UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA - UDESC CENTRO DE ARTES – CEART DOUTORADO EM TEATRO JUSSARA JANNING XAVIER ACONTECIMENTOS DE DANÇA: CORPOREIDADES E TEATRALIDADES CONTEMPORÂNEAS FLORIANÓPOLIS, SC 2012 JUSSARA JANNING XAVIER ACONTECIMENTOS DE DANÇA: CORPOREIDADES E TEATRALIDADES CONTEMPORÂNEAS Tese apresentada ao Programa de PósGraduação em Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina, como requisito para obtenção do grau de Doutor em Teatro, área de concentração Teorias e Práticas Teatrais, na Linha de Pesquisa Linguagens Cênicas, Corpo e Subjetividade. Orientadora: Sandra Meyer Nunes Co-orientadora: Vera Collaço FLORIANÓPOLIS, SC 2012 X3a Xavier, Jussara Janning. Acontecimentos de dança: corporeidades e teatralidades contemporâneas. / Jussara Janning Xavier. – Florianópolis, 2012. 233 f.: il. Tese (Doutorado) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em Teatro, Florianópolis, 2012. Orientadora: Sandra Meyer Nunes Inclui bibliografia. 1. Dança contemporânea. 2.Corporeidade. 3. Teatralidade. I. Nunes, Sandra Meyer. II. Universidade do Estado de Santa Catarina – Pós Graduação em Teatro. III. Título. CDD 792.62 Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central JUSSARA JANNING XAVIER ACONTECIMENTOS DE DANÇA: CORPOREIDADES E TEATRALIDADES CONTEMPORÂNEAS Esta tese foi julgada aprovada para a obtenção do Título de Doutor, área de concentração Teorias e Práticas Teatrais, na linha de pesquisa Linguagens Cênicas, Corpo e Subjetividade, pelo Programa de Pós-graduação em Teatro, do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina, em 28 de maio de 2012. Banca Examinadora: Orientadora: _____________________________________________ Profa. Dra. Sandra Meyer Nunes Universidade do Estado de Santa Catarina Co-orientadora: _____________________________________________ Profa. Dra. Vera Collaço Universidade do Estado de Santa Catarina Membros: ________________________ Prof. Dr. Charles Feitosa UNIRIO __________________________ Profa. Dra. Rosa Primo UFC ________________________ Prof. Dr. Milton de Andrade UDESC __________________________ Prof. Dr. André Carreira UDESC Florianópolis, 25/04/2012 Para Ana e Theo. Acontecimentos insuperáveis. AGRADECIMENTOS As minhas orientadoras. Vera Collaço: incontestável potência. Sandra Meyer: devir-sol. D. Giussani (1922-2005), responsável pelo encontro que faz da minha vida um acontecimento. Aos meus pais, Newton e Relinde, e a minha irmã, Taciana (desde sempre minha primeira e excepcional leitora): graças a vocês e com vocês, absolutamente tudo na minha vida pode acontecer. Um agradecimento infinito aos que amo e alimentam meu desejo de ser: Val, Marco, Luigi, Maria Clara, Valentina, Alvinho, Liziane, Susana, João, Eduardo, Tiago, Maria Fernanda, João Inácio, Rogério, Alda, André, Cássia, Juliano, Isabel, Miriam, Silvane, Fabiana, Frucchi. Daniel: muitíssimo obrigada pelos vídeos, fotos, traduções, leituras, tantos momentos queridos de alegria, paciência e amor. Sandra e Mila: obrigada por sua tamanha delicadeza e competência na administração deste processo acadêmico. Alejandro Ahmed, Eduardo Fukushima, Erika Rosendo, Micheline Torres e Vanilto Lakka: muito obrigada pelas entrevistas e inspiração. Agradeço a todos os artistas, grupos, pesquisadores e teóricos citados nesta tese. E a você que me lê. Non nobis Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam. Fazer de um acontecimento, por menor que seja, a coisa mais delicada do mundo, o contrário de fazer um drama, ou de fazer uma história. Amar os que são assim: quando entram em um lugar, não são pessoas, caracteres ou sujeitos, é uma variação atmosférica, uma mudança de cor, uma molécula imperceptível, uma população discreta, uma bruma ou névoa. Tudo mudou, na verdade. [...] As verdadeiras entidades são acontecimentos, não conceitos. Pensar em termos de acontecimento não é fácil. Menos fácil ainda pelo fato de o próprio pensamento tornar-se, então, um acontecimento.1 Gilles Deleuze 1 Gilles Deleuze; Claire Parnet. Diálogos. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro, São Paulo: Escuta, 1998, p.54. RESUMO XAVIER, Jussara Janning. Acontecimentos de dança: corporeidades e teatralidades contemporâneas. 2012. 229 f. Tese (Doutorado em Teatro – Área: Teorias e Práticas Teatrais) – Universidade do Estado de Santa Catarina. Programa de pós-graduação em Teatro, Florianópolis, 2012. Esta tese discute a noção de dança contemporânea como acontecimento e realização de uma experiência em que a vida é intensificada e transformada num tempo-espaço único. Sendo assim, o contemporâneo na dança não é determinado por um valor cronológico, mas como arte suspensa em que passado, presente e futuro se atravessam. O trabalho é composto por diferentes ensaios analíticos. Suas partes se oferecem como possibilidades móveis de combinação, porções que se interpenetram, movimentos que circulam. Trata-se de um mapa relacional e transitório de fazeres-dizeres ligados a dança, em que, principalmente, os argumentos de Gilles Deleuze, Félix Guattari, Giorgio Agamben, Josette Feral e José Gil são imprescindíveis. Um primeiro momento é dedicado a problematizar diferentes corporeidades: identifica jogos com a variação e plasticidade do corpo, como tentativas de se produzir novos modos de percepção e afecção. Neste sentido, apresenta uma pesquisa do método Percepção Física, desenvolvido pelo diretor Alejandro Ahmed junto ao Grupo Cena 11 Cia. de Dança (SC). E, ainda, discute atuações dos intérpretes e criadores Eduardo Fukushima (SP) e Micheline Torres (RJ), cujos corpos são pensados de modo contínuo como devir-outro. No espaço seguinte, a dança é investigada a partir da perspectiva teórica da teatralidade, ou seja, a dança é compreendida enquanto ato artístico de transformação do real e violação do cotidiano. Considera-se que a teatralidade resulta de dinâmicas perceptivas - do olhar que une um observado, seja sujeito ou objeto, a um observador, e somente assim, faz emergir a ficção. Para pesquisar diferentes possibilidades de ação da contemporaneidade na cena, criações que fabricam efeitos de estranhamento em relação ao familiar, bem como, deslocamentos e desvios, são analisadas. Artistas e grupos como Vanilto Lakka (MG), Erika Rosendo (SC) e Cena 11 são considerados. Palavras-chave: Dança Teatralidade. Experiência. contemporânea. Acontecimento. Corporeidade. ABSTRACT XAVIER, Jussara Janning. Dance events: contemporaries‘ corporealities and theatricalities. 2012. 229 f. Thesis (Doutorado em Teatro – Área: Teorias e Práticas Teatrais) – Universidade do Estado de Santa Catarina. Programa de pós-graduação em Teatro, Florianópolis, 2012. This thesis discusses the concept of contemporary dance as event and realization of an experience in which life is intensified and transformed into a single space-time. Thus, the contemporary in dance is not determined by chronological factor, but as a suspended art where past, present and future crosses each other. The work is composed of different analytical essays. Its parts are offered as movable possibilities of combination, portions that are intertwined, flowing movements. It is a relational and transitory map of doings and sayings related to dance, in which, mainly, the arguments of Gilles Deleuze, Félix Guattari, Giorgio Agamben, Josette Feral and José Gil are essential. The first part is dedicated to problematize different corporealities: identifies games with the variation and plasticity of the body, such as attempts to produce new modes of perception and affection. In this sense, it presents the method Percepção Física, developed by director Alejandro Ahmed with Grupo Cena 11 Cia. de Dança. And also discusses performances of dancers and coreographers such as Eduardo Fukushima (SP) and Micheline Torres (RJ), whose bodies are permanently conceived as a becoming-other. Next, dance is investigated from a theoretical perspective of theatricality, that is, dance is understood as an artistic act that transform reality and violation of ordinary life. It is considered that theatricality results from dynamic perceptions – the look that links the observed, either subject or object, to an observer, and only thus, gives rise to fiction. To search for different possibilities of action in the contemporary scene, creations capable of producing surprising effects related to the habitual, as well, displacements and deviations, are analysed. Artists and companies such as Vanilto Lakka (MG), Erika Rosendo (SC) and Cena 11 are considered. Keywords: Contemporary dance. Event. Corporeity. Theatricality. Experience. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Vaslav Nijinski 45 Figura 2 e 3: Pina Bausch 58 Figura 4: Merce Cunningham 59 Figura 5 e 6: La La La Human Steps 60 Figura 7 e 8: Grupo Corpo Cia. de Dança 61 Figura 9 e 10: The Forsythe Company 62 Figura 11 e 12: Grupo Cena 11 Cia de Dança 114 Figura 13 e 14: Eduardo Fukushima 124 Figura 15 e 16: Micheline Torres 140 Figura 17 e 18: Micheline Torres 147 Figura 19 e 20: Grupo Cena 11 Cia de Dança 182 Figura 21 e 22: Grupo Cena 11 Cia de Dança 183 Figura 23 e 24: Vanilto Lakka 191 Figura 25 e 26: Vanilto Lakka 192 Figura 27, 28 e 29: Jérôme Bel 197 Figura 30, 31 e 32: Erika Rosendo 207 Figura 33 e 34: Erika Rosendo 208 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 11 1 O QUE É A DANÇA CONTEMPORÂNEA? 24 1.1 ACONTECIMENTO 29 1.2 MULTILÍNGUE 46 1.3 PERCEPÇÕES ILIMITADAS 63 1.4 ALÉM DO CLICHÊ 70 2 COMPONENTE: CORPOREIDADE 83 2.1 PERCEPÇÃO FÍSICA – ALEJANDRO AHMED E CENA 11 100 2.2 COMO SUPERAR O GRANDE CANSAÇO? – EDUARDO FUKUSHIMA 115 2.3 MEU CORPO É MINHA POLÍTICA – MICHELINE TORRES 125 3 ENTRE DOIS 148 4 COMPONENTE: TEATRALIDADE 156 4.1 COMPOSTOS MÚLTIPLOS 161 4.2 TEXTOS EM COMUM 168 4.3 OPERAÇÕES DE TEATRALIDADE 173 4.4 SIM – AÇÕES INTEGRADAS DE CONSENTIMENTO PARA OCUPAÇÃO E RESISTÊNCIA – GRUPO CENA 11 CIA. DE DANÇA 176 4.5 O CORPO É A MÍDIA DA DANÇA? OUTRAS PARTES – VANILTO LAKKA 184 4.6 THE SHOW MUST GO ON – JÉROME BEL 193 4.7 RETRATO DO OUTRO – ERIKA ROSENDO 198 5 ENTRE TANTOS 209 CONCLUSÕES TRANSITÓRIAS 216 REFERÊNCIAS 222 11 INTRODUÇÃO O contemporâneo na dança reflete uma visão particular de mundo e não se restringe a um único modo de composição no corpo e na cena. Tampouco carrega a missão unívoca de negar uma técnica ou movimento artístico qualquer. Se ocupa em perguntar, conhecer e escolher. Tal liberdade criativa permite desde a apropriação da poética etérea da dança clássica, à qualidade expressionista da dança moderna, à variedade das danças populares, de salão e de rua, até o uso de gestos cotidianos e a própria recusa do movimento enunciada pela dança pósmoderna americana nos anos 1960. A função conservada se refere à de questionar, e até mesmo demolir, suas próprias categorias de enunciação e elementos compositivos. Desfazer a si mesma. Não cansa de interrogar e criticar seus contextos: arte e vida. Localizada num território sem leis fixas, modelos e convenções imutáveis, a dança contemporânea desenha linhas que antes de dividir, apontam outros caminhos de pesquisa e significação. Dado o caráter híbrido e transformador desta dança, não me parece adequado procurar seu núcleo duro, ou seja, defini-la como uma substância ou como uma fronteira delimitada ao lado de outras. Trata-se de um mapa movediço, que não cessa de mover-se e expandir-se. Então, do que falamos quando tratamos da dança contemporânea? O campo nomeia uma infinidade de realizações artísticas, muitas próximas à experimentação e sem formas de existência conceituadas a priori. São tempos-espaços potenciais para manifestações artísticas elaboradas e extremamente heterogêneas, que entrelaçam corpo e ambiente, modificando-os. Mundos que evidenciam o desejo de explorar com radicalismo opostos aparentes como vazio e cheio, mobilidade veloz e imobilidade, perfeição e erro, interior e exterior, realidade e ficção, ação e percepção. A dança é confirmada como possibilidade desimpedida que preserva e enaltece a indeterminação e o risco, caminhos importantes para descobridores obstinados. A multiplicidade de corpos que dançam e de processos de treinamento une-se a composição de uma cena que articula um discurso transversal. Esta diversidade de procedimentos resulta numa paisagem artística complexa, percebida por Lehmann (2007) como ―teatro pós-dramático‖. A nomenclatura foi escolhida pelo 12 autor para abraçar criações do contexto europeu por ele observadas e marcadas pela indistinção, dado a recorrência dos atravessamentos que as compõem: combinações entre dança, música, circo, teatro, mímica, tecnologia, performance, entre outros meios, resultam numa associação cênica singular. Sendo assim, preceitos sobre o teatro pós-dramático funcionam como pistas de investigação. Trata-se de um terreno no qual prevalece a percepção simultânea e multifocal (que substitui a linear-sucessiva), o pluralismo dos fenômenos, o caráter imprevisível, a coexistência de concepções divergentes, a fragmentação da narrativa. Lehmann adverte que neste campo ainda não foram encontradas ―regras gerais‖, pois consiste em inovações que persistem na procura por novas ―junções de modos de trabalho, instituições, lugares, estruturas e pessoas‖ (2007, p. 30-38). Podemos considerar que sua regulação decorre precisamente da ausência de normas? Processos de transformação do real, do corpo, do espaço e do tempo: teatralidades (Féral, 2003). A expressão teatralidade aplica-se a um jogo entre realidade e ficção, provocado com a semiotização dos signos presentes em cena. A teatralidade é o resultado de uma dinâmica perceptiva: do olhar que une o observado (sujeito ou objeto) e um observador. Esta relação pode brotar tanto da iniciativa de um intérprete que manifesta a intenção de jogo, como de um espectador que transforma o que vê em matéria espetacular. Trata-se de uma operação contínua, ligada em grande parte ao espectador, o qual participa da criação artística e da mudança nela implicada. Assim, a teatralidade não se ocupa somente da natureza do objeto que ela aborda, como por exemplo, o bailarino, o espaço de atuação, o cenário; e também não se firma na ilusão ou na fantasia criativa que um objeto pode representar. Mas diz respeito a uma produção ligada a um olhar criador de um espaço de alteridade, o qual faz emergir a ficção (Féral, 2003). Féral observa que a condição da teatralidade é a identificação de um espaço diferente do cotidiano (que ela denomina ―espaço potencial‖), um espaço virtual gerado pelo olhar (2004, p. 91). Enquanto campo de experimento aberto que articula produção e olhar, a dança contemporânea, pensada a partir da noção de teatralidade aqui exposta, chama o espectador para jogar e trabalhar na sua tessitura. Convoca um olhar ativo, disposto a trocar ficticiamente suas próprias condutas, quer dizer, um olhar ―jogador‖ (Guénoun, 2004, p. 150). Principalmente quando a cena não tem a dizer, mas a mostrar, a interatividade surge como 13 condição de fruição. Uma enunciação polifônica desdobra-se para alcançar o sensível. Na hipótese de Féral (2003) não é possível medir a teatralidade em graus de intensidade e, portanto, é necessário um despojamento da prática que emite juízos valorativos acerca dos espetáculos cênicos, ou seja, uma mudança de parâmetros para falar sobre teatralidade. Assim como seria um despropósito falar em algo mais teatral ou menos teatral, seria inadequado nos termos deste estudo, designar a dança contemporânea como mais dançante ou menos dançante. É bastante comum a análise de espetáculos de dança a partir de comparações que atribuem escalas de mais dançado ou menos dançado, obras com mais dança ou menos dança, e até mesmo a interrogação ―mas isto é dança?‖ ou a exclamação ―mas isto é muito parado, não é dança!‖. Na ótica da teatralidade, portanto, a dança é proposta como um ato artístico de transformação do real, de transgressão do cotidiano e não pode ser regulada por escalas gradativas de movimento, mas sim de intensidades2. Estudos da dança contemporânea originados a partir de seu próprio contexto ainda são escassos. Porém, diante do crescente interesse em se aproximar deste fenômeno complexo, novas perspectivas metodológicas são buscadas. Esta tese se apoia em teorias recentes acerca do corpo e da teatralidade. Ao articular teatralidade e dança, desejo realçar os procedimentos que tornam possíveis as produções cênicas contemporâneas e a interlocução com o conceito de experiência. Acredito que a dança contemporânea desenha escrituras particulares e a teatralidade forja-se como asserção teórica eficaz para delinear especificidades e esboçar traços na cena apontada. Como se trata de possibilidades criativas numa esfera de operação multiforme e que abastece uma conceituação viva, procurei explorar relações com aportes teóricos que se afastam da lógica cartesiana e mecanicista. Me aproximo então de conceitos desenvolvidos por filósofos como Giorgio 2 Agamben (contemporâneo) e Gilles Deleuze e Félix Guattari No livro Paisagens críticas. Robert Smithson: arte, ciência e indústria, o filósofo Nelson Brissac Peixoto analisa o pensamento de Deleuze em suas conexões com a física, tais como o extensivo e o intensivo, numa visão crítica. Conforme a análise deleuziana sobre as transformações termodinâmicas na física, a intensidade é diferencial. Neste sentido, uma alteração produzida no valor de uma quantidade (temperatura, pressão, densidade, velocidade) não configura uma simples adição, mas a emergência de um fluxo espontâneo, ou seja, implica a diferença como intensidade. Exemplifica dizendo que uma intensidade ―não é composta por grandezas adicionáveis ou deslocáveis: uma temperatura não é a soma de duas temperaturas menores, uma velocidade não é a soma de duas velocidades menores‖ (Peixoto, 2010, p.46-47). 14 (acontecimento), dado que seus pensamentos, dinâmicos e inventivos, iluminam a compreensão das ações e possibilidades na contemporaneidade. Em seus escritos encontrei dispositivos concretos para incentivar, desenvolver e sustentar meus diálogos nesta tese, que persigo e percorro como acontecimento. ―Estar à altura do que nos acontece é a única ética possível‖ (Pelbart, 2008, p. 37). O propósito de verificar ressonâncias entre filosofia e dança não visa, no entanto, priorizar um sobre o outro. É possível verificar ao longo deste trabalho que os artistas investigados também se interessam por leituras de âmbito filosófico, conhecimento que é referenciado nos seus modos particulares de pensar-fazer dança. Tal constatação evidencia a intensificação do diálogo dança-filosofia no contexto considerado e torna irrevogável minha proposta de aproximação destas duas disciplinas. Ademais, sendo a dança contemporânea o assunto desta tese, julgo insuficiente debruçar-me apenas em descrições formais, ignorando sua dimensão filosófica e seu potencial de pensar e transformar o mundo. O fato de uma dança despertar questões filosóficas e da filosofia pautar-se numa reflexão sobre dança, não anula a autonomia das áreas em questão. Contudo, criar movimentos dialéticos entre as mesmas traduz-se, para mim, como rica possibilidade argumentativa e crítica. Como pensar a consistência de um conjunto composto de singularidades e multiplicidades sem sucumbir a um esquema totalitário e unificador? Como reunir num plano de composição a diferença, em oposição à homogeneização e ao valetudo? Busco desenhar princípios de efetuação da dança contemporânea, sempre enfatizada como proposta inconstante, que opera na diversidade de comportamentos, cruzamentos e agenciamentos. O objetivo é problematizar processos criativos e inovações cênicas, em especial, as que investigam diferentes proposições para a ação no corpo, manifestam estratégias inusitadas no uso do tempo-espaço e estimulam outras percepções do espectador. A hipótese deste estudo é a de que a dramaturgia contemporânea trabalha o corpo e a cena a partir de acontecimentos. Um enunciado verbal performativo pode explicar e exemplificar o acontecimento nesta tese: um corpo dança. Deleuze parte da filosofia estóica para retomar a definição de acontecimento (o que faz de modo especial no livro Lógica do 15 sentido) como indicador de efeitos de ações e paixões, de encontros e misturas entre corpos. O autor mostra que o acontecimento não é substantivo nem adjetivo, nem se reduz a uma coisa ou a uma proposição. O acontecimento é, então, um modo de ser tornado devir-ilimitado (é fluxo, atemporal, não se enquadra em categorias) e sintetizado em paradoxos e fronteiras: simultaneamente passado e futuro, mais e menos, ativo e passivo, causa e efeito. Seu sentido está no expresso de sua proposição e sendo assim, o acontecimento é o próprio sentido (2009a). A possibilidade de captar o acontecimento na dança está no cartografar da experiência, o que implica alcançar o virtualmente dado e produzir conhecimentos coerentes com a processualidade da realidade pesquisada. Processos intensos de transformação do real oferecem pistas para mapear teatralidades peculiares à dança contemporânea. Conecto aqui ações de artistas e grupos como Micheline Torres (RJ), Eduardo Fukushima (SP), Erika Rosendo (SC), Cena 11 (SC) e Vanilto Lakka (MG) para realizar um mapeamento. Neste contexto, ressalto a consideração de mapa como um modo de representação voltado [...] para uma experimentação ancorada no real. O mapa não reproduz um inconsciente fechado sobre ele mesmo, ele o constrói. Ele contribui para a conexão dos campos [...]. O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. (Deleuze; Guattari, 1995, p. 22). Sendo assim, cada capítulo apresenta ensaios sobre artistas e trabalhos específicos. São tentativas de análise caracterizadas por uma visão particular de síntese e de tratamento crítico. Por meio destes ensaios, busco coordenar elementos e não subordiná-los. Assim, todas as partes desta tese se oferecem como possibilidades móveis de combinação, porções que se interpenetram, movimentos que circulam. Um mapa relacional e transitório de fazeres-dizeres da dança. Vale esclarecer que cada ensaio é aqui estabelecido como um ―exemplo‖, em grego dito paradeigma. O paradigma é explicado por Agamben como uma forma de conhecimento analógica (não é indutiva nem dedutiva), uma espécie de movimento paradoxal que vai de uma singularidade a outra singularidade. Tal modo neutraliza a dicotomia entre o geral e o particular, substituindo a lógica dicotômica por um modelo analógico bipolar. Para o autor, um caso se torna paradigmático quando suspende e, simultaneamente, expõe seu pertencer a um conjunto. Assim, um 16 fenômeno particular pode valer para todos os casos do mesmo gênero e, paradoxalmente, tornar-se capaz de construir um amplo conjunto problemático. Agamben afirma que todo fenômeno paradigmático tem sua própria origem, e sua historicidade está no entrecruzar diacronia e sincronia (2010a, p. 40-41). Trabalhar por meio de paradigmas ou exemplos - Percepção física e o Cena 11; Como superar o grande cansaço? e Eduardo Fukushima; dentre outros; não corresponde a fixar hipóteses para explicar a dança contemporânea. Mas sim, fazer inteligível uma série de fenômenos dotados de multiplicidade que, no problematizar da pesquisadora, revelam certo ―parentesco‖, quer dizer, alguma relação. Não se trata de constatar semelhanças, mas de produzí-las por meio de operações de conhecimento. Portanto, o paradigma não é algo pronto, mas gerado. Nestes termos, os exemplos de dança aqui tratados são diferentes e, ao mesmo tempo, análogos de outras danças. Ao afastar a dualidade entre fenômeno singular e total, entre o particular e o universal, pretende-se investigar o campo da dança contemporânea por meio de uma exposição paradigmática de casos singulares. Vários foram os motivos que me levaram a selecionar os trabalhos artísticos nomeados nesta tese, alguns de ordem bastante objetiva, como a facilidade de aproximação física e contato com os profissionais envolvidos. Mas a razão central está na potência de suas investigações: o interesse no pensar em ação sobre o que a dança pode ser, em conhecer e discutir o mundo por meio da dança, a perspectiva crítica de seus trabalhos, a consecução de pesquisas promotoras de deslocamentos, a opção pelo risco e a fuga da domesticação de experiências. Também pela sensibilidade própria a cada artista, sua propensão de ser afetado pela realidade e sua capacidade de trabalhar um estado do mundo no próprio corpo. Considero excepcional a construção de uma dança que se faz no corpo, quer dizer, a incorporação de ideias por conta da necessidade de expandi-la em outros. É por tais motivações que, principalmente, as danças de Eduardo Fukushima, Micheline Torres e Cena 11 se mostram para mim como acontecimentos. Fukushima expõe suas inquietações no corpo em movimento; Torres pensa um corpo político, corpo em trânsito com atos e passeios dosados de grande sarcasmo e transgressão; o grupo Cena 11 faz da contaminação, sempre ligada ao risco e ao incerto, uma abertura para o imprevisto. Cada um conserva um impulso criador próprio para captar numa 17 matéria – corpo, outros modos de ser. Entendem que a dança pertence a ordem da vida: sempre inconclusa. Outro motivo está ligado à compreensão implícita de que um espaço escolhido para dançar nunca é neutro, mas concilia uma ideologia, uma memória, materializa um modo de experiência. Mesmo um palco italiano - caixa preta concebida como espaço neutro, por exemplo, traz uma carga simbólica própria, demarca uma hierarquia entre artistas e público e providencia a separação entre mundos distintos. Neste sentido, muitas das criações e criadores aqui citados evidenciam a importância do espaço em que se dança, conformando-o como lugar vivo e determinante para confrontar a potência do humano. Em suas propostas artísticas é possível identificar uma intervenção da teatralidade na realidade, principalmente por sua capacidade de alterar e ampliar as possibilidades de diálogo com o espectador, de afetá-lo por meio da dança. Tal estratégia é verificável nos experimentos aqui mencionados do Grupo Cena 11, Vanilto Lakka e Erika Rosendo. Em se tratando de uma pesquisa social qualitativa no campo artístico, as escolhas metodológicas objetivaram propiciar um percurso gerador de articulação entre conceitos e práticas. O estudo ocorreu a partir da observação de aulas e espetáculos, bem como, de registros em vídeo. Como o objeto escolhido implica a compreensão de perspectivas pessoais e experiências dos artistas, entrevistas com os mesmos foram realizadas. Supõe-se que o estudo proposto irá ampliar e atualizar entendimentos acerca da cena contemporânea de dança, especialmente a brasileira, ao mesmo tempo em que contribuirá para delinear sua possível cartografia. Ao indicar aspectos norteadores para a compreensão deste contexto; jornada teóricoprática desafiadora; presumo provocar novas conexões e movimentos. E ainda, contribuir com o exercício crítico e estimular pesquisas nos termos da teatralidade enquanto recurso para interrogação do sentido. A interlocução entre estudos de dança, teatro e filosofia potencializa a atividade criativa, abrindo caminhos para o questionamento e escrituras múltiplas. Cabe dizer que o propósito de inserção de imagens nesta tese é imprimir ou reforçar no leitor um desejo de acontecimento, além de gerar outra via de acesso à experiência aos trabalhos aqui pesquisados. A composição visual (ainda que conectada à verbal) é autônoma, auto-referente, insinua sua própria teatralidade. 18 Cada foto reporta a uma dança, um corpo, um homem, uma mulher, uma ideia. Relaciono este meio especial de expressão à minha escrita para produzir outros afetos, figurar outro modo de percepção, cognição e imaginação. Assim, meu discurso sobre as práticas e espetáculos de dança se faz entre palavras e imagens que remetem a um partilhar de memórias-evidências de acontecimentos. Barthes colabora com a compreensão desta proposta ao enunciar que a fotografia é uma referência, pois fala ―daquilo que foi‖ e atesta que ―a coisa esteve lá‖. Pontua: ―Toda fotografia é um certificado de presença‖ (1984, p. 114-116, 129). Por outro lado, Soulages aponta o caráter ambíguo da fotografia, ao dizer que a mesma [...] não fornece uma resposta, mas coloca e impõe esse enigma dos enigmas que faz com que o receptor passe de um desejo de real a uma abertura para o imaginário, de um sentido a uma interrogação sobre o sentido, de uma certeza a uma preocupação, de uma solução a um problema. A própria fotografia é enigma: incita o receptor a interpretar, a questionar, a criticar, em resumo a criar e a pensar, mas de maneira inacabável. [...]. Não podemos esgotar uma foto, pois, por meio dessa tensão entre seu material e seu referente para sempre perdido, ela nos escapa como nos escapam o mistério do outro, a realidade do mundo exterior, o problema da existência, a separação do passado, o enigma da morte ou a identidade de nosso eu. (2010, p. 346). Devir-doutora. Deleuze e Guattari ensinam que devir não é imitação nem identificação. É extrair partículas a partir do que se é, tem e faz para instaurar ―relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, as mais próximas daquilo que estamos em vias de nos tornarmos, e através das quais nos tornamos. É nesse sentido que o devir é o processo do desejo‖ (1997b, p. 55). As conexões desta tese sugerem um esquema ―rizomático‖, na medida em que desconsidera uma sequência linear com começo, meio e fim para dar lugar a falas intercalares e acomodar intervalos, repartição de desigualdades, ―densificações, intensificações, reforços, injeções, recheaduras‖ (Deleuze; Guattari, 1997b, p. 121-122). Assim, cada parte do trabalho penetra a outra, apresenta-se como matéria própria de expressão e não como explicação causal. Leituras homogêneas são aqui rejeitadas para incentivar que cada leitor atualize suas questões, confronte posições e sentidos, enfim, preencha as lacunas neste exercício de construção do conhecimento. Esta tese, e em grau superior uma dança contemporânea, inclina-se a um processo de fabricação, de criação, mais do que mera contemplação. Neste sentido, pede um esforço também àquele que lhe deseja o acesso. Tudo se oferece, aqui e acolá, 19 para ser desdobrado. Trata-se, muito mais, de um processo inventivo em variação contínua. Trata-se da dança contemporânea. HISTÓRICO DA PESQUISA Desde 1994 atuo como profissional da dança contemporânea em diferentes funções.3 Minha trajetória foi acompanhada pelo desejo crescente de aprofundar conhecimentos e dispor de novos recursos para desenvolver processos criativos, organizar programas em festivais, acessar obras com as quais entrava em contato, além de elaborar falas e escritos sobre. Ao lado disto, constatava intrigada a designação do contemporâneo por muitos eventos e escolas como uma técnica, modalidade ou estilo de dança que pode ―tudo‖. Discursos de amadores e profissionais também explicavam a dança contemporânea pelo viés cronológico, ou seja, mera realização feita no momento histórico presente. Deste ângulo, todas as danças que existem hoje seriam contemporâneas (mas então, quando estas mesmas danças se tornam coisas do passado deixam de ser contemporâneas?). Considero este entendimento de fácil recorrência, redutor, equivocado e, principalmente vazio, pois não esclarece coisa alguma. Sobretudo nos dias de hoje, o contemporâneo é utilizado como um rótulo informativo pronto que serve para qualificar uma obra de dança. Parece moda dizer que se faz dança contemporânea, ou seja, algo como uma veia automática para se tornar ―bacana‖. Se alguém não sabe o que está fazendo, é porque está fazendo dança contemporânea! Como? Na base de dados da dança contemporânea brasileira disponível no site4 do Instituto Itaú Cultural (São Paulo), cuja última atualização data de 2009 – e na qual 3 Bailarina e ensaiadora do Grupo Cena 11 Cia. de Dança; bailarina do Álea Grupo de Dança; pesquisadora da base de dados Rumos Dança do Instituto Itaú Cultural; crítica do Jornal A Notícia (SC); organizadora e curadora de encontros como Corpos que Falam, Conexão Sul,Tubo de Ensaio e Múltipla Dança; professora da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil a da graduação em Artes Cênicas na Universidade do Estado de Santa Catarina; diretora de projetos e espetáculos como Laboratório Corpo e Dança, Laboratório das Artes do Corpo, Auto-retrato, Retrato do Outro e Nós. Coorganizadora dos livros Tubo de Ensaio – Experiências em dança e arte contemporânea (2006), Pesquisas em dança - Coleção dança cênica 1 (2008) e Histórias da dança - Coleção dança cênica 2 (2012). Bolsa de Pesquisa Crítica em Dança da Funarte 2008 para realização do vídeo documentário Ballet Desterro. Contemporaneidade na dança catarinense. 4 http://www.itaucultural.org.br. 20 participei como pesquisadora, é possível verificar a ínfima quantidade de trabalhos acadêmicos e publicações originadas na área. A pesquisa revela a produção de apenas 30 teses, sendo a metade proveniente do estado de São Paulo, basicamente nos cursos de Doutorado em Artes da Universidade Estadual de Campinas e Doutorado em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O levantamento também informa a publicação de 50 livros em âmbito nacional. E ainda, a existência de 245 grupos, companhias e coletivos de dança contemporânea (nesta soma não são incluídos os profissionais que atuam em criações solo que, aliás, é possível constatar, são muitos). Ou seja, há um descompasso entre a produção teórica e espetacular, esta última em número bem maior. Sob uma perspectiva histórica, a produção de pesquisas teóricas em dança no Brasil é uma prática bastante recente. Com a crescente abertura de cursos de graduação em dança pelo país há, no entanto, um processo de constituição de um campo de estudo em estágio inicial e, ao mesmo tempo, acelerado. No caso da dança contemporânea de modo específico, as fontes bibliográficas são ainda mais escassas, quando não conceitualmente frágeis e de difícil acesso material. Diante dos dados expostos acima, propor um projeto para pensar a dança contemporânea significou a possibilidade de gerar contribuições na construção e sistematização teórica de saberes. E na possibilidade de colaborar para o reconhecimento e a consolidação da dança enquanto área de conhecimento, na medida em que procuro enriquecer o instrumental para sua produção e análise. Quando ingressei como aluna especial do Programa de Pós-Graduação em Teatro (PPGT) na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) em 2009, acessei uma bibliografia que revelou possibilidades originais e convenientes para (re)pensar a dança. Especialmente os estudos de Josette Féral acerca da teatralidade, Hans-Thies Lehmann sobre o teatro pós-dramático e Renato Cohen sobre a linguagem work in progress foram importantes para impulsionar a continuidade de minhas investigações. Ao ingressar no PPGT, encontrei semelhanças e conexões fundamentais entre as áreas do teatro e da dança, como o desenvolvimento de trabalhos que objetivam a realização espetacular, a expressão 21 do corpo humano, o jogo de imagens e sentidos, a oferta da arte à percepção do outro, a busca pela identidade na construção da diferença. Procedimentos cênicos multifacetados proliferam na cena contemporânea e estreitam vertiginosamente os laços entre dança, teatro e artes visuais, fazendo emergir teatralidades híbridas desta fusão. O conceito de teatralidade se impôs como ―instrumento eficaz de operação teórica‖ da cena contemporânea, especialmente por levar em conta a proliferação de falas ―que manejam, em sua produção, e em diferentes graus, múltiplos enunciadores do discurso‖ (Fernandes, 2010, p. 113). Estudar e discutir dança a partir da perspectiva teórica da teatralidade colaborou para a compreensão conceitual e apreensão deste modo artístico. Possibilitou refletir sobre sua lógica compositiva, particularidades e possibilidades de pensamento e formalização da contemporaneidade na cena da dança. O curso ainda proporcionou uma aproximação com os textos de Deleuze, desconcertantes, inéditos, apaixonantes e densos para mim. Tenho consciência de que minha compreensão ainda é ―não filosófica‖, como disse Deleuze, mas aliei o incentivo do autor de me deixar afetar por seus conceitos e buscar fazer algo diferente dos mesmos. Tentei, então, traçar movimentos lógicos e filosofar. Expor sua definição de acontecimento tornou-se um modo concreto de discutir suas ideias, impulsionar esta atividade intensa de pensar e, principalmente, modificar as condições do problema por mim colocado. Meu interesse foi direcionado para um espaço outro (o da filosofia da diferença, com a qual encontrei afinidade) que não é o da história (da dança ou da filosofia), da comunicação e das ciências cognitivas, matérias frequentemente exploradas nos estudos recentes de dança. Por meio de pesquisas, localizei artigos, dissertações e teses utilizando o termo acontecimento para pensar problemas nas áreas de literatura, educação, jornalismo, linguística, cinema, artes visuais, publicidade, arquitetura, filosofia, psicologia, política e história. Naqueles em que a palavra fez mais do que compor o título do texto, quer dizer, em que o conceito foi propriamente discutido, vários foram os entendimentos apresentados, de acordo com o(s) autor(es) escolhido(s). Formulações de Claude Zilberberg, Paul Veyne, Michel Foucault, Jacques Derrida, Louis Quéré, Hannah Arendt, Martin Heidegger, Paul Ricoeur, Marshall Sahlins, Jean Baudrillard, além do próprio Deleuze, foram encontradas. Contudo, até o 22 presente momento, não descobri trabalhos científicos brasileiros nas áreas da dança e do teatro em que o acontecimento deleuziano é elemento de análise. De qualquer modo, guardo a sensação de que ler e pensar um autor como Deleuze nunca será suficiente, assim como a tarefa de falar sobre qualquer obra de dança contemporânea: será algo eternamente inacabado. Questão que apenas confirma para mim a imensa vivacidade das realizações e leituras que me interessam. Por fim, cabe dizer que o diálogo entre dança e teatro é intenso no contexto das artes cênicas catarinenses na atualidade (2011). Dado que não existem cursos de graduação e pós-graduação de dança no estado de Santa Catarina, muitos bailarinos frequentam a graduação, o mestrado e doutorado em teatro no Centro de Artes (CEART) da UDESC5. A presença de importantes profissionais da dança, como os professores doutores Sandra Meyer e Milton de Andrade na instituição, colabora para reforçar os estudos do corpo e composição, contaminando o teatro pela dança e vice-versa. Muitos alunos que ingressaram nos cursos do CEART interessados na formação de atores, acabaram por adentrar o universo profissional da dança como, por exemplo, Volmir Cordeiro, que integrou a Lia Rodrigues Companhia de Dança, e Marcos Klann, no elenco do Grupo Cena 11 Cia. de Dança, dois núcleos estáveis de dança relevantes no Brasil. Vale lembrar que da união entre alunos ou destes com professores surgiram no CEART grupos como Octus Companhia de Atos, Andras Cia de Dança-Teatro e Coletivo Génos Teatro Dança. E constatar ainda, que a diretora e coreógrafa Zilá Muniz determinou rumos promissores ao Ronda Grupo de Dança e Teatro, após ingressar no CEART como professora da graduação em artes cênicas e mestranda em teatro no ano de 2002. Foi a partir de 2006 que o Ronda, grupo criado em 1993, passa a desenvolver pesquisas, montagens e espetáculos com a colaboração de atores e bailarinos. 5 A dança também se faz presente nos outros cursos de graduação voltados ao teatro existentes em Santa Catarina, no entanto, os frutos da relação entre a dança e o teatro nestes âmbitos ainda são tímidos. O curso de Bacharelado em Artes Cênicas (formação nas áreas de dramaturgia, atuação e direção) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi implantado recentemente (2008), e oferece apenas uma disciplina optativa intitulada ―dança‖. Já a grade curricular do curso de Bacharelado em Teatro da Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), inclui cinco disciplinas obrigatórias de dança (técnica de dança I, II, III e IV, e história da dança). Desde 1997, a professora Ivana Vitória Deeke Fuhrmann responde por tais estudos. Em 2011 Fuhrmann recebeu a função de editora da revista on line O Teatro Transcende do Departamento de Artes da FURB, e, a partir de então, a revista inclui artigos da área de dança. Neste contexto, há ainda o Grupo de Dança Alemãs da FURB, criado em 1994. Fontes: <http://www.cenicas.ufsc.br>; <http://www.furb.br>; <http://www.furb.br/oteatrotranscende>. Acesso em: 2 nov. 2011. 23 Fazer da dança um acontecimento é descobri-la como uma transformação atmosférica, um aceno discreto que, aceito, tudo modifica. Nuvem que se dissipa. Estrela cadente. Contraste. Fluxo intenso. Forma infixa que potencializa espaçotempo a ponto de criar seu próprio. Entre-espaços. Entre-tempos. Entre-corpos. Presente do presente. Um saber que se faz com um não-saber que apenas sabe: tudo, já tendo sido iniciado, ainda está por começar. Toda dança contemporânea é curtíssima eternidade. 