1 2 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte GrupoVila 60 anos entre a vida e a morte 3 M141g Macedo, Myrla Celene Oliveira de. Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte / Myrla Celene Oliveira de Macedo, Branca de Paula Braga, Aline Ricciardi Carneiro. – Natal, 2008. 65f. TCC – Projeto (Graduação em Comunicação Social – Jornalismo) – Universidade Potiguar. Pró-Reitoria de Graduação. Bibliografia f.135-142. 1. Comunicação Social – Jornalismo – Projeto. 2. Morte – Grupo Vila. 3. Vida – Grupo Vila. 4. Luto – Grupo Vila. 5. Grupo Vila – Trajetória. I. Braga, Branca de Paula. II. Carneiro, Aline Ricciardi. I. Título. RN/UnP/BCNC CDU: 070(043) 4 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte GrupoVila 60 anos entre a vida e a morte Aline Ricciardi Branca Braga Myrla Oliveira 5 Dedicamos este trabalho a todos que, de forma direita ou indireta, nos ajudaram em sua conclusão. De forma especial, a nossa família pela compreensão e apoio. 6 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Agradecimentos H á muitas pessoas que eu gostaria de agradecer durante toda a trajetória da minha vida. Muitos que estiveram e estão ao meu lado até hoje me apoiando, me aconselhando e, principalmente, me ajudando a ser uma pessoa melhor a cada dia. Todas as pessoas que já conheci até os dias de hoje, com certeza são especiais e estarão para sempre em meu coração. Em primeiro lugar, agradeço a Deus todos os dias pela minha existência, pela oportunidade única que é viver. É dormir todos os dias com o brilho das estrelas nos olhos e acordar com um sol no sorriso, me mostrando sempre que apesar de todos os obstáculos, viver sempre vale à pena. E o melhor presente Deus me deu: a vida, me ensinando a lutar pelo que é meu. 7 Depois vem aquela que, junto de Deus, me colocou no mundo e tenta de todas as maneiras, até hoje, me ensinar o que é certo, a ser uma pessoa de bem, aquela que sempre meu deu amor, carinho, puxões de orelha quando precisei e sempre me apóia e me ampara nos momentos mais difíceis e dolorosos da minha vida. Por ela, um amor incondicional. A você, minha mãe querida, muito obrigada por tudo. Por tudo mesmo. Amo-te para sempre. Um amor além da vida. Ao meu padrinho, Telmo, e minha prima, Andrea, que sempre estiveram ao meu lado nos melhores momentos e uma palavra amiga e um ombro para chorar quando as coisas não estavam bem. A essas pessoas, o meu muito obrigada e que recebam sempre em dobro todas as coisas boas que vocês já me ofereceram ao longo desses 28 anos da minha existência. Amo vocês de todo meu coração! Aos meus amigos, Felipe, Monique, Carlos e Rossana, que sempre acreditaram em mim e que estiveram ao meu lado em todos os momentos. Aos funcionários do Grupo Vila, que me acolheram e me ajudaram com informações riquíssimas para o desenvolvimento do livro-reportagem. A todos, obrigada por tudo e perdão pelas falhas cometidas ao longo dessa jornada. É para todos vocês que eu dedico este trabalho, pois se eu consegui chegar até aqui foi 8 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte porque vocês acreditaram em mim e não deixaram que eu desistisse em momento algum. E vamos celebrar a vida para que a nossa morte seja apenas uma passagem para outra vida ainda melhor. Ao orientador, Manoel Pereira, a minha imensa gratidão por todo carinho e paciência nesses dois últimos anos e principalmente neste último semestre. O que seria desse trabalho sem você, né, Manoel, sem seus conselhos, orientações e puxões de orelha? Com certeza, nada seria. Obrigada por tudo! Às minhas amigas Branca Braga e Myrla Oliveira, por todos os perrengues que passamos juntas e por acreditarmos sempre umas nas outras. Aline Ricciardi 9 Agradecimentos Q uero agradecer primeiramente à Deus, por estar sempre perto de mim, me ajudando a vencer mais essa etapa da minha vida. À minha mãe, Daniela Sá, que sempre esteve ao meu lado nos momentos em que mais precisei. Ao meu pai, Paulo Henrique, muito obrigada pelos valores que me ensinastes. Tenho certeza de que sem eles não conseguiria ter chegado até aqui. Ao meu esposo, namorado, amigo e companheiro, Vagner Araújo, meu maior incentivador. Obrigada pela paciência, apoio e por sempre ter acreditado em mim. Ao meu filho Daniel, pelo simples fato de existir. O meu amor por você me faz cada vez mais ter vontade e força para encarar desafios como este. 10 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte À Manoel Pereira, meu orientador. O que seria da gente sem você, hein? Muito obrigada pela atenção dedicada, pelos trabalhos corrigidos nos finais de semana, por tudo de bom que nos ensinaste durante esses dois anos de convívio. À minha irmã Maria Fernanda, à minha madrasta e jornalista, Thaísa Galvão. Obrigada pelos “toques”. Com certeza você também é responsável pela realização desse sonho. As minhas avós, Neide Sá e Ivany de Lima. Ao meu “tio” Ronaldo Santos, muito obrigada pela força. Aos meus enteados, Dante, Douglas e Paula. Vocês foram muito legais, viu? As meninas que trabalham comigo, Jane, Andréa e Ceiça, obrigada por tudo. Vocês foram fundamentais para a realização deste trabalho. As minhas amigas de Psicologia, Magali, Mara, Rafa, Carol e Úrsula. Meninas, sem a ajuda de vocês nada disso seria possível. Obrigada mesmo. E a todas as outras pessoas que de alguma forma contribuíram para a realização deste trabalho. Muito obrigada. Aos diretores e funcionários do Grupo Vila que nos ajudaram na realização desse trabalho. Branca Braga 11 Agradecimentos A realização desse trabalho só tornou-se possível mediante a colaboração essencial de várias pessoas. Diante da impossibilidade de agradecer individualmente a cada uma delas, quero, aqui, aproveitar esse espaço para demonstrar minha gratidão a todos que me acompanharam e estimularam durante todo o processo de produção deste livro. Agradeço, primeiramente, a Deus, por ter conseguido vencer mais esse desafio e por todas as bênçãos que Ele me concede diariamente. À minha mãe, pelo apoio, incentivo e força durante todos os dias de minha vida. Por acreditar em mim e não me deixar desistir, mesmo diante dos empecilhos que sempre surgem. 12 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Ao meu pai e meus irmãos, pela torcida e por entenderem as ausências. Aos meus avós, alicerces da minha vida. Ao orientador e amigo, Prof. Dr. Manoel Pereira, pela paciência, pelas inúmeras leituras, pelo carinho, pela amizade, pelo ânimo, pelo apoio e estímulos constantes. Aos diretores do Grupo Vila, Eduardo Vila, Magno Vila e Nilo Vila, que se dispuseram a nos contar suas memórias, e aos gestores Heber Vila e Tatiana Rocha, que compreenderam a importância do nosso trabalho e se dispuseram a ajudar no que fosse preciso. Aos funcionários do grupo, pela colaboração e pela abertura em participar desse projeto. Aos meus companheiros de trabalho, Alessandra Oliveira, Rafael Kazuo e João Lucas, pela compreensão nas horas mais críticas. Ao amigo Airton Minchoni, pela paciência, pelas dicas, pelo estímulo e pela ajuda até a realização do trabalho final. Aos amigos Vânia Teodoro, Giselle Gadelha, Cleice Magalhães, Edwin Carvalho e Erika Zuza pela amizade e apoio constantes. À Branca Braga e Aline Ricciardi, amigas que trocaram comigo as angústias vividas nesse período acadêmico. À Daniela Mercury, amiga, fonte de força e inspi- 13 ração, pelas músicas, pelo carinho, pela generosidade e pelo amor. À Leonardo Gamberoni, pela concepção gráfica desde livro. Aos colegas de curso que estiveram junto a mim por toda essa jornada. Myrla Oliveira 14 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Prefácio Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte. Sêneca 15 A morte é, ainda, um tema polêmico e controverso. Abordar essa temática em qualquer meio da nossa sociedade, desperta a sensação de angústia e de pavor entre as pessoas. Indago-me: porque a morte é algo tão intrigante? Nas páginas a seguir deste livro-reportagem, produzido como projeto experimental de conclusão de curso, as autoras privilegiaram discutir esse assunto, destacando a presença de uma dos principais grupos empresariais do estado do Rio Grande do Norte que atua nesse setor mortuário, o Grupo Vila. O referido grupo comemora agora, em 2008, 60 anos de atuação e de prestação de serviço à sociedade norte-riograndense. Atua na seara da morte e das suas implicações, no que se refere aos serviços funerais, como centros de velório, sepultamento e cemitérios. Por outro lado, a empresa também oferece serviços relacionados à vida, como planos de assistências à saúde, projetos sociais e de âmbito da qualidade de vida de idosos. Por causa disso, as autoras escolheram um título bastante pertinente: ‘60 anos entre a vida e a morte’, e traçaram os capítulos deste livro em consonância e em sintonia com o que significa morrer. Elas trazem à baila os profissionais que trabalham com esse tipo de atividade que, muitas vezes, são consideradas profissões subalternas e de segunda categoria, como 16 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte coveiro, agente funeral, entre outras funções, que, geralmente, são apelidados de modo jocoso como “papas-defunto”. As autoras desmistificam neste livro, de certo modo, o paradigma de morte na nossa concepção ocidental, e traçam, através da tessitura dos seus textos e do cenário da atuação do Grupo Vila, o que significa morrer e viver. Nos capítulos seguintes, nota-se também, a importância ao destacar os projetos sociais e de bem-estar do referido grupo, desmistificando também, que não apenas os serviços após a morte são oferecidos, como acredita a maioria da população do nosso estado, nesses 60 anos do Grupo Vila. Sem perder o foco, as autoras souberam aliar essa grande reportagem sobre o tema morte com a mídia, mais especificamente, com o Jornalismo, área de interesse e de atuação das produtoras dessa obra. Trazer o panorama de como a imprensa local trata e aborda o tema, e o objeto de análise, através dos fragmentos dos jornais, como o dia de finados, por exemplo, nos faz refletir sobre importância dessa data e da representação da morte e da vida em nossas vidas. Adentrar nesse tema é viajar nas páginas desse livroreportagem, com o cuidado da seleção cuidadosa das fontes. Os caminhos percorridos pelas autoras, na busca de construir uma grande reportagem, nos padrões que as técnicas jornalistas exigem, tornam o tema mais ameno e mais insti- 17 gante. Esse trabalho também possibilita conhecer a atuação e a trajetória do Grupo Vila, sem tornar-se um trabalho de cunho publicitário ou piegas. Morrer faz parte da vida. Viver é apenas uma trajetória estabelecida entre o nascimento e a morte da nossa matéria, o corpo. Viver e morrer são etapas da vida que todos nós vivenciamos e temos a certeza que existem. Apropriando-me das palavras das autoras, “a morte é a única certeza da vida”. Finalizo, reportando-me a uma canção que diz, mais ou menos, assim: “todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém quer morrer”. Após a leitura deste livro, creio que você vai pensar de modo diferente sobre a morte, sobre o fim. Manoel Pereira da Rocha Neto Jornalista e professor de Comunicação Social 18 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Sumário Capítulo I Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte 19 Capítulo II Há vida após a morte 37 Capítulo III Morte: a única certeza da vida 57 Capítulo IV A vida além da morte 77 Capítulo V 105 Morte e vida por meio da mídia: Grupo Vila e o Dia de Finados Posfácio 131 Referências 135 19 20 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Capítulo I Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte “A morte é apenas uma travessia do mundo, tal como os amigos que atravessam o mar e permanecem vivos uns nos outros.” William Penn 21 U ma cidade com ares de província, com pouco mais de 100 mil habitantes, em que tudo estava ainda no começo. Esta era Natal na década de 1940. Na época, as funerárias eram poucas e modestas, com carros fúnebres de carroceria de madeira e cortina de veludo. “Quando papai criou a São Francisco, só existiam quatro funerárias na cidade: Nossa Senhora do Carmo, na Rua Gonçalves Ledo, e São Vicente de Paulo, na Rua Princesa Isabel, na Cidade Alta, São Jorge, na Rua São Jorge, nas Rocas, e Caminho do Céu, na Avenida Presidente Bandeira, aqui no Alecrim”, disse Magno Vila, um dos diretores do Grupo Vila. Foi nesse cenário que, em 1948, Aurino Vila, então com 34 anos, alugou um ponto comercial na Avenida Coronel Estevam, no bairro do Alecrim, para montar uma pequena empresa: a Casa Mortuária São Francisco das Chagas, que se tornaria uma das mais tradicionais empresas do ramo no Nordeste. Aurino Alexandrino Vila nasceu em 06 de janeiro de 1914, filho de Ana Ferreira Vila e Virgílio Alexandrino Vila. Casou-se com Francisca Hermelinda Vila, carinhosamente chamada de Cotinha Vila, nascida em 16 de maio de 1916, com quem teve oito filhos: Áurea, Aurino, Eduardo, Fernando, Magno, Nilo, Salete e Virgílio. “Vovô era tio legítimo de vovó, e isso nunca trouxe problemas para nossa família”, disse Magno rindo, referindo- 22 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte se à crendice popular de que parentes de primeiro e segundo grau não podem se casar, sob o risco de que seus filhos nasçam com problemas mentais. Em 1948, Aurino Vila decidiu mudar de vida e alterar a maneira como as pessoas lidavam com a perda de entes queridos. Aurino já trabalhara em uma mercearia e em uma loja de tecidos, antes de ser proprietário de funerária, indo de encontro à vontade de sua mãe. “Mamãe nunca deu opinião sobre papai ser dono de funerária. Aliás, naquele tempo, a mulher não podia dizer muita coisa, né? Lembro como se fosse hoje que, quando papai chegava em casa, a mesa já estava pronta, os chinelos estavam à porta e a roupa dele, em cima da cama”, relembra Magno. A Casa Mortuária São Francisco das Chagas começou com um Ford-29 como carro fúnebre. Dois anos depois, uma Fargo-48 com carroceria de madeira e cortina de veludo com franjas douradas foi adquirida. O ponto alugado dera lugar a uma sede própria, também na Avenida Coronel Estevam, para ampliar os serviços funerários. No mesmo prédio, mandou também construir um primeiro andar para ser a nova residência da família. Com a participação dos filhos nos negócios e o crescimento da empresa, em 1962, Virgílio Neto adquiriu uma 23 Pick-up Chevrolet 0 km, que foi transformada em carro fúnebre, mantendo a carroceria de madeira. “Papai dizia que era muito importante estudar e sempre deu oportunidade a todos nós. Nunca nos faltou nada e não éramos obrigados a trabalhar, porque nossa única obrigação era estudar e terminar o científico”, comenta Magno. “Alguns de nós quiseram continuar os estudos, como é o caso de Eduardo e Virgílio. Eu, Aurino, Nilo e Fernando resolvemos trabalhar na funerária”. Segundo o artigo Empresa Familiar: entre o profissional e o afetivo, de Luciana Lyra, as empresas familiares são a forma predominante de empresas em todo o mundo. Nas economias capitalistas, a maioria das empresas se inicia com idéias, o empenho e o investimento de indivíduos empreendedores junto com seus familiares. No início dos anos 1950, Aurino Vila comprou a Funerária São Vicente, na Rua Princesa Isabel, e montou uma filial da São Francisco. Algum tempo depois, o prédio foi vendido e a segunda unidade da empresa mudou-se para a Avenida Rio Branco, no bairro de Cidade Alta. Após várias mudanças e com a morte do seu fundador, em 1965, por problemas cardíacos, a empresa iniciou uma nova fase, com a participação ativa dos filhos em sua administração. Mas não foi nada fácil. “Nós éramos origi- 24 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte nalmente do Alecrim e conhecidos como uma empresa do Alecrim. E, por este ser um bairro popular de Natal, éramos vistos de uma forma depreciativa, até pelo fato também de sermos um serviço funerário”, relembra Eduardo Vila, diretor do Grupo. Com sua morte, Aurino Vila deixou a viúva e oito filhos, três já casados, quatro ainda adolescentes e o caçula, de apenas oito anos. Os negócios foram administrados por Aurino Filho e Magno. A empresa experimentou um acentuado desenvolvimento e, pela primeira vez, passaram a dispor de um carro que não fossem os fúnebres. “Quando terminei o científico, meu irmão (Aurino) perguntou se eu queria trabalhar ou continuar os estudos. Eu não tive dúvidas, porque sempre quis trabalhar e, além disso, eu não gostava muito de estudar (risos)”, lembra Magno. “Eu, Nilo e Fernando nunca pensamos em fazer outra coisa na vida. Trabalhar nas funerárias de papai foi escolha nossa”, completa Magno. Desde que assumiram, há 43 anos, mergulharam de cabeça nos negócios da família. Apenas em 1968, a Funerária São Francisco passou a funcionar no atual endereço, na Avenida Presidente Bandeira, também no Alecrim, onde, até hoje, o Grupo Vila mantém um escritório e uma unidade da funerária. 