo geral, as provas aproveitam o momento para favorecer o aprendizado por parte do candidato, já que oferecem possibilidades que propiciam a reflexão, a crítica, o relacionamento de fatos, de circunstâncias, oferecendo ao candidato a possibilidade de obtenção de informações significativas e relevantes para a sua vida, de maneira a contribuir e ampliar os seus conhecimentos, as suas experiências através do agir lingüístico. 72 3.2.2 As provas objetivas de Língua Portuguesa da UFMG As questões que compõem as provas de Língua Portuguesa da UFMG variam em número de 7 (sete) ou 8 (oito), sendo que cada questão também apresenta 4 (quatro) alternativas. De maneira geral, as questões das provas da UFMG remetem-se a textos publicados pela mídia, cujas temáticas suscitam a reflexão e a interpretação de fatos lingüísticos ou de problemas constantes da realidade nacional, que podem, inclusive, ser abordados por textos de diferentes tipos, como tirinhas, entrevistas, textos de opinião, de publicidade, etc. Há uma tendência em elaborar questões sobre vários textos constantes de uma mesma prova, que se articulam, seja pela estrutura, pela temática ou pela linguagem utilizada. Para exemplificar o que dissemos, podemos citar a prova do vestibular de 2000 da UFMG que apresentou quatro textos, sendo que o primeiro e o quarto tratam da questão da miséria e do empobrecimento das classes sociais brasileiras menos favorecidas. Já o segundo texto e o terceiro tratam dos problemas relativos à informação, visto que, o segundo defende que qualquer texto manifesta uma opinião, que não existe texto isento de opinião e o terceiro apresenta a necessidade de pensarmos “por nós mesmos”, considerando que “a globalização da informação provoca uma fragilidade na audiência”. A seguir, os textos selecionados para a prova do vestibular de 2000, sobre os quais tratam todas as questões apresentadas. TEXTO 1 No Brasil das últimas décadas, a miséria teve diversas caras. Houve um tempo em que, romântica, ela batia à nossa porta. Pedia-nos um prato de comida. Algumas vezes, suplicava por uma roupinha velha. Conhecíamos os nossos mendigos. Cabiam nos dedos de uma das mãos. Eram parte da vizinhança. Ao alimentá-Ios e vesti-Ios, aliviávamos nossas consciências. Dormíamos o sono dos justos. A urbanização do Brasil deu à miséria certa impessoalidade. Ela passou a apresentar-se como um elemento da paisagem. Algo para ser visto pela janelinha do carro, ora esparramada sobre a calçada, ora refugiada sob o viaduto; A modernidade trouxe novas formas de contato com a riqueza. Logo a miséria estava batendo, suja, esfarrapada, no vidro de nosso carro. Os semáforos ganharam uma inesperada função social. Passamos a exercitar nossa infinita bondade pingando esmolas em mãos rotas. Continuávamos de bem com nossos travesseiros. 73 Com o tempo, a miséria conquistou os tubos de imagem dos aparelhos de TV. Aos poucos, foi perdendo a docilidade. A rua oferecia-nos algo além de água encanada e luz elétrica. Os telejornais passaram a despejar violência sobre o tapete da sala, aos pés de nossos sofás. Era como se dispuséssemos de um eficiente sistema de miséria encanada. Tão simples quanto virar uma torneira ou acionar o interruptor, bastava apertar o botão da TV. Embora violenta, a miséria ainda nos excluía. Súbito, a miséria cansou de esmolar. Ela agora não pede; exige. Ela já não suplica; toma. A miséria não bate mais à nossa porta; invade. Não estende a mão diante do vidro do carro; arranca os relógios dos braços distraídos. Acuada, a cidade passou de opressora a vítima dos morros. No Brasil de hoje, a riqueza é refém da miséria. A constituição do perfil da miséria no Brasil está diretamente relacionada com a crescente modernização do país. SOUZA, Josias de. A vingança da miséria. Folha de S. Paulo, São Paulo, 31 out. 1994.Caderno Opinião, p.2. (Texto adaptado) TEXTO 2 O jornalismo dos anos 90 no Brasil responde a duas direções fundamentais. De um lado, o jornalismo que resiste às exigências do mercado: a prática do jornal vem marcada pela presença do autor da reportagem, da crônica, do ensaio; pelos vôos ousados no campo da interpretação, da sensibilidade, da poesia; pelo investimento em grandes trabalhos de investigação que incidem sobre a esfera social, política e moral; pela denúncia que não busca a sensação barata, a venda fácil e certa da miséria humana; enfim, um jornalismo marcado pelo exercício diário da ética e da inteligência, em que o leitor é convocado a participar ativamente dos problemas. De outro lado, o jornalismo que responde à tendência do mercado: tal jornalismo consagra os manuais de redação e estilo na produção do jornal, os quais ambicionam apagar a presença do autor e buscam, ao máximo, a prática da assim chamada escrita "objetiva”, supostamente destituída de opinião e recheada de dados estatísticos, mapas e tabelas cuja função é "facilitar a leitura" e dar sustentação aos dados reunidos no texto. Claro que tudo isso é um grande engano. Não há e nunca houve, de fato, nenhum jornalismo "objetivo" e "sem opinião": todo texto – jornalístico ou não – manifesta uma opinião. Até mesmo a demonstração de uma fórmula ou teorema matemático, aliás, não é feita da mesma forma por dois expositores. Os caminhos escolhidos para chegar ao mesmo ponto revelam a diferença de estilo, revelam o autor. ARBEX JR José. Quem escreve com as mãos? Caros amigos, São Paulo, n. 25, p. 8-9, abro 1999. (Texto adaptado) TEXTO 3 A globalização da informação provoca uma fragilidade na audiência. Nós nos tornamos alvo em uma galeria de tiro e só podemos nos safar se soubermos pensar por nós mesmos. Uma sociedade educa da é a que poderá tomar decisões que afetam seu futuro de modo coerente. Devemos ou não interceder nas pesquisas da engenharia genética? Devemos ou não interceder 74 junto ao governo para um maior controle da emissão de gases industriais, de modo a evitar graves mudanças climáticas no futuro? E os asteróides? Vão cair ou não em nossas cabeças? GLEISER, Marcelo. Velocidade da informação desafia educação moderna. Folha de S. Paulo, São Paulo, 4 out.1998. Caderno 5. p.14. (Texto adaptado) TEXTO 4 Desde 1960, quando os ricos ganhavam 30 vezes mais que os pobres, a concentração da renda mundial mais do que dobrou. Em 1994, os 20% mais ricos abocanharam 86% de tudo o que foi produzido no mundo. Sua renda era 78 vezes superior à dos 20% mais pobres. Esse é o lado menos conhecido da globalização. Ano a ano, o fosso que separa os incluídos dos excluídos vem aumentando. Em 34 anos, o quinhão dos excluídos na economia global minguou e 2,3% para 1,1%. A concentração chegou ao ponto de o patrimônio conjunto dos raros 447 bilionários que há no mundo ser equivalente à renda somada da metade mais pobre da população mundial cerca de 2,8 bilhões de pessoas. TOLEDO, José Roberto de. Globalização aprofunda o abismo entre ricos epobres. Folha de S. Paulo, São Paulo, 2 nov.1997. Caderno Especial, p:12. (Texto adaptado) 81 Há ainda, às vezes, proposta de questões que exploram o vocabulário contextualizado em relação ao sentido possível de ser atribuído, de acordo com o indicado nos textos apresentados. Esse tipo de questão é bastante recorrente nas provas objetivas do vestibular da UFMG. Para exemplificar, recortamos a questão 21 do vestibular de 2003 da UFMG, que se refere ao texto, a seguir apresentado. A resposta indicada como correta para a questão foi a alternativa de letra c. 75 76 77 Questão 21 – sintático-semântica Em todos os seguintes trechos, a palavra ou expressão destacada pode ser substituída pelo termo entre colchetes, sem se alterar o sentido original do texto, EXCETO em: A) Quem se destacava na sociedade recebia um título. (linhas 50-51) [UMA HONRARIA] B) ... viver num mundo hierarquizado e, de repente, se defrontar com uma igualdade inapelável. (linhas 44-45) [IMPLACÁVEL] C) Falta ao motorista [...] um componente importante em qualquer democracia, que é a agenda. 9linhas21-22) [A RESPONSABILIDADE] D) O tema é relevante porque trânsito é uma das linguagens da sociedade democrática. (linhas 3-4) [IMPORTANTE] Percebe-se que a questão propõe que o candidato avalie as possibilidades de efeito de sentido a partir da leitura realizada do texto em confronto com as alterações propostas para a substituição dos vocábulos destacados. Tomando por referência os PCNEM, podemos dizer que as provas da UFMG também tendem a avaliar o candidato, verificando o nível de informatividade que ele deverá ser capaz de inferir a partir dos textos apresentados, para depois relacioná-los, para estabelecer críticas, para re-elaborar sentidos, para alterar o vocabulário sem alterar o sentido visado pelas estruturas contidas nos textos, para reconhecer a estrutura utilizada na construção dos textos em foco, bem como a funcionamento das partes que os compõem, seja para discriminar a relevância das partes para a organização do texto, seja para identificar o sentido construído, a partir da organização apresentada pelos próprios textos, como é o caso da questão 34, do vestibular de 2000: Questão 34 – semântico-pragmática O último parágrafo do texto tem todas as seguintes funções, EXCETO: A) Ampliar o desenvolvimento das idéias. B) Reafirmar as idéias da introdução. C) Rearticular o parágrafo introdutório. D) Reorganizar as idéias desenvolvidas no texto. Percebe-se que a questão requer a habilidade de inferência e de interpretação, dos efeitos de sentido pretendidos não somente pelo texto apresentado, mas da articulação dos 78 parágrafos, o que envolve, necessariamente, considerações acerca de todo o processo de construção do texto apresentado pela prova. Assim, podemos confirmar, novamente, a necessidade de investigação que o espírito crítico requer, como já nos referimos ao que encontramos nos PCNEM. As habilidades para interpretar, criticar, relacionar, articular diferenças e semelhanças entre textos variados, aliás, o que constitui uma das tônicas presentes nos PCNEM, que direciona o saber e o domínio lingüístico para ações iguais a essas, permeiam a maioria das questões, exigindo do candidato o domínio dos mecanismos que colocam a língua em funcionamento, ao visar à interação sociocomunicativa entre o leitor e o texto. Igualmente às provas da PUCMG, não é cobrado o conhecimento descontextualizado, que apenas exija do candidato a repetição do que deveria ficar retido na memória, já que a resolução das questões implica raciocínios que sejam construídos, tendo como base os próprios textos apresentados. Verificamos ainda que, assim como o que verificamos em relação às provas da PUCMG, a dicotomia entre estudos lingüísticos e estudos literários prevalece nas provas objetivas da UFMG. Apesar das ressalvas que apresentamos, podemos afirmar que as provas da PUCMG e da UFMG, de uma maneira geral, observam, na prática, a orientação pedagógica que aponta para a importância de o candidato aprender ou enriquecer suas informações, visto que os textos e as propostas de questões contemplam temáticas até mesmo polêmicas, verificadas na sociedade. Por um lado, podemos assegurar que, a avaliação das instituições em foco, oferece ao candidato a oportunidade de interação, conforme nos asseveram Hadji (2001) e Perrenoud (1999), distanciando-se, porém, do ideal da “avaliação formativa” por se prestar a um serviço de seleção, situação que cria as chamadas “hierarquias de excelência”. 3.2.3. As semelhanças e distinções entre as Provas de Redação da PUCMG e da UFMG De acordo com o que mencionamos anteriormente, as provas discursivas, ou simplesmente chamadas de Produção de Textos ou de Redação, passaram a integrar parte dos exames propostos para verificação do conhecimento para atenuar a situação criada pela adoção de provas objetivas, conforme diz Di Dio (1977, p.17), já que muitos criticavam e até preconizavam “o aparecimento de uma geração sem palavras”. 79 As provas discursivas da PUCMG, chamada de Produção de Textos, orientam-se por oferecer ao aluno a proposta de produzir um único texto, dentre opções que, às vezes, são propostas em relação a uma temática também já contextualizada por outros textos apresentados que têm a função de servir como referência para o novo texto a ser produzido pelo próprio aluno, tendo em vista que serão observadas as seguintes condições: o gênero de texto, o destinatário alvo, a norma lingüística a ser utilizada, a contextualização, a apresentação de argumentos para a defesa do ponto de vista assumido no texto a ser elaborado, dentre outras condições. As temáticas tendem a abordar questões polêmicas da atualidade, discutidas, principalmente, nos meios de comunicação de massa. Esse é o caso das provas do período recortado para a análise, em que se verificam textos que abordam eleições, política, menor abandonado, preservação do meio ambiente, o uso de estrangeirismos na língua materna, etc., o que demonstra o cuidado necessário, por parte do elaborador/avaliador, ao buscar situações de usos da língua que priorizam a interdisciplinaridade, conforme recomendam os PCNEM, inclusive. Outra distinção a ser pontuada é que a prova de Produção de Textos da PUCMG sempre deixa bem delimitado quem deverá ser o recebedor do texto produzido e, às vezes, até o meio de comunicação em que o texto deverá circular: jornal, revista, Internet, dentre outras possibilidades. Tal estratégia favorece a compreensão do aluno, visto que a “funcionalidade dos discursos estipula o como e o que dizer” (PCNEM, p.21), o que sugere que todos os envolvidos em um ato comunicativo necessitam considerar o contexto, as condições de produção e de recepção, o grau de informatividade, a seleção lexical realizada, o gênero, o suporte, dentre outros fatores que contribuem decisivamente para o sucesso do ato, no caso, a interação pretendida. Nos dizeres de Charaudeau (1996, p.38), todo contrato é fruto de uma negociação em que “as condições, para nós, são estruturadas em contrato de comunicação, o qual preside toda a produção linguageira” (grifos do autor). Há ainda que se destacar que as provas de Produção de Textos da PUCMG freqüentemente exigem de seus candidatos a produção de textos que acabam por se configurar ou em uma carta ou em um artigo, exigindo a utilização da variante padrão da língua, enquanto norma a ser adotada para a construção dos textos. O grande mérito de questões elaboradas dessa forma é o fato de, ao delimitar o gênero, favorecer a compreensão da proposta para o aluno ao elaborar o seu texto, evitando que o aluno se perca diante da rede de expectativas possíveis para a sua produção de sentidos, frente ao recorte do gênero discursivo proposto. 