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CONTAR HISTÓRIAS COM LUZ
A visão poética
de Xavier de Richemont
As fachadas de edifícios são muitas vezes
o suporte preferencial da arte urbana. Em muitas
cidades, é diante da fachada de uma catedral
que artistas, público e o interesse da cidade
se encontram, para viver breves momentos
de comunhão. Em tempo de Festas, e de uma
animação urbana muito pouco criteriosa,
realizada ao sabor de dificuldades financeiras,
agendas políticas inconsequentes e patrocínios
demasiado esporádicos, o trabalho de Xavier
de Richemont é absolutamente exemplar
de uma atenção ao detalhe que faz a diferença.
Por: Mário Caeiro | Designer e docente na ESAD.CR
conceitos
Iluminação
O Festival de Luz de Chartres é um dos eventos maiores no calendário cultural
Para qualquer criador, e como naturalmente
acontece com os criadores das imagens, o desenho procura instintivamente a escala em que
se consiga exprimir. Alguns, como Richemont,
partem porém de uma ideia de desenho fluida,
táctica e de grande alcance, que visa dominar
uma complexa linguagem artística. Nessa visão,
o conceito de ‘encenação’ [mise en lumière] é
exponenciado até se transformar numa espécie
de cinema urbano, no sentido de que se trata de
projecções que contam histórias nas paredes
dos edifícios. Esta linguagem, permitida primeiro
pelas soluções de projecção de diapositivos de
grande formato e mais recentemente por cada
vez mais surpreendentes tecnologias vídeo, podem ser utilizadas com maior ou menor mestria,
maior ou menor sentido estético. No caso de
Richemont, a densidade das suas implicações
urbanas, o rigor plástico, e a imaginação palpitante tornam estas obras fundamentalmente diferentes de quase todas as projecções que já vamos estando habituados a ver.
Hoje, a iluminação dinâmica de uma fachada pode inserir-se numa categoria genérica, a de ‘animação urbana’. Mas conferir identidade a um projecto e torná-lo longamente retido pela memória
das pessoas está nas mãos de poucos; afinal, o
difícil do desafio consiste na cafrancês. Em 2007, Xavier de Richemont combinou três projectores Christie
Roadie 25K para iluminar a catedral. Para realizar a projecção, o artista utilizou
pacidade de seleccionar os eleum novo software denominado OnlyView 3D, um programa que mapeia a
mentos-chave da plasticidade, e
superfície de projecção e assegura que as imagens se encaixem na perfeição
entender como, ora reduzindo a
sua intervenção a elementos míNo fundo, na fachada encenada pela Luz, o especnimos, ora tornando-a profusamente ornamental,
tador tem a noção de que há um real prévio – uma
se obtém uma verdadeira celebração visual do esvalência arquitectónica que reconhece de todos
paço urbano, motivando uma reacção do público
os dias, ou dos postais ilustrados – mas também
que se pretende memorável, senão inolvidável.
a sua transfiguração através da alteração visual
A dimensão vertical da forma urbana passa por
da arquitectura; e assim o espectador se depara
este trabalho de celebração dos ambientes mais
com um novo real, o da transfiguração artística
nobres das cidades, precisamente sobre as fachaem que participa, emocionado. Esta transfiguradas dos seus edifícios mais notáveis (como é o cação consuma-se usualmente como experiência de
so das catedrais). É nelas que a cenografia do
um mundo duplo – o do quotidiano urbano, que
quotidiano encontra um terreno fértil de relação
não deixa de estar ali, transfigurado ou não; e o
entre a cultura visual e a forma como essa cultura
da narrativa poética que o artista propõe, que esvisual foi captada por diferentes arquitecturas de
tá ali na sua materialidade (a projecção) mas insdiferentes épocas. Mas a dimensão cenográfica
taura na mente do espectador um mundo outro,
não se resume necessariamente à superfície tenfeito de emoções estéticas.
dencialmente plana da fachada; esta pode inteNestes termos, o acontecimento que resulta de
grar factores e elementos tridimensionais que pomilhares de pessoas diante de uma imagem e sua
dem ser tratados como conjuntos articulados,
banda sonora, numa praça, é precisamente o obgerando ritmos visuais, silhuetas, tirando partido
jectivo principal que a obra procura atingir. Autode pontos de vista particulares, sequências, desres como Xavier de Richemont – que tem formapoletando momentos visuais e ambientais que
ção de pintor – colocam o seu know-how plástico,
entram em diálogo com a forma urbana e lhe eviestilístico, ao serviço de uma festa comunal que é
denciam determinados aspectos.
específica destes aglomerados de emoções que
este tipo de projectos propicia.