25 “Um conhecido nosso herdou a Funerária Nossa Senhora do Carmo do pai, mas como ele era formado em odontologia e professor da universidade, não tinha interesse em desenvolver o negócio. A funerária ainda funcionou um tempo, mas depois ele resolveu vender tudo e nós compramos o prédio, os carros e até aproveitamos alguns funcionários”, diz Magno. Com a idéia de diversificar os negócios e inovar, esses jovens administradores criaram, no final dos anos 1960, uma loja de presentes finos, a Cristo Redentor, na Avenida Coronel Estevam, no prédio de propriedade de Aurino Vila, onde funcionava antes a Funerária São Francisco, que se mudou para Avenida Presidente Bandeira. Na loja, administrada por Cotinha Vila, Aurino Filho e Fernando, a população natalense podia encontrar os melhores presentes em porcelana, prata, inox, adorno, etc. Apesar da excelência do empreendimento, não ocorreu o retorno previsto. Algum tempo depois, a loja Cristo Redentor mudou-se para a Avenida Marechal Deodoro da Fonseca, próximo ao Colégio Imaculada Conceição. A família passou, então, a morar na casa que havia na lateral da loja. Houve mais duas tentativas de ampliar os negócios da empresa: a primeira foi a fundação do Hotel San Francisco, também na Avenida Coronel Estevam, no início dos anos 26 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte 1970; e a outra, em 1984, foi a construção de um centro de velório, que seria o primeiro do Rio Grande do Norte, mas as obras foram abandonadas por falta de recursos. Aurino Filho pensou em criar o Hotel San Francisco para oferecer ao Alecrim um serviço de hospedagem adequado à importância comercial do bairro. Os Vila sempre tiveram uma relação muito forte com o Alecrim, pois a família morou no bairro quase toda a vida. “Na época da criação da funerária, toda nossa família morava ou tinha algum comércio aqui no Alecrim. Nós já moramos em praticamente todos os lados desse quarteirão (onde existe atualmente o escritório do Grupo). Moramos na Avenida dos Pajeus, na Presidente Quaresma e na Coronel Estevam”, relembra Magno. A importância do bairro do Alecrim para a cidade do Natal não se resume apenas à disponibilidade dos serviços e à existência de um grandioso espaço comercial. É mais que isso. Localizado em uma área central, com a existência de longas avenidas, o deslocamento para qualquer parte da cidade se torna facilitado. O fluxo viário, as ruas especializadas pelo comércio em toda a sua organização urbana, na época, não implicariam na mudança de algumas características do bairro como a permanência de um grande número de residências e a manutenção de importantes feiras populares. 27 Com a criação do hotel, Aurino passou a administrar exclusivamente esse empreendimento. A mãe, Cotinha Vila, e o irmão, Fernando, cuidavam da loja Cristo Redentor. Virgílio se desligou dos negócios em 1963, pois se formou em odontologia e resolveu seguir a profissão. Fernando também se afastaria dos negócios para montar sua própria funerária, a Menino Jesus, que funciona até hoje na antiga casa da família, na Avenida Coronel Estevam. Eduardo Vila formou-se em engenharia civil e mudouse para Manaus, na Amazônia, para exercer a profissão. Trabalhou na cidade por 10 anos, então, voltou para Natal para se juntar aos irmãos na administração dos empreendimentos do Grupo Vila. A empresa comprou um terreno na Rua Alberto Silva com Avenida Hermes da Fonseca, próximo ao Hospital Walfredo Gurgel, para construção do primeiro centro de velório da cidade do Natal. No entanto, em virtude de muitas despesas com o Hotel San Francisco, o terreno foi vendido e, no local, foram erguidos quatro blocos de apartamentos que existem até hoje. O condomínio foi construído pela empresa de engenharia que Eduardo Vila mantinha, paralelamente aos negócios do Grupo, com alguns amigos de faculdade. No final da década de 1970, compraram um terreno na Avenida Afonso Pena, no Tirol, na segunda tentativa de 28 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte construção do centro de velório. Mais uma vez, os gastos com o Hotel San Francisco impediram o Grupo Vila de dar continuidade a esse projeto e o espaço foi vendido. Surgiram, então, concorrentes, que passaram a incomodar e, até mesmo, ultrapassar em volume de vendas, a tradicional Funerária São Francisco. Nessa mesma época, outra empresa construiu o Centro de Velório, na Avenida Hermes da Fonseca, em frente 16º Batalhão da Infantaria Motorizada, que, durante quatro anos, foi o único centro velatório de Natal. Com o falecimento de Aurino Filho, no início dos anos 1980, os irmãos decidiram se desfazer do Hotel San Francisco e passaram a investir mais nos serviços funerários. O hotel foi arrendado a um grupo de Santa Catarina que mudou o nome para Hotel Buriti e funciona até os dias atuais. Em face desta nova realidade e com a saída do irmão mais velho do comando da Funerária São Francisco, os irmãos Magno e Nilo resolveram impulsionar os negócios da família. Foi nesta época que surgiu a idéia de diversificar o atendimento funerário. Antigamente, era muito comum as famílias velarem seus mortos no ambiente residencial. Esse costume vem mudando devido a dois fatores. Primeiramente, para que não se vincule a perda do ente querido ao local onde se vive. Se- 29 gundo, porque muitas pessoas moram em apartamento, onde não seria possível realizar um velório. Dessa forma, tornou-se inevitável o surgimento de locais próprios para a finalidade específica de velar os falecidos. Os velórios, inicialmente, surgiram em locais improvisados, sem a infra-estrutura necessária para o seu bom funcionamento. Sentindo essa dificuldade, o Grupo Vila criou um projeto com locais apropriados, que trouxeram às famílias enlutadas condições de higiene, conforto e segurança nessas horas mais difíceis. “Resolvemos oferecer o serviço de velório aqui na São Francisco. O maior problema era o tamanho da funerária que não comportava muitas pessoas, então, na hora do velório, era um tumulto na sala. Imagine esse espaço aqui lotado de gente? Era uma confusão”, relembra Magno. Como acontece em muitas histórias de sucesso, os diretores do Grupo Vila também tiveram que passar por grandes desafios. Em 1984, iniciaram a construção de um centro de velório inédito no Rio Grande do Norte, mas, logo no início, tiveram que desistir da idéia para quitarem definitivamente os débitos ainda pendentes do Hotel San Francisco, preservando desta maneira, o nome da funerária. Voltaram a persistir na construção do centro de velório em 1992 e, mais uma vez, diante da situação econômica vivenciada no país, tiveram que adiar o empreendimento. 30 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Novamente, motivados com as participações dos irmãos Fernando e Eduardo, deram início a um novo projeto definitivo, arrojado e também inédito no Rio Grande do Norte: a construção de um cemitério parque particular, o Morada da Paz. Os primeiros cemitérios de Natal surgiram nos bairros Redinha e Alecrim. O bairro da Redinha era, inicialmente, uma colônia de pescadores. Uma das referências históricas do lugar é o chamado Cemitério dos Ingleses. Nos idos de 1869, numa pequena elevação entre o rio Potengi e a gamboa Manibu, foram erguidos túmulos de ingleses e suíços não católicos, que viviam na cidade e que morreram em conseqüência de epidemias que alastravam na época. Hoje, o lugar encontra-se ocupado por coqueiral. Um dos marcos da ocupação das terras que originaram o bairro do Alecrim foi a inauguração do cemitério público, em 1856, pelo presidente da província, Antônio Bernardo de Passos. Raríssimas pessoas habitavam o descampado constituído por roçados e algumas casinhas de taipa. A Praça Pedro II teve o privilégio das primeiras filas de casas. Conta-se que ali morava uma velha que costumava enfeitar com ramos de alecrim os caixões dos ’anjinhos‘ enterrados no cemitério, daí a origem do nome. Outra versão fala da abundância de alecrim-campo nesta área. Mas, a criação do quarto bairro de Natal deu-se somente em 23 de outubro de 1911. 31 Em face de uma superpopulação nos cemitérios tradicionais e a falta de investimentos públicos no setor, o Grupo Vila concebeu o Cemitério Parque Morada da Paz. Para isso, seus diretores viajaram boa parte do país para conhecer o que havia de melhor no ramo. São Paulo, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Belém, Rio de Janeiro foram algumas das cidades visitadas para coleta de sugestões e aquisição de conhecimentos sobre investimentos privados em cemitérios. Imaginou-se uma área de fácil acesso, com topografia plana, levemente ondulada e com poucas edificações vizinhas. Esse projeto foi concebido para fazer frente à escassez de vagas nos cemitérios públicos de Natal. “Com a construção do Morada da Paz, passamos a atuar também com outras faixas de público, principalmente as classes A e B de Natal. Essa foi a maneira que encontramos de sair da esfera do Alecrim”, disse Eduardo Vila, em entrevista à revista RN Negócios. A partir da criação desse cemitério parque, seguiramse outras iniciativas – muitas delas pioneiras no Rio Grande do Norte – que começaram a firmar o Grupo Vila como um dos mais importantes empreendedores do ramo no NorteNordeste. No início dos anos 1990, na Rua São Francisco, em Igapó, foi montada uma filial da Funerária São Francisco. 32 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Com certeza, uma das iniciativas mais importantes foi a criação, em 1994, do Plano de Previdência Funerária SAFRA (São Francisco Assistência Funerária Ltda.) voltado para clientes de baixa renda que, no momento de se despedirem de um ente querido, não tinham condições financeiras para um funeral. “Em princípio, existiam três planos, todos eles com apenas serviços básicos. Em 1994, passamos a comercializar novos planos que atingiam todas as faixas econômicas da população”, completa Eduardo. Hoje, o Plano SAFRA chama-se Sempre e é bastante diversificado, oferecendo a seus associados, além dos serviços funerários completos, convênio na área médica e odontológica, descontos em uma ampla rede credenciada de clínicas, laboratórios e farmácias, orientação jurídica e locação de equipamentos para convalescentes. A Multifam foi inaugurada em junho de 1999, no antigo prédio onde funcionava a Funerária São Francisco, em Igapó, com o objetivo de oferecer benefícios em vida e para atender apenas aos clientes do Plano SAFRA. No entanto, a clínica acabou se tornando uma excelente opção para quem não tem condições de pagar um plano de saúde e também não quer depender dos postos públicos para fazer exames e consultas. Atualmente, existem mais duas unidades da Multifam, uma na Rua Apodi, no bairro do Tirol, e outra na Avenida 33 Brigadeiro Everaldo Breves, no Centro de Parnamirim, município vizinho à Natal. Em 1996, o Grupo lançou o outro cemitério parque, nos mesmos moldes do Morada da Paz, para atender a Zona Norte de Natal. “Verificamos que a Zona Norte também carecia de um cemitério parque e partimos para a construção do Parque da Passagem”, explica Eduardo. No ano em que completou meio século, em 1998, inaugurou na Rua São José, no bairro de Lagoa Seca, o Centro Funerário Morada da Paz, hoje conhecido apenas como Centro São José, que se tornou referência como complexo de velório no país. Para quem está acostumado com os velórios em casas funerárias, onde as pessoas dividem espaço com flores e caixões colocados à venda, o Centro São José parece qualquer coisa, menos um lugar onde os mortos são velados. Essa impressão é comum, porque os centros de velórios, não só em Natal como em muitas partes do país, funcionam de forma improvisada. O São José é um dos únicos no Nordeste, e um dos poucos no Brasil, concebido e projetado para ser um centro funerário com a estrutura necessária para cumprir todas as etapas de um velório. Ele está entre o que existe de mais moderno no segmento funerário no mundo. É tanto que alguns empresários do setor de outros estados têm procurado conhecê-lo, com a 34 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte finalidade de usá-lo como modelo. “No Nordeste, não existia nada assim. Os velórios são todos adaptados. Só no Rio Grande do Sul eu encontrei algo parecido”, disse Eduardo Vila. Para construir o centro de velório, os diretores, Eduardo, Magno e Nilo Vila, além do gerente, Heber Vila, fizeram um programa detalhado, com todas as etapas do serviço funerário. “Como na literatura voltada à arquitetura não existem projetos para construção de centros de velórios, tive que aliar meus conhecimentos funerários aos de construção civil para dizer ao arquiteto o que a empresa tinha em mente: uma coisa diferente, com ambientes espaçosos, iluminados e suaves, sem nada de preto, roxo ou cinza. Queríamos uma coisa viva e foi justamente o que ele fez”, enfatiza. O resultado final é o que todo mundo vê hoje. Um centro funerário que não tem cara de centro funerário; pelo menos, não da forma que a maioria se acostumou a ver. “Nosso objetivo é sempre oferecer mais conforto, qualidade e comodidade aos clientes”, complementa Eduardo. Em 2003, foi lançado, na cidade de Paulista, em Pernambuco, o Cemitério Parque Morada da Paz, nos mesmos moldes da unidade de Natal/RN, situado no km 3,5 na rodovia PE-15, que chega para preencher uma lacuna existente na Grande Recife, sendo agora o sexto cemitério da Região Metropolitana e trazendo para o 35 Arquivo estado de Pernambuco um conceito diferenciado para o setor funerário. Nesses 60 anos de atuação, o Grupo Vila, hoje, possui 24 empreendimentos, está presente em 10 cidades de três estados do Nordeste (Natal, Parnamirim, Macaíba, São Gonçalo, Mossoró, Caicó, João Pessoa, Campina Grande, Recife e Paulista), tem mais de 600 colaboradores, clientes ativos em mais de 170 cidades e já protege mais de 190.000 vidas. Arquivo Casa Mortuária São Francisco Construção da matriz, no Alecrim Arquivo 36 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Foto: Ricardo Junqueira Família Vila Arquivo Arquivo Os atuais diretores: Nilo Vila, Eduardo Vila e Magno Vila Cotinha Vila e Aurino Vila 37 38 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Capítulo II Há vida após a morte “O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela”. Fernando Pessoa 39 D esde criança, os adultos tentam nos ensinar a lidar com perdas ou separações. As primeiras experiências são temporárias, como o momento do nascimento, quando nos separamos do corpo da nossa mãe; na hora em que temos que nos despedir de nossos familiares, quando estes precisam trabalhar ou viajar; quando temos que mudar de escola e, conseqüentemente, fazer novas amizades. Até que chega um dia em que nos deparamos com a perda definitiva, a morte de alguém próximo, alguém que amamos. Morrer é um evento tão natural quanto nascer, mas o homem se distancia cada vez mais dessa realidade. A morte passa a ser um tabu, torna-se assunto proibido. Ela é representada por um carrasco cruel que carrega uma enorme foice que ceifa a vida. De acordo com Luís Calheiros, em Entradas para um dicionário de estética, esta iconografia vem acompanhada de uma ampulheta que marca o tempo do ’trabalho‘, no tema do arcano ligado ao número 13 (número do azar) do baralho de Tarot. Representa a fatalidade do destino. Apela a uma reflexão questionadora dos vícios e defeitos, propõe o arrependimento, o desprendimento, o aperfeiçoamento, a transformação radical e a superação de tudo o que está ultrapassado, obsoleto e decadente. As pessoas se incomodam profundamente quando precisam falar sobre a morte. Segundo Maria Helena P. F. Brom- 40 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte berg, na obra A psicoterapia em situações de perdas e luto, nossa cultura não incorpora a morte como parte da vida, mas, sim, como castigo ou punição. Isto se deve ao fato de a cultura ocidental estar impregnada pelo individualismo. A única certeza que temos é a de que todo mundo que nasce um dia vai morrer, mas nunca queremos pensar na nossa hora da partida, tentamos sempre nos afastar dessa idéia e apenas pensamos na morte do outro: ele morre, eu não. A maioria das pessoas sente medo e angústia com relação à morte. Apesar de termos consciência sobre a morte do outro, também sentimos medo, pois esta situação nos remete à sensação de abandono. A experiência da morte é vivenciada como um momento de grande sofrimento, e pensar na nossa própria morte nos traz angústia, receios, sensação de impotência. Estamos lidando com o desconhecido, não sabemos o que nos espera depois dela. Devido a esta ansiedade, passamos a criar fantasias sobre a morte, que pode variar de acordo com a fé de cada um. Procuramos pensar que há vida após a morte, e que esta vida pode ser num paraíso, em que não há sofrimento, na qual todos se encontrarão um dia. Com alguns profissionais que trabalham no Grupo Vila e lidam com a morte diariamente, as coisas não acontecem de maneira diferente. Eles também sentem medos, angústias, sensação de impotência, ficam sensibilizados com o 41 sofrimento dos familiares que perderam um ente querido. Paulyana Fonseca tem 36 anos, curso superior de Formação de Executivo com especialização em Marketing e trabalha no Grupo Vila há cinco meses, exercendo a função de cerimonialista fúnebre. Para ela, trabalhar com o fúnebre foi algo que a tocou profundamente. “Os primeiros quinze dias de trabalho no Grupo Vila me fizeram pensar muito sobre a vida. Antes, eu enxergava a morte como algo distante”. Ela conta que, sempre que precisa sair de casa, seus dois filhos correm ao seu encontro pedindo um beijo e um abraço. E, que antes, nem sempre ela correspondia, pois estava apressada, o que a impedia de ficar junto a eles por, pelo menos, mais dois minutos. “Hoje, o meu sair de casa mudou. Vivo como se fosse o último dia da minha vida e, independente de estar apressada ou não, faço questão de dar o beijo e o abraço nos meus filhos sempre. Conviver com essa realidade me fez ter consciência de que a morte não é algo que só acontece com os outros. O fato de eu ser evangélica também me ajuda. Hoje, eu não encaro a morte como algo ruim, penso que é uma passagem, um ciclo que se encerra e outro que começa. Definitivamente, não tenho medo da morte”, afirma. A função do cerimonialista fúnebre é organizar todo o funeral, de acordo com o serviço solicitado pela família. Seu trabalho abrange: contratação do padre, organização 42 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte do cerimonial musical, arrumação das coroas na capela do velório e, depois, no cemitério, dar assistência à família, fazer um memorial eletrônico (quando solicitado), organizar a menção honrosa, quando os familiares e amigos desejarem fazer alguma homenagem, dependendo do plano funerário. O cerimonialista é também quem confecciona os santinhos da missa de sétimo dia. Para Paulyana, o que é mais gratificante no seu trabalho é poder ajudar as pessoas num momento tão difícil, que é passar pela perda de um ente querido. “Faço de tudo para que elas sintam um mínimo de conforto”, conta a cerimonialista. Fechar a urna também faz parte do trabalho de Paulyana. Muitos consideram este momento crucial, o mais difícil para a família. Essa é a hora da despedida, em que eles podem ter o último contato físico com quem partiu. “Uma senhora, certa vez, segurou na minha mão e disse: ‘Não feche, não! Não feche, não! Ele morre de medo de escuro!’ Nessas horas, sempre procuro me condicionar dizendo: Meu Deus, não tem mais nada ali, são só restos mortais, o espírito já está em outro lugar. Tudo isso para diminuir o peso da carga emocional que recebo diariamente”, desabafa. Na maioria das vezes, as pessoas têm dificuldade em lidar com perdas, principalmente de pessoas queridas. E terminam agindo com indignação, descontando, com grosserias, 43 naqueles que estão ali apenas para prestar o serviço fúnebre. “Teve uma vez que duas irmãs queriam servir uísque no velório do pai. Elas diziam que era um desejo dele que o velório fosse festivo. O problema é que uma irmã queria que a bebida fosse servida na capela, a outra que fosse dentro do centro, e a gente segurando a bandeja de uísque pensando: quando elas resolverem, a gente serve. Aí, ficamos eu e o ASG, ali, segurando essas bandejas até elas decidirem onde a bebida iria ser servida. Uma dessas meninas estava tão abalada, demonstrando certo descontrole, que queria a todo custo ir no carro que leva a urna até o cemitério. E só depois de muito tempo, depois de ter que abrir o carro, foi que consegui fazêla desistir da idéia”, relata Paulyana. E completa dizendo, “devido a estas situações, eu procuro vir sempre preparada de casa para lidar com tudo”. Nem todos os casos são de descontrole emocional. Muitas pessoas se sentem mais confortáveis com a presença do cerimonialista. Elas vêem neste profissional a imagem de alguém que pode ajudá-la num momento tão difícil, alguém que só trará tranqüilidade. “Na maioria das vezes, posso dizer 70% das vezes, o que a gente recebe é carinho e gratidão das famílias. Uma vez, uma senhora chegou para mim e disse: ‘Só o fato de você estar presente naquele momento já me deixou mais tranqüila, pois numa hora dessas não sabemos 44 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte como agir. O Grupo Vila está de parabéns pelo serviço.’ Aí eu pensei: poxa... Realmente é essencial esse cuidado junto à família”, conta. Apesar de já se sentir mais preparada para lidar com a idéia de sua própria morte ou com a perda de alguém querido, ainda hoje, Paulyana se emociona quando presencia o funeral de uma criança. “Teve um menininho de dois anos que veio ser preparado aqui. O caso desse menino mexeu muito com todos os funcionários, porque quando ele chegou à sala de preparação, o tanatopraxista (pessoa que prepara os corpos), com 12 anos trabalhando na área, chorou quando viu a criança. O menino já chegou todo arrumadinho, de sapato e tudo mais. Eu cheguei à sala de preparação toda ’durinha’, dizendo: ‘Vim ver a criança’. Quando olhei para o menininho, foi um choro só. Tenho um filho da mesma idade e essa situação mexeu muito comigo. Às vezes, chego em casa com meu marido e tento dividir a carga emocional que carrego no final do dia. Tento partilhar um pouquinho do que vivencio aqui, porque, às vezes, o cansaço físico é grande, mas o emocional, maior ainda”. Para ela, o que a emociona é presenciar o sofrimento do outro. “Fico extremamente aflita em hospital, diante do sofrimento de alguém, e bastante tranqüila diante de alguém que já morreu”. E, como qualquer outra pessoa, Paulyana sente medo, angústias e inquietações. “Tenho mui- 45 to medo do sofrimento em vida. De que algum filho meu ‘vá’ primeiro que eu. Realmente, não sei como me comportaria diante de alguma pessoa minha. Não sei mesmo, não tenho como responder. Depois que cheguei aqui não tive essa experiência”, disse. Algumas pessoas que trabalham com o fúnebre muitas vezes são julgadas, até mesmo por amigos e familiares, como sem sentimento, frias, entre outros, por tratarem com naturalidade a morte. “Quando eu falo para as pessoas que estou trabalhando em funerária, elas reagem com um: ‘vixe!!’ Chegam a se benzer e tudo mais. Teve uma senhora que me disse que preferiria passar fome a ter o meu emprego”, comenta Paulyana que, além do cerimonial, também faz maquiagem estética de cadáveres, quando encontra tempo. “Foi uma experiência interessante, que eu comecei fazendo do nada. Como só tem tanatopraxista homem, na hora de maquiar, eles me chamavam para que eu pudesse dar uma opinião feminina. Eu sei que, nessa brincadeira, maquiei uma senhora e fui super elogiada pela filha dela. Logo após, o gerente me colocou em um curso de maquiagem, para que eu pudesse ajudar os tanatopraxistas, principalmente, quando o cadáver for de mulher”, confessou. Outro funcionário do Grupo Vila é Marivaldo Amaro da Silva. Ele tem 38 anos e trabalha no setor funerário há 46 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte 20. Entrou no Grupo, em 1988, como auxiliar de cobrança. A curiosidade na área foi aumentando, à medida que os anos foram passando. Depois do setor de cobrança, trabalhou no setor de atendimento, em seguida, passou a ser agente funerário e, em 1999, Marivaldo fez o curso para ser tanatopraxista, profissional que aplica produtos químicos para o retardamento do processo de decomposição, função que exerce até hoje. Talvez por trabalhar no setor funerário há mais tempo ou até mesmo pelo fato de ser homem, Marivaldo se mostrou mais tranqüilo, quando o assunto tratado era morte. “Não tenho medo da morte. Se tivesse que morrer hoje, estaria preparado”, diz. Mas isso não significa que a morte para ele seja algo que já se tornou banal, para ele é algo natural. “Cuido da minha vida, não a coloco em risco. Posso dizer que o setor funerário nos ensina a valorizá-la. As pessoas que não trabalham na área tendem a achar que acidentes só acontecem com os outros. Como vivencio essa realidade diariamente, considero que me previno mais do que os que não vivenciam”, e completa, “eu gosto muito da minha vida. Jamais quero ser a pessoa que vai colocá-la em risco. Agora, se eu adoecer, se chegar a minha hora, estarei preparado”, afirma. Assim como Paulyana, Marivaldo também é evangélico e acredita que sua religião também o ajude a não sentir 47 medo da morte. “Eu tenho uma certeza de continuação. Tem uma passagem Bíblica que diz: ‘após a morte seguirá o julgamento, o juízo final. Então, tenho a certeza de um lugar de descanso’”. Mas não gosta de pensar na idéia de ver sua família sofrer, “eu sei que se eu vier a falecer hoje, a minha esposa vai sofrer, meu filho vai sofrer e isso me deixa aflito. Mas, ao mesmo tempo, eu tenho a certeza de que eles não vão ficar desamparados”, conforma-se. E não é só quando o assunto é a morte dele que Marivaldo demonstra tranqüilidade. Quando questionado sobre como reagiria diante da perda de um ente querido, ele diz: “o parente mais próximo que perdi foi minha avó. E como não tenho nenhum irmão ou parente que trabalhe na área, eu mesmo realizei o serviço funerário dela”. E vai mais longe. Casado, com filhos, ele diz que não entra em desespero diante da perda de uma pessoa amada. Apenas sentirá saudades como qualquer outra pessoa. Para ele, é um sentimento natural de perda. “Se eu precisasse fazer a tanato de algum parente meu, fazia sem problema algum”, afirma. Trabalhar no setor funerário ensinou Marivaldo a lidar de maneira natural com a morte, mas não lhe deixou uma pessoa sem sentimentos ou sem sonhos. Amante declarado da vida e da sua família, ele sonha em poder presenciar o sucesso de seu único filho, “eu sonho em um dia poder ver meu 48 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte filho formado, com uma família constituída, com uma vida financeira estabilizada”, revela. E diz que não só a felicidade de seu filho é importante pra ele, mas a de todos seus amigos, parentes e conhecidos, “a felicidade dos outros me deixa extremamente feliz”. Mas, nesses anos todos de profissão, tem uma situação com a qual Marivaldo ainda não se acostumou: a morte de crianças. “A única situação que ainda chega a me emocionar, acredito que isso aconteça com todos os tanatopraxistas, é quando estamos preparando crianças. Não considero morte de criança algo natural”. Uma situação que ele vivenciou e que se lembra bem foi no dia que um colega não conseguiu fazer a tanato de uma criança. “Nós tivemos que preparar o corpo de uma criança. E um rapaz novo (estagiário) ficou muito abalado. Eu até esperava que ele fosse ficar triste, mas ele entrou em estado de choque. Tive que entrar em contato com os nossos gestores, que o liberaram pra ir para casa. Mas, no dia seguinte, ele conseguiu voltar ao trabalho. Esse colega trabalha na empresa até hoje”, comenta. Talvez, no setor funerário, os tanatopraxistas sejam os profissionais que têm menos contato com a família do morto. Marivaldo considera que respeitar o sofrimento delas é fundamental. “Fico triste com o sofrimento alheio. Se eu puder ajudar, sempre ajudo”, diz. 49 Jorion Nunes de Lima tem 27 anos e trabalha há, aproximadamente, seis anos no Grupo Vila, como agente funerário. Sua função é remover o corpo no momento em que o serviço é solicitado pela família. O agente leva o corpo primeiro para o tanatopraxista, quando necessário, após o preparado, transporta-o para o local onde acontecerá o velório e, por fim, para o cemitério, onde será sepultado. O agente funerário é o profissional que passa mais tempo ao lado do falecido. Poderíamos entender, então, que seria o mais adaptado à situação, o que menos se sensibiliza diante da morte. No caso de Jorion, isso não é verídico. Dos quatro funcionários do Grupo que entrevistamos, ele é o que mais se emociona, principalmente quando o assunto é morte de criança. Com os olhos cheios de lágrimas, Jorion nos conta que, antes de trabalhar no Grupo Vila, teve a maior ’escola funerária‘ do mundo. “Perdi minha primeira filha quando ela tinha apenas 28 dias de nascida. Eu e minha esposa tínhamos aproximadamente 20 anos na época. Sempre gostei muito de criança. Minha filha, quando nasceu, teve um probleminha de saúde, mas vinha se recuperando. De repente, do nada, às seis horas da manhã, toca o telefone da minha casa. Era a assistente social do Hospital Varela Santiago, dizendo que minha filha havia falecido. Morte de criança é uma situação muito difícil para mim. 50 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Até porque, quando faço o transporte de alguma, sempre me lembro da minha filha”, conta emocionado. Outro tipo de situação que ainda o deixa comovido é quando precisa fazer o sepultamento de algum pai de família. “Sou muito apegado ao meu pai. Outro dia, no velório de um senhor, no momento em que eu estava segurando a tampa para fechar o caixão, todos os filhos dele se organizaram numa fila e, de um em um, foram colocando a mão em cima do pai e pedindo a benção. Nesse dia, vi-me passando por aquela situação. Respirei fundo, meus olhos quiseram lacrimejar, mas respeitei o momento daquela família e me segurei. Depois, conversando com um colega de trabalho, chorei... Tirei aquele peso de cima de mim”, desabafa. Após perder a filha, Jorion acredita estar um pouco mais preparado para lidar com a morte dele ou de um ente querido. “A partir desse momento, passei a ver a morte de maneira diferente. Não sei se estou errado, mas eu penso que se eu fiz o sepultamento da minha filha tão desejada, que eu queria tanto, não teria maiores problemas para fazer o sepultamento de qualquer pessoa”, comenta. “Eu suponho que, se hoje viesse a perder alguém próximo, na hora conseguiria resolver todo o sepultamento, mas acredito que momentos depois, desmoronaria”, confessa o agente. 51 Sempre preocupado em ajudar o próximo, o sofrimento alheio é algo que o comove muito. Quando está ao lado dos familiares dos que se foram, ele procura agir com ética. Sem falar muito, Jorion está sempre disponível a ouvir o desabafo dos parentes. “Acho que, nessa hora, o que as pessoas precisam é de alguém que apenas as escutem. Elas não estão preparadas para ouvir nada. Sinto que estou ajudando com esse pequeno gesto”. Jorion se diz um amante da vida. Por isso, deixar o mundo é algo que o põe medo. “Não sei o que me espera depois da morte”, diz. Mas para ele, o que mais o deixa aflito é pensar que poderá perder as pessoas que mais ama. “Tenho muito medo de perder minhas duas filhas e meu pai. Por mais que eu trabalhe com a morte diariamente, ainda tenho medo da minha reação neste momento”, disse. O encarregado de obras, Gilson Gomes Duarte, tem 40 anos e trabalha no Grupo Vila há 15. Durante muito tempo exerceu a função de sepultador, a que vamos chamar de coveiro. Gilson nos conta o quanto foi difícil para ele os primeiros meses de trabalho no cemitério: “quando entrei no grupo, quase que não conseguia realizar bem o meu trabalho. Sempre ficava bastante abalado. Parava um pouco o sepultamento, saia para respirar e, depois, já mais calmo, voltava para realizar meu trabalho”. 52 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Até hoje, Gilson se emociona, quando presencia ou, até mesmo, realiza algum enterro. Mas a situação que mais o deixa abalado em seu trabalho é o sepultamento de criança. “Uma vez, fiz o sepultamento de uma criancinha que havia morrido afogada em uma piscina. Fiquei muito emocionado, aquilo mexeu muito comigo. Sai um pouco para pensar em outra coisa e conseguir me controlar”, afirmou. A situação que mais o marcou, nesses 15 anos de trabalho em cemitério, foi uma jovem, estudante de medicina, alta e alva, que se suicidou diante da lápide do pai. “Ela chegou aqui no horário de maior movimento, mais ou menos no final da tarde. Nesse dia, estavam acontecendo mais de dois sepultamentos de uma vez. Ela veio visitar o pai que já estava enterrado aqui. Trouxe uns medicamentos e uma cerveja. Esperou, trancada dentro do banheiro, todo o movimento do cemitério acabar. Quando não tinha mais ninguém, ela foi para o jazigo do pai, tomou a medicação com a cerveja e faleceu ali mesmo. Quando cheguei, por volta das cinco horas da manhã, um funcionário que dormia aqui me falou que havia encontrado essa moça já falecida. Foi horrível, muito triste”, conta. Uma situação que Gilson jamais vai esquecer foi o sepultamento do primeiro gerente do cemitério Morada da Paz. “Ele era um grande amigo. Sempre brincava com a gente, nos ajudava quando precisávamos. Ele estava aqui no cemitério 53 praticamente todos os dias. Só não vinha aos sábados, porque era o dia que gostava de ir à missa. A morte dele foi algo que nos pegou de surpresa. Trabalhamos juntos o dia todo, a noite ele foi para casa e sofreu um infarto fulminante. O sepultamento dele foi muito triste, muito difícil para a gente que convivia com ele diariamente. Todos os funcionários daqui ficaram bastante emocionados”. Esses anos todos de trabalho no setor funerário o fizeram entender que, um dia, todos nós vamos morrer. Mas, mesmo com essa certeza, mesmo sabendo que a morte é algo natural, Gilson não gosta nem um pouco quando o assunto é a morte dele ou de alguém querido. “Apesar de trabalhar em cemitério, não aceito a morte. Gosto muito da minha vida e acho que minha hora ainda não chegou. Se, por acaso, viesse a perder alguém meu, tenho certeza que reagiria como qualquer outra pessoa quando vem sepultar alguém aqui. Não estou preparado para perder ninguém”, confessa, e nos conta como foi a experiência de perder alguém conhecido: “eu vivia com uma pessoa quando ela perdeu a filha num acidente de carro. Eu que fiz o sepultamento dessa menina, uma criança, senti muito. Esta situação mexeu bastante comigo”, assinalou. Mesmo exercendo o cargo de encarregado de obras, Gilson, sempre que solicitado, ainda faz sepultamentos. Faz o possível para ser um bom profissional. Desistir do trabalho 54 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte nunca passou pela sua cabeça. “Sinto que o meu trabalho me possibilita ajudar as pessoas. Estou sempre à disposição das famílias”, diz, e explica como faz isso: “diante do