24 1 O QUE É A DANÇA CONTEMPORÂNEA? As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço em que nunca uma palavra penetrou [...].6 Rainer Maria Rilke Em 1991, Deleuze e Guattari (2010) publicaram um livro para fixar uma pergunta extrema, a qual dá título à sua publicação: ―O que é a filosofia?‖. Para os autores, tratava-se de uma questão fundamental a ser enfrentada de modo concreto: ―o que é isso que fiz toda a minha vida?‖, indagavam. Ao ler esse livro, percebi que não seria vão colocar a mesma sentença em relação à dança contemporânea. Afinal, tal é o ponto central que mobilizou meu projeto de pesquisa e que, do mesmo modo, há tempos, funda minhas atividades profissionais. Por que não ser direta? Resolvi encarar a questão, ciente da complexidade que a envolve e de que entrarei numa zona própria de indeterminações. Um mergulho no caos, numa dança cujo modo de composição conserva profunda atração pelo caos7. Para Deleuze e Guattari, a criação surge sobre um plano que recorta a variabilidade caótica: A arte capta um pedaço de caos numa moldura, para formar um caos composto que se torna sensível, ou do qual retira uma sensação caoide enquanto variedade; [...] a luta com o caos só é o instrumento de uma luta mais profunda contra a opinião, pois é da opinião que vem a desgraça dos homens. (2010, p. 242-243). Não à toa, o primeiro capítulo do livro acima citado abre com a pergunta: ―o que é um conceito?‖ A este respeito, aponto a seguir algumas noções desenvolvidas por Deleuze e Guattari (2010), importantes para empreender esta tese. Em primeiro lugar, a consideração de que todo conceito é uma multiplicidade8, mas nunca tem 6 Rainer Maria Rilke. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre: L&PM Editores, 2006. p. 23. A característica do caos é a velocidade infinita com que as determinações são esboçadas e apagadas. O caos não é uma mistura ao acaso. Muito mais do que a desordem, trata-se da rapidez com a qual toda forma é dissipada, ou seja, se desfaz assim que é desenhada (Peixoto, 2010, p. 214215). 8 A multiplicidade se define pela desterritorialização, a qual faz com que ela mude de natureza ao se conectar à outra. Mais do que uma superabundância, diz respeito a uma manifestação de modos variados e complexos. 7 25 todos os componentes (não é universal). De contorno irregular, todo conceito totaliza seus elementos em um todo que é fragmentário. O conceito é consistente quando seus componentes se tornam inseparáveis nele (distintos, heterogêneos e não separáveis). Conceitos são criados em função de problemas e carregam pedaços vindos de outros problemas, assumindo novos contornos. Os componentes do conceito também podem ser considerados conceitos. Todo conceito remete a outros conceitos, em sua história, em seu devir ou em suas conexões atuais. O conceito é absoluto e relativo. As relações no conceito são de ordenação e seus componentes são variações, processuais e modulares. O conceito é um incorporal e autorreferencial, é conhecimento de si, é condição que possibilita um acontecimento. Deleuze e Guattari (2010) determinam três grandes formas de pensamento: a arte, a ciência e a filosofia. Segundo os autores, a filosofia procura salvar o infinito, dando-lhe consistência e, para tanto, pensa por conceitos; a ciência renuncia ao infinito para ganhar a referência, pensa por funções; e a arte deseja criar um finito que restitua o infinito e pensa por sensações. Tais pensamentos podem se cruzar, o que nos ajuda a entender porque, frequentemente, a dança contemporânea é reconhecida como ―conceitual‖. Mais do que mera tentativa da dança de se aproximar da filosofia, trata-se de um fazer que repensa a si mesmo, que opera por conceitos e lança ideias próprias. Tal modo de criação se faz conhecimento e intervém na concretude do mundo. Se a dança é uma maneira de pensamento e cada artista pensa por si, formula e responde as suas próprias questões, encontra meios exclusivos para resolver problemas, resta-nos investigar os procedimentos criativos destes pensadores, normalmente designados como coreógrafos ou diretores artísticos. Descobrir, ainda, o modo de funcionamento de seus pensamentos, sua lógica. Esta tese fala de uma dança cujo pensar é contemporâneo e, para tanto, tenta alcançar um ―pensamento-acontecimento‖, um ―pensamento-problema‖ (ao invés de um ―pensamento-essência ou teorema‖), um ―pensamento-nômade‖, um ―contrapensamento‖ (Machado, 2010, p. 26). Debruça-se sobre as forças que destrõem as cópias e os modelos, pois obras-pensamentos dizem respeito à potência. 26 A resposta à pergunta ―o que é a dança contemporânea?‖ é tecida ao longo deste estudo por meio de falas que costuram exemplos, e não dada em uma única página, frase ou parágrafo condensado. Ao considerar a dança contemporânea como acontecimento, estamos diante de composições que operam por variações, de métodos criativos autorais e muito diferentes entre si. E ainda, defronte a pesquisas que buscam o como desencadear sensações ou como revelar na matéria aquilo que desaparece no mesmo instante que se revela. Ao afirmar este modo especial de pensar e fazer dança, quer dizer, o devir, faz-se uma contraposição a procedimentos de reprodução e à constituição de modelos similares e constantes neste campo. Na formulação de Deleuze (1992), o devir é sempre minoritário, é exatamente uma maneira de criticar o dominante, de pensar a diferença sem subordiná-la à identidade. Se supomos que em toda técnica de dança há uma forma de expressão imperativa, o contemporâneo é aquele que opera uma traição e se desterritorializa em relação ao modelo, no momento em que elabora sua própria fuga. É, também, aquele que dá um tratamento intensivo à dança para criar seu próprio modo de ser, inacabado por excelência. Para exemplificar, reproduzo uma fala do diretor e coreógrafo do Grupo Cena 11 Cia. de Dança, Alejandro Ahmed, onde se identifica uma necessidade permanente de perseguir e descobrir a diferença: [...] eu procuro um corpo que não tenha medo de perder os parâmetros que o definem, não tenha parâmetros de definição como se fossem tesouros, entendeu? Que não tenha parâmetros como se fossem bens materiais, como se fosse ter um apartamento, um dinheiro, uma joia, um carro, sabe? Nem corpo nem movimento... Não pode considerar que a dança dele é uma conquista econômica, uma conquista estética. Tem que ter outro lugar, não sei exatamente qual, mas ele tem que... ele é mais desapegado a isso, e a gente mesmo tem que começar a alargar um pouco esse lugar, que é difícil né? Tu conquistas um lugar: ‗ah, esse é o corpo do Grupo Corpo‘, ‗esse é o corpo do Cena 11‘, ‗esse é o corpo...‘ Só que eu quero que esse corpo seja um modo de pensar corpo, que não seja uma foto que o outro me propõe para que eu de alguma forma anime essa foto e ele entenda que esse sou eu. Eu não posso ser o que o outro quer que eu seja. (Ahmed, 2012). Ahmed não se deixa levar pela sedução do reconhecimento comercial, recusa caminhos e vínculos criativos óbvios e convenientes ao sucesso fácil no mercado, bem como, refuta o propósito de permanecer num posto seguro e confortável. A seu ver, tais posturas o distanciam da conquista de algo novo: 27 [...] todo sistema que a gente está inserido, ele te direciona para o oposto, ele te direciona para estabilizar, para encontrar raízes de segurança e proliferar produto. Vender, ficar rico, se aposentar. A vida é isso. Quem não faz isso já é estranho ou marginal ou no mínimo relapso, não se preocupa com a real necessidade de viver bem, de ganhar solidez, de ter as coisas que a gente precisa ter para ser um ser humano bacana, [...], ter saúde, ter roupa bonita. A sociedade de alguma forma e tu mesmo, te força a entrar nesse lugar da segurança, porque é vendido segurança em vários aspectos, desde segurança em termos de botar o muro na tua casa e as câmeras, [...] até tua segurança emocional, tua segurança de relacionamento, tua segurança de vida, que vai ser vendida, vai ser dada, vai ser discutida em vários aspectos. E se você cai nesse lugar, essa segurança te leva a não testar nada novo, quanto mais velho tu vais ficando, menos tu vais querer testar, mais tu vais ter certeza daquilo que tu já testou. E já está certo que eu não preciso pisar em outro lugar porque eu já descobri o meu lugar, já vendo bem isso... Posso dar curso de quedas, por exemplo9. (Ahmed, 2012). A exposição de Ahmed colabora com a compreensão de que o contemporâneo designa um modo de dançar que nunca se encontra em seu próprio lugar, que deseja fugir à semelhança de si mesmo e se afastar de uma possível identidade fixa. É, pois, sempre uma pergunta que se desloca com a própria dança: o que é isto? Trata-se de uma instância paradoxal que apenas segue reformulando a si mesma. Dado que é assim, costumeiramente causa algum estranhamento por parte do público. Ao comentar a montagem do novo espetáculo - Cartas de amor ao inimigo (estreia prevista para agosto de 2012), Ahmed se mostra ciente do quão radicais são suas propostas de dança. O coreógrafo revela também estar consciente de que esta criação do Cena 11 irá gerar algum incômodo e até descontentamento na plateia, mas, ao mesmo tempo, declara a impossibilidade de voltar atrás, fazer o que já foi feito. Para Ahmed, seria como enganar a si mesmo: [...] o nível que a gente está tentando é desagradável em alguns momentos porque, eu sinto... Tu achas que eu não sinto vontade de fazer uma coreografia bonita? No sentido de [começa a dançar] ―5,6,7,8, puxa aqui, virou‖. Eu não consigo mais, Ju. E cada vez mais, sabe o que eu faço com isso? Eu me desabilito a fazer. Então é como se você pudesse fazer uma coisa que agradasse o outro, só que isso não é mais a tua verdade. Agradar o outro com aquilo que de alguma forma ele quer. E aí você fica triste porque não pode agradar o outro, o outro fica triste porque não se agrada com aquilo que tu tens, mas tu tentas deixar ele alegre tentando ser o mais honesto possível com aquilo que tu acreditas agora, e isso é desagradável, é muito solitário. [...] As pessoas têm pressa de 9 O Cena 11 ficou marcado como um grupo que executa quedas radicais dos corpos, os quais se lançam ao chão com violência em alguns de seus espetáculos. Não são poucos os dançarinos interessados em aprender a realizar tais quedas. Nota da autora. 28 receber aquilo que elas estão acostumadas a receber, então elas têm muita pressa. As vezes é chato mesmo você ter que assistir uma coisa que leva um tempo pro teu corpo se permitir ver um outro lugar. Eu sei que é chato, mas eu não quero ser chato, mas ao mesmo tempo eu não posso fugir as vezes disso para não ser chato, corromper o caminho que eu investigo e que eu vejo que é aquilo que eu sei que pode acontecer. Se eu estou te falando uma coisa não é para te convencer, mas é para ti disponibilizar um labirinto do qual eu já passei, eu já sei qual é o outro lado e como se sai dali, entendeu? Então eu digo: ‗tenta entrar nesse labirinto, pode ser bacana, eu já andei ali, vamos tentar ver o que tem ali, essa parede, essa outra, vamos compartilhar esse lugar‘. (Ahmed, 2012). Modificar-se. Sair de um posto contemplativo enquanto espectador dá mesmo uma ―certa preguiça‖, constata a bailarina e coreógrafa Micheline Torres. Para ela, a dança contemporânea tem como característica a proposição de um outro lugar para o público, uma relação de outra ordem com a criação. Talvez, diz a artista, ―o que você está vendo te faz uma pergunta, te joga uma coisa e você vai deglutir aquilo ou você vai, a princípio, falar: ‗não quero‘, ‗não me interessa‘, ‗não gosto‘, ‗não me dá prazer‘ ou ‗não me faz refletir‘. Então, acho que a dança contemporânea propõe uma troca de lugares‖ (Torres, 2012). No senso comum, artistas contemporâneos são frequentemente considerados malucos. Se doido designa um cara fora do habitual e extraordinário, não há erro em tal qualificação. E podemos ainda, com Deleuze, pensar o artista como [...] um pensador que viu e ouviu algo grande demais, forte demais, intolerável demais, algo irrespirável que o esgotou, que colocou nele a marca da morte, mas também o faz viver através das doenças do vivido, tornando-o diferente. Escrever (ou dançar) é uma tentativa de libertar a vida daquilo que a aprisiona, é procurar uma saída, encontrar novas possibilidades, novas potências da vida. Pois, em continuidade com sua concepção do exercício do pensamento, ou do que significa pensar, a criação artística é, para ele, o ato de tornar visível o invisível, tornar audível o inaudível, tornar dizível o indizível – ou, para formular essa ideia em toda sua abrangência, tornar pensável o impensável. (Machado, 2010, 220-221, parênteses da autora). Ao propormos a dança contemporânea como acontecimento, estamos diante de algo que nunca se estabiliza como identidade no presente, porque está sempre deixando de ser o que era sem ainda ter se tornado aquilo de que se aproxima. 29 1.1 Acontecimento Contra-efetuando cada acontecimento, o ator dançarino extrai o acontecimento puro que comunica com todos os outros e se volta sobre si mesmo através de todos os outros, com todos os outros. Ele faz da disjunção uma síntese que afirma o disjunto como tal e faz ressoar cada série na outra, cada uma voltando em si pois que a outra volta nela e voltando para fora de si quando a outra volta em si: explorar todas as distâncias, mas sobre uma mesma linha e correr muito depressa para ficar no mesmo lugar10. Gilles Deleuze Para explicar o que significa pensar a dança contemporânea como acontecimento, é necessário uma aproximação à filosofia antiga11, especialmente a formulação estóica12 acerca dos incorporais. Falar de ―incorporal‖ não é tratar de uma ―essência‖, pois a teoria dos incorporais é majoritariamente física e diz respeito a elementos concretos. Para os estóicos tudo é corpo, ou seja, tudo o que produz um efeito é corpo. Há um vínculo paradoxal entre corpos e incorporais, pois o incorpóreo é aquilo que é capaz de conter corpos ou de não contê-los. Os incorporais são quatro, nomeadamente designados como tempo, lugar, vazio e exprimível (Laêrtios, 2008, p. 194-213). Os estóicos chamam vazio um espaço que não contém corpo algum, mas que é capaz de contê-lo. Exemplo: o vazio infinito que rodeia o universo e contém o mundo, corpo finito. Nesta passagem, o incorporal torna-se também um lugar. Os lugares são efêmeros, pois surgem e se dissolvem, segundo as determinações dos corpos que eles enquadram. Assim, o incorporal é chamado ‗vazio‘ quando nenhum corpo o ocupa, e ‗lugar‘ quando é ocupado por algum corpo, ou seja, é impossível pensá-los separadamente. Na teoria estóica, o tempo está suspenso em sua própria realização: invisível e intangível, ele só é corpo no momento presente. Antes e depois do presente (no passado e futuro) ele não é. Como incorporal está apto a 10 Gilles Deleuze. Lógica do sentido. 5.ed. São Paulo: Perspectiva, 2009a, p. 184. Ver: Pierre Hadot. O que é a filosofia antiga? 2.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. 12 Zênon ou Zenão de Citium é considerado o fundador da escola estóica no fim do século IV a.C. em Atenas, Grécia. O estoicismo divide a filosofia em física, ética e lógica, três partes não-separadas, mas estreitamente unidas entre si (Hadot, 2004; Laêrtios, 2008). 11 30 acolher corpos, e este é o momento em que toma corpo. Esta constituição do presente é certamente ambígua, mas não abole o desenrolar do tempo. Sua disposição em uma ―sucessão simultânea‖, concebe de uma só vez o presente e a sua desaparição. Há uma espécie de intervalo, pausa ou suspensão do movimento do tempo, que é de natureza ilusória, pois só é uma parada em seu contínuo desenrolar-se. Por fim, o exprimível é aquilo que pode ser dito, o ‗linguajável‘. Ele é incorporal porque, assim como o vazio em torno do mundo, ele envolve um corpo finito, determinado, limitado, ao qual ele opõe sua ilimitabilidade e natureza indefinida. Também só é possível pensar esse incorporal a partir do corpo que ele envolve, pois entre um termo significante (um corpo) e o objeto designado pela palavra (também um corpo), há uma ponte que os liga: o sentido ou o incorporal como lugar do exprimível. O sentido como resultado de uma elaboração do pensamento provém de um trabalho invisível, intangível. Costurado por lembranças, costumes, classificações e ordenações, o sentido advém à palavra por um caminho do pensamento, caminho que é passagem e incorporal. Tempo, lugar e exprimível emergem contra um fundo de vazio que os contamina, têm sua existência minada pela incorporeidade do vazio à qual eles pertencem (Cauquelin, 2008). Após esta brevíssima exposição, cabe dizer que para acompanhar a teoria estóica dos incorporais, é preciso renunciar à lógica ordinária que contempla princípios como a separação entre espírito e matéria, visível e invisível, e a equivalência entre invisibilidade e imaterialidade. Pois, ―o que une os corpos entre si é da ordem da física, mesmo que não se possa vê-lo‖ (Cauquelin, 2008, p. 147). Ao pensarmos na dança, imaginamos primeiramente um corpo. O que é corpo na dança? O bailarino. Sua prática e seus exercícios. A inteligência com a qual técnica e criação se solidificam. A obra, que é material. Todo tipo de elementos e suportes, como figurino, luz, som, cenário. Ou seja, chama-se corpo na dança tudo aquilo que podemos relacionar ao criador. Mas, ao mesmo tempo, ao manifestar uma exigência própria de imaterialidade, a dança convoca o incorporal, elemento igualmente importante na atividade do artista e na percepção que o público tem de sua obra. Para dizer em outros termos: reconhecemos que a linguagem da dança é feita de movimentos de um corpo, de uma articulação de gestos que formam frases coreográficas, da disposição de diversos elementos de cena e arranjos compositivos. Com os estóicos, podemos dizer que estamos diante de seus 31 corporais - corpos definidos e limitados. Em outra parte, esta linguagem escapa às definições e às limitações. Da mesma forma que o mundo se cerca do vazio, a fala é rodeada de um espaço de silêncio que permite ao sentido existir. Trata-se de um espaço sem coerção determinada, não evidente, invisível e intangível, mas cuja presença é simultânea ao discurso manifesto. Pois o vazio está presente com e ao mesmo tempo que toda enunciação, porque é a condição mesma dessa enunciação. Ou seja, a condição está compreendida naquilo que ela condiciona: se o vazio é condição da linguagem, quando um dizer em forma de dança se apresenta e entra no jogo das significações, um ‗não-sentido‘ permanece presente como condição de seu sentido. A linguagem da dança é também feita de um incorporal - o exprimível, que possibilita a ocorrência de um sentido e é capaz de gerar seu acontecimento. Cauquelin (2008) examina de que maneira as obras contemporâneas - de modo específico nas artes visuais e digitais - se apoderam dos incorporais, e como deles se utilizam. A partir de suas considerações, formulam-se as interrogações que seguem. Em que medida uma composição de dança é incorporal? Como ela solicita o não-visto, o não-dito, o não-ouvido? Como, por meio dela, a incompletude, a imprecisão e o implícito nos alcança? Que espaço a dança concede para a emergência de sentidos? Como um espetáculo de dança pode alcançar a intemporalidade do tempo, tornar-se corpo que constrói uma temporalidade fugidia o instante, para desfazer-se imediatamente? O que pode permitir que a dança acolha tempos heterogêneos sucessiva e simultaneamente? Que a mesma desoriente o tempo (não diferencie antes nem depois, seja tempo ilimitado)? Como uma dança pode construir o tempo fazendo-se sempre num presente que condensa uma multiplicidade? Como assinalar ao exprimível um espaço de possibilidades e divergências, aumentar a extensão para produção de sentido? Como fazer uma dança ser algo a mais do que é dançado? Não seria a dança contemporânea um espaço de manifestação dos incorporais – vazio, tempo, lugar e exprimível? Certamente, todas estas questões impulsionam o desenrolar desta tese. A interpretação deleuziana dos estóicos privilegia a conceituação de corpo e incorpóreo, e uma análise de termos equivalentes, como: forma de conteúdo e forma de expressão; ser e extra-ser; atributo físico e atributo lógico-dialético; causa e efeito; substantivo e adjetivo-verbo; coisa e estado de coisa-acontecimento. Deleuze analisa como o incorpóreo, o acontecimento, o sentido, é submetido a uma ―dupla 32 causalidade‖ que remete aos corpos (suas causas) e a outros incorpóreos (suas quase causas) (Machado, 2010, p. 302-303). Dança como acontecimento. Acontecimentos de dança. A definição de acontecimento apresenta diversos sentidos e variadas concepções, principalmente no campo filosófico e semiótico. Nesta tese, o acontecimento não se restringe a um fato, seja comum ou excepcional, mas é um modo diferente de ser: um ―incorporal‖, denominaram os estóicos. A teoria do acontecimento proposta (e certamente em vias abertas para exploração) por Deleuze (2009), denomina esse incorporal como ―quase-ser‖ e ―extra-ser‖: uma maneira especial de ser, que insiste e subsiste nas coisas. Nesta instância, o acontecimento não é algo (não é o corpo, não é o figurino, não é o objeto), mas acontece a algo, acontece neste algo. O acontecimento está em suas relações. Tal noção também é sublinhada por Foucault em aula inaugural no Collège de France no ano de 1970, quando analisa o estatuto do discurso na sociedade e suas formas de poder e repressão. Se os discursos devem ser tratados, antes, como conjuntos de acontecimentos discursivos, que estatuto convém dar a esta noção de acontecimento que foi tão raramente levada em consideração pelos filósofos? Certamente o acontecimento não é nem substância nem acidente, nem qualidade nem processo; o acontecimento não é da ordem dos corpos. Entretanto, ele não é imaterial; é sempre no âmbito da materialidade que ele se efetiva, que é efeito; ele possui seu lugar e consiste na relação, coexistência, dispersão, recorte, acumulação, seleção de elementos materiais; não é o ato nem a propriedade de um corpo; produz-se como efeito de e em uma dispersão material. Digamos que a filosofia do acontecimento deveria avançar na direção paradoxal, à primeira vista, de um materialismo do incorporal. (1996, p. 57-58). Nesta fala, Foucault exalta a condição ambígua do acontecimento: se o acontecimento é incorporal, como falar de um ―materialismo do incorporal‖? Ora, dizer que o acontecimento é um incorporal não contradiz a afirmação de que ele possui seu momento e sua expressão (por meio de, no entre). Ele se faz passagem entre os corpos que acompanha e, ainda que não evidente, sua presença é simultânea ao discurso manifesto. Os estóicos concebem o incorporal como condição de existência para um corpo qualquer13 e assim, ao considerar a dança 13 Exemplo: No dicionário Michaelis da língua portuguesa, numa concepção física, a palavra espaço é conceituada como ―Extensão tridimensional ilimitada ou infinitamente grande, que contém todos os seres e coisas e é campo de todos os eventos‖. Na teoria estóica, o espaço (incorporal) não é um 33 como acontecimento não se exclui seus corpos possíveis, mas se exalta relações de coexistência e interdependência entre seus elementos. Neste sentido, o acontecimento possibilita a realização de uma dança que sendo si mesma, é sempre diferente do que ela é. Uma única palavra – dança, pode indicar uma categoria objetiva e literal de designação e, ao mesmo tempo, pode remeter aos acontecimentos, aos sentidos expressos, a diferença que ocorre num dançar. Deleuze diz que ―‗crescer‘, ‗diminuir‘, ‗avermelhar‘, ‗verdejar‘, ‗cortar‘, ‗ser cortado´ etc. é de uma outra natureza: [...] acontecimentos incorporais na superfície, que resultam‖ de misturas (2009, p. 7). Assim, na sentença um corpo cresce, temos a união entre um corporal e incorporal. O crescer é tomado por Deleuze como acontecimento, pois um corpo que cresce é maior do que era e, simultaneamente, menor do que será. Tal é o paradoxo do acontecimento (devir, identidade infinita). Torna-se claro, então, que tomar a dança contemporânea como acontecimento não corresponde a negar seus corpos (bailarino, iluminação, figurino, movimento, etc.), mas afirmar um modo especial e distinto de dançar. Buscar uma dança como diferença ao invés de considerá-la como identidade fixa e meio de reprodução. Em termos deleuzianos, o acontecimento tem complexa constituição. A dança como acontecimento é um expresso, é um enunciado, um atributo lógico ou dialético, que manifesta efeitos sonoros, óticos, efeitos sobre a vida e a ação, entre outros possíveis. Aqui, interessa buscar a compreensão do acontecimento na dança, em um pensamento-ação que se materializa como dança. Quando a dança compõese de acontecimentos? O acontecimento na dança existe quando a mesma opera uma mudança, constitui um paradoxo (afirma dois sentidos ao mesmo tempo), uma fronteira, liga-se a multiplicidade, simultaneidade, conserva uma potência própria de prolongamento e variação, ultrapassa qualquer oposição e dualidade, encarna a variedade na singularidade. Sendo assim, nem toda a dança é acontecimento. A dança que denomino contemporânea (conforme a conceituação que se desenha nesta tese), é uma categoria (enquanto noção que serve para indagar a realidade) de coisas muito especial – a do acontecimento. sistema de posições independentes, mas só existe na relação com o corpo (seres, coisas e eventos no conceito citado). Assim, o espaço é condição que permite ao corpo existir. 34 Como podemos definir o que conhecemos por uma dança contemporânea? Um corpo ou vários corpos em movimento num espaço cênico, num palco ou na rua? Corpo(s) que executam passos e gestos harmoniosos, não-banais, virtuosos, arriscados, enfim, diferentes dos habituais em um certo ritmo ou ao som de uma música? Um corpo com figurino - vestido ou nu, iluminado ou não por refletores? Uma movimentação de objetos, uma coreografia de corpos e coisas em cenários inusitados? Uma proposta comunicativa de ideias materializadas sob a forma de movimentos frente a um público? Um conjunto de ações e agitações nãoconvencionais? Um sistema de signos corporais e audiovisuais? Como? O que é este campo complexo? Bastaria explicar seu passado, sua evolução no tempo cronológico, realizar comparações entre obras para saber? A meu ver, seja qual for a descrição proposta nestes moldes, independentemente do nível de seu detalhamento, sempre soará como simplista, redutora e insatisfatória para designar tal território. Tratar da dança como acontecimento é exaltar a diferença e aceitar a condição fugidia que se impõe nesta forma de arte: é devir, ou seja, escapa de uma forma dominante. O devir é pensado em contraposição à imitação, à reprodução, à identificação, à semelhança (Machado, 2010, p.213), e isto é perceptível nas danças aqui consideradas contemporâneas. Uma dança contemporânea efetua o acontecimento ao duplicar sua efetuação física com uma outra realização singular, a qual dá corpo ao impensável. Ao afirmar a dança contemporânea como devir, enfatizo também sua singular relação com o presente. Deleuze afirma: ―Em todo acontecimento existe realmente o momento presente‖, ou seja, não existe acontecimento fora de uma efetuação no espaço e no tempo. Contudo, o presente se desdobra em passado-futuro: é ―metaestável‖ (Pelbart, 2007, p.56), é ―instante móvel‖ (Deleuze, 2009, p.154). Via estóicos, Deleuze oferece uma outra noção de tempo14: ―Aion‖ ou ―entre-tempo‖ nomeia a temporalidade-paradoxal do acontecimento. Explica: Segundo Aion, somente o passado e o futuro insistem ou subsistem no tempo. Em lugar de um presente que absorve o passado e o futuro, um futuro e um passado que dividem a cada instante o 14 A problematização do tempo em Deleuze é objeto da tese de doutoramento de Peter Pál Pelbart, publicada em 2007 sob o título ―O tempo não-reconciliado‖ (Editora Perspectiva). Distante de uma concepção hegemônica e histórica acerca do tempo, o livro acompanha Deleuze em sua visão singular acerca da temporalidade. 35 presente, que o subdividem ao infinito em passado e futuro, nos dois sentidos ao mesmo tempo. (2009a, p. 169). Ao problematizar o Aion como tempo do acontecimento, Deleuze utiliza a figura do ator: [...] o presente do ator é o mais estreito, o mais cerrado, o mais instantâneo, o mais pontual, ponto sobre uma linha reta que não cessa de dividir a linha e de se dividir a si mesmo em passado-futuro. O ator é do Aion: no lugar do mais profundo, do mais pleno presente, presente que se espalha e que compreende o futuro e o passado, eis que surge um passado-futuro ilimitado que se reflete em um presente vazio não tendo mais espessura que o espelho. [...] É neste sentido que há um paradoxo do comediante: ele permanece no instante, para desempenhar alguma coisa que não pára de se adiantar e de se atrasar, de esperar e de relembrar. (2009, p. 153). Assim, o tempo de efetuação do acontecimento não é o tempo cronológico (excessivamente humano, linear, homogêneo, cumulativo e pacificado, para Deleuze), pois o acontecimento requer e produz seu próprio tempo. Pelbart adverte que não se trata de um instante contraposto à permanência, de uma curta duração em oposição à longa, nem do efêmero frente ao eterno. Que o ―Aion‖ é um tempo flutuante, o qual só conhece velocidades e afetos, é o tempo das multiplicidades, o tempo ―do meio‖, pois é no meio que os tempos mais diferentes se cruzam, num turbilhão (Pelbart, 2007, p. 112-113). Zourabichvili explica que o acontecimento se dá no irreversível e no iminente, no ―estranho local de um ainda-aqui-e-já-passado, ainda-por-vir-e-já-presente‖ (2004, p. 8). Se chamamos acontecimento a uma mudança na ordem do sentido [...], convém concluir que o acontecimento não tem lugar no tempo, uma vez que afeta as condições mesmas de uma cronologia. Ao contrário, ele marca uma cesura, um corte, de modo que o tempo se interrompe para retomar sobre um outro plano (daí a expressão ―entre-tempo‖). Ao elaborar a categoria de acontecimento, Deleuze expõe então o laço primordial do tempo e do sentido, ou seja, que uma cronologia em geral só é pensável em função de um horizonte de sentido comum as suas partes. Assim, a noção de um tempo objetivo, exterior ao vivido e indiferente à sua variedade não passa da generalização desse laço: ela tem como correlato o ―senso comum‖, a possibilidade de exibir a série infinita das coisas ou dos vividos num mesmo plano de representação. O acontecimento, como ―entre-tempo‖, por si próprio não passa, tanto porque é puro instante, ponto de cisão ou de disjunção de um antes e um depois, como porque a experiência a ele correspondente é o paradoxo de uma ―espera infinita que já é infinitamente passada, espera e reserva‖. (Zourabichvili, 2004, p. 10-11). 36 Com o acontecimento Deleuze invoca uma temporalidade plástica, transhistórica. Convoca uma antimemória, uma relação, um contágio e uma propagação, o direito ao intempestivo e a diferença. Trata-se de velocidades que não se submetem a uma evolução orientada, mas de novas relações de movimento e repouso com potências correspondentes. Mesmo a imobilidade pode dar a ver tais velocidades: Para ficar num exemplo estético retomado nos livros em torno do cinema, Deleuze menciona os planos fixos em que a imobilidade revela as velocidades diferenciais aparecendo em si mesmas, por si mesmas. Godard, por exemplo, em que as formas se dissolvem para deixarem aparecer as variações minúsculas de velocidade entre os movimentos compostos. Ou a dança de Fred Astaire ou dos negros, que ―escutam e executam todas as notas, todos os tempos, todos os tons, todas as alturas, todas as intensidades, todos os intervalos‖. O plano fixo pode ser, pois, visual (como no caso da imagem-tempo no cinema), sonoro (Boulez, Cage), escritural (Hölderlin, Kleist, Nietzsche) etc. Em todos eles, libera-se uma matéria não formada, impalpável, com movimentos variáveis, velocidades extremas, lentidões beirando a catatonia, desfalecimentos bruscos, afectos em deslocamento, sem relação com uma Forma ou um Sujeito, nem com um Caráter central em evolução direcionada. Trata-se antes de um plano de transmutação e de variação de velocidades. (Pelbart, 2007, p. 111-112). O contemporâneo prevalece no acontecimento: um momento que é processo intempestivo para renovar a imagem do pensamento. O acontecimento deleuziano oferece um novo modo de pensar e falar da dança, afastado de qualquer determinismo e descrição purista, em que o sentido se dá como diferença e nos força sempre a re-começar. Trata-se de um instante produtivo, determinado a partir da afirmação simultânea de um presente, passado e futuro (o instante não opera uma divisão, mas uma totalização). O modo de pensamento de uma dança contemporânea é o intempestivo, impelido a atravessar o limite, afirmar o múltiplo e o acaso, encontrar a exaustão e o esgotamento, engendrar variações, pensar a força do tempo, o impensado. Nestes termos, o pensamento criativo é inseparável da definição de tempo que o preenche: um movimento infinito. Pelbart esclarece que ―o que está em jogo na teorização do tempo deleuziana, apesar de suas inúmeras obscuridades‖, é a atividade de ―pensar um tempo consentâneo à invenção‖. Para o autor, Deleuze explorou variadas imagens de tempo, como ―se elas expressassem não só a variação do tempo, mas do próprio pensamento‖ (2007, p. 189). 37 Interessa lembrar que descontentes com o caráter da ciência, Deleuze e Guattari (1997a) propõem reflexões epistemológicas no volume 5 de Mil Platôs, diferenciando dois tipos de ciências: a ―maior‖ (dedicada a uma ―teoria dos sólidos‖) e a ―menor‖ (que dispõe de uma ―teoria dos fluidos‖ e solicita procedimentos científicos renovados), cada qual com um modelo metodológico próprio, com noções de tempo e espaço específicas. Trato a seguir apenas das características da ciência ―menor‖, pois ajuda a entender diretamente o que importa: o acontecimento. A ciência menor é definida como um modelo de devir e de heterogeneidade (suas referências) em oposição ao estável, ao eterno, ao idêntico, ao constante. É paradoxal, pois não mais se constitui segundo uma cópia. Assim, a ciência menor refere-se aos estados intensivos e incorporais da matéria, aos afetos de uma corporeidade - processos em variação contínua. A temporalidade deixa de ser cronológica para se fixar no acontecimento, o qual arrasta um espaço aberto e se mistura aos fluxos que o atravessam. Segundo os autores, tal modelo ―é problemático, e não mais teoremático: as figuras só são consideradas em função das afecções que lhes acontecem‖. Completam: ―Enquanto o teorema é da ordem das razões, o problema é afectivo e inseparável das metamorfoses, gerações e criações na própria ciência‖. A ciência menor ou nômade não seria então uma ―simples técnica ou prática, mas um campo científico no qual o problema dessas relações se coloca e se resolve de modo inteiramente diferente‖, buscando captar ou determinar singularidades da matéria ao invés de constituir uma forma geral. A ciência menor tem, assim, o acontecimento como objeto (Deleuze e Guattari, 1997a, p. 19-27). Parto da constatação de que a dança segue o paradoxo da ―ciência menor‖, ao se definir em um emaranhado de entres, um composto de relações. O que ocorre no entre? Entre palco e plateia? Entre tempos? Entre espaços? Entre corpos? Entre o dentro e o fora? Entre o começo e o fim? Entre os elementos cênicos? Entre o privado e o público? Entre o coletivo e o individual? Entre o natural e o cultural? Entre as partes de um corpo? Entre a realidade e a ficção? Entre isto ou aquilo? Pensar nos ―entres‖, refletir sobre algo expresso no entre, é buscar o acontecimento na dança. Só podemos persegui-lo, pois o entre é um movimento, sempre inalcançável e pronto a escapar. Tal é o modo de ser de um devir. Levando em conta que corporeidade e teatralidade são processos, por que não abordá-los pela 38 ótica do acontecimento? Por que não arriscar uma busca pelo que acontece nos ―entres‖? Podemos fazer, ver, viver dança. É uma experiência concreta. Não podemos, no entanto, criar uma equivalência entre a dança e a linguagem verbal. Qualquer fala sobre dança é insuficiente para reproduzi-la. Por isso, designar a dança como acontecimento é reconhecer, de antemão, a singularidade de sua experiência. Cabe enfatizar que a noção de acontecimento neste estudo é elaborada a partir de experiências da dança, por isso, fala de criações performáticas e espetaculares assinadas por artistas determinados. Ou seja, não cita criadores quaisquer, mas alguns escolhidos que, dentre outros, exemplificam a composição da dança como acontecimento. São contemporâneos: impõem o avesso e o direito, o móvel e o imóvel, a suspensão e a queda, o lento e o veloz, a fala e o silêncio, o ambíguo, enfim, operações que desorientam nossa percepção. Experiência também é palavra importante. E, novamente, sua definição não apresenta unanimidade de compreensão. O termo contém uma multiplicidade de entendimentos, os quais variam de acordo com épocas, contextos e campos de estudo. Neste escrito, a experiência é entendida como um espaço e tempo compartilhados numa mesma zona de afetação, em que algo acontece a alguém, modificando-o. Sendo assim, a atitude de comprometimento, abertura e disponibilidade é requisito indispensável para a constituição da experiência. No que se refere as danças aqui estudadas, para bailarinos e espectadores, a experiência pode ser entendida como o vivido no tempo-espaço de ocorrência do acontecimento, na zona de mistura e produção de afetos. A escolha pela lógica do acontecimento e da experiência não é simples. Mas, na história de minhas pesquisas, é um caminho pertinente – ainda que arriscado para uma aproximação com a produção da diferença. O acontecimento na dança nunca será o mesmo para todos, nem sua experiência. Quando o corpo abraça outro corpo, quando a luz ilumina um corpo, quando um corpo escuta uma música e se movimenta, quando um figurino veste um corpo, quando o pé bate no chão, há mistura de corpos; mas quando tais ações se tornam enunciados, como por exemplo, ―o corpo abraça‖, ―a luz ilumina‖, exprimem transformações incorpóreas de outra natureza, a qual os estóicos denominaram acontecimentos. Eles são o 39 expresso (somente ditos) dos enunciados, atribuídos aos corpos. Foi com esta hipótese que os estóicos inauguraram uma filosofia da linguagem (Deleuze e Guattari, 1995, p. 21). Esta não trata de descrição nem de representação, pois ao expressar o atributo não-corpóreo e, de modo simultâneo, atribuí-lo ao corpo, realiza-se uma intervenção que é ato de linguagem. A dança como acontecimento remete ao encontro e entrelaçamento dos corpos, em relações lógicas que não dizem respeito a operações intelectuais previsíveis por modelos de dança já postos, mas são processos fundamentalmente de ordem sensorial e afetiva. A utilização do conceito de acontecimento neste estudo visa complexificar a análise da dança, buscando compreender a coexistência de forças e sentidos em cada criação analisada, olhar para cada composição de multiplicidades rizomáticas (as quais diferem das multiplicidades-métricas, inclinadas a classificar os corpos segundo semelhanças – gênero, espécie, estado, etc.). Pensa-se aqui, a dança contemporânea como composto de multiplicidades não-métricas, as quais tendem a desfazer suas próprias formas e reunir as diferenças dos corpos num único elemento comum: o acontecimento. Para dar conta de explicar as transmutações que tornam um corpo uma matéria fluida e conhecer segundo a teoria de acontecimento, é necessário considerar não somente uma realidade espaçotemporal mas a virtualidade de uma matéria. Sua potência. Seus ―possíveis‖. Devese considerar que o possível não preexiste, mas é criado pelo acontecimento que, por sua vez, inventa uma nova existência e produz uma nova subjetividade (outras relações com o corpo, o tempo, a sexualidade, o meio, o trabalho, etc.) (Zourabichvili, 2000, p. 343). A ideia de criação de um ―possível‖ ou da dança como um movimento de ―possíveis‖ é a de compor com o acaso e o aleatório, desordenar a ordem do que já está colocado, romper com causalidades, desviar-se das leis, fazer-se contemporânea. A criação da dança como acontecimento faz emergir algo inédito e, por vezes, intolerável. Neste sentido, a tarefa que se mostra para mim, enquanto profissional e público de dança, é a de buscar responder ao acontecimento, ser responsável diante do acontecimento, efetuar o possível, ou seja, afirmar e permitir que a nova sensibilidade se afirme. Nesta via, a contemporaneidade é, antes de tudo, uma abertura a um novo campo de possíveis, um desejo objetivo de enlaçar a vida a uma potência produtora, criar outras possibilidades de vida (distribuições 40 diferenciais dos afetos), tornar realizável o que ainda não é: a diferença. Como não temos o possível previamente, quer dizer, antes de tê-lo criado, há de se convocar a aptidão para afetar e ser afetado. O possível remete à potência, a novas condições de percepções, a eclosão de uma nova sensibilidade, a chegada do acontecimento. Sob os modos de existência concretos, percebemos as potencialidades de vida que nos são oferecidas também como possibilidades afetivas: essas próprias possibilidades de vida são as maneiras pelas quais as potencialidades são distribuídas e condensadas, em uma época, em um campo social dado. Uma situação exprime, então, um conjunto aberto de potencialidades que nelas são dispostas, distribuídas, combinadas, condensadas (conjunto remanejável das possibilidades de vida). Quando apreendemos a situação como puro possível ou em sua potencialidade, avaliamos essas possibilidades de vida (ou esses condensados), que, assim, se redistribuem de maneira diversa. Cabe a nós, a seguir, inventar a combinação concreta ou o agenciamento material, espaço-temporal, que atualizará as novas possibilidades de vida, ao invés de deixá-las sufocar no antigo agenciamento. Ver de repente essas potencialidades como tais e não atualizadas de uma maneira determinada: eis o acontecimento que arrasta seu sujeito mutante para um devir-revolucionário. (Zourabichvili, 2000, p. 341). Ali, onde tudo parece definitivamente feito, acabado, realizado e consumado, emerge a diferença. Cria-se uma dança ―contemporânea‖. Utilizo dança contemporânea enquanto nome próprio para designar uma composição que é da ordem do acontecimento e não como um denominador genérico. Um nome próprio tomado como agenciador de um infinitivo. O acontecimento na dança. A dança como acontecimento. O acontecimento, segundo Deleuze e Guattari, é um entre-tempo, é [...] a parte do que escapa à sua própria atualização em tudo o que acontece. O acontecimento não é de maneira nenhuma o estado de coisas, ele se atualiza num estado de coisas, num corpo, num vivido, mas ele tem uma parte sombria e secreta que não para de se subtrair ou de se acrescentar à sua atualização: contrariamente ao estado de coisas, ele não começa nem acaba, mas ganhou ou guardou o movimento infinito ao qual dá consistência. (2010, p. 185186). Se o acontecimento é devir, guarda uma margem de absoluta imprevisibilidade, é o ímpar, conserva o excesso e impõe uma falta, a impossibilidade de dizer tudo. O acontecimento é sendo e dizendo outra coisa. É o próprio sentido. É contingente, raro e inesperado. Em cada acontecimento, há muitos componentes heterogêneos, sempre simultâneos, já que são cada um um entre-tempo, todos no 41 entre-tempo que os faz comunicar por zonas de indiscernibilidade, de indecidibilidade: são variações, modulações, inter-mezzi, singularidades de uma nova ordem infinita. (Deleuze; Guattari, 2010, p. 188). O acontecimento é uma quebra no tempo, se desdobrando em passadofuturo. O acontecimento instaura o contemporâneo na dança. Não encontrei modo mais brilhante de pensar a contemporaneidade do que aquele proposto por Giorgio Agamben (2009) no ensaio intitulado O que é o contemporâneo?. À pergunta radical, o filósofo italiano responde que não se trata de uma determinação reduzida a um valor cronológico, mas algo urgente e intempestivo que transforma o tempo. A contemporaneidade segundo Agamben é [...] uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mas precisamente, essa é a relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo. Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela. (2009, p. 59). Seguindo a concepção do filósofo italiano, um homem contemporâneo é aquele que sustenta fixo o olhar no seu tempo para perceber o escuro, a obscuridade, e não as luzes. Para aquele que experimenta contemporaneidade, todos os tempos seriam obscuros. Neste sentido, a experiência da dança contemporânea estaria ligada não aquele que vê o escuro como experiência anônima e impenetrável, mas, ao contrário, ―aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que toda luz, dirige-se direta e singularmente a ele. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém do seu tempo‖ (Agamben, 2009, p. 64). Tal formulação é pertinente para situar o contemporâneo na dança. Os termos remetem à força da percepção, uma postura inquietante de questionamento e descoberta, um modo especial de relação com o tempo. Trata-se da possibilidade de ver o que se manifesta de modo potencial e que ao oferecer-se arrasta uma maneira de ação inventiva. O contemporâneo se dá como acontecimento, como devir, não é obrigado a remeter-se à história do que foi e do que está em curso, desprende-se da memória e da ordem estabelecida para ativar e renovar o pensamento. A ação intempestiva tem um tempo que lhe é próprio para pensar a 42 diferença, por isso pode recusar o passado, se enlaçar ao futuro, colocar-se contra e sobre o tempo presente. Quilici nos convida a refletir sobre arte contemporânea além da consideração de uma produção que sucede a época moderna, mas como ―singular acontecimento que acolhe diferentes experiências do tempo, em permanente tensão com o presente histórico‖ (2009, p. 3). O autor prevê um risco implícito na tentativa dos teóricos em mapear as manifestações multifacetadas do teatro contemporâneo atual, sendo extensivo, no meu pensar, também a dança contemporânea: o de reforçar o contemporâneo como um território em que certas diferenças são reconhecidas e ressaltar por um lado, ―a sedução do pertencimento‖ e, por outro, ―o temor da exclusão‖. Nesta lógica, pertencer a contemporaneidade asseguraria o vínculo com o presente, a filiação ao próprio tempo, o ser ―a expressão mais aguda da ―nossa época‖ [...]. Nesta concepção restrita do contemporâneo, falta justamente o espaço para o que chamamos de experiência do extemporâneo15, que rompe com o presente histórico‖ (Quilici, 2009, p. 3). Para a elaboração de uma cartografia aberta, Quilici invoca a importância de observar e refletir não apenas os espetáculos da época atual, mas aquilo que inexiste (que está morto) ou existe somente como potencialidade ou virtualidade, enfim, ativar ―uma escuta afinada para o que está ausente nos palcos e que, de alguma forma, mostra-se urgente‖ (2009, p. 4). Na esteira do pensamento de Agamben (2009) e Quilici (2009), a compreensão da contemporaneidade na dança nesta tese diz respeito a uma atitude, a um modo de percepção e existência, não limitada a uma produção técnica inovadora no tempo histórico presente. Tal entendimento nos permite a aproximação com realizações de dança datadas no passado, mas que continuam contemporâneas hoje, porque percebidas como acontecimentos. Tamanha força se impõe na ação do contemporâneo, em seu modo de acontecimento e experiência, que ele sobrevive e permanece como provocação ao pensamento mesmo quando se trata de uma ocorrência histórica passada. Ou seja, ainda que já tenha decorrido no tempo, re-acontece agora, torna-se presente aqui, interrompe a cronologia e 15 O termo extemporâneo foi cunhado por Friedrich Nietzsche no texto Considerações extemporâneas (1873-1874). Nele, o filósofo discorre sobre a necessidade de ultrapassar o saber e o sentido histórico para alcançar o ser e a vida, desaprender e propor algo novo. Ver: Friedrich Nietzsche. Considerações Extemporâneas, em Os Pensadores, v. XXXII, São Paulo: Abril cultural, 1974. Nota da autora. 43 provoca descontinuidades. Um encontro imprevisto ocorre entre passado e futuro, num testemunho que remete a transformação e comoção. Conhecer e alcançar o contemporâneo é uma ―experiência‖ - no sentido que Agamben (2005) atribui à palavra, ou seja, algo que ganha forma em um não-saber, no silêncio, na impossibilidade de traduzir o vivido em palavras, em instrumentos, em números. É com esta convicção que proponho textos e imagens nesta tese. Cada fala é uma relação única, um ato daquele que a percebe e finda por definir e produzir o objeto da mesma. No caso das fotos, elas remetem a presenças e ausências que, por sua vez, apontam para a noção de anacronismo presente nas concepções de contemporâneo e acontecimento aqui utilizadas. São ressonâncias de experiências, possibilidades de encontro com o sensível e de manifestação de teatralidades. Soulages define a fotografia como ―articulação entre o que se perde e o que permanece‖ (2010, p. 132). Toda imagem - desencadeadora de reflexão e contemplação, abarca um problema de proximidade e afastamento espacial, temporal e afetivo, relacionado as coisas e aos seres. Uma foto permite interrogar ao mesmo tempo ―o passado e o presente, o ser e o devir, o imobilismo e o fluxo, o contínuo e o descontínuo, o objeto e o sujeito‖ (Soulages, 2010, p. 13-14). O contemporâneo é ―infotografável‖16, pois o real ou o objeto transcendental brilha por sua singularidade. Ainda que a fotografia vise e convoque a singularidade, ela permanece em si mesma (não idêntica ao resto), atingida por algo como uma ausência de ―identicidade‖ (Soulages, 2010, p. 107). Certamente ao tratar da dança contemporânea e do acontecimento, abordamos singularidades que não podem transparecer nem por fotos, nem por palavras. Temos apenas vestígios de diversas particularidades, os quais permitem confrontar a ambiguidade e o mistério, encontrar mais interrogações do que ―provas‖ de suas constituições enquanto fenômenos. Ainda que insuficientes para desvendar uma realidade poética, tais vestígios nos estimulam a pensar e a questionar a aparência daquilo que recebemos e percebemos enquanto vivos e inquietos. Se por um lado, a abordagem deleuziana do acontecimento está nesta tese por necessidade de superar definições e entendimentos tradicionais acerca do 16 Com o termo ―infotografável‖ Soulages (2010) questiona a relação entre a fotografia e o real. Sugere que não é possível atingir o real pela fotografia, mas olhá-lo na realidade da fotografia como um traço ou vestígio. 44 conhecimento em dança, por outro, é uma tentativa de criar e elevar o número de conexões a cada pensamento lançado. Pois o conceito de acontecimento em Deleuze não traz garantia de aplicação alguma, é uma noção em movimento, apta a ser exercitada de acordo com os procedimentos de cada pesquisador e, portanto, é passível de transformação. O acontecimento afirma-se aqui como condição para pensar uma dança contemporânea, dimensão em que não há previsão nem domínio. 45 Eu danço os corcundas e os eretos. Sou um artista que ama todas as formas e todas as belezas.17 Vaslav Nijinski Vaslav Nijinski (Kiev, 12 mar. 1890 - Londres, 8 abr. 1950). L'Aprés-Midi d'un Faune (1912). Foto: Baron Adolf De Meyer. Roger Pryor Dodge Collection, Jerome Robbins Dance Division, The New York Public Library for the Performing Arts. Fonte: <http://legacy.www.nypl.org/research/lpa/nijinsky/home.html>. Acesso em: 12 set. 2011. 17 Vaslav Nijinski. Cadernos: o sentimento. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1998, p. 85. 46 1.2 Multilíngue Mas o Brasil é moderno, a gente tem que entender isso. Tem pedaços contemporâneos, mas é moderno.18 Helena Katz A univocidade do termo dança contemporânea não serve para indicar a existência de uma única e mesma dança, com formas comuns, mas ao invés, auxilia para apontar a realidade de danças diferentes, disjuntas e divergentes. O que se diz (a dança contemporânea) pode ser o mesmo para tudo aquilo de que se diz (cada dança contemporânea), mas aquilo de que se diz (aquilo que ocorre) nunca será o mesmo. Deleuze fala de ―um acontecimento único para tudo o que ocorre às coisas mais diversas, Eventum tantum para todos os acontecimentos, forma extrema para todas as formas que permanecem disjuntas nela, mas que fazem repercutir e ramificar sua disjunção‖ (2009a, p. 185). Há, então, a possibilidade de subsistência de um acontecimento para todos os contrários e modos distintos, numa relação em que cada qual ressoa por sua diferença. Podemos correlacionar atributo e nome por meio de um verbo dinâmico: dançar. Uma questão é: como dançar? Outra é: como nomear aquilo que eu faço ou aquilo que eu vejo? Para definir sua própria dança, o coreógrafo Alejandro Ahmed fala que costuma tentar encontrar uma resposta que diz respeito ―a ideia de dança em função do corpo‖. E que esse conceito de corpo é aquele que o grupo Cena 11 ―atualiza‖ e ―evolui‖ em seu processo de transformação do conhecimento, pois ―o corpo jamais vai estar separado de onde ele está inserido‖ (2012). Sendo assim, a dança impõe problemas necessariamente ligados aos ambientes em que se originam. De acordo com Ahmed: O que me interessa na dança é o que me interessa na vida. Se te interessa uma coisa na dança e na vida te interessa outra, acho que rola uma dicotomia, o que me interessa é conseguir propor uma ideia de corpo, de sociedade, que seja compatível com possibilidades 18 Helena Katz. Abre aspas: O Brasil é moderno não é contemporâneo. Revista Muito. Entrevista à Tatiana Mendonça. Grupo A Tarde. Salvador, 30 out. 2011, p. 8-12. Disponível em: http://www.helenakatz.pro.br/. Acesso em: 20 mar. 2012. 47 novas. Eu acho que a gente tá muito falido em termos de organização e teorias sociais. Eu acho que a gente precisa reelaborar a nossa noção de economia, reelaborar a nossa noção de corpo, a nossa noção de convívio. Eu acho que o que me interessa na dança, é quando em algum lugar desses lugares eu posso desvendar coisas novas, eu posso ver que existem trajetórias que podem ser traçadas, para levar a novas conexões que possam levar a novas teorias. Acho que a gente precisa de novas teorias, acho que as teorias que a gente tem são muito caducas e estão muito a favor de um poder velado e que, sem querer ser revolucionário, nada disso, também não acredito nessa ideia de revolução, mas eu acredito numa ideia de mudança, que é necessário mudar, é necessário abrir algum tipo de lacuna nova, porque eu não acho que a gente funcionou bem até então, não acho que o mundo é uma maravilha, acho que precisa mudar e eu acho que eu procuro isso na dança. Ter lugares que de alguma forma eu posso propor isso, ou ver que alguém está propondo ou compartilhar com alguém esse tipo de proposta. (Ahmed, 2012). Uma dança que pertence radicalmente ao vivo, que deseja descobri-lo, discuti-lo, desafiá-lo, reinventá-lo, mudá-lo. Como denominar um acontecimento dito dança e feito pensamento nômade? Que título seria capaz de preencher esta insistência paradoxal, de tal modo singular, que coloca objetivamente uma pergunta fundamental (o que é isto?), cujas respostas jamais suprimem a questão? Com ironia, Ahmed reclama a necessidade de emergência de novas teorias, que sejam capazes de determinar a diferença: Eu odeio mistura, acho que não existe mistura. Não existe dançateatro, não existe dança-circo, não existe futebol-basquete... Isso para mim é um termo neoliberal pós-modernista gasto, e com influências políticas malévolas [risos], e eu acho um saco. Então, eu acho que as coisas são as coisas, só que a gente precisa nomear as coisas, não sei do que que a gente vai nomear, e aí precisa novas teorias, porque as teorias das misturas não respondem mais ao que existe hoje. (2012). Para a bailarina e coreógrafa Micheline Torres, a dança contemporânea não se define por uma técnica determinada: ela ―não tem uma identidade cinética‖, diz. Apesar disso, Torres concorda com a possibilidade de constatar ―guarda-chuvas onde grupos e tendências de movimento podem se alocar‖. A bailarina vê como traço fundamental da dança e da arte contemporânea, ―um interesse pelas questões das nossas relações [...], não só questões de ordem do corpo em movimento mas questões sociais‖, por exemplo (Torres, 2012). Já o intérprete e criador Eduardo Fukushima, ressalta que quando tem que explicar para alguém o significado da dança contemporânea, diz que 48 [...] não é um estilo de dança, como jazz, balé clássico. Ela é uma dança que está mais aberta para novas experiências, experimentações de artistas que vivenciam a dança hoje, que questionam a própria dança hoje em dia, então, para mim dança contemporânea é além do estilo. Ela é experimento, é experiência, é pesquisa, é manifesto, é depoimento de tudo que um corpo que vive hoje, nos dias de hoje, transforma em linguagem corporal. (Fukushima, 2012). Em 2007, a crítica e historiadora francesa Laurence Louppe (1938-2012) publicou o livro Poétique de la danse contemporaine: la suite, em que manifesta a dificuldade de definir a palavra ―contemporânea‖. Sua ideia é a de que a contemporaneidade tem um tempo prolongado, fronteiras movediças e fluidas, e ainda, pode ser abordada como um tempo em que se compartilham as mesmas problemáticas. Ao oferecer ferramentas para ler e compreender a dança contemporânea na atualidade, a autora explora modos pelos quais coreográfos inventaram a sua própria liberdade, bem como, os campos de conhecimento aos quais tal condição lhes permitiu acessar. Louppe elabora sua proposta a partir de um ―corpo crítico‖, termo que designa um artista que dispõe no corpo um pensamento sobre o mundo, que coloca em cheque os habituais esquemas de representação e questiona as formas de produção espetacular. O corpo afirma-se como lugar de experiência essencial da dança (2007). Dez anos antes do lançamento do livro acima citado, Louppe publica Poétique de la danse contemporaine, no qual sustenta que as danças surgidas em oposição ao balé clássico no início do século XX até os dias atuais são contemporâneas. Ou seja, neste momento, a autora não faz distinção entre dança moderna e contemporânea, pois considera que as criações de ambas compartilham os mesmos fundamentos, ainda que recebam tratamentos diversos e até mesmo opostos. Quais seriam os sustentáculos destas danças? Segundo a autora: uma individualização do corpo e do movimento, que não segue mais um modelo, mas expressa uma identidade ou um projeto único; a produção (no lugar da reprodução) de um gesto a partir da própria esfera sensível ou de uma completa adesão ao viés do outro; o trabalho do corpo como matéria de si de forma subjetiva ou em função de uma alteridade; a não antecipação da forma; a importância da gravidade como mola para o movimento. Para completar, Louppe adiciona princípios morais como autenticidade pessoal; respeito ao corpo do outro; não-arrogância; necessidade de uma solução "justa" e não somente espetacular; transparência, atenção e valorização dos 49 processos envolvidos na criação (2004, p. 36-38). Ainda que não esgotadas, as bases enunciadas pela autora permanecem válidas nos dias de hoje. O interessante é notar que Louppe renuncia a compreensão simplista de uma história da dança como continuidade e ordenação cronológica, e nos convida a pensar nas flutuações de identidades e ressonâncias que ocorrem entre corpos no tempo e espaço. Cabe salientar que muitas das estratégias compositivas presentes na atualidade e frequentemente tidas como ―novas‖, servem-se (muitas vezes sem ter consciência da apropriação) de princípios e procedimentos largamente explorados, tanto na dita dança moderna quanto na dança pós-moderna americana. Exemplos: a utilização de recursos improvisacionais; a inclusão na cena de pessoas não treinadas em dança; a realização de processos coletivos e colaborativos; a interdisciplinaridade; o interesse na experimentação; o envolvimento direto do público na composição; a interação entre intérprete e ambiente performativo; o uso de roupas e ações cotidianas no palco; a recusa pela reprodução de passos e, talvez, o uso de uma única regra: qualquer coisa pode ser dança (Banes, 1987). Nesta busca por planos e espaços próprios de reinvenção, encontra-se o formato site specific dance (dança num sítio específico). O termo faz referência a criações em ambientes determinados e, portanto, formuladas em diálogo intenso com a paisagem circundante. Ao sair dos teatros tradicionais, as danças ganham contextos exclusivos. Já na década de 1970, a coreógrafa americana Trisha Brown (1936) realizou danças ―sob medida‖ em telhados e laterais de prédios, como nos trabalhos Roof Piece (1971) e Walking on the Wall (1971).19 A coreógrafa e professora californiana Anna Halprin (1920) é revolucionária neste contexto, pois desenvolveu importantes metodologias e forneceu bases consideráveis para as mudanças radicais que viriam a ocorrer na dança americana a partir da década de 1960. Embora tal movimento seja fortemente reconhecido com os integrantes do Judson Dance Theater - nomes como Simone Forti, Steve Paxton, Trisha Brown, Lucinda Childs, Yvonne Rainer, dentre outros; Anna Halprin é, sem dúvida, sua pioneira. Não à toa, os paradigmas cruciais deste momento foram antes explorados nos workshops de verão ministrados por Halprin. Para ela, a noção da 19 Atualmente, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) realiza a iniciativa Novos Coreógrafos – Novas Criações: Site Specific (NC-NC:SS), que contempla propostas inéditas de criação site specific dance. A 3ª edição do projeto foi realizada em 2011. 50 dança é a de experiência aberta e contínua de transformação, que se desenrola num trabalho investigativo de consciência e sentir cinestésico, bastante próximo a vida ―real‖ e aos movimentos banais do corpo. Halprin produziu uma estrutura de composição denominada scores, servindo-se de processos de improvisação estruturados, os quais englobam a ideia de tarefa e uma série de ações cotidianas e repetitivas. A performance Parade and Changes (1965) é significativa para a compreensão deste feito: nela, os bailarinos despem e vestem a roupa continuamente. Além da nudez dos corpos (ainda um plano largamente utilizado e causador de estranhamento), a dança desnuda seu próprio processo. A coreógrafa desafia as convenções, provoca e amplia os modos de percepção da dança. A união definitiva entre dança e vida também se estende na proposta de convocar nãobailarinos para os espetáculos, de optar por lecionar em sala a céu aberto e em meio à natureza, de realizar processos criativos no ambiente urbano e integrar atos colaborativos com artistas de diferentes áreas.20 O nome de Merce Cunningham (1919-2009) concorre ao lado de Halprin, na responsabilidade de trazer uma nova perspectiva de abordagem ao corpo e a cena da dança. Na vanguarda de um curso pleno de mudanças, Cunningham prescreve que movimentos não devem conter intenções nem significados, que a dança é independente da música ou a imagem é dissociada do som. E inaugura um método inovador e radical de composição baseado no acaso. No entanto, o coreógrafo permanece interessado no balé clássico, prática então contestada pelo excesso de formalismo por representantes da dança moderna e pós-moderna. Para Cunningham, as operações do acaso e o vocabulário do balé são caminhos fundamentais para libertá-lo do limite criativo engendrado pelos próprios instintos, inspirações e impulsos ―naturais‖. É possível reconhecer posições do léxico clássico (como arabesques, attitudes, jetés e développés), ainda que modificadas, em suas composições. O interessante é que Cunningham atribui a tais passos a função de ready made, ou seja, usa movimentos que não foram inventados por ele, mas estão prontos para serem consumidos e apropriados em sua coreografia. Para ele, o balé é impessoal e favorece o coletivo (contrariamente ao culto da personalidade latente na dança moderna), possibilita a quebra de linhas e estruturas (em oposição a 20 Sugiro o filme My Lunch with Anna (França, 2005) de Alain Buffard (coleção Paisagens Coreográficas Contemporâneas), que delineia momentos da obra e do trabalho pedagógico de Halprin. 51 continuidade e fluxo do movimento), é multiforme, não-narrativo e tem grande apelo estético. Apaixonado pela legibilidade e clareza das formas, Cunningham aposta em corpos que pensam e frequentemente mudam de ideia. Propõe a noção de um corpo descentrado, fragmentado e sem lugares específicos no espaço. Conserva princípios como a contradição, a não-acomodação, a inconstância e, fundamentalmente, a clareza perceptual (Copeland, 2004, p. 97-119). Como se faz uma revolução na dança? Como você dançaria uma revolução? Quais são as coisas que te tiram do lugar? O que te deixa com um olhar mudo? Qual é o seu corpo da dor? Como o toque do outro te abala? E se a beleza e o terror se juntassem para dançar? E se... E se... Cavar-entrar no escuro do outro. Como adentrar no mundo da diferença? Como desestabilizar as estruturas basilares e vitais do homem, da mulher, da sociedade e da arte por meio da dança? Pina Bausch (1940-2009), quase-sinônimo de ―dança-teatro‖21, o fez. Fez do não-saber e da busca por relações seu sistema de composição, fez do ato de perguntar-provocar o seu método de criação. Sempre a procura de diferentes modos, memórias e imagens para efetuar uma dança tecida na interrogação-perturbação. Fez delicada, sutil, radical e poderosa transformação da história da dança e do corpo. Com um grupo constituído por excepcionais intérpretes formais da dança clássica, a coreógrafa moldou o tumulto, o intempestivo, o absurdo. Paradoxo da formadisforme dançada na terra, na água, na relva, entre pedras, flores, mesas e cadeiras. Outros chãos para efetuar diferença nos corpos que dançam. Estranhar o óbvio. Desfamiliarizar o humano. Tatear o escuro. Desejar. ―Como és quem és?‖ ―Meter em qualquer lugar um beijo de alguém‖. ―De que modo dizemos merda?‖ (Hoghe apud Galhós, 2010, p. 29-30). Multiplicação de funções: Feminino é masculino. Masculino é feminino. Dança é teatro. Teatro é dança. Tudo é afirmação de um devir. Babel cultural: pessoas de diversas nacionalidades, de todas as línguas, num mesmo território de troca. Queda do muro e instalação de novas fronteiras e entres: realidade em sua crueza, conto de fada, normalidade, loucura, ternura, agressão, delicadeza, desolação, exatidão, exaustão, beleza, revolta, particular, universal, infância, velhice, mágoa, alegria, abraço, 21 A classificação dança-teatro é utilizada para nomear o gênero artístico praticado por Pina Bausch junto a companhia Tanztheater Wuppertal na Alemanha desde a década de 1970. Para uma restrospectiva histórica e compreensão do termo, ver: Galhós, Claudia. Pina Bausch: sentir mais. Alfragide: Dom Quixote, 2010. 52 abandono... A lógica imposta é a da coexistência. Gestos e imagens dançam, cantam, beijam, comem, falam e gritam juntos. Nas composições de Bausch, o mesmo corpo virtuoso, elegante e sedutor que domina a técnica clássica é o corpo que perde o equilíbrio, se choca contra paredes, entorta-se, tropeça, cai e ironiza a si mesmo. Se faz em corpo brutal, visceral, fraco, como pesadelo. É perfeitamente imperfeito. Suas obras citam, criticam e ridicularizam o próprio fazer e mundo do balé via saltos atléticos, giros virtuosos, falas e contextos que mostram o mesmo lado da beleza e da dor. Traz corpos que não cansam de se revirar. Tudo é experimento que combina multiplidades: eis que surge o acontecimento-poesiadesassossego-vigilância. Cada gesto de Bausch é um ato de ―resistência à reprodutibilidade, transporta mais um enigma, ou paradoxo‖. Há uma ―ampliação de todas as intensidades do sentir e viver no momento em que se está, em que se experimenta e em que se é‖ (Galhós, 2010, p. 235). Gil confirma que no Tanztheater de Bausch tudo se passa no ―entre‖: gesto e fala, gesto e música, movimento e fixidez, dança e teatro, choro e riso, humor e crítica... são muitas zonas de indiscernibilidade sobrepostas, as quais entrelaçam devires e paradoxos (2004, p. 182). Algumas danças se foram, mas ainda estão. A história inventa outras histórias por meio de conexões, passagens e ressurgimentos. Ser contemporâneo refere-se não somente a um ―agora‖, mas a todo instante e assim, reporta também o passado. Está naquele que intercala e relaciona de modo notável os diferentes tempos, que cita a história pela exigência de transformá-la. Sobre essa especial relação com o passado, explica Agamben: De fato, a contemporaneidade se escreve no presente assinalando-o antes de tudo como arcaico, e somente quem percebe no mais moderno e recente os índices e as assinaturas do arcaico pode dele ser contemporâneo. Arcaico significa: próximo da arké, isto é, da origem. Mas a origem não está situada apenas num passado cronológico: ela é contemporânea ao devir histórico e não cessa de operar neste, como o embrião continua a agir nos tecidos do organismo maduro e a criança na vida psíquica do adulto. A distância – e, ao mesmo tempo, a proximidade – que define a contemporaneidade tem o seu fundamento nessa proximidade com a origem, que em nenhum ponto pulsa com mais força do que no presente. (2009, p. 69). 53 Voltamos ao balé22. Este sistema técnico reconhecido por tantos como antiquado, permanece vivo e reinventado em criações contemporâneas de importantes grupos como La La La Human Steps (fundado em Montreal, Canadá, 1980) e Grupo Corpo (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1975). Édouard Lock (1954), diretor e coreógrafo da La La La Human Steps (2002), alimenta um tipo de investigação em dança que vai além de classificações. O uso de sapatilhas de pontas é explorado em combinações de giros e gestos cotidianos realizados em velocidade extrema. Lock transparece uma fascinação pelo balé ao utilizar as pontas como ferramenta para destacar a plasticidade do corpo idealizado pela estética do balé: alto, magro, esguio, alongado, virtuoso. A perfeição e verticalidade da dança clássica se articulam em composições complexas que desafiam os limites físicos dos bailarinos. O resultado é uma experiência de vertigem. Não à toa, além das classes de balé, os bailarinos da companhia se preparam com aulas de boxe para ganhar maior resistência, precisão e controle nos movimentos, conquistar um corpo ágil e inteligente, em estado de alerta permanente. Ao estudar as possibilidades criativas produzidas por corpos que fazem simultaneamente balé e boxe, Lock efetua conexões inéditas e explora polifonias sensoriais. Pensa a mobilidade na relação de diferentes sistemas e assim, propõe uma dança heterogênea, a qual marca uma percepção de multiplicidades. A movimentação típica nos espetáculos do Grupo Corpo, assinados pelo coreógrafo Rodrigo Pederneiras (1955), encadeia sequências que exploram regras e elementos do balé. Um balé que aparece em cena bastante modificado, pois de tanto misturar ―o mesmo material (o balé clássico enquanto técnica) se transformou num novo material. Foi imantado com ângulos perigosos, e nele floraram requebros e molejos. Mais ainda: a narratividade típica daquela língua importada entrou em convulsão. Dos seus soluços, irromperam novas gramáticas‖ (Katz et al, 1995, p. 23). Trata-se afinal de um balé que não sobrevive fora de uma exigência constante de auto-renovação, de conversão em outro ainda que permanecendo si mesmo. Neste grupo, os movimentos do corpo ganham amplitude numa continuidade de 22 Monteiro (1998) afirma que a denominação balé é imprecisa, pois se aplica a manifestações heterogêneas no que diz respeito a temática, a forma de constituição espetacular e dramática, bem como, ao elemento técnico. Assim, o conceito do balé liga-se fundamentalmente a herança de uma tradição constituída em dialética com as práticas sociais, ou seja, o nome balé invoca um compromisso com o passado. Para a autora, a lógica do balé sobrevive no tempo articulando tradição e ruptura. 54 balanços e arqueamentos, giros e saltos, executados de forma leve, sensível e delicada de tal modo que, para o espectador, tudo parece muito fácil de ser realizado. Pederneiras toma a bacia como centro do corpo, explorando seu gingado em arranjos complexos e refinados. Seus trabalhos têm caráter de celebração e se traduzem na junção de uma poética ―clássica‖ (em sua busca de se manter impecável e precisa) e ―contemporânea‖ (ambígua por excelência). Aqui, Corpo é o nome que designa tal união. Impossível não lembrar o coreógrafo americano William Forsythe23 (1949), fortemente reconhecido pela reorientação que deu ao balé. Ao entender o balé como uma língua viva e, portanto, como fala que não pode ser dita sempre da mesma forma, Forsythe explorou possibilidades de combinação e deslocamento da linguagem do balé, conectando-o com outras formas de arte e campos do conhecimento a partir de uma perspectiva contemporânea. Em entrevista para a crítica Ana Francisca Ponzio, o coreógrafo declarou que ―o vocabulário clássico jamais será velho. É a sua escritura que pode ficar datada. [...] a desestruturação da linguagem clássica permite obter possibilidades inauditas ocultadas pela abordagem tradicional do balé‖ (2003, p. 68). Forsythe reforça a mecânica articulada do corpo, desmembrando suas partes para compor um vocabulário de fragmentos e quebras, que ―eleva os membros individuais do corpo acima de sua totalidade constitutiva‖ (Lehmann, 2007, p. 340). Forsythe encontrou no balé um sistema aberto a múltiplas análises e interrogou sistematicamente os aspectos relacionados aos seus modos de encenação, como música, luz, figurino, coreografia e movimento. Se por um lado o relacionamento com o balé constitui a pedra angular de seu trabalho, Forsythe recusa-se a manter o domínio do balé distante e separado de quaisquer outros âmbitos. Para o coreógrafo, qualquer possibilidade (ideia, objeto, equação matemática, geografia, teoria, filme, etc.) é fonte de movimento, ao mesmo tempo em que o corpo é espaço potencial para dissolução de quaisquer fronteiras (a separação entre balé e outras danças, por exemplo). Sua visão é a de que a dança 23 Atua como coreógrafo desde a criação de Urlicht (1976) para o Stuttgart Ballet, companhia em que ingressou como bailarino no ano de 1973. Diretor artístico e coreógrafo das companhias Ballett Frankfurt (1984-2004) e The Forsythe Company (2005-atual). 55 é ato de inclusão no mundo, e não de desligamento. A dança é meio para evidenciar diferenças, para aprender a olhar. Valendo-se das teorias de Rudolf Laban (1879-1958), em particular os estudos da corêutica e a noção espacial de cinesfera24, Forsythe desenvolveu tecnologias para o improviso na linguagem que lhe era familiar: o balé. Assim, aproveitou o conhecimento que estava em seu corpo e nos corpos dos bailarinos com quem trabalhava. E, ainda, rompeu com a unidade, linearidade e verticalidade qualidades tão caras aos movimentos de balé. O resultado foi a expansão de seu vocabulário criativo. O coreógrafo alia o rigoroso controle técnico que governa o mundo do balé a orientações corporais específicas e parâmetros desestabilizadores (como a incorporação de tarefas para improvisação, provocação da perda de equilíbrio, queda). Suas estratégias de composição incluem operações variadas, como a exploração das regras e dos limites de diferentes categorias de jogos: competição, acaso, expressão (mímica e disfarce) e de vertigem25 (Gilpin, 2011). Seu trabalho pode ter uma ―organização clássica‖, a exemplo da obra One Flat Thing, reproduced (2000). Em suas palavras: Eu comecei a pensar, ‗O que é contraponto?‘ E eu cheguei a solução para esta peça, senão para a eternidade – que é o tipo de alinhamento no tempo... One Flat Thing, reproduced pode ser considerada um exemplo de organização clássica... (funciona perfeitamente se você a ajusta a Bach). Mas ela não usa, ou exclui, algumas das referências históricas (sapatilhas de ponta, um certo tipo de música, uma técnica historicamente específica) que indiquem classicismo. Não é balé, mas em certo sentido é clássica. Uma ideia de um domínio pode existir em outro, e prosperar tão bem, mas de uma forma diferente. Algo tão fundamental para o balé e à música clássica sobrevive como contraponto em meu trabalho de forma traduzida, mesmo que eu opte por não utilizar outros elementos associados.26 (Forsythe apud Sulcas, 2011, p. 15, tradução livre da autora). 24 Corêutica trata do estudo das formas espaciais dentro da cinesfera (ou kinesfera). Por sua vez, a cinesfera é uma delimitação espacial (esfera) dentro da qual ocorre o movimento corporal, cujo centro é a região do umbigo e/ou o corpo todo. Forshyte ampliou este modo de orientação espacial ao questionar a premissa de Laban de estabilidade e orientação no espaço a partir do centro do corpo. Para Forsythe, não existe apenas uma cinesfera, mas ―múltiplas cinesferas‖ em diferentes partes do corpo. Ou seja, o centro pode ser qualquer fração do corpo. Assim, ele considera que uma falange, a orelha esquerda, o cotovelo direito, dentre outras partes, tem uma cinesfera própria (Rengel, 2003, p. 32-36). 25 Agôn, Alea, Mimicry e Ilinx respectivamente. Esta classificação, proposta por Roger Caillois no livro Os jogos e os homens: a máscara e a vertigem (Lisboa: Cotovia, 1990), foi utilizada por Forsythe (Gilpin, 2011, p. 121). 26 “I started thinking, ‗What is counterpoint?‘ And I came to the solution for that piece, if not for eternity – that it is kinds of alignment in time... One Flat Thing, reproduced could be seen an example of a 56 A história também é feita de manifestações que desafiam impossibilidade e continuidade. Nos casos citados, não se trata apenas de tomar o balé como ponto de partida, mas de colocá-lo em uma interação dinâmica e potencial com o ambiente. O balé permanece no mundo desde o século XV, duração que não remete a estagnação, ao contrário, está ligada ao seu potencial de transformação. Técnica poderosa, de tal modo eficaz e flexível, que não cessa de ressurgir e surpreender com novos contornos. Graças ao pensamento contemporâneo de alguns profissionais deixou der se ―o balé‖ para constituir-se em ―um balé‖, uma presença que é, ao mesmo tempo, o efeito de sua ausência. Mesmo assim, historicamente o balé continua a ser criticado por excesso de rigor, regras, determinações e sua aspiração a perfeição, à custa de um esforço ―sobrenatural‖ do corpo. No entanto, é interessante notar que a dança tradicionalmente denominada como moderna desconstruiu sua ideologia fundamental (libertar a dança de artifícios), o alicerce de seu aparecimento, no momento em que iniciou a codificar e ensinar formas e técnicas concebidas como mais ―naturais‖ do que outros treinamentos. Hoje, superado tal embaraço, dança moderna e contemporânea envolvem um treinamento físico consciente que finda por desenhar outras corporeidades e inscrever outros ideais. Vale afirmar que qualquer prática orientada de dança molda tanto um jeito particular de se movimentar (estética) quanto uma visão do mundo (ética). Aqui se manifesta a noção básica de que o corpo é um processo (e não produto), que ao mesmo tempo forma e é formado por uma cultura (Albright, 1997, 28-33). O uso da linguagem codificada do balé segundo a variação pode ser expressa como um ―ser bilíngue, mas numa mesma língua, numa língua única... Ser um estrangeiro, mas em sua própria língua... Gaguejar, mas sendo gago da própria linguagem‖ (Deleuze, 2010, p.44). O bilinguismo impõe a heterogeneidade a uma língua singular, a qual utiliza simultaneamente duas línguas em variedades contínuas. Rodrigo Pederneiras, Édouard Lock e William Forsythe exemplificam o que significa ser estrangeiro em uma linguagem que se domina. Trata-se de classical organization... (it works perfectly if you set it to Bach). But it doesn´t use, or exclude, some of the historical references (pointe shoes, a certain kind of music, a historically specific technique) that would indicate classicism. It is not balletic, but in a sense it is classical. An idea from one domain can exist in another, and thrive just as well, but in a different form. Something as fundamental to ballet and classical music as counterpoint survives in my work in translated form, even If I chose not to use other associated elements‖. 57 criadores que constroem métodos próprios para variar a linguagem do balé, provocando tamanho estranhamento que acabam por escapar do sistema que os inspira. Apto a funcionar em várias línguas, o contemporâneo se faz multilíngue e inventa seu próprio linguajar. Com uma política que coloca em tensão as diferenças, dispõe de espaços próprios de enunciação para relacionar as línguas que lhe convir. Neste contexto, não existe língua ―menor‖ e ―maior‖, e não há submissão a hegemonia de uma língua qualquer. Há um interesse em pensar de modo dialógico e buscar uma escrita inventiva. O contemporâneo ultrapassa barreiras, quebra fronteiras, investe em trocas e inventa processos de articulação em que as línguas se tornam outras. O resultado é a produção e exposição de novas falas. No senso comum, tantas vezes a dança contemporânea é tida como a linguagem do ―intraduzível‖. Tal obstáculo é, no entanto, instrumento e condição de sua possibilidade. Pois o que significa traduzir? Não seria um modo de trasladar, ou seja, um novo transporte criativo?27 Talvez, a fala própria de qualquer dança permaneça para o público como uma dimensão de possibilidades sensoriais: teatralidade imprevisível que se insinua num ―entre corpos‖. Entretanto, estamos acostumados a um modo verbal de falar e escrever sobre dança, ou seja, habituados a realizar uma experiência perceptiva parcial, redutora e apressada, relacionada à urgência de funcionalizar o que vemos e ouvimos. 27 O poeta, tradutor e ensaísta Haroldo de Campos (1929-2003) cunhou o neologismo ―transcriação‖ para designar a tradução de textos criativos como ―recriação, ou criação paralela, autônoma, porém recíproca‖. Como o ―avesso da chamada tradução literal‖, este modo de tradução transforma a falta e o ―impossível‖ da linguagem original em solução criativa, nova e autônoma (Campos, 1992, p. 35). 58 As perguntas não param nunca e nem a busca. Nessa existe algo de infinito, e esta é a coisa bela. Ao olhar nosso trabalho, tenho a sensação de ter apenas começado.28 Pina Bausch Pina Bausch (Philippine Bausch.Solingen, 27 jul. 1940 – Wuppertal, 30 jun. 2009). Cafe Müller (1978), Teatro São Luiz, Lisboa, 3 de maio de 2008. Foto: Paulo Pimenta. Fonte: <http://paulopimenta.blogspot.com>. Acesso em: 12 set. 2011. 