80 As provas discursivas de Língua Portuguesa da UFMG, as quais constituem a 2ª etapa do seu vestibular que, a partir de 2003, passaram a ser chamadas de Prova de Redação, anteriormente, como já dissemos, eram chamadas de Prova de Língua Portuguesa A e Literatura Brasileira A. Essas provas eram comuns a todos os cursos e apresentam uma estrutura diferente em relação à Prova da PUCMG: elas versam sobre 3 (três) ou 4 (quatro) questões, verificando-se, também como nas provas da PUCMG, o zelo, por parte do elaborador/avaliador, que propõe questões nas quais seja possível a realização da interdisciplinaridade, já que textos apresentados como referência para a reflexão são de diversificados e veiculam conteúdos variados, a partir dos quais os candidatos deverão produzir seus textos, também de gêneros diversos, para responder ao que foi solicitado. Assim, os textos exigidos do aluno visam não só à produção de textos de natureza discursivaargumentativa, mas também de natureza narrativa, explicativa, descritiva ou dialogal. Outra estratégia comum às propostas das provas de Redação da UFMG é que, comumente, o aluno deve, para responder a uma única questão, contrapor informações sobre uma mesma temática abordada por vários textos, desde textos literários até teóricos, seja quanto aos diversos usos da língua, como por exemplo, a linguagem dos idosos, a presença dos estrangeirismos na língua materna, seja quanto às mudanças históricas refletidas pelos usos lingüísticos realizados em textos que denunciam a exploração. Há ainda a seleção de textos que, analisados devidamente, refletem dados estatísticos que confirmam as mudanças de comportamento observadas na sociedade, assim como o papel da mulher na vida política, como até o uso da língua escrita realizado na literatura de minoria. Também é comum a seleção de textos que tratam os problemas sociais de maneira humorística, como, por exemplo, as tirinhas, as charges e os quadrinhos. Assim, a seleção de textos realiza um recorte de gêneros discursivos também bastante abrangente, o que leva o aluno a produzir uma variedade de textos. Dessa forma, as provas de Redação da UFMG mantêm a mesma orientação adotada para a seleção de textos verificada também para a elaboração das provas objetivas, quando vários textos devem ser articulados pela leitura que o aluno realiza. A distinção é que a leitura que o aluno deve realizar para atingir o nível de resposta que será avaliada na prova de Redação requer um aprofundamento bem maior do que o que se verifica em relação à primeira etapa, a das provas objetivas. Além disso, conforme acontece em qualquer prova discursiva, o uso do conhecimento lingüístico, em termos de produção de texto, é mais solicitado, pois o aluno deve verificar os contrastes de usos possíveis que a língua permite, não perdendo de vista o uso estabelecido pela norma padrão. Também é interessante a 81 oportunidade que é oferecida ao aluno de maneira que ele possa se valer das várias estruturas de construção textual, pois há a possibilidade de utilização de todas: da descrição, da narração, da dissertação e da argumentação. Outra diferença é que o vestibular da UFMG propõe, para alguns cursos, como o de Letras e Artes Cênicas, mais uma prova de Língua Portuguesa, conhecida como Prova de Língua Portuguesa B e Literatura Brasileira B, cujo objetivo é realizar um aprofundamento maior em relação à leitura, à interpretação e à produção de textos, em comparação às atividades a serem realizadas pelas provas de Redação, comum a todos os cursos. Assim, as provas específicas, de maneira geral, propõem questões que exigem uma reflexão sobre o ato lingüístico, o uso das variantes lingüísticas, os gêneros cultivados pela escrita, a questão das normas adotadas bem mais pontuadas. Diante do exposto, podemos dizer que ambas as provas das instituições observadas estão coerentes com a orientação estabelecida nos PCNEM. Porém, relativamente às provas de redação, acreditamos que as estratégias empregadas para a elaboração das provas de Redação da UFMG sejam mais abrangentes, já que essa prova apresenta um maior número de questões o que, conseqüentemente, propicia um maior número de situações em que o aluno possa demonstrar suas habilidades e competências quanto aos usos sociais da língua. Assim, verificamos que as ações de correlacionar, articular sentidos, criticar, refletir, investigar, propor novos sentidos não se restringem simplesmente ao ato da leitura e da interpretação, pois não só os textos apresentados mas também os textos a serem produzidos devem refletir a situação dos contratos de comunicação possíveis de ser estabelecidos nos vários contextos de usos da linguagem. Todavia, a indagação que persiste em relação às provas, quer as objetivas quer as analítico-dissertativas, prossegue diante do que Weiss (apud HADJI, 2001, p.34) muito bem aponta: “A avaliação é primeiramente ‘problema de comunicação’ (...) uma negociação entre um avaliador e um avaliado, sobre um objeto particular e em um ambiente social dado”, ou ainda, conforme o que Hadji (2001, p.38) assevera: “a percepção que o examinador tem do desempenho é igualmente dependente do contexto social” e, sabendo que a linguagem é indicadora, inclusive, do índice de poder, torna-se fácil perceber as relações existentes entre língua e poder. Fato é que, para tratar do assunto avaliação de vestibular, para atenuar a leitura, visto que sempre prevalece o mesmo contexto, as mesmas condições de produção, pois constitui um contrato pré-estabelecido entre as partes, avaliador e candidato, achamos por bem desenvolver análise e reflexão acerca do “contrato de comunicação”, de acordo com 82 Charaudeau (1996), já que não só os textos, bem como também os enunciados das questões propostas e suas possíveis respostas sofrem diretamente as conseqüências das condições de produção e de recepção dos mesmos. Assim, prossegue Hadji (2001): “a avaliação não é um uma operação científica. A declaração do avaliador é sempre equívoca. Ela só tem legitimidade no seio de uma instituição. E – para nós, o fato fundamental – ela expressa a adequação (ou a não adequação) percebida entre a relação atual do aluno com o saber, objeto da avaliação, e a relação ideal do aluno com o saber, objeto do ‘desejo’ institucional. É em nome dessa relação ideal que é declarado o valor do aluno”. (p.34) Em outras palavras, podemos dizer que filtrar a subjetividade, é algo bastante difícil, tanto para apontar questionamentos como para respondê-los, porque os sujeitos, avaliador e avaliado, estão em circunstância de prova. Alem disso, as expectativas possíveis que consideram a informação ideal, ou seja, adequada ou possível para a interação, já passaram por um julgamento social a priori, e avaliando-se nessa informação ideal, que utiliza também uma linguagem “ideal”, que o avaliador poderá emitir o resultado da prova ao avaliado, confirmando o seu fracasso ou seu sucesso. A seguir, a exposição de um levantamento da ocorrência do tipo de competência e habilidades requeridas do candidato nas provas de 2000 a 2003, e a análise de uma das provas de cada instituição focalizada, referentes ao período recortado. 3.3 Análise interativa das provas Nesta seção apresentaremos um levantamento relativo às questões das provas de Língua Portuguesa da PUCMG e da UFMG, referentes aos vestibulares realizados no período de 2000 a 2003. Após, serão analisadas as chamadas provas objetivas e, depois, as de redação do vestibular de 2003 da PUCMG e do vestibular de 2002 da UFMG. Adotaremos, conforme já foi dito anteriormente, a abordagem sócio-interacionista da linguagem, partindo dos textos escritos propostos pelas supracitadas instituições, cujas avaliações serão examinadas sob os parâmetros da interação verbal, considerando, ainda, a noção de “contrato de comunicação”, proposta por Charaudeau (1996, p.38-39). 83 Para tratar da análise das questões, especificamente, propomos uma classificação quanto às habilidades requeridas, apresentada a seguir, orientando-nos por Britto (2001, p.230-249). Visamos analisar, por amostragem, a ocorrência de questões que priorizam os seguintes aspectos relevantes às interações propostas: a) interpretação – quando a questão requer principalmente inferências a serem realizadas a partir das pistas lingüísticas expressas no texto, observada a situação de comunicação e, conseqüentemente, o discurso pertinente ao texto, o projeto de fala, as intenções dos produtores dos textos selecionados ; b) semântico-pragmática – quando, para resolver a situação-problema apresentada, são necessárias as habilidades relativas às estratégias de construção e de organização textual, verificando-se a variação de sentido decorrente de atitudes e comportamentos de leitura e de produção textual, envolvendo, inclusive, o efeito de sentido intencionado ao se fazer uma intertextualidade; c) sintático-semântica – quando a questão, para sua resolução, remete às habilidades de reconhecimento do emprego de recursos agenciados na construção da coesão, em particular, de um determinado texto, verificando o uso adequado de conectivos, tendo em vista o sentido e a orientação argumentativa; d) referenciação – quando a questão envolve habilidades de reconhecimento do uso relativo aos processos de referenciação, tendo em vista que a seleção lexical realizada também promove a progressão textual, a atribuição de sentido, a coerência, a introdução retomada e/ou remissão aos objetos do discurso; e) variedade lingüística – quando a questão propõe como situação-problema o emprego da norma lingüística adequada ao contexto da enunciação a ser analisado, tendo em vista, fundamentalmente, o que determina a norma padrão escrita. Tais competências e habilidades requeridas pelas questões propostas pelas provas objetivam que o candidato demonstre a capacidade de identificar, comparar, relacionar, classificar, identificar fatos e fenômenos, bem como organizá-los. Todas essas habilidades são relativas à competência comunicativa, em geral, revelando, particularmente, as outras competências que a compõem: a de cunho textual, temático, pragmático e lingüístico (cf. KAUFMAN & RODRIGUEZ , 1995), que nos remetem aos níveis propostos por Charaudeau (1996) para a construção de um modelo de estruturação do ato de linguagem: situacional, comunicacional e discursivo. 84 A seguir, um levantamento das ocorrências das questões de todas as provas dos vestibulares das instituições focalizadas, no período compreendido entre 2000/2003, segundo critérios anteriormente mencionados para a classificação proposta17. 3.3.1 Levantamento da ocorrência de questões, conforme classificação proposta De acordo com as classificações anteriormente mencionadas, apresentamos um quadro com um levantamento da ocorrência de questões das provas objetivas referentes aos vestibulares da PUCMG e da UFMG, no período compreendido entre 2000 e 2003. Como a PUCMG realiza dois vestibulares por ano, temos, obviamente, um número maior de provas em relação ao que se verifica com a UFMG. Também, é importante ressaltar que as provas da UFMG apresentam uma numeração que se inicia em um número mais alto devido ao fato de que a numeração é consecutiva a de outras provas realizadas no mesmo dia da 1ª etapa, em outras palavras, a numeração é contínua: por exemplo, se a prova de uma outra disciplina teve a última questão numerada em 15, a primeira questão da prova de Língua Portuguesa será de número 16. Quanto à classificação das questões por aspectos e habilidades requeridas, tendo em vista a competência comunicativa, verifica-se que algumas questões encontram-se repetidas, porque, como a prova objetiva apresenta alternativas, em várias questões encontramos alternativas que requerem, por parte do candidato, uma análise distinta dos aspectos envolvidos o que, aliás, constituiu uma dificuldade muito grande para nos decidirmos pela classificação proposta. Por outro lado, devemos dizer, ainda, que questões que avaliam dessa forma, com alternativas que variam em relação aos aspectos considerados, assim o fazem para conseguir verificar mais itens do programa apresentado pelas instituições, já que a adoção da prova objetiva fundamenta-se na necessidade de verificar a leitura e a interpretação. Assim, considerando o que foi dito, passemos ao quadro. 17 Como algumas questões apresentam alternativas que envolvem mais de um tópico para análise, consideramos importante atribuir mais de uma classificação à questão, nesses casos. 