LPLB P0455
aula unigranrio 2015
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Ganhei um carrinho de presente. Coloquei-o sobre a minha
mesa de trabalho. Olho para ele quando escrevo e escrevo os
pensamentos que ele me faz pensar. Não são todos os objetos que
têm esse poder, o poder de fazer pensar. A caneta, o grampeador, a
lâmpada, a cadeira, objetos à minha volta: eu os uso
automaticamente; eles não me fazem pensar. É que eles só estão
ligados ao meu corpo, mas não à minha alma. Mas o carrinho é
diferente. Bastou que eu o visse a primeira vez para sentir uma
emoção, um movimento na alma. Eu o reconheci como morador do
mundo das minhas memórias. Ele me fez lembrar e sonhar. Fez
cócegas no meu pensamento. Meu pensamento começou a voar. O
que eu vejo nele não é nada comparado àquilo que ele me faz
imaginar. Sonho. Os teólogos medievais diziam que o sacramento é
um sinal visível de uma graça invisível. O carrinho é um sacramento:
sinal visível de uma felicidade adormecida, esquecida. Volto ao
mundo da minha infância.
Fosse um carrinho comprado em loja, eu nada pensaria. Seria
como meu lápis, e meu grampeador, minha lâmpada, minha cadeira.
Mas basta olhar para o carrinho para eu ver o menino que o fez,
menino que nunca vi, menino que sempre morou em mim. Fico até
poeta, faço um hai-kai: Uma lata vazia de sardinha, uma sandália
havaiana abandonada: um menino guia seu automóvel... Os
entendidos dirão que o hai-kai está errado. De fato, não sei fazer haikais. Sou igual ao menino que não sabia fazer automóveis, mas a
despeito disto os fazia. Meu hai-kai se parece com o carrinho de lata
de sardinha e rodas de sandália havaiana.
Sei que o menino é pobre. Se fosse rico teria pedido ao pai,
que lhe teria comprado um brinquedo importado. Dinheiro é um
objeto que só dá pensamentos de comprar. A riqueza, com
freqüência, não faz bem ao pensamento. Mas a pobreza faz sonhar e
inventar. Carrinho de pobre tem de ser parido. A professora - se é
que ele vai à escola - deve ter notado que ele estava distraído,
ausente, olhando o vazio fora da janela. Falou alto para chamar a
atenção. Inutilmente. Ela não percebeu que distração é atração por
um outro mundo. Se os professores entrassem nos mundos que
existem na distração dos seus alunos, ensinariam melhor. Tornar-seiam companheiros de sonho e invenção.
Penso que o menino devia andar lá pela favela, os olhos
atentos procurando algo, sem saber direito o quê. Até que deram
com a lata de sardinha jogada no lixo. Foi um momento de
iluminação. A lata de sardinha virou uma outra coisa. O menino virou
poeta, entrou no mundo das metáforas: isto é aquilo. Ele disse: “Esta
lata de sardinha é o meu carro...” Fez aquilo que um fundador de
religiões fez, ao tomar o pão e dizer que o pão era o seu corpo. E a
lata de sardinha ganhou um outro nome, virou outra coisa. O menino,
sem o saber, executou uma transformação mágica. Todo ato de
criação é magia. O menino dobrou a tampa e assentou-se ao volante.
O menininho sonhava. Como Deus, que do nada criou tudo,
ele tomou o nada em suas mãos e com ele fez seu carrinho. Imagino
que, também como Deus, ele deve ter sorrido de felicidade ao
contemplar a obra de suas mãos...
(Http://rubemalves.com.br/site/badulaques06.php)
1. No texto, o emissor afirma que o carrinho é capaz:
a) De provocar reflexões críticas acerca dos sonhos.
b) De provocar pensamentos sobre a infância.
c) De provocar sentimentos sobre a pobreza.
d) De provocar paralelos sobre brinquedos.
