MARCOS JOSÉ CESARE O ABC DA GUERRA - MEMÓRIAS DE JOVENS BRASILEIROS QUE LUTARAM NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Colegiado do Curso de Licenciatura de História como parte dos requisitos para obtenção do título de Licenciado em História. Orientadora: Professora Mestra Samanta Colhado Mendes SANTO ANDRÉ - SP 2013 “Nunca, no campo dos conflitos humano, tanto foi devido por tantos a tão poucos”. Winston Leonard Spencer Churchill – “Os Poucos” Câmara dos Comuns (Londres) – 20.08.1940. Dedicatória A todos aqueles que participaram, direta ou indiretamente, da luta contra as forças sombrias do nazismo e do fascismo. AGRADECIMENTOS Aos meus novos amigos, os veteranos Armando Pernanchini, Miguel Garófalo, Antônio Cruchaki, Luiz Caetano de Moura e Nelson Guedes, que mesmo em idade avançada, fizeram um grande esforço de memória e não se furtaram em relembrar as alegrias e tristezas que marcaram as suas trajetórias de vida, que guardam grandes semelhanças com as dos outros 25 mil brasileiros que integraram a Força Expedicionária Brasileira em sua missão na Itália. Aos não menos considerados Historiadores da FEB Márcio Faria (Bragança Paulista/SP) e Sirio Fröhlich ( Santa Maria/RS), cujos livros serviram para nortear o presente trabalho. O ABC DA GUERRA - MEMÓRIAS DE JOVENS BRASILEIROS QUE LUTARAM NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL RESUMO O presente trabalho tem por objetivo resgatar a memória dos soldados brasileiros que foram enviados para a Europa, por meio da Força Expedicionária Brasileira, para combater as forças alemãs e italianas na região dos Montes Apeninos, uma cadeia de montanhas localizada no norte da Itália. Entrevistamos cinco expedicionários, com funções distintas na FEB, que ao contarem as suas histórias pessoais, nos permitem traçar um perfil geral dos jovens brasileiros que tiveram uma mudança radical de vida em razão de um conflito muito distante de suas realidades . Foram abordadas a infância, a adolescência, as características das cidades onde viviam, a preparação e a atuação na frente italiana, assim como o caminho que cada um tomou depois de retornar à vida civil. Sem dúvida, é um trabalho que também retrata o Brasil rural e extremamente pobre da primeira metade do Século XX. Por isto o título: O “A” é o antes da Segunda Guerra Mundial (a vida, as origens familiares, o Brasil dos anos 30 e 40), o “B” a participação na FEB ( a convocação, o treinamento e a guerra) e o “C” a vida que os combatentes levaram após o final de tal experiência tão terrível. Acreditamos ter realizado mais um relato que pode auxiliar os pesquisadores na tarefa de reconstituir a participação brasileira no Teatro de Operações da Itália. Palavras-Chave: Segunda Guerra Mundial – Força Expedicionária Brasileira 10 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.......................................................................................................................12 CAPÍTULO I - A Segunda Guerra Mundial........................................................................13 A Guerra....................................................................................................................................13 O Brasil e a Guerra...................................................................................................................14 CAPÍTULO II - Memórias de cinco brasileiros que combateram nas trincheiras da Itália..........................................................................................................................................16 Miguel Garófalo......................................................................................................................16 Armando Pernanchini...............................................................................................................25 Luiz Caetano de Moura.............................................................................................................39 Antônio Cruchaki......................................................................................................................54 Nelson Guedes..........................................................................................................................67 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................76 REFERÊNCIAS Fontes........................................................................................................................................82 Referências Bibliográficas........................................................................................................83 ANEXOS ANEXO I: ROTEIRO DA FEB NA ITÁLIA. ANEXO II: UNIDADES DA FEB ANEXO III: TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS 11 INTRODUÇÃO Desde pequeno, sempre me interessei pela Segunda Guerra Mundial. Por questões profissionais, tive o prazer de ter contato real com um pracinha há cerca de 10 anos atrás. Pude perceber em seus olhos, enquanto contava algumas histórias, o trauma gerado pelas experiências em combate, como se os fatos tivessem ocorrido um dia antes, e não nos longínquos anos de 1944-45. Depois, ao visitar o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra, no Aterro do Flamengo-RJ, e me deparar com aquelas cruzes brancas com o nome de jovens na flor da idade, fiquei mais convicto ainda que a nossa sociedade faz muito pouco pela memória de todos aqueles que pereceram em território italiano. Estes homens foram valentes. Enfrentaram forças extremamente experientes, suportaram todos os contratempos e cumpriram a missão que lhes foi dada. Infelizmente, a história dos expedicionários é totalmente desconhecida de nossa juventude, mesmo às vésperas de complementarmos 70 anos do desembarque da FEB em Nápoles. Por tudo isto, escolhemos fazer um resumo da vida de cinco veteranos, como uma forma de reconhecimento e homenagem ao sacrifício por eles realizado. 12 CAPÍTULO I - A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL 1.2 A Guerra As terríveis condições impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes, a arrogância dos políticos conservadores alemães ao subjugarem a atração do nazismo pelo povo, e por fim, o descaso dos ingleses e franceses à reestruturação das forças armadas germânicas na década de 30, foram os elementos que abriram o caminho para a aventura militar de Hitler que matou mais de 60 milhões de pessoas nos cinco continentes. Ao afastar qualquer tipo de resistência ao nazismo dentro da Alemanha, o ditador sentiu-se confiante para colocar o seu projeto de dominar o mundo em pleno funcionamento. Aproveitando-se das hesitações de franceses e ingleses, assim como do oportunismo político soviético, os alemães desafiaram a "ordem internacional", reorganizando as suas forças armadas e exigindo concessões territoriais da França, Polônia, Tchecoslováquia e Áustria. Querendo evitar a guerra a qualquer custo, franceses e ingleses simplesmente entregaram a Tchecoslováquia ao futuro inimigo, quando assinaram o o Acordo de Munique em 1938. Os tratados de defesa firmados com os eslavos foi jogado na lata do lixo. Hitler prometeu que a expansão germânica pararia por ali. Mas estamos falando da encarnação do mal. Na realidade, o desastrado Tratado foi o sinal verde para a cruzada cruenta do tirano contra a humanidade. O xeque -mate do Reich foi dado em 24 de agosto de 1939. Alemanha e URSS assinaram o tratado Molotov - Ribbentropp, que dividia o território da Polônia ( antiga aspiração alemã) entre as duas potências, além de afastar qualquer possibilidade de agressão militar mútua. Assim, Hitler e Stalin puseram as suas tropas na estrada, dando inicio à WWII em 1º de Setembro de 1939. 13 O Brasil e a Guerra Getúlio Vargas assumiu o poder como o grande líder da Revolução de 1930, que em tese serviria para colocar um ponto final na decadente República Velha, que na sua fase final era marcada pela combinação dos interesses políticos, econômicos e sociais das elites mineiras e paulistas, naquilo que foi conhecido como "política café - com - leite". Engano! Produto final e acabado das melhores tradições caudilhas da região do rio da Prata, não tardou para Vargas apresentar as suas credenciais de ditador. Mesmo após a revolta paulista de 1932 e a Constituinte de 1934, o líder gaúcho conseguiu eliminar tanto a oposição comunista como a fascista, abrindo caminho para a outorga da Constituição de 1937, a famosa "Polaca", cujo símbolo máximo da concentração de poder nas mãos do presidente foi a cerimônia da queima das bandeiras dos Estados1. Getúlio passava a ser o pai e chefe incontestável do "Estado Novo". Era um regime com características muito parecidas com o desenvolvido por Mussolini na Itália. Figuras importantes da época , notadamente os lideres militares Góis Monteiro e o futuro presidente Eurico Gaspar Dutra, simpatizavam com o nazifacismo, assim como o próprio presidente. Porém, outra ala do governo, encabeçada pelo Ministro das Relações Exteriores Oswaldo Aranha, defendia a cooperação com os americanos. Indeciso, Vargas aguardou até o último minuto para decidir para onde deveria correr. No final dos anos 30 e início dos 40, o Brasil mantinha tratativas do estabelecimento de uma estratégia de defesa única para as Américas2 junto aos Estados Unidos, e ao mesmo tempo negociava a compra de máquinas e armamento dos alemães. Porém, o infame ataque japonês à base naval americana de Pearl Harbor, no final de 1941, foi decisivo para o posicionamento de Vargas. Solidarizando-se ao grande aliado, no dia 28 de janeiro de 1942, no encerramento da Conferencia Panamericana do Rio de Janeiro, Oswaldo Aranha anunciou o rompimento das relações diplomáticas e comerciais entre o Brasil e as nações do Eixo. Nesta altura, os americanos já haviam liberado empréstimos para a modernização de nossas forças armadas e para o projeto da Siderúrgica de Volta Redonda. Aos alemães, nada 1 2 Coleção Os Grandes Líderes – Getúlio – Nova Cultural -1988 –pg. 81 Conferência de Buenos Aires(1936), Conferencia do Panamá ( 1939) e Conferência de Havana (1940) 14 mais restou a não ser torpedear alguns navios mercantes brasileiros que se deslocavam pelo Atlântico, o que passou a ocorrer em fevereiro de 1942. A gota d'agua final foi em agosto do mesmo ano. Entre os dias 16 e 17, os alemães afundaram cinco navios brasileiros, matando aproximadamente 600 pessoas, entre militares e civis. 3 Diante da comoção nacional criada com os ataques, a declaração de guerra brasileira à Alemanha e Itália ocorreu em 21 de agosto de 1942. Porém, a entrada no confronto não foi imediata. A mobilização e incorporação dos soldados começou no final deste ano. Em 1943, em agosto, foi criada a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária , enquanto a FEB, projetada com três Divisões, foi oficializada em novembro, possivelmente depois dos americanos concordarem com a participação de nossas tropas em um dos dois teatros de operações existentes. Desta forma, o Exército e a jovem Força Aérea Brasileira ficaram treinando por cerca de um ano e meio, até embarcarem para a Europa em julho de 1944, inicialmente com 6 mil homens, que chegaram a aproximadamente 25 mil no final da guerra. Os brasileiros deram a sua contribuição no cenário de combates na Itália, duelando com os alemães em um setor da defensiva Linha Gustav - Gótica, que uma vez derrubada, iria abrir o caminho para as tropas aliadas chegarem à Alemanha passando pela Áustria. Mas isto não foi necessário. Quando a situação estava prestes a se tornar mais violenta e custosa para os dois lados, Berlim caiu e os alemães se entregaram no final de abril de 1945. No dia 08 de maio, a vitória aliada estava oficialmente declarada. O mundo mais uma vez tinha dado uma guinada. Agora quem mandava eram os EUA e a URSS. Vargas percebeu que o seu regime era incompatível com este nova realidade, tendo certeza que a sua queda era iminente. Em 29 de outubro de 1945, o gaúcho foi removido do poder por um golpe militar, sem esboçar qualquer resistência. Era o fim do Estado Novo e a volta do regime democrático, confirmado pela Assembleia Constituinte de 1946 e a eleição, pelo voto popular, do General Eurico Gaspar Dutra. 3 História da República Brasileira- Alemães atacam navios brasileiros Helio Silva – Edições Isto É -1989pg.13-14 15 CAPÍTULO 2: MEMÓRIAS DE CINCO BRASILEIROS QUE COMBATERAM NAS TRINCHEIRAS DA ITÁLIA Passaremos agora a traçar o perfil de cinco soldados que estiveram na Itália e participaram diretamente do front: Armando Pernanchini ( metralhadora), Antônio Cruchacki ( remoção de minas, abertura de pontes e estradas), Miguel Garofalo (metralhadora) e Luiz Moura (transporte de munição e provisões – metralhadora móvel) e Nelson Guedes ( escriturário). Além das situações envolvendo a própria guerra, a história de cada um deles traz um rico retrato de nosso país nos anos 30 e 40 do século passado. 2.1 Miguel Garofalo Miguel Garofalo nasceu em 12 de outubro de 1921, na cidade de Santo André, São Paulo. É filho de Pascoal Garofalo e Joana Garofalo, italianos que saíram da cidade de Avelino, situada na região da Campânia, em razão da grave crise econômica e social que dominava a “ Velha Bota” no começo do século XX. E o Brasil foi o destino escolhido. Os Garofalo participaram do período em que ocorreu a imigração italiana em massa para o Brasil. O nosso país era vendido pelas companhias de colonização como um verdadeiro paraíso, terra onde o trabalho seria recompensado com uma melhora de nível de vida que nunca poderia ser alcançado na Itália. Camponeses de origem humilde, instalaram –se na cidade de Ribeirão Pires e posteriormente chegaram em Santo André, por volta de 1918 ou 19. Pascoal e Joana tiveram oito filhos. Como a grande maioria da população brasileira da época, o chefe da casa exercia um pesado trabalho manual. Era posseiro, profissão pela qual tentava proporcionar o mínimo das condições necessárias para a manutenção da família. Miguel relata a sua infância assim : “A minha infância , eu digo para você. Filho de pais pobres. Entrei com oito anos no grupo, sem ter um par de sapatos para por no pé, sem ter uma camisa para vestir, minhas camisas eram sacos de 16 farinha, e a gente via a diferença daqueles filhos riquinhos que não davam confiança para a gente. Eles eram de um lado, e eu descalço, de outro... De oito para nove anos, quando estava no primeiro para o segundo ano o meu pai me disse que tinha que sair da escola. Fui trabalhar com nove anos como servente de pedreiro, para ajudar a família. Éramos em oito irmãos. Eu era o quarto. Eu trabalhei com o sr. Vicente, um homem muito bom, que pagava 700 reis por hora. Depois fui trabalhar na Rikbo, na fabrica de sal perto da estação aqui de Santo André. Mas nunca liguei para isso, pois acho que a minha diversão, a minha felicidade, eu sabia desfrutar dela. ........ Pra mim, a minha infância não foi ruim...”4 O nosso entrevistado descreve uma Santo André pacata e rural em sua juventude, mas cita também a existência de um incipiente indústria ( exemplificada pelas empresas Rhodia e Kowarick), que explodiria no processo de industrialização nacional iniciado nos anos de 1950. Como a maioria dos rapazes de sua época, Miguel começou a trabalhar cedo. Aos nove anos já atuava como servente de pedreiro, sendo que aos catorze ingressou na empresa multinacional Rhodia. Relatou que o fato de não poder dar continuidade em seus estudos e trabalhar ao mesmo tempo teria chateado muito o seu pai. Afinal, Pascoal queria dar aos filhos aquilo que a Itália lhe havia negado: uma vida digna. Aos dezoito anos, teve o primeiro contato com a farda. Naquela época, os homens, ao entrarem na maioridade, deveriam se apresentar ao Tiro de Guerra mais próximo. Se não o fizessem, corriam o risco de serem sorteados para o serviço militar obrigatório, o que não era nada agradável naquele momento, devido a rigidez e a falta de recursos do Exército Brasileiro5. Miguel optou pela primeira alternativa. A sua intenção era terminar o Tiro, que consistia em pequenas instruções militares (como marcha e tiro de fuzil), continuar em seu emprego na Rhodia e, quem sabe, voltar a estudar e arrumar uma boa profissão, para a alegria de seus lutadores e esforçados pais. Enquanto terminava a o Tiro, no final de 1939, a guerra estourava na Europa. Como era algo muito distante, que envolvia temas sem nenhuma relação direta com o Brasil, Miguel 4 5 Miguel Garófalo, - Santo André- 30/09/2012 A Casa das Laranjas – pag. 31/41. 17 nunca pensou que poderia se envolver no confronto mais sangrento de nossa história. Esta é a sua narrativa: “Eu não sabia nada o que era a guerra. Só escutava o comentário no jornal e no rádio. A guerra estava lá pra Itália, Alemanha......Continuei trabalhando lá na Rhodia. A gente via tal, isto, aquilo. O meu tio José é que contava as coisas da guerra na família...”6 Com a declaração brasileira de guerra à Alemanha e Itália em agosto de 1942, a convocação de Miguel veio em novembro do mesmo ano. Numa série de confusões burocráticas, conseguiu se desvencilhar do recrutamento em um primeiro momento, pois foi constatado pelas autoridades que ele era o arrimo de sua família, já que seus pais se encontravam em idade ( para a época) avançada e com problemas de saúde. Mas a dispensa não se confirmou. O funcionário da fábrica, encarregado de dar o documento final para fechar o processo de liberação de Miguel junto ao Exército, era um antigo desafeto seu. O oficio até que chegou ao Quartel General da Rua Conselheiro Crispiniano, porém com o conteúdo que não era o esperado pelo jovem andreense. Ao invés de pedir a dispensa final de Miguel, a Rhodia só requisitou a sua presença por mais 60 dias, que foram contados da data da apresentação inicial! O Exército era um caminho que não tinha mais volta. Ciente da sua obrigação, ruma para Lorena /SP, em janeiro de 1943, iniciando a sua peregrinação pelo Vale do Paraíba. Posteriormente é engajado, (torna-se oficialmente soldado) em 1º de fevereiro de 1943, quando é transferido para a vizinha Piquete. Por mostrar insatisfação na função para qual fora designado ( ajudante de oficial), acabou sendo transferido para Taubaté, integrando a Companhia de Petrechos Pesados do 1º Batalhão do 6º RI, a qual se tornou a sua segunda casa e família até o final da guerra. No início de março de 1944, foi deslocado para o Rio de Janeiro, onde ocorreu a sua preparação final. O interessante, não só no relato de Miguel como de outros veteranos do 1º Escalão que embarcou para a Itália, é que eles realmente não pensavam em ir para a guerra. Era senso comum que ficariam realizando aquelas manobras e instruções até o conflito terminar. No Rio, um fato interessante que marca a irmandade existente entre os pracinhas depois de um ano e meio trabalhando juntos ( que foi fundamental para o bom papel desempenhado no 6 Miguel Garófalo, - Santo André- 30/09/2012 18 front), foi a briga entre os soldados e os homens da Polícia do Exército em um jogo entre Brasil e Uruguai, no Estádio de São Januário. Miguel conta em detalhes: “Um pouco antes de ir para a Itália , fizeram um jogo entre Brasil e Uruguai, lá no campo do Vasco da Gama, só para os pracinhas. Um calor, um calor demais. E eles foram tomar conta de nós lá....Se a gandola estive desabotoada.....Fecha isto ai rapaz, está nu...Beber água? Soldado não precisa beber água e nem ir no banheiro. Até que um de nós falou: Não aguento mais. Vou! Levantou ...Tomou uma borrachada e descolou a orelha......O pessoal lá não se adaptava de jeito nenhum....A gente foi encurralando eles na parede e descemos a mão. Começava o hino nacional, a gente parava. Cessava o hino, a gente continuava. Até que deixamos o campo....Chegamos no quartel, entramos em forma. O capitão perguntou: Tem alguém machucado? A gente disse, machucado não, mas tem um monte de gente aí com distintivo de major, Tenente, capitão.....tá cheio! Foi um confronto grande...O capitão deu risada!”7 No dia 30 de junho de 1944, chegou a ordem para o embarque. Uns foram avisados de que iriam para a guerra ( não se sabe onde) enquanto outros pensavam que embarcariam para manobras na costa do nordeste brasileiro. Miguel estava no primeiro grupo. Depois de uma custosa viagem de 14 dias no navio americano General Mann, foram informados que o destino era a Itália. Desembarcaram em Nápoles. O brasileirismo dos “oriundi”, que integraram uma parcela considerável da FEB, fica explícito no diálogo travado entre Miguel e um velho napolitano, no momento em que o navio estava sendo descarregado. Não havia nenhum sinal de dúvida de quem eram e que fariam o seu trabalho, seja contra quem fosse: “E tinha um velhinho, do cabelo branco, e aquele resmungava.......Resmungou tanto, tanto, que sai dali e fui falar com ele....Olhei para ele, ele parou: Paisano, no sono tedescho, sono brasiliano....Ele ficou espantado ...Ma como, parla italiano.....Sou filho de italiano, meu pai é de Nápoles, de Avellino, ..Ma como...você vem guerrear contra a pátria do seu pai....A pátria do meu pai á a Itália, a minha é o Brasil.......Então aquelas caixas de charuto, nós começamos 7 Miguel Garófalo, - Santo André- 30/09/2012 19 a dar uma para cada um ...E então o velhinho começou a gritar....Não são tedescho, são brasilianos.......Então começou, começou, ficamos, a maior parte era filho de italiano, ficamos lá de bem com eles.......”8 Este paradoxo nacionalista era uma situação comum no Brasil. A mudança dos nomes dos clubes italianos ( Palestra Itália de BH - Cruzeiro, Palestra Itália de SP - Palmeiras) retratam este período negro de xenofobia da sociedade brasileira, que até hoje permanece mal explicado em nossos livros de História. A situação é retratada de forma dramática em uma cena que envolveu o velho Sr. Pascoal Garofalo e a polícia paulista: “E o meu pai aqui, quando estava aposentado, foi vender umas casimiras aqui em Rio Grande da Serra. Dois investigadores prenderam ele e o trouxeram para Santo André. Chegou aqui na delegacia, os dois se gabando: Ai, prendemos um italiano. O Vicentini, que era o escrivão, perguntou para os dois: Vocês conhecem este homem? Os dois disseram: Não, mas é um fascista, é isto, é aquilo...O escrivão falou: Fascistas são vocês! Este homem tem um filho na Itália, na guerra! Se mandem daqui, senão prendo os dois. Na mesma hora, ele pediu para o meu pai preencher uma ficha e lhe deu o salvo-conduto... A minha família e todos sentiram os problemas de serem italianos durante a guerra”.9 Os brasileiros se deslocaram por diversas cidades italianas, até estacionarem definitivamente num trecho da chamada Linha Gustav - Gótica, a barreira alemã estabelecida no norte do território italiano, que servia como defesa para que os aliados não chegassem à Berlim por meio do sul da Áustria. A primeira missão real ocorreu na cidade de Massarosa, na substituição das tropas anglo-americanas. Na caçada aos alemães, o seu batalhão foi enviado para Camaiore (Viarregio) onde teve a desagradável experiência de ser apresentado às bombas alemãs. Em Casoli, aos pés do Monte Prano, também sentiu o roncar das metralhadoras do inimigo, que parecia nunca acabar. De lá, recebeu a ordem para marchar para Barga, de onde sairia a ofensiva para a tomada da cidade de Castelnuovo di Garfagna. 8 9 Id.Ibidem. Miguel Garófalo, - Santo André- 30/09/2012 20 Chegamos em 30/31 de outubro de 1944. Aos integrantes do 6º RI foi dada a missão de conquistar a cidade de Castelnuovo di Garfaganana e os vilarejos que a circundavam. O local era considerado estratégico, naquele trecho do front, por ser o ponto de passagem das tropas alemãs, sediadas na região de Massa, para estratégica Bolonha, importante eixo ferroviário e rodoviário da região centro – norte da península. Com a conquista de Castelnuovo, o fluxo inimigo de tropas seria interrompido, o que possibilitaria o avanço de americanos e ingleses sobre Bolonha, e daí, o domínio do Nordeste italiano10. Desta ação, dos cinco entrevistados participaram diretamente Miguel, Pernanchini e Moura. Aqui, os nossos jovens amadureceram anos em um dia. O recruta brasileiro se tornou veterano de guerra, como seus aliados americanos e inimigos alemães, ao terem o seu primeiro grande combate direto. Para Miguel, foi o fim da guerra. A sua visão da batalha foi esta: “...Atravessamos a ponte e fomos para lá. Foi quando saímos para o ataque a Castelnuovo di Garfagnana. Andamos três dias e três noites sem comer.. Sem comer.....A gente seguia o que o comandante falava, mas sabia que ia encontrar o inimigo, que íamos para a troca de tiro. Ele sabia onde estava o inimigo, tinha as informações. Quando nos chegamos lá, sem comer, achamos um paiol de cebola, um monte, um coelho e uma galinha...Matamos a galinha e fizemos uma bela sopa com a cebola. Bom. Ficamos ali acho que uns três ou quatro dias. Nos preparando para o ataque. Fizemos a nossa trincheira e ficamos ali Os alemães chegando perto com as patrulhas. A gente ficava quieto para não mostrar onde estávamos. E as nossas patrulhas também agiam. Quando os viam, voltavam, sem tiro. Quando começou o fogo cerrado, foi das 12 às 17, sem parar. Metralhadora, morteiro, eles martelando as nossas posições. Metralhei o tempo inteiro. Quando chegou as cinco, a nossa munição acabou e a deles também . Por sorte, eles receberam a ordem de retirada e nos também. Quando eu me levantei, a bomba explodiu, me jogou uns dez metros longe...eu e 10 Moraes, J. B. Mascarenhas de - A Feb Pelo seu Comandante - Biblioteca do Exercito Editora – Pg. 90 21 um cabo. Os alemães estavam bem entrincheirados. Tava chuviscando, um barro que vou te falar. Quando me levantei e vi que estava ferido, vi que o cabo só estava com um arranhão e que ele saiu fora, me deixou sozinho...Eu não sabia para onde andar..tirei a sulfa, que a gente carrega para não dar hemorragia, tomei a sulfa...E adivinha qual o primeiro nome que vem na boca: Mãe...e nisso tava vindo o Scarpin, da minha Cia, com uma metralhadora nas costas....gritei.....Scarpin, to ferido....Ele veio, jogou a metralhadora, jogou o ferrolho fora e me levou 4 quilômetros machucado, perdendo sangue.... Quando cheguei no lugar, onde estavam as ambulâncias, os alemães tinham derrubado a ponte. Passei encima de uma tabua de andaime...do outro lado estavam lá as ambulâncias esperando ali. Tinha o enfermeiro Nardo, da minha cia, que me aplicou uma penicilina. Me levou no PS ali mesmo. O medico disse: O que foi...To com fome: estou três dias sem comer...Ele me deu pão com manteiga e chocolate, e ai fez o curativos. Foram ferimentos de estilhaço: No braço, na perna e no tórax.. O hospital ficava ali do lado do rio Serchio....numa barraca de lona com uma cama baixinha. NO dia seguinte deu uma chuva e o rio começou a encher....Quase me deixaram lá...O pessoal começou a sair correndo e me esqueceram. Uma gritou: Faltou o Miguel !!!!. Sai no último jipe......Pensei, que ironia: Não morri no campo de batalha e quase morro afogado ...”11 Gravemente ferido, passou pelos hospitais gerenciados pelos americanos, nas cidades de Lucca e de Nápoles. Depois de se tratar por aproximadamente cinco meses, foi mandado para o Brasil. Como todos aqueles que viveram a terrível experiência do combate, nesta altura Garofalo não se preocupava com o resultado do conflito em si, mas com a segurança daqueles que se tornaram a sua família, depois de conviverem juntos por dois anos, 24 horas por dia. Estas são as suas palavras em relação a este fato: “....Aí, num belo dia, gritaram o meu nome e falaram: Garofalo, amanhã você volta para o Brasil......Me deram 120 vinte dólares e no 11 Miguel Garófalo, - Santo André- 30/09/2012 22 outro dia vim para o Brasil...Voltamos em uns 30. Eu e o Menelau, que conheci no hospital em Nápoles .Embarquei chorando. O Menelau disse: Miguel, larga de ser trouxa, chorando, nos vamos pro Brasil! Choro este de alegria e este de tristeza,...Porque de tristeza? meus amigos vão ficar ai e eu não sei se os verei de novo, são os meus irmãos......Aquilo foi....”12 Ao chegar ao Rio de Janeiro, ficou mais um mês no Hospital Central do Exército. Teve um rápido contato com Getúlio Vargas, numa das visitas do velho caudilho aos feridos. Ao contrário de outros milhares de veteranos13, foi devidamente reformado logo na sua alta do hospital. O diálogo narrado por Miguel é carregado pela emoção: “Eu estava louco para vir para casa. Eu paguei um dólar para o jardineiro passar um telegrama para casa...Eu queria vir....O enfermeiro falava......você vai passar pelo exame medico ainda...Quando for a hora te aviso. Está bom. Um dia eu estava lá e o exame foi marcado, para as 10 da manha . Entrei, um major baixinho... Miguel, entra. Sentei. Ele começou a escrever, escrever e disse "Pode ir embora". Foi rápido. Eu disse: Doutor, posso fazer uma pergunta? Pode...O senhor está me examinando mesmo? Nem viu os meus ferimentos., nem viu nada... Filho, o sangue que você derramou para o Brasil é o suficiente já.... eu sei que você tem três ferimentos, no braço, nas costas e na perna, com este ferimento você está reformado, você já esta reformado meu filho. Não chora...eu chorei. Fiquei internado no hospital um mês.”14 Retornou para Santo André. Com a pensão do Exército brasileiro, tirou um período de quatro anos para reordenar a sua vida, trabalhando em pequenos serviços apenas para não ficar totalmente parado. Nada mais justo para quem perdeu a melhor época da sua juventude e cancelou vários sonhos por causa de uma guerra distante. Casou em 1947 com uma antiga conhecida da família, a Sra. Anésia, com quem teve os filhos Miguel Pascoal, Marina, Kiko e Marisa. A família teve continuidade com dez netos e nove bisnetos. 12 Miguel Garófalo, - Santo André- 30/09/2012 O reconhecimento da pensão aos ex- combatentes só veio com o artigo53 da ADCT da Constituição Federal de 1988. 14 . Miguel Garófalo, - Santo André- 30/09/2012 23 13 Em 1951 resolveu voltar à ativa, trabalhando com organização de Departamento Pessoal de várias empresas. Posteriormente, montou um escritório de corretagem de seguros, onde trabalhou até o ano de 1984, aposentando-se merecidamente com 64 anos. Atualmente vive tranquilo, usufruindo daquilo que batalhou a vida toda para conquistar, com uma vitalidade que anima a todos que tem o prazer de conhecê-lo. Ao mesmo tempo, nunca esqueceu da sua família da caserna. Desde que retomou as suas atividades normais, atuou ativamente na defesa das causas dos veteranos, principalmente na eterna busca pelo direito de pensão de guerra, ideia que defendeu em vários encontros nacionais de ex –combatentes, que só foi acatada no final dos anos 70. Porém, o reconhecimento definitivo e incontestável do auxilio chegou apenas com a Constituição de 1988. Dedicou e dedica, no alto de seus 92 anos de idade, grande parte de seu tempo livre à Associação dos Combatentes de Santo André, onde ao lado de outros companheiros, vem tentando manter viva a memória daqueles jovens que participaram desta experiência única em terras italianas. 24 2.2 Armando Pernanchini Armando Pernanchini nasceu em Ribeirão Pires, em 28 de março de 1920. Como Miguel Garofalo, também era oriundi, filho de Lorenzo, mais um vêneto ( de Rovigo) que veio tentar fazer a América, e Amélia Pernanchini. A sua infância foi marcada pela trágica morte de seu pai (assassinado por um empregado de sua olaria, em Barueri), quando tinha por volta de seis anos de idade. Talvez tenha sido um preparo para os vários momentos difíceis que teve que enfrentar durante boa parte de sua vida. Assim relatou a esta época: “Nós éramos em oito irmãos. Eu era o do meio. Minha mãe ficou sozinha, para cuidar daquele monte de criança, com muito sacrifício. Saímos de lá ( Barueri) e fomos para Santo Amaro. Lá as coisas não deram certo e fomos para Santo André. Aí as minhas irmãs começaram a trabalhar nas indústrias para sobreviver....eu tinha irmãs e irmão mais velhos do que eu....Aquela época era muito difícil..minha mãe não dava conta...O serviço era difícil e ganho era zero.....Eu comecei a trabalhar de menino em uma marcenaria, para aprender um oficio....A marcenaria ficava onde hoje tem um posto de gasolina seguindo para São Bernardo...logo na saída de Santo André, subindo...Comecei com uns 10 anos . Tinha que ser ali mesmo, pois para entrar na industria tinha que ter 14 anos...”15 Também usufruiu da vida tranquila que Santo André proporcionava na década de 1930. Trabalhou em marcenarias da região, foi funcionário da empresa Kowarick e da Rhodia e jogador de futebol do Clube Primeiro de Maio ( quando o campo era no largo da Matriz, ao lado da sua casa).Nada parecia abalar a sua relativa tranquilidade. A sua preocupação maior era não deixar a sua mãe sozinha na missão de cuidar de seus sete irmãos. São as suas palavras: “Eu não podia ir para o Tiro de Guerra e nem para o Exército e deixar a minha mãe com aquele monte de filho e o meu emprego. 15 Armando Pernanchini, - Bauru - 13/10 /2012 25 Aquilo me ia atrasar a vida. Só queria saber de trabalhar e jogar bola. Eu não ia deixar esta vida para ir na instrução do Tiro.”16 Como já dissemos neste trabalho, quem não se inscrevia no Tiro corria o risco de ser sorteado para o Exército, que pobre e baseado numa rígida disciplina militar ( a famosa instrução francesa), era visto como um verdadeiro castigo para qualquer jovem brasileiro. E Pernanchini acabou sendo sorteado: “ Voltamos ao sorteio. Fui sorteado no finzinho de 1940, e o serviço iniciou no começo de 1941. Fiquei sabendo da novidade por meio do jornal. Foi publicado no Jornal "O Imparcial". Lá saiu o nome dos sorteados....Um monte de gente. O Exército para mim, era detestável. Tirou toda a vida que eu tinha. Minha mãe ficou muito sentida, pois ela dependia muito de mim. Isto ai dificultou a muito a vida lá em casa. Pensei: me ferrei.......” 17 Seguiu justamente para Caçapava, sede do 6º RI, um dos regimentos de infantaria que futuramente seria escolhido para integrar a FEB, ao lado do 1º RI( São Joao Del Rey) e do 11º RI ( Rio de Janeiro). Deste ponto em diante, até o final da guerra, entendemos que a entrevista de Pernanchini deve ser transcrita quase que na integra, diante da riqueza de detalhes por ele proporcionada. As intervenções de nossa parte serão apenas para estabelecer a ordem cronológica dos fatos ou complementar alguma informação. Assim foi o seu primeiro contato com a vida militar: “ Me despedi da turma lá do trabalho. No comecinho de 1941, já fui me apresentar no 6º RI. de Caçapava...Eu estranhei tudo aquilo no começo. Era uma imundície....Não demorou muito para que eu entrasse no conceito da má conduta. Antes de ir para a FEB, fiquei preso, no total, por 46 dias. Não gostava do Exército e por isto me 16 17 Id.Ibidem. Armando Pernanchini, - Bauru - 13/10 /2012 26 tornei rebelde, dando alteração atrás de alteração. A comida era ruim demais. Tentava de qualquer jeito cair fora de lá..... Era horrível. A imundície das camas, cheia de percevejos. Qualquer um entrava ali naquela época. Parecia que o povo já trazia o bicho de casa. Aquilo era uma peste, não acabava nunca. Toda quartafeira a gente fazia limpeza, e quando chegava na outra, tava cheio de novo . E os bichos mordiam a gente de noite, durante o sono...Era horrível. Mesmo o pessoal exigindo banho todo dia, depois da educação física, era fogo.....Ninguém lavava ou escolhia o feijão..era comprado o pior....O Exército era muito pobre demais , não tinha dinheiro para nada...Os oficiais não tinham condições de comprar um carro....sequer o Exército tinha um caminhão. Ruim, ruim, ruim...Soldado passava mal. Eu comia mais fora do que dentro, pois a bóia fora era baratinha. Isto quando meu soldo melhorou. Foi para 280. Antes era 18 cruzeiros. Eu pagava lavagem de roupa. Ficava com 15 para pagar o meu cigarro....Passava o mês com uma miséria. Vinha para Santo André, ver a família, só na base da carona.... Ia para estrada e pegava qualquer caminhão......Sai depois da revista. Fugia, não saia. Eu era um má conduta . Como não me davam liberdade, ninguém me dava liberdade... o boletim cantava....Pernanchini preso por três dias, uma semana... Eu não agüentava, não me dava bem com aquela imundície...Não era bem com o Exército..era a sujeira. Ai quando comecei a ganhar mais, passei a comer sempre fora, não comia mais lá...”18 No final de 1941, quando já se animava para reconstruir a vida tirada pelo serviço militar, Pernanchini foi surpreendido com a noticia de que ninguém seria dispensado, mesmo com término do ano obrigatório. Infelizmente, o Brasil já estava incluso no jogo da politico internacional, devido ao seu posicionamento estratégico tanto no Teatro de Operações do Atlântico Sul como no do Norte da África. Era preciso se resguardar. No entanto, a guerra não passava pela pelos pensamentos de Pernanchini: 18 Armando Pernanchini, - Bauru - 13/10 /2012 27 “ Quando terminou 1941, foi suspensa a baixa de todos os soldados. Puxa, como chorei porque tinha que fica ali ate a guerra acabar...mas não sabia que ia para a guerra naquela época. Chorei.......e minha mãe precisando de mim...entrei com o requerimento de arrimo de família que eu era....não me deram...quer dizer que gostaram de mim... Puta que pariu, está louco....E na guerra o capitão me colocou em diversas patrulhas perigosas... Suspende e convoca mais gente!..Nossa...o quartel ficou assim...lotado que não tinha para onde ir. Em Caçapava o EXÉRCITO alugou uma Casa da Laranja lá.... Fomos para lá...Puseram no lugar um monte de cama. Não era beliche. Não tinha espaço entre as camas. Era uma encostada na outra. O percevejo passava de uma cama para outra. Era isto aí. Ficamos lá uns oito meses. Não cabiam todas a Cias que formavam o Batalhão. Ali continuei dando alteração. Foi ali que aconteceu o caso que me fez entrar na Divisão Expedicionária ....A tocha era fogo..cada um ia para a sua casa e voltava quando queria...e aí era cadeia. ”19 Diante de sua rebeldia, que neste momento de nosso trabalho já é perfeitamente compreensível, Pernanchini acreditava que mais cedo ou mais tarde as suas estripulias o levariam para fora do meio militar. Mas foi o contrário. Custaram –lhe o ingresso na FEB: “Vou te contar com acabei indo para a FEB. Numa destas cadeias aí, quando fui liberado, eu vim embora para Santo André por minha conta. Não tinha nada de permissão, do capitão, do Tenente, para me deixar ir para casa. Naquele tempo, sem autorização, não podia. Fui junto com outros dois amigos: O Luiz Brait e o Armando Magalhães. Chegamos lá demos uma alteração e fomos presos pela polícia em Santo André. A gente dava muita alteração, não tinha jeito. Esta aí foi por causa de um baile. Tinha um salão, no centro, perto da igreja, onde a gente arrumou uma briga boa lá, por causa de mulher. 19 Id.Ibidem. 28 Nós nos identificamos e eles não respeitaram nada. Jogaram a gente lá na cadeia. Comunicaram o pessoal de São Paulo, do Quartel da Lapa. Levaram nós e nos deixaram lá. Nisto, o pessoal de Caçapava recebeu uma ordem para deslocar para SP. E foram ficar justo onde eu estava. Nisto a FEB já estava se formando. Foi onde a coisa pegou O capitão soube que a gente estava preso. Nos tirou e fomos para Caçapava. Ficamos presos. Um dia, o comandante lá, que era um Coronel, mandou nos chamar. Fomos para a sala dele, lá encima, quando ele disse abertamente: Vocês querem ir para a guerra ou querem ficar presos por uns quatro anos? Poxa, que situação...vamos para a guerra. Nisto aí, o Coronel aproveitou e dispensou os caras que acompanharam a gente no trajeto de volta para Caçapava. Nesta época, o quartel já tinha deslocado para Taubaté. O Coronel nos liberou, sem condução, sem nada....A gente teve que dar um jeito para ir de volta para a nossa unidade. Depois de poucos dias, fomos para o Rio de Janeiro.... O problema da indisciplina era que eu não aguentava ficar longe da família e da namorada. Não me inconformava de jeito nenhum em ficar lá....”20 A precariedade do treinamento e a “caxiagem” predominante no Exército, são mais uma vez ressaltados por Armando, quando ele conta como foi o seu período em Taubaté, na chamada Casa das Laranjas, um antigo armazém que acabou sendo adaptado para aquartelar os jovens que estavam “engrossando” o efetivo do 1º Batalhão do 6º RI. “ Na Casa da Laranja, comecei a desconfiar de algo. Melhorou a comida e o tratamento do pessoal com a gente. No almoço tinha até verdura. Não precisava gastar dinheiro para fora de jeito nenhum.... O americano veio lá e deu instrução todinha... Tinha um americano que 20 Armando Pernanchini, - Bauru - 13/10 /2012 29 estava coordenando o Exército. Eles ajudaram muito nesta parte do tratamento com o soldado. O sargento já não era mais aquele cara durão, que fazia assim e assado.....A instrução nossa era francesa, era rígida rapaz, era mais rígida que o alemão. O soldado não tinha direito a nada. Aí já tinha muito mineiro, goiano, e na preparação da guerra chegaram os gaúchos.... O regimento, na época de paz, não chegava a cem homens. Quando foi declarada a guerra, a Cia passou para mais ou menos 180 pessoas. Cada Batalhão era formado por três Cias....Veja. Você vai na Casa da Laranja, passa por lá, e aquilo tão pequeno...Eu ainda passo por lá, eu gosto daquela cidade (ali eu namorei também)........... Aí começou um treinamento diferente, mais pesado. Ordem unida era todo dia, era demais. Acampamento direto.....E o Capitão Atratino era fudido........e fui para a metralhadora. Todo dia instrução, montar e demonstrar a metralhadora. A metralhadora era uma porcaria pô, a Madsen, dinamarquesa.... Isto ai eu não esqueço nunca. E você não falou aí da Hotchkiss.....essa ai era pesada rapaz, acho que tinha uns quinhentos anos viu..........Cheguei a pegar algumas instruções naquilo...A Madsen era bem mais leve. O transporte das metralhadoras era feito por meio de burrinhos. As viaturas eram as caçambas de 4 rodas, que serviam só para carregar os petrechos de cozinha ou alguém que passava mal na marcha....Porra, marcha de 40 Km, como daqui a Lençóis Paulista... 