O ARTISTA...
A tradição de uma luz urbana festiva, convivial,
assente em dispositivos tecnológicos, é essencialmente francesa. No país da «cidade-luz», a
tradição da iluminação – éclairagisme – é já relativamente longa, e desde que Lyon, há cerca de
três décadas, lidera um movimento mundial de reflexão e animação a partir da ideia de luz urbana
que uma geração de artistas, designers, engenheiros e concepteurs lumière se tem afirmado na
promoção de novas visões da forma urbana, entendendo os edifícios usualmente como unidades
arquitectónicas complexas e nelas desenvolvendo os conceitos para as fachadas de uma maneira
integrada. No âmbito desta iluminação funcional-decorativa já característica das grandes cidades
europeias, muitos criadores se poderiam destacar1.
Mesmo um James Turrell chega a fazer iluminação pública decorativa [Caisse des Depots et Consignations, para o arquitecto Christian Hauvette,
em Paris]. Mas mesmo perante um corpo de agen-
tes e projectos formal e conceptualmente muito
rico, é difícil não destacar Xavier de Richemont,
um artista que desenvolve precisamente em fachadas o cerne da sua linguagem plástica.
Nascido na Algéria, em 1959, Xavier de Richemont formou-se em Pintura pela École Nationale
des Beaux-Arts. Depois de uma experiência no
campo da cenografia, durante a qual colaboraria
com Bob Wilson, David de Salle ou Andy de Groat, cedo enveredaria por uma carreira original, definindo-se como um gerador de imagens e luz, por
via de instalações plásticas de escala monumental, nomeadamente desenvolvidas para sítios históricos e museus, tanto permanentes como efémeras. Das intervenções recentes poderíamos
destacar a participação no Festival Just for
Laughs em Montreal (2005 e 2006), o Festival Euroland Art 2006 em França e a Alemanha, o Festival Lichtrouten 06, na Alemanha, ou o Festival Radiance 07, em Glasgow.
O artista tem respondido a várias solicitações para a iluminação efémera – mas também permanente – de catedrais e outros edifícios de referência em centros históricos, casos de Sevilha,
©Xavier de Richemont 2008 – cathédrale façade occidentale “polychrome”- Fête de la Lumiére, Chartres 2007 (France) photo F. Delauney
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Um pormenor da iluminação criada por Richemont
para o festival de Chartres
Málaga, Évora, Eindhoven, Reno, Montreal, San
Luis Potosi, Chartres, Angers, Versailles…
Quando ainda era um jovem pintor, teve a ideia de
criar um percurso para apresentar as suas obras de
final de Curso, obrigando o júri a deslocar-se… O
próprio encontrou aí a sua vocação, a de criar situações urbanas emotivas, verdadeiras experiências
audiovisuais, em que a linguagem-base da pintura
se transforma numa experiência de som e luz.
Iluminação
PINTAR A HISTÓRIA, OUVIR A EMOÇÃO
O trabalho de Richemont partilha com outros autores o domínio da escala, a espectacularidade de
uma luz dinâmica e colorida; mas nele a ideia genérica de uma arte contemporânea relacional,
contextual e digital, leva ainda mais à letra a actualíssima deriva comunicacional que é transversal a toda a contemporaneidade e à própria condição urbana. Richemont propõe uma arte culta e
delicada na abordagem extremamente cuidada
do seu material de eleição – a identidade material e imaterial da cidade e da sua história colectiva – mas com um sentido gráfico de tal forma
efectivo, que torna cada intervenção um acontecimento também de massas, de marketing urbano.
Este traço identitário leva-o a inúmeras cidades
do mundo para aí criar situações de convivialidade e festa, recorrendo a um imaginário popular e
transversal, a uma linguagem e iconografia assumidamente mainstream – próprias para se ver e
ouvir, tanto como para compreender e imaginar2.
