ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS E BIOQUÍMICAS DE SEMENTES DE PIMENTÃO 217 ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS E BIOQUÍMICAS DE SEMENTES DE PIMENTÃO SUBMETIDAS AO OSMOCONDICIONAMENTO, UTILIZANDO DIFERENTES AGENTES OSMÓTICOS E MEIOS DE EMBEBIÇÃO1 SOLANGE CARVALHO BARRIOS ROVERI JOSÉ2, MARIA DAS GRAÇAS GUIMARÃES CARVALHO VIEIRA3 , RENATO MENDES GUIMARÃES4 E REGIANE RODRIGUES5 RESUMO - Sementes de pimentão da cultivar Yolo Wonder tratadas com Captan e que apresentavam germinação de 69%, foram osmocondicionadas em solução aerada de PEG 6000, KNO3 e PEG 6000 + KNO3, no potencial osmótico de -1,1MPa, durante oito dias numa temperatura de 25°C. Após o condicionamento, as sementes foram lavadas e secas sob condições ambientais até atingir seu peso original. Com o objetivo de verificar o efeito destes tratamentos sobre as características fisiológicas e bioquímicas, as sementes foram submetidas aos testes de germinação, porcentagem e índice de velocidade de protusão radicular, comprimento da plântula, teste de condutividade elétrica, emergência e índice de velocidade de emergência das plântulas e análise enzimática pelo sistema PAGE para as isoenzimas catalase e glucose-6-fosfato desidrogenase. Para comparação das sementes osmocondicionadas por imersão, foram utilizadas sementes secas e sementes condicionadas sobre papel, umedecido com solução de PEG 6000, no mesmo potencial, temperatura e período de condicionamento. O conteúdo de água atingido pelas sementes foi maior quando a embebição foi feita em solução salina pura, seguida pela mistura com PEG. Sementes condicionadas em PEG 6000 sobre papel apresentaram uma melhor performance, seguido pelo tratamento em solução salina de KNO3, enquanto que os métodos de imersão em soluções contendo o soluto PEG foram menos eficientes. Os resultados obtidos pelo teste de condutividade elétrica não foram consistentes com os resultados obtidos pelos demais testes para avaliação da qualidade fisiológica das sementes. A técnica de condicionamento osmótico constitui numa alternativa para a melhoria do desempenho de sementes de pimentão, recuperando lotes que apresentavam germinação próxima ao padrão nacional de comercialização para sementes certificadas. Termos para indexação: condicionamento osmótico, sementes, pimentão, vigor, enzimas. PHYSIOLOGICAL AND BIOCHEMICAL CHANGES IN PEPPER SEEDS SUBMITTED TO OSMOCONDITIONING, USING DIFFERENTS OSMOTIC AGENTS AND IMBEBITION MEDIUM ABSTRACT - Pepper seeds of the cultivar Yolo Wonder, treated with Captan and which presented germination of 69% were osmoconditioned in aerated solution of PEG 6000, KNO3 and PEG 6000 + KNO3, at the osmotic potential of -1.1MPa for eight days at a temperature of 25°C. Following conditioning, the seeds were washed and dried under environmental conditions until they reached their original weight. With the objective of verifying the effect of these treatments on physiological and biochemical characteristics, the seeds were submitted to the germination tests, percentage and velocity index of root protusion, seedling lenght, electrical conductivity test, emergence and seedling emergence velocity index and enzyme analysis by the PAGE system for the isoenzymes catalase and glucose-6-phosphate dehydrogenase. For comparison of the immersion osmoconditioned seeds, dry seeds and seeds conditioned on paper moistened with PEG 6000 solution were used at the 1 2 Aceito para publicação em 31.12.99; parte da Dissertação apresentada à UFLA, pela primeira autora, para obtenção do grau de Mestre em Agronomia na área de Fitotecnia. Engª. Agrª., estudante de Pós-Graduação do Curso de Doutorado em 3 4 5 Fitotecnia - UFLA, Cx. Postal 37, 37200-000, Lavras-MG. Engª. Agrª., D.Sc., Prof.a do Depto. de Agricultura - UFLA. Engº. Agrº., M.Sc., Prof. do Depto. de Agricultura - UFLA. Aluna do curso de Agronomia, UFLA. Revista Brasileira de Sementes, vol. 21, nº 2, p.217-223, 1999 218 S.C.B.R. JOSÉ et al. same potential, temperature and conditioning