40 KM era duro...Isto dava vontade de desertar...Mas eu pensava na minha família, antes de tudo. O equipamento que a gente usava era muito ruim. Tudo era da França.....Exceto o capacete, aquela casca de tartaruga, uma porcaria......capacete de inglês.”21 21 Armando Pernanchini, - Bauru - 13/10 /2012 30 Veio a transferência para o Rio de Janeiro. Treinamentos. Embarque. Porém, é na viagem realizada a bordo do General Mann que Armando nos traz mais detalhes do inicio da epopeia brasileira nas montanhas da Itália: “No dia do embarque, ate então, para a gente ia, como eu disse para você, para o Nordeste....Fomos colocado no trem, tudo fechado, de noite........E fomos. O tratamento no navio foi bom. Transportou quase seis mil pessoas. A alimentação era boa. Não passei mal na viagem não. Mas segundo os boatos, parece que um morreu...... passou mal e foi jogado depois no mar....... Lá tinham as gaiolas de ferro, para que os corpos fossem jogados ao mar.....A ultima imagem que eu tive do Brasil foi a da Baía da Guanabara, o Rio de Janeiro sumindo cada vez mais.................Só sabia que ira para a guerra, mas não sabia para onde. Só descobrimos o destino uns três dias antes de chegar na Itália. O navio, volta e meia, dava o sinal de alerta, tocava a campainha lá e a gente tinha que seguir as instruções que nos recebíamos...correr para o lugar certo, agrupamento de soldados para se agruparem em certos lugares, prontos para descerem naqueles barcos que eles levavam ao lado. Ah, o meu medo era de ataque existiu sim.......Volta e meia o navio fazia uns barulhos esquisitos, feios mesmo, que a gente pensava que estava sendo atacado...Já começamos a passar mal aí......Nossa Senhora..Dois navios nos escoltavam, dois destroieres, mais ou menos uns quinhentos metros do lado, um pequeno dirigível encima e outro navio grande atrás.....Pelo menos para mim, foi um tensão doida, não consegui relaxar muito não. Até chegar a informação, ninguém sabia para onde ia, se Itália ou Grécia....”22 Como integrante do 6º RI, es deslocou para Massarosa e Camaiore. Novamente chegamos ao fatídico 30/31 de outubro de 1944. Pernanchini dá o seu relato sobre o evento: “De Camaiore nós fomos em Barga. Por sinal, tinha um primo que era de lá....Não encontrei nenhum parente lá.....A minha peça, nos 22 Armando Pernanchini, - Bauru - 13/10 /2012 31 éramos em sete, nos recebemos a ordem para subir o morro. Ali foi o perigo, onde o Miguel se feriu. Eles atacaram a gente. Nós subimos lá e eles estavam esperando. Ali que aconteceu a morte do Tenente. Foi um ataque forte que o alemão fez encima da gente. Recuamos. Viemos por um lugar.....Um correu para lá, outro para cá.... Eu tava com meu amigo Adolfo, nos perdemos, já era de noite, e nos ficamos perdidos da Cia. Ficamos perdidos os dois..Para onde vamos? Mas por causa do barulho a gente se orientou e conseguiu chegar na Cia no outro dia. Tava caída, desmoralizada. Fui disparando até acabar a munição.... A minha metralhadora a gente armou atrás de umas castanheiras, nem vi os alemães..... E recebemos a ordem de retirada......O Cabo Varela recebeu um estilhaço que atravessou o capacete. Ficou entre a carne e o capacete, do lado... Ele me pediu para tirar... quando tirou, o estilhaço, que era pequeno se deslocou e machucou ele sério, saindo sangue........Aquele dia foi terrível...............Conheci o Tenente Pinto bem, ele era o Subcomandante...era paranaense........Ele faleceu, a gente foi embora para a frente. O Capitão conseguiu se salvar, ele reuniu uns 10 soldados para ir até lá e buscar o corpo do tenente... mas o alemão não deixou.....O Atratino ainda conseguiu deixar o corpo numa valeta, colocou um capim e uns galhos por cima, e fez tudo isto se arrastando, até sair da mira dos alemães........Quando a guerra acabou, o Atratino foi lá naquele local e achou ele ....o alemão não viu o corpo.”23 Aqui fazemos uma breve pausa. Armando relata que acredita ter conhecido pessoalmente uma das maiores lendas do boxe de todos os tempos: o lutador peso pesado norte - americano Joe Louis24. Nas pesquisas realizadas para este trabalho, apuramos que a Divisão Buffalo 25, composta exclusivamente por americanos negros, atuou na mesma região que os nossos pracinhas, o que tornam grandes as chances daquele soldado saudado por Armando ser mesmo o grande campeão. 23 Id.Ibidem. Joe Louis (Barrow) Sergeant, United States Army - http://arlingtoncemetery.net/joelouis.htm 25 92d Infantry Division - http://www.history.army.mil/html/forcestruc/cbtchron/cc/092id.htm 32 24 Joe foi figura importante no contexto do jogo ideológico que marcava o cenário internacional anterior ao conflito. As suas lutas contra o campeão europeu, o alemão Max Schmeling26, em meados dos anos 30, foram utilizadas tanto por alemães quanto americanos no duelo de informações travado entre eles. O alemão também participou da guerra, mas como forma de castigo. Claramente antinazista, Max caiu em desgraça com Hitler quando perdeu o titulo mundial dos pesados para Joe em 22 de junho de 1938. Logo no inicio das operações militares alemãs, o ditador ordenou pessoalmente que o campeão fosse destacado para o grupo de paraquedistas da Luftwaff designado para missões suicidas. Porém, o “Ulano Negro do Reno”, vencedor nato, esquivou-se da morte e teve uma trajetória empresarial brilhante, como distribuidor da Coca –Cola na Alemanha Ocidental, até falecer no inicio dos anos 80. Retomando a caminhada de Pernanchini na Itália, chegamos à segunda parte da participação brasileira no Teatro de Operações dos Apeninos, que ficou conhecida como a Campanha do Rio Reno. Nesta altura, o inverno europeu começou a mostrar a sua verdadeira face. Os soldados brasileiros tiveram vários inimigos mortais neste período: os alemães, o pé de trincheira, o frio insuportável e a neve alta.. Saíam para a famigerada patrulha, sempre com o receio de que aquele “passeio” não tinha volta. Armando conta como foi a sua vida nesta fase da guerra: “Ai a gente se posicionou atrás de casas, de lugares bons sempre, pois nos estávamos no morro Soprassasso, eu não esqueço, isto fica gravado na gente, e o alemão tava todo lá encima, era um lugar que encima era só pedra, pedra solta, e não adiantava bombardear aquele local, pois era difícil, tinha que tomar pessoalmente o local, e a gente ficou embaixo dando apoio, mas apoio de que jeito? Ali então recebi ordem para eu me deslocar para Monte Cavalloro. Primeira patrulha que fiz. Puta que pariu, Sozinho, tive que me deslocar porque tinha uma peça de metralhadora do segundo batalhão, ela estava lá e eles tinham sofrido doença, então precisou deslocar e fui dar reforço lá encima, para ir sozinho lá rapaz, meu deus do céu, 26 O boxeador contra Hitler - http://super.abril.com.br/esporte/boxeador-hitler-446543.shtml 33 durante o dia, o capitão me escalou lá. Eu era má conduta porra, ele abusava de mim. Tive lá reforçando aquele grupamento que tinha lá. Os homens lá encima metendo bala, mas eu cheguei lá. E não foi só lá, depois fiz outra patrulha ainda, mais para frente de Porreta. Não lembro nem em que lugar que eu estava. O Capitão devia pensar, ele ta na má conduta mesmo, um a mais um a menos não faz diferença. Ele me escalou nestas duas patrulhas. Eu tinha muita fé...e vou te contar... Você é católico? Você tá vendo aquela estátua ali... Sabe quem e aquele ali? Eu achei na Itália uma medalhinha de Santo Expedito. Botei no pescoço... Eu tinha aquela corrente de identificação, a plaqueta, eu botei junto com a plaqueta e até hoje eu tenho ele aí. Se eu recebi proteção, eu agradeço. Achei aquela medalhinha no chão. Tô aqui, graças a Deus! Rapaz, a neve foi uma tristeza, mais castigou o soldado do que praticamente a guerra. Você ficar e ver tudo na frente em branco, igual este papel aí..Dava para ver bem o alemão quando ele vinha atacar, mas ele vinha de branco, com uma capa branca, filha da puta...E pisando na neve a bota não aparecia...Quando eu fui fazer aquele reforço que te falei, eu não te contei que na noite em que eu estava de guarda, nos ficávamos em dois, o meu amigo do lado viu os alemães chegando, e ele atirou e matou..matou dois..matou mas ficou lá...eles ficaram feridos e gritando...mas você não pode levantar e ir lá porque senão você morre também, porque os outros também matam..então eles vem em fila, um longe do outro, mas vem para te pegar...os primeiros da frente ficaram..de manhã cedo nos fomos buscar eles lá..quando estava tudo calmo, os outros já tinham fugido......os dois morreram, morreram sem recurso.....Olha, para falar para você, no escuro, a gente estava atacando e chegamos num lugar lá que eu durmi em um buraco ao lado do corpo de um alemão, todo vermelho e inchado...Mas a nossa turma carregou o corpo depois e enterrou. 34 Eu fiquei lá encima até acabar a neve....Ficamos parados...só o morteiro e o canhão funcionava...Fazendo as patrulhas, que era um cu de boi, nossa senhora, você vê grito, a noite, geralmente é feita à noite, e aí você escuta os gritos de quem recebe os tiros, o sujeito berra, ele grita, quando recebe a rajada ou o tiro. Até a alimentação era difícil. Ficava mais ou menos uns dez dias sem tomar banho. Não desloca todo mundo...vai um por vez. Porreta Terme era um lugar de termas, com água quente. Era bom, gostoso, você ia lá...mas depois vestia a mesma roupa, porra....E voltava pro morro. Porreta era só para tomar banho. Puta que pariu! Com o tempo que a gente ficava no front, não dava para lavar roupa, nada. Trocava uma roupa suja pela outra...Que vida... Você sabe, dormir, para dormir, a gente achava ruim, mas a idade da gente leva a resistir a tudo isto...Se fosse hoje, eu acordaria no outro dia duro. Pelo menos eu soube que chegamos 19 graus abaixo de zero. Tava com 50 para 60 centímetros de neve no chão...a gente afundava...Usei aquelas galochas brancas.”27 Com a chegada do final do inverno, é ordenada a ofensiva geral, no inicio de 1945. O degelo permitiu a movimentação das tropas brasileiras, e os alemães praticamente deram a sua última cartada na guerra. Neste contexto, os nossos rapazes participaram de violentíssimos combates em Monte Castelo ( Bombiana), Colecchio e Montese, fase de maior mortalidade entre as nossas tropas. Os detalhes da cena abaixo relatada por por Pernanchini, nos permite concluir que ela aconteceu nas imediações da cidades de Collecchio e Fornovo di Taro28: “Em um lugarejo, que não lembro o nome, a gente se instalou na frente de uma igreja. A metralhadora. Fizemos um buraco e ficamos lá esperando.... A noite foi terrível....A torrinha da igreja caiu e nos estávamos ali na frente, pois o alemão estava atirando.......Veio uma ordem de cessar fogo, transmitida pelo comando do Batalhão. Era 27 28 Armando Pernanchini, - Bauru - 13/10 /2012 Moraes, J. B. Mascarenhas de - Op.cit – Pg.199. 35 uma noite. Antes disto, vou te contar uma coisa..Tinha um vinho dentro da igreja, rapaz, que não era mole...você precisava ver que delicia, o vinho do padre......cada um ia lá, enchia o cantil e vinha, e o fogo comendo... Foi até bom...estas coisas assim quando a hora e perigosa você não liga mais para o negocio...Aí todo mundo fica com coragem, é verdade! Aí veio a ordem de cessar fogo...O dia seguinte, de manha o alemão todos eles se entregaram, os cavalos, jipe, caminhão e a tropa todinha. Aí ficaram concentrados lá em um local e nos ficamos vigiando, todos desarmados e revistados, em Fornovo. Olha, eles estavam alegres em se entregar. Não era para menos né? Então a guerra terminou praticamente na Itália. Tinha muito garoto. Uma judiação. Mas eles eram piores do que o soldado adulto. Com eles não tinha nada não, o negócio era matar, eles eram perigosos. Antes do Brasil entrar na guerra, sabe que eu até torcia para o alemão? Era por causa dos ingleses, muito arrogantes que se achavam donos do mundo. Depois que a gente ficou sabendo das coisas, não foi mais deste jeito. Antes da guerra a gente não acompanhava bem a política, não sabia de nada. Fui sem saber o porquê de ter que lutar...”29 Voltando ao Brasil, Pernanchini retomou a sua vida normal. Como vários de seus amigos de FEB, tentou ser caminhoneiro, que acreditamos ser o trabalho mais rendoso daquele pós – guerra, já que o Brasil estava iniciando o seu voraz processo de industrialização e o transporte viário era fundamental para o sucesso desta nova realidade. Mas o veterano não se deu muito bem nesta atividade. A sua vida, como em um clichê de cinema, deu mais uma reviravolta inesperada. Eis o seu relato: “Acabei comprando um caminhão. Fui buscar em Minas, pois aqui não se encontrava. O transporte era muito bom, bem remunerado e faltava caminhões. Comecei trabalhar Santos São Saulo Santo Andre. Depois parei com o caminhão e ingressei na Policia Rodoviária. 29 Armando Pernanchini, - Bauru - 13/10 /2012 36 O caminhão foi bom até as importações começarem. Aí o negócio caiu. Deixei na mão do meu irmão. Quem convidou foi o alemão, aquele meu velho amigo da guerra, o Brait. Antes de dar a resposta eu estava numa festa lá na Rhodia. Estava eu, o Washington e o Brait. O alemão me disse que o governador tinha criado a Polícia Rodoviária nas estradas de rodagem. Mas eu disse que já tinha a Guarda Civil. Mas ele falou que ia ser recolhido todo mundo e que as inscrições estavam abertas em São Bernardo, por causa da Via Anchieta. Ele disse que estava só ele e outro lá na Policia. Eu fiquei pensando. Fiquei com farda com quatro anos e vou colocar outra vez? Mas ele disse que o ordenado era bom. Resolvi ir e ver o que era aquilo. Me ensinaram a andar de motocicleta. No começo não tinha farda, não tinha nada. Éramos comandados por um Tenente da PM. Em dois dias já estava habilitado, sem carta, sem nada. Mais para a frente, quando o grupo estava grande, com uns quinze candidatos, fomos em Santos tirar a carta. A gente trabalhava em traje civil. Depois chegou o uniforme...Eu não queria mais farda mais encarei..O dinheiro puxa, né....Entrei ganhando dois mil cruzeiros...Comprei uma casa, em prestações de mil cruzeiros. Mil era para eu gastar. Como era uns dos primeiros, eu fui promovido rapidamente. Em doze anos, já era inspetor, ganhando bem. Aí fui designado para comandar Bauru. Comandei de 1958 até 1968. Aí houve uma lei que extinguiu a Guarda Civil e a Polícia Rodoviária, colocando tudo mundo dentro da PM. Virei meganha. Comandava 156 pessoas, entre civis e militares, numa região que vai até a beira do rio Paraná, oitocentos quilômetros para policiar de estrada asfáltica. Aposentei em 1968, com quarenta e oito anos. A lei de guerra, mais os quatro anos de Exército me ajudaram. Vinte e dois anos de serviço ativo na Rodoviária. Me aposentei como Capitão. Poderia ficar mais um ano, para sair como Major. Mas falei, chega de farda!”30 30 Armando Pernanchini, - Bauru - 13/10 /2012 37 Casou com a Sra. Terezinha em 1953, com quem teve os filhos Níveo e Rosa. Depois de perder a sua esposa, casou se mais duas vezes, também ficando viúvo, quando resolveu que não teria mais nenhuma companheira. Hoje vive tranquilamente com os vencimentos do Exército e da Policia Militar, numa confortável casa em Bauru. Quando procurado, não se furta em relatar, de forma franca, a sua história de vida. Sempre que pode, vai visitar o seu filho em Camboriu/SC. Deve o sucesso do pós- guerra ao período que passou na FEB, que por bem ou mal, lhe empurrou para a carreira de policial rodoviário, onde se aposentou. Nos altos de seus noventa e dois anos, finalizou a entrevista com o seguinte recado sobre a guerra: “Deus me livre da guerra. Quando eu vejo agora aquela guerra civil na Síria, eu chamo tudo de otário, de burro, eles não precisam disso. Se eles soubessem o que era aquilo...... Não sonho mais com isto, já passou. Quanto estourava uma bomba, já ficava todo apavorado. Nunca tive problema em contar as histórias da guerra para os meus filhos. Já falei sobre isto várias vezes. Eles sabem de tudo.” 38 2.3 Luiz Caetano de Moura Luiz Caetano de Moura nasceu na cidade de Bragança Paulista, no dia 1º de dezembro de 1921, filho mais velho de Eduardo Caetano de Moura e Jesuína Maria de Moura, agricultores que viviam em um pequeno sitio localizado no bairro do Biriçá, na mesma cidade. A família era grande, já que Moura teve mais sete irmãos, chamados Maria, Emilio, Terezinha, Antônia, Ângelo, João e Eliza. Passou parte de sua infância na roça, onde fazia pequenas atividades para ajudar o seu pai. Confessou não serem as de sua preferência. Foi um afortunado, se compararmos a sua história à de outros garotos de sua idade daquele Brasil rural e pobre, já que foi mandado para estudar na cidade ( Bragança) quando completou dez anos de idade. Em 1932, estourou a Revolução Constitucionalista. O Estado de São Paulo ( apoiado por Mato Grosso), na última hora abandonado por Minas Gerais e Rio Grande do Sul, se voltou contra o governo do Presidente Getúlio Vargas. Os insurgentes tinham, como principal bandeira, a instalação de uma Assembleia Constituinte que finalmente levasse o Brasil ao caminho da democracia31. Isolados, os paulistas conseguiram lutar por três meses, depondo as suas armas em 1 de outubro de 1932. Para nossa sorte. Moura relembra com detalhes o clima que tomou conta de Bragança Paulista, já que a cidade serviu como uma das bases das forças revoltosas. Um episódio ocorrido com ele talvez tenha sido o prenuncio do que ele presenciaria doze anos mais tarde na Europa: “ A Revolução de 1932, como comentei com você, tive que ir embora para a escola do sitio. A pessoa que eu morava aqui na cidade também tinha um caminhão, um Ford 1938. Um dia estava voltando com ele da cidade, a gente tinha ido buscar mercadoria e ai passamos pelo Grupo Escolar, eles nos pararam e tiraram o caminhão dele. Foi requisitado. Tivemos que deixar toda a mercadoria no Grupo. E depois vim com uma pessoa lá no carro de boi, buscar a mercadoria. Essa, eu nunca esqueço E era perigoso, pois Bragança estava na mira do aviãozinho, o vermelhinho do Eduardo Gomes. Na torre da igreja 31 São Paulo pega em armas: a Revolução http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/Revolucao1932 39 Constitucionalista de 1932 - instalaram uma metralhadora, para proteger a cidade. O irmão da pessoa que vendeu o armazém para o meu pai percebeu que eu era interessado e todo dia ele me chamava para ler o jornal com ele, na revolução de 32. Ele fazia questão que eu escutasse ele ler o jornal. O que aconteceu em 1932. Na época o diretor do grupo era o Luiz Nardi. E aí veio a Revolução de 1932. O grupo teve que ceder o prédio pelos soldados que vieram para dar segurança para a cidade de Bragança. Aí fui embora, passei para a escola do sitio, onde lá eu completei o terceiro ano. A guerra acabou e aí eu voltei para trabalhar no armazém do meu pai.”32 Retrata, como os seus “irmãos de arma” entrevistados, a sua juventude em uma cidade brasileira pacata, rural e pequena: “Bragança era pequena. Naquele tempo você não tinha ônibus, você ia para a cidade descendo pelo meio da rua. Eu já morava aqui nesta casa. No inicio de 41 mudei para esta casa. Não tinha movimento, não tinha nada...Quando tinha que fazer algo mais importante tinha que ir para Campinas...Bragança era maior que Jundiaí. Bragança foi emancipada de Atibaia. Bragança era uma cidade pacata, como todo o Brasil. Quando estava no Exército, vinha de trem para SP, dormia na estação de Luz e pegava o trem para cá. Não tinha perigo nenhum....Para chegar aqui em Bragança, era estrada de terra, que saia lá de Mairiporã, passava por Atibaia e chegava aqui. Conheci São Paulo quando tinha nove ou dez anos. Nós fomos conhecer o prédio Martinelli. Tinha vinte e quatro andares. Era o único prédio na cidade. Que alegria! Ia sempre, meu pai ia passear e ele me levava...A gente tinha alguns parentes.”33 Chegamos ao final de 1939. Como nos caso de Miguel, Moura queria cumprir o Tiro de Guerra e posteriormente dar prosseguimento em seus estudos. Sonhava em ser professor ou contador, que lhe permitiria ter um futuro próspero em Bragança. Naquele começo da 32 33 Luiz Caetano de Moura, - Bragança Paulista – 03/ 11 /2012 Id.Ibidem.. 40 década de 40, a sua vida era estudar, trabalhar no armazém de seu pai e namorar. Nada mais normal para quem estava iniciando a idade adulta: “Depois que eu estava com 17, eu vim fazer o Tiro de Guerra, em 1940. Em 1939 eu fiz a matricula no tiro de guerra. Eu fazia o tiro de guerra, trabalhava e passei a estudar a noite, e aí eu conclui o ginásio, o quarto ano na época. Eu conclui a escola aqui, graças a uma prima minha que me deu ajuda. Conclui o quarto ano de noite. Cinco horas da madrugada tinha que estar no Tiro de Guerra. Mas aí, quando eu completei o quarto ano, em 1941, eu me matriculei na Escola de Comércio Rio Branco. Queria ser contador, professor, alguma coisa, pois sempre quis estudar, mas não tive assim aquela oportunidade.” “Quando na juventude, quando estava namorando, quando queria dar um beijinho, pegar na mão da namorada, tinha que contratar um moleque para dar uma estilingada na lâmpada, para ficar tudo no escuro.”34 Sabia da guerra na Europa. Como os outros entrevistados neste trabalho, entendia que aquele conflito era algo totalmente distante da realidade brasileira. Porem, ressalta que o seu velho pai tinha lhe avisado que a possibilidade de nosso país entrar na luta não era tão absurda assim: “Entrei no Tiro de Guerra em 1940. Olha, veja bem. Vou começar por aqui. Quando eu tive no Tiro de Guerra já tinha começado a Guerra lá. Eu vim fazer a matricula aqui no final de 1939. A Alemanha já tinha invadido a Polônia. E meu pai, um homem da roça, um homem simples, me disse que eu ia fazer o Tiro de Guerra e que ia ficar na reserva. Depois, disse que o Brasil poderia participar da guerra e eu teria que ir. Não deu outra! Então ele não queria deixar eu fazer o tiro. Ai a mãe entrou no meio, comecei a chorar, e aí ele deixou. Ai vim para o tiro. Não voltei mais para o sítio. Terminei o 34 Luiz Caetano de Moura, - Bragança Paulista – 03/ 11 /2012 41 Tiro de Guerra, em 1940, e quando foi em agosto de 1942 o Brasil declarou a guerra contra a Alemanha e a Itália.”35 Em 1941, os seus planos correram conforme o esperado. Estudava no Colégio Rio Branco, agora mais tranquilo, já que estava quites com a sua obrigação militar. Porem, o ano de 1942 lhe trouxe grandes emoções. O Brasil passa a ser uma peça importante no tabuleiro onde a guerra era jogada. Como já vimos, o pais acabou se perfilando ao lado dos Aliados. Os alemães imediatamente reagem, afundando navios mercantes brasileiros tanto em nossa costa como no Atlântico. O inconformismo toma conta da população e então, no mês de agosto, a guerra é oficializada contra os nazifacistas. Moura conta sobre o dia da declaração como se fosse ontem: “Me lembro do dia. Eu estava estudando no Colégio Rio Branco. Era do lado da Sociedade Italiana.Veja bem, fechou o Brasil. Parou. Passeata pelo Brasil inteiro. Parou escola, parou tudo. Foi aquela gritaria: Guerra, guerra.. Saí do prédio e fiquei na calçada do outro lado da rua, vendo tudo... Foi aquela passeata, a cidade inteira. Até a missa foi suspensa... O pessoal invadiu a Sociedade Italiana... Quebraram a porta,quebram vidro, quebraram tudo, queimaram a bandeira.....A italianada ficou quietinha, sem se manifestar, com medo.... Eu fiquei pensando...é, vocês que estão quebrando tudo aí são reservistas... Como de fato tinha uns três ou quatro que foram convocados mas não foram não...Tinha um deles, que era inteligente, falava muito bem, o Peluzzo, pai daquele que é Presidente do Supremo, nasceu aqui em Bragança...Ele subiu no palanque, que era o coreto da praça e eu la escutando só... Ele falava: Eu deixo meus filhos e minha mulher e vou para o campo de batalha. Não deu outra, foi convocado. Mas foi..não...ele levou um atestado de que tinha um rim só, que era irmão do padre, parente do bispo...foi dispensado.....Daqueles que entraram lá na Sociedade, por incrível que pareça, os três ou quatro eram filhos de italianos. Aí fechou a minha escola.”36 35 36 Id.Ibidem. Luiz Caetano de Moura, - Bragança Paulista – 03/ 11 /2012 42 Continuou levando a sua vida normalmente. Mesmo diante deste quadro, nenhum sonho belicoso o fazia acordar em terríveis pesadelos durante a madrugada. Mas aí a FEB foi criada, e então as convocações começaram a ser realizadas, como maior intensidade, nas regiões sudeste e sul do Brasil. A sua veio no dia 19 de outubro de 1942. Em três dias, já estava em Caçapava, no 6º RI. O jovem bragantino, assim como Pernanchini, se assombrou com as condições que o Exército dava aos seus soldados. A interrupção de seus planos também o aborreceu. O choque aconteceu assim que colocou os pés no quartel: “Depois eu fui convocado e ai tudo fui destruído “Fui o terceiro bragantino a ser convocado. Eu fui à prefeitura. O Moacir me disse que eu tinha sido convocado junto com ele. Quando voltei para casa, o Zé Ramalho já estava na porta de casa me esperando...” “Chegamos em Caçapava já estavam nos esperando na estação. Fomos para o quartel,Já pegamos aquele almoço lá, aquele grude, pelo amor de deus.... Eu cheguei e subi no comando, e quando passei vi aquelas camas bonitas, tudo com rede de proteção contra pernilongos...Epa, é aqui que vou ficar...Ai,quando eu desci eu vi aquele prédio todo sujo, aquele verde oliva lá, falei ali deve ser a baia dos cavalos..olhei lá cama tudo em forma de beliche..falei espera ai...chamei um praça velho e perguntei..o que e isto aí...ai é o dormitório dos praças.... eu falei ..é ai que eu vou dormir...eu estava de terno e gravata...ele perguntou: o senhor é Tenente...eu disse não..sou reservista do Tiro de Guerra...Ele começou a rir alto e disse: É ai que você vai dormir, se é que você vai dormir, porque o que tem de percevejo ai...” “Meu deus do céu. Foi ai a minha pior guerra. Foi ai que conheci o Exército...Pensei, puta que pariu, onde eu fui me enfiar! Eu vim aqui todo alegre e sorridente, e é isto que eu vou enfrentar. Depois ainda tinha o regulamento, uns xinga xinga ...Se você era Cabo, tinha um Sargento que enchia..se era Sargento, tinha o Tenente. 43 Então aguentar não era fácil. E outra, o banho frio! Quando eu cheguei, descobri um hotelzinho que tinha banho quente...Depois que peguei a farda, proibiram a entrada de praças lá, só era permitida para oficial. Puta que pariu...Não tinha sido chamado para defender a democracia? Onde estava a merda da democracia?” 37 Virou oficialmente soldado em 03 de novembro de 1942. Foi deslocado para Taubaté, onde passou a integrar o 1º Batalhão do 6º RI, alojando-se na citada “ Casa das Laranjas”, de onde saiu apenas para o treinamento final no Rio de Janeiro, já em fevereiro de 1944. Realizou o curso de Cabo Fuzileiro, que aliado ao de motorista, em tese o prepararia para comandar uma unidade móvel antiaérea ( viatura armada com metralhadora), o que não ocorreu efetivamente na guerra, já que a aviação alemã estava praticamente banida dos céus italianos quando os brasileiros ingressaram no combate. Na estada na Capital Federal, como os outros entrevistados, relata uma pequena melhora no tratamento dado pelo Exército. Quanto ao treinamento, reafirma a tese que foi totalmente inadequado, pois quase nada foi aproveitado quando entraram em contato com a realidade da guerra: “De quarta feira eu não comia no quartel, porque era jabá, aquela carne seca terrível, horrível, era uma tristeza... Traziam o boi ali para limpar do lado da cozinha..Era mosca e um fedor desgraçado...tinha que comer ali....Um dia eu estava de serviço e cai um percevejo no meu prato..Empurrei o bichinho para o lado e aí voltei a comer... Lá na Casa das Laranjas, em Taubaté, a coisa melhorou um pouco, mais ou menos. Um dia a gente fez uma revolta la no rancho. Fizemos um quebra pau, batendo prato e ninguém queria comer. Foi o comandante lá e ele não resolveu, mandando ele a merda. Só teve um tenente que conseguiu acalmar, um cara legal, filho de japonês, Massaki Udihara...Ele conseguiu convencer os praças para sentar, acalmar e comer. Nem o Major comandante conseguiu acalmar os homens... 37 Luiz Caetano de Moura, - Bragança Paulista – 03/ 11 /2012 44 Em Caçapava teve muita educação física, ordem unida, marchar, aula teórica. Já acordava com a roupa de educação física. Até morreu um bragantino afogado lá no rio Paraíba, o Alfredo Lino de Camargo. Eu estava em Taubaté quando aconteceu. Fizemos o Tiro na mesma época. Um bom rapaz, muito meu amigo. A instrução aqui era tudo bobeira, coisa que nunca foi utilizada na guerra. Nós ficamos vinte meses aqui praticamente sem aprender nada ....A gente ficou fazendo aquele exercício e fazendo desfile para o general..ficamos praticamente na merda....Nos fomos aprender em quatro meses aquilo que foi utilizado lá...”38 Embarcou com o 1º Escalão, nas condições que já mencionamos aqui. Foi em Tarquinia que recebeu o seu jipe, batizado como Taubaté. Daí em diante, passou praticamente um ano trabalhando ininterruptamente, dirigindo nas sinuosas estradas do norte da Itália, transportando soldados, corpos, comida e munição, embaixo de chuva, bombas, tiros e neve. As situações onde sentiu o cheiro da morte são incontáveis. Incrivelmente, só teve um leve ferimento nas pernas. Viu muitas amigos perecerem no campo de batalha, assim como o sofrimento do povo italiano, que se submetia às mais inimagináveis humilhações para poder sobreviver. Moura narra a parte inicial da sua guerra, também fazendo referência ao ataque do dia 30 de outubro, onde presenciou a falta de compostura do General Zenóbio, que mostrou o seu total despreparo ao humilhar os jovens que haviam acabado de voltar do primeiro grande confronto direto com os alemães: “ De Camaiore a gente foi para Monte Prano, que foi conquistada por um Oficial que veio da praça, de nome Mário. Em Camaiore já foi mais difícil a conquista. Quando entrei em Barga, entrei tranqüilo...depois eu só pude sair de lá de noite...Caia bomba para tudo quanto é canto.A cidade ficava entre as montanhas... 38 Luiz Caetano de Moura, - Bragança Paulista – 03/ 11 /2012 45 Eu estava no comando, ao lado do Major Gross. O Capitão era o Aldenor da Silva Maia. Ela era da reserva, foi convocado e cumpriu com o seu dever. Ele conquistou aquele posto lá...o lugar era um ponto importante de observação tanto para o alemão quanto para nós...Ele ficou lá segurando até acabar a munição....Quando chegaram lá, o general Zenóbio os chamou de covardes, que eles eram isto, aquilo.... O Capitão Aldenor quis matar o Zenobio...Não vi esta parte que ele quis matar o cara...Mas vi a hora que o Capitão disse se ele preferia duzentos heróis mortos ou duzentos covardes prontos para o contra – ataque. Todos os oficiais aplaudiram ele!” 39 Deslocou-se com o a sua Cia para o Vale do Rio Reno, onde enfrentou a neve, perdeu um amigo próximo e escapou da morte várias vezes, naquele que pode ter sido o período mais perigoso de sua estadia nos Montes Apeninos: “ Em novembro, nos fomos para Porreta Terme. Fomos recebidos pela artilharia. Oh, Foi la que morreu o Zechin...Ele estava lá encima....devia colocar ele em outro lugar Onde estava o QG era um lugar especial, que era o antigo hotel de termas, onde ficou o General Mascarenhas...Era de primeira linha e tinha o da segunda, que ficava em Pistóia, eu vinha ali e ele fazia questão de conversar comigo, ele queria saber como estava . Marano tinha a ponte perigosíssima, onde eu caí...eles construíram a ponte para jjipe e caminhão, então quando eu cai fiquei enroscado entre um trilho e outro..Ainda ficou uma marquinha aqui na minha perna. Nós ficamos no vale do Reno, ali praticamente nos ficamos na defensiva, mas a patrulha era acionada, sem dúvida nenhuma, houve ferido em patrulha, caiu bomba também....veja, quando perdi o jipe na ponte de Silla, estava em plena neve, ai tinha uma rede para proteger, feita de fumaça, mesmo assim eles jogavam bomba lá.... 39 Luiz Caetano de Moura, - Bragança Paulista – 03/ 11 /2012 46 Continuei o meu trabalho, fornecendo munição e alimento para o pessoal que estava la encima na trincheira....Até teve um caso aí, de um tenente americano, que falava que nem português, que falou, você que são responsáveis pelo alimento, sem munição, podem ficar sem munição mas nunca sem comida, porque soldado sem comida não pode lutar...E isto nunca esqueci...Eu nunca deixei sem a comida, deixei sem munição, pois teve caso onde não pude deixar a munição e ai o pelotão veio e pegou onde eu estava....A alimentação eu levava ate determinado ponto, pois não podia ir ate a boca do inimigo.....Ai tinha o italiano Partiggiani, montava o material no burro e no cavalo e levava a munição ate lá....eles ajudaram muito... Quando caía uma bomba, felizmente ela não caía onde você estava...Pelo zumbido dela, você sabia onde ela ia cair....saia fora e ficava uns 40 metros longe do jipe... Nossa senhora, você nem queira saber Isto aí eu fiz varias vezes. Teve uma que o estilhaço pegou do lado....Se tivesse alguém do meu lado, pegava no peito........Vou dizer para você.... Eu era motorista da primeira e segunda linha, naquelas estradinhas das montanhas. Tinha que fazer tudo de noite, não podia ser de dia. Aproveitava e levava munição, janta, almoço e café da manhã tudo de uma vez....Numa destas ai o dia clareou e eu não pude voltar para a Cia..fiquei no buraco com eles lá.....Ai que eu vi o que era trincheira, ali se comia, era o banheiro, era tudo, fazia que nem gato, fazia o buraco, o cocô ali e vai...Eu usava uma pistola, uma Beretta italiana e um fuzil... Um brasileiro morreu na minha frente, o nome dele era Romeu Coco, ele era motorista ele e uma velha que estavam em uma casa.....Eu parei naquele local porque tava caindo bomba na ponte onde eu ia passar.... O cara que estava de serviço falou.... não vai que eles estão atacando a ponte...Eu assisti tudo isto. Depois passei a ponte e fui embora, fazer o meu serviço, eu tava lá para isto... Foi na cidadezinha de Silla que o meu jipe foi destruído, na campanha do Rio Reno, a segunda campanha. Ai eu peguei outro jipe e levei la na Cia de Serviço, para por o nome de Taubaté e o emblema 47 do Brasil. Fui entrando lá, e tal...O Capitão fez eu voltar e me apresentar, dizer quem eu era e o que eu queria...Ele tava certo, era o regulamento...Mas eu pensei....Porque uma bomba não cai na cabeça deste filha da puta..No outro dia cai a bomba lá, o tal Capitão perdeu a perna e eu perdi o meu amigo Basilio.....Eu fiquei desesperado...Aí o padre falou assim, se você tivesse tanta força, o papa te contratava para acabar com o demônio..A única bomba que caiu na cidade foi esta aí, bem na porta de onde o Basílio trabalhava...Nunca caia nada,ali tava a 25 quilômetros de distancia do front... O maior sufoco vou contar agora. Eu fui levar munição de madrugada e quando eu ia voltando eu peguei a estrada errada..Aí eu fiquei meio desconfiado, parei, eu tinha bússola e lanterna, peguei e me afastei do carro, uns dez metros e aí vi que eu tava indo para o norte...Pera ai, pro norte eu to voltando, tenho que ir pro Sul...Era aquela estradinha de trilha... e agora o que eu faço? o reboque não podia dar ré, não podia acender a luz, não enxergava nada...Daí a pouco vejo um pessoal agachadinho, vindo assim...e eu fui fugindo..pensei...vou voltar e ir preso...Aí eu escutei....Palermo, puxa o fio lá.....Puta que pariu, era um colega de Campinas...Rapaz, que apuro que eu passei...Aí eles me ajudaram, tiraram o reboque, empurraram, me orientaram e aí consegui pegar a minha estradinha... Outras coisas eu presenciei também. O sepultamento dos 27 foi uma coisa que nunca esqueci. No dia 12 de dezembro, teve a tentativa do Monte Castelo, estava doze graus negativos...eu indiretamente tomei parte...um tenente requisitou o meu carro para transportar os feridos mais suaves, porque uma viatura da cruz vermelha não pode levar ninguém armado, mas uma particular, no caso de emergência, é obrigada....não tinha mais ambulância... Neste dia foi uma carnificina, mas de 80 mortos, cem feridos e 27 desaparecidos....Todo mundo pensava que eles estavam presos. Depois que conquistaram Monte Castelo, setenta e dois dias depois, acharam o corpo dos rapazes..Eu fico pensando, aquele que morreu, morreu, e aquele ferido, que poderia ter sido socorrido, morreu congelado... 