85 Quadro 2 Na página seguinte, análise de aspectos da competência comunicativa priorizados pelas questões das provas objetivas dos vestibulares da PUCMG e da UFMG, no período de 2000-2003: Aspectos da Provas Objetivas competência Habilidades comunicativa requeridas priorizados nas PUCMG 00 01 UFMG 02 03 00 01 02 03 questões Interpretação SemânticoPragmática SintáticoSemântica Referenciação Variação Lingüística Inferência, correlação de idéias, compreensão de textos diversos Verificação do efeito de sentido produzido, inclusive, por paráfrases realizadas, intertextualidade e estratégias de construção textual Emprego dos recursos utilizados na construção da coesão Introdução retomada e/ou remissão aos objetos do discurso Usos comuns a várias normas, tendo em vista a norma padrão 1º s. 2º s. 1º s. 2º s. 1º s. 2º s. 2º s. única única única únic a 1 4 6 1 2 4 6 8 10 3 4 5 7 1 2 3 6 7 9 4 5 7 8 9 1 5 10 1 2 3 5 7 10 4 6 10 2 6 9 10 1 2 9 31 32 35 37 38 16 17 19 16 17 23 3 4 5 6 7 10 3 4 7 6 34 36 20 22 18 20 21 22 16 17 18 19 22 23 20 21 22 23 3 4 5 3 5 10 6 8 1 3 6 8 33 21 19 2 7 5 9 4 5 10 3 7 5 9 3 7 7 18 23 18 3 8 2 3 4 6 7 8 9 86 A partir da análise apresentada, verificamos que as provas priorizam: (i) questões que abordam a interpretação são as mais requeridas em pelas provas de ambas instituições, PUCMG e UFMG; (ii) questões que envolvem aspectos semântico-pragmáticos foram bastante requeridas; (iii) questões que envolvem o emprego de recursos sintático-semânticos são mais freqüentes nas provas da PUCMG; (iv) questões que recorrem, em suas alternativas, mais de um tipo de aspecto que exige habilidades distintas, são mais comuns às provas da PUCMG; (v) questões que solicitam a verificação de usos lingüísticos comuns a várias normas, são menos freqüentes, tanto nos vestibulares das duas instituições, como também ocorrem em menor número; (vi) questões que abordam a referenciação, introdução retomada e/ou remissão aos objetos do discurso, no período analisado, não foram encontradas nas provas da UFMG. Vale ressaltar que, de um modo geral, as provas objetivas consideradas nesse levantamento apontaram uma freqüência maior de questões que privilegiam a leitura, como um ato de compreensão do mundo, a partir dos textos propostos. Assim os efeitos de sentido possíveis, os usos lingüísticos, os recursos de construção da coesão, entre outros aspecto, são observados de maneira a integrar a reflexão e a análise, exigindo-se do candidato, inclusive, atitudes que manifestem o seu espírito crítico. Isso nos leva a afirmar que a interação que se pretende entre avaliador e avaliado, estabelecida por meio das provas, o fundamenta-se em um conceito de linguagem no qual se verifica a prioridade para o caráter dinâmico, social e contextualizado da língua. Ainda, é importante destacar que, em prova alguma, a habilidade de mera memorização foi requerida do candidato. Verificamos também que a leitura solicitada pelas provas constitui um processo que viabiliza a compreensão da linguagem escrita, conforme nos referimos, anteriormente, no quadro l, apresentado no capítulo 2 deste trabalho, quando apontamos algumas estratégias de leitura que, ou melhor, funciona como um processo de “des-construção” do texto que se mostra, para se buscarem as estratégias utilizadas no processo de sua produção. 87 3.4 As provas objetivas da PUCMG/ 2003 e da UFMG/2002 Contrariando uma tendência verificada nos vestibulares realizados nos últimos 4 anos, as provas selecionadas das duas instituições, PUCMG e UFMG, apresentaram, respectivamente, apenas um único texto para a leitura e análise no vestibular de 2003 e 2002. Selecionamos tais provas por uma razão metodológica, tanto para nos valer da existência de uma configuração similar para a análise e comentários a serem realizados, quanto para demonstrar que a natureza das questões persiste, da mesma forma como ocorre em outras provas, quando estas apresentam mais de um texto selecionado para a leitura e interpretação. 3.4.1 A prova objetiva da PUCMG/2003 A prova da PUCMG que iremos analisar refere-se ao vestibular do 1º semestre de 2003. Após o texto selecionado pela prova, temos um comentário, assim, também procedemos em relação a cada questão objetiva analisada. Dentro do possível, mantivemos a formatação original, inclusive, o que se refere à numeração das linhas relativas ao texto, já que tal índice é retomado nas alternativas propostas pelas questões. PROVAS DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA BRASILEIRA E PRODUÇÃO DE TEXTO – CÓD. 11 PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES DE 01 A 10 DA PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA BRASILEIRA, LEIA O TEXTO A SEGUIR COM ATENÇÃO. Rio +10 discute formas de salvar o planeta Líderes mundiais se reúnem na África do Sul para levar a teoria à prática (Eliane Cantanhêde, Folha de São Paulo, 02/09/2002) 1 Apesar de parecer óbvio, muita gente ainda não entendeu por que a Cúpula 2 Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável se chama Rio +10. Então, vamos 3 lá. A Eco-92, que se realizou no Rio de Janeiro em 1992, estabeleceu conceitos 4 e princípios para salvar o planeta. Dez anos depois, é hora de traduzir tudo isso 88 5 em metas, direitos e deveres. A Rio +10 vem para transformar o teórico em 6 prático. 7 É aí que a porca torce o rabo. Enquanto todo mundo discutia a importância 8 de salvar as florestas, os rios, o ar, a terra e as pessoas, quem iria discordar? 9 Mas, agora, é preciso dizer como, onde e com que recursos. Porque tudo isso 10 custa uma grana! 11 Foi assim que os países ricos ficaram de um lado, os países pobres ficaram 12 do outro, todos com maquininhas de somar e diminuir à mão. O líder dos 13 ricos, claro, são os Estados Unidos, que têm um velho discurso 14 preservacionista e uma prática nem tanto – são responsáveis, por exemplo, por 15 quase um quarto de dióxido de carbono que polui e mata o ar do planeta todo 16 dia um pouco. 17 E o líder dos pobres – ou “em desenvolvimento”, como diplomatas e 18 chiques preferem chamar – é o Brasil. O país pode não ter muita 19 importância quando as reuniões são sobre finanças, comércio. Mas é 20 importantíssimo quando o tema é biodiversidade. 21 O motivo é simples: trata-se do país com maior diversidade do planeta. 22 Ninguém bate o Brasil em espécies de plantas, bichos e microorganismos. Só a 23 Amazônia já diz tudo. E acrescentou dois triunfos a esse, digamos, natural: tem 24 o nariz em pé de quem sediou a Eco-92 no Rio, com sucesso, e desde então 25 tem evoluído muito na defesa do ambiente. 26 Sei que você vai dizer: “Como?!” Mas é verdade. A Amazônia queima, os 27 rios estão poluídos e há muita coisa para fazer – especialmente contra a 28 miséria. Mas os ambientalistas brasileiros são respeitados no mundo todo. 29 Além de termos talentos individuais, o governo federal vem caprichando na 30 implementação de políticas preservacionistas. Alguns governos estaduais, 31 como o do Acre, também. 32 O resultado desse movimento, que envolve governo e organizações não- 33 governamentais, reflete-se em outros setores: a própria sociedade está ligada 34 em temas ambientais. Ou, pelo menos, muito mais do que há dez anos. E os 35 empresários sempre privilegiaram os lucros, como a gente sabe, mas hoje é 36 crescente o número deles, de empresas e de setores que se dedicam seriamente 37 à defesa do ambiente. Até porque é também uma questão econômica. 89 38 “Environment is business” é o que dizem por aqui. Significa que cuidar do 39 ambiente também é negócio. Pode significar perder um pouco de dinheiro em 40 investimentos de conservação a curto prazo e ganhar muito quando eles 41 começam a fazer efeito. E o mundo lucra! 42 Exemplo: um empresário pode cortar sua madeira toda de forma predatória 43 e lucrar muito agora, mas, daqui a algum tempo, cadê a madeira? Ou pode 44 fazer um planejamento de desenvolvimento sustentável, com reflorestamento, 45 seleção de espécies, cotas, etc. 46 E o que os EUA querem? Que os países “em desenvolvimento” não façam a 47 mesma coisa, não usem nada, preservem tudo. Ótimo! Mas como irão 48 desenvolver-se? A chave é: com o desenvolvimento sustentável, dosando, 49 medindo conseqüências, pensando no futuro. 50 Para isso, precisam de recursos e de tecnologia. Essa é a grande discussão 51 aqui em Johannesburgo, África do Sul, onde os ricos tentam fechar a mão para 52 os grandes programas e dourar a pílula despejando verbas para programas 53 pontuais. 54 Para o Brasil, isso não passa de “filantropia” e a responsabilidade pela 55 preservação do planeta é muito mais sofisticada e séria do que isso. Pena que 56 George W. Bush não esteja nem vá estar por aqui. Ele não gosta desses 57 assuntinhos chatos e menores, sabe, gente? 3.4.1.1 Comentário quanto à seleção do texto Verificamos que o texto escolhido tem como temática assunto polêmico e atual, dado no título: “Rio + 10 discute formas de salvar o planeta”. É interessante observar que a abordagem do texto focado remete-se, não só a um assunto atual, mas também a textos outros que versam sobre a mesma temática, que circulam na mídia, freqüentemente. Percebemos que o leitor, como para a leitura de quaisquer textos, precisa ativar seu “conhecimento enciclopédico” (KOCH, 2002), o que lhe viabilizará não só a compreensão do texto, como também a realização da intertextualidade, visto que já no subtítulo do texto temos: “Líderes mundiais se reúnem na África do Sul para levar a teoria à prática”. Assim, é necessário que o leitor identifique qual é a teoria que se pretende levar à prática, o que permitirá a identificação do 90 objetivo mais importante relativo ao encontro. No primeiro parágrafo, verificamos a explicação do título, uma justificativa para o título atribuído ao texto, realizando, assim, a introdução do texto que foi apresentado. Quanto ao gênero textual, podemos dizer que se trata de uma resenha crítica, visto que a autora sintetiza o assunto prestigiado pelo evento acontecido na África do Sul (que constitui a informação), de acordo com seu ponto de vista, emitindo suas opiniões sobre a temática abordada, considerando ser a situação desse tipo de “contrato de comunicação” um jogo em que, o produto do intercâmbio comunicativo (o texto) tem como estratégia de produção textual o acréscimo de opiniões à informação sobre os fatos elucidados (Charaudeau, 1996). Nesse gênero textual, sabemos que é fundamental a utilização da argumentação, pois segundo Charaudeau (1996) o “projeto de fala” do produtor deve refletir, principalmente, sua intenção persuasiva, conforme verificamos no texto – a autora quer nos convencer da necessidade de os países ricos, que hoje têm capital e tecnologia, ajudar os países pobres ou em desenvolvimento (linhas 7-26) a implementarem projetos que contemplem a orientação já apresentada na Eco92, o chamado “desenvolvimento sustentável”. Os argumentos utilizados vão desde a explicação (acompanhada de juízos de valores) do porquê da presença e/ou da ausência de representantes de vários países do mundo até a questão dos investimentos necessários a implementação de projetos de preservação ambiental já apresentados na Eco92, no Rio de Janeiro. Nesse gênero textual, a marca da ideologia do sujeito produtor torna-se uma constante, revelada desde a composição textual realizada (“o motivo é simples”, “Mas é verdade – linhas 21 e 27, respectivamente) até a sugestão de ironias realizadas pelo uso, por exemplo, do diminutivo com valor pejorativo (“assuntinho” – linha 59), das aspas (“filantropia” – linha 56), de expressões coloquiais (“assuntinhos chatos e menores, sabe, gente” – linha 59), etc. Quanto à linguagem, podemos dizer que as estruturas frasais são bem próximas das utilizadas em uma exposição oral, semelhantes as que ocorrem durante uma aula, por exemplo. Além disso, o tom do texto é, relativamente, bastante didático, pois nos momentos em que ela considera haver alguma dificuldade ou que seja necessário enfatizar o raciocínio apresentado, ela se vale de frases interrogativas como estratégia para dinamizar e esclarecer conceitos, implicações decorrentes dos raciocínios, dos argumentos, enfim, das críticas construídas (linhas 9, 27, 46, 48, 59). Ainda, verificamos a citação de vários exemplos para ilustrar e explicar conceitos e raciocínios (linhas 15, 44, 50, 53). Isso, porque, durante todo o texto, há explicações e atitudes como as de retomar algo que já tenha sido dito para elucidar a compreensão ou informar o que se esqueceu ou ainda não se sabe. Também o vocabulário 91 utilizado, pressupõe-se, é bastante acessível para um candidato que já tem concluído o Ensino Médio. Até mesmo a tradução de expressões do texto ela tem o cuidado de realizar (linha 40). Finalmente, podemos dizer que a escolha do texto foi bastante pertinente, visto que, de acordo com o já abordado anteriormente (tanto nos PCNEM (1998) quanto pelos autores como Hextall, apud Gama, 1993; Luckesi, 1995; Soares, apud Gama, 1993; Perrenoud, 1999, dentre outros, o candidato, independentemente de seu desempenho, teve uma ótima oportunidade de se informar, refletir, correlacionar fatos, idéias, criticar, exercitar seu raciocínio sobre uma temática que diz respeito à sua cidadania, ao seu papel de sujeito que interage com o mundo, por meio da linguagem, em uma situação cujo “contrato de comunicação” estabelecido entre os interlocutantes tenha sido a prova. 3.4.1.2 Das questões propostas pela prova da PUCMG/2003 Vamos agora à análise das questões propostas acerca do texto, tendo em vista a classificação apresentada no quadro 2, seguida de comentários. Apontaremos a questão indicada como correta, visto não ser nosso objetivo discutir as respostas, mas apontar as habilidades requeridas e o domínio das competências solicitadas pela questão enfocada. QUESTÃO 01 - In Assinale a alternativa que descreve de forma INADEQUADA o modo como a autora trata o assunto ao longo de seu texto. a) Enquanto o 1o parágrafo tem a função de situar o tema do texto, o 2o parágrafo traz a avaliação da autora sobre a principal dificuldade vivenciada na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável. b) No 3o e no 4o parágrafos, a autora apresenta os pontos de vista que se opõem na Cúpula Mundial Rio + 10, vinculando-os aos seus países líderes. c) Entre o 5o e o 7o parágrafos, a autora discute as razões da importância do Brasil para o Encontro, comentando, ainda, as mudanças pelas quais o País passou desde a Eco-92. d) Do 8o ao último parágrafo, a autora trata das vantagens de se assumir uma atitude de defesa e preservação do ambiente. 