potential. Water content reached by the seeds was greater when soaking was done in pure saline solution, followed by the mixture with PEG. Seeds conditioned in PEG 6000 on the paper presented a better performance, followed by the treatment in KNO3 saline solution, while the immersion methods in solutions containing PEG solute were less efficient. The results obtained by the electric conductivity test were not consistent with the results obtained by the other tests for evaluation of seed physiological quality of seeds. The osmotic conditioning technique constituted an alternative to the improvement of the performance of pepper seeds, recovering lots which presented germination close to the national commercialization pattern of certified seeds. Index terms : osmotic conditioning , seeds, pepper, vigor, enzymes. INTRODUÇÃO Um dos sintomas do declínio do vigor é a redução da velocidade dos processos germinativos, frequentemente acompanhados por uma maior amplitude do tempo de germinação das sementes, que são atributos indesejáveis tanto para o produtor de sementes, quanto para o agricultor (Heydecker et al., 1975 e Powell, 1998). A germinação e emergência de sementes de pimentão frequentemente são lentas, particularmente sob condições de baixa temperatura, e quando semeadas diretamente, sua emergência é bastante desuniforme, necessitando de replantios (Kenneth & Sanders, 1987). Tratamentos pré-germinativos das sementes podem ser usados para incrementar a germinação, melhorar a uniformidade do estande, refletindo assim no rendimento final (Bray, 1995; Warren & Bennett, 1997 e Nascimento, 1998). Dentre eles, pode-se citar o condicionamento osmótico, uma técnica que envolve o controle da hidratação das sementes, suficiente para permitir eventos metabólicos pré-germinativos, porém insuficiente para permitir protusão da radícula (Heydecker & Gibbins, 1978 e Bradford, 1986). As sementes são embebidas numa solução, utilizando diversos agentes osmóticos, em temperaturas específicas e por períodos de tempo definidos, as quais irão absorver água até o ponto que atingirem o equilíbrio com o potencial osmótico da solução (Bray, 1995). Diversos benefícios têm sido relatados com o emprego da técnica, dentre eles, a maior probabilidade de se obter uma melhor germinação e emergência, particularmente em condições de estresse, como temperatura sub ou supra ótima (Eira, 1988; Borges et al., 1994 e Warren & Bennett, 1997). Sementes em estádio avançado de deterioração, vem mostrando uma resposta positiva ao incremento na velocidade de germinação, quando submetidas ao osmocondicionamento (Lanteri et al., 1996), permitindo um melhor aproveitamento dessas sementes. Melhoria no vigor após o condici- Revista Brasileira de Sementes, vol. 21, nº 2, p.217-223, 1999 onamento osmótico tem sido correlacionada com processos de reparo macromolecular durante o tratamento, bem como um balanço metabólico mais favorável das sementes pré-condicionadas no início da germinação (Lanteri et al., 1998). Com o envelhecimento há um declínio na atividade de enzimas que removem os peróxidos, como a catalase, contribuindo com o processo de deterioração (Nkang, 1988; Basavarajappa et al., 1991 e Jeng & Sung, 1994, citados por Brandão-Júnior, 1996). A atividade da glucose-6-fosfato desidrogenase, enzima pertencente à rota das pentoses, é importante na determinação do fluxo através da glicólise. O balanço entre a glicólise e a rota das pentoses assegura um suprimento adequado às sementes de poder redutor, ATP e esqueletos de carbono para a biossíntese de macromoléculas. Em sementes envelhecidas de brássicas, a atividade desta enzima é baixa, havendo uma restauração parcial da sua atividade após o condicionamento osmótico (Bettey & Finch-Savage, 1996). Dentre os fatores que afetam o condicionamento osmótico, incluem condições do meio de hidratação (temperatura e luz); contaminação microbiana; secagem das sementes; disponibilidade de oxigênio e agente osmótico (Brocklehurst & Dearman, 1984; Smith & Cobb, 1991 e