desabafo das famílias que perderam seus entes queridos, procuro ouvi-las, presto atenção ao que dizem, respeito o sofrimento delas. Fico também sempre preocupado com o bem-estar físico dessas pessoas. Tem gente que desmaia. Fico o tempo todo atento para que não aconteça nenhum acidente”. Para sua família, o trabalho no cemitério como coveiro ou encarregado de obras é comum a qualquer outro. “Tenho um filho de 18 anos, que já veio trabalhar aqui no cemitério nos dias de maior movimento. Minhas filhas pequenas também costumam vir me visitar nos fins de semana que estou trabalhando. Minha família encara a minha profissão com naturalidade”. Gilson nunca teve dificuldade para arranjar namoradas. Elas não faziam nenhuma objeção quando descobriam sua profissão. Seus amigos são os que mais se ’incomodam’, e costumam fazer brincadeiras, quando ele está por perto. “Às vezes, meus amigos brincam comigo por conta do meu trabalho. Eles dizem: ‘olha, cuidado com este aí!! Ele te enterra e você nunca mais consegue sair’”, relata o excoveiro com uma risada. Foto: Aline Ricciardi 55 Arquivo Marivaldo Amaro, tanatopraxista Jorion Nunes, agente funerário Foto: Aline Ricciardi 56 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Foto: Aline Ricciardi Gilson Gomes, encarregado de obras Paulyana Fonseca, cerimonialista 57 58 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Capítulo III Morte: a única certeza da vida “Quando morremos, deixamos atrás de nós tudo o que possuímos e levamos tudo o que somos.” (Autor desconhecido) 59 F alar sobre a morte pode sugerir a idéia de morbidez, por abordar um mito do qual a maioria dos seres humanos se esquiva. É preciso ter coragem para tratar deste tema, pois lança um desafio à pessoa para escrever sobre algo que, conscientemente, desejamos ignorar. Todos sabem, desde cedo, que um dia iremos morrer. Aliás, é a única certeza que temos diante da vida. Mas por que não conseguimos encarar e aceitar a única verdade absoluta que nos cerca todos os dias? Por que temos tanto medo dela? Talvez por que, mesmo sabendo que ela é certa, inevitável e intransferível, ainda a consideramos ’inesperada‘. A realidade é que a morte faz parte do nosso dia-a-dia, da nossa rotina diária. Todos os dias, morre alguém em algum lugar desse planeta. Morremos todos os dias, aos pouquinhos, ainda que estejamos de olhos abertos. A contagem regressiva para a nossa morte começa exatamente no dia em que nascemos. Através da morte, a vida se alimenta e se renova. Desta maneira, a morte não seria a negação da vida, e sim, um artifício da natureza para tornar possível a manutenção da vida. Mas, afinal, o que é a morte? Dizem que a morte é apenas um recomeço. Uma nova chance de irmos para algum lugar onde teremos chance de nos aperfeiçoar cada vez mais para, enfim, ficarmos mais próximos de Deus. 60 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte A morte pode ser encarada sob vários aspectos em relação à época da vida em que vivemos, ou seja, quando acontece em idade avançada, é entendida como um processo natural e lógico no ciclo da vida, mas, quando o mesmo acontece a uma criança ou jovem, ambos saudáveis, a morte é considerada como a maior tragédia humana, mais conhecida como ’golpes do destino‘ para a maioria das pessoas. Por outro lado, quando a morte chega para aqueles que possuem uma doença crônica, fatal e prolongada, ela pode ser vista como um alívio, principalmente para os membros da família do doente, independentemente da faixa etária em que se encontra. A todo instante, tentamos ’levar vantagem‘ sobre a morte, através da tecnologia, invenções, inovações, progressos e artifícios que a Ciência e a Medicina nos proporcionam. A sociedade ocidental possui certa rejeição em relação à morte e, por isso, faz tentativas para vencê-la, através, principalmente, do seu desenvolvimento científico. Essa tentativa de obter a vitória sobre a morte é aspirada através da medicina moderna. Os avanços da ciência já permitem prolongar ou abreviar a nossa passagem para o mundo eterno. A sociedade tenta, a todo custo, prolongar a vida dos doentes, mas não os ajuda a morrer. 61 Pessoas tornam-se imortais, quando elas nunca deixam de viver em nossas mentes e em nossos corações, ainda que essas pessoas não estejam mais entre nós. Segundo Jorge Luis Borges, em uma de suas palestras sobre a imortalidade na Universidade de Belgrano, na Argentina, “poderíamos então dizer que a imortalidade é necessária. Não a pessoa, mas essa outra imortalidade. Por exemplo, sempre que alguém ama um inimigo aparece à imortalidade de Cristo. Nesse momento, essa pessoa é Cristo. De cada vez que repetimos um verso de Dante ou Shakespeare, somos de alguma maneira, aquele instante em que Shakespeare ou Dante criaram esse verso. Ao fim e ao cabo, a imortalidade está na memória dos outros e na obra que deixamos”. A imortalidade tornou-se um sonho e um grande aliado devido aos avanços da medicina, com a possibilidade de cura para as grandes doenças e, até mesmo, o aumento da expectativa de vida da sociedade. A mesma consiste na sobrevivência substancial e pessoal do eu, na identidade permanente da alma, que conserva as suas faculdades de conhecer e amar, sem as quais não há felicidade humana. “O homem pode por fim à sua vida, mas não à sua imortalidade”, afirma Milan Kundera, no seu livro A imortalidade. 62 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte O verdadeiro pânico da sociedade em relação à morte é a imagem de um esqueleto revestido com uma capa preta e uma foice na mão, pronta para estraçalhar quem quer que seja. O ser humano passa a vida se preparando para os acontecimentos ocorridos em sua trajetória, da hora que nasce até a chegada da velhice. Mas, é raro encontrar alguém, que além de ter recebido educação para a vida, também tenha sido educado para a morte. Encarar a morte é ver a vida com outros olhos, para que possamos construir uma vida melhor e que a nossa passagem seja tão boa quanto à vida que vivemos aqui na Terra. Atualmente, as pessoas estão cada vez mais preocupadas em diminuir a dor pela perda de um ente querido. As funerárias estão investindo em serviços e produtos ainda mais luxuosos e modernos, na tentativa de amenizar o sofrimento daqueles que ficam e oferecer um sepultamento àqueles que partiram com mais dignidade e conforto. Funeral é uma cerimônia, de cunho religioso, que tradicionalmente ou não, é adotada como forma de despedida em relação àqueles que já partiram para a vida eterna. Após todo esse processo, o caixão é fechado para ser enterrado ou cremado. Para José Maria Batista de Oliveira, auxiliar de sepultador, há dois anos no cemitério Morada da Paz, em Emaús, 63 no município de Parnamirim, o sepultamento, quando é da nossa família, mexe mais com nossas emoções, mas quando se está a serviço, tornou-se algo natural. “Somos treinados para sermos pessoas discretas e silenciosas, em respeito a quem está sendo velado e a família do mesmo”, disse José Maria. José Maria diz não sentir medo da morte, pois, para ele, quem possui o hábito de ler sobre o assunto, inclusive a Bíblia, possui uma compreensão maior sobre aquilo que tanto temos medo: da morte. Após a morte, o corpo começa a exalar odores desagradáveis devido aos gazes produzidos pela ação das bactérias. O ato de sepultar um corpo pode ser visto como um ’fecho‘ para a família e amigos do falecido. Enterrar e ocultar o corpo é uma forma de aliviar a dor da perda física do ente querido. Os velórios requerem o envolvimento de todos os parentes. Decisões difíceis devem ser tomadas, mesmo que a dor seja maior do que o senso crítico exigido para o momento. Muitas culturas acreditam na vida após a morte. Este passo é bastante aceito como algo necessário para que o falecido alcance esta ’nova etapa da vida eterna’. A cremação é um procedimento bastante antigo, com suas origens trazidas do Oriente. Hoje, tornou-se o processo de maior aceitação como alternativa ao tradi- 64 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte cional sistema de sepultamento em alguns países desenvolvidos. Trata-se de uma técnica funerária que visa reduzir o corpo do falecido em cinzas através da queima do cadáver. Uma espécie de rito pós-funeral, por oferecer menos riscos ambientais que o sepultamento em covas. O forno para a cremação atinge uma temperatura de até 1200 graus Celsius, sem nenhum tipo de dano ao meio ambiente. Um processo simples, que pode durar até duas horas. As cinzas geralmente são acondicionadas em uma urna padrão ou outra escolhida pela família. As opções são madeira, mármore, granito ou porcelana. Os restos podem ser levados para casa ou espalhados em locais específicos. A decisão fica por conta da família do falecido. A tanatopraxia, no que diz respeito a origem da palavra, significa “o que se faz habitualmente diante da morte”, ou seja, quais as providências que se deve tomar diante do fato ocorrido. Etimologicamente, Tanato, do grego Thánatos, significa morte, na mitologia grega representa o Deus da Morte; e praxe, do grego práxis, representa o que se pratica habitualmente, a ação, a rotina. O conjunto, tanatopraxia, no que diz respeito à origem da palavra, significa “o que se faz habitualmente diante da morte”, isto é, quais as providências que 65 devem ser tomadas frente ao ocorrido. Há muitos anos, já se pratica a tanatopraxia em outros países, que nada mais é do que a denominação empregada para a técnica de preparação de corpos humanos, vitimados das mais variadas formas de óbito. Corresponde à aplicação de produtos químicos em corpos falecidos, visando a sua desinfecção e o retardamento do processo biológico de decomposição, permitindo a apresentação dos mesmos em melhores condições para o velório. Diferente do embalsamamento, essa técnica não utiliza formol ou realiza a retirada de qualquer órgão. Para ser tanatopraxista, é necessário que se tenha uma formação técnica na área. Ronaldo Melo, tanatopraxista do Centro São José, em Natal, há quase 20 anos, realizando esse tipo de serviço, explica que “é a técnica de preparação de corpos humanos, através do óbito. São usados produtos químicos para manter as condições do corpo da melhor maneira possível”. A técnica, realizada em ambiente prontamente equipado, chamado tanatório, é desenvolvida por profissionais habilitados e especialmente treinados. Tais treinamentos podem ser obtidos através de cursos de extensão universitária, com número limitado de vagas e destinado exclusivamente a diretores e agentes funerários, devidamente credenciados e registrados para tal fim. 66 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte A preparação de um corpo, através da tanatopraxia, pode variar de 60 a 90 minutos, dependendo da causa da morte.Dentre essas variáveis e outras existentes, é que se pode determinar o tempo de preparação, podendo levar até quatro horas para que o processo de preservação corporal esteja completo. Para Ronaldo, existem diferenças fundamentais entre embalsamento e tanatopraxia. “As grandes diferenças estão na ausência de eviceração (as vísceras são mantidas nas próprias cavidades), na metodologia, na utilização de equipamentos modernos apropriados para injeção e aspiração, além dos diferentes produtos químicos, todos testados cientificamente, porém, empregados neste último processo”. A aplicação desta metodologia trouxe um importante benefício social, se comparado à epoca em que não se praticava a tanatopraxia. Na sua grande maioria, pode-se atender às necessidades ou às solicitações, por parte dos familiares, como a preservação por um tempo mais prolongado de velório, com condições ambientais normais e sem a necessidade de um sistema de refrigeração. Este serviço já é utilizado em vários países da Europa, nos Estados Unidos e América, trazendo uma grande revolução no setor funerário, com serviços de melhor qualidade. No Brasil, esta técnica vem sendo empregada com bastante sucesso. 67 A tanatopraxia pode ser vista também como ’humanizadora da morte‘, ou seja, tenta amenizar o sofrimento dos parentes, fazendo com que o corpo fique com um aspecto mais natural possível. “É como olhar para o corpo e sentir como se ele estivesse dormindo tranquilamente”, disse Ronaldo. Além de conservar a aparência do corpo, a técnica da tanatopraxia permite evitar que se propaguem moléstias contagiosas e doenças para a comunidade, em que recebe tratamento especial com substâncias germicidas. Fazer a maquiagem no falecido, é muito importante para seus familiares, pois permite recordar o seu ente querido como era em vida. O Velório Virtual é o oferecido pelo Grupo Vila em Natal, cujo objetivo é diminuir a distância para amigos e familiares, que se encontram longe de seus entes queridos, proporcionando um último adeus a quem se ama. Com a solicitação da família, as imagens do velório passam a ser transmitidas online, via Internet, mediante login e senha, fornecidos pela família. Para Pollyana Florêncio de Araújo, assistente administrativo-financeiro do Centro São José, “as pessoas estão, cada vez mais, encurtando o tempo e a distância do velório, na tentativa de amenizar o sofrimento daqueles que ficam”. O Velório Virtual está disponível no Centro São José, em Natal, na Funerária Morada da Paz, em João Pessoa, e no Cemitério Morada da Paz, em Recife. Foram instaladas câme- 68 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte ras nas capelas centrais, que lançam as imagens, em tempo real, para o site do Grupo Vila. As imagens do velório são atualizadas automaticamente no browser. Pode-se também enviar mensagens eletrônicas que serão entregues aos familiares presentes no velório. Quando as câmeras estão disponíveis, ficam em destaque no site, e as senhas de acesso são fornecidas apenas com a autorização da família. Este serviço foi criado em 2000, é pioneiro em todo o Brasil, merecendo destaque em diversas publicações nacionais, como nas revistas Veja e IstoÉ e no jornal Folha de São Paulo. “Outra novidade é o funeral virtual. Criado pelo Grupo Vila, do Rio Grande do Norte, ele permite que o velório seja acompanhado a distância. ‘Muitas vezes parentes e amigos estão longe. Com uma câmera ligada a um computador eles podem ver as imagens e ainda deixa uma mensagem eletrônica’, afirma Heber Vila, diretor do Grupo”. (IstoÉ/1649-9/5/2001). “A internet se presta a muitas coisas, mesmo a algumas pouco agradáveis, como acompanhar on-line um velório. Sim, esse serviço começou a ser oferecido pelo Grupo Vila (...) A transmissão é feita ao vivo, com a ajuda de uma webcam instalada de forma a captar quatro ângulos diferentes da sala de velório. Se quiser, o visitante pode enviar condolências aos familiares do falecido” (Veja, 17 de janeiro, 2001). 69 “Os internautas já podem morrer em paz. No último adeus, eles poderão contar com a presença de todos os seus amigos, até mesmo daqueles que não tiverem como chegar a tempo para o velório. É preciso apenas que eles estejam ligados à internet. Em tempos cibernéticos, até as cerimônias fúnebres se tornaram virtuais”. (Folha de S. Paulo, 05/10/04) Além de acompanhar o velório, os familiares e amigos podem mandar mensagens de conforto e condolências à família em tempo real, por e-mail. O Memorial Eletrônico é uma forma inovadora de os clientes do Grupo Vila homenagearem seus entes queridos. Com este serviço, parentes e amigos poderão assistir, durante o velório, a um vídeo com momentos da vida daquele que se foi. Os familiares escolhem fotos e mensagens para o vídeo que será transmitido durante o velório. Este serviço encontra-se disponível somente no Centro São José, em Natal, e na Funerária Morada da Paz, em João Pessoa. Segundo Pollyana, “muitos familiares chegam dizendo, ’Ah, já estou sofrendo demais com a perda e ainda ter que mexer com fotos e recordações. Estou muito abalada emocionalmente‘. Muitos chegam aqui chorando muito e realmente sem condições de ir atrás de recordações daquele que partiu”. Sendo assim, foi criado o memorial básico, apenas com mensagens escolhidas por familiares, passadas através de ví- 70 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte deos sem grandes efeitos técnicos. Neste caso, qualquer pessoa, entre amigos e familiares, pode colocar uma mensagem. No Memorial Eletrônico com fotos e efeitos computadorizados, apenas a família tem autorização para alterar o conteúdo do vídeo. Logo após a cerimônia, o material é gravado em DVD e entregue à família. Por estarem muito abaladas, muitas pessoas utilizam a adaptação de frases de coroas, frases prontas, por exemplo, para o memorial básico. O vídeo começa sempre com o emblema do local do velório e do cemitério para onde o corpo vai. As fontes escolhidas precisam ser discretas tanto no formato quanto nas cores. O objetivo principal é homenagear o ente querido com momentos que representem as melhores lembranças que se tem dele. Quando aqueles que amamos partem antes de nós, deparamo-nos, às vezes, com uma dificuldade em aceitar essa perda. Temos dificuldade em voltar à realidade e aceitar que, apesar do ocorrido, a vida dos que ficaram precisa continuar. Algumas empresas do segmento funerário estão implantando um serviço chamado Psicologia do Luto, com profissionais qualificados para auxiliar famílias e amigos, que perderam, ou que estão prestes a perder, entes queridos, na tentativa de amenizar a dor dessas pessoas, que sentem dificuldade em se adaptar à nova realidade. 