Fazendo a Coisa Certa pelo
Motivo Errado
O
(Mateus 6:5–18)
famoso poeta e dramaturgo norte-americano T. S. Eliot escreveu: “A última
tentação é o maior atrativo — fazer o
certo pelo motivo errado”1. Não é difícil encontrar pessoas na Bíblia que realmente fizeram “a
coisa certa pelo motivo errado”. Herodes disse
aos magos onde deveriam procurar por Jesus, um
ato louvável, feito, porém, porque ele queria encontrar o bebê e matá-lO (Mateus 2:7, 8, 16). Judas
saudou Jesus com um beijo, um sinal de afeto;
mas ele o fez para identificar Jesus para a escolta
de soldados que o prenderia (Mateus 26:48, 49).
Ananias e Safira depositaram dinheiro aos pés
dos apóstolos para ajudar os irmãos menos afortunados do que eles (Atos 5:1–11). O fato lamentável é que eles fizeram isso pelo motivo errado:
obter a admiração dos outros cristãos.
Mateus 6 começa com o seguinte alerta:
“Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos
homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai
celeste” (v. 1a). “Exercer a vossa justiça” é a coisa
certa a se fazer. Fazer isso “diante dos homens,
com o fim de serdes vistos por eles” é agir por
um motivo muito errado. Em Mateus 6:2–18, Jesus citou três exemplos de fazer a coisa certa pelo
motivo errado. Na lição anterior, comentamos o
primeiro exemplo, ou seja, buscar o aplauso da
multidão. Nesta lição, analisaremos os outros
dois exemplos.
1 T. S. Eliot, Murder in the Cathedral; citado em Harold
Hazelip, Discipleship, The 20th Century Sermons Series.
Abilene, Tex.: Biblical Research Press, 1977, p. 59.
ORAR (6:5–15)
Como Não Orar — Parte 1 (v. 5)
O segundo exemplo citado por Jesus sobre o
perigo de se fazer a coisa certa pelo motivo errado
foi a oração. Primeiramente Ele indicou que, em
nossas vidas de oração, não devemos ser como os
fariseus: “E, quando orardes, não sereis como os
hipócritas; porque gostam de orar em pé2 nas sinagogas3 e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens” (v. 5a).
Os judeus oravam em certas ocasiões. A oração era a primeira atividade matinal e a última
atividade noturna4. No decorrer do dia, havia três
momentos especiais para orar (veja Daniel 6:10): à
terceira hora (aprox. 9 horas), à sexta hora (aprox.
meio-dia) e à hora nona (aprox. quinze horas).
Podendo, os judeus dedicados iam ao templo
para orar nesses horários (veja Atos 3:1). Aqueles
que não podiam ir ao templo eram incentivados a
parar quaisquer que fossem suas atividades para
orar nesses horários pré-estabelecidos. Aparentemente, alguns judeus organizavam seus cronogramas para que quando chegasse a orar de orar,
eles estivessem num local visível: uma praça pública ou a esquina de uma rua movimentada. Ali
faziam de suas orações um espetáculo a fim de
2 Não há nada de errado em ficar em pé para orar (veja
Lucas 18:10–14). A oração pode ser aceitável a Deus independentemente da posição do corpo.
3 Quem dirigia uma oração na sinagoga ficava em pé
diante dos outros, geralmente em frente ao local onde os manuscritos sagrados eram dispostos.
4 Os judeus também haviam prescrito orações para quase todas as ocasiões e situações.
1
“serem vistos pelos homens”.
Jesus disse: “Em verdade vos digo que eles
já receberam a recompensa” (6:5b). Ganhavam a
admiração de outras pessoas, mas isso era tudo.
Conforme comentamos na lição anterior, não receberiam nenhuma recompensa de Deus. Para
Deus, no Dia do acerto, a recompensa já estaria
totalmente “paga”. Que insensatez abrir mão das
recompensas eternas para se agarrar a aclamação
temporária!
Como Orar — Parte 1 (v. 6)
“Tu, porém”, disse Jesus “quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu
Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (v. 6). “Teu quarto” é a
tradução de tamei√on (tameion), que geralmente se
referia a um recinto usado para despensa, o qual
em muitas casas era o único cômodo com porta e
talvez o único que poderia ser trancado. O termo
também podia ser usado para “qualquer quarto
privado” de uma residência5.