28 ―Le domande non cessano mai e nemmeno La ricerca. C´è in essa qualcosa di infinito, e questa è la cosa bella. Se guardo al nostro lavoro, ho La sensazione di aver appena cominciato‖. Pina Bausch. Dance, dance, otherwise we are lost. Laurea Honoria Causa a Pina Bausch. Università degli Studi di Bologna. Facoltà di Lettere e Filosofia. Bologna, 25 nov. 1999. p. 34. Tradução livre da autora. 59 O movimento é parte intrínseca do conceito de ‗teatro total‘. Hoje, a lógica de que um evento deve responder àquele que o precede parece inadequada. As discussões sobre ‗significado‘ atravancaram o caminho da dança. Essas ideias já se dissolveram, já não fazem sentido.29 Merce Cunningham Merce Cunningham (Mercier Philip Cunningham. Centralia, 16 abr.1919 - Nova Iorque, 26 jul. 2009). Antic Meet (1958). Foto: Marvin Silver. Fonte: <http://seattletimes.nwsource.com/html/thearts/2009548549_cunninghamobit28.html>. Acesso em: 12 set. 2011. 29 Rui Fontana Lopez. Coreógrafo das mutações. Em: Programa de espetáculo Merce Cunningham Dance Company. São Paulo, 2004, p. 8. 60 Acima: Untitled (2011). Abaixo: Amjad (2007). Coreógrafo: Édouard Lock. La La La Human Steps. Fotos: Édouard Lock. Fontes: <http://www.lalalahumansteps.com>. <http://canadaartsconnect.com/magazine/2011/05/la-lala-human-steps-striking-new-work>. Acesso em: 12 set. 2011. 61 Acima: Ímã (2009). Abaixo: Lecuona (2004). Coreógrafo: Rodrigo Pederneiras. Grupo Corpo Cia. de Dança. Fotos: José Luiz Pederneiras. Fonte: <http://www.grupocorpo.com.br/site>. Acesso em: 12 set. 2011. 62 Acima: I don´t believe in outer space (2008). Abaixo: Heterotopia (2006). Obras de William Forsythe. The Forsythe Company. Fotos: Divulgação. Fonte: <http://www.theforsythecompany.com>. Acesso em: 31 out. 2011. 63 1.3 Percepções Ilimitadas O que é um acontecimento ideal? É uma singularidade. Ou melhor: é um conjunto de singularidades [...].30 Gilles Deleuze Ao caráter eminentemente transitório da dança contemporânea acompanham processos físicos que alargam as possibilidades de sua produção e recepção, e marcam uma percepção que mira, sobretudo, a composição de uma experiência. Não se visa, então, uma interpretação, pois que essa ―se faz sempre em nome de alguma coisa que supõe estar faltando‖ (Deleuze, 1992, p.183). O acontecimento diz respeito a fenômenos ligados a multiplicidade (e não a unidade), processos que são devires e que, portanto, não se julgam por um resultado final, mas pela qualidade de seus percursos e pela potência de seu prolongamento. ―Não existem universais, mas apenas singularidades‖ (Deleuze, 1992, p.183). Deste ponto de vista, cada composição de dança contemporânea pode ser tomada como um conjunto de singularidades. E em tal contexto de produção do novo, para um espectador, o experimentar toma o lugar do interpretar. A interpretação resta apenas enquanto impasse que dificulta o desenvolvimento da dança como operação de multiplicidades. A dança pode ser um modo de produção de pensamentos, na medida em que sua ação encarna mudanças de textura sensível ao vivo. ―Daí o poder de contágio e de transformação que é potencialmente portadora tal ação: é o mundo o que ela põe em obra, reconfigurando sua paisagem‖ (Pardo, 2011, p.286). O exercício da dança como pensamento é um modo distinto de conhecimento e reconfiguração do mundo. Mas quais os modos de relação capazes de aumentar a força de uma dança? Dentre esses modos, poderíamos pensar princípios para métodos de treinamento, procedimentos criativos e pesquisas, favoráveis a uma composição como acontecimento? Como uma dança se torna experiência de sensações? 30 Gilles Deleuze, op. cit., 2009a, p. 55. 64 Na etimologia da palavra experiência estão relacionados termos como tentativa, aventura, risco, passagem, transporte, perigo (Turner, 2005, p. 178). A dança contemporânea se sujeita à experiência, posto que vive numa zona de indeterminação e indiscernibilidade, impõe modos singulares de existência e inventa seus próprios afetos. Uma experiência é, quando se apresenta de modo desconcertante e interrompe comportamentos rotinizados e repetitivos, por isso inicia-se ―com choques de dor ou prazer. Tais choques são evocativos: eles invocam precedentes e semelhanças de um passado consciente ou inconsciente – porque o incomum tem suas tradições, assim como o comum‖ (Turner, 2005, p. 179). A dança aqui compreendida como contemporânea tem vida na experiência e, sobretudo, existe no acontecimento. Está na ordem de um fazer que produz efeitos de estranhamento em relação ao familiar, da ação que gera deslocamentos, que suscita desvios, que provoca a percepção. A dança contemporânea enquanto acontecimento oferece uma experiência em que a vida é intensificada, é transformada num tempo e espaço que lhe são únicos. Arte suspensa, sem começo, meio e fim, num tempo em que passado, presente e futuro se atravessam. Pensar a dança contemporânea como experiência e acontecimento é tomar distância da reprodução de modelos. No lugar da imitação do conhecido, a intensificação de padrões até o limite de uma invenção. A permissão para que uma dança trame imprevistos a nos alcançar e transformar, em jogos intensos de completude e sentido que contrastam a insuficiência de qualquer tradução e explicação verbal. ―É como uma passagem do finito ao infinito, mas também do território à desterritorialização. É bem o momento do infinito: infinito infinitivamente variados‖. (Deleuze; Guattari, 2010, p. 213). No texto O corpo dançante: um laboratório da percepção, a historiadora de dança Annie Suquet (2008) aborda diferentes experimentos a partir da virada do século XIX, enfatizando aqueles que modificaram radicalmente a percepção acerca do corpo, do movimento, do tempo e do espaço. A autora descreve efeitos resultantes de criações perturbadoras, dentre elas os espetáculos da bailarina americana Loie Fuller (1862-1928), cujas experimentações cênicas alteravam a percepção do tempo e do corpo em movimento. O corpo como ressonador foi testado por Fuller em danças que por vezes contrapunham a imobilidade do corpo 65 com jogos animados e velozes de imagens, cores e luzes. Assim, a bailarina questionava as propriedades do movimento do corpo e da luz. Ainda de acordo com Suquet (2008), a ligação íntima entre percepção e mobilidade foi alvo da pesquisa do pedagogo suíço Èmile Jaques-Dalcroze (18691950), que propôs a existência de um sexto sentido: o muscular, mais tarde conhecido como cinestesia. Por sua vez, o sentido do movimento ou cinestesia foi explorado pelo neurofisiologista Charles Scott Sherrington (1857-1952), que reuniu comportamentos perceptivos como os de ordem articular, muscular, visual e táctil no termo propriocepção, e indicou possibilidades de mobilidade entre o consciente e o inconsciente do corpo humano. Movimentos involuntários ou o corpo como revelador de dispositivos inconscientes passam a ser investigados por alguns criadores de dança, dentre eles a própria Loie Fuller que tomou a hipnose como pretexto para composição de um espetáculo. Nesta corrente de pesquisa, a ideia de um centro fisiológico e emocional propulsor de todo movimento foi explorada por Isadora Duncan (1877-1927), Martha Graham (1894-1991) e Mary Wigman (1886-1973). A consciência do movimento como continuidade, num trânsito entre interior e exterior do corpo, associa-se ao fluxo de transformações da vida e produz diferentes manifestações dançantes. Suquet (2008) cita Rudolf Laban (1879-1958), que solicita ao bailarino o desenvolvimento de uma sabedoria para sentir, aprendizado que deve ocorrer tanto no nível biológico quanto cultural. Experiências perceptivas inéditas são provocadas por atividades extras (como passear numa montanha-russa), com a finalidade de suscitar outros comportamentos e resgatar o humano de um empobrecimento sensorial e emocional, promovido pela exigência de instantaneidade da vida moderna. Laban elabora um método de improvisação que solicita um estado de receptividade do corpo para criação, o bailarino deve aprender a perceber. A questão da memória corporal entra em debate, ativando a noção de que registros corporais são esculpidos nas fibras nervosas e definem nossas particularidades posturais. Com a compreensão de que movimento e emoção não se separam, a dança se liberta do compromisso de expressar qualquer interioridade psicológica. Suquet (2008) cita também os experimentos de Merce Cunningham e Steve Paxton (1939). Para Cunningham o movimento é uma questão de percepção e 66 sendo assim, descobrir novas potencialidades cinéticas compreende subverter a esfera perceptiva. Recorrendo, principalmente, ao I Ching ou Livro das Mutações da filosofia chinesa, o coreógrafo amplificou as possibilidades motoras então limitadas pelo sistema nervoso para controlar estruturas complexas.31 Tal estratégia compositiva alcançou novas conexões e maior flexibilidade do corpo no seu pensar em ação. Paxton criou uma forma perceptiva de dança baseada no tato, numa contínua troca de peso entre corpos: o contato-improvisação. Submetido a um diálogo de forças gravitacionais, o bailarino desenvolve comportamentos adaptativos e reflexos ligados a mecanismos de sobrevivência. A emergência do movimento nasce somente num contexto de relações. O contato-improvisação [...] faz parte das formas de dança que, no século XX, reiventariam de maneira mais profunda a esfera perceptiva. Nessa dança do tato, o maior dos órgãos do corpo, que é a pele, desenvolve uma extrema sensibilidade que não tem nada de superficial. Não só os captores tácteis distribuídos sob o nosso envoltório cutâneo informam o cérebro sobre o estado do peso, da massa, da pressão e do esforço, mas podem, se necessário, funcionar como uma alternativa da visão [...]. Nenhuma dança neste século nega mais radicalmente a precedência cultural do olhar. (Suquet, 2008, p. 536). O movimento na dança-contato emerge sempre num modo específico: processo, ações que se atam e desatam num decorrer que não antecipa o que virá. Neste caso, a experiência não é resultado final de um procedimento criativo, mas é a própria criação em andamento. Mas se por um lado o contato-improvisação incita os dançarinos à experiência, o que dizer dos espectadores? Como também conduzi-los à experiência? Como os movimentos dos bailarinos poderão encontrar ressonância no corpo do espectador? No processo de aquisição de conhecimento corpo, mente e ambiente são correlacionados. Tal conexão envolve a percepção e simultâneas modificações 31 As decisões coreográficas de Cunningham não eram baseadas na intuição, gosto ou instinto, mas na utilização de inúmeros jogos (lançamento de dados e moedas, cartas), úteis para definir variáveis como sequência, duração e direção dos movimentos. Dentre os vários métodos, o uso dos hexagramas do I Ching é considerado o mais importante para o coreógrafo. Não era, no entanto, usado em seu modo convencional - recurso para adivinhação, mas como metodologia de composição aberta ao imprevisto e caótico. Em 1989, Cunningham iniciou os experimentos com o programa de computador LifeForms e passou a utilizá-lo como ferramenta para compor dança. Para Cunningham, o acaso firma-se como recurso e garantia de liberdade criativa (Copeland, 2004). 67 (afecções32) do próprio corpo, numa relação dinâmica entre o dentro e o fora. O conceito de afeto é formulado pelo filósofo holandês Bento de Espinosa (1632-1677) como as afecções do corpo, pelas quais a potência de ação desse corpo são aumentadas ou diminuídas, favorecidas ou constrangidas.33 Ou seja, o afeto é uma variação contínua da força de existir e poder de ação de um corpo, modificação que é determinada por suas ideias.34 O autor valoriza o poder do corpo em afetar e ser afetado: Aquilo que dispõe o Corpo humano de tal maneira que possa ser afectado de diversos modos ou que o torna apto a afectar os corpos externos de um número maior de modos é útil ao homem; e é-lhe tanto mais útil, quanto o Corpo se tornar por essa coisa mais apto a ser afectado de mais maneiras ou a afectar os outros corpos; e pelo contrário, é-lhe prejudicial aquilo que torna o Corpo menos apto para isto. (Espinosa, 1992, p. 396). Ao desenvolver as proposições de Espinosa, Deleuze e Guattari reafirmam a constituição de um afeto por uma transição vivida: chamam percepção a ―um estado do corpo enquanto induzido por outro corpo‖, e afecção, ―a passagem deste estado a um outro, como aumento ou diminuição do potencial-potência, sob a ação de outros corpos: nenhum é passivo, mas tudo é interação, mesmo o peso‖ (2010, p. 183). É então sob a perspectiva do encontro que o termo afecção é compreendido nesta tese: a transformação de um corpo em relação com outros, pois num processo de afetação os corpos interagem e quando um corpo se afeta se modifica para sempre (Nunes, 2009, p. 109). A bailarina e coreógrafa Erika Rosendo diz que gostaria que ―ninguém saísse pesado‖ após seus espetáculos. Deseja, sobretudo, que as pessoas se surpreendam positivamente e que [...] saiam leves, que tenham algo que foi acrescentado para elas, na vida delas. Alguma coisa que ela viu em cena e que chamou muito atenção para ela, que ela achou bonito, que ela encontrou beleza e que ela encontre essa beleza nela também. [...] a intenção de surpreender é sempre de modo muito positivo, sempre. E a palavra mesmo é leve, que as pessoas saíam leves, mais alegres por causa 32 Afecção do latim afficere ad actio indica onde o sujeito se fixa e se liga; emprega-se para as ações de afetar, tocar, comover, unir, produzir impressão, operar, agir. Afecção e afeto designam um conjunto de relações de estados, disposições e vontades; abarcam a potência de ação de um corpo. 33 Sempre que a palavra ―afeto" é empregada nesta tese, refere-se ao affectus de Espinosa. No livro Ética, o filósofo usa os termos em latim affectio e affectus, os quais são traduzidos para o português como afecção e afeto, respectivamente. 34 Para Espinosa (1992) existem três tipos de ideias: afecctio, noção e essência. 68 do encontro. Tem uma frase da Madre Teresa de Calcutá que eu acho fantástica, fala assim: ―Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz‖. É basicamente isso. Que as pessoas por onde a gente passa, o lugar por onde a gente passa, que a gente consiga deixar essa tranquilidade, essa paz. Porque a gente sabe que tem muitos lugares que a gente vai que tem um clima tenso, pesado, depois de uma peça você sai acabada... Ou dependendo do espetáculo sai arrasada. Tudo bem, você se sente tocada, mas eu acho que não gostaria de fazer isso, eu queria despertar alegrias e levezas. (Rosendo, 2012). Ao falar sobre como deseja afetar o público em seus trabalhos, Alejandro Ahmed diz que se interessa muito por algo que ele nomeia de ―vetor emocional‖. Ele explica: Como se a coreografia fosse um conjunto de vetores emocionais. Pensar nos vetores, como essas flechas de força... e que elas sejam condutores de raciocínios emocionais e que teu corpo navegue dentro disso, e que dentro disso tu possas de alguma forma sentir a coreografia. [...] Eu acho que o que eu me preocupo no afeto agora é este aspecto afetação emocional, no sentido de que tudo que a gente faz, de alguma forma, razoavelmente e emocionalmente, passa por aí, por esses vetores. (Ahmed, 2012). Se considerarmos um vetor como um condutor, podemos dizer que a dança de Eduardo Fukushima busca uma relação corpo a corpo, em que o movimento de um reflete ou vibra no do outro, como uma contaminação imediata entre corpo que dança e corpo que assiste dança: Eu busco algo que bate no corpo das pessoas, que não dê muito tempo para racionalizar, digamos, é uma dança que não bate muito nas coisas da ideia, mas sim mais uma experiência compartilhada. Talvez uma dança cinestésica, não sei, que bate diretamente na sensação, no corpo, do que no mundo das ideias. Não busco que as pessoas olhem como se fosse uma história, mas sim como se fosse um manifesto de um corpo lá, que está lá experenciando ao vivo. (Fukushima, 2012). Fukushima afasta o desejo de que o público saia de seu espetáculo procurando explicações e conceitos para sua dança: ―[...] ‗o que que ele quer dizer com isso?‘, ‗o que que ele quer dizer com aquilo?‘ Acho que eu não procuro isso, entendeu? Tudo que está lá... não têm muitas coisas por trás [...] que não esteja lá, está tudo ali, não tem muito mais, sabe?‖ (2012). De modo diverso, Micheline Torres revela pretender afetar as pessoas da plateia por meio de uma comunicação mais ligada a reflexão. Seu intento é o de provocar pensamentos e falas, algo que provenha de 69 [...] alguma ordem de comunicação, que eu digo, é de diálogo, ou dela com ela mesma, ou ela fala assim: ‗não entendi nada‘, ‗não me afetou em nada‘, ‗não sei para que serve isso‘; ou: ‗ai, isso é ruim‘; ou: ‗ai, isso é bom‘, ‗isso é dança‘, ‗não é dança‘, ‗isso é performance‘, ‗não, isso é teatro‘... algum tipo de diálogo, que seja interno, que seja com uma pessoa no boteco depois... [...] Tenho vontade de afetar nesse lugar, de diálogo, de relação. (Torres, 2012). Ao mesmo tempo, Torres revela que seu trabalho coreográfico Carne (2007) costuma provoca fortes reações no público, tais como apreensão, angústia e nojo. Ela fala sobre seu impacto no público: Eu acho que o Carne tem uma coisa que você faz assim [faz um gesto de repulsa]. [...] Mas se você passa por isso e você vai vendo... ele tem não só uma transformação do corpo, porque vai suando, porque vai brilhando, eu acho que tem humor também quando a coisa fica muito esdrúxula. [...] é uma beleza monstruosa. Mas tem pessoas que falam: ‗olha, não consegui ver‘. Eu fiz aqui no Oi Futuro num evento chamado A teatralidade do humano35, foi bem legal, tinha a Rosiska Darcy de Oliveira falando, a Marisa Naspolini e a Márcia Tiburi36. Depois a Márcia Tiburi escreveu um texto lindo37. E ela falou para mim no final: ‗eu estava assim: eu vou embora, não vou embora, eu vou embora, não vou embora...‘ E ela foi ficando e foi se deixando passar por aquele momento e foram vindo outras coisas [...]. (Torres, 2012). A dança contemporânea como ―bloco de sensações‖ conserva-se a si mesma como percepto e afeto: produz sensações exclusivas, faz passar de um estado a outro, desencadeia estranhos devires (Deleuze; Guattari, 2010, p. 193-200). É necessário ter claro que perceptos não são percepções, mas sensações e conexões que permanecem naqueles que os vivenciam; e afetos não são sentimentos, mas devires que transformam aquele que passa por eles (Deleuze, 1992, p. 171). Pensar num conceito de dança contemporânea implica verificar a ação de corpos em relação, que se compõe num território de fronteiras, de afetações mútuas e diversificadas. A ideia de afecção pode ser útil ao objetivo de desvendar teatralidades contemporâneas na dança, pois os dois enunciados (afecção e 35 O projeto A Teatralidade do Humano reúne ciclos de debates, espetáculos, performances e intervenções artísticas com curadoria e coordenação da jornalista Ana Lúcia Pardo. Torres participou da segunda edição do evento no Rio de Janeiro em 2010: A Teatralidade do Humano II – Subjetividades e Políticas da Cena e do Mundo. Estas e outras informações podem ser encontradas no site www.ateatralidadedohumano.com.br. Acesso em: 20 mar. 2012. Nota da autora. 36 Rosiska Darcy de Oliveira é escritora e jornalista; Marisa Naspolini é atriz, diretora, produtora, professora e doutoranda em Teatro (UDESC); Marcia Tiburi é professora e doutora em filosofia. Nota da autora. 37 Refere-se ao texto No tempo do culto ao corpo, quando ficamos nus? publicado no site da Revista Cult. Fonte: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/10/nudez. Acesso em: 20 mar. 2012. Nota da autora. 70 teatralidade) compartilham da existência de um efeito gerado na mistura de um corpo com outro diferente. Seguindo o pensamento de Espinosa (1992), investiga-se aqui do que uma dança é capaz, qual a sua potência. 1.4 Além do Clichê Sinto que meu barco esbarrou, lá no fundo em algo grande. E nada acontece! Nada... Mansidão... Ondas... Nada acontece; ou tudo já terá acontecido, e estamos assim, tranquilos, em meio ao novo?38 Juan Ramón Jiménez Um clichê pode ser explicado como uma ideia que se repete com alta frequência num contexto, e assim, torna-se previsível. No campo artístico, a ideiaclichê é fixada como fórmula ou modelo consagrado que passa por um processo de reprodução insistente e assim, vira mesmice e obviedade. Desgastada e empobrecida, tem pouca ou nenhuma chance de alcançar um efeito inusitado. Ao contrário, faz da dança um produto padronizado, que utiliza-se de códigos visuais e sonoros aceitos e aplaudidos pelo grande público para garantir a percepção desejada. Este modo de funcionamento diz respeito ao universo da publicidade: há um mundo de slogans sonoros e visuais para cada mercadoria anunciada. Mas em se tratando de perseguir uma dança contemporânea, esta lógica tende a conservar o lugar-comum, impedir questionamentos e mudanças de comportamento. Ao propor discussões sobre cinema, Deleuze explica os clichês como imagens [...] que circulam no mundo exterior, mas também que penetram em cada um e constituem seu mundo interior, de modo tal que cada um só possui clichês psíquicos dentro de si, através dos quais pensa e sente, se pensa e se sente, sendo ele próprio um clichê entre os 38 ―Siento que el barco mio/ ha tropezado, allá en el fondo,/ con algo grande./ ¡Y nada/ sucede! Nada…Quietud…Olas…/ —¿Nada sucede; o es que la sucedido todo,/ y estamos ya, tranquilos, en lo nuevo?‖ Tradução de Marco Antônio Bragança de Matos. Em: Luigi Giussani. O eu, o poder, as obras. São Paulo: Cidade nova, 2001, p. 31. 71 outros no mundo que o cerca. Clichês físicos, óticos e sonoros, e clichês psíquicos se alimentam mutuamente. (1983, p. 232-233). No contexto desta contaminação, homens e danças podem ser reduzidos a uma compilação de clichês. Na dança, há uma inclinação para dispor de estratégias gastas e obtusas, para fazer-dizer superficial e automaticamente o que já foi feitodito. A criação é reduzida a convenções: junção de passos de efeito, sem encarnação nem expressão singular de vida. Arrisco exemplificar alguns clichês estabelecidos como dança contemporânea: o corpo nu em cena, a cena nua, dança sem música, dança com música ao vivo, corridas intermináveis em grande círculo, projeção de imagens, homens descalços vestidos de camisa e calça social, rosto supostamente ―neutro‖ ou ―inexpressivo‖39. Cabe advertir que cada um destes exemplos ou estratégias só pode ser configurado enquanto clichê na ligação que estabelece no próprio contexto de enunciação. De fato, o corpo nu em cena, a exemplo, pode ser utilizado para reiventar uma dança e engajar o público em novas experiências de percepção. Por outro lado, não há como negar que a larga repetição deste recurso ao longo da história por vezes resulta em sua própria perda de potência. O ponto é: reprodução mecânica deste ou de quaisquer outros padrões apenas projeta realidades prontas e opacas. E torna claro uma ausência de reflexão, ou seja, a realização de escolhas por gratuidade, reduzindo o fazer da dança a uma aplicação de receitas e circulação de clichês. No viés contrário, a seleção opera por necessidade e denuncia uma perícia que avança muito além de uma arrumação de imagens. Existiriam outras possibilidades de uso dos clichês? Torres conceitua clichê como um signo que oferece uma leitura imediata, e justifica a utilização de clichês por meio de um interesse demasiado em algumas questões da criação, unido a renúncia de se preocupar com outras especificidades da mesma. A coreógrafa exemplifica: diz que por vezes o coreógrafo tem como foco o movimento e o tipo de construção coreográfica a ser realizada e, deliberadamente, escolhe não se deter na roupa a ser vestida pelo bailarino (Torres, 2012). Neste sentido, Fukushima se reconhece como alguém que utiliza um clichê em cena, e que diz respeito a 39 Falas como essas são bastante comuns: ―a bailarina não tinha expressão‖ ou ―bailarino de dança contemporânea tem cara de nada‖. Logicamente, sabe-se que todo homem é expressivo, manifesta – com ou sem intenção – um estado físico e emocional qualquer. 72 [...] essa história dessa dança contemporânea que é um corpo mais pedestre no estar em cena. Que não usa figurinos assim assado, que usa roupas mais cotidianas mesmo, acho que é um clichê, me vejo dentro dele e não tenho como sair dele, entendeu? [risos] Quando eu penso em roupa... Eu vou usar o que? Fiz uma performance semana passada [...], aí eu ía por um macacão todo preto só para não usar uma roupa normal. Mas eu não consegui. Falei: eu vou ficar normal, com minha roupa do dia-a-dia que eu uso, então esse é um dos clichês. [...] É uma roupa construída mas é cotidiana, é a minha roupa de armário. Isso é um clichê preocupante que eu não sei como fugir. (Fukushima, 2012). Ao mesmo tempo em que Fukushima mostra um desejo de sair do clichê em que se acomoda, é interessante perceber a consciência com a qual maneja o seu uso. Estaríamos ainda diante de um clichê? Eu queria sair mas ao mesmo tempo eu não acho razão dentro da história que eu faço, que é muito esse alguém... esse humano de hoje. Então eu não vejo muito esse humano de hoje usando um ornamento muito distante do que as pessoas hoje em dia usam. É clichê porque eu vejo que muita gente está fazendo as mesmas coisas, entendeu? Eu vejo muitos espetáculos que estão nessa proposta de uma roupa mais normal, vejo isso. Vejo também o clichê de uma luz mais básica, vejo o clichê de um trabalho de grupo... de uma dança de grupo quando os corpos estão sempre muito juntos, aí você não percebe qual parte do corpo é de quem. Eu vejo bastante trabalhos de grupo indo nessa onda, de não saber quem é quem ali, de misturar partes do corpo [...]. (Fukushima, 2012). Por outro lado, o clichê pode ser utilizado propositalmente em cena, ou seja, pode ganhar relevância funcional para construir e fortalecer um pensamento de dança. Como, por exemplo, no trabalho The Last Performance (1999) do coreógrafo francês Jérôme Bel (1964). Aquela fala tremendamente famosa e familiar a todos – ―Ser ou não ser‖, do personagem Hamlet de Shakespeare é citada como dispositivo para capturar e discutir o que se presentifica por meio da intensificação da memória. Recordações são evocadas com a citação de outros clichês, os quais ganham destaque na obra de Bel para nos fazer repensar o lugar e o estatuto da dança40. Na esteira desse pensamento, Torres diz que usa alguns ―clichezões‖ como silêncio, nudez, determinadas músicas e marcas esportivas com alta carga de reconhecimento. Como no caso de Bel, suas escolhas são pensadas e justas a proposição coreográfica na qual se inserem. Ela nota: 40 Sugere-se a leitura do artigo Desfazendo a fantasia do sujeito (dançante): ‗Stil acts‘ em The Last Performance de Jérôme Bel, escrito por André Lepecki e publicado em SOTER, Silvia; PEREIRA, Roberto (Orgs.). Lições de Dança 5. Rio de Janeiro: UniverCidade, 2005. p.11-26. 73 [...] eu sou até rigorosa demais comigo mesma, com o porquê que eu uso cada coisa, sabe? Quando [...] eu escolhi usar um tênis Puma, eu falei: é um tênis Puma, todo mundo vai ver, vai ver que tem uma marca, ele é preto e branco, eu vou procurar na internet onde é que eu compro um tênis bem assim. Estou falando de marca esportiva sim. Então acho que tem esse rigor, eu vejo essa característica de procurar responder as coisas para mim mesma, para ser legível. Mas muitas questões me fogem obviamente [...]. Mas eu sigo com uma minúcia que eu coloco numa questão coreográfica, porque eu gosto muito de pensar as coisas coreograficamente [...]. (Torres, 2012). Torres relaciona com convicção quaisquer o que, como e por que no rol dos muitos procedimentos e opções adotados em seus discursos poéticos. Trata-se de um saber que teoriza com base na experiência pessoal de fazer dança, melhor, de ser bailarina e coreógrafa. De encontrar e possuir respostas a custa de inumeráveis perguntas e rigorosas investigações ao longo dos processos criativos desenvolvidos, em que detalhe algum parece lhe escapar. Neste sentido, a fala abaixo revela o cuidado e o compromisso com o qual Torres se dedica a criação e, de modo particular, a opção por utilizar ―clichês‖, especialmente a nudez, recorrente nos trabalhos solo Carne (2007) e Eu prometo, isto é político (2010)41. [...] não é uma coisa que você fala assim: ‗ah, vou trabalhar com a nudez agora‘. É uma coisa que acontece devido ao que é que você está trabalhando. Então quando eu comecei a fazer o Carne, comecei a pesquisar... Na verdade Carne surgiu quando eu estava fazendo um curso de performance na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio, e aí toda semana os professores davam uma questão para a gente se relacionar com ela da maneira que quisesse, e nesse a questão era: corpo presente, corpo ausente. [...] E aí eu fiquei com essa questão, comprei o frango, trabalhei com o frango, cortei [...], eu comecei a pensar: eu estou me expondo pouco, eu estou propondo uma relação com outro corpo aqui, em que eu manipulo ele, mas o meu está resguardado, eu preciso... eu quero de alguma maneira explorar ele. E aí eu me vi [...] na sala sem roupa. Eu botava a roupa dentro do frango, e já com os elásticos, porque eu já os tinha desde o início, porque eu queria que todos os objetos viessem do meu corpo. Aí eu ficava olhando... e fiz as coisas mais absurdas, eu ficava com o elástico no meu corpo e ficava me movendo na sala... Vou dançar agora? Como é? Eu nua com esses elásticos, vou dançar? O que eu faço? E aí eu descobri os elásticos como modificadores do corpo e aí teve sentido eu estar nua. [...]. Então o nu aí veio e foi se apresentando como consequência da pesquisa que eu estava fazendo, da pesquisa de pensar o ideal de beleza de mulher, manipulação no corpo, manipulação do frango, como é que eu manipulo o meu corpo, vem de uma necessidade do objeto que eu estou me debruçando. E no Eu prometo, isto é político também, ele aparece de uma maneira discreta, eu não me revelo 41 Estes trabalhos são apresentados e analisados a partir das páginas 127 e 137, respectivamente. 74 enquanto mulher, porque isso não é o foco. É uma coisa mais de se despir e a relação com a roupa que vai te dando personalidade, vai te colocando num lugar tal. Então eu acho que a nudez aparece como consequência do que você está fazendo, é claro que eu sempre penso que é um signo também forte e que muitas vezes é uma solução fácil. Eu penso isso dentro do contexto de onde eu estou, dentro da dança contemporânea ou no Rio ou no Brasil ou em outras referências. Eu penso... muitas vezes as pessoas: ‗ah, eu não sei como fazer, eu vou fazer sem roupa‘. Muitas vezes pensando que isso vai chocar, mas eu acho que a princípio não tem nada de chocar só porque está sem roupa. E é claro que eu penso sobre isso também, muitas vezes eu penso: ‗não vou fazer sem roupa, não, não‘. Como é que eu encontro outra solução, porque eu também não quero que vire uma coisa que resolve o meu problema que é: como é que uma roupa te determina, ou te localiza. E vira uma questão como outra ―qualquer‖, entre aspas. Por exemplo, que música que eu uso, se eu vou usar música ou não, se eu vou estar de frente ou não, se as pessoas vão estar me olhando de frente ou não, esse tipo de questionamento de quem está fazendo um trabalho. Não é dado que vai ser num palco italiano, não é dado que tem luz, que a plateia está escura e você está iluminada, então, você questionar os instrumentos que você está colocando ali porque todos eles geram signo, geram leitura. Acho que a nudez é mais um deles. (Torres, 2012). Torres evidencia a necessidade de um artista criador fazer a si mesmo perguntas elementares, pois ao se tratar de dança e arte, nada que diga respeito à composição deve ser tomado como óbvio. Talvez a volta e este início, relativamente simples, colabore para desacostumar um fazer viciado e medíocre. E, ainda, para diminuir a separação entre prática e teoria, considerando que a atitude habitual de questionamento é capaz de nutrir o trânsito entre fazer e pensar. Ainda que se considere um processo de pesquisa em dança bastante intuitivo, e que os rumos de um trabalho apareçam ao longo de sua feitura, especulações podem funcionar como instâncias provocadoras. O coreógrafo Paulo Caldas ressalta a impossibilidade de regular a área da dança e especificar como norma um composto sonoro, espacial, corporal ou gestual. O autor recorda um quadro ―brutal‖ publicado no jornal carioca O Globo, que listava [...] o que era IN e o que era OUT na dança contemporânea: ―música ao vivo: IN; música gravada: OUT; improvisação: IN; composição: OUT; roupas cotidianas: IN; figurinos: OUT; cabelos curtos: IN; cabelos compridos: OUT‖. E, no entanto, nós sabemos que a inquietude pode estar com sapatilhas de ponta num palco italiano, enquanto o clichê, descalço, pode estar travestido de performance ou site specific na rua. (Caldas, 2010, p. 67). 75 Não podemos deixar de notar os excessos de um poder midiático que sugere, sem que percebamos, quais são os modos de acontecimento em si (e na dança) na sociedade. Uma cultura hegemônica, gerada por uma lenta osmose, finda por determinar os limites dos pensamentos. Como nos desobrigar a estar ―IN‖ e não desesperar por reconhecimento? Como não se deixar abater pelo rótulo de ser taxado de ―OUT‖? Quais são as saídas possíveis? Rolnik descreve como o capitalismo contemporâneo mobilizou a força de invenção no conjunto da vida social, fazendo-a trabalhar a serviço da acumulação de mais-valia e criando, assim, ―as condições para um poder de afirmação da vida como potência de variação sem medida de comparação com outros períodos da história‖. No entanto, como alerta a autora, o capital apreende e usa essa força de modo perverso, instrumentalizando-a a serviço de seus interesses. O mundo é transformado em mercado, ambiente em que tudo é reduzido a mercadoria: tanto objetos quanto subjetividades (modos de ser, pensar, imaginar, vestir, enfim, formas de existir). Neste contexto, cresce a identificação com as imagens que a mídia veicula e a necessidade de seu consumo para pertencer ao disputado território de ―subjetividade-luxo‖. Atraente mas vazio de vida, o terreno conserva uma sensação de não-participação da construção da existência e não-pertencimento a nada. E o que resta fora dele? Uma ―subjetividade lixo‖ - cenário da miséria, exclusão, humilhação e risco de morte social (Rolnik, 2002, p. 2-7). Se o poder visa ao seu próprio objetivo, deve governar os desejos dos homens e garantir o consenso. Para tanto, determina, reduz, uniformiza ou extermina desejos. Não é o desejo símbolo da liberdade, na medida em que abre ao horizonte da categoria da possibilidade? O que resta entre o ―IN‖ e ―OUT‖? Anestesia e impotência? Rolnik ilumina a questão ao lembrar que, paradoxalmente, a força de invenção também consegue recolocar-se a serviço da vida, criando territórios singulares regidos por princípios diversos do sistema padrão. Redes se formam entre os desertores e se utilizam de forças heterogêneas para originar processos mantenedores da vida e de suas operações de diferenciação (2002, p. 8). Se a esfera da vida se confunde com a da dança, é preciso atentar para não fixar tal prática artística na lógica do ―IN‖ e ―OUT‖. Rolnik sugere que as ações artísticas se façam 76 [...] a serviço da reconexão com a realidade viva do intensivo, condutoras de processo, produtoras de acontecimento, ou melhor acontecimento elas mesmas. [...] performance de uma potência criando um cenário singular para os signos que se apresentam na realidade viva das intensidades; ritual que propicia identificação com o exercício de conexão com o processo vital e de criação de cenários para seus signos, no lugar da identificação com seus produtos, reificados, empalhados, mortos; qualidade de presença que promove um desvio efetivo no modo de subjetivação dominante. (2002, p. 910, grifo da autora). Em um texto para o jornal O Estado de S. Paulo, Helena Katz se vale das apresentações do espetáculo Ikiru com o japonês Tadashi Endo (1947) no Brasil, para pontuar importantes questões relacionadas à ―tipificação do butô‖ neste país. No típico, diz Katz, ―a parte vale pelo todo‖. Ou seja, o butô é redutoramente compreendido como um mostruário de caras, bocas e corpos maquiados de branco, cabeça raspada, olhos revirados. A crítica enuncia: A experiência de assistir a Ikiru foi a de viver um potente exemplo da associação entre mundo das celebridades e entusiasmo colonizado. A dança de Tadashi Endo nesse solo, que tem como subtítulo Um Réquiem para Pina Bausch, é a operação do típico simplificada ao mínimo possível. Pina Bausch passa a ser a camisola de Café Muller, Kazuo Ohno passa a ser uma boca aberta num rosto olhando para cima. O que acontece entre um momento e o outro, em termos de movimento, é da mesma natureza: flashes fotográficos de gestos e atitudes clichês. (Katz, 2011). O trecho sinaliza o que significa buscar captar uma dança por meio de um clichê. Ao falar sobre ―o que resta do butô‖, Greiner reforça a proliferação de estereótipos do butô fora do Japão, sob a forma de supostos aforismos e modelos estéticos (2010b, p. 226). Quando clichês são ofertados como certezas, colaboram apenas para afirmar e veicular uma ideologia da reprodução. Ao abordar a intensidade e rapidez com que os clichês são produzidos no campo de uma dança dita contemporânea, a professora Rosa Primo constata uma ameaça de paralisia criativa. O paradoxo é que se trata de uma dança composta na hibridização de estéticas e técnicas, com processos abertos que buscam afastar condicionamentos corporais e quebrar modelos. De acordo com a autora, o entorpecimento se inscreve no modo de abordar os recursos disponibilizados, os quais operam, novamente, na lógica da reprodução de esquemas e estruturas. Primo nota que se antes as terapias corporais e os estudos da educação somática eram considerados alternativos, tornaram-se moda e moldes prontos para o 77 consumo e aplicação. A questão que se impõe ao final de seu texto é a de como desenvolver atos de resistência aos clichês dos corpos e de seus movimentos no mundo (2005, p. 107-120). Novamente, vem à tona que o problema acerca dos clichês é a articulação superficial que os forma. Ao tratar desse tema, a diretora de teatro Anne Bogart salienta o lado positivo dos estereótipos e considera prudente concebê-los como aliados e não como inimigos. Sugere penetrar nas tradições e imagens herdadas para transformá-las por meio da interação. Para um criador, trata-se de enfrentar uma tarefa concreta que diz respeito ao conhecimento e a intensificação da história, a possibilidade de tocar o passado e reavivá-lo. ―Talvez a obsessão com novidade e inovação esteja equivocada‖, adverte a diretora (2011, p. 97-113). Fukushima concorda com a sentença de Bogart e desconfia da tentaviva de criar o novo: Eu não busco [...] inventar algo que nunca ninguém fez. Acho que isso hoje em dia até não cabe mais. Eu busco não repetir os meus próprios padrões, talvez, é uma invenção mais particular do meu jeito de dançar, entendeu? Eu sei que vai sempre permear uma coisa que é comum, assim no meu jeito de dançar, mas eu busco sempre me reinventar, sabe? Reinventar esse meu mesmo jeito de se mexer. Isso é uma reinvenção, talvez mais para mim mesmo, do que para o mundo... Senão a gente pira, né? Porque tudo já foi feito parece... (2012). O bailarino e coreógrafo Vanilto Lakka afirma que a concepção de clichê arrasta uma noção histórica. Quando escolhe dançar um trabalho criado há cinco anos ou mais, ainda que não o considere como algo fechado, Lakka diz que respeita certo nível de definição e o momento da criação. Observa: ―[...] não vou matar o trabalho porque acho que agora muita gente tem respostas parecidas com ele‖. Quando em novo processo de montagem, o coreógrafo diz preservar uma atenção para detectar [...] em que medida ou quanto algumas soluções estão sendo repetidas. Porque eu acho que essa repetição interfere na percepção do que estou fazendo, então por mais que eu goste de um tipo de ideia, de um tipo de resolução, fico tentando perceber que se eu for naquela direção, eu vou ter uma leitura x porque muita gente já foi naquela direção. Então, em alguma medida, tenho que jogar com isso, sabe? [...]