2. Fosse um carrinho comprado em loja, eu nada pensaria.
(2º parágrafo)
No fragmento, as duas formas verbais destacadas assumem o
valor de:
a) Dúvida e certeza
b) Condição e possibilidade
c) Hipótese e questionamento
d) Futuro e passado
3. O período “Carrinho de pobre tem de ser parido”, retirado do
3º parágrafo, estabelece com o período anterior a relação de:
a) Causa
b) Consequência
c) Adição
d) concessão
4. O termo destacado exerce a função de sujeito simples na
alternativa:
a) Os teólogos medievais diziam que o sacramento é um sinal
visível de uma graça invisível
b) Se fosse rico teria pedido ao pai, que lhe teria comprado um
brinquedo importado
c) Os entendidos dirão que o hai-kai está errado.
d) Sei que o menino é pobre
5. No terceiro parágrafo, o fragmento “-se é que ele vai à escola”sugere:
a) Um questionamento sem fundamentação lógica.
b) Uma ressalva associada à precisão.
c) Uma dúvida legitimada por conclusões anteriores.
d) Uma possibilidade explicitamente objetiva.
6. Segundo o texto, todo o ato de criação é magia. Isso porque:
a) Esse processo pressupõe uma ressignificação simbólica.
b) Esse processo pressupõe apenas uma mudança linguística.
c) Esse processo pressupõe uma mudança gramatical.
d) Esse processo pressupõe uma revisão conceitual.
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aula unigranrio
Leia o texto a seguir para responder as questões 7, 8, 9, 10
e 11.
O Navio Negreiro
Parte IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
9. No texto, há metáforas em “a orquestra” e “a serpente” (ambas
presentes na 3ª estrofe e na 6ª estrofe). A opção que aponta os elementos a que se referem “a
orquestra” e “a serpente”, respectivamente, é...
a) ... festas de casamento / batizados.
b) ... enterros / nascimentos.
c) ... gargalhadas dos negros escravos / religião dos escravos.
d) ... gritos, lamentos dos negros escravos / o chicote.
e) ... celebração dos senhores de escravos / justiça social.
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
10. O objetivo social do poema, com sua descrição detalhada do que
acontecia dentro de um navio negreiro, é ... a) ... aproveitar-se do sistema escravocrata brasileiro.
b) ... celebrar uma nova remessa de escravos que chegavam
no navio.
c) ... apresentar denúncia voltada ao término da escravidão no
Brasil.
d) ... exaltar a coragem dos marinheiros que enfrentavam
legiões de homens africanos.
e) ... incentivar a construção da imagem da mulher romântica,
erótica e endeusada.
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
11. “Se o velho arqueja, se no chão resvala” (verso 16).
O termo sublinhado que tem o mesmo valor sintático do
destacado é ...
a) ... “Legiões de homens negros como a noite” (verso 5).
b) ... “E chora e dança ali!” (verso 21).
c) ... “A multidão faminta cambaleia” (verso 20).
d) ... “Um de raiva delira, outro enlouquece” (verso 22).
e) ... “No entanto o capitão manda a manobra” (verso 25).
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
(Castro Alves)
7. "Vibrai rijo o chicote, marinheiros! (verso 29)
Fazei-os mais dançar!..." (verso 30)
O que as aspas utilizadas, nos dois versos citados, marcam é...
a) ... o riso de Satanás.
b) ... a fala do capitão.
c) ... os gritos dos escravos.
d) ... um vocativo.
e) ... uma pausa.
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8. A única opção que encerra a figura de linguagem chamada
hipérbole é ...
a) ... “Em sangue a se banhar” (verso 3).
b) ... “Negras mulheres, suspendendo às tetas” (verso 7).
c) ... “Outras moças, mas nuas e espantadas” (verso 10).
d) ... “No entanto o capitão manda a manobra” (verso 25).
e) ... “E após fitando o céu que se desdobra” (verso 26).
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enunciado