Copeland & McDonald, 1995). O uso de sais contendo nitrato na opinião de Nerson & Govers (1986), citados por Smith & Cobb (1991), é mais eficiente que outros sais como agentes osmóticos, além de não reduzir a disponibilidade de oxigênio na solução (Heydecker & Coolbear, 1977), fato constatado quando se utiliza PEG, apresentando baixa solubilidade ao oxigênio (Furutani et al., 1986). No entanto, a absorção de íons da solução salina pelas sementes, além de poder contribuir para um distúrbio no balanço osmótico das células, estimulando o influxo de água nas sementes, pode causar toxidez às plântulas (Frett et al., 1991). A presente pesquisa teve como objetivo avaliar a influência de diferentes métodos de condicionamento osmótico ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS E BIOQUÍMICAS DE SEMENTES DE PIMENTÃO na qualidade fisiológica e modificações bioquímicas em sementes de pimentão. MATERIAL E MÉTODOS Sementes de pimentão da cultivar Yolo Wonder tratadas com Captan a 0,15% via úmida e que apresentavam uma germinação de 69% foram condicionadas com umidade inicial de 6,4% em solução aerada de PEG 6000, KNO3 e PEG 6000 + KNO3, utilizando potencial osmótico de -1,1MPa. O cálculo da concentração de PEG 6000 foi obtido de acordo com a equação de Michel & Kaufmann (1973), descrito por Villela et al. (1991), e a concentração do KNO3, de acordo com a equação de Van't Hoff (Hillel, 1971). O coeficiente osmótico a 25°C para a solução salina de KNO3 com molalidade entre 0,2 e 0,3 é de 0,873 e 0,851, respectivamente (Robinson e Stokes, 1949). Neste trabalho, foi considerado i = 1,72 (0,86 x 2). Para a mistura de PEG 6000 e KNO3, foram calculados 50% do potencial osmótico (-0,55MPa) para cada soluto, desconsiderando a interação entre os dois produtos. Na Tabela 1 estão indicadas as concentrações dos produtos utilizados na preparação das soluções. TABELA 1. Concentrações das soluções osmóticas a 25ºC (298ºK), para a obtenção do potencial osmótico de -1,1MPa. UFLA, Lavras - MG, 1999. Soluções osmóticas Concentração (g/l de água) PEG 6000 KNO3 PEG 6000 + KNO3 311,332 26,083 (258mM) 213,139 + 13,041 (129mM) Amostras de 25g de sementes foram colocadas em balão volumétrico, com capacidade de 1000ml, contendo 625ml da solução osmótica correspondente a cada tratamento. As sementes foram osmocondicionadas durante oito dias em câmara de germinação a 25°C, em ausência de luz. A aeração das soluções foi feita com o auxílio de compressor de ar para aquário, adaptando-se duas saídas para cada aparelho, uma saída para cada tratamento. Após oito dias, as sementes foram retiradas da solução e foi tomada uma amostra para determinação do grau de umidade. Para o estudo da germinação e do vigor, as sementes foram enxaguadas em água corrente por aproximadamente três minutos e por último em água destilada. Posteriormente, foram secas superficialmente com auxílio de papel toalha, permanecendo sobre bancada, em camada única, por aproximadamente 24 horas, até atingirem 219 o peso original. As sementes destinadas às análises enzimáticas foram enxaguadas e secas superficialmente, congeladas e posteriormente liofilizadas. Para comparação das sementes osmocondicionadas por imersão foram utilizadas sementes secas, sem tratamento de embebição, e sementes condicionadas sobre duas folhas de papel mata borrão, umedecidas com solução de PEG 6000 na proporção de 3ml: 1g de papel, em caixas tipo gerbox, nas mesmas condições (-1,1MPa, a temperatura de 25°C, durante oito dias), totalizando 0,81g de sementes por gerbox. As avaliações foram feitas através dos seguintes testes: determinação do grau de umidade - três repetições de 100 sementes para cada tratamento foram colocadas em estufa à 103± 2°C, por 17 ± 1hora, segundo Brasil (1992) e os resultados foram expressos em porcentagem média de umidade (base úmida); germinação - foi conduzido com quatro repetições de 50 sementes por tratamento, em caixas gerbox contendo duas folhas de papel mata borrão, umedecidas com água destilada na proporção de 3,0ml: 