. (Lakka, 2012). Ahmed adverte que para percorrer novos caminhos há uma necessidade mínima: ter a referência das vias consideradas ―normais‖. Exemplifica: ―Referência, 78 para você ir para o preto você tem que ter referência do branco‖. Para o diretor, descobrir algo novo diz respeito a encontrar uma solução para algo que você se propõe agora. Ao comentar este tópico, ele menciona a última montagem do Cena 11: Nossa proposta é Carta de amor ao inimigo. O que que é isso? Começo a propor várias questões que precisam de uma solução. Essa solução começa a ser investigada do zero àquilo que se apresentou como pergunta, porque antes essa pergunta não existia. Tu não podes dar uma formulação pronta para responder algo que começou agora. Naturalmente isso pode acontecer no início, que é o que acontece, o corpo começa a responder com os padrões dele porque acha que dançar é fazer isso. Por que a gente é um grupo diferente nesse sentido? Porque por mais que se estabeleçam parâmetros que as pessoas possam identificar, cada vez que a gente faz um trabalho novo, eu vejo com clareza que ele se manifesta de forma bem diferente. Porém é feito pelo mesmo núcleo investigativo, mas que não tenta fazer disso uma formulação estética de continuidade, e sim formulação de pensamento e definições de continuidade. (Ahmed, 2012). Uma composição articula um saber a um não-saber. Nesta ligação, entre criar algo novo e repetir algo existente, está em jogo um dilema ou desafio interessante, bem pontuado por Lakka: permanecer numa fórmula ou construir uma assinatura. O artista assinala que ―dependendo de como você repetir, vão interpretar que você está fazendo uma fórmula‖ ou ―criando uma assinatura‖. Se é verdade que tal escolha ―depende de quem vê‖, como afirma Lakka (2012), depende também de quem faz. Pois é exatamente no desvio, ainda que sutil, de um modo já estabelecido, que nasce uma dança contemporânea: talvez ela nem configure movimentos inéditos, mas, de alguma maneira, associe ou desperte ideias e possibilidades originais. Corpos amarrados a comportamentos pré-estabelecidos traduzem vidas sem vida - separadas de si mesmas, ao mesmo tempo em que cenas desfilam clichês já experimentados e produzem imagens mortas. Uma dança-clichê oferece um corpo tornado passivo e denuncia o inverso do vivo, quer dizer, aquele que age. Para se libertar dos clichês é preciso, em algum momento, desprezar as formas tradicionalmente impostas e rejeitar um único sentido de realidade – um senso comum já definido. Tal deslocamento pede por outras relações entre corpo e contexto, por outros modos de abordar o corpo, por experimentos ligados a maneiras inaugurais de perceber e ser afetado. Se as configurações possíveis do 79 vivo são múltiplas, por que ajustar o visível e o pensável em associações regulamentadas de dança? Como resistir à instrumentalização e incorporar algo novo? Por que não colocar em crise o corpo que dança numa radical experimentação, capaz de subverter clichês e estereótipos? No artigo intitulado Por um estado de invenção, a coreógrafa Andréa Bardawil disserta sobre as condições para permanecer num modo de ser e estar constantemente criativo, e coloca em questão a própria potência da vida no contexto da sociedade atual. Segundo a autora, contraditoriamente, os mesmos homens atarefados, ansiosos, hiperativos, superprodutivos, submersos em realidades de urgências e preocupados com resultados eficazes da lógica capitalista, são conduzidos a uma condição de paralisia e inércia criativa. Habituados ao consenso, inseridos num grande mercado de imagens conhecidas e tendências homogeneizantes, administram demandas e tornam-se produtivos, mas não inventivos. Neste ponto, Bardawil salienta uma diferenciação, em termos de pensamento, ação, atitude, espaço e temporalidade, entre produtividade e criação: Quem produz padroniza, repete, massifica, acelera. Tende a converter-se numa identidade dura, imutável, bloco impenetrável de a prioris e pré-conceitos. Na maioria dos casos, corpo enrijecido, saberes cristalizados, condição plástica pouco permeável ao contágio e ao fluxo dos afetos. Quem cria instaura o inusitado, desestabiliza o previamente organizado, em si e por si. Configura novos territórios, terra firme em meio a mar revolto, tempo breve de repasto, estabilidade provisória que possibilita alguma respiração, até que ocorra nova desterritorialização. Atualiza-se numa identidade nômade [...]. (2010, p. 248-253). Como abandonar os clichês e criar? Pois a questão parece ser a de voltar a uma dança menos assimilável, conectora de poesia e política nestes tempos de desencanto. Quando uma dança se torna trivial, vai sempre na mesma direção e reproduz o que já foi dito. Para arrancá-la do clichê, é preciso devolver seu poder de ser diferente. Antes de tudo, é preciso aprender a usar essa capacidade – que é de todos, de realizar experiências. Colocar-se em caminhos desiguais para verificar as próprias virtualidades. Na esteira desta consideração, recordo o documentário Dançar o invisível42, em que o coreógrafo japonês Saburo Teshigawara aborda a dança como um modo diverso de ação e contato com o real. Teshigawara revela seu 42 Saburo Teshigawara, Danser l‘Invisible (França, 2005). Este documentário de Elisabeth Coronel integra a coleção francesa de 23 filmes intitulada Paisagens Coreográficas Contemporâneas. 80 interesse de estar rodeado de coisas que não conhece, de dar espaço ao acaso e voltar-se ao desconhecido, de tentar compreender novamente o que já pensa conhecer. Em uma de suas falas, testemunha sua estratégia de deixar-se perder no caminho, andar por ruas e lugares que não conhece e realizar novas experiências. A dança, para o coreógrafo, não é um objetivo a ser atingido, mas um começo a ser achado, ―assim como um vapor que surge‖, diz. A compreensão de Teshigawara sobre a arte e a vida faz entrever que toda dança ainda está por fazer. O coreógrafo exemplifica o que seria permanecer num ―estado de invenção‖. De acordo com Bardawil: [...] é importante não perdermos de vista, por um segundo sequer, que tudo o que fazemos/articulamos/propomos está diretamente ligado a nossa forma de habitar o mundo, seja com a lógica da produtividade-execução, seja com a da criação-invenção. Subverter concepções artísticas ou sobre a arte é subverter formas de habitar, subverter modos de vida. [...] Permanecer em estado de invenção é abrir-se aos fluxos, é tornar-se um território plástico, permeável ao contágio, desenvolvendo antivírus contra todo preconceito e absolutismo. [...] Permanecer em estado de invenção não é uma condição de estabilidade. Pelo contrário: é uma condição de mobilidade, é a própria condição de andar, nômades, porém sóbrios [...]. (2010, p. 259-265). Na função de professor e coreógrafo, Ahmed, constata que a todo momento estamos nos habilitando para algo e, por vezes, nos desabilitando para outra coisa. Ele considera que um tipo de condicionamento, de treinamento ou de exercício cognitivo qualquer, elege algumas possibilidades e bloqueia outras. A tarefa a que ele se propõe é a de [...] estar sempre atento aquilo que parece que é natural do fazer e que na verdade é um filtro treinado, é um filtro colocado, é um filtro, eu acho que é natural, mas não existe isso. O que é natural depois que a gente nasce, o que que é natural? [...] eu também estou um pouco cansado dessa dança do casual, dança do sem figurino... Porque não existe sem figurino! Se você está com essa roupa aqui, isso vai ser o seu figurino. Não existe essa causalidade [...]. Essa é uma discussão que eu acho atual, essa insistência da dança dos anos 90 e dos anos 2000 que acabou saturando essa casualidade, esse naturalismo, esse minimalismo que agora eu acho falso, porque ele já se institucionalizou como fórmula de fazer, fazendo da metáfora como se ela fosse uma coisa kitsch [...], como se a grande ação intelectual fosse falar sobre a realidade fingindo que tudo é casual, natural e que as coisas... bailarinos não-bailarinos, nãobailarinos bailarinos, aquele papo que para mim não interessa mais porque já morreu, me interessa realmente bailarinos. O que são bailarinos? Aí a gente vai treinar, quais são os bailarinos 81 necessários, qual é o tipo de treinamento? É outra coisa, me interessa gente que vai produzir dança dentro de um lugar que é chamado de palco, palco italiano, que tem uma plateia aqui e outra ali. E aí sim eu posso gerar minhas metáforas sejam elas surrealistas, realistas, hiperrealistas ou naturalistas [...] (Ahmed, 2012). Afinal, como se colocar num estado de invenção? Rosendo considera que um incômodo é importante para despertar e chegar neste lugar (2012). Já Ahmed, diz que é como estar em ―estado de alerta‖ para com um objeto referencial claro, quer dizer, um trabalho específico quando em processo de criação: Tem que estar em estado de alerta para gerar criação, que é gerar coerência, encontrar coerência, com um objeto específico que é... Qual é o trabalho? O que significa Cartas de amor ao inimigo? Toda hora eu fico... aquilo é o objeto fixo, aquilo é um satélite, e não pode ser duro, tem que estar aberto, nem sei como é que eu vou concluir, mas aonde eu gostaria de chegar [...]. Você entra em estado de alerta [...]. Sou muito disperso também. Eu posso estar pensando em várias coisas e aí aquilo se dispersa e eu não consigo produzir rápido. Tenho que produzir uma coreografia de dança, não posso só ficar falando para os bailarinos, viajando, não posso brincar com isso, não posso perder tempo, lugares para ensaiar [...], então eu tenho que ser ágil nisso também, porque estado de invenção às vezes você entra num estado de ―viajação‖, não pode, tem que ter foco. (Ahmed, 2012). ―Camelos também dançam‖. Tal é o nome da tese de doutorado do professor Jardel Sander da Silva. Surpreendente e instigante, salta aos olhos: vai contra os jargões acadêmicos. Título e textos colaboram para reforçar um pensamento da dança como experimentação no corpo, como possibilidade para despertar no corpo o que teima em fazê-lo dormir, ampliar suas falas. Para o autor, tal prática opera no corpo [...] de modo a empurrá-lo para fora de si mesmo, para algum limiar, rumo a uma transfiguração. E o grande mérito da dança, em suas experimentações, é o de designificar o corpo [...]. À dança cabe desevidenciar e virtualizar. Mas isso é um trabalho de artesão. Pois é na minúcia do movimento, na sutileza da sua força que se vai desatarraxando os clichês sobrepostos no corpo, e a inevitabilidade do concreto. [...] Mas, se estamos atolados em clichês, que tipo de relação seria possível senão a de estranheza? Estranhar o corpo, estranhar o espetáculo do corpo... talvez seja já um bom começo. (Silva, 2006, p. 121-122). 82 Devo dizer, fazendo um trocadilho com a máxima de Katz, que o contemporâneo é o que impede a dança de morrer no clichê.43 Sou apenas uma entre tantos colegas que testemunham uma crescente falta de vontade para assistir espetáculos de dança. Há um cansaço evidente, um tédio e uma descrença no possível: tudo aparece como clichê, como algo já visto, já formatado, já feito e reconhecido. O acontecimento parece não poder acontecer. ―O possível, senão sufoco‖, grita Deleuze (Apud Zourabichvili, 2000, p. 337). Entre tantas danças clichês, eis que, felizmente, surge uma dança contemporânea. Para me aproximar de uma dança contemporânea, ofereço discussões acerca de corpos que dançam e teatralidades emergentes. Em primeiro lugar, considero que na dança contemporânea cada um faz seu próprio corpo. Para definir uma corporeidade, cada criador busca determinada prática física, propõe modos de empreender uma experimentação capaz de reconstruir a si mesmo e gerar vida a um corpo novo. Trata-se de buscar um corpo rarefeito, dono de inversões e livre de automatismos. Um corpo que deseja ser artista de seu próprio desejo e persegue um novo campo de possíveis. Em segundo lugar, procuro desvendar afetos produzidos em algumas criações contemporâneas, o que implica em observar modos de relação entre observados-observadores como caminho para encontrar possíveis poéticas da cena. Perceber efeitos ou descobrir teatralidades. O contemporâneo na dança institui a pluralidade e o deslocamento dos códigos, a ambiguidade das significações. Sem referentes essenciais, inventa seus próprios parâmetros. Desabitua o espectador. Introduz o acontecimento. 43 Helena Katz. A dança é o que impede o movimento de morrer de clichê. In: Estélio Dantas (Org.). Pensando o corpo e o movimento. Rio de Janeiro: Shape, 1994. p. 47-51. 83 2 COMPONENTE: CORPOREIDADE Por que não caminhar com a cabeça, cantar com o sinus, ver com a pele, respirar com o ventre [...]. Substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação.44 Gilles Deleuze e Félix Guattari Axioma: o artista contemporâneo na dança quer construir para si um corpo criador e conector de desejos e vibrações. Não mais um corpo-suporte, mas um corpo-matéria que produz acontecimentos e distribui intensidades. Um corpo tornado fluxo. Um corpo que devenha-outro. Uma dança contemporânea visa um corpo como território de experimentos e conjunto de práticas que não pára de se fazer. Entende um corpo como meio de exploração, incessante movimento, contínuo processo, abertura a conexões. Tal corpo afirma sua existência na exaltação e produção da diferença em detrimento à formação de uma identidade fixa. Sendo assim, um corpo de uma dança contemporânea é aquele que pensa e repensa a vida (pois é revelador de outros conceitos de vida), mais próximo ao paradoxo, mais distante do senso comum e da lógica normalizadora. Ao levar em consideração a vida como potência, tal corpo tende permanentemente a acordar a si mesmo, na medida em que busca se libertar das individuações disciplinares que formatam os corpos. Por que o contemporâneo precisa de outras corporeidades? Porque não lhe serve um corpo trivial, pronto, único, determinado por modelos sensório-motores e funções fixas. O contemporâneo busca a polivalência dos corpos, transitórios e indeterminados, capazes de sensações multiplicadas e intensidades extremas. Procura a constituição da diferença na mistura, na variação, na potência. A proposta deste corpo é a de compor novos movimentos, anunciar singularidades. Trata-se de um corpo que contém uma multiplicidade de corpos virtuais, é não-óbvio, transformador do tempo e espaço, perseguidor de uma outra dimensão, desencadeador de novas percepções, fonte de todo tipo de paradoxo. 44 Gilles Deleuze e Félix Guattari. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, v.3. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996, p. 10. 84 Espinosa define um corpo por seu poder de afetar e de ser afetado, cada corpo é um ―modo‖ (não um sujeito, uma substância, uma forma, uma função), quer dizer, uma relação complexa de velocidade e lentidão. É, então, necessário uma longa história de experimentação para descobrir a capacidade de afetos de um corpo (ninguém sabe de antemão os afetos de que é capaz). É somente em suas relações com o mundo que um corpo descobre a força de seu existir. Trata-se, assim, de saber quais relações compõem potências mais intensas (Deleuze, 2002). O artista contemporâneo vê no enigma do corpo um estado especial para explorar e compreende a dança como um ato neste corpo, ou seja, o corpo que dança é o próprio realizador da ideia que comunica. Esse entendimento é o cerne da tese de Jussara Setenta (2008), que apresenta a dança de um corpo como uma fala distinta do mesmo, cuja fala não recai sobre algo fora da fala, mas inventa ―o modo de dizer‖. Amparada pela teoria dos atos de fala do filósofo John Langshaw Austin (1911-1960), a autora destaca a modalidade do ―fazer-dizer‖ para descrever a propriedade da dança de criar a própria fala de acordo com o que está sendo falado. Nesta acepção, a dança contemporânea necessita inventar um modo singular do corpo ―dizer‖, já que suas ideias estão localizadas em seu próprio fazer. Os enunciados performativos da teoria dos atos de fala de Austin (1976) ajudam a esclarecer o funcionamento de uma dança que se faz contemporânea, a libertá-la da necessidade de descrever e explicar suas ações, da inevitabilidade de interpretar seus gestos e atribuir significados aos seus movimentos. Pois tal dança tem um modo de realização bastante específico e só existe no jeito particular de seu corpo - matéria irredutível a uma função instrumental qualquer e inapreensível em sua totalidade. Neste contexto, o corpo coincide com seu enunciado e sua exigência de ser. Nas danças contemporâneas consideradas nesta tese, podemos encontrar corpos que não se fixam em formas, mas que se constituem como efeito de seu próprio ato, como processo de ressonância. São corpos performativos por excelência: modelam a si mesmo, falam e dizem de si mesmos (não representam nada nem ninguém), são desierarquizados e desestabilizadores. São corpos que apenas têm uma identidade construída a cada ação: não expressam, apenas performam. Ao explicar o termo performatividade - cunhado por Austin (1976), a professora alemã Erika Fischer-Lichte fortalece a ideia: atos performativos (como atos corporais) são ―não-referenciais‖, porque não se referem a condições pré- 85 existentes, tais como uma essência interior, uma substância ou algo a ser supostamente expresso nestes atos; não há identidade fixa e estável que eles devam expressar45 (2008, p. 27, tradução livre da autora). Como fazer um corpo vibrar? De que modo é possível modificar comportamentos, transformar hábitos, incorporar outras vidas, fazer um novo corpo, sensibilizar para o não-habitual? Como pensar um caminho para o que (ainda) não existe? Como iniciar um processo para o desconhecido? Quais condições são pertinentes para a construção de uma corporeidade diversa? Como criar para a dança um corpo compositor da diferença? Fazer uma dança ser no que ainda não é? Segundo Gil, o movimento dançado constrói um corpo paradoxal quando esse movimento libera no corpo uma forte intensidade cinestésica: esvazia o corpo de seus órgãos, desestrutura o organismo, libera afetos, dirige o movimento em direção à periferia do corpo (à pele), torna a respiração quase dérmica, faz a pele vibrar com os sons, enxerga na superfície (2009, p. 103). Na esteira deste pensamento, um corpo outro é gerado por estados singulares de percepção do próprio corpo em interação com o ambiente. Gil apresenta a imagem da Fita de Möebius46 para compreender a construção de tais movimentos no corpo. A faixa, símbolo do infinito, é uma figura paradoxal: espaço-tempo-ação desdobram-se sobre si mesmos, tornando-se simultaneamente dentro e fora, recusando qualquer fixidez. Como subverter um corpo, formá-lo e deformá-lo em sua elasticidade para torná-lo acontecimento é equação complexa e, talvez, impossível de ser expressa verbalmente. Há, para a dança, um fazer que tende a convergir interior e exterior numa continuidade (per)formativa geradora de um corpo paradoxal. Habitualmente, a construção do corpo que dança pode operar tanto a partir do aprendizado de uma técnica cujos movimentos provêm de um modelo pronto e codificado, quanto na escolha de um método ou caminho exclusivo para atender objetivos criativos únicos. Em ambos os casos, há o propósito de treinar para ―ampliar as competências físicas 45 “Performative acts (as bodily acts) are ―non-referential‖ because they do not refer to pre-existing conditions, such as an inner essence, substance, or being supposedly expressed in these acts; no fixed, stable identity exists that they could express". 46 O nome faz menção ao matemático e astrônomo alemão August Ferdinand Möebius (1790-1868), que dedicou importantes estudos ao objeto. 86 e morais‖ do artista, pois o contemporâneo entende o treinamento como ―abertura para o mundo, uma descoberta da plasticidade de si no trabalho de criação [...]. Há uma inteligência do corpo como há uma corporeidade do pensamento‖ (Le Breton, 2000, p. 203). Interessa aos artistas contemporâneos um corpo que pensa dança. Mas o que é pensar? Para Ahmed todo pensamento é ação (2012). Fukushima define sua dança ressaltando a fusão entre dançar e pensar. Conceitua seu trabalho como dança no sentido ―mais genuíno da palavra mesmo‖, mas sublinha que faz ―uma dança dançada mas que tem todo um conceito junto, que alia junto, é uma síntese de como eu penso e danço, mas isso é junto, o pensar e dançar, são a mesma coisa‖ (2012). A tese de doutorado da professora e crítica Helena Katz concluída em 1994 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mais tarde publicada como livro pelo FID Editorial (2005), colaborou para divulgar um conceito de dança que enfatiza a representação por similaridade dos desenhos neurais do pensamento por todo o corpo em movimento. Intitulada Um, Dois, Três. A dança é o pensamento do corpo, insiste na não-separação entre corpo e mente, e natureza e cultura. A ênfase na codependência entre essas instâncias também é fortalecida com a difusão da Teoria do Corpomídia, proposta por Katz e Greiner (2008). A definição de corpomídia enfatiza o caráter provisório do corpo e do ambiente, os quais se modificam simultaneamente por meio das trocas permanentes que fazem. Mais uma vez, se sobressai um entendimento do corpo como construção: aberto e mutável, infixo, temporário, não-determinado a priori. Corpo cujas qualidades e potências dependem das próprias possibilidades de relação e encontro. Impõe-se a pergunta espinosiana: o que pode um corpo? Como produzir novos modos de percepção e afecção? Tal é a busca da dança contemporânea ao jogar com a variação, metamorfose e plasticidade do corpo, ao deslocar o corpo do domínio do real para entrar no do potencial. Pois ―potencialmente o corpo existe em todos os sentidos imagináveis. Sem esta nova evidência, como compreender o progresso do treinamento, o fôlego extra, o estar em forma, a explosão de vida, a adaptação, a euforia que se sente ao ultrapassar a dor e a própria virtude?‖ (Serres, 2004, p. 47). 87 Hoje, entende-se que um ―artista técnico‖ é aquele capaz de atravessar a mecanicidade do gesto para fazer transbordar as potencialidades do corpo. Neste contexto, a técnica é percebida como produção de poiesis, busca ultrapassar um caráter instrumental relacionado a mera aplicação de procedimentos causais, bem como, a execução formal de exercícios e passos sequenciados. Ao invés, a técnica é caracterizada como consciência, reflexão, inventividade e individualidade a serviço da transformação. Tal conhecimento abarca uma experiência e permite que o movimento ocorra como ação, e não como representação mecânica, ou seja, a possibilidade de expressão está no modo de comportamento do próprio corpo que dança. Há um retorno à origem da palavra técnica: do grego techné, cuja tradução é arte, realização que combina conhecimentos e experimentações. Aqui se afirma, portanto, a coincidência dos termos técnica e arte (Wosniak, Meyer e Nora, 2009). Práticas técnicas na dança investem os corpos de saber e poder. A noção de treinamento está usualmente associada a uma prática sistemática e regular de exercícios para a aquisição de habilidades e aperfeiçoamento técnico. Vincula-se a modos de formação, especialização e construção de conhecimentos para experimentação de um corpo outro. No senso comum, o termo poder é associado a uma função negativa e redutora que corresponde somente à repressão, censura, exclusão e impedimento. Foucault (1979) resignifica este entendimento ao definir poder como relação de forças, e argumentar que a virtude do poder reside na produção de efeitos positivos que brotam do desejo de conhecer e saber, pois: O poder, longe de impedir o saber, o produz. Se foi possível constituir um saber sobre o corpo, foi através de um conjunto de disciplinas militares e escolares. É a partir de um poder sobre o corpo que foi possível um saber fisiológico, orgânico. O enraizamento do poder, as dificuldades que se enfrenta para se desprender dele vêm de todos estes vínculos. É por isso que a noção de repressão, à qual geralmente se reduzem os mecanismos do poder, me parece muito insuficiente, e talvez até perigosa. (Foucault, 1979, p. 83). Foucault (1979) pronuncia que relações de poder são fenômenos complexos. De um lado, a consciência e o domínio do próprio corpo são adquiridos pelo efeito do investimento do corpo pelo poder: por meio de um trabalho insistente, obstinado e meticuloso (como exercícios, musculação, cuidados, etc.) o corpo satisfaz seu próprio desejo (de beleza, saúde, etc.). De outro lado, quando o poder produz um efeito como consequência direta de suas conquistas, emerge uma reivindicação do 88 próprio corpo contra o poder, ou seja, o que torna forte o poder passa a ser o motivo pelo qual ele é atacado. A evolução dos corpos que dançam não escapa desta lógica, pois o poder de dançar é vinculado à preparação e conformação de um corpo, o qual trabalha para alcançar um ideal. Via treino o poder penetra e é exposto no corpo que dança. E momento após momento, um novo modelo é ditado como irrepreensível, surgem outros padrões de corpos e meios para investi-los de poder. Em sua tese, a professora e diretora teatral Maria Brígida de Miranda (2010) analisa diferentes práticas pedagógicas e os usos de tecnologias disciplinares para a produção de corpos com comportamentos e poderes específicos. O conceito de ―corpos dóceis‖ de Foucault (1975) é explorado pela autora para refletir sobre processos de treinamento na construção de corpos especializados, eficazes e úteis. No estudo de Miranda (2010), verifica-se como a disciplina corporal de um artista é gerada por meio de sistemas de comando que se equiparam àqueles utilizados no exército. Pois assim como um soldado prontamente obediente, o artista cênico é acostumado a responder a um acionamento qualquer daquele que comanda o treinamento (diretor, coreógrafo ou professor). Frequentemente, uma rotina estabelecida para aquisição de habilidades físicas normatiza comportamentos e homogeneíza homens e mulheres, pois que ambos executam os mesmos exercícios e tarefas. No caso de um grupo de teatro (e de modo similar de dança), o valor de um corpo também se relaciona a sua capacidade de se adaptar e integrar a outros corpos (Miranda, 2010, p. 75). Tal composição de forças é o próprio modo de constituição de um poder. Por outro lado, são muitos os profissionais das artes do corpo que trabalham a noção de treinamento para além de uma transmissão mecânica e imitativa de técnicas e modelos. Neste sentido, a autoridade se faz num processo de orientação que visa atribuir maior autonomia ao artista. Questionam-se as práticas pedagógicas autoritárias, a solicitação desenfreada do fazer mais e melhor, a dor como parâmetro normal na evolução do aprendizado. Quando o foco é o desenvolvimento histórico da dança contemporânea, não podemos esquecer as diversas abordagens formativas agrupadas no campo da educação somática. Trata-se de uma série de métodos diferenciados de conscientização a respeito do corpo, alguns muito conhecidos, a exemplo de Feldenkrais, Eutonia, Body Mind Centering, Antiginástica e Técnica Alexander. Cada sistema desenvolveu estratégias pedagógicas e 89 procedimentos próprios. Mas apesar das diferenças existentes, todos compartilham do conceito de corpo como experiência e subjetividade. Têm como proposta o despertar da consciência corporal e percepção do movimento, a partir de abordagens que articulam diferentes aspectos: motores, sensoriais, cognitivos, afetivos, entre outras possibilidades relacionais entre corpo e ambiente. Neste terreno, o treinamento [...] é um trampolim para se ir além do meramente físico; seus procedimentos podem parecer opostos, mas todas elas, por caminhos diferentes, pretendem fazer com que o ser humano reconquiste sua humanidade e inteireza, quase sempre abalada por regras rígidas e anacrônicas de educação. (Azevedo, 2004, p. 123). Para Fortin, a pedagogia da educação somática desafia o discurso dominante fundado na autoridade do coreógrafo ou professor de dança. A autora alerta que se por um lado a pertinência de inserir a educação somática na formação de dança é cada vez mais reconhecida, por outro, sua presença no interior das instituições é [...] sempre frágil, instável e ameaçada, porque ela não participa da mesma maneira da edificação do corpo glorioso, invencível e produtivo do discurso dominante. As práticas institucionalizadas do meio profissional e pré-profissional funcionam ainda frequentemente conforme uma pedagogia autoritária, que faz a promoção de corpos dóceis a serviço de uma imagem estética que não serve sempre para o bem-estar dos dançarinos. (Fortin, 2011, p. 31). Ainda que a prática somática seja potencialmente emancipadora, quer dizer, uma alternativa ímpar de resistência ao discurso dominante na dança, cabe lembrar que também ela não escapa do risco da tirania e entorpecimento, implícito em qualquer mecanismo de transferência de conhecimento. Pensar a formação em dança é, desde sempre e no mínimo, problemático. Greiner coloca uma pergunta fundamental: ―como formar um coreógrafo/pensador no mundo contemporâneo?‖ Ao discutir a presença da arte na universidade, ela delineia uma resposta: acredita num currículo que aposte na ―diluição de estrutura de disciplinas fixas‖, numa prática que funcione como germinadora de questões e que reconheça a plasticidade de suas relações (2006, p. 31-34). Como estudar dança? Qual a diferença entre uma pessoa que frequenta cursos técnicos permanentes de alguém que realizou poucas aulas? De uma pessoa graduada em dança e alguém que não frequentou tal faculdade? Obviamente, as 90 diferenças existem e precisam ser consideradas em seu próprio contexto, singular e complexo, de modo bastante atento. Ao constatar a grande quantidade de produções de dança nos dias de hoje, Katz pondera que os editais de apoio são demasiadamente ―genéricos‖ e igualam quem tem ―um dia de formado‖ a ―mil anos de formado‖. Seus argumentos designam a postura de presunção que pode nascer com o desconhecimento: À medida que todos podem, todos se sentem capazes de poder. Somado a isso, há um traço cultural da nossa sociedade que se baseia num entendimento de que cada vez mais é o mundo do eu. Há uma autoautorização que funciona como regra geral. Todos nós estamos autorizados ao que quisermos. Você põe no seu Facebook o que você quiser. Isso é muito bom, mas, ao mesmo tempo, nos estimula cognitivamente a práticas cuja transferência para outros domínios já não é tão boa. Publicar minhas ideias lindas e maravilhosas no Facebook é diferente de fazer um espetáculo porque acho que minhas ideias são lindas e maravilhosas. Recentemente, alunos meus de graduação, muito jovens, disseram para mim: ‗Helena, a minha metodologia de ensino, a minha pesquisa, a minha linguagem...‘. Isso não acontecia antes. Porque de fato ele acredita que o mundo começou na hora que ele começou no mundo. Antes, você não se aventuraria a se manifestar em algo que você não conhece direito. Mas agora você se aventura. Em termos artísticos, isso tem consequências. Aventurar-se é muito desejável, sem isso a gente não sai do lugar. Mas se aventurar por um terreno que você já mapeou é diferente de aventurar-se pelo ato de aventurar-se, acreditando que não se faz necessário conhecer nada. Então é muito desagradável precisar dizer para alguém que aquela ideia genial, maravilhosa, não é exatamente dele... A gente está cada vez mais habituado ao instantâneo, à mensagem que acabou de chegar, ao que está bombando agora no Youtube. (Katz, 2011). O que você conhece? Quais são as suas referências históricas? Ao invés da mera acumulação de informações fragmentadas, trata-se de valorizar um processo de conhecimento capaz de favorecer uma experiência íntegra e formativa de dança. No campo denominado pelo senso comum como ―dança contemporânea‖, cresce a experimentação vazia (a possibilidade de um fazer sem sombra de reflexão) e o autodidatismo. Esta total desorientação gera trabalhos criativos frágeis e inadmissíveis. Que tal trocar a ingenuidade passiva por uma atitude ética de busca por maior educação e auto-crítica? 91 A bailarina e coreógrafa Micheline Torres tem formação em dança clássica47 e releva que, apesar de ―super importante‖, é apenas ―um tipo de formação, não é aquela história de que o balé te dá tudo não, é a base de tudo não, ele é uma técnica‖. Ela considera que o trabalho realizado com diferentes coreógrafos e pessoas ligadas ao meio também foi ―totalmente formador‖, ainda que a dinâmica de aprendizado difira de uma escola. Ressalta: ―não é uma escola que tem dividido: aula de vamos esticar linóleo. Quando você trabalha com alguém, você tem aula de vamos esticar linóleo, aula de conversar com as pessoas depois do espetáculo, aula de dar aula, aprender alguma didática em relação ao conhecimento que você tem‖. Torres ainda sublinha que a aquisição de conhecimento em dança está ligada a uma atitude de curiosidade, bem como, a capacidade de encontrar dispositivos próprios que impulsionem o desenvolvimento pessoal e profissional. De acordo com a mesma, é necessário [...] uma curiosidade sua de aprender olhando muito, aprender com seus colegas fazendo coisas... olhando, de inventar exercícios para você, de ver espetáculos e escrever. Não sei escrever, mas vou escrever sobre porque acho que isso me ajuda. Eu faço muita coisa de autodidata, eu invento coisas. Outro dia eu estava contando para um amigo que eu estava fazendo aula de balé clássico, eu comecei a notar que eu não estava tão engajada na aula, aí eu fiz uma coisa que às vezes eu uso: vou imaginar que eu estou fazendo aula na companhia da Pina Bausch, que eu já fui algumas vezes fazer lá e é um lugar e um tipo de dança que me interessa. Aí aquilo me deu um negócio assim, sabe? [...] É que as vezes a gente dá uma caída nas coisas: ‗o que é que está acontecendo... eu perdi o interesse? Eu que não estou engajada?‘ Então, coisas que te alimentem dentro do que te dá sentido [...], cada um vai inventar. Eu procuro muito ficar inventando coisas que me alimentem, sabe? (Torres, 2012). Erika Rosendo também iniciou seus estudos em dança na técnica do balé, formando-se como bailarina clássica no ano de 200048. Após a conclusão do curso, ingressou numa companhia de dança49 e, neste contexto, entrou em contato com a dança do coreógrafo potiguar Clébio Oliveira. Para Rosendo, a experiência modificou completamente o seu modo de lidar com a dança. Ao recordar esse período, fala sobre uma montagem coreográfica50 de Oliveira para o grupo: 47 Curso pré-profissionalizante e profissionalizante em dança clássica pelo Centro de Dança Rio (1981-1991). 48 Formada pela Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão, na cidade de Natal (RN). 49 Cia. de Dança do Teatro Alberto Maranhão, de 2001 a 2006. 50 Isso que não me deixa dormir (2001). 92 Naquela época eu tinha acabado de sair da escola para o grupo, só que eu queria ser uma bailarina clássica, naquele momento eu estava apaixonada pelo balé, estava me descobrindo naquele campo e as minhas habilidades, estava muito contente com aquilo e achava que poderia conseguir muito mais coisas. E aí o Clébio chegou para montar um trabalho e eu nunca tinha feito um rolamento no chão. Na época, eu fugia das aulas de contemporâneo, eu achava feio, um negócio estranho. Esse primeiro encontro com a dança contemporânea foi de um estranhamento terrível. (Rosendo, 2012). Rosendo ficou marcada por um primeiro aviso dado pelo coreógrafo: ―não era ele quem escolhia as pessoas para dançar o trabalho dele, mas eram as pessoas que se escolhiam‖. Enquanto ele ministrava aulas para a companhia, Rosendo ía [...] conhecendo aquela linguagem, a forma como se movimentava, e para mim, a cada dia que passava era mais estranho, era horroroso, aqueles movimentos todos tortos, uma figura que eu jamais pensei que pudesse se movimentar, era um estranhamento muito grande. Eu reclamava porque eu me batia no chão, porque eu me machucava, chegava toda roxa em casa, então eu não gostava daquilo. (2012). Quando chegou o momento de definir o elenco do trabalho, apenas duas pessoas ficaram de fora: Rosendo era uma delas. A bailarina conta que esta situação de ―não-pertencer‖ a deixou em ―pânico‖ e ―desesperada‖, porque ―ao mesmo tempo que eu não queria aquilo, eu gostaria de ter entrado no elenco para poder dançar, mas dançar uma dança que eu não conhecia e que eu não estava interessada‖. Com o conflito veio a decisão: ―eu preciso mudar alguma coisa, me reinventar para poder avançar‖. E chegou também o aprendizado, graças a uma mudança de postura perante a nova dança que lhe era apresentada: Então eu me coloquei a disposição daquelas informações, estava disponível e aberta para receber aquelas informações e reconhecêlas no meu corpo. Porque eu queria me oportunizar aquilo. Eu mergulhei, eu não sabia fazer nada, mas eu tentava encontrar uma forma que parecia muito com aquilo, por não ter nenhuma habilidade. Eu chegava cedo, estudava, ensaiei muito. (2012). Por fim, Rosendo participou do elenco na estreia do trabalho e conta que Desde então, eu nunca mais joguei fora as oportunidades que foram colocadas para mim, sejam elas boas ou ruins. Nunca mais. Me alimentei do que era necessário alimentar, e sempre reconheci aquilo que tinha me acrescentado mais ou não, mas achei que todas elas eram válidas. E no ano seguinte o Clébio veio para montar um outro trabalho, e de cara já ganhei o duo inicial. Não era por uma vaidade, mas porque durante aquele ano todo eu tinha percebido essa mudança na minha vida, daquela atitude que eu tive, de ir ao 93 encontro, de estar disponínel. Eu tinha 16 anos na época... E nunca mais disperdicei nenhuma oportunidade. E ainda no ano seguinte ele veio, e montou um solo para mim chamado Não quero falar sobre isso agora, quando ocorreu a premiação no Festival de Dança de Joinville51. Imagina! Foi o maior presente da minha vida, o cara veio pela primeira vez e eu nem conseguia falar com ele direito... [...]. (2012). Torres fala numa atitude de curiosidade, Rosendo de disponibilidade. Ambas reconhecem que não existe aquisição de conhecimento, em qualquer técnica ou modo de dança, sem muito estudo e trabalho. Neste sentido, Fukushima revela o que chama de ―pré-teoria‖: ―quanto mais tempo mesmo de repetição de gestos, mais ele vai agregar memórias, camadas. Quanto mais tempo de trabalho, vai acumulando coisas, histórias. [...] é só um gesto, mas é a história, o tempo... Eu acredito nisso, por isso acho que um bailarino quanto mais, velho melhor fica‖ (2011). Fukushima considera que uma formação em dança deve procurar maior união entre teoria e prática, pois percebe a existência de cursos ―ou muito práticos ou muito teóricos‖. Considera que o problema está no como juntar as duas esferas numa única proposição, em que ocorra com constância ―um exercício maior de reflexão a partir da dança‖. Ele ressalta a importância de mais espaços para exposição dos trabalhos criativos com a presença de público, pois observa que é muito comum o desenvolvimento de um longo processo de pesquisa seguido de pouquíssimas apresentações. Para o coreógrafo, quando se coloca uma obra a mostra inicia-se uma outra etapa, pois neste diálogo ocorrem modificações notáveis. Assim, no que tange a formação de um artista da dança, pondera que o contato com a plateia é ―um exercício muito importante‖ (Fukushima, 2012). O intérprete e criador Vanilto Lakka valoriza uma formação em dança que englobe o aprendizado de uma técnica formal e técnicas de improvisação, quer dizer, que alie uma capacidade de reprodução e execução à de improvisação. Dá, ainda, crédito a matérias variadas como anatomia, biomecânica, gestão cultural e iluminação. O coreógrafo vê no mercado atual uma necessidade muito grande de conectar criação e discurso verbal elaborado: ―Nesse momento, na dança 51 Com este solo, Rosendo recebeu a indicação de melhor bailarina do 24º Festival de Dança de Joinville, ano de 2006, quando também conquistou o primeiro lugar na categoria solo feminino avançada. 94 contemporânea, o cara constrói uma coisa que é material e ele tem que ter o mínimo de capacidade de defender do jeito dele, porque senão, não se sustenta‖ (2012). Lakka acredita que viver como artista da dança no Brasil é possível, essencialmente, com dinheiro público, o que traduz na elaboração e encaminhamento de projetos ao parecer das comissões de editais de apoio e leis de incentivo. Ele nota que há um discurso comum entre os pareceristas que julgam os planos neste contexto ou que realizam seleções para participação em festivais. Então, diz que para sobreviver os artistas devem ler, estudar e fazer um esforço para capturar o universo desse pensamento dominante, o que pode incluir a aproximação de uma ―situação bibliográfica e coisas nesse sentido‖. E continua: Se não tanto por uma situação bibliográfica pelo menos o sujeito tem que saber do que se trata. Saber o que está fazendo. Por exemplo, o cara vai falar sobre política, deve saber que tem uma referência sobre em Foucault, Deleuze, que é o que geralmente a galera do contemporâneo vai se apoiar para falar de política. O cara não vai se apoiar para falar de política usando Marx [...]