92 Na questão 1, percebemos como intenção do avaliador verificar a compreensão do leitor no que diz respeito à organização, à articulação dos parágrafos que compõem o texto e, especificamente, como se deu a “progressão temática” (KOCH, 2002). Tal compreensão exige, por parte do avaliado, a capacidade de sintetizar o texto, segundo os objetivos propostos para cada parágrafo, objetivos os quais devem ser inferidos a partir do que foi dito pela autora, de maneira que, só assim, o avaliado poderá comparar à análise relativa aos parágrafos, apresentada pelo elaborador, para então descobrir a resposta que determina o erro de interpretação de análise feita pelo elaborador para, então, resolver a questão. Resumindo, esta questão exige, para sua interpretação, habilidades do candidato para inferir, analisar e sintetizar. A questão priorizou a interpretação e a resposta correta indicada foi a alternativa d. QUESTÃO 022 - In Dentre os objetivos da Rio + 10 salientados pela autora, estão os seguintes, EXCETO: a) transformar as projeções feitas pela ECO 92 em ações efetivas. b) encontrar soluções para que organizações, governamentais ou não, possam beneficiar-se financeiramente dos procedimentos adotados em defesa do ambiente. c) possibilitar que o Brasil mostre sua importância para que se encontrem caminhos para a defesa e preservação do planeta. d) possibilitar a discussão de diferentes formas de solucionar questões ligadas ao tema da Cúpula. A questão 2 parece-nos um desdobramento da questão 1, visto que agora, não só a articulação do texto interessa, mas, especificamente, a interpretação dos objetivos traçados no encontro dos líderes mundiais acerca da temática “meio-ambiente”. Assim, a partir de toda a leitura do texto, deverá o candidato perceber que, dentre os objetivos do encontro, não temos explicitado o objetivo de se prestigiar o Brasil por ser o país que abriga a maior biodiversidade do planeta, mas “dizer como, onde e com que recursos” (linhas 9-10) poderão ser implementadas as ações que visam à preservação do ambiente. Enfim, a questão propõe que o candidato seja capaz de distinguir: objetivos do encontro daqueles que são objetivos do texto que trata do encontro. A questão priorizou a interpretação e a resposta correta indicada foi a alternativa c. 93 QUESTÃO 03 Freqüentemente, quando produz um texto, o autor, além de fornecer seu ponto de vista, deixa que se manifestem as perspectivas de outros enunciadores. Esse fenômeno – a presença, em um texto, de outras vozes além da voz do próprio autor – é conhecido pelo nome de polifonia. Assinale a alternativa em que NÃO se manifesta a polifonia. a) A Rio +10 vem para transformar o teórico em prático. (linhas 5 e 6) b) Enquanto todo mundo discutia a importância de salvar as florestas [...] (linhas 7 e 8) c) [...] ou “em desenvolvimento”, como diplomatas e chiques preferem chamar [...] (linhas 17 e 18) d) E os EUA o que querem? Que os países “em desenvolvimento” não façam a mesma coisa [...] (linhas 48 e 49) A questão 3 objetiva que o candidato seja capaz de correlacionar o conceito dado de polifonia aos exemplos extraídos de algumas passagens do texto, apresentadas nas alternativas; solicita-se que o candidato reconheça o exemplo que não condiz ao conceito. Verifica-se aqui a habilidade do candidato para aplicar conceitos a situações concretas de usos lingüísticos, particularmente, àquelas que se referem às estratégias de construção textual. Entretanto, consideramos que a questão apresentou um grau de dificuldade maior pois, ao se trabalhar com um conceito que é mais corrente entre os estudiosos da língua, ao se apresentar uma terminologia que, com certeza, para muitos, ainda é desconhecida e porque, neste caso, situação de prova, talvez, tenha sido a primeira vez que vários candidatos tiveram contato com o conceito, concluímos que o candidato que não tivesse conhecimento prévio do assunto, provavelmente, não conseguiu a interação pretendida, valendo-se apenas do conceito exposto. Além disso, ainda poderíamos apresentar mais um outro problema: o uso da terminologia, “polifonia”, visto que, no ensino médio, o que se ensina e se aprende tem outro nome, discurso direto, indireto ou, ainda, indireto-livre e, como sabemos que o uso de terminologias distintas, na maioria das vezes, constitui obstáculo à compreensão, podemos dizer que as dificuldades foram acrescidas. Assim, por tudo isso, ponderamos que tal questão encaixa-se naquilo que Britto (1997, p.221) diz: “não está em questão” se o candidato “concorda com a resposta, mas sim achar aquela admitida como correta”, visto que, somente com o conceito dado, o candidato não 94 tem como se fundamentar para orientar sua própria interpretação, mas apenas buscar aquela que considera como sendo a possível resposta correta. A questão priorizou aspectos semântico-pragmáticos e a alternativa indicada como correta indicada foi a de letra a. QUESTÃO 04 Uma das estratégias freqüentemente utilizadas para manter uma relação de proximidade com o leitor é estabelecer um diálogo direto com ele. Assinale a alternativa em que o trecho extraído do texto tenha essa função. a) Porque tudo isso custa uma grana! (linha 10) b) Sei que você vai dizer: “Como?!” (linha 27) c) Até porque é também uma questão econômica. (linhas 38 e 39) d) E o mundo lucra! (linha 43) A questão 4 objetiva verificar a habilidade do candidato identificar, dentre as alternativas apresentadas, qual a passagem do texto que apresenta a estratégia de construção textual que aponta a realização de um diálogo direto com o leitor do texto. Assim, dentre as alternativas propostas para a análise, temos a estrutura frasal de natureza interrogativa que, além de se dirigir diretamente ao leitor do texto “Sei que você vai dizer: “Como?!” (linha 27), também sugere que o candidato realize inferências que o levem a perceber que o Brasil tem evoluído no que diz respeito à preservação do meio ambiente, embora, o que tem se feito seja quase imperceptível, se considerado diante do que ainda é necessário fazer pela preservação da natureza. Aqui, vale lembrar Charaudeau (1996), que nos diz em seu postulado da intencionalidade sobre a importância do “reconhecimento do saber fazer” que provoca a credibilidade a qual, segundo o “olhar avaliador” (ou seja, de qualquer interlocutor) pode ligar e constituir os sujeitos interlocutantes, em uma situação de linguagem, ou seja, o conhecimento, o saber utilizar tal estratégia, no sentido de ativar, chamar o outro a participar da interação proposta, o que, por sua vez, viabiliza a intenção. A questão trabalha aspectos semântico-pragmáticos e a resposta correta indicada foi a alternativa b. 95 QUESTÃO 05 Nos estudos sobre as diferentes línguas, a equivalência de sentido é compreendida, genericamente, como a possibilidade de um vocábulo ou uma expressão substituir outro(s) elemento(s) do texto. Todas as alternativas apresentam trechos em que autora utiliza expressão ou segmentos que mantêm equivalência de sentido com um elemento ou enunciado precedente, EXCETO: a) E o líder dos pobres – ou “em desenvolvimento”, como diplomatas e chiques preferem chamar [...] (linhas 17 e 18) b) Significa que cuidar do ambiente também é negócio [...] (linhas 40 e 41) c) [...] dosando, medindo conseqüências, pensando no futuro. (linha 51) d) [...] onde os ricos tentam fechar a mão para os grandes programas [...] (linhas 53 e 54) A questão 5 propõe a verificação da habilidade do candidato para reconhecer a equivalência de sentido entre palavras e expressões, em contextos definidos pelo próprio texto, os quais justificam os usos realizados pela autora. É uma questão que envolve não só o conhecimento de mundo, mas também o de ordem pragmática, pois apenas a remissão ao próprio texto para reconhecer os contextos em que as palavras e expressões foram utilizadas não é satisfatória e nem constitui um mecanismo de análise suficiente para a resolução da questão, visto ser necessário identificar que existe uma intenção do produtor relativamente à seleção lexical que realiza: enfatizar, esclarecer, atualizar, alternar, etc. A questão priorizou aspectos semântico-pragmáticos e a resposta correta indicada foi a alternativa d. QUESTÃO 06 Em todas as alternativas apresentadas a seguir encontram-se trechos em que a autora avalia aquilo que disse imediatamente antes ou o que dirá em seguida, EXCETO em: ]a) Apesar de parecer óbvio [...] (linha 1) b) Então vamos lá. (linha 3) c) É aí que a porca torce o rabo. (linha 7) d) O motivo é simples [...] (linha 21) 96 A questão 06 propõe que o candidato seja capaz de distinguir o que é informação daquilo que é opinião sobre o assunto informado, ou, ainda, distinguir o que é recurso de coesão utilizado para dar prosseguimento ao texto daquilo que é informação ou opinião sobre a informação. É oportuno dizer que o candidato deve reconhecer que a manifestação de opiniões pode ser expressa por meio do uso de um adjetivo (“simples”), de uma expressão (“a porca torce o rabo”, “apesar de parecer óbvio”), de um argumento, de um diminutivo, etc. A questão priorizou o aspecto da variação lingüística e a resposta correta indicada foi a alternativa b. QUESTÃO 07 Em artigos de jornais e revistas, o recurso a expressões populares, além de possibilitar um tom informal para o texto, tem a função de aproximar autor e leitor. Assinale a alternativa em que esse fenômeno NÃO ocorre. a) E o líder dos pobres [...] (linha 17) b) Ninguém bate o Brasil em espécies de plantas [...] (linha 22) c) [...] tem o nariz em pé de quem sediou a Eco-92 [...] (linha 24) d) [...] onde os ricos tentam fechar a mão para os grandes programas [...] (linhas 53 e 54) A questão 7, além de propor ao candidato uma análise das estratégias de construção textual que busca realçar a função de determinados recursos para aproximar autor e leitor, promovendo a interação de forma mais direta, propõe, ainda, uma reflexão sobre os usos lingüísticos constantes dos textos que circulam em jornais e revistas: o uso coloquial da língua. Assim, verificamos que o elaborador apresenta a importância do uso de uma norma lingüística até mesmo como estratégia para a construção de um texto. Dessa forma, sem realizar qualquer juízo de valor sobre a norma adotada (coloquial), ele demonstra que a variação lingüística é algo natural e que o conceito de linguagem subjacente ao ato de elaborador da prova, desde a escolha do texto até a forma como as questões solicitam o conhecimento acerca da língua, prioriza as interações sociais. Assim, a norma coloquial que, freqüentemente, tem sido vítima de preconceito no meio acadêmico, principalmente, quando se trata de prova de língua portuguesa, em cujas questões se exige tão somente que o candidato verifique o desvio cometido pelo produtor do texto em relação à norma padrão, não é a tônica verificada no enunciado desse tipo de questão. A questão priorizou aspectos relativos à variação lingüística e a resposta correta indicada foi a alternativa a. 97 QUESTÃO 08 Assinale a alternativa em que o conectivo mas estabelece o mesmo tipo de relação sintáticosemântica encontrada no trecho que segue, retirado do texto: “A Amazônia queima, os rios estão poluídos e há muita coisa para fazer – principalmente contra a miséria. Mas os ambientalistas brasileiros são respeitados no mundo todo”. (6o parágrafo) a) O país pode não ter muita importância quando as reuniões são sobre finanças, comércio. Mas é importantíssimo quando o tema é biodiversidade. (linhas 18, 19 e 20) b) Sei que você vai dizer: “Como?!” Mas é verdade. (linha 27) c) [...] um empresário pode cortar sua madeira toda de forma predatória e lucrar muito agora, mas, daqui a algum tempo, cadê a madeira? (linhas 44, 45 e 46) d) Ótimo! Mas como irão desenvolver-se? (linhas 49 e 50) Na passagem transcrita para a análise proposta pela questão 8, temos o emprego do mas para introduzir um período cuja idéia se opõe à idéia anterior, realçando a contradição existente: os graves problemas ambientais contra o respeito mundial para com os ambientalistas brasileiros, o que sugere um efeito de sentido de contradição: como um país pode ter renomados ambientalistas e, concomitantemente, enfrentar problemas tão graves que levam esse mesmo país a uma situação crítica, no que diz respeito ao meio ambiente? A questão solicita que o candidato verifique o uso idêntico realizado, pela autora, em outra passagem do texto. Assim, a questão propõe a verificação do conhecimento relativo ao uso dos conectivos, focando, particularmente, o conectivo mas. Dentre as quatro alternativas propostas, verificamos que os usos apresentados ou têm o objetivo de enfatizar aquilo que foi afirmado anteriormente e que pode causar estranhamento, alternativas b e d, ou, ainda, para expressar uma contrajunção, envolvendo, inclusive, uma relação de conseqüências possíveis diante da atitude do ser humano, no decorrer do tempo, relativamente ao uso de recursos naturais, conforme se afirma na alternativa c. em outros termos, a relação causa/conseqüência expressa na alternativa c, refere-se à ligação estabelecida entre aquilo que se afirma explicitamente, o que o empresário, hoje, pode fazer – cortar a madeira e lucrar muito -, com 98 aquilo que se pode concluir, a partir do explicito – o empresário, no futuro, não terá como lucrar, visto que faltara a madeira. A relação é chamada de sintático-semântica porque o uso implica relações de natureza sintática, ou seja, diz respeito ao arranjo dos elementos no interior da frase, e implica ainda conhecimento semântico, isto é, de sentido. Essa questão envolve conhecimentos lingüísticos mais restritos, principalmente, os relativos ao uso da língua escrita. A questão priorizou aspectos sintático-semânticos e a resposta correta indicada foi a alternativa d. QUESTÃO 09 Assinale a alternativa que apresenta análise INADEQUADA do texto. Nele, a autora: a) concorda com os países ricos com relação ao fato de que os países pobres ou em desenvolvimento devem preservar suas riquezas, mas acredita que isso só é possível com investimentos vindos, inclusive, dos países ricos. b) acredita que as ações de defesa e preservação ambiental são muito mais do que filantropia, são uma necessidade e têm efeitos sociais e econômicos para o planeta. c) dá exemplos de que os órgãos governamentais e não