1g de papel. As sementes permaneceram em câmara de germinação a temperatura alternada de 20-30°C por 16/8 horas (escuro/luz respectivamente) e o número de plântulas normais foi avaliado no 14o dia, conforme Brasil (1992); porcentagem de protusão radicular - determinada durante o teste de germinação e as avaliações foram realizadas diariamente, em intervalos de 24 horas, quando as radículas apresentavam no mínimo 1mm, sendo calculado posteriormente o índice de velocidade de protusão radicular, de acordo com a fórmula proposta por Maguire (1962), citado por Vieira & Carvalho (1994): IVPR = G1 G 2 Gn + + ... + N1 N 2 Nn onde: IVPR = índice de velocidade de protusão radicular; G1, G2, .... Gn = número de sementes com protusão da radícula (+ de 1mm), computadas na primeira contagem, segunda contagem, ... , última contagem; N1, N2, ... Nn = número de dias de semeadura à primeira, segunda, ... , última contagem. Comprimento da plântula - foi realizado em caixas gerbox, com quatro repetições de 25 sementes para cada tratamento, que foram semeadas com a radícula voltada para baixo, no terço superior do papel mata borrão pré-umedecido. Cada repetição foi distribuída em duas caixas gerbox, que foram posicionados de maneira a formar um ângulo de 45° com a grade da câmara de germinação e as condições do teste foram as mesmas relatadas para o teste de germinação. Após sete dias as plântulas normais foram medidas com o auxílio de uma régua graduada em milímetros, obtendo-se o Revista Brasileira de Sementes, vol. 21, nº 2, p.217-223, 1999 220 S.C.B.R. JOSÉ et al. comprimento total e os resultados foram expressos em milímetros (Vieira & Carvalho, 1994); emergência das plântulas - foram semeadas cinquenta sementes por repetição, num total de quatro repetições para cada tratamento, em bandejas de isopor com 128 células e tamanho 66,0 x 34,0 x 5,5cm, utilizando-se como substrato uma mistura de plantimax com casca de arroz carbonizado, numa proporção de 3:1, respectivamente. Foram semeadas duas sementes em cada célula numa profundidade de 1cm, tendo o cuidado da não interferência no desenvolvimento de uma sobre a outra e as bandejas permaneceram em casa de vegetação, com sistema de irrigação por nebulização e as médias das temperaturas máximas e mínimas foram respectivamente 26,2 e 14,4°C. As avaliações das plântulas, com cotilêdones acima da superfície do substrato, foram realizadas diariamente até 14 dias após a instalação do teste. O índice de velocidade de emergência foi calculado de acordo com a fórmula de Maguire (1962), citado por Vieira & Carvalho (1994): IVE = E1 E 2 En + + ... + N1 N 2 Nn rolidone, 0,4% de polietilenoglicol e 1mM EDTA). As amostras ficaram incubadas no gelo, e permaneceram em geladeira por 12 horas. Após este período, foram centrifugadas à 14000rpm por 60 minutos a 4°C. Quarenta microlitros do sobrenadante de cada tratamento foram aplicados em géis de poliacrilamida a 4,5% (concentrador) e 7,5% (separador) e a corrida eletroforética foi realizada a 150V. A revelação para os sistemas isoenzimáticos CAT e G6P, foi conduzida segundo metodologia de Alfenas et al. (1991). O delineamento experimental utilizado, nos testes de laboratório e na casa de vegetação, foi o inteiramente casualizado, com quatro repetições, com exceção do grau de umidade, em que foram utilizadas três repetições. Os dados foram interpretados estatisticamente por meio da análise de variância, com exceção da análise eletroforética, e aqueles expressos em porcentagem de germinação foram transformados em arco-seno % /100 , para efetuar a análise estatística (Gomes, 1987). As médias foram comparadas pelo teste de Scott e Knott, a 5% de probabilidade, e destransformadas para a apresentação dos resultados. onde: IVE = índice de velocidade de emergência; E1, E2, ... RESULTADOS E DISCUSSÃO En = número de plântulas emergidas, computadas na primeira contagem, segunda contagem, ... , última contagem; N1, A análise de variância revelou diferenças significativas N2, ... Nn = número de dias de