As instruções de Jesus sobre entrar num quarto e fechar a porta para orar “em secreto” levantam várias perguntas. Seria o propósito de Jesus
eliminar as orações públicas? Ele planejava desaconselhar os cristãos a orarem por outros cristãos?
A resposta para essas duas perguntas é “não”.
Nesta seção, Jesus ensinou Seus discípulos a orar
ao “Pai nosso que está no céu” — e não ao “meu
Pai que está no céu” — o que implica uma oração
coletiva. Em Mateus 18:19 e 20, Jesus citou dois
ou três indivíduos que faziam súplicas a Deus. O
Livro de Atos está repleto de exemplos de seguidores de Cristo orando juntos (1:24; 4:24; 12:12).
Alguns sugerem que está certo orar em voz
alta quando a igreja está reunida para o culto de
adoração, mas que o texto de Mateus 6 proíbe orar
publicamente em voz alta — por exemplo, antes
de uma refeição num restaurante. Nessa questão
em particular, que “cada um tenha opinião bem
definida em sua própria mente” (Romanos 14:5).
O costume deste autor e de muitos outros cristãos
é orar antes das refeições com a família e amigos,
independentemente do local — convém, porém,
fazer isso discretamente.
Quais lições podemos aprender com as pa5 W. E. Vine, Merrill F. Unger, e William White Jr., Dicionário Vine. Trad. Luiz Arón de Macedo. 7a. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p 407.
2
lavras de Jesus? Uma delas pode ser que vale a
pena ter um lugar tranquilo e privado, onde podemos ficar a sós com Deus. Até Jesus sentia a necessidade de ir “para um lugar deserto” a fim de
orar (Marcos 1:35). Além dessa aplicação, há princípios gerais no ensino de Jesus que se aplicam a
todas as ocasiões e lugares em que orarmos:
• Não devemos orar chamando a atenção
dos outros para nós, e sim para Deus.
• Precisamos nos esforçar para nos preocuparmos menos com as pessoas e mais com
Deus.
• Precisamos sair de perto das pessoas para
nos aproximarmos de Deus.6
Teremos menos distrações se pudermos ir
orar num lugar tranquilo, mas nem sempre isso
é possível, não é? Não importa o lugar onde estivermos ou o que estivermos fazendo podemos
“entrar no quarto interior” dos nossos corações
e falar com Deus. Podemos fazer isso enquanto
dirigimos, varremos o chão ou esperamos numa
fila de caixa7.
A necessidade de sair de perto das pessoas
representa um desafio especial para homens que
dirigem orações públicas. O propósito deles é
conduzir as mentes dos presentes, estando cientes de quem está ali e de quais são suas necessidades. Ao mesmo tempo, os líderes de oração
precisam tomar cuidado para que seu objetivo não seja impressionar os outros adoradores.
D. Martyn Lloyd-Jones escreveu que “o verdadeiro perigo para um homem que dirige uma congregação numa oração pública é ele se dirigir à
congregação e não a Deus”8. Harold Fowler disse que “quem ora em público precisa aprender a
expulsar de sua mente a consciência da presença
de ouvintes humanos, pelo menos a ponto de não
temer a censura nem buscar o louvor deles”9.
6 Frank L. Cox, Sermon Notes on the Sermon on the Mount.
Nashville: Gospel Advocate Co., 1955, p. 15.
7 Adapte esta frase às atividades diárias dos seus ouvintes em geral.
8 D. Martyn Lloyd-Jones, Studies in the Sermon on theMount, vol. 2. Grand Rapids, Mich.: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1959, p. 46.
9 Harold Fowler, Matthew I, Bible Study Textbook Series.
Joplin, Mo.: College Press, 1968, p. 337. (Ênfase acrescentada.)
Como Não Orar — Parte 2 (vv. 7, 8)
Nos versículos 7 e 8 Jesus deu mais instruções sobre como não se deve orar. Ele havia usado os judeus hipócritas como exemplo de oração
desaprovada (v. 5). Agora Ele usaria não judeus
incrédulos como um exemplo negativo: “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios10;
porque presumem que pelo seu muito falar serão
ouvidos” (v. 7).