71 Estes profissionais estão sempre prontos para atender aos que realmente precisam de apoio, de forma gratuita. A psicóloga Ana Elisa de Castro trabalha com a terapia do luto no cemitério Morada da Paz e afirma que muitos não estão preparados para a perda de seus entes queridos. “Mas o tempo cronológico em que a gente vive não é o mesmo do coração, algumas pessoas demoram muito a se costumar com a nova realidade”, afirma. A psicóloga explica que as pessoas têm uma maneira diferente de se relacionar com as perdas, daí a necessidade de um apoio profissional para os casos com dificuldades de retornar às atividades normais. “A partir do apoio terapêutico, eles têm a possibilidade de reorganizar sua vida. A maioria dos meus clientes está na terapia há três meses e muitos estão próximos de receber a alta”, declara. “Nossa sociedade não se permite viver e trabalhar questões referentes à morte, por este motivo observamos as pessoas adoecendo. O processo de luto é vivenciado através de várias fases e o fato de o cliente ter um espaço para se viver esse momento tão difícil é bastante relevante”, afirma Bianca Queiroz, 26 anos, psicóloga responsável pelo grupo de apoio ao enlutado no cemitério Parque da Passagem. Este projeto foi criado em 2002, pelo Grupo Vila, em Natal, para apoiar aqueles que sofreram perdas recentes. O 72 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte serviço de Psicologia do Luto funciona nos cemitérios Morada da Paz e Parque da Passagem. Trata-se de um serviço inovador no Nordeste e os atendimentos podem ser individuais ou em grupo, nos consultórios, ou através de consultas e aconselhamentos via Internet. “E um serviço oferecido gratuitamente aos clientes enlutados, em forma de atendimento individual e em grupo, onde os mesmos terão um espaço para vivenciar esse processo”, diz Bianca. Para o senhor Francisco Ferreira da Silva, de 44 anos, motorista, que participa do grupo há aproximadamente oito meses, o serviço de psicologia do luto é fundamental porque “faz a gente se sentir melhor em compartilhar a nossa dor com outras pessoas e saber que alguém tem capacidade para nos ajudar”. “Para mim, é muito importante porque fico mais aliviada da minha dor. Quando participo do grupo, me sinto melhor, porque percebo que outras pessoas também passam por isso e sentem a mesma dor. A dor do luto é muito triste, mas Deus vai nos ajudando a melhorar”, disse a senhora Maria Vitória da Silva, de 43 anos, participante há seis meses. A terapia do luto é diferente da terapia convencional, em que se passa muito tempo em um consultório. O atendimento é focal, individual ou em grupo, e visa orientar o pa- 73 ciente a seguir o caminho em que é possível conciliar o vazio da perda com a retomada de certos aspectos da vida. Segundo Bianca, “permite que as pessoas enlutadas possam vivenciar sua dor, para, desta forma, superá-la e, conseqüentemente, voltar a viver normalmente após esse processo”. A morte continua sem uma definição exata, pois ela é envolta em um grande mistério, que jamais entenderemos e acaba com aquilo que é de mais importante para nós, que é a nossa vida. Seja ela orgânica ou psicológica e até mesmo espiritual, todos nós tememos a foice afiada que a acompanha. A morte é como um sono sem sonhos, do qual nunca acordamos - nossa consciência suprimida para sempre. Temos que lembrar que a morte não se dá somente no âmbito físico, quando deixamos o corpo e partimos para um plano espiritual ou para o céu e o inferno. Morremos também, quando deixamos de viver nossas próprias vidas, quem não troca de idéias ou evita as próprias contradições. Foto: Ricardo Junqueira 74 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Foto: Ricardo Junqueira Centro de Velório São José Foto: Ricardo Junqueira Capela Central do Centro São José Mostruário de urnas do Centro São José Foto: Ricardo Junqueira 75 Foto: Moraes Neto Sala de tanatopraxia, no Centro São José Foto: Aline Ricciardi Reunião do grupo de apoio ao enlutado Preparação para cortejo 76 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte 77 78 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Capítulo IV A vida além da morte “Faço parte do mundo e, no entanto, ele me torna perplexo.” Charles Chaplin 79 P ode parecer inacreditável, mas para nós, pensar e refletir sobre a vida foi muito mais difícil do que pensar na morte. Talvez pelo fato da morte ser simplesmente o fim da vida. E o que é vida? A forma como a entendemos é muito particular, cada um percebe o mundo de um modo diferente, de acordo com suas experiências, vivências. Enfim, vida pode ser um monte de coisa - alegria, a batida de um coração, um lamento, uma ilusão, uma desilusão; pode ser tudo que tem movimento, ou o que não tem movimento, tudo que se reproduz, ou o que não se reproduz; pode ser prazer, sonho, fantasia - e a dificuldade em explicá-la está no fato de termos que refletir sobre nós mesmo para poder fazê-lo. De acordo com Stanley Miller (1953) e Sidney Fox (1957), cientistas de renome internacional, por meio dos seus estudos, chegaram a conclusão que a Terra existe há aproximadamente 4 bilhões de anos. O homem, por sua vez, habita o planeta azul há pouco mais de três milhões de anos. Nesse período o córtex cerebral humano evoluiu. O córtex é uma camada periférica dos hemisférios cerebrais, formada de substância cinzenta, sede de funções nervosas elaboradas, como os movimentos voluntários. É responsável pelo entendimento e pela razão. Sem ele, não haveria a linguagem, a percepção, a emoção, a cognição e a memória. 80 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Desse modo, o homem tem condições de refletir sobre sua própria existência e alcançar significativos avanços científicos, como por exemplo, a descoberta do DNA, e tantas outras descobertas da ciência. O problema é que a mente humana também evoluiu para provocar estragos no equilíbrio que garante a vida na Terra. O modelo mercantilista que rege a nossa sociedade e a crença em um pseudo-progresso impedem a população de pensar em uma maneira de viver, que contribua para a manutenção da vida. Não se pratica um desenvolvimento sustentável e um consumo consciente. É fundamental o bem-estar para qualquer forma de vida. O mundo pede novos hábitos, sustentável, a partir de ações individuais e coletivas. De acordo com o jornalista e professor universitário, Jair Donato, em seu blog, “a questão do aquecimento global é enorme. Mas a ação pessoal é muito importante, desde a escolha política que cada um pode fazer, como o produto que leva para casa, o uso de bens e alimentação ecologicamente corretos, revitalizar, reciclar, recusar e reduzir. Mudar a mentalidade é o caminho, a decisão consciente de mudar pode ser a solução”, afirma. O desafio da nova geração é encontrar caminhos que possam ser trilhados em benefício do bem, promovendo a paz mundial, praticando o exercício da cidadania, a conservação da 81 biodiversidade, buscando uma maior igualdade entre os homens, proporcionando um futuro melhor para os que ainda vão vir. Preocupado com as questões sociais, com a preservação do meio ambiente, na busca por uma igualdade entre os homens, o Grupo Vila vem realizando trabalhos em todas essas áreas, visando promover não só aos seus associados, mais também a população do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba, uma melhor qualidade de vida. Para isso, o grupo comercializa um plano funeral com benefícios em vida, o plano Sempre; que conta com a clínica médica e odontológica, Multifam; promove projetos sociais como, Clube da Melhor Idade Cotinha Vila, Arte na Escola, Programa de Alfabetização de Adultos e projetos em prol do meio ambiente como, Verde é Vida e Cidade Ecologia. O plano Sempre existe no mercado desde 2004 e cobre os estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. “O plano Sempre de assistência funeral é um serviço de proteção familiar, que permite aos clientes planejarem antecipadamente os arranjos e custeios de um funeral, evitando desequilíbrios financeiros da família sem que precisem recorrer a parentes e amigos”, explicou Kleber Maxwell, supervisor de vendas do plano. Existem três tipos de plano – Sempre Bem, Sempre Plus e Sempre Pleno – todos oferecem assistência funeral 82 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte completa. O Sempre Bem, comercializado em todo Rio Grande do Norte, inclui auxílio alimentação por três meses, caso o titular venha a falecer. O Sempre Plus, comercializado em Natal, oferece também benefícios em vida, como descontos em consultas e exames médicos e odontológicos na clínica Multifam; descontos em farmácias da rede credenciada; locação de equipamentos para convalescentes, como cadeira de rodas e de banho, andador, muletas, etc; orientação jurídica gratuita e também auxílio alimentação por três meses, em caso de falecimento do titular, mesmo não sendo este, arrimo de família. O Sempre Pleno possui as mesmas vantagens que o Sempre Plus, com descontos em ampla rede credenciada de clínicas, laboratórios e farmácias, sendo comercializado nas demais cidades que o Grupo Vila atua. “Esses planos são de proteção familiar, ou seja, cobrem toda a família. O titular, cônjuge, filhos, pai e mãe pagando apenas uma única mensalidade por todos. E mesmo que o titular venha a falecer, a família continua recebendo assistência”, disse a promotora de planos, Silvana Maria Farias Costa. “Antigamente, tínhamos um pouco de dificuldade em vender, porque as pessoas viam o plano funerário como agouro, acreditavam que, se fizessem, morreriam. Hoje, as pessoas já sabem da importância de se ter um plano funeral. 83 A aceitação é bem maior. O Grupo Vila já tem 60 anos de mercado, total credibilidade. As pessoas sabem que podem confiar. Arrisco-me a dizer que, atualmente, a aceitação da população com os nossos planos é de quase cem por cento”, conta Silvana. E quando se trata de Sempre Plus, o maior problema é que as pessoas tendem a confundir benefícios em vida, com plano de saúde. “Algumas pessoas confundem o Sempre Plus com plano de saúde. E é sempre uma preocupação nossa deixar bem claro que ela está adquirindo um plano funeral com benefícios em vida, e não um plano de saúde”, esclarece a promotora. Mesmo quem tem um seguro saúde, tem optado pelo ‘Sempre Plus’, devido aos descontos em tratamentos odontológicos, em acompanhamento com nutricionista e psicólogos, áreas que a maioria dos planos de saúde não dá cobertura. “As pessoas escolhem o ‘Sempre Plus’, porque além de estar com as despesas funerárias totalmente cobertas, não vão mais precisar enfrentar fila do SUS (Sistema Único de Saúde), vão conseguir comprar medicamentos quando necessário e usufruir de todas as outras vantagens que o plano oferece”, diz Silvana e complementa, “lembrando que com o ‘Sempre Plus’ toda a família está coberta, toda a família tem desconto e nos planos de saúde não”, frisa. 84 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte O plano é vendido nas unidades do ‘Sempre’ e da Multifam, e no serviço porta-a-porta, ou seja, de casa em casa. As vendedoras passam o dia inteiro nos bairros, batendo nas casas das pessoas, explicando a importância de se ter um plano funerário, e acabam se deparando com situações inusitadas. “Uma vez, uma colega de trabalho foi oferecer o plano e a dona da casa pediu que ela entrasse para explicar. Quando de repente o dono da casa (marido da senhora) ouviu a palavra funeral. Ele apareceu na sala nu (risos), completamente nu, com um cabo de vassoura na mão e falando alto: tire essa mulher daqui de dentro! A esposa, muito tranqüila, pediu para que ele tivesse calma e deixasse, pelo menos, minha colega terminar de explicar. Parece que foi pior. Ele começou a gritar ainda mais alto: eu não quero saber de funeral nenhum! Tire ela daqui! Essa mulher trouxe a morte para minha casa! Já experiente, ela continuou a explicar o plano para esse senhor. E ele ainda resistindo, na tentativa de constrangê-la, sentou no sofá, completamente desnudo. Minha colega fez que não era com ela e continuou a explicação naturalmente. No final, quando ela terminou a explanação, que conseguiu fazer com que o senhor entendesse qual era a proposta do plano. Acredita que ele deu o braço a torcer? Pois é! Comprou o Sempre Bem. Minha colega disse que saiu de lá morrendo de rir”, conta Silvana. 85 Outro caso muito comum são filhos que compram o plano pensando nos pais, na maioria das vezes, idosos, sem que esses tomem conhecimento. Pessoas mais velhas acreditam que comprar um plano de assistência funeral é assinar a própria sentença de morte. “Fiz uma venda recentemente, em que a dona da casa se chamava Belchiolina. Os pais dessa senhora moram com ela. Já tem por volta de seus 80, 85 anos de idade, e morrem de medo de fazer um plano funeral. Dona Belchiolina pediu que eu voltasse à tarde para conversar com a filha dela, disse que a neta tinha interesse de fazer o plano para os avós. Voltei à tarde, e a filha de dona Belchiolina me convidou para entrar. Comecei a explicar o plano e os avós dela apareceram na janela da casa. Quando o avô me viu foi logo perguntando: o que é que você ta fazendo aí, hein? A neta respondeu: nada não, vô. Eu tô só comprando uma coisa. Aí lá vem dona Belchiolina: eu estou comprando uma casa. O avô desconfiado com a resposta da filha, indagou: mas você num já tem casa? Essa aqui e a outra do lado? A filha respondeu dizendo que era uma terceira casa que estava comprando. O senhor não se deu por satisfeito com a resposta e voltou a me perguntar o que eu estava fazendo ali. Eu disse que estava vendendo um plano. E ele: e para quê esse plano? Eu respondi que era para proteger ele, a esposa, os filhos e os netos. O senhor desconfiado falou: Mas, minha filha não disse que 86 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte estava comprando uma casa? Aí eu tentei esclarecer, dizendo que não era uma casa, e sim um plano de proteção. A filha dele já havia me contado que eles não aceitariam um plano funerário, e que ela vinha tentando convencê-los há bastante tempo, pois, além da idade um pouco avançada, um sofre de problemas cardíacos e o outro, de pressão alta. Quando terminei de preencher o contrato, a filha de dona Belchiolina me deu a taxa de inscrição e, logo em seguida, me dirigi para a porta de saída da casa. O casal de idosos estava na calçada e mais uma vez me abordou: minha filha comprou mesmo uma casa? Eu fiquei sem saber o que responder. Confesso que tive vontade de contar a verdade, mas havia prometido à minha cliente que não o faria. Eu repeti que a neta tinha comprado um plano de assistência a toda família e que dona Belchiolina explicaria depois aos dois. Eles ainda ficaram um pouco desconfiados, mas me despedi e fui embora”, relata a promotora. Além do Plano Sempre, o Grupo Vila conta com a Clínica Multifam, que não deixa de ser uma forma de manutenção do plano, pois é o primeiro serviço que o cliente utiliza após a aquisição do Sempre (menos o Sempre Bem). “A Multifam é o segmento empresarial do grupo, voltado para assistência médica e odontológica. Com três unidades, a Multifam disponibiliza para seus clientes mais de vinte e seis especia- 87 lidades médicas, seis odontológicas e pelo menos cem tipos de exames. Os clientes do Plano Sempre dispõem de descontos de até cinqüenta por cento nos serviços da clínica”, explica Jacyane Câmara, supervisora operacional das clínicas Multifam há dez anos. “Sou responsável por toda a parte de atendimento. Trabalho na clínica desde que ela foi fundada. Entrei como atendente e fui crescendo passo a passo”, diz. Criada para agregar valor ao plano funeral, a Multifam disponibilizava, no início, apenas nove especialidades médicas. “Iniciamos apenas com a unidade da Zona Norte de Natal, e hoje, contamos com uma Multifam na Zona Norte, uma no Centro e outra na cidade de Parnamirim. Fazemos uma média de quinhentos e cinqüenta atendimentos diários, contando com as três clínicas”, conta Jacyane. “Prezamos pela qualidade dos serviços. Contamos com especialistas sérios e conceituados”, diz a supervisora. E não são só os clientes do Plano Sempre que podem ser atendidos na Multifam. A diferença é que, para os que não são, não há desconto, mas eles têm a vantagem de ser atendidos por um preço acessível, mais baixo que o de mercado. “Eu não tenho condições de pagar um plano de saúde porque é tudo muito caro, hoje em dia. Além disso, eu pago ainda mais caro por cada pessoa minha que eu colocar a mais. Com o plano Sempre, além de eu ter meu funeral garantido e não 88 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte precisar deixar despesas para minha família, eu ainda posso usar os serviços da Multifam pagando bem menos do que com um plano de saúde. E a melhor parte é que eu pude colocar meus filhos e meu marido e todo mundo paga um valor único. Os serviços são muito bons, todos os médicos que eu precisei, eu encontrei”, declarou a usuária Maria da Penha da Silva, 42 anos. Para a odontopediatra, Stella Coelli da Silva e Melo Medeiros, “a clínica Multifam presta a toda população um serviço de qualidade, com um preço acessível. Além de ser uma abertura de mercado para nós, profissionais da saúde. Temos uma parceria, o Grupo Vila entra com toda a estrutura física e com material de qualidade (vale salientar que este material está à altura de outras clínicas particulares) e nós entramos com o serviço”, diz e complementa, “toda a condição de trabalho que precisamos, o grupo oferece. Não se faz aqui serviço de “gambiarra”, como se faz, muitas vezes, no serviço público”. Stella relata ainda um caso de confiança que existe entre os usuários e os profissionais da Multifam. “Tenho três pacientes aqui na Multifam que não são associados, não tem o Plano Sempre. Todos os três colocaram aparelhos ortodônticos em outras clínicas particulares, com profissionais irresponsáveis, que cometeram graves erros, e hoje são atendidos aqui 89 conosco. Esses profissionais extraíram dentes desses garotos e um desses meninos está, até hoje, há três anos, com o espaço da extração aberto. O normal é que em procedimentos como este, o espaço se feche em até seis meses. Os prejuízos para esses meninos poderiam ser irreparáveis se não tivessem procurado um profissional de qualidade”, conta a odontóloga. “Na odontologia damos uma garantia. Por exemplo, se por acaso uma restauração cair, o cliente pode retornar que refazemos o serviço sem cobrar nada”, explica Stella. Um dos projetos sociais do Grupo Vila é o ‘Clube da Melhor Idade Cotinha Vila’. Criado em março de 2000, o projeto é voltado à valorização do idoso, buscando a integração dos clientes do ‘Plano Sempre’, para que esses possam levar uma vida mais saudável e feliz. “O nosso principal objetivo é devolver um pouco para a sociedade daquilo que ela nos dá. Uma forma de agradecer pela preferência dos nossos serviços, pela preferência do mercado. Com isso, devolvemos essa preferência trabalhando em prol dessas mesmas pessoas que nos prestigiam”, explica Eduardo Vila, um dos diretores do Grupo Vila. O trabalho no clube acontece por meio de palestras, atividades recreativas, sociais, culturais e artísticas, realizadas semanalmente, e, atualmente, envolve cerca de 100 pessoas. “Por enquanto, estamos funcionando na clínica Multi- 90 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte fam da Zona Norte, no bairro de Igapó. Nas terças e quintas, desenvolvemos oficinas de artesanato como: cestaria em jornais, meias de seda, fuxico, entre outros. E, nos sábados, temos reuniões maiores, com todo o grupo. O encontro começa ás 14 horas e só encerra às 17h30. Geralmente, começamos fazendo a oração do Pai Nosso, em seguida, informamos toda a programação da semana seguinte, discutimos sempre um tema atual (considero este um momento de reflexão) e, por fim, fazemos os ensaios do nosso grupo de dança folclórica. Enquanto alguns estão dançando, outros jogam baralho, dama, dominó. Enfim, é uma tarde de lazer”, explica Áurea Vila, coordenadora do projeto. “Promovemos todo final do mês uma festa para comemorarmos os aniversariantes do mês. Uma festa muito animada com direito a bolo, refrigerante, salgadinhos e balões. Fazemos passeios nos finais de semana, geralmente aos domingos. Alugamos um ônibus e vamos passar o dia em algum lugar legal, como Maracajaú, Genipabu e as praias do Litoral Sul. Comemoramos também, as datas significativas, como o Carnaval, Dia das Mães e o São João. E, toda última quartafeira do mês, nos encontrou com outros grupos da melhor idade lá no SEST-SENAT. É como se fosse um ‘Ação Cidadã’. Temos médicos, dentistas, cabeleireiros, uma banda de forró tocando. É mais um dia de lazer”, diz a coordenadora. 91 Um dos objetivos do ‘Cotinha Vila’ é fazer um trabalho de conscientização, fazendo com que todos os associados conheçam seus direitos e deveres para, a partir daí, exercer a plena cidadania. “Entregamos para cada um dos participantes uma cópia do Estatuto do Idoso e nos sábados, fazemos palestras para explicar melhor quais os direitos deles”, diz Áurea. O Grupo Vila tem pretensões de transformar o projeto em fundação. “Temos um projeto para transformar o grupo da ‘Melhor Idade Cotinha Vila’ em fundação. Já demos entrada na documentação necessária e estamos apenas esperando resolver as questões burocráticas”, declara Áurea Vila. “Pretendemos adquirir uma sede no próximo ano, para que possamos, antes mesmo de nos tornarmos fundação, abrir para toda a comunidade. Para que não só os idosos, mas também jovens e adultos, possam se beneficiar com nosso trabalho”, complementa. O artista plástico César Rhasec, 52 anos, é colaborador do projeto desde a fundação do clube. “Atualmente, devido à falta de espaço físico, tenho desenvolvido mais a parte de apoio. Dou palestras, auxílio no artesanato e suporte à dona Áurea quando necessário. Quando adquirirmos nossa sede, pretendo incluir pintura em tela, trabalhar com escultura em argila e barro, que é muito bom para desenvolver a coordenação motora, concentração, entre outros”, diz. 92 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte “Uma das coisas que mais me marcou no trabalho com os idosos, foi um passeio que fizemos para uma serra, não me lembro o nome agora. Fomos com outros grupos da melhor idade. Era uma romaria e o que mais me chamou a atenção foi que, na maioria das vezes, os familiares protegem seus parentes já de idade, impedindo de fazer isso ou aquilo. E eu percebi neste passeio, o quanto a fé, a religião e a força de vontade podem ajudar as pessoas. Eu presenciei todos aqueles idosos subindo a serra a pé. Uma serra muito alta, que muitos jovens não conseguiriam subir. A fé daquelas pessoas fez com que elas conseguissem superar até as dificuldades físicas. Isso para mim foi uma lição de vida”, relata Rhasec. Segundo Rhasec, muitos são os casos de superação que ele presencia nos encontros com os participantes do ‘Clube da Melhor Idade Cotinha Vila’. “Outro caso que me marcou muito foi um passeio que fizemos para as dunas de Genipabu. Uma senhora que participa do nosso grupo, na época com 75 anos. Eu subi a duna na frente, sem olhar muito para trás. Quando cheguei ao topo e olhei para o lado, estava lá, muito tranqüila, olhando admirada para os camelos, dona Maria. Na época, ela estava com 75 anos. Uma senhora de pele morena, olhos azuis, sempre com um lenço na cabeça. Linda, linda. E eu, impressionado perguntei: ô dona Maria, quem foi que ajudou a senhora a subir essa duna? E ela 93 me respondeu em tom firme: Ninguém. Eu subi sozinha. Eu, ainda desconfiado, fui perguntar a dona Áurea Vila: quem foi que ajudou dona Maria a subir? Áurea disse que não tinha sido ela. Aí eu falei: pois ela está lá em cima, bem tranqüila. Resultado, a partir daí, descobri que a idade não é problema quando se quer viver”, conta o artista plástico. Para César Rhasec, essas demonstrações de superação vêm da união e da alegria que o grupo ‘Cotinha Vila’ tem. Além das lições que eles tiram após as reflexões que fazem sobre a vida aos sábados. “Uma das coisas que falamos muito em nossos encontros, é que o ser humano só permanece na vida enquanto ele tiver vontade de aprender. É preciso ter vontade de aprender”, diz Rhasec. “Eu tenho um exemplo na minha própria família. O meu avô, um metro e oitenta de altura, forte, um senhor trabalhador. Mas, quando minha avó morreu, ele também, aqui na terra, começou a se definhar. O organismo dele ainda viveu mais dez anos, mas a alma morreu junto com a minha avó”, se emociona. Dona Amélia Laurentino de Medeiros participa do grupo há oito anos. No início, era ela e o esposo, até que este veio a falecer. “O Cotinha Vila me ajudou e me ajuda a superar todas as minhas dificuldades. Inclusive, a morte do meu marido. O projeto melhorou minha vida em tudo para melhor. Tenho a sensação de que comecei a viver 94 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte agora. Lá, eu fiz verdadeiras amizades. Lá, todo mundo é unido. Todos me querem bem. Se por acaso comento com alguma amiga que não vou poder ir algum dia, elas insistem, me pedem para ir, dizem que sou divertida, que vão sentir minha falta. Isso levanta a minha auto-estima, me deixa feliz”, declara. “Se acordo um dia cansada, com preguiça e penso em não ir pro Cotinha Vila, minhas filhas ficam brabas, pois sabem o quanto me faz bem estar ali. Elas dizem: a senhora não pode perder não. Como é que a senhora vai correr o risco de perder um passeio com o grupo que a senhora tanto gosta? Nessa hora, me dou conta, percebo que elas estão com a razão e vou passear (risos), conta dona Amélia. Freqüentadora assídua do projeto, dona Amélia diz que gosta de todas as atividades e que só está afastada da dança, porque fez recentemente uma cirurgia. “De todas as atividades, não consigo eleger apenas uma com preferida, gosto de tudo. Lá, eu me sinto em casa. Nos dias que não vou, que não tem atividade no ‘Cotinha Vila’, fico só pensando no grupo, lembrando dos meus amigos”, diz. Uma das coisas que mais agrada dona Amélia é a atenção dispensada pelos organizadores do projeto. “Dona Áurea é uma coordenadora muito boa, muito preocupada com a gente. Quando fazemos passeios, ela sempre leva lanche, fica o 95 tempo inteiro cuidando da gente, atenta para que nada de errado aconteça. Ela é muito atenciosa”, declara. Pichação é coisa do passado na Escola Estadual João Tibúrcio, localizada no bairro do Alecrim, em Natal. Ultimamente, a arte dá graça aos seus muros com imagens pintadas pelos alunos do ensino fundamental e médio da escola. Esse é mais um projeto social do Grupo Vila, o ‘Arte na Escola’. “Esse projeto teve início em 2002. Eu estava terminando meu curso de graduação em Educação Artística, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e precisava fazer um estágio. Seu Eduardo Vila, um dos diretores do grupo, me indicou a João Tibúrcio. Ele estudou lá quando criança. Eu sabia que havia um carinho todo especial com esse colégio. Sabendo dessa relação afetiva que ele tinha com a instituição, comecei a pensar no projeto ‘Arte na Escola’, que poderia ser desenvolvido em parceria com o Grupo Vila. Propus ao seu Eduardo, e imediatamente foi aceito”, explica Rhasec. O objetivo da iniciativa é estimular a arte entre os alunos, desenvolver capacidades e habilidades, através da pintura artística, de maneira que propiciem aprimoramento da sua arte, sua criatividade e capacidade, abolindo de vez a prática da pichação. O Grupo Vila doa todo o material – papel, tinta, cartolina e pincel, compra os brindes e patrocina o coquetel de lançamento da exposição. “O início do trabalho 96 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte é feito em sala de aula, através de desenhos de livre escolha dos alunos. Em seguida, uma comissão avaliadora escolhe os dez melhores que vão ser pintados no muro da escola. Cada concurso, ou seja, cada ano tem um tema diferente. Na segunda etapa, os alunos são orientados a pesquisar sobre o tema tratado naquele ano, para depois, fazer seu desenho em cartolina. Neste momento, o meu auxílio é orientar as crianças, ensinando todas as técnicas necessárias de pintura. No terceiro e último momento, as crianças, junto com a minha ajuda, pintam seus desenhos nos muros da escola. Mais uma comissão é formada para eleger os três melhores. Os vencedores ganham prêmios que podem variar de bicicleta a kits de pintura”, explica o coordenador artístico, César Rhasec. Temas como ‘As Belezas do Fundo do Mar’, ‘Brasil 500 Anos’, ‘Pontos Turístico’, ‘Natal 400 Anos’, ‘Água’ e ‘Animais em Extinção’ já foram trabalhados. Todos eles são discutidos em sala de aula. O projeto estimula o aprendizado dos alunos, além de deixar a escola mais bonita. “Além de valorizar a criatividade dos alunos temos a oportunidade de despertar habilidades para pintura”, diz o coordenador artístico e complementa, “o incentivo à pintura é um papel importante para a educação”. E além de participar do ‘Grupo da Melhor Idade Cotinha Vila’ e do projeto ‘Arte na Escola’, o artista plástico, César 97 Rhasec, que tem residência há dez anos no cemitério Morada da Paz, é responsável por quase todas as obras de arte expostas por lá. “Eu me considero um dos artistas mais exóticos e excêntricos do Brasil, pois moro em um cemitério e faço arte. Arte essa, direcionada para a vida. A mensagem que tento passar em minhas obras, é que a vida continua para os que ficam. Precisamos aprender a lidar com a morte e o meu objetivo é que esse convívio possa acontecer pacificamente, sem traumas”, diz. “Hoje em dia não acho que tenho uma profissão. Tenho uma missão”, encerra. O Grupo Vila também promove, em parceria com o Governo Federal e com os Governos do Estado do Rio Grande do Norte e Pernambuco, uma ação continuada de combate ao analfabetismo dentro da empresa. Em Natal, no ano de 2007, foram alfabetizados oito funcionários. Em 2008, dezenove. Já em Recife, vinte e cinco funcionários semi-analfabetos, entre sepultadores, pedreiros e jardineiros, foram formados. O Programa de Alfabetização de Adultos oferece cursos com duração de oito meses e carga horária total de 320 horas. As atividades pedagógicas acontecem diariamente, num total de duas horas por dia, nas instalações dos cemitérios Morada da Paz de Natal e Recife. As aulas são expositivas, os alunos participam de atividades em grupo e discutem sobre textos da atualidade. O grupo fornece todos os recursos para a re- 98 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte alização das aulas como quadros, cadernos, canetas, pastas, equipamento e o espaço físico. A parte que cabe aos governos é a capacitação dos profissionais que vão ministrar as aulas no Grupo. O curso de alfabetização de adultos oferecido pelo Grupo Vila aos seus funcionários faz parte de um programa de alfabetização, apoiado pelas Secretárias de Educação do Rio Grande do Norte e Pernambuco. O plano consiste em uma metodologia diferente e exige do aluno uma compreensão do mundo, sociedade e família. “Trazer o trabalho para dentro do Grupo Vila é uma forma de, cada vez mais, valorizar os colaboradores, contribuindo para ampliarem seus horizontes e sua visão de mundo”, explica Celione Oliveira, gerente de RH do grupo. Assim, como outras empresas contemporâneas, o Grupo Vila vem demonstrando preocupação com as questões ambientais. Desde março de 2003, o grupo realiza, todos os anos, o projeto ‘Verde é Vida’, em parceria com o Rotary Club e apoio do IBAMA. O projeto consiste na mobilização da comunidade, em uma campanha de conscientização, para a necessidade de preservar as matas nativas da cidade de Natal e Grande Natal, além de contribuir com o reflorestamento de áreas prejudicadas pela devastação. “Temos toda uma preocupação com o futuro do planeta, pois sabemos que este futuro está ameaçado por conta da degradação do meio 99 ambiente, do aquecimento global. Trabalhamos para evitar que essa exaustão dos recursos naturais fique cada vez mais distante. Pretendemos deixar um mundo melhor para os nossos descendentes”, diz Eduardo Vila. O objetivo da iniciativa é educar crianças e adolescentes sobre a importância de proteger a natureza. Várias mudas, de diversas espécies de árvores nativas, como Pau-Brasil, Mulengue, Caraibeira e Pitanga, já foram plantadas às margens do Rio Pitimbu, nos limites do cemitério Morada da Paz, em Emaús. “O apoio ao projeto é fundamental para conscientizar e preservar o meio ambiente a partir do Pitimbu, de vital importância para nossa cidade”, explica Eduardo. A parceria também acontece em outros projetos ambientais, como o movimento ‘Pró-Pitimbu’ e ‘Cidade Ecologia’, este último promovido pela Rádio Cidade. Junto ao movimento ‘PróPitimbu’, palestras ensinando a importância da preservação da água e do Rio Pitimbu foram proferidas à crianças de uma escola particular da cidade de Natal. As crianças aprenderam como economizar e evitar a poluição. A maioria descobriu que, no dia-a-dia, desperdiçava água em banhos demorados, ou até mesmo, ajudando o pai a lavar o carro com mangueira. Após as palestras, os estudantes fizeram o trabalho de campo, plantando mudas de árvores como, Catingueira, Cambuim e Mangabeira. “Sempre estimulamos ações no sentido de preservação ambiental, pois o meio am- 100 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte biente é a fonte na nossa vida. Precisamos cuidar dele cada vez mais”, disse o gestor de operações do grupo, Heber Vila. A parceria do Grupo Vila com a Rádio Cidade se deu na terceira etapa do programa ‘Cidade Ecologia’. Cem mudas de plantas nativas foram plantadas, em 2008, em um dos cemitérios do grupo, o Parque da Passagem, localizado na Zona Norte de Natal. O projeto consiste na mobilização da sociedade em torno das causas ecológicas. Através de uma pesquisa feita pela Rádio, junto com a Consultoria Gaia, foi possível saber quantas mudas deveriam ser plantadas para amenizar os danos causados pela construção civil. O total estimado foi de 421 mudas. Na primeira etapa, 176 mudas foram plantadas na Água Mineral Cristalina, no município de Macaíba. Já na segunda etapa, os alunos de uma escola de idiomas, Yázigi, plantaram 95 mudas em uma granja próxima à Lagoa do Bonfim, município de Nísia Floresta. “Sentimos-nos honrados em poder contribuir com esse projeto. Ações simples como essa é que ajudam a melhorar o planeta em que vivemos”, disse a gerente de marketing do Grupo Vila, Tatiana Rocha. Pode parecer contradição, mas o maior objetivo do Grupo Vila é trabalhar em prol da vida e não da morte. “O serviço funerário como um todo, trabalha para os que ficam. O maior sentido é aliviar a dor daqueles que perderam alguém. Por isso, a