Em suma, na obra deste autor, a fachada cumpre
na cidade um papel específico na definição da
forma urbana: o de actualizar modalidades estéticas, tanto ancestrais como contemporâneas – da
pintura à cenografia, do cinema à Internet – no
contexto da vida citadina, feita de fluxos pedonais e viários, redes de comunicação complexas,
estratégias simbólicas3. Abordado como projecto
de imagem urbana, este tipo de trabalho arquitectónico-urbanístico sobre as fachadas cria assim
situações urbanas de excepção – e não apenas
quando o património arquitectónico é de relevo.
Neste sentido, as fachadas de Xavier de Richemont são incontornáveis expressões de uma qualidade visual do urbano. Senão vejamos as experiências que o autor criou em lugares tão distintos
quanto Chartres, San Luis Potosi ou Montréal…
Em Chartres, espiritualidade gótica… em vídeo
Para além de director artístico do Festival de
Chartres, Richemont é hoje responsável por cerca
de 20 diferentes trabalhos de iluminação cénica e
multimédia na cidade e da região, todas encomendadas pela Câmara Municipal. Este facto re-
©Xavier de Richemont 2008 – Cathédrale Saint Trophine “chromatiques éclairées”- Drôles de Noëls Arles 2007 (France) photo: F. Delauney
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Catedral Saint Trophine, mais um dos extraordinários
trabalhos de iluminação de Xavier de Richemont
sulta de uma política da edilidade excepcional:
todos os anos encomenda novas instalações,
também permanentes, que se acrescentam às
efémeras, realizadas para o Festival. Esta articulação torna a cidade uma atracção ainda mais turística nos meses de Verão.
Para o Evento «Chartres en Lumière»4 de 2007, Richemont interveio na fachada gótica da catedral,
das mais belas do mundo. Recorrendo usualmente
a projecções de slides de grande formato – e portanto a uma linguagem que, sendo dinâmica, mantém um cunho artesanal, mecânico, analógico – o
artista experimentou pela primeira vez a esta escala as potencialidades da projecção vídeo.
A iluminação da catedral sempre foi, no quadro
deste evento (que dura vários meses), o ponto focal de toda a iniciativa. Por intencionalidade expressa da Câmara, havia que superar as expectativas, e assim Richemont optou pela mais recente
tecnologia, uma tecnologia que permitiu, segundo
a própria empresa produtora, a maior obra de arte
vídeo de sempre. Recorrendo a uma ampla equipa
de especialistas da ETC Paris, a intervenção de
2007 ultrapassou o esperado. Cobriu os 650 me-
tros quadrados de fachada ocidental deste marco da Arquitectura Religiosa com imagens de
notável precisão plástica.
A empresa que forneceu o equipamento e procedeu à instalação foi a ETC. Três projectores
Christie 25K combinados varreram, com um movimento e intensidade cromática inéditos,
uma superfície com mais de
120m de altura e com 50m de
largura. A ‘tela’ foi previamente
‘tratada’ com quatro projectores
PIGI. Relativamente aos seus
trabalhos já clássicos – como há
dois anos em Glasgow, na catedral de Mungo5 – as vantagens
de utilizar o vídeo tornam o desafio do projecto um desafio à
própria estética do artista. Mas
se nos lembrarmos que começou a sua carreira como pintor –
e que ainda pinta – e que passou pela cenografia teatral, não
podemos deixar de ter a percepção que o material essencial de
Richemont é a cor, a luz, a musicalidade, a composição, a narrativa cultural, e esses são elementos que tanto podem ser utilizados na sua expressão mais básica
(o pigmento sobre tela), como na mais tecnologicamente evoluída (o vídeo sobre fachada). Mais,
aplicados a uma fachada ‘sagrada’, como que articulam vários níveis de visualidade, sem anular
nenhum deles: a arte sacra vs o espectáculo multimédia, a pintura vs a instalação.
A verdade é que a flexibilidade da linguagem vídeo, desde que usada, neste caso, com um saber
que vem de modalidades artísticas tradicionais,
permite transições visuais e um ritmo que o trabalho de Richemont não havia ainda revelado. O
sistema permitiu-lhe poupar tempo e trabalho nas
correcções ópticas relativamente à adaptação
das imagens aos fundos e obter uma densidade
cromática que, a ser obtida com os métodos tradicionais, obrigaria as equipas técnicas a mudarem
filtros e lentes constantemente.