48 E aí no dia, eu sempre passando no cemitério de Pistóia, no dia 03 de fevereiro de 1945, eu entrava sempre no cemitério quando ia lá a serviço, eu vi o sepultamento dos 27, o padre recomendando o corpo e o corneteiro para dar o toque do silencio. Aquilo ali eu nunca mais esqueço..Ai eu pergunto, deve ter um lugar especial para aqueles 27 lá no outro lado....Nossa Senhora... No Soprassasso, eu tomei parte. Eu fiquei no pelotão de petrecho, uma mini artilharia, camuflei o meu jipe e fiquei ali com o comandante do pelotão, com minha metralhadora ali, caso precisasse, e ali fiquei observando o pessoal subindo, não houve contra ataque, e daí a pouco vi a explosão.... e vi o rapaz subindo um pouco do chão...Opa, pegou alguém...Ai escutei a explosão, ai fui ver era um amigo meu, o Romeu Casagrande, morreu na hora... e feriu também o Ivair Duarte....foi no dia 6 de março de 1945, às 16 horas....Você sabe que na guerra tem que trabalhar que nem o bombeiro. Você isola a área e depois apaga o incêndio. Na guerra e assim também, você vai atacar a montanha, a artilharia tem que limpar a área em volta, então foi o que aconteceu, a artilharia atirando e a tropa subindo....até tinha um nome lá que eles tinham que tomar, um ponto estratégico, um observatório, da linha Porreta e Bolonha....Era uma trincheira e um monte de capim....resolveram jogar uma bomba incendiaria, uma nada, duas nada, na terceira caiu bem encima e aí incendiou e os alemães saíram.....Falaram até que foi metralhadora que matou o Casagrande, mas não foi nada, foi uma mina que matou o Romeu Casagrande e o estilhaço feriu levemente o Ivair Duarte. Na invasão de Montese, na minha área eu participei...fui levar munição lá e felizmente a cidade já estava libertada...morreram oitenta brasileiros, inclusive aquele sargento Wolff, e depois de Montese, até o final da campanha, eu tenho ate na minha folha de alteração, eu fiquei doze dias e doze noites ininterruptas trabalhando, dormindo no volante do jipe...de Montese entramos no Vale do Pó ,e aí foi mais fácil andar atrás dos alemães, até o dia em que eles se renderam em Fornovo.....”40 40 Luiz Caetano de Moura, - Bragança Paulista – 03/ 11 /2012 49 Os dias finais da guerra são descritos minuciosamente por Moura : “ Foi um padre de uma cidadezinha que fez o acerto para que os alemães se entregassem.... Ele foi três vezes falar com o inimigo...Veio uma contraordem os alemães para que eles não atirassem mais na gente...........Os alemães foram avisados que eles estavam encurralados no Vale do Pó, não podiam subir a montanha, para pararem de lutar de vez, senão a coisa ia ficar feia para o lado deles... Aí eles se entregaram....A hora que entrei com o meu comandante em Fornovo, eu tive uma decepção que nunca esqueço...Ai eu vi o que era a guerra..... a quantidade de mortos e feridos...Eu contei mais de sessenta túmulos improvisados ao longo do caminho, na beira do rio... E os médicos e enfermeiros atendendo americano, alemão e brasileiro...o morto depois levava embora...a quantidade de feridos era imensa....Ai eu disse...Estes mortos e feridos fomos nos que fizemos....E indiretamente eu participei disto, pois eu que levei a munição que os matou... Aí falei com o Capitão, e ele concordou comigo, que os alemães mortos eram iguais a gente.... Como a gente, a família deles estava os esperando voltar para suas casas...Eles não fizeram a guerra, eles não queriam a guerra...aquilo lá me marcou... Aí entrei no QG, tinha um soldado alemão lá e eu troquei uns maços de cigarro por três pistolas alemãs, sendo que duas me roubaram no navio quando voltei para casa...filhos da puta...” A vida difícil que os italianos levaram durante o conflito, num país destruído, impressionou Moura. Maridos não se importavam em prostituir as suas esposas em troca de comida dada pelos soldados. Crianças e adolescentes cercavam os pracinhas em busca de um pouco de atenção e de alimentos para suas famílias, e eram atendidas, já que a maioria dos brasileiros entendia o real valor da palavra miséria: 50 “ Quando a guerra acabou, estava numa cidade que se chamava Casteggio, os italianos saíram para a rua chamando a gente para fazer uma festa porque aquela guerra maldita estava encerrada...Ah, veio mulher de tudo que é lado...eu fiquei uns dias naquela cidade e depois a gente fez um baile em Voghera, pegamos um caminhão alemão e o vendemos para fazer a tal festa....Para o italiano entrar ele tinha que levar seis mulheres...era o ingresso. E tinha um casal lá que foi engraçado...estavam dançando e a mulher perguntou se ela podia dançar comigo....O cara falou que não tinha problema, pois eu era amigo....O cara tava tão assim, a gente dando as coisas para eles, que no final ele disse que ela poderia fazer o que quisesse......Miséria da guerra faz isto aí. Por outro lado, também tem a historia da Ida..., triste.....Em Riola tinha um hotel que a gente estava aquartelado e comecei a amizade com esta menina...Naquele frio que não acabava nunca, os italianos estavam quase congelando, eles não tinham roupa..... E um dia estava passando por uma trincheira alemã abandonada e vi um pacotão lá dentro...como não podia tocar, arrumei uma vara e cutuquei...não explodiu não explode mais....Abri e tinha seis mantas novinhas la...peguei duas e dei para a Ida....ela fez uns tailler bonitos para caramba...Quando acabou a guerra, passei na cidade e encontrei o pai dela.. Perguntei onde ela estava e o homem começou a chorar....Gighetto, a Ida está morta..Ela foi visitar uns parentes em Belvedere e a bomba caiu perto dela quando estava voltando para casa.. Isto aí ficou na minha mente, são coisas que aconteceram...”41 Com os fins dos combates em 08 de maio, Moura seguiu o planejamento de desmobilização formulado pelo comando da tropa. Foi para Voghera e de lá, em sua própria viatura, seguiu para Nápoles. Ficou mais alguns dias na cidade do Vesúvio e embarcou de volta ao Brasil na primeira grande leva. Ficou aproximadamente por mais um mês no Rio de Janeiro, esperando receber os seus documentos e o dinheiro devido pelo Exército. Ainda desfilou em São Paulo, foi para Caçapava e somente depois de cumprir este exaustivo roteiro 41 Luiz Caetano de Moura, - Bragança Paulista – 03/ 11 /2012 51 é que chegou em Bragança, onde ele e seus outros companheiros foram recebidos como heróis pela população local. A alegria de seus pais, que tiveram a sorte de seu filho voltar vivo de uma guerra, fica clara nesta cena narrada por Moura, onde a sua mãe foi a protagonista: “ Tem a história do manto....O manto tem mais de cem anos...A minha mãe o ganhou do primeiro marido dela....E ela batizou todos os filhos enrolados neste manto...Nas cartas a minha mãe dizia que estava rezando sempre por mim....E quando voltei, no dia dez de agosto de 45, dez da noite, o manto estava dobrado em cima da mesa...Ela disse: este manto que foi usado em seu batizado é o mesmo que serve para enxugar as lagrimas de alegria de sua volta! Foi uma baita de uma choradeira...”42 Não demorou para retomar as suas vida normal. Depois de três meses, decidiu se aventurar na atividade de caminhoneiro. A autorização para a compra do veículo era complicada, com muita burocracia para a sua importação. Moura criou coragem e foi ao Rio de Janeiro ver como se fazia para resolver o assunto. Ao chegar na repartição competente para liberar a documentação, foi achacado pelo servidor responsável pelo procedimento. Sem ter nada a perder, dirigiu-se ao QG do Exército para pedir uma ajuda diretamente ao Marechal Mascarenhas de Moraes. O comandante da FEB não só recebeu como se lembrou do jovem bragantino ( afinal, esteve constantemente ao lado dos líderes do 6º RI por boa parte da guerra), e lhe deu uma “ordem” para ir falar com outro funcionário do Banco do Brasil, que aí tudo se resolveria.. A operação deu certo e Moura se aventurou pelas estradas entre Paraná e São Paulo por dois anos. Largou as estradas e foi fabricar farinha de milho nos sete anos seguintes. Resolveu partir para outro empreendimento, um posto de gasolina no centro de Bragança Paulista, que vendeu para comprar um ponto de táxi. Por volta do inicio dos anos sessenta, concluiu que a praça não era o seu lugar. Aceitou o convite de um tio para trabalhar com vendas de roupas de cama, mesa e banho para hospitais e hotéis, atividade onde teve grande sucesso. Com o conhecimento adquirido nesta área , resolveu montar uma empresa com um de seus filhos. As suas vendas se concentravam na região do sul de Minas e Triângulo Mineiro. Mais uma vez no papel de sujeito da História, Moura foi um dos milhares de empreendedores atingidos pelo fracasso do Plano Collor, o 42 Luiz Caetano de Moura, - Bragança Paulista – 03/ 11 /2012 52 que forçou a encerrar as atividades de sua firma . Voltou a ser representante de outra empresa do mesmo ramo, parando de trabalhar por volta do ano de 1997, quando já estava com 76 anos de idade. Esteve casado com a Sra. Maria por 65 anos, com quem teve os filhos Luiz Eduardo, Silvia Maria, José Domingos e Antônio Fernando. A família cresceu, com doze netos e nove bisnetos Com a aposentadoria do Exército e a do INSS, vive sossegadamente em Bragança Paulista, onde recebe, com grande alegria e atenção, quem se dispõe a querer saber um pouco mais sobre a história da FEB e de seus veteranos, muito bem representada por sua própria pessoa. 53 2.4 Antônio Cruchaki Antonio Cruchaki nasceu em Santo André em 26 de maio de 1922, oriundo da união dos poloneses Máximo Cruchaki e Maria Cruchaki. Conta que seu pai migrou à América em razão da Primeira Guerra Mundial, talvez para escapar do alistamento no Exército Austro Húngaro ou mesmo do Russo (o território polonês era dividido entre estes dois países), já que relatou o fato de Maximo ter de diminuir a sua idade em cinco anos para poder comprar a autorização de viagem para o Brasil. Inicialmente os Cruchaki se instalaram em Ribeirão Pires, às margens da represa Billings. Provavelmente no final da década de 1910, foram para o bairro hoje conhecido como Vila Assunção, em Santo André, onde o seu avô materno cedeu uma grande área para que o seu pai pudesse plantar hortaliças e frutas, tanto para alimentar a própria família como para vender o excedente aos moradores da região. Segundo ele, a educação dada por Máximo e Maria era rígida, o que não lhe permitiu usufruir muito da sua infância. Era trabalhar, e muito, para ajudar no sustento da casa. Na adolescência, conseguiu concluir o primário, o que lhe credenciou à uma vaga no curso de Marcenaria da Escola Técnica Julio de Mesquita. Esta fase é narrada pelo nosso entrevistado: “ Na minha infância eu gostava de fazer tudo que uma criança queria...mas meu pai não deixava não, era muito enérgico e era difícil eu fazer as coisas. Como tinha que cozinhar a lenha, ele me colocava para trabalhar. Tinha que ir a pé lá da São Luiz até a Vila Luzita, para ir buscar feixe de lenha...Por isto um ombro ficou mais baixo que o outro...Eu chegava em casa e lançava a lenha no chão, e tinha que armazenar aquilo lá, deixar em pé, e como meu pai não tinha força, eu tinha que fazer tudo aquilo sozinho. O Tamanduateí, a lagoa do Aramaçan, eu lembro de tudo isto aí, a gente quando podia ia pescar lá...No domingo, como a gente na tinha muito o que fazer, e como meu pai gostava de pescar, a gente ia na represa...pegava os peixes e deixava para comer na semana.....Com meu pai não tinha muita conversa...Ele não explicava nada da vida de homem...não tinha dialogo não....E quando eu trabalhava, eu tinha que 54 entregar o meu salário inteiro para ele...ele me dava uns trocadinho para isto e para aquilo...E tinha hora marcada para chegar em casa.....Nove horas certinho, se não chegasse, dava com a cara na porta e tinha que dormir no terraço...Neste ponto eu sofri bastante Na marcenaria eu ganhava um ordenado lá....eu pagava o IAPI, não tinha nada de greve e estas coisas aí...Salário tudo na mão do pai......”43 Chegamos em 1939. A guerra começa em setembro, quando a Alemanha e a Rússia invadem a Polônia. Cruchaki pouco sabia o que acontecia no Velho Continente, mesmo com o envolvimento direto da pátria de seus pais no conflito. Jornal não dava para comprar todo dia, e o rádio era um luxo exclusivo das famílias de maior poder aquisitivo. Em 1940, ao completar os seus dezoito anos de idade, registrou –se no Tiro de Guerra local. O plano era cumprir as suas obrigações militares e depois dar continuidade na vida, tal como qualquer brasileiro da época. Era o Tiro à noite e o trabalho de marceneiro durante o dia. Ao encerrar o ano, foi dispensado e dedicou –se exclusivamente à sua profissão em uma das inúmeras fábricas de imóveis, em sua maioria propriedade de italianos, existentes em São Bernardo do Campo. Ainda, por amizade ao pessoal do Tiro, se dispôs a ajudar na instrução dos jovens da região até o final de 1942. A tarefa era voluntária ( ou seja, nada recebia). Ganhou uma divisa de Cabo e, ao desistir das aulas, foi passado para a reserva. No final de 1943, a guerra contra o Eixo estava declarada, a FEB formada e praticamente quem deveria embarcar já estava teoricamente capacitado para o combate. Afinal, já eram quase dois anos de treinamento para a grande maioria dos soldados. É neste ponto que a história de Cruchaki é radicalmente oposta aos demais veteranos entrevistados neste trabalho. Não sabemos por quais razões (e nem o próprio combatente) ele foi convocado apenas no final deste ano. Ou seja, em seis meses, passou de próspero marceneiro em São Bernardo do Campo a removedor de minas nos Apeninos, nas suicidas tarefas do 9º Batalhão de Engenharia de Combate do Exército. O seu retorno ao quartel não foi nada agradável. Mesmo com toda a mobilização em torno da FEB, já prestes para embarcar, a convocação de Cruchaki foi um processo 43 Antônio Cruchaki - Santo André - 27/10/2012 55 desgastante, tumultuado e totalmente desorganizado. Os jovens que participaram com ele desta saga, lamentavelmente pareciam ter voltado aos tempos da Guerra do Paraguai. Cruchaki relata, com indignação, este acontecimento: “ No Tiro de Guerra não aprendi nada....La era um mosquetão de sete quilos, e na Itália usei uma metralhadora com mil tiros de cadência, ou seja, nada a ver... A minha convocação veio por meio do jornal.....Fui me apresentar lá no 38º BC do Parque Dom Pedro, e eles me mandaram esperar a segunda chamada...aí veio a segunda chamada, também pelo jornal, mas naquela altura não tinha quartel nenhum aqui em SP desocupado, porque estavam ainda mobilizando a tropa...Na segunda vez eu fui de novo no Parque Dom Pedro....me mandaram esperar a carta...ai chegou a carta e fui no QG do Exército, numa travessa da avenida São João....mandaram nós para Quitaúna, onde tinha os armazéns de café que era exportado pelo porto de Santos.... Ficava indo e voltando para Quitaúna, neste lenga lenga, até o dia que a gente embarcou para Juiz de Fora.... Entre a primeira convocação do jornal e a chegada da carta, demorou mais ou menos um mês.....foi ali no começo de 44 já, por volta de fevereiro... Quando o Brasil declarou a guerra, todos aqueles estudantes, que saíram gritando para entrar na briga, nenhum deles acabou indo...Inclusive, um dos primeiros a gritar guerra aqui em Santo André, que depois virou advogado e vereador, não teve nada de guerra, não foi...Falei um dia isto ai para ele, que ele que agitou, não foi e eu fui... Aí um dia formaram um grupamento de uns 800 companheiros, por volta dos vinte – vinte e dois anos...como desocupou o quartel de Juiz de Fora, do 11º RI, eles foram para o Rio, o Exército nos mandou para Juiz de Fora...Neste intermédio, depois de nos dar ordem de embarcar, a gente sem farda, sem nada, colocaram a gente... Eu lembro que o Tenente, só tinha Tenente, nem Coronel tinha, nos deu um filão de pão com uma mortadela...Saímos dali às oito da manhã e chegamos às seis da tarde em Caçapava...o trem era muito 56 devagar.....chegamos lá não tinha almoço, nada...deram para nós um saco de farofa misturado com jabá, meia dúzia de mexerica e um chá estranho, que acho que tinha algo dentro, para a gente ficar bem calmo, para a gente não se manifestar contra aquilo tudo....O que aconteceu? Os caras estavam lá na estação de Caçapava, na plataforma.....a turma pegou tudo aquilo e tacou nos oficiais, revoltados, tudo louco...passamos por meio do quartel, tinha um armazém lá dentro, a turma desceu e pegou tudo o que tinha lá para comer e jogou para dentro do vagão....ninguém falou nada, o trem saiu e foi embora...Chegamos em Três Rios à cinco da manhã...tinha um armazém lá na estação...o cara pensou que era trem de passageiro...a gente deixou o comércio dele vazio...oitocentos companheiros com fome. Quando chegamos em Juiz de Fora, a Cavalaria estava esperando a gente, para levar a gente para o quartel, uns cinco ou seis quilômetros subindo morro, lá em Juiz de Fora é tudo morro... Eles precisavam de nós e nós não precisávamos deles....A janta era um feijão tudo amassado, feito no forno de lenha, com mosca encima....comia porque só tinha aquilo...Dormir....as camas eram de pau roliço, o colchão era feito de saco de estopa e cheio com barba de bode...De noite você acendia o isqueiro e tinha aquela fila de percevejo para cima e para baixo...a gente ficava espetando , fazia fileira e jogava ...Mulher da vida não tinha nenhuma lá...A Zona, naquela época, era dominada pelos fazendeiros cheios do café que dominavam a área...Ficamos quase uns dez dias....fomos mandados para São João Del Rey, que ai já tinham descido para o Rio de Janeiro também...Quem também estava esperando a gente era a Cavalaria....os médicos americanos estavam lá esperando a gente para fazer os exames em nós...lá eles aplicavam uma injeção, sempre em dia de sol muito forte...era uma seringa de uns 25 cm de comprimento, por uns 2,5 de largura, a agulha parecia um prego....Ai espetava nas costas: se ficasse uma mancha branca, o cara estava bom, e se começasse a ficar roxa, era mandado para o hospital.... depois destes exames começaram a separar cem para lá, cinquenta para cá, e coisa e tal... 57 começaram a repartir de acordo com o que cada Batalhão ou companhia precisava, de mais ou menos gente....eu e mais um oito ou dez companheiros fomos para Aquidauana, no Mato Grosso...lá fiquei uns três ou quatro dias, nem isso...a tropa estava pronta, da Engenharia....1ª, 2ª e 3ª Cia, uns novecentos companheiros....nos mandaram de novo para Três Rios, num armazém de café também, até que uns galpões ficassem prontos na Vila Militar no Rio...”44 No Rio de Janeiro é que Cruchaki recebeu os seus uniformes e outros equipamentos básicos para um soldado. Na Capital, cuja chegada calculamos ter sido no mês de março de 1944, o jovem soldado teve um aprendizado rápido sobre uso de explosivos e outras técnicas relativas ao trabalho da Engenharia de Combate. Neste período, por pouco não morreu afogado em uma instrução nas praias da Barra da Tijuca. A estada carioca do pré –guerra é narrada assim: “Só aí, nesta saída para o Rio de Janeiro, que a gente saiu fardado...Teve uma instrução muito pequena, só para conhecer o armamento nosso, que nada tinha a ver com o que a gente usou lá...foi muito pouco....No mais era exercício físico, e só...como eu sempre gostei de esporte e tinha um bom preparo, era moço, o Tenente Edson sempre me chamava para completar os times de basquete ou de vôlei depois da Educação Física, porque nunca tinha oficial suficiente para complementar o time... Bom, aí, mais para frente, comecei a ter umas aulas de bombardeio....Aliás, fiquei nesta função aí na guerra toda, ao lado do Tenente Edson....isto aí porque eu era bom na matemática e conseguia fazer bem os cálculos de quantos petardos eram necessários para derrubar, cortar uma arvóre, por exemplo...e fazia de cabeça, não precisava de lápis não..... No último treinamento, a gente foi lá na Barra da Tijuca...o Capitão levou a gente mar afora....não sei que bote que era aquele, pois ele enchia de água e não afundava.. a coisa era ir da praia para uma ilha, e vai para lá, vem para cá, era isto ai...Só que neste lugar era 44 Antônio Cruchaki - Santo André - 27/10/2012 58 muito fundo, ali passava navio...Na última, o Capitão falou que ele ia pilotar o barco, que era pra ir quem não sabia nadar, que iriam aprender ali na hora....Só que nesta o barco virou, uma parte conseguiu voltar para a praia e dois ficaram presos debaixo do barco....Aí o Tenente chamou a gente para ir buscar os companheiros, não consegui e, por sorte, bateu uma onde lá e eles e nós voltamos para a praia....Mas o barco estava virado e a gente tinha que desvirar, porque senão a gente não podia voltar....demos um jeito lá e deu certo....mas que foi um sufoco danado, isto foi...”45 Com o embarque do Primeiro Escalão, em julho de 1944, é que passou a ter a certeza de ir para a guerra. Na sua vez , tinha certeza que o seu destino era a Itália, mas diante do caráter sigiloso das informações naquele período de exceção, não sabia o que faria na Europa, nem mesmo se seria aproveitado no front: “Na realidade, mesmo quando a gente entrou no navio, ninguém sabia o que ia fazer...E a gente fez uns três ou quatro treinamentos de embarque...acho que aquilo era só para deixar a gente fora de si....Mesmo quando a gente foi para a Itália , isto aí a gente tinha certeza quando embarcou, ninguém sabia se ia ficar por lá, se ia para o combate e nem mesmo a própria função..... Eu estava na Vila quando o primeiro escalão foi embora...eles saíram de madrugada, mas não tinha a mínima ideia para onde eles iam...Nos também saímos de madrugada, para o povo não ver...nosso deslocamento ate o porto foi de trem....O nosso vagão não foi com janela fechada não, não deixamos.....Na porta, só tinha oficial...nenhum deles estavam preparados também...não se faz um soldado em um ano, mas em uma vida... No dia da notícia do embarque, eu dei um jeito de vir para casa. Num sábado, eu peguei um trem, fugi, e vim embora....Os vagões foram revistados de ponta a ponta, para ver quem era ou não soldado. Pediram identidade e tudo, mas eu consegui passar...Quando voltei na segunda –feira, desci na Estação para pegar o trem para a Vila, não vi 45 Antônio Cruchaki - Santo André - 27/10/2012 59 um Canela Preta46, nenhum oficial, nada.....Aí quando cheguei no quartel o tenente disse....O Cruchaki, vai lá no deposito pegar o seu saco, porque ele já foi recolhido e a gente já vai pegar o trem para ir embora....”47 A viagem foi tranquila para Cruchaki, com as indisposições previsíveis naquele ambiente cercado de medo e ansiedade: “ Aí a gente subiu no navio, e tal, o Getúlio cumprimentou a gente e tal, e aí de madrugada a gente saiu...A nossa viagem foi de dezesseis dias, comida de doze em doze horas...Teve muita confusão lá no convés do navio, por causa de uns oficiais lá que não deixavam a gente ficar...até que uma hora eu pensei: Quer saber de uma coisa, isto não vai ficar assim...cheguei neste oficial aí, que achava que era mais que os outros, e disse: Na hora que a gente estiver lá no front, na Itália, vai ser bom que você não fique na minha frente.. A gente ficava de dia no convés....Meu beliche ficava para doze metros abaixo do navio...trinta centímetros entre uma beliche e outra....um calor danado, tinha que ficar só de camiseta e shorts......Ficava lá jogando baralho, brincando com os outros...Nem tinha pensamento do que estava passando lá fora...Tomei umas injeções lá que eu acho que era para deixar a gente fora de si.....Para mim foi tranquila....Não passei problema com a comida não...o costume de alimento que a gente tinha em casa era bem diferente...eu juntava alho, cebola, cenoura e mastigava em casa...ai eu comia qualquer coisa, e soldado depois que está lá, tem que comer o que lhe dão....A única coisa que me fez passar mal foi a passagem do navio para a barcaça, indo para Livorno.”48 Em Nápoles, ficou dois dias esperando o transporte que o levou para Livorno. A viagem foi feita em barcaças de desembarque. Este foi o trecho mais perigoso da viagem, já 46 Integrante da Polícia do Exército. 47 Antônio Cruchaki - Santo André - 27/10/2012 Antônio Cruchaki - Santo André - 27/10/2012 48 60 que uma tempestade quase lhe tira a vida antes mesmo de entrar na linha de frente dos combates: “ Ficamos dois dias ali ate as barcaças encostarem para levarem a gente para Livorno...foram mais três dias de viagem no mar...a gente pegou uma tempestade, e tal, que ai deu medo...As barcaças estavam furadas de bala, sujas de sangue, provavelmente eram as que tinha sido usadas no desembarque da França, não tinha tempo para fazer limpeza....e toma remédio toda hora...infelizmente não tenho a mais a faixa que era usada para marcar as picadas, era tudo escrito em inglês...acho que era entorpecente.”49 De Livorno, seguiu para o Depósito Central do Exército Brasileiro, na cidade de Staffolli .Depois de três dias, foi para Roma para realizar uma instrução de retirada de minas e construção de pontes. Ao voltar, já iniciou as suas atividades para as tropas brasileiras transitarem nos Apeninos e cumprirem a sua missão de desalojar os alemães da Itália. E a sua tarefa realmente não foi fácil. Cruchaki relata a sua guerra: “ Aí, descemos das barcaças e fomos de caminhão para....., onde estava o nosso acampamentos de 15 mil homens....fiquei ali três dias e depois me mandaram para Roma, para fazer instrução de mina, ponte, que foi de uns sete dias. Quando voltei para o acampamento, já fui mandado para a região de Silla, de Porreta Terme, um pouco antes do primeiro ataque ao Monte Castelo...Aí a gente começou a fazer as faixas onde a tropa poderia subir para atacar aquele monte de morro lá....Nestes lugares aí, onde passaram os alemães, os homens todos tiveram que ir embora, e só ficaram as mulheres e crianças ficavam, passando fome lá, sem nada...De modo que a nossa marmita automaticamente era dividida entre duas ou três pessoas, e quando não dava, a gente dava um jeito de arrumar o que comer para este povo lá...O brasileiro sustentou mais a Itália do que a própria gente nossa...O rancho era sempre rodeado por um monte de italiano, pois 49 Id.Ibidem.. 61 ele não tinham nada, mais de dois anos, sem pão, sem nada, o pão que eles comiam era feito de farinha de castanha, feita a pastella e assado no forno, a manteiga, que eles falam burra, também não tinha, café muito menos...O que tinha era só o que a fazenda dava...animal não tinha quase nenhum, porque o alemão matava tudo para comer....Eles aproveitaram tudo o que era do nosso acampamento. Aí eu participei de todos os ataques de Monte Castelo, preparando o terreno para o pessoal...Na quarta vez, o americano Clark reuniu todo mundo, a gente estava lá no alto dos morros...Estava tudo coberto de fumaça....A ponte de Silla, a gente consertava a ponte de noite e pela manhã, logo no amanhecer, o alemão já mandava granada e destruía aquilo lá...a gente consertava e no outro dia de novo...o trabalho era constante A instalação de linha telefônica era nossa tarefa também...acho que fiquei uns vinte metros perto do inimigo....quando tinha que instalar o telefone, a gente tinha que carregar o aparelho pesado nas costas, a gente levava uns duzentos metros de fio, uma bussola na mão, o mapa e tinha que fazer isto, vai para lá, vem para cá.... O primeiro serviço que eu me lembro, com o Tenente Edson, o Capitão Raul e mais três companheiros, fomos num pedaço lá para ver como fazia para tirar minas da estrada...eles tiraram umas quinze minas, pessoal, antitanque, tudo... trouxeram para a retaguarda e aí desmontaram ...Cada Tenente tinha uma média de quarenta homens, também eu fui encarregado de fazer a ordem do dia para minha Cia.....era registrado tudo o que a gente fazia... Nesta época, o nosso fardamento era fraco demais, e aquele inverno de 12 a 13 graus abaixo de zero, neste período a coisa foi mais difícil....a roupa que a gente usava foi jogada fora e aí começamos a usar a roupa americana, que eram mais forte, mais resistente, mais quente...Mas como o brasileiro é um cara sempre que tem algo diferente, a gente começou a se virar com coisa que o americanos nem imaginava...para não congelar o pé, para não dar o pé de trincheira, a gente usava jornal para deixar o pé mais seco e quente...O pé de 62 trincheira era triste, fazia tratamento, gelo com gelo para descongelar, água quente não descongela não, e se não desse certo, mandava cortar...Estas são as coisas que a gente passou, coisa difícil para contar não e fácil não, eu estou contando não sei como... Quando a gente estava no front, enquanto não escutava o barulho do fogo, a gente não sabia o que ia acontecer...e a gente geralmente ficava nos lugares mais fáceis para se morrer ..A gente ia lá, preparava o caminho e quando a gente saía os companheiros passavam pela gente correndo para ir atacar, gritando que a “cobra iria fumar”....Quando era granada, a gente calculava onde ela ia cair pelo barulho...se assobiava, ia cair longe, se vinha borbulhando, ia dar uns dez ou vinte metros ao lado, tanto de morteiro, quanto de canhão e de bazuca....Mas a metralhadora era diferente. Era a coisa mais difícil. A gente escutava o barulho da rajada e não sabia de onde vinha e para onde ia.....E só escutava os companheiros infante dando o gemido, gritando, Me socorre, me socorre que eu estou ferido.... a gente tentava ir lá, fazia o que podia, mas era muito difícil...procurava sempre um jeito de tirar o companheiro de lá...quando morria, a gente levava o corpo ate um certo ponto e depois o caminhão, o jipe, vinha, pegava e levava o corpo para a capela e deixava lá....Estas foram as coisas... A gente abria o caminho para a tropa passar, para a turma poder subir nos morros lá...esta era a missão nossa... Fiquei em Val di Bure, vila de Pistoia, praticamente mais de mês, depois eu desloquei mais para cima do morro, na vila que não lembro o nome, e assim foi ate o final... Em Porreta Terme eu sofri bombardeio...Era lá onde estava o QG, do lado direito da estrada...Na casa onde eu estava dormindo, dava fundo para uma rua de cima, e eu ficava na parte de baixo que saía para a estrada....Foi em dezembro que aconteceu, teve um descanso para a gente, uns saíram e outros não, eu fiquei...Nós tínhamos um salão de baile na rua de cima, onde a gente ia dançar....um dia o alemão cismou de dar uns tiros, a granada caiu no meio da rua, fez um buracão e não explodiu...e soltaram outra, pegou 63 no canto da casa, e o irmão da minha namorada estava fora de casa nesta hora, deu azar de ser atingido e acabou perdendo o braço. Fomos pro hospital...ele saiu vivo... a sorte e que também outra vez caiu outra bomba no prédio onde a gente fazia o baile, os companheiros que estavam por lá tinham saído para um curso...se estivessem lá, no dia, não teria sobrado ninguém, derrubaram mais da metade do prédio, acabou o baile, acabou tudo. Ai foi Monte Castelo, Montese, Parma, Colechio e Fornovo e tudo....No dia da rendição, eu sei que a gente estava em Colecchio....A rendição mesmo eu não vi, porque só participou quem era oficial lá, depois eu vi por foto como é que foi.....Mas a gente foi para Fornovo e vimos os alemães se entregando...quando eles começaram a se entregar, a gente juntava a arma deles e jogava na beira da estrada...eles iam marchando com a mão na cabeça.... Você olhava no rosto do alemão e eram umas crianças de uns dezoito anos.......que estavam lá para matar e morrer, só... E uma coisa tão difícil a guerra que pouca gente da valor para estas coisas aí que nós passamos...”50 Com o fim do conflito, veio o desmonte da FEB. Cruchaki esteve no último grupo que saiu do Porto de Nápoles. Afinal, segundo as suas palavras, “...o Batalhão de Engenharia sempre é a primeiro a chegar a e o último a sair...”. Um detalhe curioso é que no final da guerra, com a rendição do Exército Japonês, os americanos recolheram todas as armas que estavam com os brasileiros. Assim como o ingresso, a sua saída do Exército também não foi nada amistosa. O retorno aconteceu no navio Dom Pedro II, segundo Cruchaki, já na condição de civil, pois o seu certificado de reservista e a própria dispensa já tinha sido dadas nos últimos dias na Itália. E, para piorar, sem dinheiro no bolso. Uma afronta a quem viveu a guerra como o entrevistado: “ Provavelmente o pessoal também veio armado porque eles poderiam ir para o Japão, mas como o americano jogou a bomba lá, não fomos mais...Alias, depois da bomba, deixaram a gente sem 50 Antônio Cruchaki - Santo André - 27/10/2012 64 nenhum tipo de armamento lá, os americanos recolheram tudo da gente....A gente foi dispensado na Itália, a gente voltou para o Brasil como se fosse um turista brasileiro voltando para casa....O certificado foi forjado lá na Itália, lá já tinham falado para a gente que não fazíamos mais parte do Exército.....Quando a gente voltou, aquele que teve o privilegio do desfile, sem arma na mão, sem nada, quando nos voltamos, a Engenharia principalmente, a três últimas companhias voltaram no D Pedro I e II, paramos em Dacar e Recife....aí a gente desfilou na cidade, ficamos uns três dias para abastecerem o navio e voltamos..Quem era pernambucano, não pode ficar lá, inclusive teve gente que teve que pegar lancha atrás do navio...Quando a gente desceu no RJ, só tinha uns caminhões para levar a gente para a Vila Militar...não tinha mais oficial,nada...a gente não sabia o que fazer, o que não fazer....Só tinha comida e alojamento...sorte que um irmão de um companheiro lá foi buscar ele e me emprestou cinco mi reis....eles foram para frente de São Paulo e eu desci na central....Fui para o Brás pegar o trem aqui para Santo Andre, não tinha dinheiro para pagar a passagem, veio um guarda lá me enchendo....pulei a catraca e vim embora...51 Imediatamente retornou a sua vida civil. Em uma semana, já estava trabalhando. O seu pai lhe arrumou um emprego na Firestone, onde ficava seis dias por semana, restando poucos momentos para descanso. Casou –se no ano de 1946 com a senhora Ana Nasser, união que durou até o ano de 2000, quando a sua esposa faleceu, da qual nasceram as gêmeas Ivone e Isabel. No início dos anos 50, migrou para a General Motors, onde ficou pouco tempo. Abriu uma marcenaria, a sua verdadeira paixão, em Minas Gerais, na cidade de Poços de Caldas. Voltou para Santo André nos anos 80, onde trabalhou mais alguns anos até se aposentar. A pensão do Exército só veio com a Constituição de 1988. Já nos anos 60, participava ativamente das associações de veteranos, Atualmente preside a de São Bernardo do Campo, onde tenta manter a viva a memória da FEB. È solicitado constantemente para solenidades militares, palestras e outros eventos que 51 Antônio Cruchaki - Santo André - 27/10/2012 65 homenageiam os veteranos, não se negando a contar as histórias que viveu e ouviu durante a sua intensa caminhada em terras italianas. 66 2.5 Nelson Guedes Nelson Guedes nasceu no Vale do Paraíba, na cidade de Jacareí, em 03 de julho de 1921, da união entre Ernesto, um carpinteiro, e a dona de casa Brígida. Descreve uma infância e uma adolescência simples, que mesclava o trabalho e os estudos primários: “Naquele tempo, era tudo meio parado, Jacareí era uma cidade pequena naquele tempo, ate morei em um bairro em Jacareí, Bom Jesus...tinha uma escolinha pequena, onde fiz o primeiro e o segundo ano...depois foi morar em Suzano, tinha uns parentes lá, a minha vó morava lá, a Vó Isabel...A minha avó era muito legal, era a mãe do meu pai.....Ela faleceu com mais de noventa anos, fumava cigarrinho de palha, morreu de velhice....Lá eu fui fazer o terceiro e o quarto ano...ai eu fiz...passei um tempo e ai entrei no ramo da farmácia..” Sobre a Revolução de 1932, se lembra da movimentação das tropas e da passagem dos trens, cheio de soldados, para os fronts na região da divisa com Rio e Minas. Mostra o medo que a revolta impôs à população da época, ao retratar a fuga de seus tios mais jovens para o “sertão”, como meio de evitar uma convocação forçada que poderia ser mortal: “ Na época da Revolução de 32 eu estava em Suzano, vendo o movimento da soldadesca, os trens passavam lá cheio de soldados...eu era molecão...Era o movimento de São Paulo contra o Getúlio Vargas...a gente sabia as noticias por cima, de que ele mandou os nortistas para dominar São Paulo....meus tios solteiros, que moravam em Suzano, ficaram com medo de serem chamados....meus tios foram para o mato, na fazenda, para se esconder...estavam passando pela cidade e pegando gente...eu não entendia nada, mas via todo mundo preocupado, meus tios lá no sertão... Eu fiquei na cidade uns quatro anos, até chegar no Tiro de Guerra...eu era garotão...Tinha a pracinha, onde a gente ficava lá...no interior, naquele tempo, era assim...ficava lá, paquerando as meninas e indo no cinema...Eu já estava defendendo a vida...eu dava um 67 pouquinho do dinheiro em casa...o meu pai era carpinteiro e tinha bastante serviço Meu pai não tinha condições de pagar o estudo, mas me recomendava a estudar...Mas fiz uns estudos particulares, fiz escola noturna... A minha irmã, a Elza, fez o curso técnico de comércio...Mas era isto ai, ia no cinema ver Faroeste Americano, os Seriados, tinhas os dias importantes onde a rapaziada se juntava para ir assistir. Aì eu fui para o Tiro de Guerra. Trabalhava e ia para lá...tinhas os dias certos...geralmente era de noite, de sábado, domingo e feriado.......Ai estourou a guerra...a gente ia para ver o noticiário da guerra...nem pensava que um dia ia estar envolvido naquilo.” E assim viveu tranquilamente por dois anos, trabalhando na farmácia e tentando levar os seus estudos adiante, mesmo com todas as dificuldades típicas que marcavam a maioria esmagadora das famílias brasileiras da época: “Tinha os meus planos e tudo....Ai completei o Tiro de Guerra de 39 para 40...a minha turma foi uma das primeiras a ser chamada....Me lembro dos navios serem afundados...ai eu comecei a ficar meio preocupado... A gente era garotão mas não imaginava que ia para a guerra...Pensava que quem era do Exército é quem ia...” Aí, no final de 1942, chegou a convocação para o Exército. Seguiu o ritual de praticamente todos que participaram da primeira leva de chamados. Passou por Caçapava, Taubaté e Rio de Janeiro. Assim ele descreve todo o período de treinamento: “No dia da convocação, eu estava na farmácia...foi de tarde...trabalhando no balcão e recebi a comunicação do Exército...quem trouxe foi um funcionário lá da repartição...até tem um detalhe...recebi a comunicação e o filho do patrão também recebeu...só que eu fui para a guerra e ele não foi, porque ele era 68 estudante....Tal dia era para me apresentar, não tem escapatória...Eu já fui para casa contar para o meu, eles ficaram todos espantados, coitados...Agora ó o caminho aí...Meu pai ficou preocupado...Ai eu fui para Caçapava depois de uns dez, doze dias...Da cidade, de Jacareí, foram uns duzentos e poucos, reuniu todo mundo e fomos para Caçapava.... No dia, todo mundo ficou sabendo e ficou triste....meu pai foi me levar na estação de trem...Aquilo era uma aventura nova...Meu pai falou que ia rezar muito por mim, só ele foi na estação....Um trem especial levou a gente....Tinha um monte de amigo meu de infância, de escola, do Tiro de Guerra...tinha o Paulo Branco ( voltou doente da guerra) e o Zizinho Martins (padrinho do meu filho Tinha os instrutores, eram muito rigorosos, tinham que treinar a turma nova, preparar para a guerra, era forçado, era pesado,...Ô, acordar de madrugada, fazer exercício, marchar, metralhadora, fuzil...veio oficial de fora para não fazer amizade com ninguém, para puxar mesmo...Muita gente veio de lugar diferente, tinha ideia diferente, gostava de uma bebida, e aí entrava em conflito...mas tinha que se adaptar...o Tiro não era nada perto daquilo....a gente conversava e tinha muita gente que falava que ia desertar se tivesse que ir para a guerra Ai a gente foi para Taubaté, lá na Casa das Laranjas...e foi aquilo, tratamento puxado para ir para a guerra...Ai tive treinamento de fuzileiro e da metralhadora...a comida melhorou alguma coisa....No começo, eram umas camas velhas, depois deu uma mudada, umas camas novas, tenentes novos, que toda hora jogavam a pressão de que a gente tinha que ir para a guerra, cumprir o nosso dever e pá pá pá.... Muitos deram tocha lá em Taubaté....Nos dias de licença, tinham uns que não mereciam, e ai saíam dando a tocha...tinha a patrulha que saia para pegar e as vezes voltava com algum...só saí uma vez com um maluco lá...Ver o Papai, ver a Mamãe......Nos dias de folga, reunia uns dois ou três e ai a gente ia para a beira da estrada pedir carona...Tinha a rapaziada, uns malucos lá no meio, que gostava sempre de dar um tocha...os caras tinham namorada, noiva, família 69 longe...Como Jacareí era pertinho, só ia na folga mesmo.... De vez em quando saia uma encrenca entre os oficiais e o pessoal....Na volta da tocha ia para a cadeia ou às vezes nem voltava...muita gente sumiu Eu pensava assim...fiz curso de Cabo em Taubaté, que já mudava de posição, tinha curso até de terceiro sargento...o curso me ajudou bastante na Itália... o curso era de auxiliar de comandante de pelotão. Muitos não ligavam, não queriam saber...falavam que iam morrer mesmo...Eu achava que estava caminhando para ir para a guerra...No Exército não tinha nenhuma informação...Era no noticiário do cinema, lá de Taubaté, que eu ficava sabendo do que acontecia na guerra...Ficamos uns meses lá...Aí a gente foi para o Rio de Janeiro Os caras falavam grosso....Vocês vão para a guerra, não sei o que e pá pá pá..Enchiam a nossa cabeça com isto aí....mas ai tinham uns que davam baixa, doente...tinha o treinamento para embarque, que foi mais no fim lá no Rio de Janeiro...Mas foi bom, a gente ia embarcar mesmo.. No Rio de Janeiro, não saí nenhuma vez para ir para casa.....não queria ter problema....Aquele de Jacareí, que te falei., não voltou desta grande tocha que foi perto do embarque....Ai, quando ele voltou, foi para o Sampaio, embarcou no Segundo Escalão e morreu na guerra. Tinha os treinamentos de embarque.....ela aquela gritaria, a gente subia no trem, parava no porto e voltava....isto ai foi umas seis vezes...ai a gente desacreditava, pensava que não ia mais....era Cabo no Rio....o salário era pequeno, não dava para nada....Até quem pegava carona era preso. Em resumo, era tiro de fuzil, preparação mental e física.....” Veio o grande dia do embarque. Foi esta a narrativa de Nelson sobre o evento: “Ai, numa destas a gente foi e ficou....Encostou o trem e aí gente começou a descer e percebemos que tinha um navio esperando...muitos quando viram o navio largaram as coisas lá e 70 deram no pé...o meu amigo Ratinho foi um deles...falava que não ia embarcar de jeito nenhum...só ficou a malinha dele lá...” Como escriturário da Companhia, ficou em posição privilegiada para traçar um panorama da rotina das nossas tropas na Itália. Afinal, estava do lado dos comandantes e trabalhava com um fluxo permanente de informações. Ele se considera um privilegiado por não ter ido ao front, num sentimento de alivio e tristeza ao mesmo tempo, pois a impressão que dá é que ele lamentou profundamente não ter vivido as agruras que os seus amigos suportaram na linha de fogo: A impressão na chegada foi a pior possível. Tinha uma banda americana lá para receber a gente....O porto estava destruído, tudo estraçalhado pelas bombas....ai pensei que a gente não ia voltar...encostou um trem lá que a gente embarcou....O porto estava todo virado, as casas e o cais tudo no chão, o povo triste, apavorado...gritavam brasiliano....faltava tudo para eles lá, passando fome, na miséria mesmo...eles não gostavam do americano....A gente foi para o vulcão, não tinha nada preparado, a gente dormiu quatro dias no relento...do lado também tinham americanos, inglês e outros que estavam se preparando para ir combater o alemão também, em outra faixa...Aí eu conheci o armamento americano e a comida americana...tinha um contrabando muito forte por lá......os italianos compravam cigarro americano da gente e e vendiam... Ai que coisa mudou, em Tarquinia....O Capitão Aldenor, da Terceira Companhia do1º Batalhão do 6 º RI, fez uma reunião lá e disse que precisava de alguém para cuidar dos documentos dele e fazer a escrituração de toda a Cia...e aí ele me escalou...sai do pelotão de metralhadora...ele fez um teste de caligrafia comigo e mais dois, que disseram que tinham trabalhado em escritório....eu fui aprovado... 71 Recebia todos os comunicados do Regimento para a Cia, diariamente, e anotava tudo o que acontecia....morte, doença, ferimento...depois passava tudo para o boletim...cuidava da ficha de cada um dos soldados da Cia...acho que me escolheram para esta tarefa por causa da caligrafia e da minha boa conduta durante todo o treinamento. Na medida em que a gente avançava, eu me deslocava...ia no jipe com a maleta....A Itália toda destruída, o povo sofrendo, sem comida...Não tinha a comida deles, o macarrão...A gente dava comida e eles pegavam o meus cigarros americanos para revender......Os Batalhões conquistavam e aí a gente chegava...muito amigo meu foi preso pelo alemão...teve um dia lá que foram treze52 depois apareceram doze, passaram fome...teve um de Jacareí, que ele apareceu seis meses depois que acabou a guerra, lá em Jacareí...deram que ele estava morto...era aquele rapaz, o Paulo Branco, que pisou em uma mina....os americanos tinham levado ele para o Texas e ninguém sabia.....Eu estava na retaguarda lá em Barga, só esperando o resultado daquilo tudo...O pessoal veio espantado de lá, os alemães localizaram e fizeram a resistência. O Aldenor era um cara legal, ele confiou em mim....Ele era enérgico mas era justo, cearense. Mesmo nesta situação, eu escutava o barulho da guerra.....jogaram bomba perto de mim lá em Porreta Termi. Eu estava na rua e o deslocamento do ar foi forte, fui jogado para longe e levantei meio tonto, vi se não estava ferido e fui me esconder em um buraco...O povo largava a casa e ia para a montanha.....Era uma estação de aguas, lugar bonito, parecia Poços de Caldas...ali foi ferido o Raul Kodama....Eles queriam acertar o comandante, o Mascarenhas, pois eles sabiam que ele estava lá. A neve chegou no dia de natal....os americanos deram uns cobertores de crina de cavalo..fino e quente para caramba. Era uma geleira danada, o norte da Itália era muito frio, que as vezes queimava o pé 52 No famoso confronto dos dias 30-31 de outubro, já relatado pelos outros veteranos. 