beleza dos cemitérios, dos jardins e o cuidado, denotando vida e não morte. Por isso, temos ambientes claros, que transmitem 101 Foto: Aline Ricciardi paz, tranqüilidade, vida. É um serviço voltado para os que ficam”, explica Eduardo Vila. E encerra dizendo, “Quando promovemos um dia como finados, que tem uma programação extensa de músicas, artes, brinquedoteca e outros, todo esse cuidado é visando dar mais conforto aos familiares, que vão visitar seus entes queridos”. Arquivo César Rhasec Projeto Arte na Escola Foto: Moraes Neto 102 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Foto: Moraes Neto Verde é vida: plantio de mudas no Cemitério Morada da Paz Foto: Moraes Neto Lendo e Aprendendo: programa de alfabetização de adultos para funcionários Evento festivo no Clube de Mães Cotinha Vila Foto: Moraes Neto 103 Foto: Ricardo Junqueira Aulas de pintura para a terceira idade Clínica Multifam - unidade Zona Norte Foto: Moraes Neto 104 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Foto: Ricardo Junqueira Doutora Stella Coelli, odontopediatra Atendimento Sempre 105 106 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Capítulo V Morte e vida por meio da mídia: Grupo Vila e o Dia de Finados “Ninguém morre. As pessoas despertam do sonho da vida.” Raul Seixas 107 A mídia tem o papel de manter a população informada. A população, por outro lado, não deve se colocar como mera receptora passiva daquilo que é veiculado pelos meios de comunicação. A invenção da imprensa modificou profundamente a história, da mesma forma que, no século XXI, as mudanças tecnológicas na área da comunicação estão modificando a sociedade, uma vez que o rápido desenvolvimento dos meios de comunicação de massa alterou a forma como vivemos. A Era Industrial tornou-se a Era da Informação. Pensar na morte ou sobre a morte é algo que evitamos ao longo de nossas vidas. Eis a pergunta que não quer calar: Como não pensar, como não falar sobre ela, se a mídia nos impõe sobre esse assunto todos os dias? Com certeza, são as notícias mais “interessantes”, as famosas hot news. Em novembro de 2008, pesquisamos, no site de busca Google, o tema “morte” e obtivemos a impressionante marca de mais de 30.000 notícias sobre o tema. Como exemplo, as notícias sobre a morte da menina Isabella , ocorrida em março de 20081, foram 209, e sobre a da jovem Eloá, que foi seqüestrada e morta pelo No dia 29 de março de 2008, a menina Isabella Nardoni foi encontrada no gramado em frente ao edifício onde o pai, Alexandre Nardoni, morava com a nova esposa e os dois filhos do casal. Nardoni declarou que deixou a garota no quarto e trancou a porta. Quando voltou, Isabella já não estava no quarto. A queda da garota começou a gerar dúvidas e a polícia passou a considerar a hipótese de que a menina tivesse sido jogada do 6° andar do prédio pelo próprio pai. (http://www. virgula.com.br/atitude/interna.php?id=8392). 1 108 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte ex-namorado, foram mais de 2.500 notificações. Com isso, percebemos a tendência das chamadas hot news, as notícias quentes que interessam a maioria, pois casos de violência e morte ocupam praticamente 50% dos telejornais. Segundo o site Ponderantes, “as telenovelas não conseguem mais prender a atenção do telespectador. Mas, durante os últimos dias, as emissoras têm conseguido uma maneira infeliz de contornar a situação: a “novelização” do seqüestro em Santo André. A vida real encarregou-se de arquitetar a história nua e crua. A televisão – especializada em ilusões – deu o tom, mediante a trilha sonora, as vozes forçadamente emotivas de alguns jornalistas e as edições semelhantes às de uma telenovela. Entretanto, a maior parte da similaridade entre as tramas novelísticas e o caso do seqüestro no ABC paulista foi produzida, de fato, pela vida real. Observa-se isso, sobretudo, no modo como a trama se desenrola. Nas novelas de TV, há sempre uma trama central e várias subtramas que se desenvolvem a partir da história principal. É isso que está acontecendo, agora, com o caso Eloá”, diz o autor do texto, Valdeir Almeida. Isso mostra como a nossa sociedade não está, de fato, educada para a morte. Quando assistimos à morte de um desconhecido pela televisão, mostramo-nos chocados diante da situação, mas, logo, tratamos de esquecer aquela notícia trágica. No entanto, quando algo de ruim acontece com quem 109 está próximo de nós, surge uma dificuldade imensa em aceitar a dor pela perda daqueles que partiram. Mas, ainda sim, devemos nos questionar da seguinte forma: Será possível modificar, transformar e ensinar sobre a morte? Qual o verdadeiro papel dos veículos de comunicação no que se refere à morte? A mídia, em si, deve colocar suas objetivas quando alguém é vítima da violência. Faz parte do papel da imprensa informar e combater as atrocidades, visando transformar a nossa sociedade em um ambiente, onde as pessoas sejam livres, no sentido pleno da palavra. Como disse Cecília Meireles, em Romanceira da Inconfidência, “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Contudo, o papel da educação para a morte, através da mídia, é trazer o tema de modo correto, de modo a suscitar o debate, levando, enfim, ao aprendizado, pois, educar para a morte é preparar para a vida. A negação da morte em nossa cultura afeta as novas gerações, resultando numa compreensão pobre, tanto de vida, quanto de morte. A morte é um dos maiores tabus do mundo ocidental. Quase ninguém gosta de pensar no assunto, muito menos falar sobre ele. Mesmo sendo a única certeza da vida, muitas pessoas evitam ao máximo se aproximar da morte. 110 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Segundo a autora Maria Júlia Kovács, no livro Educação para a morte: um desafio na formação de profissionais de saúde e educação, “só quando temos consciência da finitude das coisas e de nós mesmos, estamos livres para estar no presente e inteiros”. O que precisamos entender é que a morte faz parte da vida, que a gente começa a morrer no dia em que nasce. Mas 0 mundo de hoje, contudo, não nos educa a nos prepararmos para a morte. As religiões, no entanto, vêem caminhos para além da morte. Muitos crêem na reencarnação. Os cristãos proclamam a ressurreição. Essa esperança muda a forma de encarar a morte. Se não morrêssemos, não viveríamos da mesma maneira. A maneira como a sociedade se organiza diante da morte está estreitamente ligada ao modo como ela organiza a vida. Viver e morrer não são atos vividos no isolamento. Independentemente de como encaramos a morte, o que importa é que possamos nos sentir bem em lembrarmo-nos daquele que partiu. Infelizmente, as circunstâncias que levam as pessoas ao cemitério são tão chocantes, que a maioria dos visitantes não percebe o que está a sua volta. No entanto, por trás da tristeza que envolve cada sepultamento, existe um grupo de profissionais interessado em prestar um serviço de qualidade, que 111 trabalha duro para transformar os cemitérios em locais mais confortáveis, na tentativa de suavizar a dor das famílias e dos amigos que vêm dar adeus a seu ente querido. Há 60 anos no mercado, o Grupo Vila trabalha para humanizar a morte, procurando amenizar o conceito de cemitério como um lugar fúnebre, sombrio, de medo. O Morada da Paz e o Parque da Passagem, no Rio Grande do Norte, e o Morada da Paz, em Pernambuco, são cemitérios que trazem parques verdes e floridos e espaços bem aproveitados. A tendência dos cemitérios contemporâneos é aquela em que menos é mais. A mudança dos cemitérios para grandes parques impôs uma série de proibições quanto ao uso dos túmulos. A preocupação com a estética desses locais passou a ser grande, em nome da uniformidade. Isto é, não importa se, em vida, as pessoas foram ricas ou pobres, pois, uma vez sepultadas, todas seriam iguais. Os cemitérios-parque começaram a surgir em 1906, em Los Angeles, da forma como são mantidos até hoje: sem lápides, assentados em terreno plano e com poucas árvores. No Brasil, o primeiro cemitério a adotar o modelo parque foi o Cemitério da Paz, no bairro do Morumbi, em São Paulo, inaugurado no ano de 1965. Trazendo mais essa inovação para o Rio Grande do Norte, o Grupo Vila criou cemitérios parque, que são verda- 112 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte deiros parques de descanso para as famílias. “Achei ótimo o trabalho que o Grupo Vila fez aqui (no Morada da Paz). É tudo muito bem cuidado. Assim é mais tranqüilo, nem parece cemitério”, disse a funcionária pública, Carla Andrade. Algumas pessoas também aproveitam as alamedas do cemitério para conversar, fazer novos amigos, caminhar. “Venho quase todo dia visitar meu marido e aproveito para caminhar um pouco. Apesar da saudade que eu sinto, esse é um lugar que me transmite paz”, afirma dona Maria das Graças, 53 anos. De acordo com a revista ‘Diretor Funerário’, “a moderna empresa funerária é clara, realiza negócios de forma transparente, é atuante na comunidade onde está inserida e reconhecida na sociedade. [...] Há empresas que promovem até exposições artísticas e consertos musicais em seu interior, transformando um espaço antes temido e estigmatizado num local aprazível e bem freqüentado”. Tido como referência no segmento, o Grupo Vila freqüentemente aparece na mídia local e nacional, principalmente na época que antecede o Dia de Finados, mostrando seus produtos e serviços, que são voltados para oferecer ajuda e conforto àqueles que necessitam de apoio para lidar com a perda. Segundo o diretor, Eduardo Vila, esse cuidado que a empresa tem com os clientes “é uma forma de humanizar, de passar para essas pessoas uma mensagem de paz e esperança”, diz. 113 “Uma programação diferente será promovida para o Dia de Finados, próximo domingo, nos cemitérios Morada da Paz, em Emaús, e Parque da Passagem, na Zona Norte. Música, missas, cultos, chuvas de pétalas e queima de fotos farão parte do dia em homenagem aos que se foram”, publicou o jornal ‘Diário de Natal’, na edição de 31 de outubro de 2008, abordando os serviços personalizados do Grupo Vila para o dia de finados. Homenagear os mortos parece ser uma prática universal, uma maneira de reverenciar e lembrar os entes queridos e, de certa forma, é uma re-confirmação de nossa condição de mortal. No México, a festa do dia dos mortos é comemorada com um grande banquete. Segundo a tradição daquele país, nos dias 1º e 2º de novembro, Deus deixa os mortos virem visitar os seus familiares que ainda estão na Terra. Ao mesmo tempo, os mortos têm a oportunidade de comer e beber aquilo de que mais gostavam. Esse é um dos motivos dos grandes banquetes preparados pelos mexicanos no Dia de Finados. O Dia de Finados foi instituído na França do século X, por Santo Odílio. No século XI, os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigaram a comunidade a dedicar um dia por ano aos mortos e, assim, foi oficializada a lembrança dos finados. A data 2º de novembro foi escolhida no século XIII, porque, no dia 1º de novembro, é a festa de 114 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte ‘Todos os Santos’. O ‘Dia de Todos os Santos’ celebra todos os que morreram em estado de graça e não foram canonizados e o Dia de Todos os Mortos – Dia de Finados – celebra todos os que morreram e não são lembrados na oração. As pessoas costumam celebrar os mortos levando flores aos túmulos e rezando por eles. Com o passar do tempo, a comemoração ultrapassou seu aspecto exclusivamente religioso, para revelar uma feição emotiva: a saudade de quem perdeu entes queridos. Hoje, o Dia de Finados é um dos feriados mais universais. São cerca de mil anos de celebração pela fé na ressurreição. Alguns preferem chamar a data de Dia da Saudade, retirando o peso do aspecto fúnebre e enfatizando as melhores lembranças daqueles que se foram. No dia 31 de outubro, nos países anglo-saxônicos, comemora-se o Halloween (Dia das Bruxas), em que as pessoas usam fantasias, muitas vezes, assustadoras, mas não levam a sério a comunhão com os mortos. Livros e filmes misturam mortos e vivos e alimentam o terror do sobrenatural. Mas, desvalorizam a vida. Quando a vida é desumanizada, a morte também perde o seu sentido. A morte humaniza a vida, porque revela que somos criaturas limitadas. Fugir da questão da morte é não assumir os próprios limites e os dos outros. A vida não é apenas bioló- 115 gica, nem a morte é acidente de percurso. Como diz a Bíblia: “Para todas as coisas, há o momento certo. Existe o tempo de nascer e o tempo de morrer”. (Eclesiastes 3). Celebrar um dia em memória de nossos entes queridos que se foram pode nos ajudar a conviver de forma mais humana com nossas raízes. Quem trabalha no setor de cemitérios e funerárias sabe que esse é um dia de visitação em massa e, portanto, há uma grande movimentação para este evento. A atenção com a manutenção adequada dos espaços, a limpeza, abastecimento da floricultura, lanchonete e conservação dos jazigos é fundamental. Equipes são contratadas e disponibilizadas para que os visitantes tenham todo o conforto e a segurança neste dia. Umas das formas de apoio dadas pelo Grupo Vila são os diversos atrativos oferecidos no Dia de Finados, como recreação infantil, missas, chuva de pétalas, oficina de artes, serviço de apoio ao enlutado, queima de fogos, entre outros. Para os profissionais, o Dia de Finados é também o Dia da Lembrança, dia de transformar a tristeza em saudade. O professor, e cliente do Morada da Paz, João da Mata Costa, escreveu um artigo intitulado ‘O Reino de Lete’, sobre o Dia de Finados, que foi publicado no site ‘Espaço Aberto’, “o dia era de finados e seria celebrado com muitas missas e cultos. Um dia para lembrar e chorar os mortos queridos. Nos 116 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte cemitérios, muitas flores, velas e preces. Muita música também. [...] No cemitério Morada da Paz, o dia é de festa e tudo vira um mar de flores. Muitas rosas, crisântemos e amoresperfeitos adornam os túmulos horizontais. O teco-teco passa despejando pétalas de rosas. Meninos brincam de desenhar e na galeria de artes pode-se apreciar as belas esculturas do artista César Rhasec. [...] Nem parece que é Finados [...] Me despeço do meu querido pai e vou embora embaixo de uma grande queima de fogos de artifício. Não sei se estou alegre ou triste. Sei que lembro de papai todos os dias. [...] É com muita saudade que me despedi de papai e outros entes queridos que já foram morar no reino de Lete.” Os crisântemos são as flores que os brasileiros preferem para homenagear seus mortos. Essas flores representam o sol e a chuva, a vida e a morte, e podem ser amarelas, brancas ou vermelhas. Não existe explicação racional, mas é comum chover no Dia de Finados. Alguns acreditam que a chuva representa a tristeza das pessoas que perderam um ente querido. Para os católicos, o testemunho de vida daquele que morreu fica como luz acesa no coração de quem continua a peregrinação pela vida. Para tanto, eles acendem velas no Dia de Finados, buscando celebrar e perpetuar a luz do falecido. Os evangélicos não acendem velas, pois acreditam que, 117 depois que morre, a pessoa não tem mais ligação com a Terra, apenas com Deus. A grande movimentação de pessoas nesse dia muitas vezes dificulta a expressão de luto de alguns familiares. De acordo as psicólogas Ana Lúcia Naletto e Lélia Cássia Faleiros Oliveira, do Centro Maiêutica de Psicologia Aplicada, o período de luto é um período de muitas mudanças, mas completamente atípico e diferente de pessoa para pessoa, de tal forma que cada uma precisa encontrar algumas formas especiais de lidar com a dor e evitar mais sofrimento. Essas mudanças podem gerar certo estranhamento nos familiares e nas pessoas mais próximas. De fato, a perda traz uma sensação física de vazio, de falta, de um buraco no ser. Essa dor tem momentos agudos, especialmente nos primeiros meses. A morte pode ser instantânea, mas o processo de luto é longo. É necessário muito tempo para o enlutado se “convencer” da realidade dos fatos, compreender o acontecimento e adaptarse às conseqüências da morte. Eduardo Vila afirma sobre o Dia de Finados que “toda programação é feita no sentido de que as pessoas que venham até aqui rememorar seus mortos se sintam tranqüilas, homenageadas, em paz”. “No cemitério Morada da Paz, [...] os familiares contaram com uma programação especial para comemorar a data 118 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte com missas e cultos em horários diferenciados, apresentação da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte, chuva de pétalas de rosas e queima de fogos”, registrou o jornal ‘Tribuna do Norte’, em 04 de novembro de 2008. A programação especial do Dia de Finados preparada pelo Grupo Vila sempre tem uma grande repercussão na imprensa potiguar. Os jornais destacam, principalmente, as missas, a visitação, a música nas alamedas, a brinquedoteca, a chuva de pétalas de rosas e a queima de fogos. “No cemitério Morada da Paz, serão realizadas missas e cultos em horários diferenciados nos jardins ecumênicos dos cemitérios. Para dar suporte aos visitantes, cada cemitério irá dispor de uma central de atendimento, onde os visitantes poderão obter informações e esclarecer duvidas, brinquedoteca e oficina de artes para as crianças, livraria, praça de alimento e serviço de apoio ao enlutado (...). Pelo