governamentais dos diferentes países envolvidos na Cúpula estão limitados a discutir mais do que agir quando se trata da preservação ambiental. d) faz abordagem crítica do assunto, uma vez que, mais do que relatar os fatos, comenta-os segundo seu modo de compreendê-los. A questão 9 propõe a interpretação do texto, pressupondo que o leitor tenha habilidade para inferir e verificar a pertinência da análise apresentada pelo elaborador, expressa pelas alternativas propostas em relação ao ponto de vista adotado pela autora, em diversos momentos do texto. Para resolver essa questão, o candidato deve buscar entre as alternativas aquela que não mantém a coerência com a opinião emitida pela autora, tendo em vista a temática e as proposições apresentadas pelo texto. Porém, o parâmetro para a identificação da resposta correta deve ser tão somente o texto, que deve ser buscado como referência para a sustentação da análise solicitada no enunciado da questão. A questão propôs a interpretação e a resposta correta indicada foi a alternativa c. 99 QUESTÃO 10 Assinale a alternativa em que a referência do pronome isso nas linhas indicadas NÃO tenha sido apontada corretamente. a) linha 5 => conceitos e princípios para salvar o planeta. b) linha 10 => salvar as florestas, os rios, o ar, a terra e as pessoas. c) linha 52 => que os países “em desenvolvimento” não façam a mesma coisa, não usem nada, preservem tudo. d) linha 58 => “filantropia”. A questão 10 traz para a avaliação a proposta de análise do emprego de um procedimento comum ao mundo discursivo, constitutivo do texto e do sentido: a referenciação. Esse recurso pode ser utilizado para evitar repetições, já que permite a retomada de palavras e/ou idéias anteriores e, às vezes, tem o objetivo de resumir, enfatizar, articular sentidos. É um recurso típico à construção de textos – sugere-se algo e o representa, dentro do mundo discursivo – nos dizeres de Koch (2002, p.79), são “as entidades designadas” tão somente “vistas como objetos-de-discurso e não como objetos-do-mundo”. A questão priorizou o aspecto da referenciação que envolve habilidades que permitam verificar a introdução, a retomada e/ou remissão aos objetos do discurso. A resposta correta indicada foi a alternativa c. Terminada a exposição da Prova de Língua Portuguesa, vamos analisar a prova de Produção de Texto, apresentada pelo vestibular da PUCMG, 1º semestre de 2003. 100 3.4.1.3 A prova de Produção de Texto da PUCMG/2003 IMAGINE A SEGUINTE SITUAÇÃO: Durante a Rio+10, um grupo de jovens representantes de diferentes ONGs (Organizações não Governamentais) dos países envolvidos no encontro decidiu deixar a sua contribuição para o mundo através da elaboração de textos dirigidos às crianças e adolescentes do futuro. A caixa em que esses textos serão depositados só será aberta daqui a cem anos, ou seja, no ano de 2102. O objetivo da ação desses jovens é fazer um balanço sobre a situação atual em que o Planeta se encontra, refletindo sobre os principais problemas de preservação da Terra, tanto com relação à natureza quanto no que toca à convivência social, no intuito de sensibilizar a população do futuro, especificamente o segmento almejado, com relação à importância de sua participação consciente para a construção de um mundo melhor. Você foi escolhido para escrever um desses textos, representando o ponto de vista dos jovens brasileiros, e deve transcrevê-lo para a folha de redação. Para a produção de seu texto, leve em conta que: a) ele será lido por pessoas que não vivem este presente e, por isso, não necessariamente conhecem, com profundidade, a realidade brasileira atual e o momento sócio-histórico ao qual se prende o texto; b) diferentes gêneros textuais são adequados para a execução da tarefa proposta, dentre os quais se destacam o artigo, o manifesto, a carta e a crônica; c) o propósito central da produção desse texto é persuadir o leitor a se comprometer, de forma ética e responsável, com o mundo em que vive. 101 3.4.1.3.1 Análise da proposta de produção de texto A proposta é bastante interessante, pois oferece todas as condições de produção que o produtor do texto, no caso o candidato, necessita para se orientar. Oferecer tais condições, nos dizeres de Charaudeau (1996, p.35), quer dizer: situar o ato de linguagem nos diferentes níveis: situacional, comunicacional e discursivo, o que possibilitará responder às perguntas: (i) no nível situacional –: “para que dizer ou fazer? quem fala a quem? a propósito de quê? em que quadro físico de espaço e tempo?”; (ii) no nível comunicacional – “como dizer?”; (iii) no nível discursivo, o qual pressupõe que o sujeito realize um “conjunto de atos de discurso” (Ibidem, p.36) que contemplem: “a legitimidade (princípio de alteridade), a credibilidade (princípio de pertinência) e de captação (princípios de influência e de regulação)”. Talvez, para o candidato, a maior dificuldade consista no fato de ter que escrever algo para um recebedor que ele tem de construir, ou seja, para o candidato a dificuldade está em imaginar como será o seu leitor futuro, o que, exatamente, por outro lado, é o aspecto inovador no que diz respeito à situação comunicativa proposta em uma prova de redação de vestibular: o texto escrito, imaginariamente, só poderá ser aberto por um leitor daqui a cem anos. Porém, a essa circunstância, é acrescida, ainda, a dificuldade seguinte: ao mesmo tempo em que o candidato imagina o leitor futuro ele deverá escrever um texto que será avaliado pelo leitor da prova (o avaliador). É interessante observar que o avaliador teve o cuidado de enfatizar que o candidato deverá ficar bastante atento à questão espacial e temporal, visto que essas circunstâncias irão trazer implicações consideráveis para a compreensão do texto como, por exemplo, informações relativas ao contexto sócio-histórico-cultural do Brasil nos dias atuais que possam contextualizar a leitura a ser realizada no futuro. Para o sucesso do produtor ao empreender tal tarefa, ele deverá reconhecer o objetivo da proposta e, fundamentalmente, distinguir as informações imprescindíveis daquelas secundárias, tendo em vista, inclusive, a extensão proposta para o texto e o tempo disponível para a construção do texto. Quanto ao gênero de texto proposto, foi oferecida uma variedade: artigo, manifesto, carta ou crônica, o que deixa o produtor um pouco mais à vontade para produzir o texto no gênero com o qual mais se identifica ou que tem maior facilidade de expressão. Outro aspecto ressaltado pelo avaliador é que o produtor do texto deverá persuadir o leitor futuro no sentido 102 de fazer com que ele se comprometa com o mundo em que vive, defendendo a preservação do meio ambiente de maneira ética e responsável. Quanto ao ponto de vista a ser adotado pelo produtor, instrui a questão que o texto deve refletir o ponto de vista da juventude brasileira atual, o que implica conhecimento acerca do posicionamento crítico dessa juventude frente aos problemas de diversas naturezas: econômicos, de convivência social entre as pessoas e com a natureza, bem como a necessidade de preservação do meio ambiente. O candidato deverá refletir sobre os sonhos dos jovens, sobre suas críticas, sobre a necessidade de ações imediatas para a preservação da natureza, etc., enfim, tudo, que possa apresentar um balanço não só do Brasil, mas da situação do Planeta nos dias atuais, em seus variados aspectos. Finalizando, consideramos a proposta bastante pertinente e eficaz, além de bem elaborada, inovadora, atual, atenta às circunstâncias de produção e enriquecedora no tocante à reflexão proposta pela temática abordada. Também consideramos muito positivo o fato de, em situação de prova, haver uma articulação temática trabalhada pela prova objetiva e a proposta pela prova de redação. Consideramos esse ponto um mérito dessa prova porque, talvez, o fato de a PUCMG realizar em um mesmo dia as duas provas (de questões objetivas e de redação), poderia esse fato não constituir algo favorável ao candidato, caso ambas as provas solicitassem interpretação e produção de textos acerca de temáticas distintas, visto que o candidato ficaria envolvido com o trabalho de interpretação referente a uma temática qualquer e a produção de seu texto privilegiaria outra temática, o que poderia significar uma dificuldade maior para o candidato, que deveria operar com várias informações e redes de raciocínios distintas, ao mesmo tempo, tendo em vista, principalmente, o contrato de comunicação estabelecido: prova. 3.4.2 A prova objetiva da UFMG/2002 A prova da UFMG que iremos analisar refere-se à 1ª etapa do vestibular realizado em 2002. assim como procedemos para a análise da prova da PUCMG, faremos, primeiramente, um comentário acerca do texto selecionado para a prova objetiva da UFMG, para, depois, apresentarmos a análise das questões, segundo os aspectos priorizados, verificamos a partir das habilidades requeridas para a resolução da prova. 103 INSTRUÇÃO: As questões de 16 a 23 devem ser respondidas com base no Texto 1. Leia atentamente todo o texto, antes de responder a elas TEXTO 1 5 10 15 20 25 30 35 40 45 No quarto de dormir de minha avó materna havia um móvel, com gavetinha e espelho, que todos na casa chamavam, sem qualquer afetação ou pedantismo, de coiffeuse. Na sala de jantar, guardavam-se os pratos em uma étagère. A étagère foi substituída, nos lares modernos, por um simpático aparador; a coiffeuse virou penteadeira e hoje praticamente desapareceu da vida cotidiana por falta de espaço. Os galicismos estão totalmente esquecidos. Naqueles mesmos tempos de minha infância, eu gostava de um sport que se chamava football e meu sonho era ser goalkeeper, embora a posição de center-forward me encantasse pela possibilidade de fazer muitos goals e influir no score, que era registrado no placard. Não precisa dizer que hoje o esporte se chama futebol, o goleiro defende a baliza e o ponta-de-lança faz muitos gols e vê seu nome se acender no placar eletrônico. Esses anglicismos já não mais o são. Quando menino, fantasiei-me no carnaval, ao final da guerra, de pracinha – homenagem da moda aos soldados brasileiros (praças) que lutaram na Europa – e de cowboy, que alguns já queriam apelidar de vaqueiro. Hoje ninguém saberia o que era uma fantasia de pracinha, e o caubói existe sim, para designar o vaqueiro americano. Na minha juventude eu ia às boîtes, não a night-clubs ou cabarets, e tentava dançar o twist e o rock’n roll. Hoje, fala-se de baile funk, cantam-se raps, mas ainda existem boates e festivais, não se sabe de rock ou já de roque. Já cabarés e naitesclubes soam a coisas velhas, e quem vai nadar domingo na piscina do clube nem se lembra dos antigos e seletos clubs, como ainda aparecem hoje no nome de Jockey Club ou o Yacht Club. Os estrangeirismos mudaram com a moda. Dizem que foi um lord, quer dizer, um lord inglês, com o título de Sandwich, quem, para naos se levantar da mesa de carteado, teve a idéia de alimentar-se comendo carne, presunto, queijo e folhas entre fatias de pão. O sofisticado nobre britânico seria o inventor daquilo que hoje, no Brasil, se chama, bem brasileiramente, de sanduíche e que corresponde, em Portugal, ao substantivo feminino sandes, palavra que lembra melhor ao ouvido o original inglês, em que a sílaba tônica é a primeira. Uma sandes é o mesmo que um sandwich e que um sanduíche. A invenção do lorde toma forma diferente para ser conhecida em dois paises que falam a mesma língua. Palavras e expressões vão e vêm. Umas incorporam-se definitivamente à língua portuguesa, traduzidas ou com a grafia modificada, e vão, nacionalizadas, repousar nos mais respeitáveis dicionários do vernáculo. Outras são simplesmente rejeitadas ou caem, com o tempo, em desuso. Agora, diz-se que anda pelo Congresso uma lei proibindo o uso de estrangeirismos. O ditador italiano Benito Mussolini, cujos métodos lembram por vezes alguns políticos proeminentes no Brasil da atualidade, tentou e conseguiu com força e terror abolir do sonoro idioma de Dante alguns, não todos, estrangeirismos. Na Itália, ate hoje, o futebol se chama calcio (pontapé) e lamenta-se que Baggio tenha perdido em 94 não um pênalti, mas um rigore. 