72 da gente...O pé de trincheira era um tipo de alergia que inchava o pé e tinha que ir para o hospital...mesmo com duas ou três meias, não resolvia. Nesta época aí pararam os combates, mas muita gente sofria do pé de trincheira ou era ferida na patrulha. Os jipes não subiam, só com os burricos e os cavalos para levar comida lá na trincheira. Tinha um amigo meu que ficou nesta ai, num posto avançado olhando os alemães pelo binoculo...O meu colega, o João Santana, conseguiu fugir dos alemães aí nesta época da patrulha...atiraram nele mas não pegou, ele se salvou...Outra rapaz, o Mario Baccaro, estava de guarda lá em cima, na escuridão, e viu numa determinada hora da madrugada um soldado avançando do lado dele...tinha uma senha e ele perguntou....o cara não respondeu e ele atirou....matou o alemão...o cara caiu na frente dele...ele enfiou a mão no uniforme do alemão e achou a foto da família do rapaz...aí ele se sentiu mal, ficou esquisito o resto da vida.... Tem o caso do cara que estava limpando o fuzil...estava limpando a arma e ficou uma bala, não viu, e matou um companheiro que estava do lado..... E tem a dificuldade do povo italiano......Mesmo as pessoas de posse não tinham comida....a gente falava para eles iam lá na cozinha ir atrás da sobra....Me lembro que a gente passeou por Roma, lá no Vaticano, no tumulo de São Pedro, durante a guerra e Pisa também, naquele torre torta lá..... Embarcou de volta como o 1º gurpo. Segundo a sua narrativa, Jacareí era pura festa. Depois de quinze dias, já estava em plena atuação em seu antigo emprego na Farmácia Dom José, sendo este o ramo que escolheu para atuar durante toda a sua vida: “Até voltar, levou tempo....Eu peguei o meu certificado de reservista só aqui no Brasil.......O mesmo navio que levou a gente trouxe a gente de volta...aí levou menos dias...foi só festa.... Eu mandava carta para o meu pai e meus parentes e eles sabiam que eu estava bem...foram muitas cartas...Desembarcamos no Rio e fizemos 73 um desfile...nem terminou....o pessoal, o povo e as famílias dos soldados, desmancharam o desfile....Fiquei uma semana lá no Rio de Janeiro, até me desligar do Exército...Lá eu não recebi nada...depois é que me mandaram o dinheiro....Demorou uns dias mais recebemos....Ficou acertado que ia receber tudo como terceiro sargento...Passei por Jacareí, vi a minha família e depois fui para aquele desfile no Pacaembu, junto com o meu pai e depois eu voltei de vez para Jacareí....A cena de encontro com o meu pai e minha mãe não tem explicação...eles pensavam que a gente não ia voltar...foi uma festa geral.... Foi ai que eu conheci a minha esposa. Fizemos uma festa lá em casa... ela morava na minha rua, mas eu não conhecia ela...Eu estava voltando do Pacaembu e aí eu vi ela e umas meninas brincando lá na rua e aí convidei as meninas para festa....mas elas nem acabaram indo.....A cidade inteira estava fazendo festas, as famílias.....Depois entrei na luta, na farmácia, e aí comecei a namorar ela...” Casou –se com Ila e constituiu família. Atuou nas associações de veteranos nos lugares nos quais morou, em Jacareí, São José dos Campos e Guaratinguetá. Relata os casos de amigos que ficaram com o trauma do front: “Depois fui para a Drogasil, em São Paulo...Voltei para Jacareí. Comecei a namorar sério e comprei a farmácia...casamos em dezembro de 1947...dois anos e meio de namoro. Aí tive um monte de farmácia no Vale do Paraíba, em Guaratinguetá, São José dos Campos...Em Guaratinguetá montei uma pequena indústria de “Limonada Purgativa”, que vendia bastante naquele tempo....Os três filhos mais velhos nasceram em Jacareí e o mais novo em Guaratinguetá. Aí vendi as coisas em Guaratinguetá, depois voltei para Jacareí e aí apareceu um negócio para montar uma farmácia pequena em Santo André, isto aí já nos anos 70...e aí fiquei trabalhando até uns oitenta 74 anos...Cheguei a participar das associações de veteranos em Jacareí e Guaratinguetá. A pensão do Exército veio com as leis dos excombatentes, muitos anos depois... Lá em Jacareí, muitos amigos ficaram com doença mental, perturbados....O Lauro Martins se escondia debaixo da cama quando chovia, por causa dos trovões.... Em relação aos desertores, ficaram marcados como aqueles que não foram para a guerra...O Armando, enfermeiro, também ficou atrapalhado...O Brasil não deu o tratamento que eles deveriam ter....Eu mesmo levei um amigo meu ao Rio, mas não deram a atenção para ele, e aí ele morreu logo. Deram um remédio para ele ficar em casa....” A guerra foi uma experiência inédita na vida da gente. Felizmente eu voltei bem, mas muitos morreram, ficaram doentes...A gente foi, não podia negar, tinha que cumprir o nosso dever até o fim....Foi uma lição pessoal...No final das contas, me tornei um homem melhor, e fiz tudo o que podia na minha vida, criei a minha família e deu tudo certo.” Vive hoje tranquilamente em Santo André, ao lado de sua esposa e rodeado pelos filhos Arnaldo, Nelson, Maria de Fátima e Hamilton e pelos netos Fábio, Ananda, Deborah, Fernanda e Caio, curtindo a sua merecida aposentadoria aos 92 anos de idade. 75 CONSIDERAÇÕES FINAIS Em 1939, o Brasil era comandado por Getulio Vargas. O país era uma grande fazenda, onde a maioria da população vivia em condições precárias, com uma expectativa de vida que girava um pouco acima dos 40 anos de idade. Os imigrantes, sertanejos e ex-escravos dividiam as mesmas mazelas na luta diária pela sua sobrevivência de norte ao sul de nosso território. No campo político, a ditadura estava mais consolidada do que nunca, já que desde 1937, após a eliminação dos integralistas, ninguém mais ousava contestar o velho caudilho. Na área internacional, o país assinava tratados com outras nações americanas ( lideradas pelos EUA), visando o estabelecimento de uma doutrina de ação única no caso de agressão militar ao Novo Continente. Ao mesmo tempo, comerciava intensamente com os alemães. Uma política tipicamente bipolar do pragmático Vargas. A situação se define no final de 1941. O ataque japonês à base americana de Pear Harbor, no Havaí, levou o Brasil a romper as relações diplomáticas e comerciais com as nações do Eixo. Somando-se isto aos acordos milionários assinados com os americanos, (usados para financiar a reestruturação das Forças Armadas Brasileiras e o projeto da Siderúrgica de Volta Redonda) e à instalação das bases do Exército dos EUA no nordeste, os alemães entenderam que o maior país da América do Sul agora era seu inimigo. Por isto, passaram a atacar os navios brasileiros que trafegavam por todo o Oceano Atlântico. Os afundamentos do “Bependy”, “Itagiba”, “Araraquara” e “Aníbal Benevalo”, entre os dias 15 e 16 de agosto de 1942, que tiraram a vida de aproximadamente 600 pessoas, foram a gota d’água que tornou a declaração de guerra uma realidade. Alemanha, Itália e Japão foram oficialmente nomeados inimigos no dia 22 de agosto de 1942. Na realidade, nos parece que o governo já previa a possibilidade deste evento. Afinal, as movimentações para a ampliação do quadro de soldados já vinham ocorrendo desde o ano anterior, conforme nos relatou Pernanchini53, com a suspensão da dispensa da turma de 1940 das fileiras da força verde-oliva. 53 “...Quando terminou 1941, foi suspensa a baixa de todos os soldados. Puxa, como chorei porque tinha que fica ali ate a guerra acaba...” 76 Depois da declaração, a grande a mobilização foi iniciada. As convocações em massa começam em outubro de 1942, com milhares de jovens incorporando-se ao dispositivo militar. Era uma medida padrão para um país em guerra, que não significava, porém, o envio de tropas para qualquer teatro de operações do grande conflito, pelo menos naquele momento. Com as mudanças típicas da politica internacional, a intenção brasileira de participar efetivamente da guerra é aceita pelos Aliados. Afinal, quanto mais tropas, melhor. Assim, no dia 9 de agosto de 1943, foi assinada a Portaria Ministerial nº 47-44, publicada no Boletim Reservado do dia 13 do mesmo mês, que criou a Força Expedicionária Brasileira (FEB), constituída inicialmente pela 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, tendo como seu comandante o general João Batista Mascarenhas de Moraes. O Exército Brasileiro, naquele início dos anos 40, era um arremedo de força militar. Desequipado, sem dinheiro e com uma hierarquia draconiana, baseada na rígida doutrina militar francesa, era a pior opção para os jovens que sonhavam em ter um futuro promissor. Mas, uma vez aprovados nos exames médicos, não havia mais como escapar. Ou se aceitava aquilo ou o outro caminho a ser tomado era o da prisão, além da desonrosa e eterna marca social de desertor. Milhares de soldados passaram a se alojar nos quartéis de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, locais onde estavam situadas as unidades militares escolhidas para formar o grosso da Divisão Expedicionária, o 1º, o 6º e o 11º Regimentos de Infantaria. Aliás, as convocações prosseguem até o ano de 1944, como vimos no caso de Antônio Cruchaki. A maioria dos membros desta nascente força tinha o mesmo perfil de nossos entrevistados: meninos do interior, muitos deles filhos de imigrantes, que tinham uma vida difícil, geralmente com instrução primária, que apenas queriam ter vida tranquila. A guerra era um pensamento distante da maioria esmagadora da tropa. Os treinamentos não foram os mais adequados. Como disseram os nossos combatentes, a instrução recebida não era o suficiente para fazer frente aos alemães, mestres na arte da guerra, que já estavam lutando há quase cinco anos quando da chegada do 1º Escalão em Nápoles, em 16 de julho de 1944. Mas já que estavam ali, nada mais lhes restava a não ser fazer o melhor e, principalmente, voltar inteiro para casa e tocar a vida da melhor possível. 77 E assim chegaram na Itália. Foram integrados no V Exército Americano em 5 de agosto. Alguns oficiais e graduados realizaram cursos complementares sob a supervisão dos americanos, sendo que grande parcela da força não teve a mesma sorte. A especialização deles ocorreria nos próprios combates. Então, no dia 16 de setembro de 1944, começou a luta efetiva dos brasileiros, que durou aproximadamente sete meses, contra alemães e italianos no norte da Itália. Enfrentaram o inimigo em uma luta encarniçada e venceram, cumprindo exatamente a missão que lhes foi dada, tal como os Aliados que atuaram na Itália. Finda a guerra, a desmobilização foi desastrosa. Tanto o Governo Federal como o próprio Exército, ao invés de se espelharem no exemplo norte americano de apoio aos seus ex-soldados, não deram o tratamento devido aos brasileiros que sacrificaram a vida por uma causa que conheciam superficialmente. Poucos tiveram a sorte de serem reformados (mesmo aqueles feridos gravemente) e a pensão para todos que lá estiveram sequer foi cogitada neste retorno. Cursos profissionalizantes, acompanhamento psicológico, entre outros tipos de suporte aos veteranos, ficaram longe das politicas oficiais. Aliás, muitos chegaram como Cruchaki54, sem dinheiro no bolso sequer para tomar a condução para a sonhada volta ao lar. Esta desvalorização dos pracinhas prosseguiu durante um longo e tenebroso período. Mesmo no Regime Militar, onde algumas legislações esparsas lhes deram certos direitos, o ciúme daqueles que não participaram do conflito falou mais alto. Nada mais era oferecido do que as homenagens de estilo nas datas pátrias, que não resolviam os problemas de ninguém. Com a abertura politica, a situação só piorou nos anos 80. A História da FEB foi confundida com a da Ditadura, o que permitiu que teses e trabalhos acadêmicos desmerecessem os brilhantes serviços prestados pelos veteranos. Porém, com a estabilização democrática, a situação começou a mudar. A Constituição de 1988, nos Atos de Disposição Constitucionais Transitórias, em seu artigo 53, concedeu a pensão a todos aqueles reconhecidos como ex- combatentes. O Exército Brasileiro, com a ascensão dos oficias que aprenderam a admirar a FEB nos bancos de seus centros de formação, começou a dar a atenção devida aos seus veteranos. Além 54 das constantes “...sorte que um irmão de um companheiro lá foi buscar ele e me emprestou cinco mi reis....eles foram para frente de São Paulo e eu desci na central...” 78 homenagens, proporcionou o suporte assistencial. Historiadores sérios, desprovidos de ideologia, começaram a publicar estudos que aos poucos nos vão permitindo descortinar o que efetivamente se passou na epopeia brasileira na Itália. Em resumo, conclui o seguinte neste trabalho: com ou sem os soldados brasileiros, a guerra continuaria, e provavelmente teria o mesmo desfecho. Monte Castelo e Montese não foram fundamentais para a expulsão dos alemães da Itália. Afinal, apenas 10 mil de nossos jovens estiveram na linha de fogo, uma fração microscópica no contexto geral da Segunda Guerra Mundial, que teve aproximadamente o envolvimento de 100 milhões de soldados. Como digo desde que entrei em contato com tema,, a FEB foi mais uma das pequenas forças que auxiliaram os quatro grandes ( Inglaterra, EUA, França e URSS) a derrotar o Eixo. Isto não diminui o valor dos veteranos. Os que lá estiveram viveram situações que um homem comum não suportaria. A neve, a chuva, a bomba, a mina traiçoeira, o roncar da metralhadora inimiga, a trincheira isolada, a patrulha mortal, o trauma do combate, a perda do amigo, a doença, a sujeira e a miséria italiana estiveram presentes diariamente na vida destes brasileiros, desde a chegada até a saída da Europa. Infelizmente, alguns não retornaram. Mas ficou claro que o desempenho que tiveram nada os diferencia dos soldados americanos e britânicos que lutaram em outras frentes naquela fase final da guerra. Todos tem a mesma áurea de grandeza na luta contra o obscurantismo das forças do Eixo. Armando Pernanchini, Antônio Cruchacki, Miguel Garofalo, Luiz Caetano de Moura e Nelson Guedes, que em sua maioria voltaram para casa sem o devido amparo do Estado, novamente entraram em um campo de batalha. Desta vez a luta era por uma vida digna. A seu modo, cada um deles conseguiu vencer a sua própria “Terceira Guerra”. Formaram família, trabalharam, enriqueceram e faliram, choraram e riram. No final, eliminaram todas as adversidades que apareceram pelo caminho. Hoje, estes cinco “rapazes”, todos na casa dos noventa anos, desfrutam de merecida aposentadoria, sempre às voltas com solenidades, viagens com os filhos e confraternizações com amigos, cercados de admiradores, netos e bisnetos, recebendo o carinho merecido de quem conhece a história de cada um deles. Assim, encerro o presente trabalho com uma frase simples que a tudo sintetiza: 79 Missão cumprida ! 80 REFERÊNCIAS a) Fontes Joe Louis (Barrow) Sergeant, United States Army - Disponível em < http://arlingtoncemetery.net/joelouis.htm> Acesso em: 05 MAI 2013 92d Infantry Division - Disponível em <http://www.history.army.mil/html/forcestruc/cbtchron/cc/092id.htm - > Acesso em: 05 MAI 2013 Brasil na guerra, a tentação totalitária- Disponível em < http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/brasil-na-guerra-a-tentacaototalitaria> Acesso em: 12 JUN 2013 A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial - Ricardo Seintefus - EDIPUCRS 2000 - Google Books Vitória, Enfim - Disponível em < http://veja.abril.com.br/especiais_online/segunda_guerra/edicaoespecial/sub3_imp.shtml> Acesso em: 23 ABR 2013 O boxeador contra Hitler - Disponível em < http://super.abril.com.br/esporte/boxeadorhitler-446543.shtml> > Acesso em: 08 AGO 2013 São Paulo pega em armas: a Revolução Constitucionalista de 1932 - Disponível em < http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/Revolucao1932> Acesso em: 10 SET 2013 O documentário e as narrativas dos ex-combatentes brasileiros na Segunda Guerra Mundial - Cássio dos Santos Tomaim - Disponível em < http://journaldatabase.org/articles/documentario_as_narrativas_dos.html> Acesso em: 14 OUT 2012 81 Militares e Política – nº 3 - Disponível em < http://www.lemp.historia.ufrj.br/revista/ante/Militares_e_Politica_LEMP_n_03.pdf. > Acesso em: 10 MAI 2013 Memórias de um prisioneiro de guerra: uma análise joseense Eliseu de histórica da participação do Oliveira na Segunda Guerra Mundial - Disponível em < http://www.moosburg.org/info/stalag/almeida.pdf> Acesso em: 10 SET 2013 A cobra fumou na Itália: o cotidiano dos pracinhas brasileiros no front - Disponível em < www.ecsbdefesa.com.br/fts/ACFI.pd > Acesso em: 10 DEZ 2012 A reintegração social dos ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (19461988) -- Disponível em < http://www.poshistoria.ufpr.br/documentos/2010/ALESSANDRO.pdf. > Acesso em: 25 SET 2012 “Nós temos razão e eles não têm”: O inimigo no imaginário dos veteranos da FEB Disponível em < www.uesb.br/anpuhba anais... Luciano 0Bastos 0 eron.pdf> Acesso em: 14 OUT 2012 Entrincheirados no tempo - a FEB e os ex-combatentes no cinema documentário - Cássio dos Santos Tomaim http acervodigital.unesp.br handle 34 Disponível 0 em < > Acesso em: 14 OUT 2012 La forza di spedizione brasiliana (FEB) - memória e história - Disponível em < http dspace.c3sl.ufpr.br dspace handle 4 0 > Acesso em: 10 JAN 2013 Memórias do front: Relatos de guerra de veteranos da FEB - Luciano Bastos Meron 82 Disponível em < - www.ffch.ufba.br/IMG/pdf/2009luciano_bastos_meron.pdf> Acesso em: 14 OUT 2012 b) Referências Bibliográficas COSTA. HELTON – Confissões do Front – Soldados do Mato Grosso do Sul na Segunda Guerra Mundial - Dourados/MS. Grupo Literário Arandu, 2012 CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo, EDUSP, 2000 FARIA, Marcio Jose Celestino.A Casa das Laranjas.. Crônicas dos Bragantinos na FEB. Edição do Autor.2009. FROHLICH, Sírio Sebastião - Longa Jornada - Com a FEB na Itália- Brasilia - EGGCF – 2011. LAMOUNIER, Bolívar - Coleção Os Grandes Líderes – Getúlio – Nova Cultural -1988 LIMA, Ruy Moreira. Senta a Pua!. Rio de Janeiro.BIBLIEX. 1980. MAXIMIANO, Cesar Campiani. Barbados, Sujos e Fatigados: soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial. São Paulo. Grua.2010 MAXIMIANO, César Campiani. Irmãos de armas: um pelotão da FEB na II Guerra Mundial. São Paulo, Códex, 2005. MOCELLIN. Fernando Peyron. A Missão 60. Rio de Janeiro. BIBLIEX. 1971. MORAES, João Batista Mascarenhas de. Memórias. Rio de Janeiro. BIBLIEX. 1969. MORAES, J. B. Mascarenhas de - A Feb Pelo seu Comandante – Rio de Janeiro. Biblioteca do Exercito Editora – 2005. 83 OLIVEIRA, D. (Org.). A Força Expedicionária Brasileira e a Segunda Guerra Mundial: estudos e pesquisas. Rio de Janeiro, Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército, 2012. SILVA, Ernani Ayrosa da. Memórias de um Soldado Rio de Janeiro. BIBLIEX .1985. SILVA, Hélio História da República Brasileira- Alemães atacam navios brasileiros – Edições Isto É –Rio de Janeiro -1988. UDIHARA, Massaki. Um Médico Brasileiro no Front.São Paulo. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. 2002. WAACK, William.As Duas Faces da Glória: A FEB vista por seus Aliados e Inimigos. Rio de Janeiro. Nova Fronteira.1985. WRIGHT, Quincy. A Guerra. Rio de Janeiro. BIBLIEX .1988 c) Entrevistas Armando Pernanchini, - Bauru - 13/10 /2012 Miguel Garófalo, - Santo André- 30/09/2012 Antônio Cruchaki - Santo André - 27/10/2012 Luiz Caetano de Moura, - Bragança Paulista – 03/ 11 /2012 84 ANEXO I- ROTEIRO DA FEB NA ITÁLIA 85 ANEXO II – UNIDADES DA FEB 1ª DIVISÃO DE INFANTARIA EXPEDICIONÁRIA Comando da Divisão Companhia do Quartel General Tropa Especial (Pelotão de Policia, Sepultamento, Intendência. Manutenção) Banda de Música Divisionária Depósito Divisionário Infantaria Divisionária 1º Regimento de Infantaria 6º Regimento de Infantaria 11º Regimento de Infantaria Artilharia Divisionária Bateria de Comando da Artilharia Divisionária Expedicionária I Grupo de Artilharia II Grupo de Artilharia III Grupo de Artilharia IV Grupo de Artilharia Esquadrilha de Ligação e Observação -ELO Engenharia Divisionária 9º Batalhão de Engenharia 86 1º Esquadrão de Reconhecimento 1º Batalhão de Saúde 1ª Companhia de Transmissões 87 Armando Pernanchini Antônio Cruchaki Luiz Caetano de Moura (beliche do meio), no dia do embarque, é visitado por Getúlio Vargas. 88 Nelson Guedes Miguel Garofalo ( último da esquerda para a direita) com seus amigos Vilella, Castelli e Chiba. 89 ANEXO III – TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS Entrevista Miguel Garofalo Santo André/ São Paulo - Dia 30 09 2012 PARTE I - A VIDA ANTES DA GUERRA Eu nasci no dia 12 de outubro de 1921, na rua dos italianos, hoje Agenor de Camargo. Meus pais vieram da Itália e eram de Nápoles, de Avelino. Chegaram aqui em 1898 e foram diretamente para Ribeirão Pires e depois para Santo André. -xEle era posseiro. Fazia posso porque não tinha água encanada. E de modos que era um beleza de pai, muito trabalhador . Era analfabeto. O nome dele era Pascoal Garofalo. -xE o da mãe era Joana Garafolo. Todos os meus irmãos nasceram no Brasil. Somos em oito irmãos. -xA minha infância , eu digo para você. Filho de pais pobres. Entrei com oito anos no grupo, sem ter um par de sapatos para por no pe, sem ter uma camisa para vestir, minhas camisas eram sacos de farinha, e a gente via a diferença daqueles filhos riquinhos que não davam confiança para a gente. Eles eram de um lado, e eu descalço, de outro. Mas nunca liguei para isso, pois acho que a minha diversão, a minha felicidade, eu sabia desfrutar dela. E ele não, ele tinha uma baba, que levava ele, que trazia ele, que dava bainho nele, ele não precisa. Eu fazia isto tudo sozinho. Pra mim, a minha infância não foi ruim. 90 De oito para nove anos, quando estava no primeiro para o segundo ano o meu pai me disse que tinha que sair da escola. Fui trabalhar com nove anos como servente de pedreiro, para ajudar a família. Éramos em oito irmãos. Eu era o quarto. Eu trabalhei com o sr. Vicente, um homem muito bom, que pagava 700 reis por hora. Depois fui trabalhar na Rikbo, na fabrica de sal perto da estação aqui de Santo André. -xEmpinar papagaio, essas coisa, jogar bola, as pelada. A gente se divertia com isso, só com isso, porque dinheiro.... -xNão, Santo André já era bom. Era bom de se viver. Todo mundo se conhecia. Muito sitio, muitas chácaras de frutas para a gente roubar... E vou te falar uma coisa, o pessoal era muito mais atencioso com a gente do que hoje. Hoje você quase que não tem amigo. Uma coisa e outra. E hoje ninguém quer saber. Cada um por si. -xNo lago do Tamanduateí. Ali no rio e pesca. Ali tinha uma curva e ia pescar. Este rio Tamanduateí que esta ai e artificial. E artificial. Ele foi desviado da ródia, passava no meio do Kovaric e da Rhodia Química . Então ali desviaram e fizeram o novo rio. -xEu fui trabalhar com 14 na Rhodia Seda. Na Química também trabalhei. -xVoltei para a escola com 13 anos. Na fabrica, meu caro, eu entrei, eu tava no grupo escolar da Senador Flaquer. Eu entrei quando tinha passado do 2º para o 3º ano. Com 14 anos meu pai me tirou e me disse: Filho, você precisa trabalhar que nós estamos precisando. Te arrumei emprego na Rhodia. Com 14 anos fui, sem tirar o diploma. Precisei de uma declaração do diretor do grupo para tirar a carteira de menor. Mas eu fui trabalhar contente. 91 -xNão. Tinha umas bobina que precisava pintar. E eu pintava aquilo. Fiquei um tempo pintando aquelas bobina e depois então eu fui trabalhar como auxiliar de mecânico, engraxar as máquinas, tudo. Depois disso, passei a meio oficial de mecânico, para fazer a manutenção. -xPodia. Não, era fácil, era muito fácil, pois aquilo num instante a gente aprendia. A máquina era grande , mas tinha os via- fios, tal, era coisa simples. Mas era tão bom. Eu ganhava mil e cem por hora .Ganhava mais ou menos, que aquela tempo a gente fazia 240 horas por mês. Trabalhava de sábado ate o meio dia. Ganhava 220,230 mil reis. -xDava para ajudar. Dava como diz o outro: os dois davam pra comer. Comida não faltava. Mas Roupas, estas coisas, dinheiro, era muito difícil. De modos para que eu ir no cinema, no Carlos Gomes, eu tinha que ir na Estação engraxar sapato no sábado e domingo de manhã. Para pegar aquele dinheiro para poder ir na matinê. Um complemento. Então eu ganhava, dois três reis e eu dava o dinheiro para a minha mãe e ela me dava 500 reis, 300 da entrada e 200 um tostão de amendoim e um tostão de pipoca. Ficava tudo com ela. -xQuando eu entrei na Rhodia, fiquei três anos sem pegar o meu pagamento. Tudo na mão do pai. O meu pai ia receber. Eu chegava pra ele: Pai, me da 5 mil reis? Ela falava, este mês eu não posso . E eu não falava nada. -xChegou um dia, ele veio lá: Vai lá receber, vai lá, vai! Porque pai, depois de três anos? Ele precisava assinar, e ele não sabia . Então assinava aqui e Peguei o dinheiro e depois de dez metros ele pegou...Ele era um pai bom, honesto, trabalhador..... 92 -xE com este dinheiro ai, a gente praticamente que, aquela coisinha que precisava mesmo e para a comida. O restante, a diversão a gente inventava. -xTrabalho. Eu jogava futebol muito bem. Aqui em Santo André, joguei no Santo André, no Bonsucesso, Juventus, na Rhodia, no Primeiro de Maio.... -xEu não fui profissional porque....Quando eu estava lá no Rio, veio um senhor de calção treinar com nos..Ele me perguntou, quantos anos você tem? 21. Vou te levar para jogar no meu time.....O time dele era o América. Sabe quem era ele ? O Danilo Alvim, centromédio da seleção brasileira da Copa de 50. E eu só não fui pra lá por que depois de dez dias nos fomos para a guerra. -xAqui em Santo André também recebi convite, do Ipiranga , do Juventus. Mais meu pai não deixou: Se não for pro Palestra meu filho não vai! O primeiro jogo que vi do Palestra foi em 26, aqui no campo do 1 de maio. Aqui, em 1926. Eu ia ao Parque Antártica em vários jogos, o meu pai me levava. Ate no campo do Corinthians eu fui. Eu fui sócio do Palmeiras, no tempo do Procópio. Em 40 e pouco. O Oberdan, quando veio de Sorocaba, ele veio para Santo André. O irmão dele morava aqui. Ele saia com a gente. Ate para ir no alfaiate eu levava ele, pois ele tinha vergonha. -xAh nos precisávamos. Era obrigatório. A gente tinha que fazer para não ir ao exercito. Não. E a gente aquele tempo pagava 5 merreis de mensalidade por mês para o Tiro. Hoje não paga nada. Fui expulso cinco vezes do Tiro, por brincadeira. Não era indisciplinado. Mas como jogava bem futebol, um sargento me expulsava, um são - paulino, e o outro me colocava de volta. Para mim eu ficaria ali tranqüilo, recebendo a minha instrução, atirando. Recebi o meu 93 certificado. Quando acabou o Tiro de Guerra, eu vou te falar, tava bem feliz. Cheio de planos. Eu queria voltar a estudar. Mas não tinha dinheiro. Tinha que estudar em São Paulo. -xEu não sabia nada o que era a guerra. Só escutava o comentário no jornal e no rádio. A guerra tava lá pra Itália, Alemanha......Continuei trabalhando lá na Rhodia. A gente via tal, isto, aquilo. O meu tio José é que contava as coisas da guerra na família. Dos estudantes protestando, me lembro sim. Lembro que eles faziam tudo, estragavam, quebravam vidraças. Vitrines. Eles fizeram o que quiseram. Mas na hora do vamos ver, eles..zipt...desapareceram. -xEu tinha uma tia cabelereira bem famosa, era o tempo de permanente. Ela tinha um salão do lado do Carlos Gomes. Quando entra mulher no meio, às vezes a gente se estrepa. E a gente ia ver as meninas lá todo dia. Moleque bem apanhado, bonitão.... -xUm dia tava lá e minha tia pediu um favor. Eu disse, não precisa pedir não, fala que eu faço. Ela falou que tinha uma freguesa dela , uma moça, que tinha acabado de chegar de Santos, e que ela gostava de dançar. Ela me pediu para que eu levasse a pequena até o baile da Rhodia, no sábado. Eu topei. E a menina também. Levei. Quando chegou no salão falei: comigo você não tem compromisso nenhum, você dança com quem quiser. E o meu chefe estava lá. Chegou para mim e perguntou quem era a menina . Então contei. Ele perguntou se podia tirar ela para dançar. Eu disse: Sem problema! Ele foi tirar, ela não saiu. Outra vez, não saiu. Aí levei ela para casa, e falei. Meu clube não e esse, é o 1º de maio. Amanhã, domingo, tem baile. Quer ir comigo? Ela topou. Novamente meu chefe estava lá. Foi tirar ela para dançar, ela não saiu. Aí o cara começou a me perseguir. Trocar de serviço, transferir para a Valisere, e não podia, aquele tempo era tempo de guerra, não podia mandar embora, não podia nada.... -x- 94 Um belo dia, estava descendo para ir para o trabalho, em novembro de 1942, mais ou menos vinte para as sete da manhã, e passei na frente de uma borracharia ali no centro de Santo André, quando um conhecido meu me viu e chamou..Hei, você, não é o Miguel Garofalo? Falei, sou sim...Olha só. Você foi convocado para o Exército. Lê ai o jornal. Isto foi um tapa na gente. Falei. Puxa. Não posso ir porque meu pai de idade, minha mãe doente...Puxa, eu era o arrimo da casa! -xDali passei na fábrica, mostrei o jornal para o pessoal e fui direto para São Paulo, me apresentar lá na Conselheiro Crispiniano, no Quartel General. Cheguei lá e tinha um capitão. Ele falou. Já saiu hoje e você se apresentou? Eu falei: foi um amigo meu que avisou. Como eu não leio jornal, se não fosse ele, ele que me avisou... Me apresentei e contei a minha historia. Ele me perguntou: Miguel, há quanto tempo você trabalha na Rhodia? Falei : seis anos. Ai ele me disse: Olha só. Vai lá, e pede para eles fazerem uma carta falando que a Rhodia precisa de você, e ai ta dispensado. Eu respondi: Isto ai e mais fácil do que empurrar bêbado em ladeira! O capitão deu risada. -xFalei com o chefe, com o diretor. O diretor mandou chamar o meu chefe e disse: Faça aí uma carta falando que a Rhodia precisa do Miguel. Ele tem um pai idoso, uma mãe doente, uma irmã doente, um irmão cego e um irmão menor. E ele fez. E eu levei para lá. O capitão falou que eu tava dispensado. Isto ai durou uns dois meses. Fiz a maior festa . -xQuando foi o dia 12 de janeiro de 1943, chegou a nova convocação. Voltei lá e perguntei. Ué, eu não tava dispensado? O capitão falou: A carta tá aqui Miguel, mas o seu chefe te dispensou apenas por 60 dias. Agora você já esta convocado e não tem jeito de sair do EB. Me deu as passagens para ir para Lorena. Voltei na fabrica , com meu pai e minha irmã, que deram um surra de sombrinha e guarda-chuva no meu chefe. Ai que me toquei: O cara tinha feito aquilo por causa da menina do baile! ( ela era bonita...). -x95 Fiquei dois dias em Santo André. Nem sai de casa. Queria ficar com a família. Minha mãe chorava, minha irmã chorava. Passou na minha cabeça que eu nunca tido ido para lugar nenhum. Primeira vez que eu sair de casa. Que jeito eu vou ficar? Eu não sei para onde vou, não sei o que vai acontecer...a minha vida vai mudar mesmo....... Parti em 14 de janeiro de 1943. Uma porção de amigos meus do bairro me acompanharam até a estação Bresser, para pegar o trem para Lorena. Cheguei em Lorena ao meio dia e pouco. Lá no Quartel, tinha que subir uma rampa..Fui chorando da estação ao quartel, por não saber como a minha família ia ficar. -xPARTE II - TREINAMENTO Quando cheguei no quartel, fui para o Corpo da Guarda. Um soldado que tava ali me perguntou o que tava fazendo no quartel. Eu disse que tinha que entregar uma carta para o Tenente Pena. Ele me disse: - Da aqui que eu entrego para ele. - Não senhor, tenho ordem de entregar na mão dele. O cara rebateu: Porque eu não posso entregar? Respondi: Não é que o senhor não pode entregar, o Capitão lá disse que tem que ser na mão dele.... Eh, ta me desrespeitando......... Não no to não...... Ta passando fome lá fora! Não to não, se quiserem me mandarem para casa, graças a deus, eu vou embora. Cheguei no tenente Pena e entreguei. O soldado falou: Este ai me desrespeitou lá no corpo da guarda! Eu disse: Não, sr. Tenente, eu não desrespeitei não, mandaram entregar a carta na mão do senhor , e eu to entregando. Agora ele disse que eu ia passar fome lá fora? Se o senhor quiser me mandar embora, me dispensa que eu vou, eu agradeço. O tenente disse: Não, você vai cair na companhia dele. Ali começou a minha guerra. -xNo dia seguinte, as oito horas era a chamada. Ele falava: Garofalo, vai varrer. Eu disse: Hoje não. No dia seguinte a mesma coisa: Eu disse, eu não vou. E assim foi, ele não podia fazer nada. Agora, quando foi em 1º de fevereiro de 43, deu o engajamento. Demorou uns 20 dias para eu ser engajado. Quando engajei, ele falou: Garofalo, vai lavar a privada. Eu disse. Hoje eu vou, to engajado: No mesmo papel, deu a transferência para Piquete. Eu falei, olha aqui, aqui ó que vou lavar a privada! 96 -xFui para Piquete, eu e um rapaz de Taubaté. Cheguei lá pelas sete da manhã. A Cia lá era para tirar serviço na fabrica de pólvora. Logo de cara, encarei uma marcha de uns 4 km. A gente se apresentou, e o Tenente falou para mim: TU ta cansado, tu agüenta uma marcha de 4 km. Falei: vamos lá, não tem problema não......Ele disse: Tu vai ser meu ordenança...se tiver algum problema com o cavalo, tu da a volta com ele e passa. Beleza...Fui e voltei tranquilo. Ele disse: Tu ta cansado. Eu disse que não. Ele falou: agora você é meu ordenança. -xO pessoal lá ficou louco. Todo mundo queria ser ordenança. Eu nem sabia o que era aquilo. Muito bem . No dia seguinte, fui na casa dele, e acabei dando uma de babá do filho dele e carregar sacola na feira para a esposa. No outro dia, fui falar com ele: Tenente, eu vim aqui para servir o EB e não para ser babá de ninguém e carregar cesta de ninguém. Ele disse: Então não quer? Tu vai carregar pedra....... Rapaz, cada baita pedra que eu carreguei, para montar o stand la encima. Ele disse; Tu ta contente: Eu disse to. Em um mês ele me transferiu para Caçapava e depois fui para Taubaté. Ali fiquei. Veio uma junta medica e eles fizeram todos os exames. Olha, teve gente que fez isto (simulou problemas médicos para ser eliminado no exame), mas não pode denunciar que fica chato. Mas que ocorreu, ocorreu, pois acontece em qualquer lugar . -xE ali a gente a gente era nós, a CPP I, a Cia de Metralhadora, a 5ª e a 3ª Cia, e tinha uma guarda. A gente dava de um a dois serviços em 60 dias. Eu caí numa guarda de potreiro, que cuidava do local onde ficavam os burros que eram utilizados para transportar a metralhadora. Um dia eu tava saindo do serviço, já indo pro meu alojamento e o cara lá falou: Garofalo, eu respondi:255... Guarda de potreiro...eu disse: Outra vez?! -xO Capitão escutou e disse. Este rapaz ta recusando serviço? Traz ele para cá...Fui lá...ele disse: O senhor ta reclamando do serviço? Eu disse não, não to recusando, só dei um berro, to saindo do potreiro agora...O sargento disse: Toda vez que coloco ele lá ele reclama..... O 97 capitão disse: Ta vendo, é ele que ta falando aí....Eu disse, ele tem quatro divisas e eu nenhuma...Novamente o Capitão: Aqui, quem tem razão não vai preso........Comecei a me defender. ..Falei do regulamento e disse que era adido da companhia dele, e dia sim dia não eu dava serviço lá, e ganhava 50% do salário da Rhodia sem precisar tirar serviço na Cia. . Ele olhou para mim e falou........Vou dar uma olhada na escala... .... Meireles, pega aí...Realmente o Garofalo ta um dia sim, um dia não, um dia sim um dia não ........Taí. Eu nunca reclamei com o senhor.......Mas não tem nada não. Ta todo dia ou não, pra mim tanto faz, to servindo ao Exercito. . ...Depois de dois dias o sargento Orlando perguntou se eu queria receber do Exército...Assinei o papel e tá bom, vou receber....E ai passei a receber dos dois lugares.....Minha mãe recebeu um dinheirinho bom.....Eu fiquei contente, pois ai sabia que não ia faltar nada em casa........... Aí, Beleza, ai ele me tirou da escala e fui para a patrulha.......... -xEsta e a coisa mais amarga que tem. O treinamento foi nenhum. Muito pouco. E no treinamento nosso a gente não sabia o que era guerra. A gente fazia os exercícios e tal. Fizeram lá uma ponte e diziam que era um navio para a gente passar por cima...Que qué isso. A gente não sabia. Equipamento e Jipe nem pensar...A única coisa que a gente sabia era mexer na metralhadora e no fuzil. Que no restante...Equipamento bem antiquado. E foi isto ai. Não tivemos o treinamento adequado. Ninguém sabia o que era uma guerra. De espécie alguma. A gente quando ia fazer o stand, dava cinco tiros cada um...O fuzil era o Mauser....a nossa metralhadora tinha um cadencia de 750...a do alemão dava 1300. -xO entendimento nosso era muito bom. Muitíssimo bom. Não posso me queixar do EB de maneira alguma. A comida era boa. A amizade era de circulo de irmãos, muito bom. Os oficiais eram muito rígidos... Fazia qualquer coisa ou ia para o pernoite ou para a cadeia....Mas eles eram bons...Qualquer coisinha eles aplicavam o regulamento......Mas não tinha problema nenhum......Não tinha confusão das grandes não....A amizade lá se equivale a de uma irmandade...Todos lá considero como amigos, sem nenhuma distinção especial. -x- 98 E bom por que o quartel e uma amizade sincera. Ali tinha um rapaz, em Taubaté, que o pai dele era rico. O pai dele mandava 700 paus para ele a cada 15 dias para ele. E ele não colocava no armário dele...e desaparecia. O capitão chamou nos...chamou ate nos de ladrão..... E disse: Olha, acontece assim assim assim. Vocês vão investigar quem tira o dinheiro dele.......Nos ficamos de tocaia.....Num dia de madrugada, 15 pras três da manha vimos o camarada indo lá, no dia que veio o dinheiro, abrir o armário e pegar . Ninguém falou nada. No dia seguinte falamos pro Capitão: descobrimos quem é, é o fulano de tal. O capitão chegou na cia e disse: Hoje, depois da instrução, ninguém sai do alojamento sem minha ordem....Alguma coisa tem, né......O fulano tentou sair, o prontidão não deixou e o fulano enfiou a mão na cara dele....O prontidão não disse nada, mas não deixou o ladrão sair. O prontidão relatou o fato para o Capitão, que disse que não se dava tapa na cara de homem.....Chamou eu e mais dois, mandou a gente dar um corretivo no cara......O Capitão mandou o ladrão tomar banho. Tinha encerrado o papo ali. Em seguida o cara foi transferido de Cia e depois foi dispensado. -xTinha também aquelas coisas engraçadas....O Pão Duro sacaneava o Boca de Fogo(que só vivia bêbado). Gostava de deixar a cama do Boca armada para cair...quando o Boca chegava para deitar, era aquele barulho....Ninguém dormia com aquela brincadeira..... -xA rusga que tive foi com um tal de Moraes, cupincha do sargento......Ele tirava serviço no alojamento na hora da alvorada. Teve um dia lá que a corneta tocou, ele chegou na minha cama e levantou com tudo...Acorda Vagabundo, Levanta!!!..... e fui pro chão. Não Falei nada. Fiquei só esperando. Passou um tempo, chegou o meu serviço....Falei, quero o quarto da Alvorada.....Tocou a corneta....Vrummmmm, acorda seu safado......O Moraes me deu um soco, pegou em cheio...Corri atrás dele....... fui dar o revide, ele tirou a cara e estourei a mão no armário........ -xEle chamou o irmão dele, que tava em Caçapava. Um dia eu tava no Jardim da Estação de Taubaté....Ce veio bater no meu irmão...Não bati não, levei um soco dele e aqui ta inchado.... Ce correu atrás dele, corre agora atrás de mim...Pum, dei uma porrada nele, que ate que ele 99 caiu num lago que tinha por ali.......Falei. Vai lá e fala pro Moraes que bati em você..Alguma coisinha sai...Mas no geral, tudo bem -xNão tinha distinção para ninguém, tanto de raça como de cor. Tudo no mesmo barco. Preto branco, azul...Não tinha preconceito nenhum........ -xEm Taubaté fiquei um ano. A alimentação era muito boa....Disso não posso me queixar, tanto aqui quanto na guerra... -xNão tinha problema de sair no quartel........Só tinha que responder o pernoite das nove. Também não tinha problema de sair na "tocha" , de lá para Santo André...Só sai de licença uma vez, pois a minha irmã perdeu o bebe. Nunca paguei passagem , pois o pessoal falava que estava na conta do governo. Eu vinha de sexta- feira de noite e voltava no domingo de noite, e só me apresentava na segunda de manha. Quando eles percebiam que tinha muita gente fora, eles vinham esperar na estação....mas a gente saltava do trem antes e entrava no quartel numa boa.... -xVarias pessoas daqui de Santo André foram comigo para Taubaté......O Braido, o Armando Pernachinni, o Alberto Sartori, o Andromir Sgarbi , Antonio Monassi, o Pedro Pinto de Miranda............do ABC foi bastante gente, a maior parte filho de italiano. Quem ficou junto comigo em Taubaté, direto, foi o Armando Penachinni -xNos fomos pro Rio por volta de março de 1944. A noticia da transferência foi normal. A gente já estava pensando que já tinha alguma coisa. Quando chegamos em Deodoro, já estava o pessoal de São João Del Rey. Os alojamentos eram enormes. Cada um tinha o seu próprio campo de futebol.....Acabava a instrução, a gente ia jogar bola no final da tarde, todo dia.... E era uma coisa que a gente nem pensava em ir para a guerra...A instrução lá, a pior delas toda, 100 foi a da metralhadora..... Tinha uma esteira lá, com arame farpado, de um metro de altura, e os caras metiam bala por cima... Tinha um goiano lá que era o cara...dizia que fazia e acontecia....Caiu em duas......Teve uma da corda lá, que ele caiu na água, eu e mais outro o tiramos.....Levamos um baita de um pega do instrutor, que falou que devíamos ter deixado ele lá...Eu falei, se deixasse ele ia morrer....Na metralhadora, ele foi passar embaixo e no meio ele parou, não saiu mais, trancou ali....Quando foram tirar ele, tava todo borrado.....Isto ai aconteceu... -xTreinamento para a guerra mesmo, que a gente sabia que era para isto, ninguém dizia. Teve umas coisas diferentes lá. Guerra mesmo, nem pensar. Não estávamos preparados para enfrentar uma guerra. Porque uma coisa eu digo. Lutar contra uma Alemanha, uma Itália, um Japão, uma Inglaterra, uma França, eles são os craques, e nós somos os pernas de pau. Então isto ai, a gente ficou, não sabia mesmo. Só tem uma coisa: Instrução pouca, mas coragem bastante. O brasileiro teve coragem, teve. Teve coragem. Ninguém pode falar que não. E ainda aqui no Brasil tem gente, safada e sem vergonha, que disse que a gente foi passear na Itália. È que nem ele e nem o filho dele foram para a guerra. -xO brasileiro tem uma memória muito curta. Não guarda os seus feitos heróicos. Vejo aqui na Associação. A gente faz das tripas coração. O poder publico na ajuda em nada ....A única coisa que teve no rio, foi no bairro do Bangu. Dali que saiu o nome da cobra fumou. Era um bairro forte, barra pesada. E quando saia a confusão lá, chamavam o Exercito. E numa destas, saiu uma confusão perto da linha do trem....E nesta estava vindo um trem....Alguém gritou: Ih, a cobra ta fumando...Foi daí que saiu o termo A COBRA FUMOU.. No RJ, tinha a policia especial que juntou com o Exercito para tomar conta dos expedicionários. E era uma tristeza. As 8 da noite, chegava um deles e mandava a gente pro quartel. Aqui não e lugar de ficar soldado, isto e hora.... Aquilo gerou uma desavença entre eles e nós. -x- 101 Um pouco antes de ir para a Itália , fizeram um jogo entre Brasil e Uruguai, lá no campo do Vasco da Gama, só para os pracinhas. Um calor, um calor demais. E eles foram tomar conta de nós lá....Se a gandola estive desabotoada.....Fecha isto ai rapaz, ta nu...Beber água? Soldado não precisa beber água e nem ir no banheiro. Até que um de nos falou: Não agüento mais. Vou! Levantou ...Tomou uma borrachada e descolou a orelha......O pessoal lá não se adaptava de jeito nenhum....A gente foi encurralando eles na parede e descemos a mão. Começava o hino nacional, a gente parava. Cessava o hino, a gente continuava. Até que deixamos o campo....Chegamos no quartel, entramos em forma. O capitão perguntou: Tem alguém machucado? A gente disse, machucado não, mas tem um monte de gente aí com distintivo de major, tenente, capitão.....tá cheio! Foi um confronto grande...O capitão deu risada! -x- Lá no Rio, a gente pegava a tocha...E lá sempre tinha um vagão vazio....A gente dava um dinheiro lá pro guarda e ele abria e a gente entrava no vagão vazio... E a gente vinha para cá. Mas o trem era parado. Parava em Roseira e parava em outro lugar, e revistavam. Quando ficou forte o boato de que a gente ia para a guerra, a gente veio, um monte. Então, parou em uma estação lá e deram a revista...Tinha um senhor com a capa de boiadeiro do meu lado, ele me deu e eu pus...E fiquei firme ali...Revistaram meia hora . Quando o trem passou, agradeci ele. Aquele dia pegaram um monte de amigo meu.....Eu mesmo fiquei preso, uns 13 dias, mas por causa de outra tocha . PARTE III- A GUERRA A gente não sabia de nada. Aquilo foi guardado para eles mesmos. Tudo em silêncio. Quando foi o dia exato do embarque, o capitão mandou a Cia entrar em forma e disse: Hoje a gente vai para a guerra. Ah, a gente foi pego de surpresa. Para nos, a gente ia ficar por ali, treinando, até a guerra acabar. Mas ele confirmou: Hoje vocês vão para a guerra. Aquele que quer desertar, pode desertar, dou a minha palavra de honra que não vou segurar ninguém! O comandante era o Cap. Atratino Cortes Coutinho. Grande Capitão, muito bom, oficial de carreira. Então o pessoal começou. Tinha este tal de Roberto: Vamos embora, Miguel, vamos desertar! Eu disse: Não, não vou não. ..Vamos embora Miguel, você vai para a guerra....Não, não vou não. Uma: não sou covarde. Outra: os meus pais são italianos. Se eu desertar, vão 102 perseguir a minha família aqui......De modo que eu não sei o que vai acontecer com meus pais. Se eu desertar, quando acabar a guerra, não serei mais aceito pela a sociedade. Desertor fica mal com a sociedade. Agora, não sou covarde. Se tiver que morrer lá, eu vou morrer lá...Mas, Covarde eu não sou...E o cara, o Roberto, se mandou, foi embora, ele desertou....... -xE o meu pai aqui, quando estava aposentado, foi vender umas casimiras aqui em Rio Grande da Serra. Dois investigadores prenderam ele e o trouxeram para Santo André. Chegou aqui na delegacia, os dois se gabando: Ai, prendemos um italiano. O Vicentini, que era o escrivão, perguntou para os dois: Vocês conhecem este homem? Os dois disseram:Não, mas é um fascista, é isto, é aquilo...O escrivão falou: Fascistas são vocês Este homem tem um filho na Itália, na guerra! Se mandem daqui, senão prendo os dois. Na mesma hora, ele pediu para o meu pai preencher uma ficha e lhe deu o salvoconduto... A minha família e todos sentiram os problemas de serem italianos durante a guerra. Recebemos a noticia e embarcamos. Meus pais só souberam que eu estava na Itália muito tempo depois, quando divulgaram aqui. -xO trem encostou no quartel, pôs todo mundo e fomos para o porto. Descemos, fizemos uma fila, e quando deu meia noite, do dia 29 para o 30, começamos a subir. Teve gente que desmaiou. Estes não foram. Voltaram para o hospital. E ficamos por ali dois dias, parados. No dia seguinte, tava os marinheiros botando uns tambores vazios em tudo quanto é canto. E na hora do rancho, fomos lá, vida boa....Rapaz, aquilo encheu tudo de vômito....Fiquei dois dias de cama. -xO único material que levei foram os sacos. A e B. Tinham roupas. No dia 2 de julho o navio saiu. Quando o navio tava saindo, eu o Penachinni fomos para o convés. A ultima imagem do Brasil foi o Cristo Redentor. Eu falei para o Penachinni. Será que nos vamos para onde? Ele disse: Sei não, você sabe? E ai fomos... 103 -xAquilo foi um desproposito. Tinha um subtenente, desde a época de Taubaté, que era ruim para caramba. E como todo dia tinha missa no navio, ele ia, e nos atrás atazanando: Vai, vai lá pagar os seus pecados agora . Você não era isto e aquilo.....Vai lá falar os seus pecados. -xAté as águas brasileiras nos fomos escoltados. Depois mudou. Um dia lá, começou o canhão: BAM, BAM....Todo mundo ficou com medo.....Falei....Poxa,nem chegou a guerra, e a gente já ta na guerra...Um submarino alemão já esta nos atacando?...Depois de 15 minutos parou e uma voz la falou que o treino tinha terminado. Ninguém tinha avisado a gente...nada, nada, nada... -x- Era boa a higiene. Tinha banho todo dia, café da manha, almoço, jantar, ceia......A nossa comida sempre em primeiro lugar...Eu me acostumei com a comida depois de três dias....Mas teve gente que encheu o latão....Não tinha porão, era compartimento, tinha beliche, grande....... -xLevamos 14 dias para chegar....Nos tínhamos o colete. Eles deram uma ou outra instrução sobre como deveríamos proceder no caso de ataque...Matava o tempo lendo, jogando baralho, sem briga........Tirando o perigo dos submarinos alemães, a gente não teve maiores preocupações na viagem. Foi tranqüila, sossegada. -xNo dia 4 de julho, os americanos nos deram uma caixa de charuto. Puxa, aquilo era forte para caramba, dava uma tragada, a gente caia de bêbado..... 104 -xTrês dias antes de chegarmos em Nápoles, é que soubemos que o nosso destino era a Itália....Pensei, epa, vou conhecer a terra do meu pai. Meu pai, veio pequeno de lá. Meu pai nem se lembra da Itália. E eu vou conhecer do pior jeito possível. Eu encontrei um parente lá, Garofalo. -xA primeira coisa que avistei na Itália foi o Vesúvio. Quando nos chegamos em Nápoles, para atracar, tinha um navio alemão com o casco para cima, com o emblema. Eu disse.....Aqui já teve....a guerra já foi para lá! Chegamos às 10 da manhã e começamos a descer lá pelas três da tarde. O porto estava assim.....E eles olhavam .....como o nosso uniforme era verde, era parecido com o do alemão, começaram a xingar... Maledeto Tedeschi, aqui de novo..... -xE tinha um velhinho, do cabelo branco,e aquele resmungava.......Resmungou tanto, tanto, que sai dali e fui falar com ele....Olhei para ele, ele parou: Paisano, no soi tedescho, soi brasiliano....Ele ficou espantado ...Ma como, parla italiano.....Sou filho de italiano, meu pai é de Nápoles, de Avellino, ..Ma como...você vem guerrear contra a pátria do seu pai....A pátria do meu pai á a Itália, a minha é o Brasil.......Então aquelas caixas de charuto, nós começamos a dar uma para cada um ...E então o velhinho começou a gritar....Não são tedescho, são brasilianos.......Então começou, começou, ficamos, a maior parte era filho de italiano, ficamos lá de bem com eles....... -xAh, tinha destruição demais. Nápoles estava destruída. Monte Cassino tava tudo no chão. Quando a gente começou a ver, começou a revoltar. Agora sim a gente tava na guerra....Mas a guerra tava um pouco longe dali........Então a gente começou a ver aquelas barbaridades e eu comecei a me compenetrar naquilo, sabe: Será que o mundo tem que ser assim? Fui pensando, pensando...O homem devia ter um pouquinho mais de mentalidade, ser mais generoso, mais compreensivo, mais amigo. Tudo isso foi penetrando em mim...Vendo como é a vida...Vendo a desgraça daquela nação, tudo destruído,...Você entrava na casa do italiano, ele não tinha o que comer....Os alemães tinham levado tudo...abusado das filhas....Mas uma miséria, e você vendo aquilo foi me revoltando...Fui compreendendo como era a vida , como 105 tinha que ser e eu não me adaptei em acreditar como tinha acontecido aquilo..Os pais saiam oferecendo as filhas. -xA gente desceu em Nápoles e foi direto para Bagnoli, no vulcão A quatro 4 Km de Nápoles...Lá tinha cinza de monte. A gente ia para Nápoles passear.... Mas tinha os PM...a gente não ia de jipe, como os americanos, a gente tinha que ir a pé e foi tendo a instrução...Lá a gente teve contato com os americanos..........Em Nápoles eu fui cortar o cabelo, e tava cheio... E eu sentei lá na cadeira...Quando chegou a minha vez, entrou um oficial americano, levantei e dei lugar para ele.....O americano disse,: Não senhor, se você chegou primeiro, pode ficar....No Brasil não era assim, tinha que pedir licença para poder ficar no lugar. Tinha que dar lugar para o oficial...... -xDe modos que ficamos ali, no vulcão...As únicas intrigas que tinham eram com o pessoal da MP. Uma vez saiu uma discussão muito feia......Chegou o Mascarenhas de Moraes e mandou dar uma acalmada....Dali em diante, foi cada um por si. Quando estávamos em Nápoles, conversando com o povo, passaram cinco mulheres oficiais, e não prestamos continência.....E as mulheres falaram, não vai prestar continência?......O Mascarenhas estava por ali e disse.....No acampamento, ninguém vai prestar mais continência não...É cada um por si. Nós que melhoramos o EB. Hoje o EB melhorou muito. -xMuito treinamento físico. Nada de armamento e roupas. Aí fomos para Tarquinia. Fomos de trem para Civitavechia. Fomos nos alojar em um curral, uma leiteria. Armamos as barracas, tudo isto.......Chegou a hora do almoço. Esta foi a coisa mais triste que eu vi. O garoto sentou do meu lado. A marmita tinha duas tampas. Peguei uma, pus metade da minha comida e dei para ele .Ele me agradeceu, no outro dia ele veio com outro. Dividi novamente. No terceiro dia, já tinha mais de trezentos. Quando o capitão viu, ele falou para a Cia,: Hoje ninguém dá comida pra ninguém, pois senão vão ficar sem....Respondemos: Para a gente falta, para eles não...Ele mandou fazer um cordão de isolamento: nos nomeio e as crianças em volta...A gente comida e o choro descia. Quando acabou, mandou lavar as marmitas, e deu comida para 106 eles...O capitão disse: Isto ai foi para ver o coração de vocês. Eu tenho a minha família no Brasil. Estas crianças não iam passar fome. Estão de nota dez. Nos dias que a gente ficou lá, foi assim. -xE tinha um senhor lá, pai de duas crianças. Um menino e uma menina. Ele tocava sanfona e e pediu licença para ficar ali com a gente, para poder comer. Um dia, tava com o Penachini, e falei: Algum desgraçado vai querer mexer com esta menina..Chegamos no pessoal no pessoal e falamos: Tão vendo aquela arvore lá? Se alguém mexer com a menina a gente vai pegar e fuzilar ali mesmo, sem ordem de ninguém. No dia em que a gente foi embora, demos uma carroça de cigarro Yolanda e de roupas para eles... Como choravam, Eles nos agarravam, e choravam para a gente não ir embora. Essa guerra não devia existir. -xNão, o material foi distribuído.....Eu era da metralhadora... e também me deram uma carabina com 16 tiros......Só chegou em Massarossa, onde foi o primeiro combate. Lá em Tarquinia a gente só ficou na instrução, sem saber para onde a gente ia combater....Quando chegamos em Vada, a população nos apontou um armazém muito grande lá, que estava todo preto por dentro. Um italiano disse que os alemães tinha colocado duzentos lá dentro, fechado e colocado fogo....Pode ser uma coisa desta? Aquilo deixou a gente de uma tal maneira, revoltados, se pegasse um alemão ia enforcar, o Hitler mais ainda...Isto dava uma tristeza na gente, uma vontade de matar alemão e acabar com a guerra que era demais... -xAli de Vada nos fomos para Massarossa. Foi o primeiro combate nosso. Quando nos chegamos lá para render os ingleses, orra, os caras nem se mexiam, eram sisudos, arrogantes. Eles tinham comida em latas , em conserva, caixas e caixas. Aquilo lá era ruim, a gente comendo. Você dormia em dois, se um soltasse um foguete, precisava sair...Era ruim, viu.......estragava o intestino da gente de tal maneira que a gente não queria aquilo. Quando eles deram para nos, a gente colocou a população em forma e distribuímos aquilo lá. A população ficou, queria saber quem era....Era os brasiliano, filhos de napolitanos... 107 -xEntão os ingleses vieram lá: Hei não pode dar isso...Mas não é nosso? É. Então pronto!...Vão tomar banho, nos vamos dar porque a gente não quer comer isto....Eles ficaram quietos. -xEm Massassora, não vi mais nada, a não ser uma camarada com um tiro na testa, mas ele não tava morto. Então nos fomos para Camaiore. ...Em Camaiore, talvez eu tenha escutado meu primeiro tiro. Viareggio e encostado em Camaiore. Aqui em Camaiore a gente começou a ver o que era o bombardeamento. Começou a chover, chover, chover granada, e era uma atrás da outra, e era um tempo feio lá, começou a chover, encher de água, a gente não sabia se era trovão ou se era bomba, e isso ou aquilo. -xAli que morreram as crianças. Caiu uma bomba no meio delas. E de modos que ali vimos novamente a miséria do pessoal, aquelas moças que vinham lá no alojamento pedir comida..uma tristeza...uma tristeza...De lá fomos para Casoli....Ficamos lá uns quatro ou cinco dias....E fomos para Casoli...Tem o morro no alto, o Soprassasso, e a cidade embaixo....cidadezinha pequena...E nos recebíamos bombardeamento toda a noite...Das duas as três da manhã, chovia bomba de minuto em minuto...Chovia Bombardeamento mesmo que você não sabia se levantava da cama, se entrava debaixo da cama, não sabia de que jeito...A nossa metralhadora ficava em cima....Lá tem dois compartimentos..O térreo e o encima....o térreo é mais do gado, no tempo de frio, para eles esquentarem......, e as janelas eram baixinhas....Das duas as três,era todo dia bombardeamento...Nos fomos avançando, e eles lá encima. Muito morro em volta...A nossa metralhadora só segurava eles para não vir para cá. Era bombardeamento seguido, horário marcado. -xUm dia de manha, a gente acordou, tinha um pepino de morteiro, deste tamanho, encostado debaixo da metralhadora, e ela não explodiu...O pessoal tremeu! 108 -xE lá aconteceu uma coisa. Tinham duas moças , que cantavam para a gente todo final de tarde. Uma cantava e a outra tocava piano. Um dia não cantaram, no outro também não. Eu disse para o Pernanchinni, vamos lá ver o que aconteceu com as moças. Bati na porta e o pai delas atendeu. Falei italiano com ele e ele disse, elas tão doentes.... Podemos entrar..pode...Uma irmã sentada na cadeira, do lado da cama, e a outra deitada...Eu disse: Isto aí e fome...O Pernanchinni perguntou se eu era bidú.....não é fome. Peraí que eu vou ver se arrumo qualquer coisa com o Meirelles, o chefe da cozinha...Comida não tem, mas tem um caldeirão ai com café com leite, pão com manteiga......Me dá...Levei lá, depois a janta, no outro dia almoço e janta e no terceiro ela melhorou...... o Pena falou: porra...E ali mesmo tinha umas meninas que a gente conversava, estávamos em cinco numa sala e as outras quatro saíram Menina de 15 anos, quando vi que tava sozinho ela começou a chorar...Eu disse, em italiano: Maria não fique preocupada que não vou te fazer nada...Eu tenho família lá no Brasil e não sei o que se passa lá....Não vou estragar você, filha, porque posso deixar um filho com você e morrer em combate. E você vai ficar com um filho meu aí...Já tão passando uma miséria desta, e vai ficar com outra.. Pode ficar calma que não vou fazer nada...Ela me beijou, abraçou, e chorava de alegria. Quando saímos de Casoli para Barga, a família andou 500 metros junto com a gente chorando...A desgraça da guerra. Por causa de dois homens. -xOs caras mandavam bomba a 3x2. Nem deu tempo de metralhar os caras lá em cima. Não via ninguém Só recebia bombardeio. No primeiro bombardeio morreu um sargento, não o conhecia porque ele era de outra Cia. Foi a primeira morte de um pracinha que vi....Pensei que tinha que apenas "andar com os dois pés dentro de um sapato só" e ver no que ia dar...Na guerra, quem não mata, morre! -xFicamos uns quinze dias em Casoli. Ninguém veio nos substituir. Fomos para Barga. Ninguém nos substituiu. Porque os alemães já estavam recuando. -x- 109 Lá em Barga, nos passamos o rio Serchio, a ponte Del Diavolo, a ponte que o atravessa. Do lado de Barga e o de Camaiore. Nos ficamos numa fazendinha, devia ser uma leiteria ali. Nos voltamos para pegar munição. E quando nos estávamos com a munição, ali pela ponte, começou a cair um toro que não parava de jeito nenhum. Tinha uma igreja com as portas abertas e nos entramos...Tinha um padre arrumando o altar e, quando ele olhou, falou que os alemães tinham voltado. Me apresentei como brasileiro e aí ficou tudo bem. Pedi para ele dar uma bença, deu santinho e tudo isso. Atravessamos a ponte e fomos para lá. Foi quando saímos para o ataque a Garfagna. Andamos três dias e três noites sem comer.. Sem comer.....A gente seguia o que o comandante falava, mas sabia que ia encontrar o inimigo, que íamos para a troca de tiro. Ele sabia onde estava o inimigo, tinha as informações. Quando nos chegamos lá, sem comer, achamos um paiol de cebola, um monte, um coelho e uma galinha...Matamos a galinha e fizemos uma bela sopa com a cebola. -xBom. Ficamos ali acho que uns três ou quatro dias. Nos preparando para o ataque. Fizemos a nossa trincheira e ficamos ali Os alemães chegando perto com as patrulhas. A gente ficava quieto para não mostrar onde estávamos. E as nossas patrulhas também agiam. Quando os viam, voltavam, sem tiro. Quando começou o fogo cerrado, foi das 12 às 17, sem parar. Metralhadora, morteiro, eles martelando as nossas posições. Metralhei o tempo inteiro. Quando chegou as cinco, a nossa munição acabou e a deles também . Por sorte, eles receberam a ordem de retirada e nos também. Quando eu me levantei, a bomba explodiu, me jogou uns dez metros longe...eu e um cabo. Os alemães estavam bem entrincheirados. Tava chuviscando, um barro que vou te falar. Quando me levantei e vi que estava ferido, vi que o cabo só estava com um arranhão e que ele saiu fora, me deixou sozinho...Eu não sabia para onde andar..tirei a sulfa, que a gente carrega para não dar hemorragia, tomei a sulfa...E adivinha qual o primeiro nome que vem na boca: Mãe...e nisso tava vindo o Scarpin, da minha Cia, com uma metralhadora nas costas....gritei.....Scarpin, to ferido....Ele veio, jogou a metralhadora, jogou o ferrolho fora e me levou 4 quilômetros machucado, perdendo sangue.... Quando cheguei no lugar, onde estavam as ambulâncias, os alemães tinham derrubado a ponte. Passei encima de uma tabua de andaime...do outro lado estavam lá as ambulâncias esperando ali. Tinha o enfermeiro Nardo, da minha cia, que me aplicou uma penicilina. Me levou no PS ali mesmo. O medico disse: O que foi...To com fome: estou três 110 dias sem comer...Ele me deu pão com manteiga e chocolate, e ai fez o curativos. Foram ferimentos de estilhaço: No braço, na perna e no tórax.. -xO hospital ficava ali do lado do rio Serchio....numa barraca de lona com uma cama baixinha. NO dia seguinte deu uma chuva e o rio começou a encher....Quase me deixaram lá...O pessoal começou a sair correndo e me esqueceram. Uma gritou: Faltou o Miguel !!!!. Sai no último jipe......Pensei, que ironia: Não morri no campo de batalha e quase morro afogado ... -xFui para Lucca. Fiquei lá mais ou menos um mês e meio. O tratamento foi muito bom. Hospital Americano Me recuperando, me recuperando até me transferirem para Nápoles. Três dias de navio. Em Nápoles, tratamento de penicilina, de três em três horas, fiquei com os braços e as nádegas doendo. Começou um tratamento melhor Tinha um americano lá que queria aprender português. A enfermeira, uma italiana, disse lá que eu o ensinaria.....Ele chegou: Eu queria falar brasileiro, me ensina? Eu falei, ensino ........Então eu disse: Quando cumprimentar a enfermeira diga lá....Bom dia, lavou a bunda hoje???? Ai, na outra manha, o gringo chega e solta essa, e todo mundo deu risada... -xFiquei uns três meses em Nápoles .....Ate que um belo dia, entra a enfermeira entrou e mandou eu tirar a roupa! Senão eu tiro de você. Me lavaram a perna, me deram banho, me rasparam......Você vai operar.... Eu fui, oito horas da noite. .Me deram clorofórmio para cheirar....Apaguei e só acordei no dia seguinte. Todo enfaixado e fiquei ali ate desinchar, até me recuperar. Não falavam nada. Quando acabaram os ferimentos, nem conversaram comigo. -xAi, num belo dia, gritaram o meu nome e falaram: Garofalo, amanha você volta para o Brasil......Me deram 120 vinte dólares e no outro dia vim para o Brasil...Voltamos em uns 30. 111 Eu e o Menelau, que conheci no hospital em Nápoles .Embarquei chorando. O Menelau disse: Miguel, larga de ser trouxa, chorando, nos vamos pro Brasil! Choro este de alegria e este de tristeza,...Porque de tristeza? meus amigos vão ficar ai e eu não sei se os verei de novo, são os meus irmãos......Aquilo foi.... -xNo navio, tem show toda a noite. E um dia teve uma festa grande. De repente gritaram lá: Capitão Miguel Garofalo.... eu disse, não sou capitão, sou soldado..... É você sim!. Sobe aqui que você vai cantar. Sobe aí....Mas eu não sei cantar...... Vai sim, você canta bem.....Um brasileiro me acompanhou no piano e ai cantei Amapola e depois, com a ajuda de uma brasileira, tasquei um. Mamãe eu Quero, quando fizemos um enorme carnaval.......até dez da noite, que depois não podia. -xNão chegou nenhuma carta para mim na ITÁLIA. Mas as que eu mandei, chegaram. -xQuando o navio apontou na Baia da Guanabara, e vi Cristo Redentor novamente, cai em prantos. Chorei mesmo, que não parava mais. Pensei: Fui, vi, venci e voltei. Fui direto para o Hospital Central do Exercito. Lá, tinha visita de terça, quinta, sábado e domingo. Na terça, veio o Getulio Vargas. Ele tava com dois assessores, sentou na minha cama: E ai rapaz, o que acontece com você....Fui ferido....Você sabe que eu não queria que vocês fossem para lá...Eu sei, Foi o Osvaldo Aranha.......O senhor era a favor do Eixo...E mesmo, eu era....Aquilo saiu naturalmente, sem medo dele. -xEu tava louco para vir para casa. Eu paguei um dólar para o jardineiro passar um telegrama para casa...Eu queria vir....O enfermeiro falava......você vai passar pelo exame medico ainda...Quando for a hora te aviso. Ta bom. Um dia eu tava lá e o exame foi marcado, para as 10 da manha . Entrei, um major baixinho... Miguel, entra. Sentei. Ele começou a escrever, escrever e disse "Pode ir embora". Foi rápido. Eu disse: Doutor, posso fazer uma pergunta? Pode...O senhor está me examinando mesmo? Nem viu os meus ferimentos., nem viu nada... Filho, o sangue que você derramou para o Brasil é o suficiente já.... eu sei que você tem três 112 ferimentos, no braço, nas costas e na perna, com este ferimento você está reformado, você já esta reformado meu filho. Não chora...eu chorei. Fiquei internado no hospital um mês. -xAgora vem a coisa mais triste que existe no mundo. Eu tinha um amigo, amigo da casa, que estava servindo no RJ. E ele veio na minha casa dar uma noticia. Chegou lá ele disse que tinha duas noticias: uma boa e outra ruim. Pode falar a boa: O Miguel ta no Brasil....a ruim é que ele esta sem os dois braços e cego. E quando vim para minha casa. Na estação do D Pedro, no Rio, encontro com ele. Quando ele me viu ele chorava. Era um amigo dele que tinha ido lá hospital e visto outro Miguel...Ele me disse que tinha falado dos ferimentos para os meus pais...Eu falei para ele não chorar, que quando chegasse em casa tava tudo certo....Cheguei em casa tinha umas mil pessoas. Quando cheguei, a mãe pegava nos braços e perguntava, filho estes braços são seus, você esta enxergando, disse que estavas sim , que os braços eram meus.....Vou te falar, esta foi dureza, foi a coisa mais triste que aconteceu....Todo mundo começou a chorar....As lagrimas do meu pai pareciam um fio de água.. Ai veio um vizinho..Vamos comemorar! Mandou uns barris de vinho e foi aquela festa...... Eu desci na estação do Brás. Já tinha um monte de gente me esperando lá. Só os amigos. O meu pai e minha mãe só quando cheguei em casa. PARTE IV - A VIDA DEPOIS DA GUERRA Depois que vim da guerra, dois anos depois, eu era um cara que dançava bem, um boa praça. Um dia cheguei na minha mãe e disse que ia arrumar uma moça e casar. Ela perguntou se eu estava louco....Eu disse que tava na hora de casar. E tinha uma moça la, que depois que saia do trabalho ia na minha casa bordar. Eu já a conhecia antes de ir para a guerra. Ela disse: Esta moça é a que te serve! Eu perguntei para a minha mãe se ela fazia gosto de eu casar com ela? Ela disse. Faço! O nome era Anésia. -xUm dia lá, perguntei se ela queria casar comigo. Já avisei que não queria enrolar muito não, que dentro de seis, sete meses , eu casaria com ela. Depois de meio ano de namoro, fui conversar com o pai dela, o senhor Silvio. Disse que eu ia marcar o casamento para dali a dois 113 meses e que a menina não poderia mais trabalhar. Ele falou: mas estes dois meses de salário que ela não vai me dar? Eu pago o senhor....Ajudei a ela fazer o enxoval....E foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida....Ela ajudou a minha família e a dela até o final. -xFiquei casado 63 anos. Meus filhos são o Miguel Pascoal, a Marina, o Kiko e a Marisa. Depois vieram dez netos e nove bisnetos. E eu posso falar hoje. Eu ralei muito. Eu sozinho agüentei tudo.Os meus pais morreram na minha companhia, meus irmãos na minha companhia, eu agüentei tudo. -xNa Rhodia, eu fui lá e acertei com eles. Nunca deixei de receber do Exercito. Fiquei um mês descansando. Fiquei fazendo uma coisa e outra, até 1951. Nas eleições de 1951, eu ajudava um senhor em uma barraca de mantimento, aqui no Santo André.... Sr. Pedro, quer falar comigo,?...Quero! Ele me disse que tinha recebido o convite para ser candidato a vereador. Você quer me ajudar?..... Quantos votos você precisa?... Quer me ajudar?...Ajudo! Ajudei a eleger ele com 280 votos.....No dia da posse, ele me chamou para ajudar ele no escritório dele....Ficava lá atendendo telefone para arrumar emprego para o pessoal...Cada pessoa que você atender ai e para anotar nome, endereço...tudo direitinho......Mas ai eu me interessei em mexer com aquela coisa de Departamento Pessoal.... nas horas vagas comecei a organizar as fichas, datilografar alguma coisa....E tudo isto daí deu resultado: Na outra eleição ele se elegeu com mais de oitocentos votos ( sem sair da cadeira) e e fiquei craque em matéria de Departamento Pessoal....podia trabalhar em qualquer firma...trabalhei com ele por doze anos.....Depois fechou, ai eu montei um escritório de corretagem de seguros com o meu filho Kiko e fiquei ate 1984...depois eu parei -xAgora eu digo para você..pode ter pessoa feliz no mundo, mas mais feliz que eu...eu tenho uma família maravilhosa. -x- 114 Eu digo para você...eu sempre tomei a iniciativa de contar as coisas da guerra e da vida para eles.....Quando eles começaram a entender, chamei a minha esposa...falei para ela...as duas são moças são suas e os dois rapazes são meus....Fechei a porta e disse o que tinha que fazer e o que não fazer...que estava na hora deles conhecerem a vida....Disse que era para tomar cuidado com a mulher, porque se fossem pegar qualquer coisa eu que iria tratar deles, e não terceiros, senão eles iam apanhar de mim. -xPor tudo o que passei sou um cara feliz.....Neto, filho, eles são maravilhosos....Eu ajudo muita gente, nunca deixei de ajudar, e já fui traído por amigos meus. A Associação foi uma coisa bonita...nós fundamos a Associação em 63..São Caetano do Sul, na rua São Paulo..Tínhamos 530 sócios...depois fomos para a Rua Para, número 86...ficamos ali um tempo...depois teve um dia que cheguei lá e encontrei na nossa sala uns caras diferentes, da capoeira...perguntei quem tomava conta...um cara lá disse que era ele....O cara disse que tinham trocado o terreno do grupo da capoeira com nossa sede...O Braido, prefeito que fez a negociação, nos despejou sem avisar. Precisamos sair de lá.. -xDepois encontrei o Joao Antônio Pessoa, prefeito de Santo André...Encontrei ele na rua, descendo a avenida Portugal....Ai eu contei o caso e ele disse...Não acredito, o Braido fez isto com você?....Ele me pegou pelo braço, me levou no gabinete dele, me mostrou o terreno onde estamos hoje...Me perguntou se aquilo me servia.....Falei claro que sim! Aí ele Chamou outros lá e passou a escritura no mesmo dia! Dois dias depois ele perdeu a eleição para o Lincoln Grilo...Nos lançamos a pedra fundamental, o Grilo foi lá.....pedi a ajuda para ele e ele respondeu que não tinha dinheiro, que não ia ajudar...pior..se a gente não começasse as obras em 60 dias, seriamos tirados dali....Expulsei o Lincoln e os assessores dele na hora! -xAi fui correr atrás...Quem me ajudou foram dois políticos....O Maluf e o Doutor Arquimedes Zamora, que era deputado federal....Fizemos uns bingos, que naquele tempo não podia....O delegado de São Bernardo não queria deixar, o Dr. Palmer.....ele ameaçou de mandar o 115 pessoal pegar as cartelas...Ai ficou naquela....Resolvi naquela semana sair para pescar....na volta, minha esposa me avisou que outro delegado me chamou para conversar ...Fui lá, e ai a gente chegou no consenso e fizemos o bingo..Com a autorização, todo mundo, várias Entidades e Associações, me procurou para fazer o bingo...eu pedia trinta por cento do arrecadado...Aí, juntando tudo, consegui levantar o dinheiro para construir a casa! -xParticipava sempre dos congressos bianuais das Associações dos Ex - Combatentes..Fui em uma de Fortaleza, defendendo a tese da reforma para todos os que estiveram na FEB...Lá tinha um Major do EB, armado e tudo, falando um monte de besteira sobre os veteranos...Pedi a palavra e falei um monte para ele...Mandei ele ficar quieto, senão ia quebrar a cara dele...Se ele não precisava da pensão, os veteranos precisavam.....O cara teve que ir embora escoltado...... A minha tese foi aprovada....Foi para o Congresso, aprovaram..em 1978 começaram a chamar o pessoal para as pericias......Deram uma parada e em 82 voltaram a chamar...aí depois todo mundo virou pensionista...Este orgulho eu carrego comigo....Puxa, aqueles que foram lá tinham que ter o mesmo direito que eu...era o justo! -xA Associação, quando descobria alguém em dificuldade, ia lá e ajudava....Um dia o Diário do Grande ABC noticiou que tinha um ex combatente passando fome em Mauá...fizemos uma comissão e fomos lá...chegamos lá e conversamos com ele...um cubículo com oito pessoas e um galinheiro.....Começamos a perguntar e ele se enrolou....O cara estava em um fogo danado...Demos uma lição nele e também uma chamada no repórter do jornal, e no dia seguinte saiu o desmentido....A gente até comprou terreno para colega nosso, pagamos aluguel, ajudamos muita gente ainda... -xO Exército toma conta da gente...Depois da guerra o Exército melhorou...A guerra trouxe muita coisa boa para o Exército...Você vai em um Quartel e a coisa é bem mais tranquila...O Exército para mim foi uma lição de vida! Na verdade, eu acho que a guerra não deveria ter existido. Um homem louco, que não tinha cabeça, que foi culpado de tudo isto...Viu o que ele fez com os judeus....Não pode..um 116 irracional...Quando os alemães se entregaram, os companheiros viram lá crianças com 13, 14 anos, isto não pode...A gente que tem coração, ama a família, não aceita uma coisa desta. -xO que consegui, a família que eu tenho, os filhos, netos e bisnetos só dão alegria para mim. Faço o bem, não tenho inimigo, sou amigo de tudo mundo, o que precisar de mim eu faço...Se não der, eu vou tentar...Deus me fez assim, assim eu sou....Perdi a esposa e o filho...um cara legal de só 51 anos.... mas sou um cara feliz...Se eu for embora amanha, eu vou satisfeito. 117 Entrevista ARMANDO PERNANCHINI Bauru/ São Paulo - Dia 13 10 2012 PARTE I - A VIDA ANTES DA GUERRA O nome do pai era Lourenço Pernanchini e da minha mãe Amélia. A minha mãe era brasileira, filha de italianos, e meu pai veio de lá, já veio grande. O meu pai era de Rovigo e minha mãe era de São Bernardo do Campo. Eu nasci em Ribeirão Pires, em 1920. -xQuando eu era pequeno, o meu pai foi para Barueri, onde montou uma Olaria com o irmão dele, o meu tio Ettore. Ali nos ficamos mais ou menos uns dois anos. Mas lá aconteceu uma tragédia. O meu pai, numa discussão com um funcionário, acabou sofrendo um atentado. Um certo dia, o cara seguiu o meu pai até a porta lá de casa. O meu pai parou, percebeu que o cara estava armado, discutiu mais uma vez, o cara puxou o revolver e deu quatro tiros nele....Não morreu na hora...Meu pai ficou dois meses no hospital e depois morreu...Eu estava com uns seis ou sete anos. Nos éramos em oito irmãos. Eu era o do meio. -xMinha mãe ficou sozinha, para cuidar daquele monte de criança, com muito sacrifício. Saímos de lá e fomos para Santo Amaro. Lá as coisas não deram certo e fomos para Santo André. Aí as minhas irmãs começaram a trabalhar nas industrias para sobreviver....eu tinha irmãs e irmão mais velhos do que eu....Aquela época era muito difícil..minha mãe não dava conta...O serviço era difícil e ganho era zero.....Eu comecei a trabalhar de menino em uma marcenaria, para aprender um oficio....A marcenaria ficava onde hoje tem um posto de gasolina seguindo para SBC....logo na saída de Santo André, subindo...Comecei com uns 10 anos . Tinha que ser ali mesmo, pois para entrar na industria tinha que ter 14 anos Quem trouxe a gente para Santo André e deu força foi o Tio Ettore. Ele morava ali na subida do Ipiranguinha, indo para a Vila Assunção....Santo André era uma cidade pequena......Com o 118 dinheiro dava para pagar o aluguel lá de casa, no largo da Igreja da Matriz de Santo André. Minha mãe ficava contente para caramba. Nem precisava ir para a escola, pois a educação vinha de casa. Estudei até o terceiro ano no Grupo Escolar de Santo André, ate o terceiro ano...Teve um dia lá que a minha mãe falou que a situação estava difícil, que tinha que trabalhar. Ai eu larguei a escola e virei aprendiz de marceneiro. -xEu ia me divertir ali atrás da Firestone. Tinha um lago mais ou menos. A água vinha la da vila pires, que agora deve estr encanada. Vinha de la um riozinho. O banho era ali, a pesca também, pois a água era limpa, limpa......Santo André era pequena..Quando chegava ali perto de onde hoje é o Extra , dali para a frente era mato. Dali para baixo, descendo como se fosse para a Vila Pires ou HUMAITÁ, era tudo mato. -xNeste período ai, a Pirelli chegou no Brasil. O meu irmão foi trabalhar lá. Depois trabalhei em um monte de lugar, antes de ir para a guerra: Rhodia, especialidade farmacêutica, na Kovaric, voltei a trabalhar como marceneiro ( já não era mais aprendiz) , trabalhei na Vila Assunção, passei também pela Pirelli...tudo isto depois de ter completado catorze anos, até os 21 anos, quando eu fui sorteado para o EB. -xDava para ajudar a minha mãe. Gostava de jogar bola, de lateral esquerdo, la no Primeiro de Maio....O campo do clube era ali na frente da igreja..depois perdeu o campo...... -xDa revolução de 1932, só ouvia o buxixo do pessoal falando da briga. Eu lembro que o meu vizinho, Arnaldo Della Antonia, morava no largo da igreja, ele tinha idade e pegaram ele para a revolução. Não me lembro de faltar nada em casa, em razão da Revolução. Mas na WWII. A nossa vida continuou norma, sem que faltasse nada, dentro do possível 119 PARTE II - O TREINAMENTO Não fui para o Tiro de Guerra. Eu não quis fazer o tiro naquela época.. Eu fui sorteado para o Exercito. Não era convocado ou voluntário. Eu não podia ir para o Tiro de Guerra e nem para o Exercito e deixar a minha mãe com aquele monte de filho e o meu emprego. Aquilo me ia atrasar a vida. Só queria saber de trabalhar e jogar bola. Eu não ia deixar esta vida para ir na instrução do Tiro. -xQuando a guerra começou, em 1939, eu recebia as informações por meio de um amigo meu, o Arthur, que me contava as coisas que ele lia no jornal. Ele falava da Alemanha, que ela invadia todo mundo. Eu estava numa empresa alemã, a Kovarich. Uma firma muita boa. Só trabalhava com artigos de lá. Era uma tecelagem. Eu era preparador de fio. -xMe lembro dos jornais noticiaram sobre os barcos sendo afundados pelo alemão. O Artur contava....Eu não acredito ate hoje nesta historia. Acho que foram os americanos que afundaram os navios para chamarem a atenção, para empurrar o Brasil para a guerrra. Foi um monte. Ate pesqueiro foi...... -xOs estudante saíram nas ruas...principalmente em Campinas, teve uma bagunça grande lá. Na hora de formar a FEB, veio um monte de gente de Campinas. A maioria de convocados foi de filhos de italianos, justamente para entrar mais em contato com o italiano. Convocaram um monte de filho de italiano. Parece que escolhiam. Em cada cidade, pelo menos, tinha um ou dois.... E no final fui um deles. Quando os navios foram afundados, eu comecei a ficar cismado, ate mesmo porque eu já estava no Exercito. Voltamos ao sorteio. Fui sorteado no finzinho de 1940, e o serviço iniciou 120 no começo de 1941. Fiquei sabendo da novidade por meio do jornal. Foi publicado no Jornal "O Imparcial". Lá saiu o nome dos sorteados....Um monte de gente. -xO Exercito para mim, era detestável. Tirou toda a vida que eu tinha. Minha mãe ficou muito sentida, pois ela dependia muito de mim. Isto ai dificultou a muito a vida lá em casa. Pensei: me ferrei....... -xMe despedi da turma lá do trabalho. No comecinho de 1941, já fui me apresentar no 6º RI. de Caçapava...Eu estranhei tudo aquilo no começo. Era uma imundície....Não demorou muito para que eu entrasse no conceito da ma conduta. Antes de ir para a FEB, fiquei preso, no total, por 46 dias. Não gostava do EB e por isto me tornei rebelde, dando alteração atrás de alteração. A comida era ruim demais. Tentava de qualquer jeito cair fora de lá..... -xVou te contar com acabei indo para a FEB. Numa destas cadeias aí, quando fui liberado, eu vim embora para Santo André por minha conta. Não tinha nada de permissão, do capitão, do tenente, para me deixar ir para casa. Naquele tempo, sem autorização, não podia. Fui junto com outro dois amigos: O Luiz Brait e o Armando Magalhães. Chegamos lá demos uma alteração e fomos presos pela policia em Santo André. A gente dava muita alteração, não tinha jeito. Esta aí foi por causa de um baile. Tinha um salão, no centro, perto da igreja, onde a gente arrumou uma briga boa lá, por causa de mulher. -xNós nos identificamos e eles não respeitaram nada. Jogaram a gente lá na cadeia. Comunicaram o pessoal de São Paulo, do Quartel da Lapa. Levaram nos e nos deixaram lá. Nisto, o pessoal de Caçapava recebeu uma ordem para deslocar para SP. E foram ficar justo onde eu estava. Nisto a FEB já estava formava. Foi onde a coisa pegou 121 -xO capitão soube que a gente estava preso. Nos tirou e fomos para Caçapava. Ficamos presos. Um dia, o comandante lá, que era um Cel., mandou nos chamar. Fomos para a sala dele, lá encima, quando ele disse abertamente: Vocês querem ir para a guerra ou querem ficar presos por uns quatro anos? Poxa, que situação...vamos para a guerra. Nisto aí, o Coronel aproveitou e dispensou os caras que acompanharam a gente no trajeto de volta para Caçapava. -xNesta época, o quartel já tinha deslocado para Taubaté. O Cel. nos liberou, sem condução, sem nada....A gente teve que dar um jeito para ir de volta para a nossa unidade. Depois de poucos dias, fomos para o Rio de Janeiro.... -xNo quartel, eu tinha regalias, mas eu não soube aproveitar. Tinha um sargento lá que ele viu que eu pulava e saltava muito. Saltava triplo, altura e distância. Em razão disso, ele me protegia. O Esporte Clube Caçapava, um dia, me viu jogar futebol. Gostaram e me convidaram para jogar. O pessoal do quartel me deu liberdade para isto aí. E o futebol era bom. O time me pagava o almoço, a janta. Não soube aproveitar....... -xO problema da indisciplina era que eu não agüentava ficar longe da família e da namorada. Não me inconformava de jeito nenhum em ficar lá.... -xEra horrível. A imundície das camas, cheia de percevejos. Qualquer um entrava ali naquela época. Parecia que o povo já trazia o bicho de casa. Aquilo era uma peste, não acabava nunca. Toda quarta-feira a gente fazia limpeza, e quando chegava na outra, tava cheio de novo . E os bichos mordiam a gente de noite, durante o sono...Era horrível. Mesmo o pessoal exigindo banho todo dia, depois da educação física, era fogo.....Ninguém lavava ou escolhia o feijão..era comprado o pior....O EB era muito pobre demais , não tinha dinheiro para nada...Os 122 oficiais não tinham condições de comprar um carro....sequer o EB tinha um caminhão. Ruim, ruim, ruim...Soldado passava mal -xEu comia mais fora do que dentro, pois a bóia fora era baratinha. Isto quando meu soldo melhorou. Foi para 280. Antes era 18 cruzeiros. Eu pagava lavagem de roupa. Ficava com 15 para pagar o meu cigarro....Passava o mês com uma miséria -xVinha para Santo André, ver a família, só na base da carona.... Ia para estrada e pegava qualquer caminhão......Sai depois da revista. Fugia, não saia. Eu era um ma conduta . Como não me davam liberdade, ninguém me dava liberdade... o boletim cantava....Pernachini preso por três dias, uma semana... Eu não agüentava, não me dava bem com aquela imundície...Não era bem com o EB...era a sujeira -xAi quando comecei a ganhar mais, passei a comer sempre fora, não comia mais lá... -xQuando terminou 1941, foi suspensa a baixa de todos os soldados. Puxa, como chorei porque tinha que fica ali ate a guerra acabar...mas não sabia que ia para a guerra naquela época. Chorei.......e minha mãe precisando de mim...entrei com o requerimento de arrimo de família que eu era....não me deram...quer dizer que gostaram de mim ( PQP, ta loco)....E na guerra o capitão me colocou em diversas patrulhas perigosas... -xSuspende e convoca mais gente!..Nossa...o quartel ficou assim...lotado que não tinha para onde ir. Em Caçapava o EB alugou uma Casa da Laranja lá.... Fomos para lá...Puseram no lugar um monte de cama. Não era beliche. Não tinha espaço entre as camas. Era uma 123 encostada na outra. O percevejo passava de uma cama para outra. Era isto aí. Ficamos lá uns oito meses. Não cabiam todas a Cias que formavam o Batalhão. Ali continuei dando alteração. Foi ali que aconteceu o caso que me fez entrar na Divisão Expedicionária ....A tocha era fogo..cada um ia para a sua casa e voltava quando queria...e aí era cadeia. -xO EB não ia atrás da gente em casa. Isto foi só depois que o RI embarcou, que eles começaram a ir atrás de quem tinha desertado. -xNa Casa da Laranja, comecei a desconfiar de algo. Melhorou a comida e o tratamento do pessoal com a gente. No almoço tinha até verdura. Não precisava gastar dinheiro para fora de jeito nenhum.... O americano veio lá e deu instrução todinha... Tinha um americano que estava coordenando o EB. Eles ajudaram muito nesta parte do tratamento com o soldado. O sargento já não era mais aquele cara durão, que fazia assim e assado.....A instrução nossa era francesa, era rígida rapaz, era mais rígida que o alemão. O soldado não tinha direito a nada. Aí já tinha muito mineiro, goiano, e na preparação da guerra chegaram os gaúchos.... -xO regimento, na época de paz, não chegava a cem homens. Quando foi declarada a guerra, a Cia passou para mais ou menos 180 pessoas. Cada Batalhão era formado por três Cias....Veja. Você vai na Casa da Laranja, passa por lá, e aquilo tão pequeno...Eu ainda passo por lá, eu gosto daquela cidade (ali eu namorei também)........... -xAí começou um treinamento diferente, mais pesado. Ordem unida era todo dia, era demais. Acampamento direito.....E o capitão Atratino era ferrado........e fui para a metralhadora. Todo dia instrução, montar e demonstrar a metralhadora. A metralhadora era uma porcaria pô, a Madsen, dinamarquesa.... Isto ai eu não esqueço nunca. E você não falou aí da Hotchkiss.....essa ai era pesada rapaz, acho que tinha uns quinhentos anos viu..........Cheguei a 124 pegar algumas instruções naquilo...A Madsen era bem mais leve. O transporte das metralhadoras era feita por meio de burrinhos. As viaturas eram as caçambas de 4 rodas, que serviam só para carregar os petrechos de cozinha ou alguém que passava mal na marca....Porra, marcha de 40 Km, como daqui a Lençóis Paulista... 