Jesus não estava dizendo que as orações nunca podem ser longas. Ele orou a noite inteira antes
de escolher os doze apóstolos (Lucas 6:12–16). Ele
incentivou Seus seguidores a serem perseverantes na oração (veja Lucas 18:1–7). Tampouco Jesus estava condenando todo tipo de repetição na
oração. Ele repetiu a mesma oração três vezes no
jardim do Getsêmani (veja Mateus 26:44). Paulo
pediu a Deus três vezes que lhe tirasse “o espinho
na carne” (veja 2 Coríntios 12:7, 8). A maioria de
nós se lembra de ocasiões em que fomos vencidos
pela tristeza, dor ou preocupação; e repetimos várias vezes a mesma oração rogando a ajuda e a
força de Deus. A doença grave de um ente querido é uma ocasião dessas. O Senhor não estava
censurando esse tipo de repetição sincera.
O que Jesus estava condenando era a “vã
repetição”11: orar mecanicamente como que evocando um encantamento mágico. A palavra grega
traduzida por “vãs repetições” (battaloge÷w, battalogeo) é única12. Nenhum outro uso dessa palavra
foi encontrado exceto em citações desse versículo.
O termo é geralmente definido como “falar sem
pensar”13 ou algo semelhante. A NTLH diz: “Nas
suas orações, não fiquem repetindo o que vocês
já disseram, como fazem os pagãos”. A VFL diz:
“Quando vocês orarem, não repitam palavras que
não significam nada”.
Os pagãos não tinham o conceito de um Deus
pessoal que os amava e Se preocupava com o que
acontecia com eles. Os deuses pagãos eram vistos
10 Outra possível tradução é “pagãos”. “Os gentios”, aos
quais Jesus Se referiu, não criam no verdadeiro Deus e eram,
nesse sentido, “pagãos”.
11 “Vã” significa “vazia, inútil”.
12 Alguns classificam o termo como uma onomatopéia:
uma palavra cujo som sugere seu significado. É semelhante
à palavra “balbuciar” que soa como alguém pronunciando
algo sem sentido.
13 Walter Bauer, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, 4a. ed., rev. e ampl.
William F. Arndt e F. Wilbur Gingrich. Chicago: University of
Chicago Press, 1957, p. 137.
como seres distantes, egocêntricos e geralmente
insensíveis. Os pagãos haviam criado uma série
de técnicas para induzir seus deuses a ouvirem
e atenderem. Tinham encantamentos mágicos em
que dizer determinadas palavras era mais importante do que ter a motivação certa. “Elaboravam
longas listas de nomes divinos, na esperança de
que pela repetição sem fim conseguiriam, de alguma forma, invocar o nome do verdadeiro deus
e receber o que desejavam14.” Imaginavam que
quanto mais falassem, mais possibilidades teriam
de serem ouvidos. Quando os profetas de Baal
foram confrontados por Elias, eles “invocaram o
nome de Baal, desde a manhã até ao meio-dia, dizendo: Ah! Baal, responde-nos! Porém não havia
uma voz que respondesse” (1 Reis 18:26). Em outras palavras, Jesus estava dizendo: “Não deixem
que suas orações desçam ao nível da superstição
pagã”.
Que aplicação podemos fazer das orações
com “vãs repetições” para os nossos dias? Somos
tentados a enfocar as práticas de outros grupos
religiosos. Talvez pensemos no costume de se
repetir uma oração pré-estabelecida vez após
vez, contando quantas vezes a recitamos através
de terços. Talvez recordemos formas litúrgicas
de adoração em que as mesmas orações com as
mesmas palavras são repetidas em quase todos
os cultos. Todavia, se cada um de nós for sincero
consigo mesmo, vai admitir que também já cometeu esse erro. Podemos criar uma forma predeterminada de dar graças antes das refeições ou orar
antes de dormir. Quando dirigimos uma oração
num culto de adoração, é fácil usar expressões favoritas e cair no jargão religioso. É até possível cometermos o erro de pensar que “pelo muito falar
seremos ouvidos”.
Tomemos cuidado para não dizer: “É, eu
conheço alguém que faz isso!” A próxima lição
conterá uma passagem poderosa sobre o pecado
de julgar os outros (Mateus 7:1–5). Cada um de
nós precisa examinar a si mesmo, indagando: “E
como está o meu coração? Cometi o erro de usar
vãs repetições? Já orei sem pensar?”