semeadura à primeira, segunentre os tratamentos para todos os testes de laboratório e casa da, ... , última contagem. de vegetação e as médias obtidas para cada variável analisaCondutividade elétrica - foi efetuada com quatro repeda estão representadas nas Tabelas 2 e 3. tições de 50 sementes, aparentemente intactas, que foram seleAs sementes condicionadas em solução salina pura (KNO3) atingiram o maior teor de água (Tabela 2), seguidas cionadas e pesadas (0,001g) para cada tratamento. Em seguida, foram imersas em 25ml de água destilada, por 24 horas, à em ordem decrescente pelas sementes imersas nas soluções temperatura de 25°C e os resultados expressos em mS/cm/g de sementes (Marcos-Filho, 1998); atividade enzimática - foi utilizada a técnica TABELA 2. Médias do grau de umidade (U); plântulas normais do teste de germinação (G); porcentagem de protusão radicular (PR) da eletroforese através da detecção de alterae índice de velocidade de protusão radicular (IVPR) das ções nos padrões izoenzimáticos específicos e sementes de pimentão cultivar Yolo Wonder, embebidas nas foi avaliada a atividade das izoenzimas catalase soluções aeradas de PEG 6000, KNO3, PEG 6000 + KNO3; solução de PEG 6000 sobre papel, com potencial osmótico de (CAT-sistema de membrana) e glucose-6-1,1MPa e temperatura de 250C, durante oito dias e testefosfato desidrogenase (G6P-rota das pentoses munha sem tratamento de embebição. UFLA, Lavras - MG, fosfato). Para análise eletroforética de 1999. izoenzimas, foram utilizadas aproximadamenTratamentos U (%) G (%) PR (%) IVPR te 14g de sementes para cada tratamento, previamente liofilizadas, trituradas a frio em moiImersão PEG 6000 39,0 c 68,97 c 80,28 b 6,75 c nho refrigerado a 4°C e armazenadas em "deep 46,6a 79,18 b 87,87a 14,97 b KNO 3 freezer" a -86°C. Para extração das enzimas, 41,7 b 72,83 c 79,83 b 7,82 c PEG 6000 + KNO3 100mg do pó das sementes referentes a cada PEG 6000 sobre papel 35,7 d 86,19a 91,78a 18,65a tratamento foram ressuspendidos em 300ml do Testemunha 6,8 e 64,26 c 85,28a 4,86 d tampão de extração (Tris HCl 0,2 M, pH 8,0 + Médias seguidas pela mesma letra minúscula na coluna, não diferem entre si pelo teste de Scott e Knott, 0,1% de bmercaptoetanol, 0,4% de polivivilpir- a 5%. Revista Brasileira de Sementes, vol. 21, nº 2, p.217-223, 1999 ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS E BIOQUÍMICAS DE SEMENTES DE PIMENTÃO 221 de KNO3 + PEG, imersão em PEG e PEG sobre papel, o que velocidade de protusão radicular para o tratamento que prodemonstra que a velocidade de embebição foi dependente das moveu um menor conteúdo de água nas sementes (PEG no propriedades do soluto utilizado e também do método de conpapel), sugerindo que o benefício proporcionado pelo condidicionamento. O íon NO3- pode ter sido absorvido pelas secionamento osmótico foi consequência de mecanismos de reparo que atuam no processo de deterioração das sementes, mentes, reduzindo o seu potencial osmótico e estimulando o conforme relatado por Lanteri et al. (1998). influxo de água, como constatado por Frett et al. (1991). Não houve incremento significativo na porcentagem de plântulas A exemplo dos demais testes, a superioridade do tratanormais, avaliada pelo teste de germinação, quando as semento PEG sobre papel também foi constatada na avaliação mentes foram imersas em soluções contendo o soluto PEG, do comprimento de plântula (Tabela 3). Apesar dos demais comparando-se com o desempenho da testemunha. Isto protratamentos não terem apresentado diferenças significativas entre si, foram superiores à testemunha, que não atingiu o vavelmente ocorreu devido a alta viscosidade da solução de estádio de plântula normal. Desta forma, os resultados sugePEG, que parece ter proporcionado uma disponibilidade de oxigênio inadequada para estas soluções. O condicionamenrem que o osmocondicionamento foi eficiente em reverter o to osmótico em solução de PEG sobre papel aumentou signiprocesso deteriorativo, permitindo uma maior atividade meficativamente a porcentagem de