40 KM era duro...Isto dava vontade de desertar...Mas eu pensava na minha família, antes de tudo. -xO equipamento que a gente usava era muito ruim. Tudo era da França.....Exceto o capacete, aquela casca de tartaruga, uma porcaria......capacete de inglês. -xAí veio a ordem para o Rio de Janeiro. O boato que corria era de que a gente ia ficar um tempo por lá e depois ir para Fernando de Noronha e Natal, proteger o litoral. Nos primeiros dias, foi exame medico de tudo quanto é jeito. Nas entrevistas, o sargento mencionava sobre a guerra. Eles não falavam diretamente, que o RI ia embarcar, mas jogavam por cima. Aí já teve muita deserção. Da minha Cia foram uns quatro ou cinco.....E o pessoal era de Campinas ainda. Lá eu tive mais liberdade do que em Taubaté -xMe lembro que um dia jogou Uruguai e Brasil. Tinha uma PM que coordenava o transito. Houve uma alteração lá dentro do campo. Houve uma briga porque estes GC de SP, que foram convocados para isto, arrrumaram uma briga desgraçada com a gente. O jogo acabou antes da hora. Não cheguei a participar da briga, não deu tempo. O campo estava cheio de autoridades do RJ. Todo mundo fugiu... troço pegou fogo lá...um foge daqui, outro corre de lá, dispersou todo mundo.....Inclusive o irmão de meu cunhado, o Begliomini, que jogou no Palmeiras e no Corinthians tava lá....Neste dia espalhou, todo mundo apareceu no quartel somente no dia seguinte, por cauda desta briga. Fiquei lá em cima da arquibancada, no Vasco da Gama, só vendo o pau quebrar. Tudo aconteceu porque eles bateram em um soldado com o cacetete....No final , ninguém foi punido -x125 No Rio de Janeiro, conheci tudo aquilo lá. Subi ao Corcovado pela trilha..não tinha dinheiro para pagar o bondinho...... A única coisa ruim era que a gente não podia andar sem o uniforme...a gente tinha que usar a roupa civil escondido. Ali não dei alteração, tava bem mais tranqüilo...Aquele papo da cadeia que tive com o Cel, em Caçapava, foram suficientes para mim........ -xAntes do embarque, tava tudo bom demais. O EB mudou....da noite para o dia. Os oficiais tratavam muito bem os soldados. E foi assim até o dia do nosso embarque. PARTE III- A GUERRA No dia do embarque, ate então, para a gente ia, como eu disse para você, para o Nordeste....Fomos colocado no trem, tudo fechado, de noite........E fomos. O tratamento no navio foi bom. Transportou quase seis mil pessoas. A alimentação era boa. Não passei mal na viagem não. Mas segundo os boatos, parece que um morreu...... passou mal e foi jogado depois no mar....... Lá tinham as gaiolas de ferro, para que os corpos fossem jogados ao mar.....A ultima imagem que eu tive do Brasil foi a da Baía da Guanabara, o Rio de Janeiro sumindo cada vez mais.................Só sabia que ira para a guerra, mas não sabia para onde. Só descobrimos o destino uns três dias antes de chegar na Itália. -xO navio, volta e meia, dava o sinal de alerta, tocava a campainha lá e a gente tinha que seguir as instruções que nos recebíamos...correr para o lugar certo, agrupamento de soldados para se agruparem em certos lugares, prontos para descerem naqueles barcos que eles levavam ao lado. Ah, o meu medo era de ataque existiu sim.......Volta e meia o navio fazia uns barulhos esquisitos, feios mesmo, que a gente pensava que estava sendo atacado...Já começamos a passar mal aí......Nossa Senhora..Dois navios nos escoltavam, dois destroires, mais ou menos uns quinhentos metros do lado, um pequeno dirigível encima e outro navio grande 126 atrás.....Pelo menos para mim, foi um tensão doida, não consegui relaxar muito não. Até chegar a informação, ninguém sabia para onde ia, se Itália ou Grécia.... -xChegamos em Nápoles. Nossa Senhora, você não via um vidro naqueles prédios da ITÁLIA. Tudo destruído, navios pequenos ai tudo no fundo, com a ponta para cima, porque! Uma destruição rapaz.......Desceu todo mundo, entramos no trem e fomos para Bagnoli, na cratera do vulcão. Vi os trilhos de trem tudo retorcidos....... A tal da granada é poderosa. Descemos lá, era época da uva, a gente saía para roubar uva. Durante o dia não podia não, senão ficava preso. A gente desceu lá só com a roupa do corpo e os saco A e B. Ai a gente fazia muita instrução de educação física e responder chamada toda hora, toda hora revista...O pessoal tinha medo de deserção. Pelo menos na minha Cia, não teve problema. Tava tudo tranqüilo. Não fui para a cidade nenhuma vez.....Acho que ninguém tinha autorização para sair......Medo de ir e não voltar...... -xPara Tarquinia, viajamos de noite, por causa do bombardeios de aviões alemães. Ali já estávamos nos aproximando do front, para acostumar o soldado com o barulho dos canhões, pois já dava para ouvir tranqüilamente. Ficamos ali esperando para ver o que ia acontecer..... De lá a gente foi para Vada. Ali morreu um por causa de mina. Era cidade de mar, podia tomar banho, mas a praia estava minada.....Veio uma ordem proibindo todo mundo de tomar banho na praia..... Lá eu me lembro da visita do Churchill.... -xFomos para Massarossa. Entramos lá. Tinha que revistar as casas. Entrei num ginásio lá, um escola, tinha uma caixa grande de moedas, tudo moeda antiga, moeda de mais de cem anos. Fomos para Camaiore. A cidade tava bem destruída..........Ali começou o barulho já, hein......Ali começou o barulho.....Quase não dava tempo de fazer trincheira....A gente quase não usava a pá..........Caía bomba....o negocio era se abrigar atrás das casas, montar a metralhadora, sempre botando a metralhadora a ponto de bala, prontinha....As cidades 127 estavam vazias. Você entrava em qualquer lugar, nada funcionava. Ali quem mandava era o soldado......Grande parte da população fugiu.....Em Camaiore não abri fogo. -xDe Camaiore nós fomos em Barga. Por sinal, tinha um primo que era de lá....Não encontrei nenhum parente lá.....A minha peça, nos éramos em sete, nos recebemos a ordem para subir o morro. Ali foi o perigo, onde o Miguel se feriu. Eles atacaram a gente. Nós subimos lá e eles estavam esperando. Ali que aconteceu a morte do Tenente. Foi um ataque forte que o alemão fez encima da gente. Recuamos. Viemos por um lugar.....Um correu para lá, outro para cá.... Eu tava com meu amigo Adolfo, nos perdemos, já era de noite, e nos ficamos perdidos da Cia. Ficamos perdidos os dois..Para onde vamos? Mas por causa do barulho a gente se orientou e conseguiu chegar na Cia no outro dia. Tava caída, desmoralizada. Fui disparando até acabar a munição.... A minha metralhadora a gente armou atrás de umas castanheiras, nem vi os alemães..... E recebemos a ordem de retirada......O Cabo Varela recebeu um estilhaço que atravessou o capacete. Ficou entre a carne e o capacete, do lado... Ele me pediu para tirar... quando tirou, o estilhaço, que era pequeno se deslocou e machucou ele sério, saindo sangue........Aquele dia foi terrível...............Conheci o Tenente Pinto bem, ele era o Subcomandante...era paranaense........Ele faleceu, a gente foi embora para a frente. O Capitão conseguiu se salvar, ele reuniu uns 10 soldados para ir até lá e buscar o corpo do tenente... mas o alemão não deixou.....O Atratino ainda conseguiu deixar o corpo numa valeta, colocou um capim e uns galhos por cima, e fez tudo isto se arrastando, até sair da mira dos alemães........Quando a guerra acabou, o Atratino foi lá naquele local e achou ele ....o alemão não viu o corpo. -xNos entregamos esta frente aí para os negros americanos... Inclusive, Joe Louis, o campeão de boxe que derrotou Max Schmeling, fazia parte daquela divisão... Me falaram que tinha um cara lá que era o Joe.........Fui lá cumprimentar ele.....Rapaz, você sabe que eu desejava um ferimento para cair fora daquilo? Passei a pensar nisto quando eu soube que alguns colegas estavam nos Estados Unidos, por causa dos ferimentos. -x- 128 O pessoal estava assustado. O Comando Americano mandou dar um descanso pra gente. Transmitiu as ordens para nosso general. Nós descansamos uma semana. Depois dali a gente foi para Porreta Terme. Para chegar ali, nos chegamos ao escurecer. Porque a gente não sabia ainda onde estava o alemão. Agora, os jipes passando pela estrada onde tinha uma ponte, o alemão se concentrava e bombardeava, bombardeava a ponte, chuva de morteiro. Nós passamos esta tal de ponte que era difícil e fomos para um lugar lá e dormirmos no chão.....Mas o alemão estava encima do morro e estava lá vendo tudo. Dormimos lá e de manhã acordamos cedo, antes de clarear o dia, pois o lugar era perigoso...O sargento já tinha avisado...o alemão está por ai. Vamos sair antes e nos posicionar em lugar seguro. Quando nos saímos veio o bombardeio no mesmo lugar. Sabe porque? Foi a noite em que caiu a neve.....Aonde a gente dormiu no chão ficaram sinais...a neve não atingiu o chão...Em volta, em todo lugar tinha neve. Menos ali onde o soldado estava dormindo...Nos saímos antes e o alemão já em seguida, ao clarear o dia, bombardeou o local, pensando que ali ainda existia soldado brasileiro. -xAi a gente se posicionou atrás de casas, de lugares bons sempre, pois nos estávamos no morro Soprassasso, eu não esqueço, isto fica gravado na gente, e o alemão tava todo La encima, era um lugar que encima era so pedra, pedra solta, e não adiantava bombardear aquele local, pois era difícil, tinha que tomar pessoalmente o local, e a gente ficou embaixo dando apoio, mas apoio de que jeito? Ali então recebi ordem para eu me deslocar para Monte Cavalloro. Primeira patrulha que fiz. Puta que pariu, Sozinho, tive que me deslocar porque tinha uma peça de metralhadora do segundo batalhão, ela estava lá e eles tinham sofrido doença, então precisou deslocar e fui dar reforço lá encima, para ir sozinho lá rapaz, meu deus do céu, durante o dia, o capitão me escalou lá. Eu era má conduta porra, ele abusava de mim. Tive lá reforçando aquele grupamento que tinha lá. Os homens lá encima metendo bala, mas eu cheguei lá. E não foi só lá, depois fiz outra patrulha ainda, mais para frente de Porreta. Não lembro nem em que lugar que eu estava. O capitão devia pensar, ele ta na má conduta mesmo, um a mais um a menos não faz diferença. Ele me escalou nestas duas patrulhas. Eu tinha muita fé...e vou te contar... Você é católico? Você tá vendo aquela estátua ali... Sabe quem e aquele ali? Eu achei na Itália uma medalhinha de Santo Expedito. Botei no pescoço... Eu tinha aquela corrente de identificação, a plaqueta, eu botei junto com a plaqueta e até hoje eu tenho 129 ele aí. Se eu recebi proteção, eu agradeço. Achei aquela medalhinha no chão. Tô aqui, graças a Deus! -xEu apoiei em Monte Castelo. Só. Ali morreu, em uma Cia, cento e catorze brasileiros, do 11º Regimento. O culpado foi o Zenóbio. Ele queria atacar e pegar em mão limpa. O que era isso, porra. Os homens que estavam lá, se você subisse lá encima e visse as casamatas que eles estavam....O alemão dormia lá... -xCento e catorze que eu sei, que me chegou no meu conhecimento........Ele queria pegar Monte Castelo na marra...Lá no sexto estão os canhões dos alemães, no museu. O Monte Castelo foi atacado algumas vezes, que as datas eu não me lembro... . -xRapaz, a neve foi uma tristeza, mais castigou o soldado do que praticamente a guerra. Você ficar e ver tudo na frente em branco, igual este papel ai..Dava para ver bem o alemão quando ele vinha atacar, mas ele vinha de branco, com uma capa branca, filha da puta...E pisando na neve a bota não aparecia...Quando eu fui fazer aquele reforço que te falei, eu não te contei que na noite em que eu estava de guarda, nos ficávamos em dois, o meu amigo do lado viu os alemães chegando, e ele atirou e matou..matou dois..matou mas ficou lá...eles ficaram feridos e gritando...mas você não pode levantar e ir lá porque senão você morre também, porque os outros também matam..então eles vem em fila, um longe do outro, mas vem para te pegar...os primeiros da frente ficaram..de manha cedo nos fomos buscar eles lá..quando estava tudo calmo, os outros já tinham fugido......os dois morreram, morreram sem recurso.....Olha, para falar para você, no escuro, a gente tava atacando e chegamos num lugar lá que eu durmi em um buraco ao lado do corpo de um alemão, todo vermelho e carregou o corpo depois e enterrou. -x- 130 inchado...Mas a nossa turma Eu fiquei lá encima até acabar a neve....Ficamos parados...só o morteiro e o canhão funcionava...Fazendo as patrulhas, que era um cu de boi, nossa senhora, você vê grito, a noite, geralmente e feita a noite, e ai você escuta os gritos de quem recebe os tiros, o sujeito berra, ele grita, quando recebe a rajada ou o tiro...O Miguel teve sorte, ele não pegou tudo isto não, na primeira cacetada ele foi ferido. -xAté a alimentação era difícil. Ficava mais ou menos uns dez dias sem tomar banho. Não desloca todo mundo...vai um por vez. Porreta Terme era um lugar de termas, com água quente. Era bom, gostoso, você ia lá...mas depois vestia a mesma roupa, porra....E voltava pro morro. Porreta era só para tomar banho. Puta que pariu! Com o tempo que a gente ficava no front, não dava para lavar roupa, nada. Trocava uma roupa suja pela outra...Que vida... -xVocê sabe, dormir, para dormir, a gente achava ruim, mas a idade da gente leva a resistir a tudo isto...Se fosse hoje, eu acordaria no outro dia duro. Pelo menos eu soube que chegamos 19 graus abaixo de zero. Tava com 50 para 60 centímetros de neve no chão...a gente afundava...Usei aquelas galochas brancas. O meu tenente, comandante do pelotão, ele teve. Era um médico, ele teve este problema aí e precisou vir embora. Tenente Cesário. O Capitão me deu uma metralhadora com um revólver e uma metralhadora portátil, e tinha mais uma pistola que eu havia pego do alemão, uma Mauser pequenininha. Em outro lugar, três camaradas pegaram uma gripe muito forte, e aí tive que ir dar o reforço no lugar deles. -xDe lá saí para o ataque geral. A ordem era ir para a frente. Um amigo meu era barbeiro na Cia. O nome dele era Silva. Ele falou pra mim: Armando, eu vou, que eu quero ir para a linha de frente, eu não vou mais fazer barba e cabelo de ninguém. Já falei com o capitão..Ele foi transferido para a 1ª Cia e no primeiro combate ele morreu...Era um cara novo.... -x131 Em um lugarejo, que não lembro o nome, a gente se instalou na frente de uma igreja. A metralhadora. Fizemos um buraco e ficamos lá esperando.... A noite foi terrível....A torrinha da igreja caiu e nos estávamos ali na frente, pois o alemão estava atirando.......Veio uma ordem de cessar fogo, transmitida pelo comando do Batalhão. Era uma noite. Antes disto, vou te contar uma coisa..Tinha um vinho dentro da igreja, rapaz, que não era mole...você precisava ver que delicia, o vinho do padre......cada um ia la, enchia o cantil e vinha, e o fogo comendo... Foi até bom...estas coisas assim quando a hora e perigosa você não liga mais para o negocio...Aí todo mundo fica com coragem, é verdade! -xAí veio a ordem de cessar fogo...O dia seguinte, de manha o alemão todos eles se entregaram, os cavalos, jipe, caminhão e a tropa todinha. Aí ficaram concentrados lá em um local e nos ficamos vigiando, todos desarmados e revistados, em Fornovo. Olha, eles estavam alegres em se entregar. Não era para menos né? Então a guerra terminou praticamente na Itália. -xTinha muito garoto. Uma judiação. Mas eles eram piores do que o soldado adulto. Com eles não tinha nada não, o negócio era matar, eles eram perigosos. Antes do Brasil entrar na guerra, sabe que eu até torcia para o alemão? Era por causa dos ingleses, muito arrogantes que se achavam donos do mundo. Depois que a gente ficou sabendo das coisas, não foi mais deste jeito. Antes da guerra a gente não acompanhava bem a política, não sabia de nada. Fui sem saber o porquê de ter que lutar... -xCorreu um boato que a gente ia para o Japão. Correu um boato forte. Falei: minha nossa senhora. Lá era pior ainda. O Capitão deu uma ordem, e deu um jipe para nós passearmos. Só que a gente teve que se virar na gasolina. E encontrei um americano em Milão, e ficamos conversando, ele falava bem o espanhol e a gente entendia, e ele estava sentido e não sabia o que fazer. Ele me falou que estava indo embora para o Japão. Falei, puta que pariu, acho que 132 nos vamos também....Mas graças a Deus, não sei o porque, o negocio não era com o Japão, era com o alemão. -xOs americanos deram umas barracas grandes, e aí nós ficamos aguardando as novas ordens...O pessoal começou a ser dispensado lá na Itália mesmo. Mas o diploma de combatente eu recebi aqui, junto com o dinheiro. Recebi 17 mil. E aí veio a notícia que a gente ia voltar para casa. Neste período tive em Milão, Torino, Genova, fui a Pompéia, Nápoles, Roma, Vaticano, Veneza...Só não fui na terra dos meus pais. Era só festa, nada mais. -xO navio de volta para o Brasil saiu de Nápoles. Foi uma viagem maravilhosa. Voltamos em dez dias, descemos no Rio. Foi uma festa. Alegria. Meu amigo Cleiton, de Santo André, que não sei como, sabia que eu estava chegando e me encontrou lá no cais do porto. Falei para ele se poderia avisar a minha família que estava tudo certo e aí voltei para o quartel para me preparar para desfilar. Acabando o desfile, fomos para um reservado, receber o dinheiro e o certificado de reservista. Era começar a vida outra vez. Nossa senhora! PARTE IV - A VIDA DEPOIS DA GUERRA Eu tava com o dinheiro no bolso e fui me divertir na cidade. No outro dia, peguei o noturno e desci em Aparecida. Avisei o pessoal de casa da parada. Dormi lá e peguei o trem do meio dia. Cheguei na Roosevelt no fim da tarde. O meu cunhado já estava me esperando na estação. Viemos embora de carro. A Avenida do Estado era de paralelepípedo. Foi aquela festa. Aproveitaram a bagunça e entraram em casa e roubaram o meu terno e o meu sapato! Meu sapato de couro de Jacaré, caro para burro...... -xA minha mãe não acreditava que eu tinha voltado. Durante a guerra, a gente se comunicava. Todo mundo em casa sabia que eu estava bem. Fiquei uns quatro meses sem fazer nada, tava com bastante dinheiro. Dezessete Mil dava para comprar uma casa 133 -xAcabei comprando um caminhão. Fui buscar em Minas, pois aqui não se encontrava. O transporte era muito bom, bem remunerado e faltava caminhões. Comecei trabalhar Santos São Saulo Santo Andre. Depois parei com o caminhão e ingressei na Policia Rodoviária. O caminhão foi bom até as importações começarem. Aí o negócio caiu. Deixei na mão do meu irmão. Quem convidou foi o alemão, aquele meu velho amigo da guerra, o Brait. Antes de dar a resposta eu estava numa festa lá na Rhodia. Estava eu, o Washington e o Brait. O alemão me disse que o governador tinha criado a policia rodoviária nas estradas de rodagem. Mas eu disse que já tinha a guarda civil.Mas ele falou que ia ser recolhido todo mundo e que as inscrições estavam abeertas em São Bernardo, por causa da Via Anchieta. Ele disse que estava só ele e outro lá na Policia. -xEu fiquei pensando. Fiquei com farda com quatro anos e vou colocar outra vez? Mas ele disse que o ordenado era bom. Resolvi ir e ver o que era aquilo. Me ensinaram a andar de motocicleta. No começo não tinha farda, não tinha nada. Éramos comandados por um Tenente da PM. Em dois dias já estava habilitado, sem carta, sem nada. Mais para a frente, quando o grupo estava grande, com uns quinze candidatos, fomos em Santos tirar a carta. -xA gente trabalhava em traje civil. Depois chegou o uniforme...Eu não queria mais farda mais encarei..O dinheiro puxa, né....Entrei ganhando dois mil cruzeiros...Comprei uma casa, em prestações de mil cruzeiros. Mil era para eu gastar. -xComo era uns dos primeiros, eu fui promovido rapidamente. Em doze anos, já era inspetor, ganhando bem. Aí fui designado para comandar Bauru. Comandei de 1958 até 1968. Aí houve uma lei que extinguiu a Guarda Civil e a Polícia Rodoviária, colocando tudo mundo dentro da PM. Virei meganha. Comandava 156 pessoas, entre civis e militares, numa região que vai até a beira do rio Paraná, oitocentos quilômetros para policiar de estrada asfáltica. Aposentei em 134 1968, com quarenta e oito anos. A lei de guerra, mais os quatro anos de Exército me ajudaram. Vinte e dois anos de serviço ativo na Rodoviária. Me aposentei como Capitão. Poderia ficar mais um ano, para sair como Major. Mas falei, chega de farda! -xAí comecei a trabalhar com organização de bibliotecas em municípios do interior. Eu trabalhei com um rapaz, e ganhava muito bem. Trabalhei até a minha esposa falecer, com um câncer de seios, em 1975. Me casei em 1953. O nome era Terezinha. Em Agudos, conheci uma professora e me casei novamente. Infelizmente, ela morreu de câncer. Aí fui para São José dos Campos, junto com o meu filho, que é técnico em eletrônico. Os meus filhos são o Níveo e Rosa. Casei novamente e perdi a esposa com câncer. Aí não quis mais me casar. -xDe São José voltei para cá para ficar com a minha filha, pois o meu filho foi transferido para Santa Catarina. -xHoje estou bem de saúde. Viajo bastante com o meu filho para Camboriu. Tenho oito netos e alguns bisnetos. -xQuanto a guerra, ela me trouxe benefícios. Se não fosse ela ia para sempre ser um marceneiro, um operário, não ia sair disso. Deus me livre da guerra. Quando eu vejo agora aquela guerra civil na Síria, eu chamo tudo de Otário, de burro, eles não precisam disso. Se eles soubessem o que era aquilo. Não sonho mais com isto, já passou. Quanto estourava uma bomba, já ficava todo apavorado. Nunca tive problema em contar as histórias da guerra para os meus filhos. Já falei sobre isto várias vezes. Eles sabem de tudo. 135 Entrevista Luiz Caetano de Moura Bragança Paulista - 3/11/2012 PARTE I - A VIDA ANTES DA GUERRA Eu me chamo Luiz Caetano de Moura. Nasci em 01/12/1921, aqui em Bragança Paulista. Meu pai se chamava Eduardo Caetano de Moura e minha mãe Jesuína Maria de Moura. Meu pai era agricultor. Ele tinha um sitio e nasci na zona rural. Eu fiquei um tempo na zona rural e depois vim para a cidade. Eu nasci no bairro do Biriçá, onde era o sitio. Lá no sitio ele plantava de tudo, tinha criação de gado, vaca leiteira e depois de uns tempos ele montou um armazém, aqui em Bragança. Ai passei a fazer aquilo que eu gostava, pois eu não era muito chegado no serviço da lavoura. Fazia um pouquinho de tudo na lavoura, só não aprendi a tirar leite porque não gostava. Éramos em oito filhos. Eu sou o primeiro, depois veio a Maria, Emilio, Terezinha, Antonia, Ângelo, João, Eliza. -xE minha mãe era viúva e eu tinha um irmão, o Zezinho, filho do primeiro casamento dela. Era da família dos Mourão. Ele tinha dez anos de idade, a gente morava no sitio e la naquele tempo tinha uns alemão que consertava tudo. Um dia um deles apareceu lá para consertar consertou um relógio e aí ele ficou por ali, olhando. Depois de um ano, o relógio parou. O Zé tirou o relógio da parede, desmontou e pôs o relógio para funcionar. Ele só tinha dez anos de idade. Depois foi para esse lado. O único problema era que ele bebia muito. Um dia estava vendo TV e aí vi que tinha falecido uma prima dele, a Noêmia Mourão, que era a esposa daquele pintor, o Di Cavalcanti, e tinha deixado uma fortuna, sem herdeiros. Falei epa, pêra aí, tem o primo aqui sim...Corremos atrás e depois de anos de briga na justiça contra a Prefeitura de São Paulo, o processo foi favorável à família dele, que ficou com todo o patrimônio. Ele não usufruiu nada, pois morreu durante o processo. Cinco apartamentos na região da Avenida Paulista, fora os quadros e dinheiro na Suíça. Nasceu rico, gastou a herança durante a vida e não recebeu o dinheiro da prima. -x- 136 Bom, veja bem, a minha infância era trabalhar, estudar, fazia um pouco de tudo e tal, e depois que passei a trabalhar no armazém. No armazém eu estava mais ou menos com dezesseis anos. Eu vim para a cidade em 1932, eu vim para o grupo Jose Guilherme. Eu tinha dez anos. Eu vim morar na casa de uma pessoa que tinha um armazém lá no sitio e morava aqui na cidade. Fiquei morando na casa dele. E eu fiquei nesta escola. Na revolução de 1932. Seis meses. No fim de semana ele me levava para o sitio. O sítio ficava a quinze quilômetros aqui da cidade, do lado da fazenda Santa Cristina. Eu ia de carro. Eu aprendia a dirigir com ele, com quinze anos eu dirigia. Era um Chevolet 1929, que chamava cabeça de cavalo. -x- O que aconteceu em 1932. Na época o diretor do grupo era o Luiz Nardi. E aí veio a Revolução de 1932. O grupo teve que ceder o prédio pelos soldados que vieram para dar segurança para a cidade de Bragança. Aí fui embora, passei para a escola do sitio, onde lá eu completei o terceiro ano. E aí eu voltei para trabalhar no armazém do meu pai. -xDepois que eu tava com 17, eu vim fazer o Tiro de guerra, em 1940. Em 1939 eu fiz a matricula no tiro de guerra. Eu fazia o tiro de guerra, trabalhava e passei a estudar a noite, e aí eu conclui o ginásio, o quarto ano na época. Mas aí, quando eu completei o quarto ano, em 1941, eu me matriculei na Escola de Comércio Rio Branco. Queria ser contador, professor, alguma coisa, pois sempre quis estudar, mas não tive assim aquela oportunidade. Mas aí veio 1942, o Brasil foi para a guerra e tudo foi destruído. -xComo jovem, começa que fui destruído na minha juventude, fui convocado e fiquei três anos fora e você sabe que quem usava farda como é que era...A minha infância, quando era menino, brincava com carrinho de boi, se fosse menina era boneca de sabugo. Quando na juventude, quando estava namorando, quando queria dar um beijinho, pegar na mão da namorada, tinha que contratar um moleque para dar uma estilingada na lâmpada, para ficar 137 tudo no escuro. Depois eu fui convocado e ai tudo fui destruído. Quando eu voltei, como já te disse, na Terceira Guerra eu entrei. -xBragança era pequena. Naquele tempo você não tinha ônibus, você ia para a cidade descendo pelo meio da rua. Eu já morava aqui nesta casa. No inicio de 41 mudei para esta casa. Não tinha movimento, não tinha nada...Quando tinha que fazer algo mais importante tinha que ir para Campinas...Bragança era maior que Jundiaí. Bragança foi emancipada de Atibaia. Bragança era uma cidade pacata, como todo o Brasil. Quando tava no Exercito, vinha de trem para SP, dormia na estação de Luz e pegava o trem para cá. Não tinha perigo nenhum....Para chegar aqui em Bragança, era estrada de terra, que saia lá de Mairiporã, passava por Atibaia e chegava aqui. -xConheci São Paulo quando tinha nove ou dez anos. Nós fomos conhecer o prédio Martinelli. Tinha vinte e quatro andares. Era o único prédio na cidade. Que alegria! Ia sempre, meu pai ia passear e ele me levava...A gente tinha alguns parentes. Depois no Exército também passei por São Paulo, onde fiquei quatro meses, quando fui fazer o curso de cabo lá em Santana, na rua Alfredo Pujol, onde hoje é o CPOR. -xA Revolução de 1932, como comentei com você, tive que ir embora para a escola do sitio. A pessoa que eu morava aqui na cidade também tinha um caminhão, um Ford 1938. Um dia tava voltando com ele da cidade, a gente tinha ido buscar mercadoria e ai passamos pelo Grupo Escolar, eles nos pararam e tiraram o caminhão dele. Foi requisitado. Tivemos que deixar toda a mercadoria no Grupo. E depois vim com uma pessoa lá no carro de boi, buscar a mercadoria. Essa, eu nunca esqueço E era perigoso, pois Bragança tava na mira do aviãzinho, o vermelhinho do Eduardo Gomes. Na torre da igreja instalaram uma metralhadora, para proteger a cidade. O irmão da pessoa que vendeu o armazém para o meu pai percebeu que eu era interessado e todo dia ele me chamava para ler o jornal com ele, na revolução de 30. Ele fazia questão que eu escutasse ele ler o jornal. Eu conclui a escola aqui, graças a uma prima minha que me deu ajuda. Conclui o quarto ano de noite. Cinco horas da madrugada tinha que estar no Tiro de Guerra. 138 -xQuando voltei do Exercito, com 24 anos, eu achei que era velho para estudar. E ai entrei na terceira guerra. -xEntrei no Tiro de Guerra em 1940. Olha, veja bem. Vou começar por aqui. Quando eu tive no Tiro de Guerra já tinha começado a Guerra lá. Eu vim fazer a matricula aqui no final de 1939. A Alemanha já tinha invadido a Polônia. E meu pai, um homem da roça, um homem simples, me disse que eu ia fazer o Tiro de Guerra e que ia ficar na reserva. Depois, disse que o Brasil poderia participar da guerra e eu teria que ir. Não deu outra! Então ele não queria deixar eu fazer o tiro. Ai a mãe entrou no meio, comecei a chorar, e aí ele deixou. Ai vim para o tiro. Não voltei mais para o sítio. Terminei o Tiro de Guerra, em 1940, e quando foi em agosto de 1942 o Brasil declarou a guerra contra a Alemanha e a Itália. -xMe lembro do dia. Eu estava estudando no Colégio Rio Branco. Era do lado da Sociedade Italiana.Veja bem, fechou o Brasil. Parou. Passeata pelo Brasil inteiro. Parou escola, parou tudo. Foi aquela gritaria: Guerra, guerra.. Saí do prédio e fiquei na calçada do outro lado da rua, vendo tudo...O pessoal invadiu a Sociedade Italiana... Quebraram a porta,quebram vidro, quebraram tudo, queimaram a bandeira. Eu fiquei pensando...é, vocês que estão quebrando tudo aí são reservistas... Como de fato tinha uns três ou quatro que foram convocados mas não foram não...Tinha um deles, que era inteligente, falava muito bem, o Peluzzo, pai daquele que é Presidente do Supremo, nasceu aqui em Bragança...Ele subiu no palanque, que era o coreto da praça e eu la escutando só... -xEle falava: Eu deixo meus filhos e minha mulher e vou para o campo de batalha. Não deu outra, foi convocado. Mas foi..não...ele levou um atestado de que tinha um rim só, que era irmão do padre, parente do bispo...foi dispensado.....Daqueles que entraram lá na Sociedade, por incrível que pareça, os três ou quatro eram filhos de italianos. Aí fechou a minha escola. 139 -xNaquele tempo o Tiro de Guerra era no centro da cidade. Na praça. Até houve um caso lá. Tinha um cabo da reserva lá que foi autorizado pelo Exercito a dar instrução para a gente, ele era auxiliar do sargento. -xEu estava na praça, fazendo exercício. Tinha um rapaz lá, o Geraldo Leme, que era sobrinho do prefeito da cidade, o Gonzaga. Ele já tinha um desentendimento lá com o cabo. -xNeste exercício eu tava no grupo dos Batráquios, que não sabia marchar. E tinha um primo do Leme, o Airton, que gostava de errar de propósito, para azucrinar. -xE o Leme neste dia veio lá, encostou do lado da igreja e ficou olhando o pessoal tomar chamada do Cabo. Quando o cabo deu uma carcada no primo, ele se doeu e gritou: Airton, dá umas porrada neste cara..quem ele pensa que ele é? O cabo mandou, vem dar você: O Leme foi e deu uma porrada no cabo, derrubando o quepe dele...O cabo recuou, encostou o fuzil na parede e veio atrás do Leme...a hora que o Leme veio pegar o cabo de novo, o cabo se abaixou e deu duas punhaladas no Leme....A mãe dele tava na janela! A mãe gritou: O que aconteceu Geraldo...Mãe, chama o Zé que eu estou ferido....Antes de entrar na casa do médico, ele caiu...Eu corri para lá,....Socorreram ele... Mas tava morto...Foi um deus nos acuda. -xAí, veio o Gonzaga, e falou para o sargento: Você procurou saber quem era este rapaz, antes de trazer ele para Bragança....E o sargento disse: E você sabe quem era o seu sobrinho? O rapaz foi condenado à seis anos...Eu me lembro que o advogado do Exército veio e disse para ele....Você foi condenado à seis anos, mas vou pedir novo julgamento e você vai ser absolvido.... Poxa, você fazendo um exercício importante e levar um tapa na cara? A resposta do tapa nesta hora e uma facada ou um tiro, por mais calmo que você seja....Tem uma frase 140 assim, um homem armado pode se tornar desalmado. Sabe quanto tempo ele ficou na cadeia? Uma semana depois ele foi encontrado enforcado na cela. Foi tudo logo em seguida. -xNem esperava ir para a guerra. O próprio governo era favorável ao eixo. Além disso, 40% dos brasileiros eram descendentes de italiano, 10 de japoneses e outros 10 de alemães. -xEu fiquei ali na guerra, do lado do alto comando. Lá escutei muita coisa. Já se comentava dos recados dos americanos, que iriam financiar a CSN e a Vale..Fiquem conosco senão.... -xAí começou aquela historia dos nossos barcos torpedeados...Tudo conversa mole....Eu só pergunto: como eles deixaram aqueles navios saírem com os submarinos alemães andando pela costa... -xEstudei em 1941 inteiro, no Colégio Rio Branco. Passei de ano muito bem. A vida tava boa. Trabalhava e estudava. No dia 19 de outubro de 1942 eu recebi a convocação, e no dia 21 tive que me apresentar na cidade de Caçapava. Quando o Brasil declarou a guerra, no outro dia o jornal publicou que os que tinham entre 19 e 46 anos seriam convocados -xEm 41 teve um desfile de reservistas e eu fui entrevistado por um jornal. Me perguntaram se o Brasil entrasse, qual era o meu ponto de vista: Eu disse que entraria do lado da Itália e da Alemanha...Depois da declaração de guerra, muitos italianos foram presos...Até uma família daqui, que mandou dois, os Bonventti, teve problema....O pai deles foi preso. E ele falava: como pode, eu tenho dois filhos lá se preparando para ir para a guerra! -x141 Muitos italianos comemoravam na surdina, quando os navios foram afundados. -xFoi aquela passeata, a cidade inteira. Até a missa foi suspensa...Foi aí que o pessoal entrou na Sociedade e quebraram tudo....A italianada ficou quietinha, sem se manifestar, com medo.... -xAí, na convocação, quem era casado ou tinha filho, era dispensado. Dois irmãos, um era dispensado...desde que fossem cabos ou soldados...Sargento não -xConheci um cara que era cabo, tava nesta situação, mas tinha curso de sargento....foi dispensado e depois logo foi convocado....... Saiu vivo. Conheci outro nesta mesma situação, o Ademir Pessoto, que foi dispensado e no outro dia convocado como sargento. Infelizmente, este morreu na Itália. -xFui o terceiro bragantino a ser convocado. Eu fui à prefeitura. O Moacir me disse que eu tinha sido convocado junto com ele. Quando voltei para casa, o Zé Ramalho já estava na porta de casa me esperando. Eu fiz o tiro e naquele tempo havia o sorteio. E ficava num quadro da prefeitura. Um dia eu passo lá e vejo o meu nome. Disse, sou reservista, nem dei bola...Depois estes sorteados foram chamados...Ai vieram avisar em casa que eu era desertor...Meu pai disse: Como pode, ontem mesmo recebi a carta dele lá da Itália...Aí o pessoal do cartório viu a burrada que tinha sido feita...Num dia lá, no acampamento eu fui chamado, ainda não tínhamos entrado na batalha...Repetiram a historia do sorteio e aí o Exercito viu que tinha errado. -xEu entrei em casa, falando que tinha sido convocado..Ela falou como, tá em guerra...Minha mãe começou a chorar e eu fiquei numa boa...Ia servir com o maior prazer. Entre a 142 convocação e a apresentação foram três dias. Tinha que ir para Sp e depois ir para Caçapava. Nos reunimos quase em cem e fomos para lá. Mas um monte foi dispensado. Lotamos o vagão aqui. Viajamos por conta do Exercito, com os passes. Chegamos na estação da Luz e fomos para Roosevelt, que na época se chamava estação do Norte. PARTE II - O TREINAMENTO Chegamos em Caçapava já estavam nos esperando na estação. Fomos para o quartel,Já pegamos aquele almoço lá, aquele grude, pelo amor de deus.... Eu cheguei e subi no comando, e quando passei vi aquelas camas bonitas, tudo com rede de proteção contra pernilongos...Epa, é aqui que vou ficar...Ai,quando eu desci eu vi aquele prédio todo sujo, aquele verde oliva lá, falei ali deve ser a baia dos cavalos..olhei lá cama tudo em forma de beliche..falei espera ai...chamei um praça velho e perguntei..o que e isto aí...ai é o dormitório dos praça.... eu falei ..