Jesus disse: “Não vos assemelheis, pois, a
eles” (6:8a) — ou seja, não sejam como os pagãos
que “presumem que pelo seu muito falar serão
14 Robert H. Mounce, Matthew, New International Biblical Commentary. Peabody, Mass.: Hendrickson Publishers,
1991, p. 55.
3
ouvidos” (v. 7b). “Porque Deus, o vosso Pai, sabe
o de que tendes necessidade, antes que lho peçais” (v. 8). Se o espaço permitisse, poderíamos
discorrer a respeito das maravilhosas palavras “o
vosso Pai sabe o de que tendes necessidade, antes
que lho peçais”. Deus é nosso Pai! Ele nos conhece! Ele conhece as nossas necessidades! Todavia,
precisamos nos concentrar na idéia que Jesus estava destacando. Quando oramos, não temos que
orar sem parar. Deus é um Pai amoroso, e Ele sabe
do que necessitamos.
Há quem pergunte: “Mas se Deus sabe do
que eu preciso, por que incomodá-lO orando?”
Há muitas respostas para essa pergunta. Vamos
mencionar duas. Primeiramente, pedir que Deus
supra nossas necessidades não é a única razão
para orarmos. Embora Ele conheça as nossas necessidades, devemos ir até Ele em oração para
louvá-lO e agradecer-Lhe pelas bênçãos. Em segundo lugar, embora Ele esteja ciente de nossas
necessidades, ele pediu que oremos por elas.
Deus quer que estejamos cientes da origem de
nossas bênçãos, jamais menosprezando-as. Um
pai pode estar ciente das necessidades de seus filhos, mas, ainda assim, querer que eles venham
até ele e conversem com ele.
Como Orar — Parte 2 (vv. 9–15)
Se não devemos orar como os gentios oram,
como devemos orar? Jesus respondeu essa pergunta dando o que tem sido chamado de “A Oração do Pai Nosso”. Designações melhores seriam:
“A Oração dos Discípulos” ou “A Oração Modelo”. As palavras dessa oração são conhecidas pela
maioria de nós:
Portanto, vós orareis assim:
Pai nosso, que estás nos céus,
santificado seja o teu nome;
venha o teu reino;
faça-se a tua vontade,
assim na terra como no céu;
o pão nosso de cada dia dá-nos hoje;
e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós
temos perdoado aos nossos devedores;
e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos
do mal [pois teu é o reino, o poder e a glória para
sempre. Amém]!
Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se,
porém, não perdoardes aos homens [as suas
ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as
vossas ofensas (vv. 9–15).
Estudaremos os versículos 9 a 15 na próxima
4
lição. Por enquanto, observemos apenas que–
diferente das orações pagãs longas e mecânicas–
essa oração é curta e profundamente pessoal.
O JEJUM (6:16–18)
Como Não Jejuar (v. 16)
Isso nos leva ao terceiro exemplo que Jesus
citou sobre fazer boas obras para ser visto por
homens: o jejum. Disse Ele: “Quando jejuardes,
não vos mostreis contristados como os hipócritas;
porque desfiguram o rosto com o fim de parecer
aos homens que jejuam” (v. 16a). A palavra traduzida por “jejuardes” (nhsteu/w, nesteuo) refere-se a
ficar sem comida15. O termo é usado na história da
alimentação dos quatro mil referindo-se ao povo
que estava faminto após ouvir Jesus o dia todo
(veja Mateus 15:32; compare as versões)16. Em algumas partes do mundo, a primeira refeição do
dia se chama “quebra-jejum” (breakfast) porque
nenhum alimento foi ingerido durante a noite.
Os judeus consideravam o jejum um exercício espiritual importante. “A Lei de Moisés nunca
prescreveu o jejum diretamente”17; mas no Dia da
Expiação, os judeus eram instruídos a humilharse (Levítico 16:29–34; observe v. 31)18. Humilharse era interpretado como um ato que incluía o
jejum. Em Salmos 35:13 Davi escreveu: “eu afligia a minha alma com jejum”. Com o passar do
tempo, os judeus acrescentaram outros dias de
jejum nacional como o começo de um novo ano
e aniversários de calamidades que marcaram a
história judaica19. Sob circunstâncias especiais,
proclamava-se um dia de jejum nacional (veja
1 Samuel 7:5, 6). Também há relatos de indivíduos que fizeram jejuns pessoais (por exemplo, veja
2 Samuel 1:12; 12:16; Neemias 1:4). No Antigo
Testamento, o jejum geralmente era uma expressão de humildade, arrependimento ou pesar.