terceiro ano consecutivo, o Grupo Vila transmite, ao vivo, o Dia da Lembrança [...] onde as pessoas poderão acompanhar tudo pela Internet, por meio do endereço www.grupovila.com.br. A programação de Finados será encerrada com chuva de pétalas e queima de fogos”, registrou o site de notícias ‘No minuto.com’, em 31 de outubro de 2008. Já o ‘Jornal de Hoje’, por sua vez, na edição do dia 01 de novembro de 2008, publicou que “os cemitérios Morada da 119 Paz e Parque da Passagem decidiram preparar uma programação especial para o Dia da Lembrança e, assim, criar um momento belo para recordar e homenagear os entes queridos que partiram”. Sempre próximo ao Dia de Finados, a mídia local retoma, ano após ano, praticamente as mesmas pautas: programação para o dia nos cemitérios da cidade, denúncias de vandalismo e lotação nos cemitérios públicos, cuidados que a Prefeitura disponibiliza nos túmulos (limpeza, iluminação, segurança) nessa época do ano, empregos temporários (manutenção dos túmulos, venda de flores), etc. O jornal ‘Correio da Tarde’ destacou, no dia 01 de novembro de 2008, que a “arquiodecese divulga agenda de missas. Cemitérios privados montam programação requintada, com direito à transmissão online, chuvas de pétalas, missas, exposição de artes e músicas”. Sobre a estrutura dos cemitérios da cidade, o jornal ‘Tribuna do Norte’ noticiou, em 30 de outubro de 2008, que ”os cemitérios estão praticamente prontos para receber os visitantes no Dia de Finados. A Secretária Municipal de Serviços Urbanos (Semsur) já providenciou a limpeza geral dos cemitérios públicos e também a revisão da iluminação”. O ‘Jornal de Hoje’ registrou, em 27 de outubro de 2008, que “a lavagem dos túmulos continua sendo o serviço mais 120 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte contratado pelos familiares dos mortos. Uma limpeza completa pode custar até R$ 30. A menos de uma semana para o Dia de Finados, Prefeitura e população em geral intensificam os trabalhos de limpeza nos oito cemitérios públicos de Natal”. Em 02 de novembro de 2006, o jornal ‘Tribuna do Norte’ fez referência a alguns dos principais produtos comercializados na data, como velas e flores, afirmando que “o preço de alguns itens usados nas homenagens do Dia de Finados chegou a dobrar em relação a 2005. É o caso da vela. A caixa com oito unidades subiu de R$ 0,50 para R$ 1. [...] Vendedores de rosas, grinaldas, arranjos de flores e demais itens relacionados a data estão instalados com suas bancas em frente dos cemitérios desde ontem cedo”. A preocupação da Prefeitura com a organização dos cemitérios foi destacada pelo site ‘No minuto.com’, em 27 de outubro de 2008, enfatizando que “para a data, a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur) está pintando, iluminando e fazendo a limpeza dos cemitérios”. O site de notícias também veiculou uma denúncia sobre a super lotação dos cemitérios públicos, em 28 de outubro de 2008. “Com os oito cemitérios públicos de Natal totalmente lotados, o pobre pode dizer, ao pé da letra que “não tem onde cair morto”. O cemitério ‘mais novo’, o de Pajuçara, já tem 20 anos que foi construído. [...] Há 121 alternativas para diminuir o problema, porém elas ou esbarram em falta de orçamento ou na resistência das famílias”. No ‘Diário de Natal’, de 04 de novembro de 2006, o comércio informal de velas e flores que surge nessa época do ano foi abordado, pois “a tradição de mais de dez séculos de acender velas e levar flores às sepulturas de familiares e amigos falecidos favoreceu ao comércio informal de flores, velas, lavagem de túmulos e lanches”, publicou o jornal. “Lírios, margaridas, crisântemos, gáudios. Tudo caprichosamente arrumado em arranjos, ramalhetes e vasos frondosos. [...] dessa vez o bom gosto e o requinte são destinados aos que amávamos e se foram. É véspera da comemoração do dia de finados e floriculturas e cemitérios se preparam para oferecer o diferencial”, ressaltou o jornal ‘Correio da Tarde’, em 31 de outubro de 2007. Os muitos empregos informais que surgem na época de Finados foram abordados na matéria do ‘No minuto.com’, em 28 de outubro de 2008. “O feriado de Dia de Finados se aproxima e traz com ele, além das homenagens das famílias que perderam seus entes queridos, oportunidades de empregos temporários. [...] A atividade movimenta trabalhadores informais, geralmente mulheres, que vêem na limpeza dos túmulos uma oportunidade de trabalho”. 122 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Em 29 de outubro de 2008, o site de notícias delatou que “há mais de 150 anos, o lençol freático de Natal é contaminado pelo chorume (líquido que sai dos cadáveres durante o processo de decomposição). O cemitério do Alecrim, o mais antigo, tem 158 anos e foi projetado sem levar em consideração as normas ambientais, assim como os outros sete cemitérios em funcionamento na cidade. [...] O bom exemplo vem dos cemitérios privados mantidos pelo Grupo Vila. O cemitério Morada da Paz, em Emaús, é totalmente impermeabilizado”. Coveiros que trabalham nos cemitérios públicos fazem declaração ao ‘Correio da Tarde’, afirmando que “túmulos quebrados, peças de bronze roubadas, prédios da administração arrombados, funcionários com receio de serem furtados à noite e até ponto de encontro para casais apaixonados, os cemitérios – que seria para o descanso dos mortos – está servindo”, publicou o jornal, em 30 de outubro de 2008. Para realização das comemorações do Dia de Finados, o dia mais importante para as empresas do segmento cemiterial, o Grupo Vila começa a preparação da estrutura física e de apoio com três meses de antecedência. Buscando oferecer o melhor para os visitantes dos seus cemitérios, a empresa investe em uma programação especial com missas e cultos, chuvas de pétalas, brinquedoteca e ofici- 123 na de artes para as crianças, apoio ao enlutado, músicas clássicas nas alamedas, transmissão online e queima de fogos. Em 2008, ano da comemoração dos seus 60 anos de atividades, o Grupo contratou a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte para se apresentar no Morada da Paz, em Natal, a Orquestra Talento para o Parque da Passagem, e o Coral CEU, que fez apresentação no Morada da Paz, em Recife. Matérias na InterTV Cabugi, TV Tropical e Band abordaram a importância da iniciativa do Grupo em adotar uma maneira tão peculiar de homenagear os mortos. A mídia local mais uma vez fez a cobertura do Dia de Finados no Morada da Paz, destacando, principalmente, a chuva de pétalas e a música nas alamedas. “No cemitério Morada da Paz, muitas pessoas passaram o dia prestando homenagens aos seus falecidos [...] a música clássica tocada nas alamedas marcou o dia de homenagens aos finados [...] e a chuva de pétalas de flores, mais uma vez, emocionou os visitantes”, veiculou o jornal ‘Bom Dia RN’, na InterTV Cabugi, no dia 03 de novembro de 2008. Na mesma data, o jornal ‘Tropical Notícias – edição da manhã’, da TV Tropical, transmitiu que “os visitantes chegaram cedo para assistir à chuva de pétalas, um toque especial num dia de tantas lembranças [...] a grande área verde é inspiradora e a música, um conforto no coração 124 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte das pessoas [...] o espaço de brincadeiras e oficina de artes recebe as crianças”. O jornal ‘Natal Urgente’, da Band, comentou que “cerca de 30 mil pessoas visitaram o cemitério Morada da Paz, em Emaús, no Dia de Finados. Após a missa em homenagem aos mortos, essa chuva de pétalas de rosas jogadas do helicóptero emocionou a todos.” Uma cliente confirma “é muito lindo”, diz. Padre Murilo, que realizou duas missas no local, afirma que “é um dia para celebrarmos a vida e não a morte”, também em 03 de novembro de 2008. Já no site do Grupo Vila, foi publicada uma matéria, destacando todos os serviços e inovações que a empresa trouxe para os visitantes dos cemitérios Morada Paz e Parque da Passagem. “Um dos momentos mais aguardados durante as celebrações do Dia de Finados foi a chuva de pétalas. Pela manhã e à tarde, um helicóptero passou várias vezes pelas quadras dos cemitérios jogando pétalas de flores vermelhas e brancas nos jazigos. Foi um momento de muita emoção para todos que estavam presentes no local. Após a última missa, houve uma bela queima de fogos, durante cerca de cinco minutos, encerrando as homenagens”, revela. Na edição de Dezembro de 2000, foi publicado no Viver Melhor, o depoimento emocionado de uma cliente: “Eram quase cinco horas da tarde quando uma amiga me ligou, pergun- 125 tando se eu não iria visitar o túmulo do meu filho. Expliquei minha difícil situação e ela me ofereceu carona. Fui, mas triste por não poder oferecer nada a meu filho, além da minha presença. Chegando lá, me ajoelhei, coloquei a mão no seu túmulo e conversei com ele, dizendo que, apesar de naquele dia eu não poder lhe dar nem uma rosa, ele não ficasse triste, pois eu estava ali. Foi nesse momento que um helicóptero começou a sobrevoar o cemitério e, para minha surpresa, jogar pétalas de flores. Não acreditei quando vi o tumulo do meu filho, o mais carente, repleto de flores. Parecia uma resposta, pois o vento trazia a maior parte das pétalas para aquela direção. Quando terminou, disse a ele: ‘É, meu filho, agora não falta mais nada’. E as pessoas que estavam próximas, mesmo sem entender direito o que tinha acontecido, se emocionavam. Foi mágico. Foi o que aconteceu de mais bonito na minha vida no Dia de Finados”. Ao utilizarem os serviços da empresa, os clientes percebem, intuitivamente, qual a importância dada a eles enquanto clientes, quanto esta empresa investe no bom atendimento e quais as condições em que isto se efetiva. Isto acontece, porque a qualidade do atendimento transparece naqueles que atendem, na forma como se propõem a resolver os problemas que surgem, bem como na atenção que dispensam às demandas dos clientes. 126 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Pode parecer irrelevante ou secundário, mas a filosofia da empresa fala mais alto por meio de suas ações cotidianas, do que por meio de eventos esporádicos, por este motivo, ressaltamos que a preocupação com o cliente deve ser meta constante dos cemitérios e crematórios, refletindo tanto àqueles que visitam o lugar apenas em Finados quanto àqueles que visitam seus entes mesmo fora desta data. Com esse objetivo, sempre buscando inovar e trazer mais conforto para as pessoas que visitam os seus cemitérios, o Grupo Vila pretende transformar o Morada da Paz em um parque de exposições artísticas ao ar livre. Até o momento, o espaço já possui mais de 30 obras de artistas plásticos potiguares, como César Rhasec, que trabalha e mora no cemitério há 10 anos, Emanuel Câmara e César Revorêdo. Algumas das principais obras de Rhasec foram criadas no local, como Metamorfose e Anjo, ambas confeccionadas em pedra-sabão, sua especialidade. “No Morada da Paz, eu encontro tranqüilidade e inspiração para criar minhas obras e conto com o apoio de uma empresa séria, que valoriza o meu trabalho”. A instalação de um crematório é o próximo passo do grupo. O projeto ainda não tem data divulgada, mas os administradores do Grupo Vila garante que o investimento será feito em breve, no cemitério Morada da Paz, em Recife. Foto: Moraes Neto 127 Foto: Ricardo Junqueira Chuva de pétalas celebram o Dia de Finados Foto: Ricardo Junqueira Cemitério Morada da Paz Cemitério Parque da Passagem Foto: Moraes Neto 128 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Foto: Moraes Neto Brinquedoteca Homenagem no Cemitério Morada da Paz Foto: Myrla Oliveira 129 Foto: Myrla Oliveira Homenagem no Cemitério Morada da Paz Homenagem com pétalas de rosas nos jazigos Foto: Moraes Neto 130 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Metamorfose, primeira escultura de Rhasec no Morada da Paz Foto: Moraes Neto 131 Queima de fogos encerram as homenagens no Dia de Finados 132 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Posfácio T razer à tona um assunto tão polêmico não foi uma tarefa fácil. A morte ainda é uma temática que assusta. Talvez por não sabermos o que acontece depois dela, pelo medo do desconhecido, por não termos certeza do destino das nossas almas. Tudo isso que faz com que nos afastemos desse tipo de assunto. Com a realização de pesquisas para produção do nosso trabalho, percebemos que, desde o princípio da civilização, a morte é considerada um tema que fascina e, ao mesmo tempo, aterroriza as pessoas. A morte e as hipóteses dos eventos que a perpassam têm sido fonte de inspiração para doutrinas filosóficas e religiosas, além de serem, também, uma inexaurível fonte de temores, angústias e ansiedades para os homens. 133 O homem é o único animal que tem consciência de sua própria morte. Segundo Kovács (1998), “o medo é a resposta mais comum diante da morte. O medo de morrer é universal e atinge todos os seres humanos, independente da idade, sexo, nível sócio-econômico e credo religioso”. Produzir um livro-reportagem sobre essa temática foi, sem dúvida, uma grande experiência para nós, acadêmicas do curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Enriqueceu-nos de todas as formas, como experiência em relação à produção de um livro-reportagem, pois adquirimos mais conhecimentos acerca do assunto. Ajudou-nos, também, a superar inúmeros obstáculos relacionados ao medo, a incerteza, ao nosso sentimento de impotência. Por vezes, nos faltaram palavras, mas, tudo isso, nos serviu de lição para que possamos vencer com coragem e determinação. Nesse livro, contamos a história do Grupo Vila, uma empresa que atua no seguimento funerário há 60 anos, procurando sempre atender a seus clientes com dedicação, transparência e respeito. A morte deve ser percebida com simplicidade, respeito e atenção por parte de todos que lidam com ela no seu dia-adia. Deve ser tratada sem uma alegria eufórica, mas, também, sem uma tristeza mórbida. Devemos olhar para morte como 134 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte um processo, que faz parte da vida e que merece alguns cuidados éticos e profissionais. Neste tipo de publicação, nós, futuras jornalistas, nos tornamos contadoras de histórias, narrando a realidade. Independente da categoria em que nos encontramos: seja no jornalismo informativo, através do relato, do questionamento; no jornalismo interpretativo ou opinativo. O que importa, de fato, é que a base de tudo é a história. O bom jornalista será sempre um contador de histórias reais, qualquer que seja o fato, extraindo de cada acontecimento ou pessoa, uma boa história, simplesmente, porque todos somos uma boa história a ser contada. Utilizando as palavras de Rildo Jose Cosson Mota em seu artigo no livro Jornalismo e Literatura: a sedução da palavra, “[...] a contaminação das fronteiras do jornalismo com a literatura por ele proposta seja considerada como um modo legítimo de atribuir sentido e organizar a experiência em narrativas que interpretam e traduzem o que somos e o mundo em que vivemos [...]”. As palavras de Lya Luft nos fazem encerrar este breve posfácio como uma mensagem para todos aqueles que tiverem a oportunidade de ler este livro-reportagem, escrito de forma objetiva, instigante e, principalmente, humanizada. 135 “Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada”. Aline Ricciardi Carneiro Myrla Celene Oliveira de Macêdo 136 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte Referências Revistas Campo da Esperança, p. 5, p. 38 Diretor Funerário, ano VI, nº 31, nov 1998, p. 17-20 Diretor Funerário, ano VIII, nº 48, abr 2000, p. 26-29 Diretor Funerário, ano VIII, nº 56, dez 2000, p. 14-17 Diretor Funerário, ano X, nº 77, set 2002, p. 16-18 Diretor Funerário, ano X, nº 131, mar 2007, p. 20 Diretor Funerário, ano X, nº 137, set 2007, p. 22-23 In Memorian, ano II, nº 11, ago 2008, p. 20-23 IstoÉ, 09 mai 2001, ed. 1649 RN Negócios, ano I, nº 10, jun 2008, p. 13-15 137 Veja, 17 jan 2001, p. 71 Veja, 4 out 2006, p. 116-119 Jornais Bom Dia RN, 3 nov 2008, InterTV Cabugi Correio da Tarde. Requinte na homenagem a entes queridos. 31 out 2007. Correio da Tarde. Vandalismo e consumo de drogas são práticas comuns nos cemitérios públicos. 30 out 2008. Correio da Tarde. Orquestra Sinfônica do RN homenageia o Dia de Finados. 01 nov 2008. Diário de Natal. 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Entrevista concedida à Branca Braga. MARIA DAS GRAÇAS. Natal, nov 2008. Entrevista concedida à Myrla Oliveira. MARIA VITÓRIA DA SILVA. Natal, set 2008. Entrevista concedida à Myrla Oliveira. MARIVALDO AMARO DA SILVA. Natal, set 2008. Entrevista concedida à Branca Braga. PAULO CÉSAR RHASEC. Natal, nov 2008. Entrevista concedida à Branca Braga. PAULYANA FONSECA. Natal, set 2008. Entrevista concedida 142 Grupo Vila: 60 anos entre a vida e a morte à Branca Braga. POLLYANA FLORÊNCIO. Natal, out 2008. Entrevista concedida à Aline Ricciardi. RONALDO MELO. Natal, out 2008. Entrevista concedida à Aline Ricciardi. SILVANA MARIA FARIAS COSTA. Natal, out 2008. Entrevista concedida à Branca Braga. STELLA COELLI DA SILVA E MELO MEDEIROS. Natal, nov 2008. Entrevista concedida à Branca Braga. Sites BORGES, Jorge Luís. A imortalidade. Disponível em: http:// livroseafins.com/2008/03/03/a-imortalidade-segundoborges/ CALHEIROS, Luís. Entradas para um dicionário de estética. 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