é ai que eu vou dormir...eu estava de terno e gravata...ele perguntou: o senhor e tenente...eu disse não..sou reservista do tiro de guerra...Ele começou a rir alto e disse: é ai que você vai dormir, se é que você vai dormir, porque o que tem de percevejo ai... -xMeu deus do céu. Foi ai a minha pior guerra. Foi ai que conheci o Exército...Pensei, puta que pariu, onde eu fui me enfiar! Eu vim aqui todo alegre e sorridente, e é isto que eu vou enfrentar. Depois ainda tinha o regulamento, uns xinga xinga ...Se você era cabo, tinha um sargento que enchia..se o cabo era sargento, tinha o tenente. Então agüentar não era fácil. E outra, o banho frio! Quando eu cheguei, descobri um hotelzinho que tinha banho quente...Depois que peguei a farda, proibiram a entrada de praças lá, só era permitida para oficial. Puta que pariu...Não tinha sido chamado para defender a democracia? Onde estava a merda da democracia? Aí nos chegamos lá no dia 21 de outubro de 1942. Fomos dispensados e aí voltamos para casa. Ficamos uns oito dias. No dia 03 de novembro de 1942, eu fui incorporado, aí eu recebi a farda..Primeiro recebe alguma instrução de como usar o uniforme e tal. Embora era reservista, o tiro de guerra não ensinava nada... Recebi o numero 2896 e depois mudei para 467. Aí Fiquei encostado lá em um Cia, ai me transferiram para a segunda Cia e depois para Taubaté, no meu meu batalhão. Aí melhorou um pouco, o povo recebeu bem a gente lá. Em Caçapava fiquei três meses. O quartel na época não comportava o efetivo de guerra e aí, veja 143 bem, comportava mil e quinhentos e já tinham uns três mil. O deslocamento foi por dois motivos: medida de segurança e um pouco para esvaziar o quartel. Um batalhão foi para Lins, outro ficou em Caçapava e o meu em Taubaté. -xEm Lins tinha muito japonês. Mas eles queriam só queriam só plantar melancia. Não queriam nada de guerra. -xEm Caçapava teve muita educação física, ordem unida, marchar, aula teórica. Já acordava com a roupa de educação física. Até morreu um bragantino afogado lá no rio Paraíba, o Alfredo Lino de Camargo. Eu estava em Taubaté quando aconteceu. Fizemos o Tiro na mesma época. Um bom rapaz, muito meu amigo. A instrução aqui era tudo bobeira, coisa que nunca foi utilizada na guerra. Nós ficamos vinte meses aqui praticamente sem aprender nada ....A gente ficou fazendo aquele exercício e fazendo desfile para o general..ficamos praticamente na merda....Nos fomos aprender em quatro meses aquilo que foi utilizado lá...Foi no Rio de Janeiro...O meu regimento e todos os outros se reuniram lá na Vila Militar..O primeiro a embarcar foi o meu escalão...E lá na Itália ficamos 58 dias em exercício, não tinha sábado, domingo, nada..Eu na minha função não fiquei um dia parado...Em 352 eu não tive descanso...O máximo que aconteceu foi de dirigir para os oficiais quando eles passeavam, e aí conheci a Itália inteirinha. -xDe quarta feira eu não comia no quartel, porque era jabá, aquela carne seca terrível, horrível, era uma tristeza... Traziam o boi ali para limpar do lado da cozinha..Era mosca e um fedor desgraçado...tinha que comer ali....Um dia eu estava de serviço e cai um percevejo no meu prato..Empurrei o bichinho para o lado e aí voltei a comer. -x- 144 Lá na Casa das Laranjas, em Taubaté, a coisa melhorou um pouco, mais ou menos. Um dia a gente fez uma revolta la no rancho. Fizemos um quebra pau, batendo prato e ninguém queria comer. Foi o comandante lá e ele não resolveu, mandando ele a merda. Só teve um tenente que conseguiu acalmar, um cara legal, filho de japonês, Massaki Udihara...Ele conseguiu convencer os praças para sentar, acalmar e comer. Nem o Major comandante conseguiu acalmar os homens. -xEste tenente era gente boa demais. Quando estávamos na Vila Militar, um dia ele me chamou e me mandou na estação de trem e me pediu para comprar uma passagem de leito para ele, que ele queria ir para SP. Aí ele perguntou se eu queria ir também...Então com o dinheiro, vai sobrar um pouco e aí você compra uma de segunda classe para você. Orra, como eu nunca não pagava, embolsei o dinheiro. Voltei, entreguei a passagem e ele e disse...cadê a sua?...Ele mandou eu voltar e comprar a minha, senão eu não ia....Ué, obedeci o homem....Foi a única passagem RJ-SP que paguei na vida! -xUm dia o meu amigo Ricieri veio para Bragança e pedi para ele passar um telegrama dizendo que a minha mãe estava passando mal. Ele passou. Como era sábado, não tinha expediente, só tinha o oficial de dia. Almoçava e ia embora. E então quem tava comandando a Cia era o Ubirajara, um R2, que até o filho foi professor aqui na faculdade de medicina. Falei: o comandante não ta ai...Fui na casa dele, que era pertinho do quartel, fui lá..Saiu a esposa dele: falei Minha senhora, quero falar com o tenente Ubirajara..Ele tá descansando..Olha minha senhora, eu to com um telegrama aqui falando que minha mãe ta muito mal, eu preciso ir para casa...eu vou falar com ele preciso ver se ele ta acordado...E lá veio ele, de pijama....Ele gostava muito de mim..O que e Moura...Tenente aqui ta o telegrama, a minha mãe ta passando mal... Deixa eu ver...Eu não posso dispensar ninguém, e ordem do comando, mas tratando de doença na família, eu abro a exceção, mas você vai hoje e volta quarta feira sem falta...Muito obrigado,,,Naquele dia mesmo cheguei aqui, contei para minha mãe e ela disse que eu poderia fazer o que quiser para ver ela, não tem que pedir perdão...Mas falei la que ela estava muito ruim...Voltei depois de uma semana..Quando cheguei la, dormi no banco do jardim, entrei só depois da dez da manha, fui la tomei café ...ele olhou por debaixo do óculos, como era do 145 jeito dele, o outro tenente estava lá.....Só hoje que você veio, Moura? Mas o senhor não falou para vir na quarta? Ainda voltei um dia antes...Ele disse: Inacio o que a gente faz com ele...Veja o comportamento deste praça e aplique o regulamento exemplarmente....Tá bom...mandou chamar o sargento e me escalar para a equipe de serviço naquele dia...E disse, e agora, eu to cansado, não to me sentindo bem, Neste intervalo, fui ao medico, o Piazzon, o “Santo Tenente”,um cara legal para caramba, de Campinas, expliquei para ele a situação e ele me deu cinco dias de dispensa....O sargento pulava que nem louco...Como o medico era a autoridade inquestionável ....E agora, quando passar estes dias, na segunda eu vou dançar, o boletim cantou....Luiz Caetano de Moura será indicado para o curso de cabo em SP... -xAi vim para SP, ficar quatro meses no curso. Quando voltei para Taubaté, fui classificado como motorista. -xAqui em SP tem outra historia. O Tenente Udihara me dispensou, verbalmente, não podia dar nada por escrito...E depois tem a historia do caminhoneiro Quando eu fiz o curso de cabo, um grupo de combate tinha duas esquadras, comandada por dois cabos. Depois mudou, Depois fui promovido a cabo porque tinha curso de motorista. -xO curso foi de cabo fuzileiro. Eu tive noção. Depois que fiz o curso de motorista, tive que fazer um curso meio rápido da metralhadora .50. Eu, como motorista, não era para ficar na função que eu fiquei lá. Era para ficar na Companhia de petrecho, com meu jipe, junto com um municiador e um atirador, tudo sob o meu comando. Mas não usei a .50, só em exercício, pois quando chegamos lá a aviação alemã estava destruída -x- 146 Assim fui transferido para a Cia de Comando, respondendo pelo transporte da alimentação e da munição. Eu não tinha folga nenhuma...Ficava a disposição do comandante direto. -xAcabei o curso, voltei para Taubaté. Demorou uns dias e aí fomos para o Rio. E aí não fui mais perseguido por aquele sargento que ficou bravo com a tocha, pois já estava classificado como motorista, fazendo o curso só lá no Rio. Lá na Itália eu treinei o pessoal nesta função. Só no Rio a gente saiu do cavalo para as viaturas.... -xOlha, havia muito comentário no Rio que a gente ia fazer um exercício em Fernando de Noronha, Natal. Mas os comandantes, na boca pequena, sabiam que não era aquilo. Pelo menos eu sabia que ia embarcar, não tinha dúvida. Só não sabia para onde a gente ia. -xLá no Rio, o tratamento continuo o mesmo. Só melhorou no navio. Quando a gente viu como era o café dos americanos, gente não acreditava...Cada um chegou com a sua canequinha e aí veio aquele monte de comida. -xLá no Rio o pessoal recebeu treinamento especifico, acompanhado por instrutores americanos. Tinha uns sargentos que faziam o papel de tradutores para os oficiais americanos. Até uma vez recebi, na Itália, umas ordens de um sargento português – americano para levar alguns deles no hospital. Eu tive a oportunidade de conhecer a Alta Itália inteirinha, por causa da minha função. Mas teve gente lá, coitada, que não saiu do buraco. E eu falando com italianos, eles falavam que conhecia a Itália melhor do que eles. -x- 147 Perto do embarque, a gente não sabia para onde ia. Só o alto comando sabia que ia para a Itália.Na viagem, passamos por Gibaltrar e aí nos pensamos que chegaríamos na África. Tinha medo, o calor la era terrível. Foi o contrario. La era 45 graus positivos e na Itália foi 20 negativo. Mas ai o navio passou e deduzimos que o nosso ponto era a Itália. Mas que lugar, todo mundo desarmado, tinha que ser um porto livre....Ai a gente chegou em Nápoles, que tava em poder...Quando a gente aproximou de Nápoles, nos já percebemos o que era uma guerra.....A cidade totalmente destruída, o porto era um monte de terra, os barcos tudo torpedeados, avião caído, tudo ali, então a gente passou a ter a idéia do que ia enfrentar. -xNo dia do embarque já tava certo que nos faríamos um exercício. O meu comandante disse que aquilo era conversa, que a gente ia para a guerra. Ai ele disse que aquele que queria sair poderia sair de forma...Na minha ninguém saiu. Disse que em outra saiu um sargento e este foi preso. -x- Aí nós entramos no trem, o trem encostou no porto, e mantiveram a história do exercício...Mas aí, veja bem, só o comandante sabia que era para a Itália. Nesta altura da viagem, felizmente já tinha sido feita a invasão da Europa. Se a Normandia estivesse no poder dos alemães, não seria fácil a gente atravessar Gibraltar Senti muito medo...passamos muito mal...nos primeiros dias ninguém comia..comia e vomitava..passei três dias comendo maca....depois foi melhorando....eu olhava para a cara do general e ele vomitando também.....foram terríveis...depois a gente se acostumou, o mar ficou mais calmo e aí foi..... -xNos treinamentos, o canhão atirava de uma hora para outra, e a gente pensava que era ataque, era aquele corre – corre...Era para testar o controle do brasileiro....O barco atirava todo dia...Atiravam nuns alvos puxados por aviões ...Na volta foi engraçado, os brasileiros enchiam 148 umas camisinhas e soltavam, e os americanos atiravam naquilo...Não podia ficar no convés depois das seis, escurecia..pá...tinha que apagar tudo...nem cigarro podia acender....Até quem ficava de serviço tinha que ficar lá, escondido. Nos não fizemos exercício nenhum lá, nada, nada, nada... -xOlha, duas coisas: Quando nos embarcamos, o padre montou o altar voltado para o Corcovado, e ele usou algumas palavras; Nos vamos para uma guerra sem estarmos preparados, mas lá esta a imagem do redentor no alto do Corcovado, dizendo vão meus filhos, que vocês terão um bom resultado. Na volta, foi a mesma coisa...Tanto na ida como na volta foi uma choradeira, cantando cidade maravilhosa...Foi uma coisa..Desfile não houve....eu até costumo dizer....eu fui pessimamente recebido no Rio, quem recebeu a gente foi a sociedade, autoridade não tinha... O capitão Aldenor quis matar o Zenobio...Não vi esta parte que ele quis matar o cara...Mas vi a hora que o Capitão disse se ele preferia duzentos heróis mortos ou duzentos covardes prontos para o contra –ataque. Todos os oficiais aplaudiram ele! -xQuando desembarcamos em Nápoles, fomos desfilando ate uma determinada estação de trem e fomos vaiados pelos italianos...eles pensavam que nos éramos prisioneiros alemães, porque a farda era igual..mas depois viram que era o Brasil, foi o contrario e e aí aplaudiram... Pegamos um trem, depois mais um caminhão e ai fomos para Bagnoli, lá no vulcão, onde era o lugar que o rei da Itália fazia as suas caças...... -xLá ficamos uns vinte dias. Só tinha umas barracas...A gente dormia no chão, forrado com capim...Ai nem todos tinham capim, eu que consegui com um italiano lá....Dormi bem...Quando cheguei na minha casa aqui, tive dificuldade para voltar a dormir na cama, tinha me acostumado com o capim. 149 -xMeu jipe eu recebi apenas em Tarquínia. Em Nápoles, o pessoal recebeu o treinamento logo no dia seguinte. Fui logo escalado para ser o cabo da faxina. A única coisa que houve foi quando os caras receberam um dinheiro, e ai arrumaram confusão na cidade. O ambiente no acampamento era tranqüilo. Mas houve um caso onde um cabo matou outro. O do rancho e o motorista, Rumo Testa e Sansão. O chefe do motorista falou para ele adiantar o almoço, para furar a fila...O Testa achou ruim, mandou ele entrar na fila, e aí ele não entrou, foi pegar a comida..O Testa tacou a concha na cabeça dele....O Sansão recuou e pegou na pistola....O Testa sacou e atirou nele e feriu outro...Pegou seis anos de cadeia, mas foi liberado antes da guerra,saiu antes de mim do Exército... Depois viram que o Sansão não tinha bala na arma..... -x- Me lembro do quebra pau no dia do jogo do Brasil e Uruguai. Essa eu vou falar para você....Fui apenas duas vezes no campo de Futebol, uma no Pacaembu, no desfile de volta para SP e outra neste dia, no campo do Vasco. Sabe porque foi? Aconteceu de que foi criada a Policia Militar. Pegaram os caras da Guarda Civil e colocaram o uniforme verde neles. Lá, na hora do jogo, um sargento saiu para ir não sei aonde, no banheiro, qualquer coisa, e ai vai um PM, a gente já não topava eles, e pegou o sargento...Ah meu deus do céu, eta....que pancadaria, parou tudo...e ai veio um cara gritando, eu sou major...um soldado disse que nunca tinha batido em major e hoje eu vou bater.......sentou a mão no major...Ai começou o hino, quando acabou o pau voltou a quebrar....Parou o jogo..Eu fiquei só olhado.. Mas foi feia a coisa, rapaz.....Tem muita coisa que não foi contada em livro aí... -xEu era um leigo, um simples cabo, não era possível que aquele barco fosse torpedeado...Quem era o comandante de navio que ia deixar um barco daquele sair. Não torpedearam nada...Tinha duzentos mil soldados do Rio até Natal, fazendo o quê? -x- 150 Depois nos fomos para Tarquínia. Lá apareceu uma menina do acampamento dizendo que tinha perdido toda a família no bombardeio...Todo mundo socorreu a menina, levamos ela para uma casa lá e aí a gente sempre que podia levava um mantimento para ela lá. Depois um amigo meu me mandou uma reportagem, dizendo que ela estava viva até uns quatro anos atrás. Já em Nápoles eu tive um contato com a população local, principalmente com as italianas..... -xUm dia nos fomos em Roma com o capelão, e a mulherada ia direto no capitão capelão. O cabo ficava do lado... Ai ela perguntava o que era a cruzinha na gola do capitão...Eu falei para ele..falo ou não fala...O padre mandou eu ficar quieto e sair fora e aí eu obedeci..... Ele ficou lá com ela... Em Tarquinia teve a visita do Mark Clark, o general americano. Até fiz uma demonstração para ele, desmontar o fuzil com os olhos vendados. Era gozado...Quando ia ter uma visita de americano, reuniam a tropa e não colocavam um preto..Mas para a linha de frente, não tinha desta, mandava tudo mundo....Depois nos fomos para Vada. La em Tarquínia a gente recebeu o armamento,uniforme, o jipe..... -xFoi em Silla que o meu jipe foi destruído, na campanha do Rio Reno, a primeira campanha. Ai eu peguei outro jipe e levei la na Cia de Serviço, para por o nome de Taubaté e o emblema do Brasil. Fui entrando lá, e tal...O capitão fez eu voltar e me apresentar, dizer quem eu era e o que eu queria...Ele tava certo, era o regulamento...Mas eu pensei....Porque uma bomba não cai na cabeça deste filha da puta..No outro dia cai a bomba lá, o tal capitão perdeu a perna e eu perdi o meu amigo Basilio.....Eu fiquei desesperado...Ai o padre falou assim, se você tivesse tanta força, o papa te contratava para acabar com o demônio..A única bomba que caiu na cidade foi esta aí, bem na porta de onde o Basílio trabalhava...Nunca caia nada,ali tava a 25 quilômetros de distancia do front... -x- 151 Um brasileiro morreu na minha frente, o nome dele era Romeu Coco, ele era motorista ele e uma velha que estavam em uma casa.....Eu parei naquele local porque tava caindo bomba na ponte onde eu ia passar.... O cara que estava de serviço falou.... não vai que eles estão atacando a ponte...Eu assisti tudo isto. Depois passei a ponte e fui embora, fazer o meu serviço, eu tava lá para isto. -xQuando entrei em Barga, entrei tranqüilo...depois eu só pude sair de lá de noite...Caia bomba para tudo quanto é canto.A cidade ficava entre as montanhas... De Camaiore a gente foi para Monte Prano, que foi conquistada por um Oficial que veio da praça, de nome Mário. Em Camaiore já foi mais difícil a conquista. -xEu era motorista da primeira e segunda linha, naquelas estradinhas das montanhas. Tinha que fazer tudo de noite, não podia ser de dia. Aproveitava e levava munição, janta, almoço e café da manha tudo de uma vez....Numa destas ai o dia clareou e eu não pude voltar para a Cia..fiquei no buraco com eles lá.....Ai que eu vi o que era trincheira, ali se comia, era o banheiro, era tudo, fazia que nem gato, fazia o buraco, o coco ali e vai...Eu usava uma pistola, uma Beretta italiana e um fuzil. -xO maio sufoco vou contar agora. Eu fui levar munição de madrugada e quando eu ia voltando eu peguei a estrada errada..Aí eu fiquei meio desconfiado, parei, eu tinha bussola e lanterna, peguei e me afastei do carro, uns dez metros e aí vi que eu tava indo para o norte...Pera ai, pro norte eu to voltando, tenho que ir pro Sul...Era aquela estradinha de trilha, e agora o que eu faço, o reboque não podia dar re, não podia acender a luz, não enxergava nada..Dai a pouco vejo um pessoal agachadinho, vindo assim...e eu fui fugindo..pensei...vou voltar e ir preso...Aí eu escutei....Palermo, puxa o fio lá.....Puta que pariu, era um colega de Campinas...Rapaz, que apuro que eu passei...Aí eles me ajudaram, tiraram o reboque, empurraram, me orientaram e aí consegui pegar a minha estradinha 152 -xOutras coisas eu presenciei também. O sepultamento dos 27 foi uma coisa que nunca esqueci. No dia 12 de dezembro, teve a tentativa do Monte Castelo, estava doze graus negativos...eu indiretamente tomei parte...um tenente requisitou o meu carro para transportar os feridos mais suaves, porque uma viatura da cruz vermelha não pode levar ninguém armado, mas uma particular, no caso de emergência, é obrigada....não tinha mais ambulância Neste dia foi uma carnificina, mas de 80 mortos, cem feridos e 27 desaparecidos....Todo mundo pensava que eles estavam presos. Depois que conquistaram Monte Castelo, setenta e dois dias depois, acharam o corpo dos rapazes..Eu fico pensando, aquele que morreu, morreu, e aquele ferido, que poderia ter sido socorrido, morreu congelado.. -xE aí no dia, eu sempre passando no cemitério de Pistoia, no dia 03 de fevereiro de 1945, eu entrava sempre no cemitério quando ia lá a serviço, eu vi o sepultamento dos 27, o padre recomendando o corpo e o corneteiro para dar o toque do silencio. Aquilo ali eu nunca mais esqueço..Ai eu pergunto, deve ter um lugar especial para aqueles 27 lá no outro lado....Nossa Senhora... -xEu estava no comando, ao lado do Major Gross. O capitão era o Aldenor da Silva Maia. Ela era da reserva, foi convocado e cumpriu com o seu dever. Ele conquistou aquele posto lá...o lugar era um ponto importante de observação tanto para o alemão quanto para nós...Ele ficou lá segurando até acabar a munição....Quando chegaram lá, o general Zenóbio os chamou de covardes, que eles eram isto, aquilo....Depois eu li que o capitão queria matar o general..Isto eu não vi não....... O resto acompanhei tudo, tudo ali, ..... Três dias depois eles contra atacaram... -x- 153 Em novembro, nos fomos para Porreta Terme. Fomos recebidos pela artilharia. Oh, Foi la que morreu o Zechin...Ele estava lá encima....devia colocar ele em outro lugar Onde estava o QG era um lugar especial, que era o antigo hotel de termas, onde ficou...O general Mascarenhas, era o da primeira linha e tinha o da segunda, que ficava em Pistoia, eu vinha ali e ele fazia questão de conversar comigo, ele queria saber como estava . Marano tinha a ponte perigosíssima, onde eu caí...eles construíram a ponte para jjipe e caminhão, então quando eu cai fiquei enroscado entre um trilho e outro..Ainda ficou uma marquinha aqui na minha perna. Nós ficamos no vale do Reno, ali praticamente nos ficamos na defensiva, mas a patrulha era acionada, sem duvida nenhuma, houve ferido em patrulha, caiu bomba também....veja, quando perdi o jipe na ponte de Silla, estava em plena neve, ai tinha uma rede para proteger, feita de fumaça, mesmo assim eles jogavam bomba lá. -xContinuei o meu trabalho, fornecendo munição e alimento para o pessoal que estava la encima na trincheira....Até teve um caso aí, de um tenente americano, que falava que nem português, que falou, você que são responsáveis pelo alimento, sem munição, podem ficar sem munição mas nunca sem comida, porque soldado sem comida não pode lutar...E isto nunca esqueci...Eu nunca deixei sem a comida, deixei sem munição, pois teve caso onde não pude deixar a munição e ai o pelotão veio e pegou onde eu estava....A alimentação eu levava ate determinado ponto, pois não podia ir ate a boca do inimigo.....Ai tinha o italiano partigiani montava o material no burro e no cavalo e levava a munição ate la....eles ajudaram muito -xQuando caia uma bomba, felizmente ela não caia onde você estava...Pelo zumbido dela, você sabia onde ela ia cair....saia fora e ficava uns 40 metros longe do jipe... Nossa senhora, você nem queira saber Isto aí eu fiz varias vezes. Teve uma que o estilhaço pegou do lado....Se tivesse alguém do meu lado, pegava no peito........Vou dizer para você.... -xNo Soprassasso, eu tomei parte. Eu fiquei no pelotão de petrecho, uma mini artilharia, camuflei o meu jipe e fiquei ali com o comandante do pelotão, com minha metralhadora ali, 154 caso precisasse, e ali fiquei observando o pessoal subindo, não houve contra ataque, e daí a pouco vi a explosão.... e vi o rapaz subindo um pouco do chão...Opa, pegou alguém...Ai escutei a explosão, ai fui ver era um amigo meu, o Romeu Casagrande, morreu na hora... e feriu também o Ivair Duarte....foi no dia 6 de março de 1945, às 16 horas....Você sabe que na guerra tem que trabalhar que nem o bombeiro. Você isola a área e depois apaga o incêndio. Na guerra e assim também, você vai atacar a montanha, a artilharia tem que limpar a área em volta, então foi o que aconteceu, a artilharia atirando e a tropa subindo....até tinha um nome lá que eles tinham que tomar, um ponto estratégico, um observatório, da linha Porreta e Bolonha....Era uma trincheira e um monte de capim....resolveram jogar uma bomba incendiaria, uma nada, duas nada, na terceira caiu bem encima e aí incendiou e os alemães saíram.....Falaram até que que foi metralhadora que matou o Casagrande, mas não foi nada, foi uma mina que matou o Romeu Casagrande e o estilhaço feriu levemente o Ivair Duarte. -xNa invasão de Montese, na minha área eu participei...fui levar munição lá e felizmente a cidade já estava libertada...morreram oitenta brasileiros, inclusive aquele sargento Wolff, e depois de Montese, até o final da campanha, eu tenho ate na minha folha de alteração, eu fiquei doze dias e doze noites ininterruptas trabalhando, dormindo no volante do jipe...de Montese entramos no Vale do Pó ,e aí foi mais fácil andar atrás dos alemães, até o dia em que eles se renderam em Fornovo.....Foi um padre de uma cidadezinha que fez o acerto para que os alemães se entregassem.... Ele foi tres vezes falar com o inimigo...Veio uma contraordem os alemães para que eles não atirassem mais na gente...........Os alemães foram avisados que eles estavam encurralados no Vale do Pó, não podiam subir a montanha, para pararem de lutar de vez, senão a coisa ia ficar feia para o lado deles...Aí eles se entregaram....A hora que entrei com o meu comandante em Fornovo, eu tive uma decepção que nunca esqueço...Ai eu vi o que era a guerra..... a quantidade de mortos e feridos...Eu contei mais de sessenta túmulos improvisados ao longo do caminho, na beira do rio... E os médicos e enfermeiros atendendo americano, alemão e brasileiro...o morto depois levava embora...a quantidade de feridos era imensa....Ai eu disse...Estes mortos e feridos fomos nos que fizemos....E indiretamente eu participei disto, pois eu que levei a munição que os matou... Ai falei com o capitão, e ele concordou comigo, que os alemães mortos eram iguais a gente.... Como a gente, a família deles estava os esperando voltar para suas casas...Eles não fizeram a guerra, eles não queriam a guerra...aquilo lá me marcou... Aí entrei no QG, tinha um soldado alemão lá e eu troquei uns 155 maços de cigarro por três pistolas alemãs, sendo que duas me roubaram no navio quando voltei para casa...filhos da puta. -xQuando a guerra acabou, estava numa cidade que se chamava Casteggio, os italianos saíram para a rua chamando a gente para fazer uma festa porque aquela guerra maldita estava encerrada...Ah, veio mulher de tudo que é lado...eu fiquei uns dias naquela cidade e depois a gente fez um baile em Voghera, pegamos um caminhão alemão e o vendemos para fazer a tal festa....Para o italiano entrar ele tinha que levar seis mulheres...era o ingresso. -xE tinha um casal lá que foi engraçado...estavam dançando e a mulher perguntou se ela podia dançar comigo....O cara falou que não tinha problema, pois eu era amigo....O cara tava tão assim, a gente dando as coisas para eles, que no final ele disse que ela poderia fazer o que quisesse......Miséria da guerra faz isto aí. -xPor outro lado, também tem a historia da Ida..., triste.....Em Riola tinha um hotel que a gente estava aquartelado e comecei a amizade com esta menina...Naquele frio que não acabava nunca, os italianos estavam quase congelando, eles não tinham roupa..... E um dia estava passando por uma trincheira alemã abandonada e vi um pacotão lá dentro...como não podia tocar, arrumei uma vara e cutuquei...não explodiu não explode mais....Abri e tinha seis mantas novinhas la...peguei duas e dei para a Ida....ela fez um tailler bonitos para caramba...Quando acabou a guerra, passei na cidade e encontrei o pai dela.. Perguntei onde ela estava e o homem começou a chorar....Gighetto, a Ida está morta..Ela foi visitar uns parentes em Belvedere e a bomba caiu perto dela quando estava voltando para casa.. Isto aí ficou na minha mente, são coisas que aconteceram. -x- 156 Em Voghera a gente ficou poucos dias.... La estava forte o boato que a gente ia ser mandado para o Japão, só na navio que a gente ficou calmo que aquilo era boato mesmo. De lá a gente foi para Napoli...levamos dois dias...ai podia acender luz na estrada, tudo normal....eu fiz o caminho direto Ate aconteceu um caso, que eu e o sargento estávamos passando por um lugar que a gente não conhecia...tinha um baile la, a sanfona comendo solta..a gente parou para dar uma olhada e os caras vieram para cima da gente....quase nos estrepamos...demos uns tiros para o alto e saímos correndo....estavam com a cara cheia e não sabiam quem a gente era e por isto deu a confusão -xNo pós guerra, tem varias pessoas que morreram em acidentes antes de voltar para o Brasil. Tem o do rapaz de Mogi Guaçu, que caiu do caminhão e o de Mogi da Cruzes que caiu do trem..... Pelo que sei, o ultimo brasileiro que morreu em combate foi um rapaz de Amparo, que caiu lá em Montese. -xA viagem de volta foi uma festa...No Rio de Janeiro, a gente foi recebido pela população...nada de autoridade...Nem o presidente do Flamengo estava lá...Tanto que quando o Mascarenhas chegou ele teve que tomar um táxi para ir para a casa dele...Todo mundo aqui do Brasil, os generais que ficaram, era contra.....Nem o Getúlio gostava do gaúcho. -xPraticamente não houve desfile no Rio....O povo invadiu a rua. Cheguei no Rio e fiquei uns vinte dias, três dias para receber algum dinheiro...Ficamos na vila militar...Uns amigos surtaram e deram umas rajadas de metralhadora lá..aí acertaram as nossas contas.....Demorou para eu receber o meu certificado de reservista...Eu fui escolhido para desfilar no Pacaembu...De lá, nos fomos para a Caçapava, onde recebi o certificado...Quando voltei para Bragança, fui licenciado e o resto do dinheiro...Foi quando tomei um baita de um susto...O tenente, quando me deu a papelada e o cheque, me chamou para o canto e disse....Você 157 lembra, Moura, daquele dia que você quis matar o Tenente na Itália...pois agora vou te recolher, você vai responder o processo militar e vamos ver o que acontece....Ai veio um sargento amigo meu, logo em seguida, e disse que era tudo mentira...Meu deus do céu......No final fomos comer leitão assado lá em casa. PARTE IV- A VIDA DEPOIS DA GUERRA Cheguei de madrugada...fui prestar o meu serviço, levar munição. E este cara estava por lá também..... Entrei na casa onde a gente estava acomodado e fui para o meu canto dormir...Tirei o capacete, que servia para tudo, e fui pegar agua para lavar a cara e escovar o dente... e o poço era do lado da onde o Tenente dormia.....O Tenente acordou e falou para mim...O Moura, amanha você vai lá no rio pegar agua, para não atrapalhar o sono dos outros...Falei, tá bom tenente, voltei lá e fiz um baita de um barulho, joguei merda no poço...Levantou todo mundo...Falei que ia buscar agua no rio, na madrugada mesmo. Fui dormir para outro lado....Ai veio o subtenente que dormia do meu lado...Falei que ia matar aquele cara...No dia seguinte, o tenente mandou me chamar... Pensei, dancei....Ele mandou preparar o Taubaté que a gente ia dar uma Tocha...Ele saiu com um terço na mão, rezando...Ai ele puxou papo comigo e no final ficou elas por elas...Quando recebi a minha folha de alterações, fiquei ate surpreso, tinha cinco elogios...Eu brigava com ele direto, mas sempre no final ele ficava na dele. Se ele tinha arma, eu tinha três.. Era lá e cá! Graças a deus nunca mais vi aquele homem na minha vida. -xA volta para Bragança também foi cheia de festa, como eu disse...Quando eu cheguei no RJ o pessoal já sabia que eu estava bem... Tem a historia do manto....O manto tem mais de cem anos...A minha mãe o ganhou do primeiro marido dela....E ela batizou todos os filhos enrolados neste manto...Nas cartas a minha mãe dizia que estava rezando sempre por mim....E quando voltei, no dia dez de agosto de 45, dez da noite, o manto estava dobrado em cima da mesa...Ela disse: este manto que foi usado em seu batizado é o mesmo que serve para enxugar as lagrimas de alegria de sua volta! Foi uma baita de uma choradeira. -x- 158 Fiquei descansando uns três meses. Não fiquei com grilo da guerra não...Dormia normal....Acho que não fiquei traumatizado porque talvez eu tenha me preparado para isto sem saber....... O Exército não preparou ninguém...Mas depende da personalidade de cada um......Naquela foto que estou com o Getúlio, ele me perguntou justamente isto, se eu estava preparado para a guerra....Respondi que fisicamente estava...esperei ele perguntar do lado emocional...mas ele não perguntou...ficou entalada a resposta, pois eu ia chutar o Exército......O pessoal do Exército mais parecia treinador de futebol do que outra coisa,...só falavam que a gente ia para a guerra e enfrentar um inimigo perigoso...na verdade, a gente foi sem saber de nada dos alemães... -xBom, fiquei três meses só gastando dinheiro... Acabei comprando um caminhãozinho usado, fiquei rodando com ele por um tempo. Depois, naquele tempo tudo era importado, era difícil, tava tudo controlado...Ai eu peguei, fiz um pedido de um caminha novo da Ford...era difícil, tal, precisava dar dinheiro por fora....Fui atrás do negocio, e tive que ir no Rio de Janeiro, na Carteira de Exportação.....Fui lá, e ai me atendeu um cara, o cara me levou para um canto...na hora pensei....Este cara vai querer me tomar um dinheiro...E pediu mesmo....Disse que tinha grana so para comprar o caminhão...E o que fiz....Fui falar com o Mascarenhas de Morais.... Fui lá pro Quartel General, ele estava num cargo lá, continuou no Exercito, ele lembrou de mim, disse se eu queria voltar pro EB....Contei a historia do caminhão para ele e ele disse que não me podia dar nada por escrito, porque o pessoal estava pegando a carta e vendendo...Alias, vendendo por um preço maior do que o próprio caminhão...Disse que eu tava precisando, que meu pai dependia de mim. ( dependia coisa nenhuma) ..Ai ele me disse para procurar um cara...o Carlos Roberto Viana, no Banco do Brasil......Ele disse para voltar em 30 dias...mas em quinze estava pronta e ai comecei a trabalhar....Puxava tudo quanto era carga, principalmente no sul do país, mais pro lado do Paraná...Fiquei nesta vida aí por uns dois anos...Voltei para Bragança e montei uma fabrica de farinha de milho, que era na base da roda d’agua...Fazia quinhentos quilos por dia..vendia tudo...deixei o negocio na mao do meu irmão...lá foi por uns sete anos...Com o dinheiro da fabriqueta, comprei o posto de gasolina, o segundo de Bragança...Poxa, me ofereceram uma nota boa e ai vendi....logo em seguida começaram a fabricar carro no Brasil....O cara se encheu de ganhar dinheiro....vendi na hora errada.... 159 Para não ficar parado, comprei um ponto e fui ser taxista...fiquei nesta ai mais uns dois anos...Não deu muito certo não e a ai um tio meu me ofereceu emprego numa firma de de tecido em São Paulo, que era venda de roupa, mesa e banho para hospital e hotel.....No primeiro ano não deu muito certo não, só tirei três pedidos...Ai fiquei sabendo que ele tava preparando outro para me mandar embora....Ai fui falar com ele se eu podia tentar fazer a minha freguesia no interior...Se não vendesse nada, tudo bem, ele poderia me mandar embora....Na minha primeira viagem, fui para Aparecida, onde aconteceu o milagre...Vendi lá, vendi na região das aguas....Cheguei na firma, joguei os pedidos e ai fui confirmado no emprego.....Depois de três anos, pedi aumento, ele não deu, mas ai me ofereceu a comissão bem maior, onde botei para quebrar.... Pagou muito mais se tivesse me dado aumento.....Trabalhei com eles por dezessete anos... -xComo um dos meus filhos se formou e Administração, e gostava de comercio, a gente montou uma empresa no mesmo ramo, em São Paulo...comprmaos um prédio aqui em Bragança e montamos uma filial.....Tive, entre hotéis e hospitais, mais de quatrocentos clientes...Viajei o Estado de SP inteirinho...Viajei durante trinta anos, fazendo SP, Sul de Minas e Triangulo Mineiro...Fiquei viajando até o setenta e dois anos, e parei de trabalhar com setenta e seis anos...Ai veio o Plano Color e me quebrou no meio....E foi assim, felizmente tenho umas tres aposentadorias que me quebram o galho aí. -xFiz muita coisa mesmo depois que acabou a guerra -xAgora vou falar de como eu me casei....Tinha praticamente me despedido da minha mãe, naquela cena que eu te falei, ....nesta casa.. E saí para falar com a minha namorada, que morava ali embaixo...Chamei ela e disse que não dava para continuar, naquela papo “Quem quer namorar um soldado que vai para a guerra”....Eu pensei que ela ia fazer aquele drama, que ia rezar para mim,mas que nada...ela falou...Tudo bem.....Durante a guerra, ela não saia 160 aqui de casa....E um dia ela escreveu para mim....No dia que eu voltei, ela estava aqui, mas não dei mole não e ai eu mandei ela passear -x- A minha esposa eu conheci no carnaval de 44, eu vim do RJ para cá, foi aquela viajem onde fiz a tramoia que fiz com o tenente Massaki, que me quebrou o galho.... Tinha um baile na Sociedade de Comercio, ali na Praça e ai tinha uma moça la, vestida de verde, batendo pandeiro, me chamou a atenção, vi que ela estava ali, dançando sozinha, sem ninguém por peto...levei aquele rosto na imaginação -x- Ai, quando eu voltei, um dia um amigo aparece lá com esta moça, falando que era namorada dele...Ta bom, aquela já foi...um dia ela brigou com o cara, ai olha daqui olha dai a gente começou a namorar, isto em 45, e ai a gente se casou..Tivemos quatro filhos... O Luis Eduardo, a Silvia Maria, o Jose Domingos e o Antonio Fernando........Eu tenho doze netos e vou para o nono bisneto....Tenho o neto que e Juiz em MS...foi nomeado com 28 anos...de 1800 candidatos foi o 12 segundo... E o filho da Silvia........... Foram 62 anos de casado....... Era isto aí, acho que relatei tudo! 161 Entrevista ANTONIO CRUCHACK Santo André/ São Paulo - Dia 01 11 2012 PARTE I - A VIDA ANTES DA GUERRA Meu pai chamava –se Máximo Cruchak e minha mãe Maria Cruchack. No começo dos anos 30, a gente estava em uma crise grande que piorou por causa da Revolução de 32. Ora não tinha dinheiro e não tinha o que comprar e ora não tinha dinheiro e tinha o que comprar. Naquela época eu cuidava de tudo que tinha que fazer em casa, porque o papai e a mamãe tinham que trabalhar para poderem dar o sustento para a gente. Éramos em quatro irmãos, eu e mais um e duas irmãs. -xMeu pai veio da Polônia e para sair de lá ele foi obrigado a diminuir a idade dele em cinco anos para vir embora. Como ele tinha dinheiro, tinha fazenda em Warsaw, ele comprou o passaporte e veio em uma leva de imigrantes poloneses para o Brasil. Eles subiram a serra e ficaram alojados ali onde é a represa Billings. Minha mãe é da família Morkosky. Eu sou o segundo filho. Como eles eram do campo, fazendeiros, então meu avo, por lado da mãe, comprou na rua São Luís, aqui em Santo André, meio quarteirão, e ai deu uma parte para o pai cultivar cebola, alho, tomate, laranja, banana, que ele sempre plantava...tinha também umas galinhas, vacas, porcos.....Na realidade, nos fomos criados com isto ai, foi a vida que nós levamos....Eu tinha um probleminha de visão, que nunca tiveram atenção nisto....Eu estudava no grupo Santo André, e por causa disto eu sempre repetia. Como meu pai era muito enérgico, ele tinha aquele regime duro de europeu, ele não dava muito espaço para a gente...Meio dia eu ficava na Escola Júlio de Mesquita, estudando marcenaria ( onde tinha tudo, eletricista, etc) e no outro período a gente ia trabalhar numa marcenaria que ficava onde foi construído o primeiro fórum aqui de Santo André. Eu fui para o grupo escolar e para a Júlio de Mesquita porque era de graça. -xQuando eu acabei o Júlio de Mesquita eu fui trabalhar em uma marcenaria de uns italianos...Lá eles mandaram me aperfeiçoar...Noventa por cento destas marcenarias, em Santo André e São Bernardo era da italianada....Ai um deles me pegou para me ensinar...ele 162 falava que era para olhar tudo que acontecia na fabrica....aquele maquina fazia isto, aquela aquilo...Fiquei de um ano e meio a dois, até chegar a convocação para ir para a guerra -xNa minha infância eu gostava de fazer tudo que uma criança queria...mas meu pai não deixava não, era muito enérgico e era difícil eu fazer as coisas. Como tinha que cozinhar a lenha, ele me colocava para trabalhar. Tinha que ir a pé lá da São Luiz até a Vila Luzita, para ir buscar feixe de lenha...Por isto um ombro ficou mais baixo que o outro...Eu chegava em casa e lançava a lenha no chão, e tinha que armazenar aquilo lá, deixar em pé, e como meu pai não tinha força, eu tinha que fazer tudo aquilo sozinho. -xO Tamanduateí, a lagoa do Aramaçan, eu lembro de tudo isto aí, a gente quando podia ia pescar lá...No domingo, como a gente na tinha muito o que fazer, e como meu pai gostava de pescar, a gente ia na represa...pegava os peixes e deixava para comer na semana.....Com meu pai não tinha muita conversa...Ele não explicava nada da vida de homem...não tinha dialogo não....E quando eu trabalhava, eu tinha que entregar o meu salario inteiro para ele...ele me dava uns trocadinho para isto e para aquilo...E tinha hora marcada para chegar em casa.....Nove horas certinho, se não chegasse, dava com a cara na porta e tinha que dormir no terraço...Neste ponto eu sofri bastante -xNa revolução de 32, pelo que vi na época, São Paulo queria ser independente dos outros Estados. Não conseguiram porque não tiveram força suficiente para chegar no Getúlio....acho que morreram umas duas ou três mil pessoas, sem saber porque...A vida continuou normal....Quem tinha dezoito ou dezenove anos chegaram a ser convocados....Tem bastante gente que eu conhecia, que não lembro mais o nome, foram para a revolta sim....Na escola, a única instrução que a gente tinha sobre isto era o hasteamento da bandeira nacional, mas não me lembro de nada especifico em relação a revolução 163 Na marcenaria eu ganhava um ordenado lá....eu pagava o IAPI, não tinha nada de greve e estas coisas aí...Salario tudo na mão do pai......Quando vim da guerra, ele não deixou eu ficar muito parado...Cheguei no dia 15 de agosto de 45 e no dia 22 de setembro eu já estava trabalhando na Firestone...mesmo com quase 25 anos de idade, tinha que entregar para ele o envelope fechado...Mas graças a deus isto ai e coisa que já passou e que e difícil de lembrar -xEm 1940, fui para o Tiro de Guerra, que era aqui mesmo em Santo André, tava com vários companheiros, como o Miguel, o Adão...trabalhava durante o dia e ia para o Tiro de noite e no domingo também....Quando acabou o Tiro, fiquei mais um ano la como CB, mas quando foi para passar para Sargento, eu cai fora, mas logo em seguida eu fui convocado. No Tiro, eu era um assistente do sargento....Não tinha salario não...eu ainda tinha que gastar...por isto eu larguei...tinha que trabalhar. -xA noticia da guerra chegou em casa por meio de um vizinho, que tinha radio...A colônia polonesa era grande aqui em Santo André, São Bernardo e São Paulo.....Alias, tinham uns poloneses la na região do rio Tiete, e eu pesquei algumas vezes com estes patrícios do meu pai....A várzea enchia mais a agua não chegava nas casas....só quem morava no meio do brejo...A gente ia muito em SP numa igreja de polonês que tinha perto da Estação da Luz. De vez em quando a gente ia em SP passear. Alguns irmãos de meus avôs tinham ficado na Polônia... -xPara mim, nem tinha conhecimento da guerra. Praticamente a noticia não chegava na gente...A minha preocupação era fazer o Tiro de Guerra, cumprir a minha parte e depois voltar a trabalhar normalmente no meu serviço de marceneiro, que eu gostava. Era trabalho de dia e Tiro de Noite. PARTE II - O TREINAMENTO 164 A minha convocação veio por meio do jornal.....Fui me apresentar lá no 38 BC do Parque Dom Pedro, e eles me mandaram esperar a segunda chamada...aí veio a segunda chamada, também pelo jornal, mas naquela altura não tinha quartel nenhum aqui em SP desocupado, porque estavam ainda mobilizando a tropa...Na