Na época de Jesus, os fariseus tinham acrescentado dois dias de jejum a cada semana (veja
Vine, p. 228.
Uma palavra relacionada (aÓsiti÷a, astia) é usada em
Atos 27:21, 33. Tanto astia como nesteuo são formadas por
um prefixo negativo acrescentado à palavra para “comer”
(e˙sqi÷ w, esthio). (Ibid., pp. 227–28.)
17 Fowler, p. 358.
18 Veja também Levítico 23:26–32; Números 29:7. No
Novo Testamento, o Dia da Expiação é chamado de “o Dia
do Jejum” em Atos 27:9.
19 As datas de algumas dessas ocasiões podem ser encontradas em 2 Reis 25:1, 3, 25 e Jeremias 52:12, 13.
15 16 Lucas 18:12). Esses jejuns duravam desde o nascer-do-sol até o pôr-do-sol20. Fontes históricas
relatam que os dois dias eram os que chamamos
de terça-feira e quinta-feira. Esses dias eram dias
comerciais para os judeus em que muitos iam até
a cidade. Isso propiciava uma numerosa platéia
para a “mostra” de jejum dos fariseus.
Jesus disse que quando esses hipócritas jejuavam, eles “desfiguravam o rosto”21 e descuidavam
da aparência. Não lavavam o rosto nem penteavam os cabelos. Usavam roupas sujas e rasgadas
e faziam expressões de sofrimento. Às vezes até
colocavam cinzas na cabeça e usavam roupas de
saco para serem vistos. Tudo isso era para chamar
a atenção para a espiritualidade deles.
Novamente, Jesus disse: “Em verdade vos
digo que eles já receberam a recompensa” (Mateus 6:16b). “Porque amaram mais a glória dos
homens do que a glória de Deus” (João 12:43), a
aprovação dos homens foi tudo o que receberam.
Como Jejuas (vv. 17, 18)
Jesus disse que essas exibições hipócritas não
deveriam ser características de Seus seguidores:
Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava
o rosto, com o fim de não parecer aos homens
que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai,
que vê em secreto, te recompensará (vv. 17, 18).
Ungir a cabeça com óleo e lavar o rosto eram
práticas higiênicas comuns entre os homens judeus. Jesus estava dizendo: “Tenha um comportamento normal quando você jejuar. Não faça nada
para chamar a atenção dos outros para o fato de
que você está jejuando”22. Hoje, Jesus poderia nos
dizer: “Siga sua rotina matinal normal. Lave o
rosto, escove os dentes, penteie os cabelos”.
Depois de dizer isso, ainda nos resta uma pergunta sobre o jejum e como as instruções de Jesus
devem afetar a vida cristã. Observemos que Jesus
não disse “se jejuares”, mas “quando jejuares”. Estava pressuposto que Seus seguidores jejuariam.
Alguns acreditam que o jejum é uma prática cris20 Podia-se consumir alimento antes do nascer-do-sol e
depois do pôr-do-sol. Veja exemplos de jejum de um dia inteiro em Juízes 20:26; 1 Samuel 14:24 e 2 Samuel 1:12; 3:35.
21 “Desfigurar o rosto” vem de uma palavra (aÓfani÷ zw,
aphanizo) que significa “parecer... inrreconhecível” (Arndt e
Gingrich, p. 124).
22 Alguns sugerem que ungir a cabeça indica celebração.
Todavia, isso também chamaria a atenção. É melhor pensar
na unção como parte comum da rotina higiênica matinal.
tã abandonada. Apontam para indivíduos dedicados que viveram nos primeiros séculos tendo o
hábito de passar muito tempo jejuando e sugerem
que precisamos fazer o mesmo hoje em dia.
O que o Novo Testamento diz sobre o jejum?
Não há muita coisa23. A referência mais extensa é
Marcos 2:18–20 (veja Mateus 9:14, 15; Lucas 5:33–
35):
Ora, os discípulos de João e os fariseus estavam
jejuando. Vieram alguns e lhe perguntaram: Por
que motivo jejuam os discípulos de João e os
dos fariseus, mas os teus discípulos não jejuam?