. (Lakka, 2012). Nos dias atuais, a definição restrita do que deve ser a dança e de como deve ser o profissional ideal, parece ter sido substituída pela pergunta sobre o que se deseja que a dança e o bailarino seja. Como as questões que produzem uma dança diferem no tempo-espaço, há uma necessidade contínua de (re)inventar novos procedimentos, propostas capazes de satisfazer interrogações mais recentes. Hoje há o reconhecimento de uma coleção de treinamentos, de corpos, de danças. E, principalmente, a compreensão do corpo como processo: corporeidade. Mas um dilema ainda permanece básico: a oposição entre espontaneidade e controle na configuração do fazer da dança. Roach (1985) salienta que o corpo resiste às próprias vontades de fazer e ser algo novo no início de todo aprendizado. É na repetição de exercícios, aulas e ensaios que o artista testará seus limites e sua imaginação, até gerar outra vivacidade. Ou seja, o paradoxo reside em aprender e alcançar uma ―segunda natureza‖ por meio da automatização e domínio de ações e pensamentos. O treinamento ocorre para viabilizar a incorporação de um conhecimento, a partir da unificação de processos que visam assegurar a produção de movimentos com facilidade e, ao mesmo tempo, a obediência a padrões de comportamento existentes. Ferracini (2010, p. 330-331) chama esta ―segunda natureza‖ de 95 ―organicidade‖, definindo-a como uma força que opera no sentido de colocar os componentes corporais em fluxo e recriação contínua. Gerada num espaço ―entre‖, a organicidade não é algo pré-existente, mas se cria de modo ininterrupto em relações estabelecidas entre os elementos diferenciais que operam na ação de um corpo. Com esta noção, a preparação de um corpo para a cena é ampliada: ter técnica não se limita a aplicar uma função causal e mecânica, mas agir e reinventar possibilidades. O pensamento de um corpo como objeto que se deseja possuir e que, portanto, deve ser moldado, não é exclusivo a um único modo de treinamento em dança, mas pode ser percebido em práticas do balé, da dança moderna e outras tantas possibilidades. Ribeiro (1994) nomeia de ―corpo Hi-fi‖ aquele corpo fisicamente disciplinado, que mantém uma alta fidelidade na execução do movimento a cada performance. Esse viés, considerado mais ―atlético‖, pode ser exemplificado com os bailarinos do Grupo Corpo Cia. de Dança e da La La La Human Steps. O autor citado intitula de ―corpo-livro‖ aquele que se constrói e se mostra em cena a partir de sua pessoalidade, que carrega forte carga biográfica e arrasta diferentes esferas, como a existencial, política, social e histórica. ―Corpo-Hifi‖ e ―corpo-livro‖ são apenas dois modos de reconhecimento de corporeidades contemporâneas que, no entanto, não esgotam as possibilidades de leitura e apresentação. Talvez o antídoto para o encerramento num padrão de poder ou uma alternativa contra a própria normalização de um corpo seja a escolha de mantê-lo aberto. Neste sentido, até um ―erro‖ pode impulsionar o surgimento de corporeidades contemporâneas. Torres conta que atualmente faz aulas de balé clássico três vezes por semana, yoga duas vezes por semana e ensaia diariamente cerca de cinco horas por dia, momento esse em que desenvolve um treinamento pessoal ―baseado em Grotowski52‖ e voltado à exaustão física. Para Torres, é possível provocar via exaustão o abandono de [...] alguns padrões mais formalizadores, embora eu faça aula de balé clássico e eu acho que me ativa em um lugar. Mas este trabalho de treinamento físico com exaustão, eu acho que ele deixa um corpo menos formatado no sentido de ângulo reto. É claro que é formatado 52 Refere-se ao diretor de teatro polonês Jerzy Grotowski (1933-1999). Nota da autora. 96 porque é outro formato, não tem fora do padrão ou fora de formato. É sempre um formato porque tem uma história, tem uma referência, tem um trabalho muscular mesmo. Mas me interessa esse tipo de aquecimento, de preparação. Tenho gostado muito nos últimos anos de fazer minha própria aula, no sentido de estou me aquecendo e aí faço uma corrida, as vezes faço uma barra de balé clássico, porque eu acho que vai conversando com o momento atual, porque também cada trabalho te demanda um tipo de preparação. (2012). Os projetos de composição em dança contemporânea tendem a invocar uma corporeidade específica. Para Fukushima, dançar tem um objetivo muito pessoal, cujo ponto de partida é o enfrentamento das próprias dificuldades físicas: ―Me interessa descobrir outros jeitos de eu usar o meu corpo, me interessa descobrir o que eu ainda não sei dançar, nas minhas limitações, ver como que eu supero elas‖. Suas danças tem caráter existencial e libertador: A dança [...] me liberta de muitas coisas. Na minha primeira dança Entre contenções53, eu era um dançarino que não tinha muita base, de ficar de pé firme, por causa do meu pé que é super alto, tendão curto, é um pé estranho. Minha base não era muito boa. Então eu falei assim: ‗vou ter que treinar uma dança só de pé para criar essa base‘. Isso foi o princípio, o limite forte. (2012). Fukushima tem uma desordem de fluência da fala popularmente conhecida como gagueira. Com o passar do tempo, ele reconheceu a presença deste modo de falar na sua dança. Eu dizia: ‗nossa, calma aí, é super o jeito que eu falo‘. Parece que eu quero falar enquanto eu danço, tem a ver com a dificuldade de comunicação. A dança reflete isso, alguém que está tentando falar algo que não consegue a partir da voz, então fala com o corpo. Depois do Entre contenções eu comecei a encarar mais o meu jeito de falar, mais liberto, eu aceitei mais esse cara que fala assim, pausado, meio staccato54, que demora, que usa o gesto. A dança as vezes ajuda a eu me aceitar mais. (2012). Após o trabalho Entre contenções, Fukushima realizou Como superar o grande cansaço? (2010), construído com movimentos que ocorrem quase grudados ao chão. Superado o limite de dançar de pé, ele buscou um modo diverso de dançar rendendo-se e obrigando-se a permanecer próximo ao solo. Em vias de descoberta, 53 Criação de 2008. Nota da autora. Tradução do italiano: destacado. Na dança, a palavra é utilizada para designar uma qualidade de movimento reta, curta e precisa. Podemos pensar em pequenos trancos que criam uma certa tensão corporal ou um modo de suspensão entre as variadas ações de uma sequência coreográfica. O termo é muito utilizado na música, e diz respeito a uma execução em que cada nota aparece destacada da nota seguinte. Nota da autora. 54 97 essa outra corporeidade nasceu junto com uma experiência pessoal de depressão, de um corpo em crise sem vontade de sair da cama. O resultado foi uma dança ―super rápida o tempo inteiro‖ e que deixou Fukushima ―mais forte‖ (2012). Atualmente, tal força se constrói contínua e conjuntamente entre criações e aulas regulares de dança contemporânea (que une as práticas corporais orientais e improvisação), seitai-ho55 e balé clássico. O bailarino explica que Para mim é muito claro o porque eu faço balé. É um jeito de preparação do corpo mesmo, de fortalecer os meus músculos internos, além de amar balé, de fazer aula de balé, adoro, me sinto super feliz de estar na barra, de ouvir a música clássica, [...] adoro. Mas eu acho que tem que saber jogar também, porque eu percebo que o balé te formata muito mesmo. E quando você leva para um processo de criação você tem que sempre ficar de olho: da onde que vem esse gesto? Será que vem da aula de balé? Será que isso é pertinente com o que eu quero fazer, falar? Se for, tudo bem, deixa. Mas se não, vai para outro lado, não cai nessa. Acho que o corpo formata mas a gente tem a capacidade de desformatar. O trabalho de coreógrafo é esse também, de formatar e ir para uma coisa que você quer, ela não precisa ser muito clara. Mas eu sei que nessa minha dança hoje que eu estou investigando quando sai um développé56, eu falo: ‗será que eu realmente quero isso ou não?‘. Entendeu? As vezes sai sem eu pensar e aí eu não quero, então da próxima vez que eu for improvisar já não quero esse développé, eu não quero um corpo super ereto e alinhado, quero outra coisa. Acho que tem que saber jogar. Eu faço essa prática de balé mais porque eu acho que eu preciso de uma estruturação, porque eu me desestruturo muito improvisando. Posso me machucar porque é uma coisa que eu não sei realmente o que que é. Então, o balé é importante para dar uma estrutura mesmo, força nos pés, força aqui, força ali, leveza nos braços, que é uma coisa que eu busco na minha dança... os braços leves. A mão também, como usa a mão. Eu gosto do balé com essa mão que não é nada e que é super leve. Eu busco muito também nas minhas danças isso. Mas tem que saber jogar com essa coisa que é regular que é a técnica e o irregular, que é o inconstante, que é quando você está num processo de criação. Tem que saber brincar. O que eu tenho certeza que eu não quero é dançar coisas que são de aula. Eu tento sair muito... Mesmo quando eu vou para o chão, tento não ir para os rolamentos que eu aprendi, repeti trilhões de vezes na aula de dança contemporânea não sei de quem. Eu busco... ah, se eu estou rolando assim... porque é um padrão, não quero isso, vou rolar de outro jeito, entendeu? (Fukushima, 2012). 55 Técnica de educação corporal oriental, a prática do Seitai-ho foi introduzida no Brasil pelo professor japonês Toshy Tanaka, mestre de Fukushima desde 2005. 56 Palavra francesa cuja tradução para o português é desenvolvido. Consiste num movimento do repertório do balé clássico em que o bailarino sobe a perna para frente, lado ou atrás, devendo esticá-la e sustentá-la. Nota da autora. 98 Ainda que ao longo desta tese possíveis respostas sejam desenhadas, inquietações permanecem. Que tipo de poder interessa à explosão do acontecimento na dança contemporânea, ambiente onde nada é dado e pronto? Como reunir regularidade e inconstância? Até que ponto as técnicas de dança que se fundam no discurso de valorização e respeito a singularidade do próprio corpo e do corpo do outro; como as práticas de improvisação; se distanciam da norma (no que diz respeito aos padrões de movimento) e da reprodução de jogos de poder (quem aprendeu mais técnicas de dança é aquele que improvisa ―melhor‖)? Cada técnica de dança impõe um modelo de corpo ideal a ser fabricado e alcançado? O corpo tecnicamente trabalhado torna-se sempre um corpo reprodutor de movimentos? Como treinar um corpo provocador de movimentos originais? Quando uma técnica corporal é pensamento em ação (afastada de uma lógica instrumental e superficial)? Existe lugar para o cálculo e a ordem num corpo provocador de acontecimento? Entendo que a perspectiva de um domínio técnico, de controle do corpo e do transbordamento de sua capacidade plástica num contexto aberto e não delimitado, encontrará possíveis referências no desenvolvimento de um processo ativo e reflexivo. Para o contemporâneo, uma formação técnica é sempre provisória e insuficiente, posto que ela só vive numa relação tensional entre apropriação e expropriação, fixação e indefinição, construção e destruição. Existe em função de uma corporeidade e de um projeto estético. Se num momento o artista fabrica e estabelece estruturas para a própria qualificação técnica, no espaço temporal seguinte tais configurações se mostrarão precárias e, portanto, uma nova ordem será estabelecida. Movente e paradoxal, a técnica brota de uma necessidade e do impulso permanente para a renovação que habita a criação. Um saber que caminha no questionamento e no horizonte da transformação. Neste campo, arte e técnica são entendidas, sobretudo, enquanto interrogação da realidade, possibilidade de conhecimento e de emergência de acontecimentos. Deleuze explana que o ―acontecimento produz-se em um caos, em uma multiplicidade caótica, com a condição de que intervenha uma espécie de crivo‖ (2009b, p. 132). Explica que o caos é pura diversidade disjuntiva, abstração inseparável de um filtro que faz dele uma singularidade qualquer. Numa aproximação cosmológica, o caos seria o conjunto dos possíveis e o crivo aquilo que 99 deixa passar a melhor combinação de compossíveis. Numa concepção física, o caos seria as trevas sem fundo e o crivo aquilo que extrai o fundo sombrio e que, todavia, contém todas as cores. No viés psíquico, o caos seria um aturdimento total e o crivo extrairia dele ―diferenciais capazes de se integrarem em percepções reguladas‖ (Deleuze, 2009b, p. 132-133). O contemporâneo na dança se funda em possibilidades obscuras e, ao mesmo tempo, em acordos que promovem distinções, singularidades. Como acontecimento, trata-se de uma dança que preserva algo de secreto e inquietante, que produz alguma coisa que se diferencia de sua própria realização e atualização, ainda que não exista fora disso. Poderíamos pensar um modo de treinamento como uma espécie de crivo que compõe o acontecimento? Ao que parece, não existem características ou princípios de um treinamento ―ideal‖ para formar um artista contemporâneo. Há, porém, necessidade de perseguir um modo para ampliar as ocasiões de percepção e de experiência de um corpo, estimular sua capacidade de abrir-se e conectar-se. Somente na atitude constante de busca pode-se gerar comportamentos particulares, alcançar um corpo prenhe de novos sentidos, um corpo gerador de singularidades e constituição de multiplicidades. Associo o treinamento do corpo com a exigência de novos modos de ver, de ouvir, de sentir, de pensar, de fazer, de dizer, de abrir-se afinal a novas percepções e afecções. Para este fim, os procedimentos podem incluir tanto aulas tradicionais de balé quanto aulas de boxe ou uma sessão de cinema ou um banho de chuva ou uma viagem a um lugar desconhecido ou passar dias sem comer ou... Não se trata apenas de acumular atividades nem de promover uma indistinção entre modos de treinar (certamente os efeitos variam a cada escolha e pela atitude de quem age). Trata-se, ao invés, de ampliar os recursos para gerar experiências, para incorporar alguma diferença. Para buscar o acontecimento é necessário alcançar possibilidades remanejando as condições da percepção e da composição de afetos. Arriscar um talvez, distanciar-se de um treinamento como programa formal. Explorar a potência de um corpo, abri-lo a esfera de suas infinitas possibilidades, escancarar seus gestos. Construir um devir-corpo. Assegurar suas conexões permanentes, visitar outras, percepções, reorganizar afetos, seus projeções mapas: no anatomias, espaço e posturas, temporalidades. sensações, Um corpo contemporâneo por excelência carrega-se sempre consigo, como seu próprio meio de experimentação e busca de intensidades. 100 Gerar um corpo outro é experimentar, na variação dos encontros e agenciamentos57, diferenciações. O contemporâneo na dança busca de modo permanente um corpo que saiba fazer-dizer o acontecimento. O imprevisto. O contemporâneo na dança inventa suas próprias condições e seu terreno para realizar experimentações intensivas e arriscadas. A vida é seu impulso. O questionamento emerge num modo de combate que é treinamento, num corpo que rejeita permanentemente a imagem segura do que será. Os casos a seguir apresentam estratégias de construção de um corpo que tende ao acontecimento numa sala de aula, num palco, num espaço qualquer do mundo. 2.1 Percepção Física – Alejandro Ahmed58 e Cena 1159 O acontecimento por si mesmo é problemático e problematizante. Um problema, com efeito, não é determinado senão pelos pontos singulares que exprimem suas condições. Não dizemos que, por isto, o problema é resolvido: ao contrário, ele é determinado como problema.60 Gilles Deleuze 57 Agenciamento é ―um dispositivo que opera por princípios de conexão e heterogeneidade – qualquer um de seus pontos pode ser conectado a qualquer outro‖. Desprovido de centro, o agenciamento propaga-se por prolongamentos, variações e linhas. É um espaço feito de direções movediças, sem começo e fim, apenas um meio pelo qual o mesmo cresce e transborda (Peixoto, 2010, p. 241). 58 Alejandro Ahmed Lamela Adó nasceu em 22 de maio de 1971 em Montevidéu, Uruguai. Iniciou seus estudos em dança no início da década de 1980 em Florianópolis (SC), aprendendo break dance e jazz dance. Compôs o elenco que originou o Grupo Cena 11, inicialmente coreografado por Anderson Gonçalves (1964-2010). Nos anos de 1990 e 1991 integrou o Grupo Raça Cia. de Dança, dirigido por Roseli Rodrigues em São Paulo (SP). Participou do American Dance Festival, nos Estados Unidos em 1997, quando frequentou aulas da técnica Flying Low com David Zambrano. O curso foi importante para impulsionar Ahmed à criação de uma técnica de dança autoral. Como coreógrafo residente e diretor do Cena 11 desde 1993, recebeu diversas premiações, dentre elas: Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia (2007) e Prêmio Bravo! Prime de Cultura (melhor espetáculo de dança de 2007) para Pequenas Frestas de Ficção sobre Realidade Insistente (PFdFSRi); Prêmio Mambembe (melhor coreógrafo 1998) para A Carne dos Vencidos no Verbo dos Anjos; Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (melhor concepção cênica 1997) para In´Perfeito; Prêmio Mérito Cultural Cruz & Souza (destaque na área cultural catarinense em 1997). 59 Criado por Rosângela Matos em Florianópolis (SC) no ano de 1986, como grupo amador para representar sua academia – Rodança, em mostras e festivais. Com a direção de Alejandro Ahmed conquistou o status de companhia profissional. Hoje ocupa lugar de grande destaque no mapa da dança contemporânea brasileira. 60 Gilles Deleuze, op. cit., 2009a, p. 57. 101 Solicito ao diretor e coreógrafo Alejandro Ahmed que me fale sobre uma experiência fundamental em sua vida, que tenha transformado seu modo de lidar com a dança. Ele me conta sobre o momento em que saiu de São Paulo e retornou para Florianópolis ao final de 1991, quando começou a construir uma nova trajetória. Lembra que não foi aprovado em audições para integrar o elenco dos grupos 1º Ato (MG), Balé da Cidade de São Paulo (SP), Balé Stagium (SP) e Corpo Cia. de Dança (MG). Como a tentativa de ingressar profissionalmente como bailarino nestas companhias falhou, viu-se obrigado a iniciar algum processo independente de trabalho e descobertas criativas. Ahmed recorda que: [...] tinha que começar a criar alguma coisa. Foi a exigência de autonomia e auto-suficiência em função daquilo que eu comecei a ver que eu precisava fazer, porque não tinha nenhuma outra chance de fazer qualquer outra coisa, nem dinheiro, nem... Eu voltei para cá no final de 91, a gente fez o nosso dueto do Caetano em 9261, comecei a tentar coreografar a partir daí e ver de novo como... ainda muito vinculado com as coisas que a gente fazia de balé, de jazz, nesse lugar, já pensando em como sair daí. Não dá para dar um grande salto né, impossível. (Ahmed, 2012). Um novo início. A década de 1990 será fundamental para o nascimento de uma importante companhia contemporânea no mercado nacional, o Grupo Cena 11 Cia. de Dança de Florianópolis (SC). Junto com ela, ganha vida e solidez a carreira de Ahmed como diretor, coreógrafo e artista-pesquisador da dança. ―Pensar é agir‖, sentencia Ahmed (2012). Com constância e dedicação, o coreógrafo permanece obstinado em manter ativa a possibilidade de criar danças, desvendando outros pensamentos para um corpo-ambiente chamado Cena 11. Nesta história, que já soma cerca de 20 anos, a inquietação e o desassossego permanecem, tal qual um turbilhão a (re)começar. ―Pensar é destruir‖, escreveu Fernando Pessoa (1888-1935) (1986, p. 249). Não poderia a frase servir de mote para o grupo em pauta? É fato que Ahmed abdica de qualquer modo de conformação e preserva as qualidades de um grande artista: aquele insatisfeito, que nunca consegue. Como exímio líder, arrasta outros tantos parceiros para cada uma de suas aventuras. Não irei detalhar os tantos espetáculos e turnês realizadas, prêmios e reconhecimentos conquistados, 61 Refere-se ao duo Enquanto estou aqui... (1992), coreografia de sua autoria com música de Caetano Veloso, dançada em parceria com a bailarina Jussara Xavier. Nota da autora. 102 trabalhos acadêmicos, artigos e livro publicados a respeito do grupo62, pois neste ponto interessa observar os meios pelos quais se desenha uma possível corporeidade do Cena 11. Percepção Física é a denominação do trabalho técnico de pesquisa autoral centrado no conhecimento do corpo e do movimento desenvolvido por Ahmed com o Cena 11. Quando o coreógrafo assumiu a direção do grupo, em 1993, iniciou uma investigação com o propósito de estabelecer uma metodologia de trabalho e de ensino própria. Instituiu um laboratório para experimentação e escolheu o termo Percepção Física para nomear modos de comportamento e de ação do corpo. O diretor adverte que o método não se configura como um modelo fechado com regras fixas, mas [...] tem por prerrogativa ser mutável na sua estrutura. Acho que a necessidade de dança para o meu corpo ativou a necessidade de um corpo para minhas ideias. Assim, junto ao Cena 11, venho construindo maneiras de instaurar ideias no corpo que nos façam um grupo pela força das nossas diferenças, fragilidades e vigores. (Collaço; Ahmed, 2006, p. 104). Dar forma a um trabalho técnico próprio significou abandonar um modo de dançar insuficiente e precário e, assim, beneficiar a concretização de um projeto criativo autoral. Ou seja, ganhar independência. Percepção Física expressa a identidade de Ahmed e do Cena 11, os quais constroem, dia após dia, uma solução tangível, rigorosa e disciplinada para conquistar a ―sua‖ dança. O sistema sublinha a maneira de aprender (como operar por meio de estímulos63) e estrutura-se em três elementos: percepção, adaptabilidade e controle. A investigação destes elementos surge em consonância às pesquisas de Ahmed sobre as ideias do psicólogo Frederic Burrhus Skinner e de neodarwinistas como Richard Dawkins, cujos debates sobre determinismo e estratégias adaptativas estimularam a pesquisa de um ―corpo sujeito-objeto‖ no Cena 11 (Collaço; Ahmed, 2006, p. 103). Dançar para Ahmed 62 Ver site www.cena11.com.br; livro: Maíra Spanghero. A dança dos encéfalos acesos. São Paulo: Itaú Cultural, 2003; dissertação: ABRÃO, Elisa. O Corpo in'perfeito: Cena 11 e as relações entre arte, ciência e tecnologia. 2007. Dissertação (Mestrado em Educação Física) - Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Desportos. Departamento de Educação Física, 2007. São muitos os artigos e textos publicados a respeito do grupo, e algumas referências se encontram nesta tese. 63 Entrevista de Alejandro Ahmed concedida por e-mail a autora em 7 de junho de 2010. 103 [...] é estar em crise. Sou crítico já aos poucos minutos após ter encontrado algo que parece ser valioso naquele momento. Mas aprendi a perseverar na investigação para encontrar algo de valia no que me proponho. Entendendo que o meu gosto e desejo são fatores a mais e não objetivos nessa busca. A crise tornou-se um constante estado de pergunta no qual as respostas são construídas na prática da dança que está sendo questionada. (Collaço; Ahmed, 2006, p. 106). Quando não está em turnê, a rotina do Cena 11 consiste em treinos e ensaios por cerca de cinco horas todos os dias, de segunda a sexta-feira. No papel simultâneo de professor e bailarino, o diretor da companhia orienta e realiza as próprias proposições de aula. Para ele, os estudos têm funções artísticas, e a pergunta sobre qual o objetivo estético da companhia é sempre atual. A preparação traduz formulações presentes nos espetáculos do grupo e distancia-se de uma aula ―típica‖ de dança. Os bailarinos calçam tênis e botas. Não há música, e a sonorização vem da rua, invade o ambiente e alia-se ao silêncio e à respiração dos que habitam o espaço. As repetições dão-se somente em sequências que permitem alterações temporais e acomodam as necessidades e possibilidades físicas de cada corpo. Não existe cópia ou reprodução de poses nem um único modo de fazer. A ação ―correta‖ é o que o próprio corpo realiza no instante, com suas qualidades diferentes e singulares. O espaço da dança permanece como continuação e fragmento da realidade. Todos os espelhos são cobertos. O caminhar e correr integram a aula em diversas direções, posturas e velocidades. Não há uma frente exclusiva; cada um opta por seu lugar no espaço, sempre instável, móvel e inconstante. Tal estratégia busca gerar um estado de vigília no corpo. O método visa afinar percepções do próprio corpo, do corpo do outro, da arquitetura do espaço, do ambiente com seus muitos elementos e da ocorrência de relações entre todos os aspectos citados. Hubert Godard (apud Menicacci, 2009, p. 104) afirma que ―a percepção é um gesto‖ e ―cada gesto inventa um corpo‖. No campo da psicologia o gesto perceptivo-motor diz respeito à capacidade do indivíduo de adaptar seus movimentos físicos à informação sensorial recebida. A prática do Cena 11 acentua um modo particular de conhecer e decidir, além de solicitar e aguçar um estado de atenção e presença do corpo. A ideia é a de que quando um corpo percebe o meio ambiente, ele se altera 104 ativamente de maneira a obter a melhor interface possível. Ele cheira, saboreia, toca, ouve, vê, e atua a todo o momento para formular respostas adequadas ao que foi sentido. A percepção significa tanto atuar sobre o meio ambiente quanto receber sinais deste. Os exercícios combinam alongamento muscular, arremesso das articulações, trabalho com apoios e pesos do corpo, sendo este submetido de forma rigorosa à força da gravidade. A busca de intensidade e maleabilidade no contato com o chão, a tentativa de anular qualquer tipo de tensão, a procura pelo controle e pela segurança do jeito de fazer operam para tornar o corpo confortável naquilo que faz. Problemas e restrições são apresentados (por exemplo, levantar do chão sem apoiar as mãos ou uma das pernas) a fim de ativar a inteligência e a sensibilidade do corpo. Ao observar os bailarinos numa sequência de corridas e saltos, Ahmed (2010a) declara: ―O salto acontece, ele não é programado. O corpo não deve planejar‖. A abordagem orgânica da mente encarnada integra a proposição do coreógrafo. Damásio considera a interligação entre cérebro e corpo para apoiar uma compreensão na qual [...] não só a mente tem de passar de um cogitum não físico para o domínio do tecido biológico, como deve também ser relacionada com todo o organismo que possui cérebro e corpo integrados e que se encontra plenamente interativo com um ambiente físico e social. (1996, p. 282). Corpo e procedimento no grupo são entendidos à luz de processos coevolutivos, nos quais a ação do corpo depende sempre da sua estrutura na relação com o ambiente. Este constrói o corpo e vice-versa, simultaneamente. Assim, ambos – corpo e ambiente – são ativos o tempo todo (Greiner, 2008, p. 43). Alejandro enuncia: O ato de adaptar-se pressupõe algumas questões que me interessam: equipamento inato (o corpo com suas predisposições genéticas e seu fenótipo), instrumentação adquirida (o conhecimento contraído através da experiência revelando estratégias para melhor sobreviver no ambiente em que este corpo está inserido em dado momento), propriedade do contexto (as características do ambiente com o qual este corpo se relaciona). (Collaço; Ahmed, 2006, p. 103). 105 O diretor explica que o treinamento não visa produzir passos de dança, mas alcançar um ―estado de adaptação ao que se está trabalhando‖. Ele opta por trabalhar com o medo, o risco, o ruído, enfim, com ―tudo o que é descontrolado e inevitável‖ e treina para administrar o controle (Ahmed, 2010b). Em um exercício de aula, propõe que todos formem um círculo e que individualmente cada bailarino vá ao centro e se movimente durante 1 minuto com base em um parâmetro (máquina, boneco, bicho e mímica). Requisita que não inventem uma história, porém criem um ―estado do corpo‖ e questiona: ―Como é o vocabulário da coisa?‖ (Ahmed, 2010a). Atividades em dupla sugerem a busca de soluções interativas para o corpo em ação. Tarefas simples como puxar, derrubar e arrastar contemplam diferentes possibilidades criativas, sublinhando-se como experiências com vistas a estimular novas conexões. A aquisição da competência fundamenta-se na disposição ao fazer. Aristóteles explicava téchne como ―razão prática‖, quer dizer, o conhecimento amarrado à necessidade de um fazer dinâmico. De acordo com Aristóteles, a arte, sendo um conhecimento de ordem prática e processual, é adquirida pelo exercício próprio da atividade. No terreno artístico, o fim não será plenamente conhecido até a consecução da forma. A finalidade emergirá conjuntamente com a matéria, por obra de uma intenção que não é causa final absoluta, mas probabilidade, pois só fazendo a coisa se poderá compreender plenamente o que se busca. (Nunes, 2009, p. 126). ―Quero falar do que me preocupa‖ (Ahmed, 2010b). Ahmed disserta sobre o envelhecimento do seu corpo e a crença de que é necessário ser jovem para dançar. Está interessado em corpos que façam do ruído uma construção de significados, corpos que envelhecem e encontram meios de agir pelo comportamento atual. O coreógrafo considera importante ―estar sempre atento à inteligência particular que cada corpo tem de resolver um problema a ele proposto‖ (Collaço; Ahmed, 2006, p. 104). Ahmed tem preferência por um corpo que age de modo ―particular‖ e ―inteligente‖. Para o diretor do Cena 11, o corpo que dança não precisa necessariamente ser magro, longilíneo, esguio (padrão ideal difundido pela técnica da dança clássica). Cada corpo é um mundo singular de possibilidades e descobertas, pois conforme o diretor, no ―estereotipo do bailarino parece que na maioria das vezes o problema tem uma solução prévia a ser encontrada, ou seja, só 106 será solucionado se encontrarmos o corpo que se encaixe a esses preceitos propostos a priori‖ (Collaço; Ahmed, 2006, p. 104). Ahmed também distingue improvisação e adaptação. Ele afirma que a improvisação ―parece brincar com algo que já foi feito‖ e explica: O conhecimento que proponho no procedimento da adaptabilidade não pode se institucionalizar, em algumas ações de improvisação os resultados formais parecem estar dados a priori, o corpo revela seu desejo de operar no ambiente e não seu modo de operar no ambiente. [...] a diferença é como dirigir as restrições para construir filtros para determinado objetivo. A improvisação pode servir sim para desvendar esses filtros, mas ao utilizá-los a adaptabilidade me interessa mais como design, ela não é um fim, mas o próprio design do movimento.64 A mera escolha do termo adaptação em detrimento a improvisação seria insuficiente para deixar de institucionalizar um fazer. Seria preciso ir além: alterar de modo efetivo a relação corpo-ambiente e testar variações para que possa ocorrer uma adaptação e, consequentemente, um novo modo de comportamento. As propostas adaptativas de Ahmed se encarregam de selecionar e formular uma dança produzida como design, quer dizer, um ajuste entre forma e função. O elenco atual do Cena 11 acolhe além de atores - a exemplo de Marcos Klann,65 pessoas com formações diferenciadas do campo da dança. Duas bailarinas de grande destaque nas composições coreográficas do diretor - Aline Blasius e Mariana Romagnani, migraram da ginástica rítmica para o grupo. Curiosamente, antes de integrar o elenco no ano de 2007, Aline participou da Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica Desportiva (2001). Ou seja, trata-se de um corpo virtuoso a beira da perfeição, treinado numa rotina intensiva de repetições que envolvem um grau alto de habilidade atlética: exercícios para ganhar força, flexibilidade, agilidade, coordenação, equilíbrio, destreza, resistência, adaptação rápida, poder de antecipação e, além de tudo, elegância. Aline e Mariana seriam os ―corpos ideais‖ para a dança proposta no Cena 11? O que um corpo deve saber e fazer para integrar o grupo? Qual deve ser a sua especialidade ou o seu modo de comportamento? 64 Ahmed, entrevista op. cit. Formado em artes cênicas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) com a monografia O corpo na obra de Artaud: metáforas de dor e morte (2005). 65 107 Vamos dizer que eu procuro um corpo com a ideia de corpo real. Qual seria o corpo real? O corpo real não significa que ele não trabalha com ficção, não significa que ele não trabalha com metáfora, pelo contrário, é um corpo que tenta encontrar dentro da sua existência e dos parâmetros que o fazem sentir vivo, e existindo, e enxergar o outro, um corpo que consegue, consegue não, pelo menos ou tenta, diariamente, a cada vez que ele se propõe a fazer isso, saber o que que é a realidade, qual é a verificação da realidade enquanto corpo, o que pode tornar esse corpo verdadeiro e a realidade verdadeira... Utilizando todos os outros recursos que você vai descobrindo, desvendando e desenvolvendo [...], enquanto pessoa que se define através do corpo que tem, que é a nossa interface para tudo. [...] Que corpo que eu procuro? Eu procuro esse corpo real, mas falar em corpo real pode ser presunçoso... tá, qual o corpo que não é real? Que que é a realidade neste sentido? A gente vai entrar num parâmetro filosófico muito vertical e pode ser muito bobo também, muito senso comum. (Ahmed, 2012). Ao pensarmos no universo da dança contemporânea, nos deparamos com discursos de valorização das singularidades dos corpos dos intérpretes, cenas em que convivem corpos de formas diversas, a aproximação entre corpos treinados e não treinados, a prática de múltiplas técnicas (yoga, Feldenkrais, Alexander, Eutonia, Body Mind Centering, Bartenieff, Klauss Vianna, Beziers, Pilates, Axis Syllabus, artes marciais, capoeira, etc.). Essencialmente, enquanto o balé clássico de repertório trabalha com silhuetas similares em função da homogeneidade do corpo de baile, a dança contemporânea permite a convivência da diversidade: baixos, altos, gordos, magros, portadores de necessidades especiais, enfim, trata-se de um espaço em que corpos diferentes se unem para dançar. Porém, mesmo que a dança contemporânea se afaste de um discurso homogeneizante e do modelo de corpo perfeito, a produção atual ainda revela preponderantemente artistas moldados na magreza, força e agilidade física. Neste contexto, Jussara Belchior, uma das bailarinas do Cena 11, desvia-se da regra: tem formas arredondadas, biotipo gordo. Porém, sua condição física não a impede de realizar os mesmos exercícios e gestos executados por suas colegas de grupo. Mas, então, como se acomoda esta diferença? Como ela se impõe num treinamento coletivo? Permanece apenas na aparência? Ahmed diz que ao realizar uma audição para o ingresso de novos bailarinos, é muito mais fácil encontrar corpos magros, pois no meio da dança [...] não se permite entrar outros corpos. A Jussara dança na companhia e ela é gordinha, e ela não passou na audição só porque ela é gordinha, ela passou na audição pelo o que ela faz com a realidade que o corpo dela tem e como ela produz com isso. Ela também é muito treinada. Só que ao mesmo tempo ela não alcança 108 as vezes esses outros níveis por um tipo de entendimento do próprio corpo, que talvez atrapalha inclusive ela, porque ela foi treinada a vida inteira para tentar dançar como os outros, para tentar dançar como uma pessoa magra [...] é difícil também você encontrar corpos assim, porque o próprio sistema não permite que eles cheguem até ali, sempre os coloca num outro lugar. Quantos bailarinos como a Jussara você vê dançando por aí, realmente? Em companhias que pagam para ela fazer isso de forma integral e que se dedicam a mantê-la trabalhando nesse sentido? Entendeu? Todo mundo fala, mas aonde tem? Não tem. Por quê? É um mérito dela ter continuado e é um mérito de companhias que nem a nossa de poder tentar criar teorias com isso, que as teorias não podem ficar no papel, elas tem que ir para as hipóteses, tem que ir para a prática e a prática é realmente botar alguém lá dentro que seja passível de conseguir isso. Agora, não é só botar porque ela é gorda [...]. Isso eu sou contra: botar ali só para criar uma imagem de que você é democrático, mas na verdade a pessoa está num canto ali fazendo. Não é isso. É tentar fazer produzir mesmo, e exigir tanto quanto dos outros mas da maneira que cada um pode, de alguma forma, produzir. (Ahmed, 2012). A presença da diferença arrasta um problema paradoxal e reclama um tratamento de complexa dimensão estética e ética. De certo que não basta apenas a tolerância, que tende a ressaltar a superioridade de quem tolera; nem o respeito, que pode implicar a generalização das diferenças. A dança contemporânea pode se constituir como um lugar próprio para reinventar práticas, cutucar o dominante e defender a liberdade. Ahmed enfatiza que estimula a bailarina Jussara Belchior, e cada integrante do grupo, a dançar como si mesma. Critica o ideário igualitário e discursa sobre a responsabilidade de criação efetiva de oportunidades e experiências em que o corpo possa ser decifrado, desvelado e conhecido a cada dia. O coreógrafo deduz: [...] ela é gorda, as pessoas vão achar ela gorda, ela é mais pesada [...], ela é muito forte [...]. O jeito que as pessoas olham para ela é muito forte, porque é uma gordinha dançando, então assim: ‗olha que legal, até gordinha dança!‘ Tem uma série de questões éticas que acabam, óbvio, diretamente influenciando posições estéticas e correlações e paradoxos em função do corpo dela, que quanto mais ela puder usar isso sem... usar de um jeito novo, com uma teoria nova também sobre sociedade, sobre inserção, sobre inclusão, que não seja aquela teoria do freak [...] para fazer o neoliberalismo global, que eu sou contra também. Eu não acho que isso é parâmetro de igualdade, acho que isso é opressão para gerar desigualdade, para manter o poder nos lugares em que o poder está [...] Eu não aceito a diferença, eu simplesmente a coloco num lugar aonde ela pode continuar sendo algo do qual jamais vai alcançar o meu parâmetro, que é aquele que eu domino [...]. Às vezes a gente tem uns vícios verbais e taxativos, estéticos e éticos, que fazem com que a gente não sinta que isso é uma ferramenta de controle. A 109 gente não percebe, a gente imita como se fosse uma ferramenta de libertação, entendeu? (Ahmed, 2012). Foucault (1979) observa que o poder só existe em ação e é, acima de tudo, uma relação de força. Que tipo de poder exerce o corpo do bailarino do Cena 11 em conexão ao corpo da plateia? E vice-versa? Como é este exercício de poder ou em que consiste tal confronto? A sugestão de Foucault (1979) é a de analisar o poder no seu alvo, no lugar em que o mesmo produz efeitos reais. Com este pressuposto, identifico e articulo a seguir pequenos discursos de espectadoras que denunciam efeitos do poder que se articula no fazer do Cena 11. Quando assisti ao espetáculo Violência (2000) no Teatro Ademir Rosa (Florianópolis), percebi uma insistência na realização de quedas diretas e brutais do corpo ao chão. Num primeiro momento os tombos faziam eco no meu corpo, mas com o decorrer do tempo e a repetição dos gestos, a intensidade perdeu potência e o impacto agressivo cedeu lugar ao conforto. Poderíamos falar num processo de adaptação do meu corpo-espectador passado o choque inicial? No enfraquecimento do poder do artista e da obra? Mesmo que as constantes quedas não sejam consideradas ―passos de dança‖ (mas entendidas enquanto modos de adaptação do corpo) como afirma Ahmed, não estaríamos diante de uma normatização? Em crítica para o jornal catarinense A Notícia sobre o espetáculo Skinnerbox (2005), Sandra Meyer comenta: Na cena em que Letícia Lamela ampara com o seu corpo inúmeros bastões de metal, que a qualquer momento podem desabar sobre si, tudo pode se perder ante a possibilidade do erro ou se manter frente a uma eminente virtuose. Já a insistência das quedas dos corpos, presentes nas demais montagens do grupo, cria um campo reincidente que tende a enfraquecer o que o dramaturgista JeanMarc Adolphe chama de ―ação do sentido‖. (2005). O paradoxo no discurso sobre treinamento do Cena 11 é a ênfase no respeito à diferença e singularidade dos corpos num contexto onde todo corpo é trabalhado como objeto a ser controlado e afinado para superar os próprios limites. Outras perguntas se impõem: O corpo tecnicamente treinado leva irremediavelmente à homogeneização e à normalização das imagens ideais? O método Percepção Física seria apenas um modo a mais de adestramento em dança? Para Foucault (1974) todo trabalho tem esta função, que coabita com outras duas: a produtiva e a 110 simbólica. A função disciplinar é identificável na fala da pesquisadora Gláucia Grigolo sobre o grupo: Da observação do trabalho do grupo Cena 11, percebi que estão evidentes as noções de controle e força exercidas na construção artística da companhia. As regras são ditadas desde o início e é indispensável o cumprimento destas, mesmo que elas sofram um processo de adaptação no decorrer do procedimento, para que o mecanismo do espetáculo funcione como o planejado. Por isso, os bailarinos precisam estar continuamente atentos às modificações das regras e ao mesmo tempo aptos e disponíveis a incorporá-las ao seu trabalho. Cada corpo estabelece uma pequena variação no cumprimento de determinada regra, portanto é constantemente necessária também a adaptação de regras aos corpos dos distintos bailarinos às regras do espetáculo numa concepção mais geral. (2005, p. 110-111). Por um lado, Percepção Física se afirma como um método de treinamento fundado na abertura permanente à criação de novas possibilidades de movimentos e na promoção de escolhas individuais. Por outro, é possível verificar uma estrutura de treinamento regimentada em que prevalece uma relação de autoridade do diretor com os bailarinos, pois a fabricação de comportamentos ocorre essencialmente a partir das tarefas e comandos verbais enunciados por Ahmed. A adaptabilidade dos bailarinos do Cena 11 ocorre num território circunscrito e regido pelo coreógrafo, que corrige e direciona o curso de cada ação. Assim, o corpo em devir no grupo é formado por meio de operações disciplinares, tendo sempre em perspectiva o exercício da disciplina como meio para a expressão da liberdade. Para Foucault (1975), disciplinas abarcam modos que permitem o controle minucioso das operações do corpo e que impõem aos corpos uma relação de docilidade-utilidade. O corpo é manipulado e modelado, obedece e responde para ganhar habilidades e multiplicar suas forças. A noção de ―docilidade‖ em Foucault diz respeito a um corpo que se submete, que pode ser utilizado, transformado e aperfeiçoado. Se por um lado a disciplina aumenta as forças do corpo em termos de utilidade, diminui estas forças em termos políticos de obediência. O autor destaca que ela dissocia o poder do corpo: aumenta uma aptidão e capacidade, e acentua uma dominação. Foucault não identifica a disciplina com uma instituição, mas com um tipo de poder, um conjunto de técnicas e procedimentos para exercer o poder, algo físico. 