segunda vez eu fui de novo no Parque Dom Pedro....me mandaram esperar a carta...ai chegou a carta e fui no QG do Exercito, numa travessa da avenida São Joao....mandaram nos para Quitauna, onde tinha os armazéns de café que era exportado pelo porto de Santos....lá formaram um grupamento de uns 8oo companheiros, por volta dos vinte – vinte e dois anos...como desocupou o quartel de Juiz de Fora, do 11 RI, eles foram para o Rio, o Exército nos mandou para Juiz de Fora...Neste intermédio, depois de nos dar ordem de embarcar, a gente sem farda, sem nada, colocaram a gente...Eu lembro que o tenente, só tinha tenente, nem coronel tinha, nos deram um filão de pão com uma mortadela...Saímos dali as oito da manha e chegamos as seis da tarde em Caçapava...o trem era muito devagar.....chegamos lá não tinha almoço, nada...deram para nos um saco de farofa misturado com jabá, meia dúzia de mexerica e um chá estranho, que acho que tinha algo dentro, para a gente ficar bem calmo, para a gente não se manifestar contra aquilo tudo....O que aconteceu? Os caras estavam lá na estação de Caçapava, na plataforma.....a turma pegou tudo aquilo e tacou nos oficiais, revoltados, tudo louco...passamos por meio do quartel, tinha um armazém lá dentro, a turma desceu e pegou tudo o que tinha la para comer e jogou para dentro do vagão....ninguém falou nada, o trem saiu e foi embora...Chegamos em Três Rios à cinco da manha...tinha um armazém lá na estação...o cara pensou que era trem de passageiro...a gente deixou o comercio dele vazio...oitocentos companheiros com fome. -xQuando chegamos em Juiz de Fora, a Cavalaria estava esperando a gente, para levar a gente para o quartel, uns cinco ou seis quilômetros subindo morro, lá em Juiz de Fora e tudo morro... Eles precisavam de nos e nos não deles....A janta era um feijão tudo amassado, feito no forno de lenha, com mosca encima....comia porque só tinha aquilo...Dormir....as camas eram de pau roliço, o colchão era feito de saco de estopa e cheio com barba de bode...De noite você acendia o isqueiro e tinha aquela fila de percevejo para cima e para baixo...a gente ficava espetando , fazia fileira e jogava ...Mulher da vida não tinha nenhuma lá...A Zona, naquela época, era dominada pelos fazendeiros cheios do café que dominavam a área...Ficamos quase uns dez dias....fomos mandados para São João Del Rey, que ai já tinham 165 descido para o Rio de Janeiro também...Quem também estava esperando a gente era a Cavalaria....os médicos americanos estavam lá esperando a gente para fazer os exames em nós...lá eles aplicavam uma injeção, sempre em dia de sol muito forte...era uma seringa de uns 25 cm de comprimento, por uns 2,5 de largura, a agulha parecia um prego....Ai espetava nas costas: se ficasse uma mancha branca, o cara estava bom, e se começasse a ficar roxa, era mandado para o hospital.... depois destes exames começaram a separar cem para lá, cinquenta para cá, e coisa e tal... começaram a repartir de acordo com o que cada batalhão ou companhia precisava, de mais ou menos gente....eu e mais um oito ou dez companheiros fomos para Aquidauana, no Mato Grosso...lá fiquei uns três ou quatro dias, nem isso...a tropa estava pronta, da Engenharia....1, 2 e 3 Cia, uns novecentos companheiros....nos mandaram de novo para Três Rios, num armazém de café também, ate que uns galpões ficassem prontos na Vila Militar no Rio. -xSó ai, nesta saída para o Rio de Janeiro, que a gente saiu fardado...Teve uma instrução muito pequena, só para conhecer o armamento nosso, que nada tinha a ver com o que a gente usou lá...foi muito pouco....No mais era exercício físico, e só...como eu sempre gostei de esporte e tinha um bom preparo, era moço, o Tenente Edson sempre me chamava para completar os times de basquete ou de vôlei depois da Educação Física, porque nunca tinha oficial suficiente para complementar o time. -xFicava indo e voltando para Quitaúna, neste lenga lenga, até o dia que a gente embarcou para Juiz de Fora, depois Aquidauana, onde fui incorporado ao 9 BE, Três Rios e finalmente Rio de Janeiro. -xBom, aí, mais para frente, comecei a ter umas aulas de bombardeio....Alias, fiquei nesta função aí na guerra toda, ao lado do Tenente Edson....isto aí porque eu era bom na matemática e conseguia fazer bem os cálculos de quantos petardos eram necessários para derrubar, cortar uma arvore, por exemplo...e fazia de cabeça, não precisava de lápis não..... Fiquei sabendo da convocação pelo jornal.....Falaram pra mim que eu tinha sido convocado, porque em casa não tinha jornal não, meu pai não comprava..ai a minha mãe se preocupou 166 com este negocio e ela foi correr atrás da Cruz Vermelha, que era perto da estação de trem da Mooca, para ver se conseguia me tirar disto aí.....Veio uma, veio a outra e depois chegou a tal da carta que me obrigou a me apresentar lá no QG.......No dia da convocação, nem pensei em nada, nem sabia para que, só que tinha sido convocado....Na realidade, mesmo quando a gente entrou no navio, ninguém sabia o que ia fazer...E a gente fez uns três ou quatro treinamentos de embarque...acho que aquilo era so para deixar a gente fora de si....Mesmo quando a gente foi para a Itália , isto ai a gente tinha certeza quando embarcou, ninguém sabia se ia ficar por lá, se ia para o combate e nem mesmo a própria função..... -xEntre a primeira convocação do jornal e a chegada da carta, demorou mais ou menos um mês.....foi ali no começo de 44 já, por volta de fevereiro... Quando o Brasil declarou a guerra, todos aqueles estudantes, que saíram gritando para entrar na briga, nenhum deles acabou indo...Inclusive, um dos primeiros a gritar guerra aqui em Santo André, que depois virou advogado e vereador, não teve nada de guerra foi...Falei um dia isto ai para ele, que ele que agitou, não foi e eu fui. -xNo tiro de guerra não aprendi nada....La era um mosquetão de sete quilos, e na Itália usei uma metralhadora com mil tiros de cadencia, ou seja, nada a ver. -xEu estava na Vila quando o primeiro escalão foi embora...eles saíram de madrugada, mas não tinha a mínima ideia para onde eles iam...Nos também saímos de madrugada, para o povo não ver...nosso deslocamento ate o porto foi de trem....O nosso vagão não foi com janela fechada não, não deixamos.....Na porta, só tinha oficial...nenhum deles estavam preparados também...não se faz um soldado em um ano, mas em uma vida La no Rio eu vinha embora toda semana.....Chegava em Pindamonhangaba e Caçapava, o trem era parado e todo mundo era revistado...Como eu era mais esperto, tinha feito uma amizade lá com um alfaiate perto do quartel e a gente fazia o seguinte...ele me emprestava uma roupa qualquer lá e quando a patrulha batia aqui em SP, eu já estava trocado e segui tranquilo a minha viagem.... 167 -xNo ultimo treinamento, a gente foi fazer um treino lá na Barra da Tijuca...ele levou a gente mar afora....não sei que bote que era aquele, pois ele enchia de agua e na afundava.. a coisa era ir da praia para uma ilha, e vai para lá, vem para cá, era isto ai...Só que neste lugar era muito fundo, ali passava navio...Na última, o capitão falou que ele ia pilotar o barco, que era pra ir quem não sabia nadar, que iriam aprender ali na hora....Só que nesta o barco virou, uma parte consegui voltar para a praia e dois ficaram presos debaixo do barco....Ai o tenente chamou a gente para ir buscar os companheiros, não consegui e, por sorte, bateu uma onde lá e eles voltaram para a praia....Mas o barco estava virado e a gente tinha que desvirar, porque senão a gente não podia voltar....demos um jeito lá e deu certo....mas que foi um sufoco danado, isto foi PARTE III – A GUERRA No dia da noticia do embarque, eu dei um jeito de vir para casa. Num sábado, eu peguei um trem, fugi, e vim embora....Os vagões foram revistados de ponta a ponta, para ver quem era ou não soldado, pediram identidade e tudo, mas eu consegui passar...Quando voltei na segunda – feira, desci na Estação para pegar o trem para a Vila, não vi um Canela Preta, nenhum oficial, nada.....Aí quando cheguei no quartel o tenente disse....O Cruchaki, vai lá no deposito pegar o seu saco, porque ele já foi recolhido e a gente já vai pegar o trem para ir embora.... -xAi a gente subiu no navio, e tal, o Getúlio cumprimentou a gente e tal, e ai de madrugada a gente saiu...A nossa viagem foi de dezesseis dias, comida de doze em doze horas...Teve muita confusão lá no convés do navio, por causa de uns oficiais lá que não deixavam a gente ficar...até que uma hora eu pensei: Quer saber de uma coisa, isto não vai ficar assim...cheguei neste oficial aí, que achava que era mais que os outros, e disse: Na hora que a gente estiver lá no front, na Itália, vai ser bom que você não fique na minha frente.. -x- 168 A gente ficava de dia no convés....Meu beliche ficava para doze metros abaixo do navio...trinta centímetros entre uma beliche e outra....um calor danado, tinha que ficar só de camiseta e shorts......Ficava lá jogando baralho, brincando com os outros...Nem tinha pensamento do que estava passando lá fora...Tomei umas injeções lá que eu acho que era para deixar a gente fora de si.....Para mim foi tranquila....Não passei problema com a comida não...o costume de alimento que a gente tinha em casa era bem diferente...eu juntava alho, cebola, cenoura e mastigava em casa...ai eu comia qualquer coisa, e soldado depois que está lá, tem que comer o que lhe dão....A única coisa que me fez passar mal foi a passagem do navio para a barcaça, indo para Livorno. -xQuando chegamos em Nápoles, a gente desceu para tomar conta da descarga do navio, que era feita pelos italianos.....A turma da Engenharia e quem tinha esta noção ai, não era tarefa de infante...Napoli estava toda destruída...sem uma arma na mão, a gente não tinha nada, não sabia quem eram aqueles caras que estavam ali pelo porto.... O nosso cigarro foi jogado no mar, só tinha que fumar o americano, a nossa alimentação foi toda americana.....Ficamos dois dias ali ate as barcaças encostarem para levarem a gente para Livorno...foram mais três dias de viagem no mar...a gente pegou uma tempestade, e tal, que ai deu medo...As barcaças estavam furadas de bala, sujas de sangue, provavelmente eram as que tinha sido usadas no desembarque da França, não tinha tempo para fazer limpeza....e toma remédio toda hora...infelizmente não tenho a mais a faixa que era usada para marcar as picadas, era tudo escrito em inglês...acho que era entorpecente. -xAi, descemos das barcaças e fomos de caminhão para....., onde estava o nosso acampamentos de 15 mil homens....fiquei ali três dias e de pois me mandaram para Roma, para fazer instrução de mina, ponte, que foi de uns sete dias. Quando voltei para o acampamento, já fui mandado para a região de Silla, de Porreta Terme, um pouco antes do primeiro ataque ao Monte Castelo...Ai a gente começou a fazer as faixas onde a tropa poderia subir para atacar aquele monte de morro la....Nestes lugares ai, onde passaram os alemães, os homens todos tiveram que ir embora, e so ficaram as mulheres e crianças ficavam, passando fome lá, sem nada...De modo que a nossa marmita automaticamente era dividida entre duas ou três pessoas, 169 e quando não dava, a gente dava um jeito de arrumar o que comer para este povo lá...O brasileiro sustentou mais a ITalia do que a própria gente nossa...O rancho era sempre rodeado por um monte de italiano, pois ele não tinham nada, mais de dois anos, sem pão, sem nada, o pão que eles comiam era feito de farinha de castanha, feita a pastella e assado no forno, a manteiga, que eles falam burra, também não tinha, café muito menos...O que tinha era só o que a fazenda dava...animal não tinha quase nenhum, porque o alemão matava tudo para comer....Eles aproveitaram tudo o que era do nosso acampamento. -xAí eu participei de todos os ataques de Monte Castelo, preparando o terreno para o pessoal...Na quarta vez, o americano Clarck reuniu todo mundo, a gente estava lá no alto dos morros...Estava tudo coberto de fumaça....A ponte de Silla, a gente consertava a ponte de noite e pela manha, logo no amanhecer, o alemão já mandava granada e destruía aquilo lá...a gente consertava e no outro dia de novo...o trabalho era constante -xA instalação de linha telefônica era nossa tarefa também...acho que fiquei uns vinte metros perto do inimigo....quando tinha que instalar o telefone, a gente tinha que carregar o aparelho pesado nas costas, a gente levava uns duzentos metros de fio, uma bussola na mão, o mapa e tinha que fazer isto, vai para lá, vem para cá.... -xO primeiro serviço que eu me lembro, com o tenente Edson, o Capitão Raul e mais três companheiros, fomos num pedaço lá para ver como fazia para tirar minas da estrada...eles tiraram umas quinze minas, pessoal, antitanque, tudo, trouxeram para a retaguarda e ai ...Cada tenente tinha uma media de quarenta homens, também eu fui encarregado de fazer a ordem do dia para minha Cia.....era registrado tudo o que a gente fazia... -x- 170 Nesta época, o nosso fardamento era fraco demais, e aquele inverno de 12 a 13 graus abaixo de zero, neste período a coisa foi mais difícil....a roupa que a gente usava foi jogada fora e ai começamos a usar a roupa americana, que eram mais forte, mais resistente, mais quente...Mas como o brasileiro e um cara sempre que tem algo diferente, a gente começou a se virar com coisa que o americanos nem imaginava...para não congelar o pe, para não dar o pe de trincheira, a gente usava jornal para deixar o pe mais seco e quente...O pe de trincheira era triste, fazia tratamento, gelo com gelo para descongelar, agua quente não descongela não, e se não desse certo, mandava cortar...Estas são as coisas que a gente passou, coisa difícil para contar não e fácil não, eu estou contando não sei como... -xQuando a gente estava no front, enquanto não escutava o barulho do fogo, a gente não sabia o que ia acontecer...e a gente geralmente ficava nos lugares mais fáceis para se morrer ..A gente ia lá, preparava o caminho e quando a gente saía os companheiros passavam pela gente correndo para ir atacar, gritando que a “cobra iria fumar”....Quando era granada, a gente calculava onde ela ia cair pelo barulho...se assobiava, ia cair longe, se vinha borbulhando, ia dar uns dez ou vinte metros ao lado, tanto de morteiro, quanto de canhão e de bazuca....Mas a metralhadora era diferente. Era a coisa mais difícil. A gente escutava o barulho da rajada e não sabia de onde vinha e para onde ia.....E só escutava os companheiros infante dando o gemido, gritando, Me socorre, me socorre que eu estou ferido.... a gente tentava ir lá, fazia o que podia, mas era muito difícil...procurava sempre um jeito de tirar o companheiro de lá...quando morria, a gente levava o corpo ate um certo ponto e depois o caminhão, o jipe, vinha, pegava e levava o corpo para a capela e deixava lá....Estas foram as coisas... A gente abria o caminho para a tropa passar,, p para a turma poder subir nos morros lá...esta era a missão nossa... Fiquei em Val di Bure, vila de Pistoia, praticamente mais de mês, depois eu desloquei mais para cima do morro, na vila que não lembro o nome, e assim foi ate o final -xEm Porreta Termi eu sofri bombardeio...Era lá onde estava o QG, do lado direito da estrada...Na casa onde eu estava dormindo, dava fundo para uma rua de cima, e eu ficava na parte de baixo que saia para a estrada....Foi em dezembro que aconteceu, teve um descanso 171 para a gente, uns saíram e outros não, eu fiquei...Nos tínhamos um salão de baile na rua de cima, onde a gente ia dançar....um dia o alemão cismou de dar uns tiros, a granada caiu no meio da rua, fez um buracão e não explodiu...e soltaram outra, pegou no canto da casa, e o irmão da minha namorada estava fora de casa nesta hora, deu azar de ser atingido e acabou perdendo o braço, fomos pro hospital mas ele saiu vivo... a sorte e que também outra vez caiu outra bomba no prédio onde a gente fazia o baile, os companheiros que estavam por lá tinham saído para um curso...se estivessem la, no dia, não teria sobrado ninguém, derrubaram mais da metade do prédio, acabou o baile, acabou tudo. -xAi foi Monte Castelo, Montese, Parma, Colechio e Fornovo e tudo....No dia da rendição, eu sei que a gente estava em Colecchio....A rendição mesmo eu não vi, porque só participou quem era oficial lá, depois eu vi por foto como é que foi.....Mas a gente foi para Fornovo e vimos os alemães se entregando...quando eles começaram a se entregar, a gente juntava a arma deles e jogava na beira da estrada...eles iam marchando com a mão na cabeça.... Voce olhava no rosto do alemão e eram umas criançasde uns dezoito anos.......que estavam lá para matar e morrer, só... E uma coisa tao dificil a guerra que pouca gente da valor para estas coisas aí que nós passamos -xDe Fornovo a gente foi para Turim, fizemos a festa la, ficamos praticamente sossegados e nem mais queríamos saber de arma na mao...Mas como o BE e o primeiro a entrar e o ultimo a sair, ficamos lá.....O primeiro escalão voltou e trouxe tudo o que podia de material militar, do Brasil e do alemão...eles parece que ficaram com medo da turma voltar armada para tirar o Getulio.....Nunca pensamos nisto ai não, nem passou pela cabeça do soldado, não sei se os oficiais pensaram.... -xProvavelmente o pessoal também veio armado porque eles poderiam ir para o Japao, mas como o americano jogou a bomba lá, não fomos mais...Alias, depois da bomba, deixaram a gente sem nenhum tipo de armamento lá, os americanos recolheram tudo da gente....A gente foi dispensado na Itália, a gente voltou para o Brasil como se fosse um turista brasileiro voltando para casa....O certificado foi forjado lá na Itália, lá já tinham falado para a gente que 172 não fazíamos mais parte do Exercito.....Quando a gente voltou, aquele que teve o privilegio do desfile, sem arma na mao, sem nada, quando nos voltamos, a Engenharia principalmente, a tres ultimas companhias voltaram no D Pedro I e II, paramos em Dacar e Recife....ai a gente desfilou na cidade, ficamos uns tres dias para abastecerem o navio e voltamos..Quem era pernambucano, não pode ficar la, inclusive teve gente que teve que pegar lancha atrás do navio...Quando a gente desceu no RJ, só tinha uns caminhões para levar a gente para a Vila Militar...nao tinha mais oficial,nada...a gente não sabia o qua fazer, o que não fazer....So tinha comida e alojamento...sorte que um irmão de um companheiro la foi buscar ele e me emprestou cinco mi reis....eles foram para frente de São Paulo e eu desci na central....Fui para o Bras pegar o trem aqui para Santo Andre, não tinha dinheiro para pagar a passagem, veio um guarda la me enchendo....pulei a catraca e vim embora... PARTE IV – AVIDA DEPOIS DA GUERRA E quando cheguei em Santo André, tinha um taxista que me já me reconheceu...ele me levou la na Pirelli, meu pai trabalhava lá, pegamos ele e fomos embora para casa...sem um tostão na mao. Voltei para trabalhar com os italianos, como antes da guerra...A firestone foi montada aqui no Brasil para fabricar pneus para os caminhões e os jipes lá na Italia....O meu pai tinha um conhecimento com alguém de lá, e ai eu fui de manha e no outro dia já estava trabalhando..Ganhava o mesmo ordenado de quando eu estava na Italia....1800 cruzeiros por mês....Fazia manutenção, limpeza, pintar isto, aquilo, a fabrica parava no sábado de noite e a gente fazia a manutenção das maquinas....Entrava na sexta feira e voltava so segunda de manha....folgava na segunda e terça começava tudo de novo Ai me casei em 1946..... Tive as meninas...O diretor da empresa acompanhava a gente -xCheguei no dia 15 de agosto e no dia 22 de setembro eu já estava trabalhando.....No hospital do Ipiranga, alojaram os companheiros que estavam feridos, mutilados....os caras não tinham nada para comer....o que podia levar a gente levava para eles comerem, e cada vez que a gente voltava faltava um dois, três...Tinha o meu amigo Claudio, que ficou fora de si, que ficou três anos no hospital....ele foi reformado a neurose de guerra ele nunca perdeu....Todo mundo que ficou no front, mais de vinte dias e tal, ficaram com as sequelas...quem foi para frente , no máximo, foram uns dez mil, porque o resto ficou no deposito 173 x-x 174 Entrevista NELSON GUEDES Santo André/ São Paulo - Dia 10 11 2012 PARTE I - A VIDA ANTES DA GUERRA Nasci de 3 de julho de 1921, em Jacareí, a terra do biscoito. Meu pai era Ernesto Guedes e a minha mãe Brígida Leite Guedes. O meu pai era carpinteiro, atendia o pessoal lá na cidade, e minha mãe era domestica, ficava em casa cuidando dos filhos.....Nos éramos em seis filhos, um acabou falecendo porque era muito doente, ele era o primeiro ..Eu era o segundo filho. -xNaquele tempo, era tudo meio parado, Jacareí era uma cidade pequena naquele tempo, ate morei em um bairro em Jacareí, Bom Jesus...tinha uma escolinha pequena, onde fiz o primeiro e o segundo ano...depois foi morar em Suzano, tinha uns parentes lá, a minha vó morava lá, a Vó Isabel...A minha avó era muito legal, era a mãe do meu pai.....Ela faleceu com mais de noventa anos, fumava cigarrinho de palha, morreu de velhice....Lá eu fui fazer o terceiro e o quarto ano...ai eu fiz...passei um tempo e ai entrei no ramo da farmácia.. -xElas eram pequenas....Jacareí já era mais evoluída, mas para aquela época estava bom..e Suzano era pequena, mas tinha o terceiro e quarto ano....Aí eu já tinha de doze para treze anos, quando voltei para Jacareí...Meu pai já estava morando na cidade, e ai eu continuei a trabalhar em Farmácia...Em Suzano, foi um dos tios meus que arrumou o emprego...fui prático de farmácia pequeno....Eu lavava os vidrinhos........ -xNa época da Revolução de 32 eu estava em Suzano, vendo o movimento da soldadesca, os trens passavam lá cheio de soldados...eu era molecão...Era o movimento de São Paulo contra o Getúlio Vargas...a gente sabia as noticias por cima, de que ele mandou os nortistas para dominar São Paulo....meus tios solteiros, que moravam em Suzano, ficaram com medo de serem chamados....meus tios foram para o mato, na fazenda, para se esconder...estavam passando pela cidade e pegando gente...eu não entendia nada, mas via todo mundo preocupado, meus tios lá no sertão... 175 -xAí eu fiz o quarto ano e continuei morando com a minha avó...os meus tios foram trabalhar e normalizou a situação...Aí o meu pai veio e falou que eu poderia continuar na farmácia em Jacareí...Meu pai arrumou um serviço lá e aí eu fui direto para farmácia principal, a Dom José...o dono era Jarbas de Matos. Ai foi onde aprendi a aplicar a injeção...era aprendiz do Jarbas...então o tempo correu e ai foi o estouro da guerra...Eu não pensava em ser chamado.. Aí eu via o noticiário da guerra no cineminha.... -xEu fiquei na cidade uns quatro anos, até chegar no Tiro de Guerra...eu era garotão...Tinha a pracinha, onde a gente ficava lá...no interior, naquele tempo, era assim...ficava lá, paquerando as meninas e indo no cinema...Eu já estava defendendo a vida...eu dava um pouquinho do dinheiro em casa...o meu pai era carpinteiro e tinha bastante serviço -xMeu pai não tinha condições de pagar o estudo, mas me recomendava a estudar...mas fiz uns estudos particulares, fiz escola noturna... A minha irmã, a Elza, fez o curso técnico de comércio...Mas era isto ai, ia no cinema ver Faroeste Americano, os Seriados, tinhas os dias importantes onde a rapaziada se juntava para ir assistir. -xAì eu fui para o Tiro de Guerra. Trabalhava e ia para lá...tinhas os dias certos...geralmente era de noite, de sábado, domingo e feriado.......Ai estourou a guerra...a gente ia para ver o noticiário da guerra...nem pensava que um dia ia estar envolvido naquele -xTinha os meus planos e tudo....Ai completei o Tiro de Guerra de 39 para 40...a minha turma foi uma das primeiras a ser chamada....Me lembro dos navios serem afundados...ai eu comecei a ficar meio preocupado... A gente era garotão mas não imaginava que ia para a guerra...Pensava que quem era do Exército é quem ia.... -x176 Eu não presenciei nenhuma historia de que os japoneses, italianos e alemães tivessem sido perseguidos na minha região...Mas o povo olhava para eles meio desconfiado PARTE II - O TREINAMENTO No dia da convocação, eu estava na farmácia...foi de tarde...trabalhando no balcão e recebi a comunicação do Exército...quem trouxe foi um funcionário lá da repartição...até tem um detalhe...recebi a comunicação e o filho do patrão também recebeu...só que eu fui para a guerra e ele não foi, porque ele era estudante....Tal dia era para me apresentar, não tem escapatória...Eu já fui para casa contar para o meu, eles ficaram todos espantados, coitados...Agora ó o caminho aí...Meu pai ficou preocupado...Ai eu fui para Caçapava depois de uns dez, doze dias...Da cidade, de Jacareí, foram uns duzentos e poucos, reuniu todo mundo e fomos para Caçapava.... .. -xNo dia, todo mundo ficou sabendo e ficou triste....meu pai foi me levar na estação de trem...Aquilo era uma aventura nova...Meu pai falou que ia rezar muito por mim, só ele foi na estação....Um trem especial levou a gente....Tinha um monte de amigo meu de infância, de escola, do Tiro de Guerra...tinha o Paulo Branco ( voltou doente da guerra) e o Zizinho Martins (padrinho do meu filho) -xIsto aconteceu... O pai não deixou o filho embarcar com a gente...o João Américo...depois o pai fez ele se apresentar e este ai acabou morrendo, ficou na Itália...caiu lá na neve....O Paulo foi muito ferido, ele viveu um drama, pisou numa mina nos combates lá, ficou muito grave...os americanos levaram ele para os EUA, num hospital especial para os feridos de guerra, ele perdeu a perda, a vista e o braço....foram muitos brasileiros para lá...A mina estraçalhou ele -x177 Ai os comandantes receberam a gente lá...a gente foi tudo a paisana...fizemos um exame médico lá, rigoroso, e aí alguns ficaram...outros se casaram para não ir mas, não aceitaram esta ai, tiveram que suspender...foram casados mesmo.. O Carlos Armando foi um destes........Campinas foi a cidade que mais mandou a rapaziada. Chegou gente de tudo quanto é lado, do Vale do Paraíba. -xAí em Caçapava muitos foram dispensados, porque estavam meio doentes...aí a gente entrou na preparação física, da pesada, para ir na guerra.. no Tiro de Guerra era tudo mais simples...No Exército era mais forçado....ai ficamos uns seis meses, passamos para Taubaté e depois para o Rio de Janeiro...Em Caçapava era um quartel para formar soldado, era tudo muito simples.... tinha muito cavalo.....ficava lá fazendo exercício, ordem unida e puxando carroça....A coisa foi melhorando conforme a guerra foi chegando...Era na base do arroz e feijão mesmo.... -xTinha os instrutores, eram muito rigorosos, tinham que treinar a turma nova, preparar para a guerra, era forçado, era pesado,...Ô, acordar de madrugada, fazer exercício, marchar, metralhadora, fuzil...veio oficial de fora para não fazer amizade com ninguém, para puxar mesmo...Muita gente veio de lugar diferente, tinha ideia diferente, gostava de uma bebida, e aí entrava em conflito...mas tinha que se adaptar...o Tiro não era nada perto daquilo....a gente conversava e tinha muita gente que falava que ia desertar se tivesse que ir para a guerra -xAi a gente foi para Taubaté, lá na Casa das Laranjas...e foi aquilo, tratamento puxado para ir para a guerra...Ai tive treinamento de fuzileiro e da metralhadora...a comida melhorou alguma coisa....No começo, eram umas camas velhas, depois deu uma mudada, umas camas novas, tenentes novos, que toda hora jogavam a pressão de que a gente tinha que ir para a guerra, cumprir o nosso dever e pá pá pá.... -x- 178 Muitos deram tocha lá em Taubaté....Nos dias de licença, tinham uns que não mereciam, e ai saíam dando a tocha...tinha a patrulha que saia para pegar e as vezes voltava com algum...só saí uma vez com um maluco lá...Ver o Papai, ver a Mamãe......Nos dias de folga, reunia uns dois ou três e ai a gente ia para a beira da estrada pedir carona...Tinha a rapaziada, uns malucos lá no meio, que gostava sempre de dar um tocha...os caras tinham namorada, noiva, família longe...Como Jacareí era pertinho, só ia na folga mesmo.... De vez em quando saia uma encrenca entre os oficiais e o pessoal....Na volta da tocha ia para a cadeia ou às vezes nem voltava...muita gente sumiu... -xEu pensava assim...fiz curso de Cabo em Taubaté, que já mudava de posição, tinha curso até de terceiro sargento...o curso me ajudou bastante na Itália... o curso era de auxiliar de comandante de pelotão. Muitos não ligavam, não queriam saber...falavam que iam morrer mesmo...Eu achava que estava caminhando para ir para a guerra...No Exército não tinha nenhuma informação...Era no noticiário do cinema, lá de Taubaté, que eu ficava sabendo do que acontecia na guerra...Ficamos uns meses lá...Aí a gente foi para o Rio de Janeiro. -xFomos avisados, com uma antecedência, que a gente ia para o RJ...estava sendo formada a FEB....a gente foi de trem....foram uns cinco vagões.... encostou lá em Caçapava e todo o regimento embarcou...era o caminho da guerra.... o resto da turma foi de caminhão...Aí eu percebi que as coisas que a gente assistia no noticiário da guerra poderia acontecer com nós...Avisei o meu pai que havia um boato que a gente ia para o RJ, que a gente não ia mais para Taubaté....falei para ele que não sabia mais se voltaria para casa....estava preparando o espirito dele. -xAli no Rio foi pesado...marcha de vinte e trinta quilômetros, mochila, metralhadora, tudo pesado...isto era constante... eu estava nessa pegada...a maioria estava aguentando, naquela idade...mas alguns ficaram doentes, com gripe e tal.....Eu levava a metralhadora nas costas, era desta seção aí, dormia com a metralhadora....Depois tive sorte da coisa mudar na Itália, o que a maioria não teve...Os oficiais diziam que ia mudar o armamento, mas era tudo 179 papo...era tudo equipamento antigo....A gente foi conhecer a metralhadora americana lá na Itália...no Brasil a gente não conhecia nada, era tudo diferente. -xOs caras falavam grosso....Vocês vão para a guerra, não sei o que e pá pá pá..Enchiam a nossa cabeça com isto aí....mas ai tinham uns que davam baixa, doente...tinha o treinamento para embarque, que foi mais no fim lá no Rio de Janeiro...Mas foi bom, a gente ia embarcar mesmo.. No Rio de Janeiro, não saí nenhuma vez para ir para casa.....não queria ter problema....Aquele de Jacareí, que te falei., não voltou desta grande tocha que foi perto do embarque....Ai, quando ele voltou, foi para o Sampaio, embarcou no Segundo Escalão e morreu na guerra. -xTinha os treinamentos de embarque.....ela aquela gritaria, a gente subia no trem, parava no porto e voltava....isto ai foi umas seis vezes...ai a gente desacreditava, pensava que não ia mais....era Cabo no Rio....o salário era pequeno, não dava para nada....Até quem pegava carona era preso. Em resumo, era tiro de fuzil, preparação mental e física..... -xAi, numa destas a gente foi e ficou....Encostou o trem e aí gente começou a descer e percebemos que tinha um navio esperando...muitos quando viram o navio largaram as coisas lá e deram no pé...o meu amigo Ratinho foi um deles...falava que não ia embarcar de jeito nenhum...só ficou a malinha dele lá...Aí a gente embarcou, de 29 para 30 de junho...meia noite, aquela escuridão.......fila indiana...mala nas costas...um atrás do outro...a alimentação indo junto...levou a noite toda....Aí numa madrugada a gente foi embora do Rio de Janeiro....ficamos dois dias até sair de lá....A gente não sabia para onde ia...Os americanos que organizavam tudo lá dentro...Eu não subi no convés não, mas muito viram na saída o Cristo Redentor....estava a soldadesca toda ali, só na expectativa...quem estava comigo era um mineiro...Eu fiz aniversário no dia três de julho, dentro do navio....uma turma lá gostava de tocar, cantar, para passar o tempo no navio....A comida americana era muito doce...Aí a turma não gostou e tiveram que colocar um sal lá...Eu não senti nada, mas a a maioria vomitou muito, não aguentou o balanço do navio....Aí a gente ficou com medo era dos submarinos alemães...o barco fazia um zigue-zague para não ser torpedeado....apareciam uns 180 aviões americanos e a gente ficava com medo, pensando que era alemão...todos os dias eles treinavam, dando tiro lá nos canhões. PARTE III – A GUERRA Naquela altura a gente não sabia para onde ia...aí quando a gente começou a manobrar para passar ao estreito de Gibraltar é que a gente teve a certeza de que era a Europa..depois de uns dias é que falaram que era Nápoles, na Itália. -xA impressão na chegada foi a pior possível. Tinha uma banda americana lá para receber a gente....O porto estava destruído, tudo estraçalhado pelas bombas....ai pensei que a gente não ia voltar...encostou um trem lá que a gente embarcou....O porto estava todo virado, as casas e o cais tudo no chão, o povo triste, apavorado...gritavam brasiliano....faltava tudo para eles lá, passando fome, na miséria mesmo...eles não gostavam do americano....A gente foi para o vulcão, não tinha nada preparado, a gente dormiu quatro dias no relento...do lado também tinham americanos, inglês e outros que estavam se preparando para ir combater o alemão também, em outra faixa...Aí eu conheci o armamento americano e a comida americana...tinha um contrabando muito forte por lá......os italianos compravam cigarro americano da gente e evendiam... -xO V Exército americano era dividido...Um de branco e outro de preto....desde quem guiava o carro, a ambulância e tudo, ou era negro ou era branco....não se misturavam de jeito nenhum....Aí eles ficavam lá olhando a gente e acho que não entendiam nada...Eles que defendiam tanto a democracia e se dividiam lá daquele jeito! A gente estava combatendo um ditador mas o nosso presidente era um ditador também...Mas nunca teve conversa de voltar e derrubar o Getulio. -xAi que coisa mudou, em Tarquinia....O Capitão Aldenor, da 3ª Companhia do 1º Batalhão do 6º RI, fez uma reunião lá e disse que precisava de alguém para cuidar dos documentos dele e 181 fazer a escrituração de toda a Cia...e aí ele me escalou...sai do pelotão de metralhadora...ele fez um teste de caligrafia comigo e mais dois, que disseram que tinham trabalhado em escritório....eu fui aprovado...Recebia todos os comunicados do Regimento para a Cia, diariamente, e anotava tudo o que acontecia....morte, doença, ferimento...depois passava tudo para o boletim...cuidava da ficha de cada um dos soldados da Cia...acho que me escolheram para esta tarefa por causa da caligrafia e da minha boa conduta durante todo o treinamento. -xNa medida em que a gente avançava, eu me deslocava...ia no jipe com a maleta....A Itália toda destruída, o povo sofrendo, sem comida...Não tinha a comida deles, o macarrão...A gente dava comida e eles pegavam o meus cigarros americanos para revender......Os Batalhões conquistavam e aí a gente chegava...muito amigo meu foi preso pelo alemão...teve um dia lá que foram treze ( dia 30-31 de outubro) depois apareceram doze, passaram fome...teve um de Jacareí, que ele apareceu seis meses depois que acabou a guerra, lá em Jacareí...deram que ele estava morto...era aquele rapaz, o Paulo Branco, que pisou em uma mina....os americanos tinham levado ele para o Texas e ninguém sabia.....Eu estava na retaguarda lá em Barga, só esperando o resultado daquilo tudo...O pessoal veio espantado de lá, os alemães localizaram e fizeram a resistência. O Aldenor era um cara legal, ele confiou em mim....Ele era enérgico mas era justo, cearense -xMesmo nesta situação, eu escutava o barulho da guerra.....jogaram bomba perto de mim lá em Porreta Termi. Eu estava na rua e o deslocamento do ar era forte, fui jogado para longe e levantei meio tonto, vi se não estava ferido e fui me esconder em um buraco...O povo largava a casa e ia para a montanha.....Era uma estação de aguas, lugar bonito, parecia Poços de Caldas...ali foi ferido o Raul Kodama....Eles queriam acertar o comandante, o Mascarenhas, pois eles sabiam que ele estava lá. -xA neve chegou no dia de natal....os americanos deram uns cobertores de crina de cavalo..fino e quente para caramba. Era uma geleira danada, o norte da Itália era muito frio, que as vezes queimava o pé da gente...O pé de trincheira era um tipo de alergia que inchava o pé e tinha 182 que ir para o hospital...mesmo com duas ou três meias, não resolvia. Nesta época aí pararam os combates, mas muita gente sofria do pé de trincheira ou era ferida na patrulha. Os jipes não subiam, só com os burricos e os cavalos para levar comida lá na trincheira. Tinha um amigo meu que ficou nesta ai, num posto avançado olhando os alemães pelo binoculo...O meu colega, o João Santana, conseguiu fugir dos alemães aí nesta época da patrulha...atiraram nele mas não pegou, ele se salvou...Outra rapaz, o Mario Baccaro, estava de guarda lá em cima, na escuridão, e viu numa determinada hora da madrugada um soldado avançando do lado dele...tinha uma senha e ele perguntou....o cara não respondeu e ele atirou....matou o alemão...o cara caiu na frente dele...ele enfiou a mão no uniforme do alemão e achou a foto da família do rapaz...aí ele se sentiu mal, ficou esquisito o resto da vida.... Tem o caso do cara que estava limpando o fuzil...estava limpando a arma e ficou uma bala, não viu, e matou um companheiro que estava do lado..... -xTem a história também de uma brasileira que trabalhava para os alemães, fazendo ataque psicológico contra os brasileiros pela rádio...o alemão também jogava uns panfletos encima da gente, falando um monte de coisa para desanimar a nossa tropa.....No final a mulher foi presa. -xQuando acabou a guerra eu estava em Porreta...aí foi aquela alegria.. veio a noticia que a guerra estava acabando, aquele sacrífico danado, os alemães não aguentavam mais, eles estavam se entregando....estava se aproximando maio... A gente via as fortaleza americanas passando por cima da gente, indo bombardear a Alemanha...a gente só vivia a nossa guerra, na torcida brava para acabar... o Mussolini tinha sido preso e mataram ele lá, maluco...os italianos mesmo falavam que ele era um porcaria. -xE tem a dificuldade do povo italiano......Mesmo as pessoas de posse não tinham comida....a gente falava para eles iam lá na cozinha ir atrás da sobra....Me lembro que a gente passeou por Roma, lá no Vaticano, no tumulo de São Pedro, durante a guerra e Pisa também, naquele torre torta lá..... 183 PARTE IV – AVIDA DEPOIS DA GUERRA Até voltar, levou tempo....Eu peguei o meu certificado de reservista só aqui no Brasil.......O mesmo navio que levou a gente trouxe a gente de volta...aí levou menos dias...foi só festa.... Eu mandava carta para o meu pai e meus parentes e eles sabiam que eu estava bem...foram muitas cartas...Desembarcamos no Rio e fizemos um desfile...nem terminou....o pessoal, o pov e as famílias dos soldados, desmancharam o desfile....Fiquei uma semana lá no Rio de Janeiro, até me desligar do Exército...Lá eu não recebi nada...depois é que me mandaram o dinheiro....Demorou uns dias mais recebemos....Ficou acertado que ia receber tudo como terceiro sargento...Passei por Jacareí, vi a minha família e depois fui para aquele desfile no Pacaembu, junto com o meu pai e depois eu voltei de vez para Jacareí....A cena de encontro com o meu pai e minha mãe não tem explicação...eles pensavam que a gente não ia voltar...foi uma festa geral.... -xFoi ai que eu conheci a minha esposa. Fizemos uma festa lá em casa... ela morava na minha rua, mas eu não conhecia ela...Eu estava voltando do Pacaembu e aí eu vi as meninas brincando lá na rua e aí convidei as meninas para festa....mas elas nem acabaram indo.....A cidade inteira estava fazendo festas, as famílias.....Depois entrei na luta, na farmácia, e aí comecei a namorar ela -xAí eu fiquei uns quinze dias, visitando os parentes, e já voltei a trabalhar na farmácia,, porque a vaga já estava garantida. Depois fui para a Drogasil, em São Paulo...Voltei para Jacareí. Comecei a namorar sério e comprei a farmácia...casamos em dezembro de 1947...dois anos e meio de namoro. Aí tive um monte de farmácia no Vale do Paraíba, em Guaratinguetá, São José dos Campos...Em Guaratinguetá montei uma pequena indústria de “Limonada Purgativa”, que vendia bastante naquele tempo....Os três filhos mais velhos nasceram em Jacareí e o mais novo em Guaratinguetá. -x- 184 Aí larguei as coisas em Guaratinguetá, depois voltei para Jacareí e aí apareceu um negócio para montar uma farmácia pequena em Santo André, isto aí já nos anos 70...e aí fiquei trabalhando até uns oitenta anos...Cheguei a participar das associações de veteranos em Jacareí e Guaratinguetá. A pensão do Exército veio com as leis dos ex-combatentes, muitos anos depois... -xLá em Jacareí, muitos amigos ficaram com doença mental, perturbados....O Lauro Martins se escondia debaixo da cama quando chovia, por causa dos trovões.... Em relação aos desertores, ficaram marcados como aqueles que não foram para a guerra...O Armando, enfermeiro, também ficou atrapalhado...O Brasil não deu o tratamento que eles deveriam ter....Eu mesmo levei um amigo meu ao Rio, mas não deram a atenção para ele, e aí ele morreu logo. Deram um remédio para ele ficar em casa.... -xA guerra foi uma experiência inédita na vida da gente. Felizmente eu voltei bem, mas muitos morreram, ficaram doentes...A gente foi, não podia negar, tinha que cumprir o nosso dever até o fim....Foi uma lição pessoal...No final das contas, me tornei um homem melhor, e fiz tudo o que podia na minha vida, criei a minha família e deu tudo certo. 185