Respondeu-lhes Jesus: Podem, porventura, jejuar os convidados para o casamento, enquanto o
noivo está com eles? Durante o tempo em que
estiver presente o noivo, não podem jejuar. Dias
virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo;
e, nesse tempo, jejuarão.
Essa passagem nos informa que os discípulos
de João jejuavam, mas que os de Jesus não. Mais
uma vez, Jesus indica que Seus seguidores jejuariam depois que Ele fosse embora. Essa afirmação
de Jesus “tem sido interpretada como se o jejum
fosse uma função da vida cristã legítima, porém
não obrigatória”24.
Os discípulos de Jesus de fato jejuaram depois
que Ele voltou ao céu? Se existe algum registro no
Novo Testamento de cristãos individuais jejuando em particular, desconhecemos25. Existem dois
exemplos de jejum congregacional. Antes da igreja em Antioquia mandar Barnabé e Saulo como
missionários, ela jejuou e orou (veja Atos 13:1–3).
Quando se constituíam presbíteros nas congregações, a irmandade orava e jejuava (veja Atos
14:23). Todavia, a Bíblia não registra detalhes de
como eram esses jejuns congregacionais. Não sabemos quanto tempo duravam. Não sabemos se
23 Entre as diversas passagens sobre jejum estão Lucas
2:37 e Mateus 17:21; Marcos 9:29; Atos 10:30 e 1 Coríntios 7:5.
Todavia, a palavra grega para “jejum” não se encontra nessas
passagens nos manuscritos mais antigos.
24 R. K. Harrison, “Fast,” The International Standard Bible
Encyclopedia, rev., ed. Geoffrey Bromiley. Grand Rapids,
Mich.: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1982, 2:284.
25 Em escritos não inspirados do segundo século há uma
série de referências a cristãos jejuando, mas não há referências correspondentes no Novo Testamento. Alguns usam
as passagens em que Paulo menciona “jejuns” (2 Coríntios
6:5),“fome e sede” (2 Coríntios 11:27) como prova de que ele
jejuava frequentemente como um exercício espiritual (ambas
essas passagens usam a palavra grega para “jejum”). Todavia, ambas as passagens colocam a privação de comida num
contexto negativo como algo que ele teve de suportar para
levar avante a causa de Cristo.
5
era estabelecido um tempo de jejum e oração ou
se o jejum acontecia naturalmente durante uma
reunião de oração da congregação.
A falta de informação é um problema que enfrentamos quando procuramos entender o tema
do jejum. Com respeito a ajudar os pobres, a Bíblia registra tanto o mandamento como as instruções (veja 2 Coríntios 8; 9). Com respeito a orar,
temos muitos mandamentos e muita instrução
(por exemplo, veja Mateus 7:7–11; 1 Tessalonicenses 5:17; Efésios 6:18). Todavia, sobre o tema do
jejum, não há mandamentos–somente as instruções do texto de Mateus para não chamarmos a
atenção para nós mesmos.
Quem pratica o jejum atribui a ele uma variedade de benefícios físicos e espirituais, que vão
desde o aumento da clareza mental até a intensificação da espiritualidade. Todavia, uma vez que
as pessoas possuem metabolismos e personalidades diferentes, nem todos que tentam jejuar como
um exercício espiritual experimentam resultados
positivos. Além disso, grupos não cristãos alegam alcançar resultados semelhantes com seus
jejuns voluntários26, de maneira que não há nada
exclusivamente cristão nos resultados relatados.
Se existem benefícios espirituais edificantes e automáticos decorrentes do jejum, é difícil entender
por que Jesus não insistiu para que Seus discípulos jejuassem enquanto Ele estava com eles.
Costuma-se dizer que o jejum é uma forma de
autodisciplina. Com certeza é verdade que alguns
de nós precisam de mais autodisciplina quando
se relacionam com a comida. Entretanto, a autodisciplina é um requisito para todas as horas,
enquanto as poucas informações disponíveis no
Novo Testamento sobre jejum sugerem que ele
era praticado em acontecimentos extraordinários.