104 50 55 60 65 Sou carioca (em tupi-guarani “a casa do homem branco”) e, embora torça pelo Flamengo, sou, de nascimento, fluminense (invenção a partir do latim flumen – rio, para designar os naturais do Estado do Rio de Janeiro). Gosto de minha terra e do meu idioma. Gosto das praias e dos bairros de Ipanema (do tupi-guarani), Copacabana (do idioma dos antigos incas) e Leblon (que não nega no “n” fina sua origem francesa). Uma das grandes riquezas culturais de nossa terra brasileira é essa força de terra nova, que absorve, aproveitando, influencias culturais de várias fontes. Aqui, além de feijoada, se come pizza, spaghetti, sushi, fondue, sanduíche, paella, strogonoff, churros, steaks, quiches e todo o variado menu (cardápio) que oferece a velha China. Os idiomas vivem, como os organismos, os seres humanos, s cidades, os bairros e as praias. Tentar, por lei, colocar em trilhos o processo espontâneo de evolução da língua portuguesa, para evitar uma suposta contaminação por estrangeirismos, é querer tirar de um organismo vivo o que de mais belo a vida tem – a espontaneidade. Não andamos mais de bonde (do inglês bond – papel, título de credito, colocado no mercado para financiar a companhia que os criou), mas, por favor, não nos proíbam de, como os parisienses, andar de metrô. LACERDA, Gabriel. O Globo, Rio de Janeiro, 19 abr. 2001. Opinião. p.7 (Texto adaptado) 3.4.2.1 Comentário quanto à seleção do texto: Verificamos que o texto escolhido traz como temática também um assunto polêmico e atual: a freqüência do uso de palavras estrangeiras na língua portuguesa, tendo em vista o projeto de lei apresentado que pretendia impedir o uso de estrangeirismos. É interessante observar que a abordagem feita remete a contextos históricos diversos até chegar aos dias atuais, e a marcação do tempo refere-se não só a momentos distintos verificados na trajetória da utilização da língua pelos seus usuários, mas também a informações e experiências retidas pela memória do narrador que promove uma articulação entre o tempo subjetivo e o tempo objetivo, funcionando, no texto, como uma estratégia tanto para exemplificar como para dar o seu testemunho de que a “importação” de palavras constitui algo natural no processo de 105 evolução, não só da língua portuguesa, como de qualquer outra língua. Assim, elucida o narrador que a explicação para a existência do processo é simples: a língua portuguesa “importa” palavras, segundo a influência político-cultural e as necessidades de cada época, fato que, portanto, nos dias atuais, não é novo e nem muito menos raro. Subjacente ao texto, encontramos o conceito de língua e linguagem do produtor: a linguagem tem a função de permitir a interação social entre as pessoas, a língua é um meio que viabiliza essa interação, é dinâmica, está viva, por isso se modifica no tempo e no espaço para satisfazer as necessidades sociocomunicativas daqueles que a utilizam. Verificamos, ainda, que para o leitor compreender o texto, ele precisa ativar seu “conhecimento enciclopédic e textualo” (KOCH, 2002), para que se possa realiza a intertextualidade, comum a diversas passagens do texto. Nesse sentido, podemos dizer que a intertextualidade é imprescindível à compreensão de todo o texto, como abstrair o ponto de vista adotado pelo narrador – o de que a presença de estrangeirismos não prejudica a continuidade da existência de uma língua, que isso não interfere no sistema fonológico, na sua estrutura, na sua essência. Considerando o que foi dito, podemos afirmar que o narrador defende que as alterações observadas apenas no vocabulário não “desconfiguram” as línguas quanto à sua organização. Para ilustrar o que afirmamos, como exemplifica o primeiro parágrafo do texto (linhas 1-5), o movimento de “entrada e saída” de palavras é natural e decorrente do contexto de cada época: assim como já houve uma fase em que os galicismos foram bastante freqüente, hoje, muitos deles caíram em desuso, como é o caso de coiffeuse que, ate mesmo em conseqüência do espaço de moradias modernas, não é mais utilizada. Outro aspecto importante a ser ressaltado na análise do texto diz respeito a metalinguagem realizada, pois há o objetivo em esclarecer para o leitor porque algumas palavras passam a integrar o vernáculo e outras, simplesmente, desaparecem, não chegando sequer a serem traduzidas ou terem a sua grafia modificada, ou, nas palavras do texto “nacionalizadas” (linhas 35-39). Quanto ao gênero textual, podemos dizer que se trata de um texto que se caracteriza como crônica, embora não estejamos de posse do texto original, visto que se trata de uma adaptação, o que implica alterações promovidas no texto, segundo a ótica do elaborador da prova. Assim, partindo do texto que temos em mãos, verificamos que o episódio da lei que tentaria impedir o uso de estrangeirismos o motiva a narrar cenas de sua infância, da juventude, de sua vida adulta até os dias atuais, de acordo com seu ponto de vista, como estratégia de ilustrar e fundamentar a sua crítica acerca da temática. Os argumentos utilizados vão desde a explicação diacrônica do fato lingüístico, exemplificados durante todo o texto, até 106 a questão ideológica subjacente à criação de uma lei que, por si mesma, ele já considera de natureza autoritária e inconsistente, inclusive, contraditória à própria formação da cultura brasileira, que tem como traço marcante a fusão de hábitos, costumes e tradições oriundas das várias etnias que compõem o povo brasileiro, o que, inegavelmente, seria um absurdo a língua deixar de refletir (linhas 53-57). Para a construção de textos dessa natureza também é fundamental a utilização da argumentação, pois o “projeto de fala” do produtor deve traduzir, principalmente, sua intenção persuasiva (CHARAUDEAU, 1996), conforme podemos verificar no texto em análise – o autor quer nos convencer de que o estrangeirismo é algo natural à evolução de qualquer língua e qualquer lei que se fundamenta no exercício do preconceito, que tenta impedir um comportamento natural da sociedade, é inconsistente, pois viola o princípio da liberdade de expressão. Afinal, se é função da linguagem promover a interação social e, claro, se alguma lei tenta impedir a interação, estamos negando a existência da linguagem o que, conseqüentemente, significa negar o sujeito, a sua identidade. O texto analisado apresenta opinião e informação, que somadas à presença do narrador em primeira pessoa, à marcação temporal, dentre outros fatores, leva-nos a classificá-lo como uma crônica. Esse gênero textual, em eu se verifica a evolução da narrativa no tempo e no espaço, pressupõe um “contrato de comunicação” em que se mobilizam as estratégias que atendam aos “objetivos comunicativos” (CHARAUDEAU, 1996), como a persuasão, por exemplo, visto que o produtor do texto pretende que o leitor possa entender não somente as informações, os argumentos e os exemplos que apresenta, mas também que passe a compartilhar de sua opinião. Assim, percebemos que o texto, quanto ao gênero trabalhado, que, necessariamente, utiliza a narrativa como estrutura de composição, está a serviço da defesa de uma opinião, o que, por outro lado, leva-nos a concluir que a estratégia do produtor de se valer de um fato cotidiano, o uso de estrangeirismos, funciona como um pretexto para a expressão da subjetividade e da opinião do produtor, para a criação do texto apresentado. Quanto à linguagem, podemos dizer que o vocabulário utilizado, embora o texto esteja recheado de estrangeirismos, é bastante acessível, pois o autor cuida de fazer “traduções” necessárias, permitindo ao leitor o acompanhamento de toda a exposição apresentada, citando, inclusive, exemplos que ilustrando exemplos que ilustram e explicam os conceitos e raciocínios realizados (linhas 27, 47-50, etc.). Quanto à ilustração que entrecorta o texto da prova, temos presente o uso da linguagem não-verbal a reforçar a crítica apresentada pelo texto verbal. Percebe-se também a estratégia de colocação do mesmo: aproximadamente, no meio do texto. Chama-nos a atenção os 107 cadeados prendendo a língua de todas as pessoas, sejam homens ou mulheres, negros ou brancos, de maneira a impedir a interação entre as pessoas que se vêem condenadas ao isolamento, porque não podem se comunicar, embora estejam na cidade, lugar em que se presume a evolução de todas as criações humanas – o contraste entre evolução e aprisionamento sugere o contra-senso proposto pela lei. Também é interessante destacar que, embora seja mais alto o plano em que se encontram as pessoas no desenho, elas se tornam insignificantes diante da lei que determina o uso do cadeado (símbolo do aprisionamento), situação absurda que contraria a essência da existência humana: a de se afirmar como sujeito na e pela linguagem. Finalmente, podemos afirmar que a escolha do texto foi bastante pertinente, assim como o texto da prova da PUCMG, visto que, de acordo com o já abordado anteriormente, no capítulo 3 – tanto nos PCNEM (1998) quanto pelos autores como Hextall (apud GAMA 1993), Luckesi (1995), Soares (apud GAMA, 1993), Perrenoud (1999), dentre outros – o candidato, independentemente de seu desempenho, teve uma ótima oportunidade de se informar, refletir, correlacionar fatos, idéias, criticar, exercitar seu raciocínio sobre uma temática que diz respeito à sua cidadania, ao seu papel de sujeito que interage com o mundo, por meio da linguagem, em uma situação cujo “contrato de comunicação” estabelecido entre os interlocutantes tenha sido a prova. A seguir, apresenta-se a análise das questões propostas acerca do texto, de acordo com a mesma classificação proposta no quadro 2, igualmente ao que foi feito com a prova da PUCMG. 3.4.2.2 As questões propostas pela prova objetiva da UFMG/2002 Tendo adotado os critérios para classificação, conforme já exposto, anteriormente, vamos agora à análise das questões relativas ao texto selecionado pela prova. È importante lembrar que a numeração inicia-se em 16, porque há uma seqüência em relação a questões anteriores de outra prova, de outra área do conhecimento distinta da de Língua Portuguesa. Também, é válido ressaltar que a partir da questão de número 24, inicia-se a prova de Literatura, da qual não trataremos. QUESTÃO 16 108 Considerando-se o posicionamento do autor em relação ao uso dos estrangeirismos, é CORRETO afirmar que ele a) analisa a pouca incidência de empréstimos vocabulares no vernáculo. b) deprecia a incorporação de palavras estrangeiras ao português. c) procura ressaltar o dinamismo inerente aos idiomas. d) questiona os anglicismos e galicismos presentes no português. Na questão 16, consideramos que a intenção do avaliador foi a de verificar a compreensão do candidato não só no que diz respeito à identificação do posicionamento do autor em relação ao uso dos estrangeirismos, como também do conceito de língua subjacente a ele. Essa questão constitui um exercício de interpretação, já que o que se pretende é verificar as inferências que o candidato está apto a realizar. A questão priorizou a interpretação e a resposta correta indicada foi a alternativa c. QUESTÃO 17 Todas as seguintes afirmativas podem ser confirmadas pelo texto, EXCETO a) a evolução lingüística é um fenômeno natural que ocorre nas línguas vivas. b) a importação de palavras, independentemente da sua origem, é incentivada pelo autor. c) as palavras costumam sofrer adaptações ao serem ncorporadas a um novo idioma. d) uma palavra estrangeira pode resultar em diferentes formas numa mesma língua. A questão 17 tem como objetivo verificar a compreensão do candidato acerca do texto, pressupondo que ele tenha habilidade de realizar algumas inferências que se confirmam no texto, visto que o candidato deverá excluir a alternativa que não encontre fundamentação no texto proposto. Assim, o parâmetro para a identificação da resposta correta deve ser tão somente o texto, que deve ser buscado como referência para a sustentação da análise solicitada no enunciado da questão. A questão priorizou a interpretação e a resposta correta indicada foi a alternativa b. QUESTÃO 18 109 Todas as alternativas apresentam passagens do texto que ilustram o desaparecimento espontâneo de uma palavra ou expressão, EXCETO a) ... a coiffeuse virou penteadeira e hoje praticamente desapareceu... [linha 5] b) A étagère foi substituída, nos lares modernos, por um simples aparador...[linhas4-5] c) Hoje ninguém saberia o que era uma fantasia de pracinha... [linhas17-18] d) ...lamenta-se que Baggio tenha perdido em 94 não um pênalti, mas um rigore. [linhas 4546] A questão 18 tem como objetivo verificar a habilidade de inferência do candidato, que deverá excluir a alternativa que não confirma o proposto no enunciado da questão: reconhecer qual dos exemplos recortados do texto, apresentados pelas alternativas, cujas palavras estrangeiras ou expressões tenham desaparecido espontaneamente dos vernáculos, português ou italiano. A interpretação a ser realizada exige, apenas, que o candidato se oriente pelas passagens do texto, destacadas nas alternativas. A dificuldade de solução da questão reside, principalmente, na alternativa d, visto que o trocadilho entre as palavras pênalti (em português) e rigore (em italiano), visto que apresentam equivalência de sentido, sendo essa a condição para a realização de inferência, o que garantirá ao candidato a interpretação adequada. A questão priorizou aspectos semântico-pragmáticos e a resposta correta indicada foi a alternativa d. QUESTÃO 19 Em todas as alternativas, as palavras destacadas podem ser substituídas pelas expressões entre parênteses, sem alteração do seu sentido original, EXCETO a) ... meu sonho era ser goalkeeper, embora a posição de center-foward me encantasse... [linha 9-10] (=AINDA QUE) b) Hoje, fala-se de baile funk, cantam-se raps, mas ainda existem boates e festivais...