111 No final dos anos 1990, Ahmed interessa-se pelas pinturas de Francis Bacon (1909-1992) e nos escritos de Artaud e propõe-se a pensar uma dança ―viva‖, que conquiste atenção e alcance o sistema nervoso do espectador com veemência. De acordo com Ahmed, as ideias ―do Teatro da Crueldade de Artaud e o impacto da precisão do instável nas pinturas de Francis Bacon foram ferramentas importantes para a construção do ‗corpo vodu‘ que utilizamos em Violência‖ (Collaço; Ahmed, 2006, p.103). O programa do espetáculo Violência (2000) apresenta o seguinte trecho de autoria de Artaud: Mais urgente não me parece tanto defender uma cultura cuja existência nunca salvou uma pessoa de ter fome e da preocupação de viver melhor, quanto extrair, daquilo que se chama cultura, idéias cuja força viva é idêntica à da fome. Todas nossas idéias sobre a vida têm de ser revistas numa época em que nada mais adere à vida. E esta penosa cisão é motivo para as coisas se vingarem, e a poesia que não está mais em nós e que não conseguimos encontrar mais nas coisas reaparece, de repente, pelo lado mau das coisas; e nunca se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza só se explica por nossa impotência em possuir a vida. Se o teatro existe para permitir que o recalcado viva, uma espécie de atroz poesia expressa-se através de atos estranhos onde as alterações do fato de viver mostram que a intensidade da vida está intacta e que bastaria dirigi-la melhor. Artaud enfatizou a libertação do corpo de condicionamentos orgânicos fabricados pelo poder e de suas reações automáticas. Considerou o teatro como lugar da desconstrução do corpo produzido pelas disciplinas corporais e salientou a ―decomposição das formas e modelos como etapa fundamental da gênese de um outro corpo. Afasta-se assim qualquer perspectiva de formatação de uma imagem do corpo ideal, que preside grande parte das tecnologias atuais nessa área‖ (Quilici, 2004, p. 48). A ideia de transformação integral do homem estaria ligada a constituição de outros estados físicos e psíquicos de ser, a ocorrer por meio de uma percepção super-intensificada, capaz de penetrar de modo violento nos afetos corporificados. Tratava-se de ―saber permanecer junto do corpo enquanto realidade instável, lugar de experiências múltiplas e fugidias, difíceis de se enquadrar em representações totalizantes e unificadoras‖ (Quilici 2004, p. 49). Tal parece ser o propósito do método de Ahmed junto ao Cena 11. Pois há um interesse do coreógrafo em avivar os corpos, ampliar suas possibilidades de percepção e afastálos de movimentos reflexos e condicionados, ainda que, paradoxalmente, a construção de tal diligência abrace uma disciplina ―rígida‖. Deve-se levar em conta que um arranjo disciplinar é bastante funcional para dotar os dançarinos de novas 112 habilidades e especialidades. Na dança do Cena 11, a intensificação da disciplina conduz para a profissionalização. Não seria apenas uma aparente contradição reunir as ideias de liberdade individual (como autonomia de pensamento e ação) e disciplina (ou seja, um procedimento de poder sobre a vida) num mesmo projeto? Foucault (1974) ressalta que o poder nunca é localizado nem pode ser apropriado como um bem, mas é algo que circula, funciona e se exerce em rede. Assim, o treinamento no Cena 11 pode ser analisado a partir dos movimentos de seus indivíduos pelos quais o poder passa, ou seja, verificar como as pessoas exercem e sofrem a ação do poder. Não se trata de aprofundar o olhar para Ahmed, o comando do grupo, mas buscar conhecer como, fisicamente, o elenco é constituído a partir de sua multiplicidade. Procurar descobrir como funciona o método Percepção Física enquanto processo contínuo e ininterrupto que subjuga corpos, governa movimentos e rege comportamentos. Aprofundar uma investigação sobre como múltiplas forças, energias, matérias, desejos, discursos, gestos e pensamentos formam um corpo e uma vontade única chamada Cena 11. E, ainda, como sua dança é efeito e, simultaneamente, meio de transmissão do poder. Marcas do Cena 11 são as quedas e os arremessos do corpo ao chão, o choque entre os corpos, os movimentos agressivos e inquietantes, os gestos impactantes que por vezes insinuam um masoquismo. Um corpo em estado de crise é questionado em seus limites, pois Ahmed concebe que para pensar o mundo é preciso fazê-lo na carne. As provocações oferecem-se como tentativas de despertar o corpo, arrancando-o de uma realidade insensível e paralítica. O diretor escolheu o termo ―corpo vodu‖ para indicar uma efetuação que busca violentar a percepção do outro. Seguindo uma lógica próxima aquela exposta por Artaud, Ahmed parece acreditar numa arte operativa, conectada com a vida em sua crueza e que aposta num poder de contágio e de abalo do outro por meio de uma estética chocante. Pretende aguçar a percepção e enfatizar uma aproximação com o que o vivo tem de irrepresentável. Ahmed compartilha questões implementadas por Artaud, o pensamento de que a tensão e o contato com o real têm o poder de chamar o homem a renovar suas atitudes diante da existência (Quilici, 2004, p. 56). No Cena 11, a dança como acontecimento é buscada via Percepção Física: caminho que fornece a estrutura para o trabalho do coreógrafo, cujo olhar se volta 113 ao corpo e ―às possibilidades que este propõe para a transformação do corpo do outro, sendo este ‗outro‘ um espectador e/ou um cúmplice da ação a que o corpo é submetido‖ (Cena 11, 2009). O método pode ser entendido tal qual uma ação de comportamento, tendo em vista que essa ação é produto da relação entre corpo e ambiente. Nessa acepção, o corpo hiper-atento é sensorialidade aberta e o comportamento é sempre mutável, fluido e evanescente. Corpo permeável e conduta não-cotidiana são frutos de uma relação íntegra e empenhada de percepção. 114 Grupo Cena 11 Cia de Dança. Aula ministrada por Alejandro Ahmed, 1 jun. 2010, Academia Catarinense de Ginástica, Florianópolis. Imagens: Daniel Dombrosky. Fonte: Arquivo pessoal de Jussara Xavier. 115 2.2 Como Superar o Grande Cansaço? – Eduardo Fukushima66 Em todo acontecimento existe realmente o momento presente da efetuação, aquele em que o acontecimento se encarna em um estado de coisas, um indivíduo, uma pessoa, aquele que designamos dizendo: eis aí, o momento chegou; e o futuro e o passado do acontecimento não se julgam senão em função deste presente definitivo, do ponto de vista daquele que o encarna.67 Gilles Deleuze Eu acho que tem duas coisas muito importantes na minha vida. Uma foi o antes de eu assumir que eu queria dançar mesmo, que foi numa época super difícil, que eu entrei numa angústia profunda, de não conseguir sair da cama, não sabia o que eu queria fazer da vida, não sabia nem que existia uma vida de dançarino, não sabia que a dança existia como profissão. E foi uma época muito dura, essas coisas de depressão, de não conseguir sair da cama, e que eu precisava transformar isso, mas eu não sabia como. Isso foi um ponto importante que eu trago até hoje para minha dança. É até meio clichê falar, mas uma angústia me move, me move muito para eu transformar ela em outra coisa. Então a dança me ajudou a me resolver nessas minhas aflições. Isso foi uma primeira coisa. A outra foi ter trabalhado com a coreógrafa Key Sawao68. Foi a primeira pessoa que eu trabalhei, e lá eu tive um contato com esse modo de criação individual, de você por as suas questões na roda, em forma de gestos. E também foi com quem eu tive um primeiro contato com as técnicas corporais orientais, seitai-ho, chi kung e alguns princípios do butô. Eu acho que isso me influencia até hoje, como treino, como prática, como olhar para a dança de outro jeito, de não ser uma coisa reprodução de passos, entendeu? (Fukushima, 2012). O paulista Eduardo Fukushima desenvolveu uma pesquisa coreográfica a partir da pergunta: ―Como superar o grande cansaço?‖ (estreia em 2010). A questão da fadiga nasceu por meio de experiências particulares e perguntas existenciais do artista, que encontrou inspiração nos textos de Friedrich Nietzsche (1844-1900), os 66 É praticante de balé clássico, dança contemporânea, natação, técnicas corporais orientais Chi-kung e Seitai-Ho. Formado no curso de graduação Comunicação das Artes do Corpo (PUC/SP). Realiza pesquisa individual em dança desde 2007, tendo criado os solos Canto (2007), Entre contenções (2008) e Como superar o grande cansaço? (2010). No entanto, seu trabalho profissional na área de criação em dança e performance iniciou em 2005, com Key Sawao e Ricardo Iazzetta. Como intérprete-criador, trabalhou com Célia Gouvêa, Ângelo Madureira, Ana Catarina Vieira, Luis Fernando Bongiovanni e Miyako Kato. Estudou capoeira angola e dança clássica indiana. 67 Deleuze, op. cit., 2009a, p. 154. 68 Key Sawao nasceu em São Paulo, é bailarina e diretora da Key Zetta e Cia. Sua biografia encontrase no site: http://www.keyzettaecia.com.br. Acesso em: 26 mar. 2012. Nota da autora. 116 quais abordam o niilismo da sociedade ocidental no século XIX e as alternativas para atravessar seu principal sintoma: um ―grande cansaço‖.69 De acordo com Nietzsche, a força para superar o cansaço consiste na ―vontade de potência‖, impulso que o filósofo considera a própria consistência da vida. Ele escreve: ―O ser vivo necessita e deseja antes de mais nada e acima de todas as coisas dar liberdade de ação à sua força, ao seu potencial. A própria vida é vontade de potência‖ (Nietzsche, 2001, p. 23). Tal vontade seria chave para a compreensão do mundo: Todo processo mecânico, na medida em que é alimentado por uma força eficiente, revela precisamente uma ―vontade-força‖. Suponho, finalmente, que se chegasse a explicar toda nossa vida instintiva como o desenvolvimento da vontade — da vontade de potência, é minha tese — teria adquirido o desejo de chamar a toda energia, seja qual for, vontade de potência. O mundo visto por dentro, definido e determinado por seu "caráter inteligível" seria — precisamente ―vontade de potência‖ e nada mais. (Nietzsche, 2001, p. 49). Em Como superar o grande cansaço? Fukushima aliou o quase esgotamento à potência da vontade para investigar gestos, intenções e compor sua dança. Composição que só acontece em tempo real. O bailarino e criador encontrou uma qualidade específica de movimentos que, ao longo do trabalho, conduz o artista a um estado corporal genuíno, pleno de agenciamentos velozes. A fadiga do intérprete não interrompe a continuidade de sua movimentação, ao contrário, no limite, novos acordos se desdobram no corpo, que mantém um jogo permanente entre força e fragilidade, estabilidade e precariedade. A dança incomum nasce no entre e se realiza no caos. Fukushima se diz essencialmente interessado na própria ação de dançar, considera que cada dança arrasta um tipo de corporeidade e, nesse sentido, busca [...] uma corporeidade mais crua mesmo, o próprio gesto [...]. Eu busco muito a crueza do gesto, o movimento como principal mesmo. Eu acho que é uma corporeidade muito depoimental, um testemunho pessoal, que se transforma e que vai além do pessoal por causa dessa coisa do pesquisar. Acho que vai além do pessoal, mas parte disso, de depoimentos. Busco essa corporeidade, aí a forma vem como consequência. Acho que ela é importante, mas ela vem como 69 No blog dedicado ao compartilhamento da pesquisa, Fukushima cita como referências os seguintes livros de Nietzsche: Genealogia da moral: uma polêmica; Ecce Hommo: como alguém se torna o que é; Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Em http://fukushima.wordpress.com/. Acesso em: 10 out. 2011. 117 consequência, ela não é a que primeira coisa que me vem: ‗eu quero dançar assim‘. Eu danço assim por causa de uma outra coisa antes. Perceber o que que me move hoje, para viver, para existir. (Fukushima, 2012). Como superar o grande cansaço? apresenta um Fukushima que se agita, se revira, retorce, corre, escorrega, faz pausas, espera. Acelera e desacelera. Seu fazer toca a condição e definição de corpo segundo as palavras de Lapoujade: ―o corpo é aquele que não aguenta mais, aquele que não se ergue mais‖ (2002, p. 82). Lapoujade explica que o corpo não aguenta mais todas as formas de adestramento e disciplina, ou seja, tudo aquilo a que submetemos o corpo ―do exterior‖, que por sua vez agem e se impõem no ―interior‖ para organizá-lo, subjetivá-lo, fixá-lo. É o contrário de um corpo ativo, trata-se de um corpo que ―sofre de um ―sujeito‖ que o age‖, diz Lapoujade (2002, p. 82-85). Se Fukushima traz à cena um corpo ―que não aguenta mais‖, é porque assume um corpo diminuído, desmoronado, deformado, ressentido, no limite da impotência e do anestesiamento. Vive o corpo entregue e exposto ao sofrimento, e é exatamente aí que, paradoxalmente, encontra uma potência própria, a qual libera em ação. Um corpo é capaz do acontecimento ao sofrer suportando o insuportável, ao viver o inviável, ou seja, ao abraçar um modo que possibilita criar para si um corpo outro: A potência do corpo (aquilo que ele pode) se mede pela sua exposição aos sofrimentos ou às feridas. [...]. Ser forte consiste primeiro em estar à altura de sua fraqueza. [...]. O ―eu não aguento mais‖ não é, portanto, o signo de uma fraqueza da potência, mas exprime, ao contrário, a potência de resistir do corpo. Cair, ficar deitado, bambolear, rastejar são atos de resistência. (Lapoujade, 2002, p. 86-89). Fukushima utiliza a ideia de cansaço no corpo para efetuar uma composição em dança e, assim, faz o próprio corpo explodir um pensamento de dança. Trabalha o corpo enquanto catalisador de sensações e parece treinar um corpo-pensamento, capaz de manifestar diferentes possibilidades comunicativas. Para o coreógrafo, seu corpo-cansaço se constitui a partir da experiência diária de viver na cidade de São Paulo, um local que [...] exige muita coisa, você sempre rápido nas coisas, você sempre pendente o tempo inteiro parece, você não dá conta de fazer tudo. Eu acho que é um cansaço bem cotidiano, de viver num lugar super 118 barulhento o tempo inteiro, um cansaço de muita informação, muito barulho, desse corpo que no fim do dia está no chão, com gestos duros, secos, staccatos, acho que bem cotidiano. (Fukushima, 2012). A curadora Christine Greiner nomeia o solo como ―autobiografia sem palavras‖ ao escrever sobre Fukushima em texto para o Panorama SESI de Dança 2010: A sensação de não poder acordar e se levantar, a descoberta do movimento que desfaz os padrões vigorosos e se transforma em salva-vidas, a dificuldade de articulação entre o pensamento e a palavra que salta da boca. As referências da sua formação eclética (e angustiada) são embaralhadas: o corpo circense, o corpo atleta, o corpo oriental, o corpo de uma dança popular brasileira, o corpo de uma dança contemporânea possível. O que parece generalista e abstrato se repensa com clareza na exploração de espacialidades, linhas e gestos nascidos das articulações. É quando Eduardo transita entre a verticalidade disposta na encruzilhada construída no canto das paredes e o espaço semi-aberto de um corpo colado no chão. Na passagem entre o invisível (quase-gesto) e o que se dá a ver, todos os estigmas do passado são banidos e arrancados do enclausuramento (o quarto de dormir, as lembranças tristes, as narrativas fictícias). É quando se abre, finalmente, uma nova trilha, desta vez, para estar-em-casa-no-mundo. Uma dança ―de verdade‖, realizada como testemunho pessoal ou no campo que acolhe trabalhos percebidos pelo pesquisador Óscar Cornago (2009) como ―fenômenos da confissão‖, ―tecnologias do eu‖ e ―estéticas da existência‖. No texto para imprensa e divulgação assinado pelo próprio Fukushima, ele confessa: ―A partir do meu grande cansaço [...] chego a essa pergunta e desenvolvo-a em linguagem corporal‖. O artista transforma sua confissão em ato performativo, apresenta-se em primeira pessoa dançando experiências recuperadas e inscritas no seu corpo. Ou seja, dança um passado que continua atravessando o presente. A proximidade espacial com o público, disposto ao redor da cena em que acontece a dança, colabora para a ocorrência de um encontro entre todos os presentes e diferentes. A teatralidade emerge neste espaço em que histórias, atitudes e experiências se confrontam. Trata-se de um gesto de afirmação e de dúvida ao mesmo tempo, de afirmação de uma necessidade de encontrar um sentido para uma(s) história(s) e de dúvida sobre como fazê-lo. Somente uma coisa fica clara, o caminho é através do outro, a confissão não faz sentido, não pode ter verdade, se não for através da confrontação com quem está em frente, uma necessidade de comunicação explícita distinta da que teve a dança em outros momentos. (Cornago, 2009, p. 107). 119 A memória perpassa a dança não apenas no nível de uma vivência pessoal do cansaço. Com uma política da repetição dos movimentos, Fukushima lembra a importância da memória no aprendizado da dança. Toda aquisição de conhecimento, qualquer aprendizado, necessita de um tempo dedicado à repetição, que longe de corresponder a uma não-mudança, diz respeito a um modo relacional e dinâmico, precioso a todo processo de modificação. O coreógrafo exalta o processo de repetição em suas pesquisas, que explica como um Martelar numa mesma tecla até que ela se transforma em outra coisa. [...]. a repetição se dá muito mais numa intenção, repetir uma intenção, do que repetir os mesmos gestos. Para mim os mesmos gestos vem como uma consequência, o que eu busco é achar uma qualidade de estar e de se movimentar. O que me interessa mais é esse estar e esse movimentar que gera uma qualidade, e eu não me preocupo muito se o gesto está exatamente assim, se a mão está na esquerda, no alto... não importa. É o todo. É a repetição para eu achar qualidade onde eu possa ficar livre para fazer o que eu quiser de gestos. É a repetição mais para eu achar um lugar [...]. (2012). A dança de Fukushima tem princípio essencialmente poético e não figurativo, realizando um composto de sensações. Neste contexto a ação do corpo tem papel central e constrói uma narrativa cinética (e não mimética ou representativa). Numa relação não banal, a dança se apodera de Fukushima, que se entrega a uma experiência própria de metamorfose. Como superar o grande cansaço? se desenvolve a partir de transformações de um corpo como sensação, que molda acontecimentos. Fukushima estabelece novas conexões ao explorar a repetição e expansão da ação no espaço. O bailarino não exalta o resultado coreográfico, mas seu próprio modo de produção. Suas improvisações representam uma experiência para si mesmo, [...] relativizada pela sua frequência e pelo exame atento de seu desenrolar. Uma vez que não se espera a aparição mágica de um produto excepcional, o interesse se desloca em direção à soma de processos que poderiam eventualmente levar a um produto provisório, também questionado. (Ryngaert, 2009, p. 91-92). Na dramaturgia contemporânea de Fukushima, improvisação e composição estão em confluência num corpo que se oferece como passagem. Um corpo que vomita e devora os próprios gestos. O coreógrafo propõe um modo de dançar originado numa sensação específica e insistente. O senso comum evoca a improvisação como território de invenção, novidade, originalidade, ruptura. 120 Considero mais apropriado pensá-la no terreno da tentativa insistente, da busca teimosa, do cruzamento de possibilidades, da tessitura de relações para emergência de outras formas e sentidos, em um campo de embates e encontros. É a construção da simplicidade em oposição à artificialidade, bem como, ao excesso de ordenação clássica e linear. Como pensar o acontecimento em Como superar o grande cansaço? Pode-se dizer que ele surge com a obstinação e vontade de experiência de Fukushima, que desenvolve um gestual improvisado e por isso, arriscado, indo ao encontro e confundindo-se com o mundo. No improviso meus braços se acabam. Quero chegar nesse cansaço, como um oposto de um corpo cansado, uma luta no corpo no chão, como se essa luta fosse a causa do cansaço, a não entrega, o expurgo do cansaço. Ao contrário do cansaço, o corpo potente, indo nos seus instintos, desesperos e alívios. Bem árdua essa parada. Percebo algumas células de movimentos que aparecem e continuam, umas por escolhas, outras não, essas me fazem sentido após o fazer e assistir... célula 1: movimento da perna que desde o começo aparece. célula 2: balanço com o tronco, um corpo que não aguenta, mas continua porque está vivo. célula 3: espasmos com o cotovelo, queda ombro, queda cabeça e desistência. célula 4: o empurrar o chão, o corpo que quer sair do chão e desiste, sede. célula 5: batidas com o braço no tronco, como se fosse uma automutilação, a dor. Não quero cair no dramático, mas não tenho como fugir no momento. Não quero dançar à toa, mas no momento não tenho como fugir, preciso dançar muito à toa, para conseguir chegar a uma razão. Dançar por uma razão, ou sem nenhuma razão. Escolhas… (Eduardo Fukushima, 2011). Nessa fala, Fukushima expõe algumas das forças essenciais que atuaram no desenvolvimento de sua movimentação. Ou seja, pode-se perceber alguns dos princípios testados e encontrados pelo coreógrafo no processo de pesquisa, como balançar o tronco, tombar partes do corpo, tentar desgrudar do chão. Numa investigação de dança voltada para a construção de uma dramaturgia no corpo, é provável que não exista um ―objeto de estudo‖, mas ―princípios organizativos‖, como apontou Greiner, os quais remetem às inquietações, hipóteses e ações do coreógrafo (2010a, p. 82). Vale então, esclarecer e distinguir dois modos compositivos em dança: um em que prevalece uma coordenação determinada de passos memorizados, no qual a coreografia se estabelece de forma normativa e 121 mimética a partir de um modelo idealizado; outro em que a configuração obedece a princípios organizativos, com a intenção de romper com modelos sedimentados e estabelecer [...] em cada acontecimento - ensaio ou apresentação - um tipo de relação neuro-sensório-motora que não esteja completamente mapeada [...]. Isto possibilita a busca por novas soluções a determinadas questões colocadas ao corpo em uma situação na qual a contingência será sempre ressaltada como um dos fatores de acordo entre corpo e ambiente no instante dançado. (Leste, 2010, p. 30). Tal é a proposta coreográfica de Fukushima, que se afasta de um modelo de comunicação determinística de transmissão de informações. Ao invés, afirma-se como um processo que pretende estabelecer e manter vínculos, considerando a probabilidade como parâmetro. Na consideração de Baitello: Comunicar-se é criar ambientes de vínculos. [...] os vínculos procedem de atmosferas afetivas, quer dizer, procedem de espaços da falta [...]. Corpos não transmitem bits e bites, não dosam ―informações‖ de maneira digital nem enviam ―informações‖ de modo analógico. Corpos mostram-se, apresentam-se, de maneira complexa, múltipla e, além disso, frequentemente enigmática [...]. Por meio de seus enigmas é que capturam a atenção de outros corpos. Corpos não emitem sinais unidirecionais, mas geram atmosferas saturadas de possibilidades de sinais que se transmutam em vínculos e elos quando auscultados por outros corpos. (2008, p. 100101). De acordo com esta proposição, o corpo distancia-se de uma funcionalização qualquer para ganhar o sentido de ambiente, atmosfera, corporeidade multifacetada, pensamento em ação, diferença encarnada. Que modo próprio de corpo assume o ―corpo-cansaço‖ de Fukushima? Como opera na geração de sua dança? A mera intenção de se fazer ―cansaço‖ seria insuficiente para transformar o comportamento de Fukushima. O desafio vencido pelo coreógrafo foi o de se afastar da lógica da causalidade e se voltar para a criação de estados, colando intenção e ação. As intenções que surgem no decorrer da própria ação – a intenção na ação – refinam a atenção e propiciam a emergência de novos conteúdos, micro-sensações e, até mesmo, ações involuntárias. São ajustes que ocorrem pela própria natureza dos processos cognitivos, que negociam, permanentemente, as relações do corpo consigo mesmo e com o ambiente, considerando que uma ação nunca se repete de forma idêntica. [...] Trata-se de corpos que pensam ou de mentes encarnadas em corpos comprometidos (Nunes, 2009, p. 148). 122 A rapidez e fluidez dos movimentos aliadas a singularidade do estado corporal em Fukushima estão longe de ser um automatismo qualquer. Ao contrário, o criador não se afasta de sua atentividade e permanece vigilante em suas sensações. O esforço para despertar o corpo e arrancá-lo de sua condição anestesiada ocorre com o mesmo em ação, pois como sugere o filósofo Michel Serres (2004), o corpo em movimento tem o papel de federar os sentidos e descobrir sua própria existência. Mas se mente e corpo são inseparáveis, por que aparentemente não permanecem sempre em estreita colaboração, no sentido que normalmente fazemos uma coisa e pensamos em outra? Por que somos pouco atentos? Por que nos separamos de nossa própria experiência? Os autores do livro A mente incorporada se debruçam sobre estas questões ao investigar a incorporação do conhecimento, da cognição e da experiência, propondo uma ponte entre as ciências cognitivas (estudo da mente na ciência) e a mente na experiência do cotidiano pelo método da tradição budista de meditação atenta. Na sua visão, a ―dissociação mente-corpo, consciência-experiência é o resultado do hábito, e esses hábitos podem ser quebrados‖ (Varela, Thompson e Rosch, 2003, p. 42). Para desenvolver a atenção e consciência que resultaria em aproximar a pessoa de sua experiência, sugerem uma reflexão incorporada. Por incorporada queremos nos referir à reflexão na qual corpo e mente foram unidos. O que essa formulação pretende veicular é que a reflexão não é apenas sobre a experiência, mas ela própria é uma forma de experiência – e a forma reflexiva de experiência pode ser desempenhada com atenção/consciência. Quando a reflexão é feita dessa forma, ela pode interromper a cadeia de padrões de pensamentos habituais e preconcepções, de forma a ser uma reflexão aberta – aberta a possibilidades diferentes daquelas contidas nas representações comuns que uma pessoa tem do espaço da vida. Nós denominamos essa forma de reflexão de reflexão atenta, aberta. (Varela, Thompson e Rosch, 2003, p. 43). A proposta admite a reunião entre intenção e ato, a unidade entre o corpo e a mente, com o desenvolvimento de hábitos nos quais ambos permaneçam em plena coordenação. O resultado de tais acordos é um gesto controlado e preciso, tal qual é possível verificar no corpo afinado e agitado de Fukushima. Uma dança contemporânea que é dança no corpo (e não dança com o corpo), e que apresenta uma relação muito maior com as forças (do que com as formas), com o esgotamento 123 (do que com o virtuosismo) e com o acontecimento que se extrai da vida (do que com a vida como ela é). O acontecimento no corpo de Fukushima possibilita apreender um estado de desequilíbrio, vertigem e perturbação, bastante próprio ao mundo em que vivemos e que, portanto, também nos pertence. 124 Como superar o grande cansaço? (2010), Eduardo Fukushima. Fotos: Inês Correa. Fonte: <http://www.fukushima.wordpress.com >. Acesso em: 1 jun. 2011. 125 2.3 Meu Corpo é Minha Política - Micheline Torres70 Será, pois, que o estatuto do acontecimento puro e do fatum que o acompanha não é o de ultrapassar todas as oposições: nem privado, nem público, nem coletivo, nem individual..., tanto mais terrível e poderoso nesta neutralidade, uma vez que é tudo ao mesmo tempo? 71 Gilles Deleuze Na contramão da dança que preserva o corpo no fluxo e na continuidade de movimentos, há uma dança implicada na imobilidade, na lentidão, na pausa, no ato banal e cotidiano do homem comum. Não se trata exatamente de uma negação do movimento, mas de uma estratégia coreográfica que utiliza o corpo para questionar e criticar a linguagem artística ―típica‖ da dança, seus próprios fazeres, seu sistema de produção e consumo. Uma dança-atitude que faz política no corpo ao solicitar uma revisão de seus conceitos e práticas. No livro Agotar la danza: performance y política del movimiento, André Lepecki (2008) analisa obras de coreógrafos contemporâneos como Jérôme Bel, La Ribot, Xavier Le Roy e Vera Mantero, que interrogam a ontologia política da coreografia e criticam com veemência os elementos constitutivos da dança cênica ocidental (como, por exemplo, um corpo disciplinado e sua disponibilidade à movimentação; um espaço fechado com um piso liso; o teatro que preserva a distância palco-plateia). No caso da imobilidade, ela entra em cena como estratégia para desmanchar a tradicional ideia da dança como associação contínua de movimentos em um corpo, quer dizer, para questionar o paradigma da dança como sucessão de passos harmoniosos realizados por um corpo ao som de uma música. Ainda que a função do imóvel seja única para cada um dos criadores estudados por Lepecki, o autor ressalta a proposição de que o movimento não se reduz a uma agitação cinética permanente, mas abarca intensidades e gera um campo intensivo 70 Bailarina, coreógrafa e performer. Formada em balé clássico e dança contemporânea. Estudou Artes Cênicas na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Trabalhou por 12 anos como bailarina e assistente da Lia Rodrigues Companhia de Danças (RJ). Desde 2000 desenvolve trabalhos próprios situados entre a dança contemporânea, a performance e as artes visuais. Integrante do coletivo internacional Sweet and Tender Collaborations. 71 Deleuze, op. cit., 2009a, p. 37. 126 de micropercepções. Uma perturbadora proposição de dança é apresentada com o ato de paragem: o engajamento em uma outra relação com a temporalidade e novas experiências de percepção, capaz de suspender a anestesia sensorial que nos assola. Outra modalidade de crítica se oferece com distinta escolha formal na dança: o solo. No início do século XX, esse formato nasceu como estratégia de renovação na dança, propondo uma espécie de laboratório ideal para experimentações de um corpo em suas possibilidades de movimento, expressão e comunicação. Desde lá até hoje, o solo permanece como possibilidade que abraça a necessidade de investigação do artista para encarnar uma visão pessoal do mundo e realizar uma crítica social. Em suas primeiras manifestações, os solos ―são uma provocação viva não somente à instituição coral, uniformizada e tecnicista do balé, mas à completa concepção da mulher e de seu papel na sociedade‖ (Ropa, 2009, p. 63). Nos solos inquietantes de Isadora Duncan (1877-1927), Ruth St. Denis (1879-1968), Loie Fuller (1862-1928), Mary Wigman (1886-1973), Martha Graham (1894-1991), Lucinda Childs (1940) e Susanne Linke (1944), encontramos individualidades inconformadas gerindo livremente seus próprios corpos. Ropa (2009) verifica a preponderância do solo hoje, o que explica por meio de vários fatores, como a necessidade do artista em reelaborar de modo próprio os materiais vivenciados no trabalho com diferentes coreógrafos, grupos, professores, técnicas e poéticas. A atuação de modo solitário pode ser feita com maior rapidez e com maior profundidade. Sob o teor ideológico, o solo ainda se firma enquanto comportamento de resistência, ou seja, estratégia para se afastar das modas massificadas. Afirma Ropa: [...] a profundidade introspectiva em época de exterioridade exibida, a fé na expressão corpórea orgânica e na relação individual presencial em época de exaltação do inorgânico e da comunicação virtual parecem querer constituir um bolsão de resistência, rebelde ao controle e à pasteurização. (2009, p. 69). Dois solos da bailarina Micheline Torres dão vida ao projeto Meu corpo é minha política: Carne (2007) e Eu prometo, isto é político (2010). Um terceiro solo, em fase de montagem e com o título provisório de Pequenas histórias sobre pessoas e lugares se unirá aos dois primeiros trabalhos na composição do projeto citado, cujo objetivo ―é trabalhar o corpo como instrumento de discurso‖. A citação é 127 de Torres, para quem o corpo ―carrega um discurso inerente‖, ou seja, pode ser lido por vários motivos: pela técnica que o formata, pela classe social, pelo jeito de falar, pelo modo próprio de se colocar no mundo (Torres, 2012). Mas o que seria um corpo político? Segundo Torres, as duas citações que seguem – a primeira de autoria do geógrafo Milton Santos (1926-2001) e a segunda da filósofa Judith Butler (1956), marcam a ideia inicial do projeto Meu corpo é minha política. ―Os lugares obrigam os homens a intercâmbios.‖ ―Discursos, na verdade, habitam corpos. Eles se acomodam em corpos. Os corpos na verdade carregam discursos como parte de seu próprio sangue.‖ Para a coreógrafa, tais frases ―funcionaram como um ativador‖. Explica: [...] por um lado, de um processo de criação que tem me interessado muito nos últimos anos, que é trabalhar em diferentes contextos, não só econômicos, políticos, sociais. Então eu viajo bastante, faço muitos projetos de residência e procuro fazer disso um meio de produção também de trabalho. Então essa frase do Milton Santos vem de encontro a isso, quando você vai para os lugares, quer você queira, quer você não, você dentro de um outro contexto começa a abarcar as condições desse contexto, e a trabalhar com elas, quer elas sejam positivas ou mais difíceis. Então é essa um pouco a ideia do Milton Santos. E a ideia da frase da Judith, que os corpos carregam discursos é para mim muito enfática... Acho que há tanto no Carne quanto no Eu prometo, mas de maneira diferente, não só uma questão física de tônus, de como você se coloca, isso revela quais opressões que ocorrem no seu corpo, do corpo ser um instrumento mesmo de discurso. E aí a cada trabalho isso vai ser desenvolvido de uma maneira diferente. (Torres, 2012). Como criadora, Torres acredita que um corpo se coloca politicamente ao mostrar as relações com as quais se compõe, [...] no sentido de que você vê um trabalho de balé clássico, então você vê na relação das pessoas, na frontalidade, na relação com a música, na relação com o movimento, da harmonia do movimento com o corpo, a mulher é leve, o homem suporta... Ali estão sendo traçadas várias relações que você pode ler como relações políticas que dizem respeito a uma época, que dizem respeito a relações de poder. O que me interessa discursar com o corpo são... quase sublinhar isso é político, no sentido de que você está se colocando, você está estabelecendo relações em cena mas também fora de cena, quando você recebe um dinheiro para fazer seu trabalho, de onde vem, que concessões você tem que fazer, que concessões 128 você não vai fazer, como é que você se coloca em relação a isso. Então me interessa discursar um corpo que carrega inerentemente uma política. (2012). Com a montagem de seus primeiros solos, a coreógrafa se reconhece dentro de um processo da dança contemporânea localizado no Rio de Janeiro, nas últimas décadas, que [...] é muito reflexo da dança contemporânea europeia, sobretudo da França, que é de negação do movimento, antes é um questionamento do se mover, para que se mover, se se mover tem que ser com música, se se mover tem que ser de uma maneira harmônica, redonda, tal. Então eu me vejo nesse lugar com muitos colegas meus que questionaram, mesmo nos anos que eu trabalhei com a Lia Rodrigues [...], a gente não só conversava mas experimentava muito o questionamento do movimento. Isso acho que me formou, porque cada trabalho que você faz, as pessoas com as quais você trabalha te formam de uma maneira. Então eu me vejo localizada assim numa onda de coreógrafos que passou por isso, sabe? [...] eu me vejo muito nessa vaga de passar por um questionamento do que que é o movimento, do que que é a dança mesmo, do que que é coreografar e agora me sinto num caminho assim procurando... eu quero dançar, mesmo que eu não saiba dizer isso, mesmo que não seja chegar na sala e me mover, não é isso, mas tem alguma coisa aí que eu estou procurando, sabe? (2012). Ao assistir os solos Carne e Eu prometo, isto é político, alguém pode ser levado a dizer que as sequências são improvisadas, mas, curiosamente, cada ação do corpo em cena é meticulosamente programada. Torres revela: [...] se eu for ensinar a coreografia para alguém, acho que o Carne é mais difícil, não, acho que os dois são difíceis de ensinar porque eles pedem uma precisão aí que me apetece, mas que é difícil. Mas não tem muito... volume de movimento. Mas a minha maneira de compor aquilo é muito coreográfica, no sentido de cada hora... cada parada é o que é suspensão, você segura, ou você segura aqui em cima, você pára, olha exatamente aqui ou é aqui. Acho que essas coisas fazem uma diferença, sobretudo porque no Eu prometo tem uma máscara, então tem a cruz, então conforme a posição da cabeça a cruz vai aparecer ou não. Se você for colocar isso numa lente do entendimento mais tradicional, não no sentido pejorativo, tradicional de dança, de movimento, você vai ter uma visão de que é pouca dança, de que tem pouca dança. Mas a maneira de compor aquilo é dança, é coreografia, é ordem, o que é que vem antes, se pára, se segura, como é que pula, o braço assim é diferente de assim. Então eu acho que é outro entendimento, outra proposição de dança. (Torres, 2012). Torres pertenceu a Lia Rodrigues Companhia de Danças - fundada por Lia Rodrigues em 1990 na cidade do Rio de Janeiro - de 1996 a 2007, período que 129 considera muito importante e formador. Trata a diretora ―Lia‖ como uma artista muito ―curiosa‖ e ―rigorosa‖, características que aprendeu a desenvolver em si mesma e credita a esta convivência. Torres reconhece diferentes etapas e dinâmicas pelas quais passou junto à companhia, como, por exemplo, a formação com poucos e com muitos bailarinos, a existência e inexistência de financiamento, a presença e a ausência de Lia Rodrigues. Considera que os afastamentos temporários da diretora a impulsionaram para a carreira solo, iniciada no ano 2000. Segundo Torres, [...] tinha fases em que a Lia estava muito distante da companhia, então a gente desenvolvia muito um trabalho solitário. Eu acho que aí eu me toquei dessa minha predileção pela solidão, que eu acho que funciona, embora hoje em dia eu esteja procurando um outro desafio que é estar com outras pessoas no dia a dia. Mas lá na Lia eu desenvolvi muito essa coisa de trabalhar sozinha mesmo, sabe? Porque a gente tinha uma coisa lá de trocar de papéis. Então a gente está ensaiando e pode ser que uma coisa que eu crie e você dance, mas eu te ensaio. Tem essa coisa que é super importante de trabalhar o olho, e de trabalhar o olho na outra pessoa, sem uma possessão do material levantado. E acho que dessa época com a Lia veio essa coisa de gostar de trabalhar sozinha, de funcionar trabalhando sozinha e uma identificação muito grande com a Lia assim... dela com os anos, ela perceber que eu funcionava bem sozinha e que nós duas funcionávamos bem uma com a outra assim, dentro dessa solidão. Eu identifico aí nesses anos de trabalho com a Lia um rigor, um engajamento com o que se faz, sabe, em várias camadas: engajamento físico mesmo, de exigência física, mas engajamento com a profissão, com a dificuldade que é ter uma companhia. Ali no caso é ter uma companhia, mas que já arrasta a dificuldade que é a de ser uma artista, de continuar sendo. Então eu identifico isso: a coisa da solidão, o engajamento, o rigor... não sei, acho que o alimentar de uma curiosidade pelas coisas. Porque também teve essa coisa: eu fiquei muitos anos na companhia e aí tem as relações com as pessoas, tem os atritos das relações no dia a dia, e no final, quando eu estava na companhia, acho que em 2005... Na verdade eu comecei a querer sair da companhia em 2005, mas eu só consegui sair em 2007, porque era assim: ‗ah, fica mais um tempo, vamos fazer mais uma criação‘. Aí você vai se envolvendo e demora a sair. Mas nesse final eu já propunha à Lia: ‗eu quero ser ensaiadora deles, eu quero fazer o processo criativo com cada um‘. Eu ficava procurando também outros lugares ali dentro daquele sistema e acho que isso foi super importante para mim, para essa saída, sabe? De procurar dentro do que você faz outros pontos de vista da mesma coisa. (2012). Durante os processos pessoais de criação, a coreógrafa se considera uma ―obsessiva‖ e, por isso, fala que se obriga a parar de trabalhar, caso contrário, ocupa todo o seu tempo em aulas, ensaios, pesquisas, leituras e filmes relacionados às questões sobre as quais se debruça. O tempo dessas ações é ―alimentador‖ e 130 ―estimulante‖, diz Torres, para quem o grande desafio da dança é o de ―pensar as coisas coreograficamente, não só no sentido de organizá-las numa ordem determinada‖. Suas pesquisas coreográficas excedem as paredes das salas de dança, se estendem, por exemplo, [...] nas imensas horas que eu fiquei vendo filmes e lendo livros e vendo pessoas, fazendo entrevistas e falando sobre a ORLAN72 [...] e o trabalho dela em performance. [...] a pesquisa abarca várias maneiras de você se debruçar sobre o seu objeto, sobre o que você intui que é o seu objeto. Então, ver filme, ver exposição e conversar com pessoas [...], conversas com o público, por exemplo. [...] normalmente quando termina o trabalho eu gosto de fazer conversa com as pessoas e não é no sentido didático de explicar o trabalho, mas de estabelecer mão dupla mesmo [...]