John R. W. Stott sugeriu:
[O jejum] não constitui uma prática regular, pois
nem sempre jejuamos quando oramos, mas algo
ocasional e especial, quando precisamos buscar
a Deus para orientação ou bênção especial e, então, nos abstemos do alimento e de outras distrações para fazê-lo.27
26 Veja exemplos de não cristãos jejuando em Daniel 6:18
(o rei de Babilônia), Jonas 3:5 (os ninivitas) e Atos 23:12 e 14
(os judeus após a igreja ser estabelecida).
27 John R. W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte, Série
A Bíblia Fala Hoje. Trad. Yolanda M. Krieven, reimpressão.
São Paulo: ABU Editora, 1986, p. 140.
6
Na igreja do Novo Testamento, o jejum era uma
expressão de renúncia ou abnegação e não de autodisciplina. Era uma questão de prioridades, uma
demonstração prática da injunção no fim do capítulo: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão
acrescentadas” (Mateus 6:33). Em certas ocasiões,
os cristãos se abstêm de alimento e de outros prazeres legítimos porque o que estão fazendo para
o Senhor é mais importante28.
São muitas as ilustrações da atualidade. Há
pessoas que até se esquecem da hora da refeição
quando têm a oportunidade de ensinar o evangelho de Cristo a outros. Há também aqueles
que não pensam nem em comida, nem no tempo gasto nem nas despesas quando servem os
necessitados. Outros, infelizmente, parecem não
ter as mesmas prioridades. No que diz respeito
às reuniões da igreja (Hebreus 10:25), estão mais
interessados em dormir ou comer ou divertir-se
do que em adorar e glorificar a Deus.
Além de ajudá-lo a estabelecer suas prioridades, como as instruções de Deus sobre o jejum
devem influenciar a sua vida? Ninguém pode
responder essa pergunta por você. Talvez você
queira ver quais efeitos positivos o jejum surte em
você. Se uma congregação está enfrentando uma
crise, os líderes podem querer convocar um período de jejum e oração. Todavia, não se esqueça do
que Jesus disse. Quando você jejuar, não se exiba
com ostentação nem chame atenção para si. Agindo assim, seu jejum será notado pelo seu Pai, que
vê em secreto e Ele o recompensará.
CONCLUSÃO
Espero que não tenhamos nos envolvido tanto
em tentar entender os exemplos de Jesus a ponto
de perdermos de vista o sentido de sua mensagem básica: precisamos tomar cuidado para não
fazer a coisa certa pelos motivos errados. Essa
mensagem diz respeito a todos os pregadores e
professores. Após dar um sermão ou uma aula,
muitos de nós gostamos de receber um agradecimento pela lição. Escritores gostam de ouvir as
pessoas dizerem que seus livros as ajudaram. Às
vezes, quando ninguém elogia nossos esforços,
28 Veja outro exemplo de privação de um prazer legítimo
por causa de um propósito em 1 Coríntios 7:5, em que um
casal pode abster-se de relações sexuais por um período a
fim de se dedicarem à oração.
ficamos desanimados. Nessa hora temos que perguntar a nós mesmos: “Por que eu faço o que faço
para o Senhor?” Essas são perguntas com as quais
todo professor, pregador ou autor de lições luta
constantemente.
Jesus chamou aqueles que O condenaram de
“hipócritas” (vv. 2, 5, 16). Geralmente pensamos
em hipócritas como aqueles que intencionalmente fingem ser alguém que não são. Todavia, as
pessoas a quem Jesus Se referiu provavelmente
acreditavam sinceramente que estavam fazendo
a vontade de Deus (veja Lucas 18:11, 12). Compunham o tipo mais trágico de hipócritas: os que
enganam a si mesmos. Que Deus nos ajude a não
sermos hipócritas que estão enganando a si mes-
mos. Que Ele nos ajude a não só fazer as coisas
certas, mas também fazê-las pelos motivos certos.
Notas para Pregadores e Professores
Se usar esta lição no formato de sermão, uma
sugestão para o apelo à obediência a Cristo é que
é possível uma pessoa ser batizada (a coisa certa)
pelos motivos errados: porque alguém quer que
ela faça isso, ou porque outros estão sendo batizados. O batismo precisa ser “de coração” (Romanos 6:3, 4, 17, 18) como parte do compromisso
pessoal da pessoa para com o Senhor.
Autor: David Roper
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Fazendo a Coisa Certa pelo Motivo Errado