[linhas21-22] (=PELO MENOS) c) Já cabarés e naiteclubes soam a coisas velhas... [linha 23] (=ENTRETANTO) d) ...e quem via nadar domingo na piscina do clube nem se lembra dos antigos e seletos clubs, como ainda aparecem hoje no nome do Jockey Club... [linhas 23-25] (=DA MESMA FORMA) 110 A questão 19 visa que o candidato seja capaz de identificar não só o valor semântico dos vocábulos destacados, mas também a relação que esses estabelecem entre as orações as quais articulam e assim, poder substituí-los, sem prejuízo, sintático e semântico. É uma questão que engloba conhecimentos de natureza estritamente lingüísticos, referentes à coesão e à coerência, verificando-se relações de sentido diversas, a partir de contextos estabelecidos nas passagem destacadas, uma vez que cada alternativa propõe um tipo de relação, conforme se segue: a) na segunda oração temos destacada a palavra embora, que indica uma articulação com sentido de ressalva em relação à primeira oração do período; b) a segunda oração é introduzida pelo conectivo mas, seguido da palavra que está em destaque, ainda, que permite a atribuição de uma circunstância temporal, indicando a continuidade da existência de palavras como “boates e festivais...”, presentes na segunda oração, mas também para indicar a concomitância com a existência da palavra “funk”, na primeira oração, iniciada pela palavra hoje. c) a oração abre o período com o vocábulo destacado já, que indica uma oposição de idéias relativamente ao que já foi informado anteriormente nos períodos anteriores a este, iniciado pelo vocábulo. d) a segunda oração do trecho destacado é introduzida pelo vocábulo como, que não contexto exerce a função de estabelecer uma comparação entre o que foi dito anteriormente a essa oração introduzida pelo como. A questão priorizou aspectos sintático-semânticos e a resposta correta indicada foi a alternativa b. QUESTÃO 20 Todas as seguintes técnicas, com as finalidades indicadas, são usadas pelo autor na estruturação do texto, EXCETO a) contraste, em algumas partes, para realçar diferenças. b) emprego de relações de causa e efeito para sustentar argumentos. c) enumeração para hierarquizar os empréstimos lingüíst d) exemplificação para ilustrar e explicar pontos de vista. Na questão 20, o avaliador verifica a habilidade do candidato para reconhecer estratégias de construção textual, que, no enunciado da questão, foram denominadas como 111 técnicas. Essa questão objetiva que o candidato possa inferir os recursos utilizados pelo autor para a produção do texto. Mais uma vez, vale lembrar Charaudeau (1996), quando em seu postulado de intencionalidade trata da importância do “reconhecimento do saber fazer”, que, por sua vez, provoca a credibilidade no recebedor do texto em relação àquilo que diz o produtor em seu texto. A credibilidade é um dos fatores que, ao ser considerado pelo “olhar avaliador”, liga e constitui os sujeitos interlocutantes (p.29). assim, no caso da prova, quando o avaliador pode atribuir credibilidade àquilo que diz o avaliado, pressupomos, inclusive, que o avaliador verifica ate mesmo a competência pragmática do avaliado. A questão priorizou a aspectos semântico-pragmáticos e a resposta correta indicada foi a alternativa c. QUESTÃO 21 No texto, a menção a Benito Mussolini tem o objetivo de a) lembrar que o idioma pátrio deve ser resguardado. b) sugerir que os políticos brasileiros deveriam seguir o exemplo dele. c) questionar as tentativas de se coibirem os empréstimos lingüísticos. d) salientar que as questões lingüísticas devem ser resolvidas por lei. Na questão 21, o avaliador tem a intenção de verificar se o candidato é capaz de reconhecer o objetivo da intertextualidade realizada, quando o nome de Mussolini foi mencionado para lembrar a sua atitude autoritária relativa ao uso da língua italiana, comparativamente ao que se observa relativamente à postura de políticos brasileiros no uso do nosso idioma. Assim, solicita-se que o candidato aponte, dentre as alternativas propostas, qual objetivo comum aos dois contextos, o italiano (referente ao período de dominação de Mussolini) e o brasileiro (referente à criação da lei para proibir o uso de estrangeirismos). A questão exige para sua interpretação não só conhecimentos relativos aos dois contextos, mas também a realização de inferências para que seja abstraído o objetivo da referida menção ao nome de Mussolini, no texto proposto para a análise. A questão priorizou aspectos semântico-pragmáticos e a resposta correta indicada foi a alternativa c. QUESTÃO 22 112 Observe a ilustração do texto. Assinale a alternativa em que melhor se interpreta a associação entre essa ilustração e as idéias defendidas pelo autor no texto. a) A expressão lingüística, oral ou escrita, não deve descaracterizar a língua portuguesa. b) A língua portuguesa deve ser protegida e defendida contra os estrangeirismos, evitando-se que seja maculada. c) A língua portuguesa é o idioma oficial do Brasil e deve ser preservada por força de lei. d) O uso de palavras ou expressões em língua estrangeira não pode ser controlado, apesar das tentativas em contrário. Na questão 22, verificamos que o avaliador pretende que o candidato seja capaz de articular a linguagem verbal à linguagem não-verbal, ilustração que aparece entrecortada no interior do texto verbal. Assim, a questão busca que o candidato atribua sentido à ilustração, tendo em vista as idéias defendidas pelo autor. É interessante ressaltar que o elaborador da questão direcionou a interpretação, quando delimitou que o sentido deveria ser atribuído em relação às idéias defendidas pelo autor. A questão priorizou aspectos semântico-pragmáticos e a resposta indicada como correta foi a alternativa d. QUESTÃO 23 Assinale a alternativa que apresenta a melhor síntese das idéias contidas no texto. a) A língua é formada como um mosaico. b) A língua oficial de uma nação deve ser protegida. c) A pátria de um povo reflete a sua língua. d) A pureza do vernáculo deve ser preservada. A questão 23 propõe que o candidato escolha a alternativa que melhor sintetize as idéias contidas no texto. É o tipo de questão que requer do candidato não só uma habilidade muito grande para verificar a idéia central do texto, como também, ao nosso ver, a ausência do título para o texto constitui mais uma dificuldade, pois, muitas das vezes, o candidato tende a confundir a idéia central como sendo o título possível para o texto, a propósito, outro tipo de questão muito freqüente às provas da UFMG. Além disso, talvez, fosse interessante, já no 113 enunciado da questão, o elaborador explicitar ou realçar, por exemplo, que se deseja a síntese de todas as idéias, visto que, afinal, idéias que contrariam o ponto de vista do autor também podem ser sintetizadas e, igualmente, estão contidas no texto, aliás, são até utilizadas como recurso à construção da argumentação, pois têm, na construção do texto, a função de expor o contraste de pontos de vista, objetivando reforçar e justificar aquele defendido pelo seu autor. A questão priorizou aspectos interpretação e a resposta correta indicada foi a alternativa a. 3.4.2.3 Análise da Prova de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira A da UFMG18 Essa prova, realizada na segunda etapa do vestibular da UFMG, diferentemente do que se realizou na 1ª etapa, apresenta mais de um texto referência para a produção de textos. 3.4.2.3.1 Das questões constantes da prova Seguem-se as questões relativas à prova de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira A, inclusive com o espaço reservado para as respostas, visto que este constitui uma das condições de produção e até mesmo critério considerado para a correção prevista pela COPEVE/UFMG (Comissão Permanente do Vestibular da UFMG). QUESTÃO 01 Leia este trecho: LER NÃO SERVE PARA NADA Como tornar o Brasil uma nação letrada? È o título de um documento de Ottaviano Carlo De Fiore, secretário do Livro e Leitura. Honestamente, eu nem sabia que o Ministério da Cultura tinha um secretario 18 Esta prova de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira A, a partir de 2003, passou a ser chamada de Prova de Redação. 114 do Livro e Leitura. Mas tem. Sua principal tarefa é “acompanhar, avaliar e sugerir alternativas para as políticas do livro, da leitura e da biblioteca”. Foi exatamente o que Ottaviano Carlo De Fiore tentou fazer em seu documento, estudando maneiras de aumentar o interesse por livros no Brasil. Cito um trecho: “É fundamental que nos meios de massa, políticos, estrelas, sindicalistas, professores, religiosos, jornalistas (através de depoimentos, conselhos, testemunhos) propaguem contínua e perenemente a necessidade, a importância e o prazer da leitura, assim como a ascensão social e o poder pessoal que o habito de ler confere às pessoas”. Minha experiência, ao contrário do que afirma o documento de Ottaviano Carlo De Fiore, é que o habito da leitura constitui o maior obstáculo para a ascensão social e o poder pessoal no Brasil. Não é o caso que aqueles que vivem de livros – os escritores – se encontrem no patamar mais baixo de nossa escala social. É contraproducente tentar convencer os poderosos a prestar depoimentos sobre a importância dos livros em suas carreiras, simplesmente porque é mentira, e todo mundo sabe que é mentira. Dê uma olhada nas pessoas de sucesso que aparecem nas páginas desta revista. É fácil perceber que nenhuma delas precisou ler para subir na vida. A melhor receita para o sucesso, no Brasil é o analfabetismo. MAINARDI, Diogo. Veja, São Paulo, 28 mar. 2001. É comum em periódicos, uma seção em que os leitores manifestam sua opinião sobre artigos neles publicados. Com base na leitura desse trecho do artigo de Diogo Mainardi, REDIJA uma carta de apoio à idéia por ele defendida. NÃO ASSINE sua carta. É proibida qualquer forma de de identificação do candidato na prova. ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ A questão1 refere-se ao trecho do texto “Ler não serve para nada”, de Diogo Mainardi. O texto constitui uma crítica voraz à forma pela qual o secretário do Livro e da Leitura, Ottaviano Carlo De Fiore, à época, apresentou algumas maneiras de aumentar o gosto e o interesse pela leitura no Brasil, em seu documento intitulado “Como tornar o Brasil uma nação letrada?”. 115 O motivo da crítica de Mainardi reside, exatamente, nas maneiras sugeridas no documento para se propagar a importância da leitura: primeiro, propor que se busque entre personalidades de destaque como políticos, estrelas, sindicalistas, religiosos, professores e jornalistas o testemunho da importância da leitura para sua ascensão social e segundo, que essas personalidades apontem o hábito de ler como sendo o fator que viabilizou o poder que lhes foi conferido socialmente. Porém, como conseguir credibilidade da população relativamente aos possíveis depoimentos quando na sociedade brasileira atual é fácil perceber que várias pessoas de destaque não se valeram do hábito da leitura para subirem na vida? É por causa deste contra-senso verificado entre a realidade social e a proposta do documento que o autor ironiza: “A melhor receita para o sucesso, no Brasil, é o analfabetismo”. Como se trata de parte de um artigo publicado pela revista Veja, solicita-se ao candidato que produza uma carta em apoio à idéia defendida por Mainardi, baseando-se no ponto de vista adotado pela crítica de Mainardi ao texto do secretário do Livro e da Leitura, que apresenta maneiras de propagação do gosto e do hábito pela leitura, ineficazes e até contraditórias em relação ao que se verifica em nossa realidade, pois se tomarmos o exemplo dos bem-sucedidos, a conclusão a qual chegaremos é que “ler não serve para nada”. A dificuldade apresentada pela questão encontra-se, principalmente, no fato de que o candidato deverá inferir que o autor Mainardi apenas chegou à conclusão de que “Ler não serve para nada” e que “A melhor receita para o sucesso no Brasil é o analfabetismo”, após contato com o texto do secretário ao propor meios capazes de difundir, pelo Brasil, o gosto e o hábito da leitura. Se o candidato não estiver atento à circunstância de que o ponto de vista defendido por Mainardi está contextualizado e até delimitado pelo texto do secretário, com o qual o texto de Mainardi dialoga, conseqüentemente, o candidato não conseguirá atingir o objetivo proposto pela questão que requer, também, a crítica do vestibulando em relação à mesma contradição verificada por Mainardi em relação ao texto do secretário. Assim, percebe-se que as condições de produção foram bem delimitadas, direcionando a ação do produtor, tendo em vista o recebedor, leitor da revista, visto que existe, nos periódicos uma seção dedicada à manifestação de seus leitores acerca dos artigos publicados pela mesma. Consideramos também que o fato de o candidato ter de assumir, para a construção de seu texto, um ponto de vista pré-determinado, o apoio à idéia de Mainardi, possa ter constituído uma dificuldade para a elaboração da resposta. Quanto ao gênero de texto proposto, foi oferecida apenas uma variedade, carta, um gênero que consideramos, relativamente, fácil. Questionamos, primeiramente, o espaço reservado (9 linhas) para a resposta, tendo em vista que a própria configuração do texto já 116 demanda um espaçamento significativo entre as partes que o compõem, conseqüentemente, implicará uma habilidade considerável do candidato para expor suas idéias, logo, um risco para o seu desempenho. QUESTÃO 02 Leia este trecho: A cada dia nos deparamos com novas invenções, novos produtos, novos modos de fazer e interpretar. A cada dia, precisamos nos acostumar com as novidades, aprender a lidar com elas e, mais do que tudo, acabamos por nos submeter ao ritmo que elas nos impõem. De alguma maneira, essa overdose da novidade induz a um certo amortecimento dos sentidos e dos afetos, de modo que se acaba por considerar todo esse redemoinho cotidiano como sendo corriqueiro e “normal”. Parece até que uma nova e tácita norma social despontou: fica proibido manifestar admiração exagerada ou rejeição camuflada à existência de produtos resultantes das robustas vitórias da racionalidade técnica e mercantil. A questão não é, de forma alguma, abandonar a tecnologia e seus resultados positivos; isso seria uma estupidez. O que não se pode perder, porém, é a capacidade de ficar espantado; essa perda nos leva a achar tudo muito óbvio e rotineiro, impedindo a admiração, que conduz à reflexão criadora. É necessário não menosprezar a atitude inovadora daqueles que, como as crianças, ainda se admiram de que as coisas sejam como são, em vez de fingir que espantoso seria se no fosse assim... CORTELLA, Mário S. Folha de São Paulo, São Paulo, 8 jun. 2000. Folha Equilíbrio, p.15 (texto adaptado). REDIJA um texto dissertativo, posicionando-se a favor de ou contra a idéia defendida pelo autor. JUSTIFIQUE seu ponto de vista. ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ A questão 2 refere-se a um trecho adaptado de um texto de Mário Cortella, publicado na Folha de S.Paulo. Assim como os demais textos selecionados para a prova, esse também 117 constitui parte de um artigo em que se verifica uma reflexão crítica relativa a algum tema de caráter social. O texto trata da dificuldade das pessoas, atualmente, experimentarem um sentimento de admiração frente às novidades apresentadas no mundo moderno, visto que são tantas as invenções, os novos produtos, os novos modos de fazer e interpretar e que acabam por provocar uma espécie de “overdose” que, segundo o autor, diminui a capacidade de reflexão criadora, considerando que a tendência das pessoas é “fingir que espantoso seria se não fosse assim” (cf. p.3), como se esse comportamento tivesse imbuído de uma “normalidade” inquestionável. O enunciado da questão propõe que o candidato escreva um texto de natureza dissertativa, deixando claro o ponto de vista que adotará, justificando a adoção do ponto de vista assumido, de maneira favorável à idéia defendida pelo autor ou contrária. Para a execução de tal tarefa, é exigida do candidato a habilidade de inferência, pois ele deverá, primeiramente, identificar qual o ponto de vista do autor sobre o assunto para, depois, argumentar a respeito. A estrutura textual solicitada é a dissertativa, o que pressupõe a adoção de um ponto de vista sobre o qual deverão ser apresentados os argumentos que constituirão a justificativa, a fundamentação que sustentará tal ponto de vista. O cuidado para não se cometer contradições e ambigüidades será um fator decisivo para se garantir a clareza e a concisão. Como em qualquer texto dissertativo, também deverão ser observadas as partes que o integram, a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. Assim, poderia o candidato se orientar pela estrutura comum aos textos dissertativos, nos quais, a introdução deve expor a escolha de um ponto de vista frente à situação apresentada, o desenvolvimento, a idéia principal e seus desdobramentos, conforme a linha de raciocínio adotada e, por fim, a conclusão que deve retomar o que foi dito anteriormente, de maneira a confirmar o que foi exposto (ANDRADE, 2001), para não produzir contradições. É interessante, ainda, observar que o candidato está livre para se manifestar sobre o tema, o que distingue essa questão da anterior, fundamentalmente. QUESTÃO 03 Leia este trecho: POR QUE SE MALTRATA TANTO O BRASIL? Afinal, por que não cantar o hino Nacional? Por que não querer bem à pátria? Por que não exaltar suas qualidades? Por que não querer assistir a seus filmes? Por que não enaltecer sua gente? Por que não exaltar suas artes? Por que não querer ouvir suas musicas? Por que não ler seus autores? Por que não defender a 118 empresa de capital nacional? Por que não valorizar suas escolas? Por que não comemorar suas datas memoráveis? Por que não restaurar suas igrejas? Por que não erradicar sua pobreza? Por que não garantir o futuro de suas crianças? Por que não eleger bons políticos? Por que não praticar mais justiça? Por que não se orgulhar de seus feitos? Afinal, por que se tem maltratado tanto o Brasil nesses 500 anos de existência? Revista Trevisan, São Paulo, v. 13, n.145, 2000. Opinião, p.4. Considere que você é candidato a um cargo político e tem três minutos para fazer sua propaganda a ser veiculada, no horário eleitoral gratuito, em todas as emissoras de TV e de rádio do País. REDIJA o texto verbal de sua propaganda, usando suas próprias palavras para discutir a pergunta proposta no título do trecho lido. ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________ A questão 3 apresenta um texto construído por várias frases interrogativas, já desde o título, “Por que se maltrata tanto o Brasil?”. O texto levanta questionamentos diversos acerca dos preconceitos e das dificuldades verificadas no contexto nacional, não só no que se refere à solução de vários problemas da realidade brasileira, como também a dificuldade de construção da identidade de nossa Pátria. Como no ano de 2002 tivemos eleições para Presidente, podemos afirmar que a questão é bastante oportuna, pois, diante dos questionamentos apresentados no texto, solicita-se ao candidato que construa um texto verbal em que seja discutida a pergunta apresentada no título do texto. A dificuldade para a construção do texto consiste no fato de o candidato ter que elaborá-lo, tendo em vista as seguintes condições de produção: o texto deverá ser apresentado por um candidato político que terá apenas três minutos para fazer a sua propaganda, que circulará em todas as emissoras de TV e de rádio do País, durante o horário eleitoral gratuito. Consideramos que as condições de produção estabelecidas parecem um pouco contraditórias, pois, embora saibamos da necessidade da existência de um texto escrito que 119 servirá como suporte ao texto que será apresentado na modalidade oral da língua, já que o meio de divulgação a ser utilizado será a TV ou o rádio, não há como negar que o fato de se saber que o texto será veiculado oralmente poderá interferir na produção escrita, no sentido de que a escrita pressupõe a utilização de recursos distintos da oralidade, e, talvez, isso poderia constituir um obstáculo inicial para a produção do texto. Além disso, outro problema seria o relativo a adoção da norma para a construção do texto, que também não está definida, levando-se em consideração as condições de produção/recepção estabelecidas: poderia se utilizar a coloquial, já que o texto seria veiculado oralmente ou só se aceitaria a norma padrão, já que se trata de um texto para uma prova de Língua Portuguesa em situação de vestibular? Outro problema que verificamos em relação à proposta diz respeito à ausência de parâmetros a serem considerados pelo candidato para precisar o tempo que seria necessário à produção oral de seu texto, no rádio ou na TV, como, por exemplo, número de palavras, já que foram estabelecidos três minutos de duração da propaganda. Parece-nos, então, que para resolver a dificuldade, o único parâmetro definido do qual o candidato, relativamente, poderia se valer é o espaço reservado para a resposta (9 linhas), o que, mesmo assim não lhe garante que seu texto escrito, reproduzido oralmente, terá a duração de três minutos. Assim, consideramos que o enunciado, provavelmente, apresentou dificuldades para o candidato, que extrapolam as habilidades de inferência e de interpretação, o que, por sua vez, é suficiente para comprometer o seu desempenho, pois esse tipo de situação implica insegurança. Assim, diante do exposto, novamente, podemos reiterar as palavras de Weiss (apud HADJI, 2001, p.34-35): “a avaliação é primeiramente problema de comunicação”. 120 CONSIDERAÇÕES FINAIS Iniciamos o trabalho com o propósito de estudar o perfil delineado do candidato a ser selecionado pela Prova de Língua Portuguesa e de Redação dos vestibulares da PUCMG e da UFMG. Para a realização da tarefa, buscamos construir o quadro teórico que pudesse fundamentar a análise, considerando a concepção sócio-interacionista da linguagem para a abordagem do gênero avaliação, bem como as dimensões contextuais relativas ao gênero, segundo o que nos aponta Charaudeau (1996). Selecionamos as provas das referidas instituições relativas ao período 2000-2003, por reconhecermos que, para a análise, seria importante considerarmos não só a orientação da prática ensino/aprendizagem de Língua Portuguesa no ensino médio apresentada nos PCNEM, mas também por ser um período posterior à divulgação do documento, o que nos indica que adequações possíveis à orientação proposta já tivessem sido realizadas pela comunidade escolar, considerando, ainda, que o vestibular é o coroamento dessa etapa final do ensino, anterior à graduação. Assim, verificamos que as provas analisadas observam a orientação exposta pelo PCNEM, visto que o aluno, ao fechar o ciclo do ensino médio, deve, a priori, ter desenvolvido e domínios pertinentes à competência comunicativa, como, ler, interpretar, inferir, correlacionar, analisar, criticar, produzir textos em variados gêneros para ser considerado apto a ingressar no ensino superior. Procuramos, ainda, apontar as limitações que o gênero avaliação impõe, observando, junto a Perrenoud (1999), Hadji (2001), dentre outros, que na maioria das vezes, a avaliação escolar, apesar de não ser o melhor instrumento pedagógico, continua sendo uma prática comum ao processo ensino/aprendizagem, principalmente, quando o que se almeja é a seleção, já que hierarquias de excelência são criadas. Por isso, prosseguindo o raciocínio, consideramos que a avaliação escolar, em qualquer instância, deveria ser tão somente um instrumento de orientação de todo o processo de ensino/aprendizagem que objetivasse apenas a construção do conhecimento que ainda não se demonstrou satisfatório, mas jamais um instrumento utilizado para excluir ou negar possibilidades diversas, já que “o êxito e o fracasso são realidades socialmente construídas” (PERRENOUD, 1999). Sob essa ótica, consideramos que a avaliação deveria passar de seletiva à formativa. As implicações pertinentes ao gênero, como vimos no decorrer do trabalho, são facilmente compreendidas se consideramos as condições de produção e a contextualização do ato de linguagem envolvido. Charaudeau (1996) nos diz que qualquer “contrato de comunicação” 121 pressupõe a existência da negociação, quando se almeja uma interação sociocomunicativa. Porém, a avaliação que visa à seleção restringe tanto a negociação quanto a interação, pois as condições de produção impostas por esse tipo de avaliação, necessariamente, interferem no desempenho dos interlocutantes. Associando o que foi dito sobre “os contratos de comunicação” (CHARAUDEAU, 1996) com o que nos diz Maturana (1999), que a linguagem não pode surgir naturalmente em meio à competição, no nosso entender, condiz com a posição contrária de Perrenoud (1999) relativamente à adoção da avaliação seletiva no processo ensino/aprendizagem. Então, se formos apontar uma crítica mais profunda relativamente à questão da avaliação em si, sabemos que a raiz do problema não se encontraria no tipo de avaliação que se aplica aos alunos, mas principalmente no fim ao qual ela se presta – a exclusão social – e, nesse sentido, a avaliação seria apenas mais um dos instrumentos utilizados para instaurar a competição contínua em todas as esferas da vida social, já que tem funcionado como um mecanismo eficaz para a preservação das elites que comungam interesses antagônicos ao desenvolvimento da sociedade como um todo, seja no campo político-ideológico, cultural, econômico ou tecnológico, etc. Sabemos que não é novidade para ninguém que, em países como o Brasil, a situação do ensino, principalmente a do público continua, apesar de alguns esforços, relegada a um segundo plano e, por isso, muitos estudantes já são excluídos da vida escolar muito antes de serem eliminados pelos vestibulares. Embora, ainda, não se tenha notícia de qualquer país que tenha conseguido abolir a avaliação que presta à seleção de seu sistema escolar, consideramos a reflexão sobre o gênero pertinente para que, quem sabe, um dia, a sociedade descubra outros caminhos. Assim, diante das considerações apresentadas, buscamos traçar, em linhas gerais, as características comuns às provas dos vestibulares constantes da análise, no sentido de averiguar a pertinência da concepção sócio-interacionista da linguagem, a partir dos aspectos priorizados pelas mesmas. Feito isso, verificamos que ambas as instituições são relativamente fiéis à concepção, embora com algumas diferenças, como, por exemplo, no formato das provas do vestibular proposto pela PUCMG e pela UFMG, no que tange, inclusive, não só à quantidade de questões apresentadas, tanto para as provas objetivas quanto para as provas de Redação, mas, também, ate mesmo, à quantidade de textos selecionados nas provas. Verificamos, ainda, que o perfil do candidato a ser selecionado pela prova de Língua Portuguesa e de Redação é comum às duas instituições, visto que, em seu escopo, a proposta de se atingir a interação decorrente do ato de linguagem instaurado por meio das provas do vestibular pressupõe que o candidato seja engajado socialmente, sendo capaz de relacionar, 122 criticar, analisar, inferir, distinguir, perceber intertextualidades, comentar, etc. Em outros termos, as instituições se propõem a selecionar pelas provas apresentadas no período recortado, um sujeito consciente de seus possíveis papéis sociais, enquanto produtor e recebedor de textos, que se constrói na e pela linguagem, o que, por sua vez, contribui, altera e promove ações de linguagem que constroem a sociedade, atribuindo novos sentidos às conquistas humanas. Esperamos que as dimensões aqui apresentadas tenham nos permitido uma análise satisfatória para o objetivo maior perseguido: delinear o perfil do candidato a ser selecionado pelos vestibulares das instituições abordadas. Além disso, desejamos que o presente trabalho possa ter contribuído para o aprimoramento do processo de elaboração e realização das provas de vestibular de Língua Portuguesa, tendo em vista a contextualização das mesmas na construção do processo ensino/aprendizagem, à luz dos PCNEM, bem como para a formação da opinião pública acerca da pertinência (ou não) do processo seletivo realizado pelo vestibular. Que o nosso trabalho, ainda que modesto quanto à análise e ambicioso quanto aos objetivos perseguidos, viabilize outras interações sociocomunicativas constantes não só do universo escolar, como também em outros contextos que o esforço empenhado e todo o trabalho dedicado à produção de linguagem, nesta pesquisa apresentada, possam frutificar, no sentido de motivas outras ações de linguagem que busquem a ampliação de horizontes, adotando-se, sempre, uma conduta cada vez mais crítica. Que nós possamos, de alguma maneira, vislumbrar uma maior coerência para as nossas ações linguageiras e, assim, fazer refletir a razão da nossa existência. Encerrando, acreditamos que é por meio da linguagem que promovemos ações que continuamente contribuem e/ou norteiam o processo de transformação da sociedade, seja a respeito da organização, de seus valores, de suas tradições, de seus preconceitos, de suas intolerâncias, enfim, de tudo que a linguagem da cultura de um povo pode espelhar. 123 REFERÊNCIAS ANDRADE, Maria Margarida, MEDEIROS, João Bosco. Comunicação em língua portuguesa. São Paulo: Atlas, 2ª ed. 2001 BAKHTIN, Mikail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1992. BARBOSA, José Juvêncio. Alfabetização e leitura. São Paulo: Cortez, 2ª ed., 1994. BARTHES, Roland. Elementos de semiologia. São Paulo: Cultrix Ltda., 13ª ed., 1996. BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à análise do discurso. S.P. Editora da UNICAMP, 5ª ed., 1996. BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. BRITTO, Luiz Percival. A sombra do caos: ensino de língua X tradição gramatical. 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