CONTEÚDO: UM HINO NA NOITE…
Em Chartres, cada sessão do evento de som e luz
durava 12 minutos. Com banda sonora de Francis
Poulenc – embora Xavier faça sempre questão de
fazer cuts and pastes inesperados, recorrendo a
outras músicas e outras sonoridades – a interven-
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ção funciona como uma celebração do cair da noite e, depois, de uma entrada para a experiência
nocturna artística que o Festival pretende oferecer.
Atentemos aos objectivos do artista: A minha intenção foi conservar o dramatismo da arquitectura.
Eu não saberia narrar ou pintar a Nossa Senhora
de Chartres sem associar, no meu íntimo, o monumento à Virgem, elevação perfeita construída pela
mão dos homens e a espiritualidade magnífica que
produziu esta obra-prima. A intervenção apoia-se
na ideia da construção do monumento, através da
cor e da transparência, pelo contraste claro-escuro,
pelas fulgurações luminosas de certos pontos de
impacto, por via de efeitos verdadeiramente pictóricos, apesar da sua génese digital. Os jogos de
nuances modelam a composição: à medida que a
leitura se vai fazendo através da cor e do movimento dos temas, das aparições e desaparições de cada um, o vitral torna-se catedral. Nas palavras do
artista, percebe-se o respeito pelo assunto, pela
processo, pela situação, assim se explicando o entusiasmo que emprega para sintetizar a sua visão
artística para uma das capitais mundiais do Gótico:
um hino na noite…
Quanto ao conteúdo das imagens, e precisamente
porque recorreu à projecção vídeo, o artista viu-se
obrigado a trabalhar ainda mais aturadamente que
nas situações da sua actividade corrente. O detalhe e a complexidade das imagens e da sua articulação narrativa resultou de seis meses de trabalho,
dedicados à compilação do acervo iconográfico e
depois à montagem propriamente dita.
O espectáculo desenvolvia duas linhas visuais.
Uma primeira, inspirada nos vitrais das janelas,
consistia no desenho de padrões desconstruídos
que se iam colorindo – a ideia de pintura, aqui,
como gesto de cor, absolutamente evidente. A dado momento, aquelas superfícies de cor começavam a ’voar’ em todas as direcções, revelando a
catedral românica original. A luz trazia à memória
de séculos a actualização directa da experiência
do tempo histórico.
Nas palavras do artista, este tipo de aventura audiovisual não pode nascer de um relacionamento
puramente técnico e profissional entre as várias
equipas. É preciso haver um diálogo que leve cada
detalhe a concorrer para um todo que não é apenas
o da visão do artista, mas a consciência de que
com aquele tipo de investimento e responsabilidade, uma atmosfera de grande colaboração é fundamental. Quando Richemont comenta o processo de
realização deste tipo de obras, e em particular o
apoio dado pela ETC, é claro sobre a importância
deste ponto: os técnicos ouvem realmente as nossas necessidades. Desde que trabalho com a ETC,
aprendi muito sobre o equipamento a as suas possibilidades, mas com base num acordo artístico – é
vital que esse acordo ultrapasse a relação técnica.
NOTAS
[1] Não havendo mais espaço, recordemos apenas a forma como
Yann Kersalé resolveu a imagem nocturna da Torre Agbar,
projecto de Jean Nouvel, Barcelona. www.ykersale.com. Outros
nomes: Roger Narboni, Anne Bureau…
[2] Palavras do artista no seu site: xxx.xrscenographie.com
[3] Chevalier reflecte com frequência sobre esta questão, em
obras como a realizada na Bourse do Commerce em Paris, em
2003, que representam em tempo real fluxos relacionados com
a vida urbana (no caso, as movimentações de capitais na Bolsa).
[4] Que decorre desde 2003, precisamente por impulso do
próprio Xavier de Richemont, que é de resto seu director criativo.
[5] Temia-se que o espectáculo diário da fachada da catedral de
Mungo, em Glasgow, no âmbito do Festival Radiance, ofendesse as entidades eclesiásticas. Mas any fears that using the
cathedral for such popular entertainment could cause offence
were dispelled when the minister of the High Kirk, the Rev.
Dr. Lawrence Whitley, was spotted dancing to «Summertime»
on the Cathedral precinct.
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A visão poética de Xavier de Richemont