germinação, com 25% a mais tabólica pré-germinativa e consequentemente um incremento no total de plântulas normais, seguido pela imersão em KNO3, no desenvolvimento das plântulas. O efeito benéfico do condicionamento osmótico também pôde ser evidenciado pelo com um aumento de 18% em relação à testemunha. O uso de baixo desempenho da testemunha, que apresentou emergênsais pode ter contribuído para um distúrbio no balanço osmótico das células, aumentando a taxa de absorção de água, como cia bastante reduzida comparada com os demais tratamentos, mencionado por Frett et al. (1991), o que pode ter ocasionaem condições de casa de vegetação. Os tratamentos de PEG do algum tipo de dano durante o processo de embebição das sobre papel e KNO3 possibilitaram as maiores porcentagens de emergência, seguidos pelos tratamentos de solução aerada sementes. A porcentagem de protusão radicular das semende PEG e PEG + KNO3. Comparando os resultados deste tes não foi aumentada quando submetidas aos tratamentos teste com os obtidos no teste de germinação (Tabela 2), podecom PEG sobre papel e imersão no KNO3, em relação a tesse observar que os ganhos obtidos na porcentagem de emertemunha, contudo os tratamentos de imersão em PEG e PEG + KNO3 foram iguais entre si e inferiores aos demais. Uma gência em relação à testemunha, foram mais pronunciados redução na porcentagem de protusão radicular em sementes em condições de casa de vegetação. O índice de velocidade de cebola também foi verificada por Furutani et al (1986) de emergência revelou a superioridade do tratamento em solução de PEG sobre papel, em relação aos demais. Os trataquando o condicionamento foi realizado em solução aerada mentos de PEG em solução aerada e PEG + KNO3, apesar de de PEG a -1,1MPa. Vale ressaltar que a porcentagem de protusão radicular foi superior a de germinação para todos os tratamentos. No entanto, as maiores diferenças entre essas duas variáveis ocor- TABELA 3. Médias do comprimento de plântula (CP); emergência e índice de velocidade de emergência das plântulas, reram na testemunha (em torno de 24%), e para o respectivamente (EP) e (IVE); e condutividade elétrica (CE) tratamento PEG sobre papel, essa diferença foi das sementes de pimentão cultivar Yolo Wonder, embebidas de apenas 6%. Esses resultados reforçam o imnas soluções aeradas de PEG 6000, KNO3, PEG 6000 + KNO3; solução de PEG 6000 sobre papel, com potencial portante papel do condicionamento na reversão osmótico de -1,1MPa e temperatura de 25ºC, durante oito do processo deteriorativo de sementes. Todos dias e testemunha sem tratamento de embebição. UFLA, os tratamentos de condicionamento proporcioLavras - MG, 1999. naram um aumento na velocidade de protusão Tratamentos CP (mm) EP (%) IVE CE (µS/cm/g) radicular das sementes, avaliado pelo IVPR em relação à testemunha, porém houve diferenças Imersão PEG 6000 2,2 b 73,50 b 2,08 c 30,85a entre eles. O tratamento PEG no papel, propi2,2 b 80,62a 2,98 b 177,13 c KNO3 ciou aumentos da ordem de 74%, seguido da 2,0 b 72,40 b 2,25 c 102,95 b PEG 6000 + KNO3 solução de KNO3, com 67,5%; de PEG + KNO3 PEG 6000 sobre papel 2,5a 85,28a 3,57a 64,41a com 37,9% e da solução PEG, com 28% em Testemunha 0,0 c 39,05 c 0,99 d 176,93 c relação à testemunha, respectivamente. Esses Médias seguidas pela mesma letra minúscula na coluna, não diferem entre si pelo teste de Scott e Knott, resultados indicam um aumento considerado na a 5%. Revista Brasileira de Sementes, vol. 21, nº 2, p.217-223, 1999 222 S.C.B.R. JOSÉ et al. ainda se apresentarem superiores à testemunha, mostraramse não satisfatórios. Uma das principais vantagens do osmocondicionamento relatadas por Eira (1988) e Warren & Bennett (1997), seria promover uma emergência mais rápida e uniforme das plântulas no campo, proporcionando um estande adequado, mesmo em condições adversas. As sementes osmocondicionadas em soluções de PEG, tanto em imersão quanto em papel, foram as que apresentaram os menores valores de condutividade elétrica de seus exsudatos. Os maiores valores foram observados nos tratamentos conduzidos em soluções salinas, uma vez que os íons dissociados das soluções contendo sais, provavelmente podem ter penetrado nos tecidos das sementes e, posteriormente, terem sido liberados na solução de embebição, contribuindo para aumentar os resultados de condutividade elétrica. De qualquer forma, este foi o único teste a destacar o tratamento de solução de PEG aerada. O teste de condutividade elétrica tem sido proposto na avaliação do vigor das sementes, estando relacionado com a integridade das membranas celulares. Porém existem diversos fatores que interferem nos resultados, não podendo se restringir somente à quantidade de lixiviados detectada na solução de embebição. Os perfis isoenzimáticos revelaram para a catalase (CAT), uma diminuição da intensidade da banda para a testemunha, e entre os tratamentos de condicionamento osmótico, a solução de PEG em imersão apresentou uma menor atividade (Figura 1). A redução da atividade desta enzima nas sementes secas explica-se pelo fato dessas apresentarem um maior nível de deterioração e sua atividade reduzida faz com que as sementes estejam mais susceptíveis aos efeitos deletérios do O2 e radicais livres sobre os ácidos graxos insaturados de membrana, comprometendo o seu vigor. Com relação à glucose-6-fosfato desidrogenase (Figura 2), pode-se notar uma maior intensidade de banda no tratamento PEG sobre papel, seguido do KNO3. Para os demais tratamentos, houve uma tendência de perda de atividade desta enzima. A rota das pentoses parece ser importante na regulação da germinação (Comê et al., 1988; Comê & Corbineau, 1983 e Perino & Comê, 1991, citados por Bettey & Finch-Savage, 1996), e os resultados obtidos com a análise da enzima G6P, reforçam àqueles obtidos nos demais testes determinantes da qualidade fisiológica das sementes, em que os tratamentos que se destacaram em aumentar o vigor das sementes, refletindo na velocidade de germinação, foi o de PEG sobre papel e de KNO3. FIG. 2. Padrões isoenzimáticos de sementes de pimentão submetidas ao condicionamento osmótico em soluções aeradas de PEG (T1), KNO3 (T2) e PEG + KNO3 (T3); PEG sobre papel (T4) e testemunha (T5), revelados para a glucose-6-fosfato desidrogenase (G6P). UFLA, Lavras - MG, 1999. CONCLUSÕES FIG. 1. Padrões isoenzimáticos de sementes de pimentão submetidas ao condicionamento osmótico em soluções aeradas de PEG (T1), KNO3 (T2) e PEG + KNO3 (T3); PEG sobre papel (T4) e testemunha (T5), revelados para a catalase (CAT). UFLA, Lavras - MG, 1999. Revista Brasileira de Sementes, vol. 21, nº 2, p.217-223, 1999 Os resultados obtidos neste trabalho permitem concluir que: ! a técnica de condicionamento osmótico é eficiente em melhorar a performance de sementes de pimentão de baixa qualidade inicial; ! sementes osmocondicionadas em papel embebido com solução osmótica de PEG 6000 a -1,1MPa, numa temperatura de 25ºC durante oito dias, apresentaram qualidade fisiológica superior à testemunha. O pré-condicionamento realizado em solução osmótica aerada de KNO3 também melhorou a performance das sementes, tendo a vantagem de ser mais viável para aplicação comercial; ! condicionamento osmótico em solução aerada de PEG 6000, foi menos eficiente na promoção do incremento da velocidade de germinação das sementes de pimentão e desenvolvimento das plântulas; ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS E BIOQUÍMICAS DE SEMENTES DE PIMENTÃO ! as enzimas catalase e glucose-6-fosfato desidrogenase são eficientes em acompanhar a melhoria na perfor-mance das sementes de pimentão, ocasionada pelo condicionamento osmótico. 223 HEYDECKER, W. & COOLBEAR, P. Seed treatments for improved performance - survey and attempted prognosis. Seed Science and Technology, Zürich, v.5, n.1, p.353-425, 1977. HEYDECKER, W. & GIBBINS, B.M. The priming of seeds. Acta Horticulturae, Wagening, n.83, p.231-223, 1978. REFERÊNCIAS HEYDECKER, W.; HIGGINS, J. & TURNER, I.J. Invigoration of seeds? 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