. (Torres, 2012). Este debruçar-se sobre diversos aspectos no fazer da dança, dita o modo de ativismo e de engajamento de Torres em relação ao próprio trabalho. A coreógrafa conta que ao assistir muitos vídeos da performer Marina Abramovic (Belgrado, 1946), se deparou com a questão do prolongamento do tempo e da qualidade de atenção que dispensamos às coisas. Num deles, Abramovic permanece penteando seu cabelo com uma escova enquanto repete continuamente a sentença Art must be beautiful, artist must be beautiful73, durante cerca de uma hora. Torres revela: Ver aquele trabalho na duração, me fez refletir super sobre meu engajamento com as coisas que eu faço porque, a Marina, por exemplo ela trabalha com resistência do corpo, ela faz coisas com as quais ela se machuca, ela fica repetindo horas e horas, e para mim não é exatamente essa coisa de se doar no sentido quase sanguíneo do trabalho, mas do engajamento. E ver essas coisas na duração me fez muito, eu tava na época fazendo Carne, me fez pensar sobre não só o engajamento como é que eu pego uma proposta e investigo ela mesmo com coragem, no sentido de não sei onde vai dar mas vou fazendo, e também na vida de artista, sabe assim, com que engajamento eu realmente me interesso em questionar políticas digitais, com que engajamento eu procuro frequentar... assistir os trabalhos dos meus colegas, que também é promover troca, tal. (2012). 72 ORLAN (seu nome é inteiramente escrito com letras maiúsculas), nascida em 1947, é uma performer francesa, que vive e trabalha nas cidades de Paris, Los Angeles e Nova Iorque. Sua prática artística explora diferentes técnicas, dentre elas fotografia, vídeo, escultura, desenho, instalação, biotecnologia. Ficou conhecida pelas performances em que submete seu corpo a intervenções cirúrgicas. Essas e outras informações podem ser encontradas no site oficial de ORLAN: http://www.orlan.net/. Acesso em: 22 mar. 2012. Nota da autora. 73 A arte deve ser bela, o artista deve ser belo. Além de falada, a frase nomeia a performance, criada em 1975. 131 Torres diz que costuma assistir bastante espetáculos de dança e teatro. Sua curiosidade avança em direção a diferença, propriedade que exalta na fala abaixo, quando menciona diferentes formatos de produção da dança (solo, grupo, coletivo) e a variedade de propostas estéticas. Aqui no Rio a gente tem vários coreógrafos [...] que não tem companhia, acho isso interessante como proposição de outros formatos de trabalhar. Porque até um tempo era como se fosse uma linha progressiva: bailarino-coreógrafo-criou sua companhia, pronto, como se você atingisse um patamar e ali você fica. Acho que não tem isso, são... uma coisa legal dos coletivos e das outras maneiras de estar junto, de produzir junto, é que você tem vários formatos de encontro, de levantar trabalho. Eu gosto de ver trabalho de um monte de gente... não sei, eu sou curiosa. Por exemplo, agora, foi esse ano, eu vi o trabalho da Focus, que é uma companhia aqui do Rio, os meninos muito jovens [...], super competentes. Não é uma estética que me interessa como movimento. Eles fizeram um trabalho em cima das músicas de Roberto Carlos. Só que eu acho tão bom de ver porque assim... engajados e sérios, acho muito legal. Então eu não procuro ver coisas que são só afins a minha pesquisa atual, ao meu entendimento do que eu quero colocar em cena. Mas é uma curiosidade pelos trabalhos das pessoas, que eu acho que isso alimenta a gente. A diferença é muito importante, e não querer criar similaridade sabe? Lidar com a diferença e discordar. (2012). Depois de tudo isso, a gente entende que os solos de dança de Torres não são dançados sozinhos, mas abarcam uma multidão... Contudo, mais do que quantidade, trata-se de multiplicidade: intensidades que forjam acontecimentos num corpo. Carne [...] Carne é um trabalho que vai para os dois lugares, vários vezes eu apresento dentro de um ambiente total de arte visual. Eu lembro no começo, uma pessoa veio me entrevistar e falou assim: ‗Como é a sua produção em arte visual?‘ [...] Eu falei: ‗Eu não sei se eu tenho produção em arte visual, eu trabalho com o corpo‘. Então o Carne é um trabalho que me dá um prazer nessa área, porque ele vai para um lado e vai para o outro. E eu gosto que ele faça essa implicância de um campo para o outro, porque o interesse não é defini-lo, mas é colocar como um trabalho que coloca uma proposta, que tem um entendimento de corpo, mas que não está muito interessado em se localizar fixamente. Eu gosto muito das confusões que ele provoca, têm horas que eu falo que é uma performance: ‗É, uma performance‘. 132 Têm horas que eu falo: ‗É uma peça de dança contemporânea, mas tem o frango, tá?‘ [risos]. (Torres, 2012). Torres é minoria, no sentido que Deleuze e Guattari atribuem à palavra. Os autores definem minoria não por um pequeno número, mas pela flutuação ou pelo devir que a separa de uma maioria redundante. ―A potência das minorias não se mede por sua capacidade de entrar e de se impor no sistema majoritário, nem mesmo de reverter o critério necessariamente tautológico da maioria‖ (1997a, p. 154). A minoria é, sobretudo, ligação e fórmula das multiplicidades. A força viva das ideias da minoria é análoga a uma grandeza que representa mais do que uma soma numérica: é potência social e política. A consistência do trabalho de Torres aponta para um fazer compositivo de multiplicidades, ou seja, uma ação que comporta várias linhas e dimensões de intensidades. Pois a multiplicidade, segundo Deleuze e Guattari não é determinada pela quantidade de elementos e características de uma composição, mas pelas ―intensões‖ que promove (1997b). Carne propõe-se como devir de todo o mundo: devir-mulher, devir-bicho. É devir-dança. O devir é bloco de coexistência, não possui termo nem sujeito, somente arrasta um e outro ―a zonas de vizinhança ou de indecidibilidade‖ (1997b, p. 196). Segundo o texto de divulgação do trabalho, Carne nasceu com a proposta de pensar o embate entre corpo presente e corpo ausente, entre vida e morte. Nesta relação carnal entre um corpo vivo ―desanimado‖ (da dançarina) e corpo morto ―animado‖ (do frango) se oferecem questões sobre o interior e exterior dos corpos, inclusão e exclusão, a materialidade e o movimento que nos faz, a sexualidade como dispositivo do poder, as secreções, a nudez e a roupa, o cordão umbilical, as vísceras. A composição se faz a partir de princípios simples: realização de uma série de ações e tarefas.74 Esticar um plástico na mesa. Vestir as luvas. Cortar o frango. Arrancar as entranhas do animal. Esfregar. Despir-se. Vestir-se. Escovar os dentes. Cuspir. Costurar. Carregar. Performar. Dançar. Então o corpo como acontecimento encarnado. No início de Carne duas presenças agem diretamente no sistema nervoso desta espectadora-relatora: uma 74 O uso de ações e tarefas como proposta compositiva inovadora, marca o contexto da dança pósmoderna americana na década de 1960 e ressoa com força nas produções contemporâneas da atualidade. 133 dançarina e um frango resfriado. Num processo orgânico e visceral, a interação destes dois corpos reverbera em mim numa sensação real de náusea, um mal estar no estômago. Vivencio uma experiência de repulsa. A dança se propaga por contágio-deformação de corpos: dos homens e do bicho. Lehmann recorda que ―[...] o teatro pós-dramático visa a demonstração pública do corpo e de sua decadência num ato que não permite distinguir com segurança arte e realidade. Ele não oculta que o corpo está destinado a morrer; ao contrário, enfatiza esse fato‖ (2007, p. 358359). Tal sentença ecoa em Carne. Uma mulher dança. Dançarina despersonalizada, despojada de personagens, privada de individuação. Pois na dança há possibilidade de uma pessoa despir-se de quaisquer funções e papéis sociais desempenhados, conforme Gil: ―a dança desnuda os corpos‖ (2004, p. 164). A nudez de Torres é reforçada no ato de vestir e despir garrotes de borracha (elásticos usados em laboratórios para fazer exames de sangue), os quais amarram pernas e braços, simulam um biquíni e colares, forçam um sorriso expresso de monstruosidade, desumanidade e pavor. A outra da mulher aparece. O animal também. Este ritual de autotransformação se desenrola com a música eletrônica de Marc Houle e uma dança repetitiva, colaborando para ressaltar a banalização da ideia de metamorfose do corpo. Ao deformar o próprio corpo, a artista afasta a possibilidade de fixá-lo e busca um corpo outro. Explora a matéria em sua crueza e profana com ironia a imagem de corpo perfeito. Uma crítica à ditadura da beleza e à popularidade crescente da cirurgia plástica insinuam-se no esticar da pele do rosto e no posar de fio dental. A ―roupa‖ modela o corpo e lhe dá forma. Na praia o corpo vê e é visto, quer mudar de cor(po). Prevalece afinal, a aparência. A plástica, forma extrema de alteração corporal, é tentativa de ultrapassar o humano, vencer o tempo, desafiar a morte. Deterioração ou prolongamento da vida? Culto ao corpo e à imagem. Triunfo da cultura? Para o antropólogo francês Stéphane Malysse, a ―corpolatria‖ brasileira faz do corpo um fornecedor de informações intencionais, fabricadas e ―artificiais‖. O corpo construído para ser visto, é teatralizado ao extremo e joga num cenário em que cada um é simultaneamente ator e espectador (2002, p. 119). Frequentemente o desejo de esculpir um corpo belo e ―perfeito‖ é justificado pela necessidade de felicidade, de estar bem consigo mesmo, de melhorar a auto- 134 estima, de alcançar a plenitude ―interior‖. Modificar por fora para mudar por dentro. O que escondemos? O que mostramos? O que apreendemos quando entramos em contato com o outro? Corpos contêm outros corpos. Ver um corpo ou ver um alguém significa olhar o infinito. Gil serve-se destas sentenças para explicar que o homem é um ―movimento para‖, que suas emoções, desejos, imagens, sua ―profundidade‖, não corresponde a uma verticalidade objetiva, mas a uma tipologia de velocidades de manifestação. Explica que o exterior do corpo se estende na sua superfície e desse modo podemos fixar sua expressão. Mas como fitar seu interior? Aonde se situa a profundidade do corpo? O autor profere que o interior do corpo é um espaço nãovivido (pois não temos dele uma experiência consciente) e também não-visto do exterior, mas está situado no ―espaço-charneira‖, no entre. Toma a pele como meio de agenciamento interior-exterior. Assim, quando procuro o sujeito do outro por trás do invólucro do seu corpo, miro um espaço interior numa topologia diferente do espaço exterior objetivo. Como o sujeito está implicado na percepção, não há percepção objetiva de um corpo humano, ou seja, do outro só posso ter uma experiência indireta. O equívoco, diz Gil, é que tomamos o exterior pelo interior, ou seja, assimilamos os sinais visíveis pela ―coisa mesmo‖, a expressão pelo expresso (1997, p. 147-183). Para Gil, um corpo paradoxal estabelece um laço extraordinário entre o interior e exterior do corpo: pensa o corpo como estrangeiro a si no mais íntimo de si (1997, p. 184-185). É um corpo que comporta o virtual do seu desejo, não é somente organismo (corpo anatômico) nem simulacro (fantasma). É espaço-tecido-para. Um corpo nu e sem avesso. Gil supõe que um corpo que dança transforma-se no mover contínuo, e forma uma banda de Mobius em proporção as forças de afeto que são absorvidas do interior e circulam pela superfície. O autor explica que o movimento dançado constrói o corpo paradoxal como o anel e libertador de intensidades cinestésicas, pois: [...] cria uma superfície contínua de espaço-pele [...], a respiração torna-se quase dérmica, os sons fazem vibrar a pele, a visão é toda em superfície. Se a bailarina do ballet apagava todo o traço dos seus órgãos genitais, a nudez contemporânea não faz paradoxalmente mais do que sublinhar a continuidade da superfície única da pele, 135 não deixando por igual os órgãos do interior manifestarem-se ou tornarem-se visíveis (2004, p. 64-65). Carne. Retirar os órgãos do frango. Despir as calças. Preencher o frango com as calças. Cuspir. Ejacular. Na carne, a possibilidade de acontecimento de um eu que é fluxo, público, privado, prolongamento de singularidades. A presença de Torres é de tal modo alusiva e ambígua, que vem a tona a experiência de um certo vazio, de não saber e não poder explicar o que se é. Está para uma presença constituída como ―processo‖ e ―verbo‖: algo que acontece. A presença é, então, abertura e produção de realidades inéditas. O que é acontecer no corpo? É produzir a si mesmo, fazer-se processo, criar e afirmar a diferença (no lugar da mera conservação). Tal ação implica a recuperação e o alargamento do desejo e das potências deste corpo. O corpo acontece quando revela sua própria vida, contrariamente a uma representação formal submetida e dominada pelo poder, em seus inúmeros mecanismos de controle. Torres discute em cena o dispositivo que torna o homem escravo do próprio físico: corpo saudável, equilibrado e longevo - seguidor de preceitos estéticos e médicos (científicos), corpo ideal e perfeito - submisso às normas da cultura do espetáculo, que dita o modelo da celebridade. Pelbart fala desta obsessão dos homens pela perfectibilidade física com as consequências que dela advém: O fato é que nós abraçamos voluntariamente essa tirania da corporeidade perfeita, em nome de um gozo sensorial, cuja imediaticidade torna ainda mais surpreendente o seu custo em sofrimento. [...]. Eu não hesitaria em chamar a isso tudo, nas condições moduláveis da coerção contemporânea, de um corpo fascista. Ou seja, diante de um modelo inalcançável de perfeição, que nem sequer as celebridades conseguem sustentar, diante deste modelo que paira sobre todos nós como uma obrigatoriedade, boa parcela da população é lançada numa condição de inferioridade subhumana. Estamos todos aquém deste modelo. Que além do mais, o corpo tenha se tornado também um pacote de informações, um reservatório genético, isso tudo só vem reforçar e fortalecer os riscos de eugenia. Estamos às voltas, em todo caso, com o registro de uma vida biologizada, reduzidos ao mero corpo, do corpo excitável ao corpo manipulável, do corpo espetáculo ao corpo auto-modulável: é o domínio da vida nua. (2007, p. 60). Ao falar da ―vida nua‖, Pelbart serve-se de um termo desenvolvido pelo filósofo Giorgio Agamben (2002) no livro Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I. A noção remete à centralidade do corpo na sociedade – fundamento da 136 biopolítica75 moderna, e confronta sujeição ao poder e liberdade individual. A ―vida nua‖ habita o corpo biológico de cada um e identifica um morto vivente, é residual, irredutível e encerrada na indiferença (Agamben, 2002). O território da ―vida nua‖ admite uma existência reduzida ao fato biológico, em que todos os homens são escravos de um poder que não elimina o corpo, mas o mantém na sobrevida. Ou seja, a vida é depreciada e os sobreviventes vivem na fronteira entre o humano e o inumano (Pelbart, 2007, p. 59-60). Ocorre uma espécie de animalização ou coisificação do homem, que se torna uma ―estátua viva‖ e ―incompatível com o mundo humano‖ (Agamben, 2002, p. 107). Quando, ao final do trabalho, Torres cai sobre a mesa, seu corpo se debate entre espasmos e convulsões, perde vitalidade. A ameaça da morte aparece e deixa um sentimento de vazio, lembrança de corpos doentes e do mal estar que acompanha a onda da ―corpolatria‖: depressão, síndrome do pânico, compulsão, bulimia, anorexia, suicídio... A ―vida nua‖, ou seja, a vida ―matável‖ prevalece até a dissolução da performance. Se o poder silencia o corpo, como o corpo pode re-descobrir sua potência? A contemporaneidade da dança em Carne está no dizer a urgência de buscar uma nova vida, na procura pela diferença, num corpo insubordinado que afeta e se deixa afetar. Torres produz o novo na medida em que inventa desejos e associações para mobilizar a memória coletiva, reinventar a corporeidade e a dança. A potência de sua dança estaria na sua aparente ―não-dança‖, em seus atos de paragem e repetição? Em permanecer numa zona de indiscernibilidade entre o sim e o não? Agamben explica que A potência que existe é precisamente esta potência que pode não passar ao ato [...]. Ela se mantém em relação com o ato na forma de sua suspensão, pode o ato não podendo realizá-lo, pode soberanamente a própria impotência. [...] toda potência (de ser ou fazer) é também, originariamente, potência de não (ser ou fazer) [...]. (2002, p. 52-53). Também podemos dizer que a potência da dança de Torres estaria em se entregar a contingência e des-criar a dança? Agamben (apud Pelbart, 2009) afirma que a contingência ―é um acontecimento (contingit) considerado do ponto de vista da 75 Biopolítica é uma expressão que designa um modo de exercício do poder sobre o corpo e a vida (biopoder) a partir do século XVII. Na tese de Foucault, a biopolítica é determinada nos processos biológicos e nos mecanismos de existência da população, ou seja, trata-se de uma forma mundialmente disseminada de exercício cotidiano de um poder estatal que investe na formatação e normalização dos indivíduos (Foucault, 2007). 137 potência‖. Resta dizer que para compreender a criação como atividade de descriação da realidade, devemos percebê-la como ato de resistência. Mas o que significa resistir? É antes de tudo ter a força de des-criar o que existe, des-criar o real, ser mais forte do que o fato que aí está. Todo ato de criação é também um ato de pensamento, e um ato de pensamento é um ato criativo, pois o pensamento se define antes de tudo por sua capacidade de des-criar o real. (Agamben apud Pelbart, 2009). A escolha pelo silêncio em grande parte do trabalho molda uma força. Estamos tão habituados a um cotidiano barulhento e ao espetáculo da dança conforme a música, que tal estratégia cênica intervém para convidar o público a outro modo de vivência e percepção. Se historicamente muitas coreografias deixaram de usar músicas por uma necessidade de afirmação da área da dança como forma de arte autônoma, atualmente o plano tende para uma renovação desta linguagem. Junto ao silêncio procura-se a emergência de outros tipos de discurso artístico, em que o corpo deve ser o único capaz de dizer tudo. Por outro lado, enquanto a música provoca facilmente a distração do espectador, o silêncio inclinase a concentrar sua atenção. Impõe um vazio que penetra nos gestos e retém a energia no corpo e nos diálogos que esse oferece. Quilici analisa a opção pelo nãodito no teatro a partir do trabalho de encenadores como Vsevolod Meyerhold (18741940), Antonin Artaud (1896-1948) e Jerzy Grotowski (1933-1999). O autor considera a ―retórica do silêncio‖ como uma modalidade de vazio, o qual ―pode penetrar todo o fenômeno cênico, retirando algo de seu poder de fascinação espetacular, mas oferecendo-nos em troca um espaço de liberdade, onde os processos de criação poderiam encontrar fontes mais profundas‖ (2005, p. 76). Torres confessa que o uso do silêncio é um dos elementos que lhe agrada por ser mais ―permissivo‖, no sentido de facilitar a criação de um contexto específico. Considera a música ―muito difícil de trabalhar‖, contudo, diz que se trata de um assunto não resolvido. Ela dispara um série de perguntas: ―O que é ‗com a música‘? Tem que usar música? Ou se não tem, se você não usa música... fica chato? Por que não está usando música? Como é?‖ Mais do tentar responder todas as questões, Torres acredita que cada uma delas cria uma espécie de dialética e necessidade, diz: ―você vai se relacionar com ela momentaneamente‖, pois a resolução de usar uma música ou trabalhar no silêncio está relacionada a 138 especificidade de cada obra. Segundo Torres, há sempre o risco de constituir uma solução ―feliz‖ ou ―bem frágil‖ (2012). Assim como o silêncio, a nudez do corpo se faz muito presente em cena. Certo dia fui ao teatro com um colega assistir a um espetáculo. Estávamos entrando na plateia, os bailarinos já estavam no palco e ele me diz: ―Se já começou sem o público e tem gente nua, é dança contemporânea!‖. Uma brincadeira que serve para revelar o clichê que se tornou o corpo nu nas produções de dança, apesar das diferentes funções e efeitos que tal procedimento cumpre em cada uma delas. No entanto, ainda que aparentemente desgastada, a estratégia da nudez tem força e continua a instigar e suscitar questões. É capaz de sacudir o público, arrancando-o da letargia. Será? Para tratar da paradoxal relação humana com a nudez, Agamben explica a complexa oposição teológica nudez-veste, natureza-graça no processo histórico cultural, e trata ainda de outras relações: véu e velado, aparência e essência na beleza, rosto e corpo. Segundo o filósofo, a nudez pressupõe a ausência de vestes mas não coincide com ela, trata-se de algo do qual alguém se dá conta mas que, contudo, é de difícil apreensão. Para Agamben, ―a nudez não é um estado, mas um acontecimento‖, pois ela ―pertence ao tempo e a história, não ao ser e à forma‖ (2010b, p. 81). Acontecimento que nunca alcança a sua forma completa, forma que não se deixa colher integralmente no seu acontecer, a nudez é, à letra, infinita, nunca acaba de acontecer. [...] não pode nunca saciar o olhar ao qual se oferece e que continua avidamente à buscá-la até mesmo depois [...] de todas as partes escondidas terem sido descaradamente exibidas. (Agamben, 2010b, p. 82). O nu da corporeidade guarda um lugar para a aparência e nada significa. Por isso mesmo, tende a causar certo tremor naquele que vê. A nudez de Torres, que não tende ao erótico ou pornográfico, apenas insinua valores, ideais e referências. Seu corpo nu usa o figurino de si mesmo, encarna o próprio eu numa corporeidade subversiva. Pavis assimila a nudez no teatro como ―o espaço de uma crise existencial, o tubo de ensaio e a caixa de ressonância da visualização da vida e da morte, do gozo e do terror‖ (1999, p. 263). Sua observação é pertinente à cena da dança aqui comentada: o nu de Torres exibe uma pessoa de carne e osso 139 desnudada em sua força e fragilidade, animalidade e humanidade. Finda por ostentar o real de todos nós. Prisioneiros ou livres? 140 Carne (2007), Micheline Torres. Foto: Ding Musa. Fonte: <http://michelinetorres.multiply.com/photos/album/9>. Acesso em: 20 jun. 2011. Carne (2007), Micheline Torres. Foto: Manuel Vason. Fonte: <http://michelinetorres.multiply.com/photos/album/14>. Acesso em: 20 jun. 2011. 141 Eu prometo, isto é político A pesquisa inicial de Eu prometo, isto é político ocorreu com dez artistas de distintas nacionalidades no Rio de Janeiro, São Paulo, França, Portugal, Noruega e México. O combinado entre os participantes se resumia a três ações simultâneas: compartilhar, roubar e emprestar. A colaboração resultou no solo de Torres, que contesta com ironia as marcas esportivas no corpo e coloca a pergunta: ―por onde anda minha dança agora?‖ (Micheline Torres, 2011). A política está no corpo que transita e dialoga com o mundo, que se transforma com o ir e vir, o encontrar, o comer, o vestir, o agir. Toda escolha que realiza diz respeito à ética e viver de modo político é fazê-lo com a força de seus desejos. Com Eu prometo, isto é político, Torres enfatiza a construção do corpo como ação política, consciente de que, se por um lado, o corpo é moldado pela cultura, por outro, ele expressa uma cultura. O corpo não é entendido, então, como uma categoria de identidade fixa, mas como espaço de transformação dinamizado em seus trânsitos e suas possibilidades de integração que promovem, acima de tudo, um tornar-se sem fim. Torres é um corpo em passagem. Corpo que busca incorporar heterogeneidades como procedimento da própria transmutação. Trata-se, ainda, de um corpo que dança para ir além da mera mostração de gestos e passos ou da execução de desenhos no espaço exterior. A ―essência do movimento está no que não teve lugar, no que permaneceu não efetivo ou retido dentro do próprio movimento‖ (Badiou, 2002, p. 82). No blog que registra o processo de pesquisa, Torres cita os livros Em busca da política de Zygmunt Bauman, Problemas de gênero de Judith Butler, Agotar la danza: performance y política del movimento de Andre Lepecki; e disponibiliza anotações pessoais referentes a cada título (Micheline Torres, 2011). A julgar pelas notas, certifica-se que cada uma das leituras ressoa na performance de Torres. Os apontamentos abordam relações entre o mercado capitalista de consumo e os modos de vida, a liberdade individual e o coletivo social, as possibilidades políticas e as categorias de identidade, cidadão político e consumidor, dança, política e movimento. Traz ainda reflexões sobre a mobilização de corpos politicamente passivos e o direito do homem de prosseguir por caminhos diferentes. 142 O título Eu prometo, isto é político já revela o tom provocativo do trabalho artístico. E a promessa se cumpre quando a política trabalha o corpo da bailarina, fazendo variar não apenas seu vocabulário (que se afasta da linguagem padrão da dança), mas a estrutura e os elementos da composição, propondo outra ordem de dança que sai da zona confortável de reconhecimento. O silêncio, a lentidão, a repetição, o correr, o engatinhar são princípios recorrentes na coreografia, estruturada sem qualquer espaço para improvisação. Torres revela que toda ação é pré-determinada e que optou por ―um corpo muito tonificado, muito retesado, porque eu também estava trabalhando esse tipo de engajamento duro [...], uma coisa assim bem fascista, o estar pronto, o corpo atlético, obediente‖ (2012). O uso de roupa e tênis de uma grife esportiva mundialmente famosa pela bailarina em cena (ela veste Puma, mas poderia ser outro gigante de equipamentos esportivos como Adidas ou Nike) pode ser lido como crítica a redução do papel do corpo no mundo globalizado. Obviamente, um traje da Puma não é um agasalho qualquer, mas uma imagem com alta carga simbólica. É um código rigoroso, dentre outros existentes no mundo, que serve para classificar e hierarquizar grupos sociais. A escolha de Torres faz perceber e pensar o corpo ―como construção narcísicohedonista, disciplinado pelas regras da estetização geral da sociedade pósindustrial‖ (Villaça, 2010, p. 66). O comportamento ―banal‖ em cena da bailarina (no sentido que ela não faz movimentos ―extraordinários‖ de dança, mas se aproxima de um gestual cotidiano) se contrapõe ao status poderoso da roupa. Assim, o vestir do corpo e o fazer do corpo se atravessam para revelar o paradoxo de uma dança que emerge no cruzamento de signos codificados e não-codificados, entre estereotipo e estranhamento. Uma corporeidade multifacetada projeta um corpo funcionalizado como suporte publicitário. O ―corpo-mídia‖, conforme a designação de Baitello (2008, p. 106), se vangloria de ser mostruário e portar sinais estereotipados de distinção e prosperidade. No palco, a roupa sai da passividade de seu uso cotidiano e padronizado para ganhar vida própria. Continua a designar o mundo ―real‖, mas, ao mesmo tempo, aponta para uma ausência e torna inútil uma simples funcionalidade. Tal signo está sobre duas vertentes: preenche e decepciona simultaneamente. A aparência de Torres promove um desvio de identidade do corpo. E a ação deste corpo um desvio de identidade da dança. A bailarina usa seu conhecimento técnico 143 em favor de uma linguagem não instrumental e, assim, inaugura campos de experiência potentes para ecoar o que se esconde por trás de valores universalmente aceitos76. Também para refletir o funcionamento dos sistemas de troca que nos tornam isso ou aquilo, indagando a respeito da dicotomia sujeitoobjeto. Conforme declara Baudrillard, o pensamento ―se divide entre o mundo e nós: não podemos pensar o mundo porque, em algum lugar, ele nos pensa‖ (2001, p. 79). A máscara que veste em cena reforça no corpo sua aparência heróica, guerreira, animalesca e carnavalesca. De fato, a máscara é feixe de signos e faz alusão a várias personalidades quando, ao mesmo tempo, esconde um rosto. É a face de todos e de ninguém. Como encarnar um corpo social? Como eu percebo o outro? Como sou percebida? Cidadão ou consumidor? A dança proposta por Torres conduz a visão de uma era em que o consumismo desenfreado produz individualismo e ambição pelo lucro. Neste mundo reduzido a mercado, o outro da troca se transfigura numa pessoa sem rosto e, neste caso, a máscara revela o ninguém em que podemos nos transformar e em que, possivelmente, convertemos o outro. Ao me deparar com Torres de máscara (ela permanece mascarada do início ao fim do trabalho) surgiu para mim a imagem de um super herói. Mas tão logo sua movimentação teve início, outros aspectos foram estampados: um bicho, um corredor, um competidor de luta livre, um jogador de futebol, um boxeador, um robô... O corpo de Torres, disfarçado com máscara, revestiu-se de luta e vitória, cansaço e celebração, num jogo de forças antagônicas entre natureza e artifício, real e fictício. Para Deleuze e Guattari, mais do que enaltecer um rosto, a máscara assegura o pertencimento da cabeça ao corpo, conecta o corpo com ―deviresanimais‖ e nos arrasta para regiões do ―a-significante‖, do ―a-subjetivo‖ e do ―sem rosto‖ (1996, p. 39). Com a máscara o rosto é desfeito e engajado em um ―devirclandestino‖. O que desejo fazer do meu corpo? No que eu quero transformá-lo? Persona: palavra que traduzida do latim significa pessoa, traço, particularidade e, exatamente, máscara. É por meio da máscara que o indivíduo 76 Um valor universalmente aceito equivale a uma afirmação expressa pela maioria ou uma crença disseminada por uma amplo espaço e tempo. Exemplos: A dança é uma série de movimentos harmoniosos executados ao som de uma música. No dia 28 de dezembro de 1895 o cinema foi inventado. 144 adquire um papel, uma personalidade, uma identidade social ou, ainda, o status de um personagem, em que ele encarna um comportamento padrão e funda seu reconhecimento. Pelbart comenta que a vida em si mesma produz máscaras e sublinha a arte como possibilidade de produzir o que ainda não nasceu, dispositivo de invenção de si: Uma máscara não esconde um rosto original, mas outra máscara, e assim sucessivamente, de modo que o rosto próprio não passa da metamorfose e criação incessante de máscaras. Não se trata de retirar a máscara para encontrar a verdade oculta, ou a identidade velada, mas compreender a que ponto a própria verdade ou mesmo a identidade é uma entre as várias máscaras de que a vida precisa e que ela produz. (2011a, p. 269). No artigo Identidade sem Pessoa, Agamben expõe a história de constituição da identidade do homem, inicialmente pessoa social reconhecida por uma máscara, e mais tarde, reduzida a uma impressão digital ou a um código genético, ou seja, determinada por uma dado puramente biológico - algo que não se pode dominar e que independe de sua vontade: a ―vida nua‖, nomeia o filósofo (2010b, p. 61-70). A identidade sem pessoa do cidadão contemporâneo faz valer uma multiplicação infinita de máscaras: ele assume todas as máscaras e vidas possíveis na internet. Agora, basta que uma máquina o reconheça para que ele possa ser, que dados numéricos ou digitais sejam registrados e garantam a sua vida. O que significa ser reconhecido, não por uma pessoa, mas por um dado numérico que na realidade não deseja me reconhecer, mas me controlar e acusar? A questão, colocada por Agamben (2010b), ressoa na proposta de Torres, que nos faz refletir na distância entre quem somos e quem desejamos ser. A todo o momento, a composição de Torres oscila na construção de um corpo que existe via treinamento físico e consumo, competição e comércio. Tal é o corpo ―campeão‖. A possibilidade de vitória e sucesso só pode ser alcançada por intermédio de um adestramento do corpo (obediência a um padrão ideal de beleza) e com a acumulação de bens. Corpo-produto, corpo-mercadoria. Corpo que anuncia um cruzamento inevitável entre economia e estética, que está num mundo-combate entre maneiras de viver, sentir, desejar. Afinal, o capitalismo contemporâneo produz mundos. Cria não apenas a mercadoria, mas também o mundo em que a mercadoria existe, precisa ser cobiçada e consumida. Tais mundos ―são banais, formatados, normalizados, por isso são majoritários e nos obrigam ao sistema de 145 múltipla escolha entre possíveis previamente estabelecidos‖ (Pelbart, 2011a, p. 270271). Na contradição, a dança de Torres emite uma singularidade e acende o desejo de fazer a vida um algo a mais. Uma marcha de carnaval77 rompe o silêncio da cena para fazer o corpo vibrar. O carnavalesco está nas ruas, na publicidade, nos resorts, nos shoppings centers, nos estádios esportivos..., como prazer descontrolado e fantasioso. O que pode anestesiar um corpo? Quando um corpo é vivo? Nascemos para viver? Torres permanece pulando ao som de um hit internacional78 cujo refrão repete: ―you see we're born, born, born to be alive (born to be alive). You see we're born, born, born (born to be alive)‖. Do inglês para o português. Do espanhol para o inglês. Assumir diferenças. Política de tradução no corpo de Torres: não é equivalência, mas troca e criação. Questões ecoam do fazer da artista: Como traduzir o que vemos e ouvimos? Como traduzir uma ideia no corpo? Como traduzir um comportamento em dança? Como queremos ―gastar‖ nossas vidas? Experiência para Torres equivale a manter os poros abertos. Ela considera que [...] se a gente tem a felicidade de estar atento as nossas experiências, para o nosso fazer profissional, eu acho isso muito rico. Não é porque eu faço dança que a minha experiência com idosos que eu fui visitar semana passada, não me fala de um corpo que eu quero falar em cena, por exemplo. Um corpo com movimentos mais contidos, de um corpo que fisicamente arrasta mais do que levanta, os pés tal. Então acho que os poros abertos... ter a felicidade disso, porque nem sempre você está o tempo todo presente, atenta... porque senão você morre! Mas é um exercício de criar ferramentas para sua curiosidade, para você estar vivo, e isso me agrada muito [...]. Experiência... é um exercício constante. [...] dá uma hora que eu tenho que falar para eu parar senão... eu estou no meu tempo livre eu estou lendo, estou lendo Beckett direto, não importa, qualquer lugar eu estou lendo Beckett, e as vezes é importante sei lá... ler aquela Julia, Bianca, sabe aquele romance bem (risos)79. (2012). O discurso político de Torres é um ato de fala de um corpo que entende o conhecimento de si como conhecimento do outro. Um corpo político que intervém 77 Ô abre alas, composta em 1899 por Chiquinha Gonzaga (1847-1935). Born to be alive do cantor francês Patrick Hernandez (1949), lançada em 1979 em álbum que leva o mesmo nome da música. 79 Primeiro a artista faz referência ao dramaturgo e escritor irlândes Samuel Beckett (1906-1989), um dos fundadores do teatro do absurdo. Em seguida refere-se a série de romances sentimentais Sabrina, Julia e Bianca da editora Nova Cultural, muito populares no Brasil na década de 1980. Nota da autora. 78 146 por meio de negociações e acordos entre diferenças. Corpo cotidiano e não cotidiano numa dança ―desdançada‖ que pronuncia pensamento, sob a forma de acontecimento. Torres não parece interessada em conservar uma imagem de ―boa bailarina‖,80 mas inaugurar uma nova política no corpo (liberdade como princípio?). Na contramão, troca a aparência do consagrado pelo conhecimento descoberto nas sombras. Questiona um universo fascinado pelas imagens. Liga a escassez ao excesso. Traz à cena um mundo objetivo de reconhecimento com procedimentos que desconstroem a noção tradicional de dança e, assim, provoca o imaginário e ressalta o desejo incessante que carregamos de decifrar o mundo e a nós mesmos. Corporeidade camuflada? 80 No sentido que deixa de lado o virtuosismo técnico e qualquer modo de vaidade artística. Conforme o programa de Eu prometo, isto é político, a preparação corporal da bailarina ocorre por meio da prática do balé clássico com Sylvia Barreto e yoga com Orlando Cani. 147 Eu prometo, isto é político (2010), Micheline Torres. Fotos: Branca Matos. Fonte: <http://www.euprometoistoepolitico.com>. Acesso em: 1 jun. 2011. 148 3 ENTRE DOIS A liberdade se define pelo corpo e este por sua virtualidade.81 Michel Serres Este campo se abre como fronteira para articular dois espaços e moldar um terceiro neste mapa. A fronteira é um ―entre dois‖: ponto de passagem, de interação, de ambiguidade em sua função simultânea de saída e entrada (Certeau, 1999, p. 212-213). E não são corporeidade e teatralidade produções que só existem em contextos relacionais? Tudo se passa num ―entre‖ corpos vivos e/ou inanimados, num meio que apela a negociações e considera pontos de referência e escolhas próprios para compor sentidos, os quais jamais serão iguais aos de outro um (ainda que se tente ver as mesmas coisas, falar a mesma língua, ter os mesmo valores...). No ―entre‖ são estabelecidos somente pactos provisórios, sempre passíveis de revisão. No ―entre‖ cada lugar é continuamente reversível. Toda corporeidade é fruto de um comportamento adquirido por meio de um processo educacional, ou seja, a expressão é característica de uma cultura afectiva (modo de responder aos estímulos e as circunstâncias particulares e plurais). Tal é a condição de formação de um dançarino. O corpo na dança é âmago do procedimento de treinamento e composição, e sendo assim é trânsito, pois que faz e desfaz seus movimentos, revela e oculta seus códigos, de modo permanente. No decurso para manifestação de outras corporeidades, o dançarino contemporâneo pensa o corpo como desvio de si mesmo e, assim, prossegue numa prática de estranhamento que o faz deslizar. O corpo se multiplica num plano de ações que visa a incorporação de novos estados, imagens, sentidos, efeitos e habilidades. Tudo no corpo é porvir. Grupo Cena 11, Eduardo Fukushima e Micheline Torres propõem modos de dançar radicalmente diferentes. No entanto, todos estão comprometidos com um livre pensar que faz da incerteza um princípio e da troca um procedimento. A complexidade é alcançada para além da conquista e exposição de habilidades técnicas, mas essencialmente no entendimento de que forma e função são aspectos 81 Michel Serres. Variações sobre o corpo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004, p. 52. 149 de um mesmo processo de conhecimento. Conhecimento esse que não preexiste, mas que somente é atuado em experiência. Assim, a percepção e cognição destes corpos que dançam dependem das próprias capacidades de ação. Sendo o corpo algo não passivo, ambientes estimulantes aos sentidos e a novas interfaces interessam muito para estes artistas na construção de um corpo diferenciado (cada um utiliza seus próprios meios e estratégias para tanto). Trata-se de não condicionar as atuações de um corpo: corpo que não é conceito, mas prática para constituir de modo contínuo um devir-outro. Os corpos Cena 11-Fukushima-Torres são redes móveis, instáveis, de interferências e intensidades cruzadas. Corpos que dançam atentos em busca de algo que ainda não conhecem, mas, sabem, é necessário descobrir. Pina Bausch ensina que só podemos encontrar a dança em nossa própria experiência, assim como ocorre com tudo aquilo que nos alcança na vida. Dançar deve ter um fundamento diferente da pura técnica e da rotina. A técnica é importante, mas é apenas um pressuposto. [...] Temos de encontrar uma linguagem – com palavras, com imagens, movimentos, atmosferas - que faça intuir algo que existe em nós o tempo todo. É um conhecimento muito preciso. [...] Não se trata de arte, e nem de uma simples capacidade. Trata-se da vida e, portanto, de encontrar uma linguagem para a vida82. (Bausch, 1999, p. 22-23, tradução livre da autora). O método Percepção Física não foi instituído pelo diretor do Cena 11 como recurso técnico capaz de eliminar o acaso, mas ao invés, como possibilidade de colocar o corpo em ação para resolver problemas e se adaptar ao inusitado. Ahmed confirma a tese de Serres: ―O corpo sabe dizer eu, sozinho‖ (2001, p. 13). As ações propostas no treinamento do grupo engendram relações de forças ou de poder, em exercícios que se desenrolam como afetos: cada força tem o poder de afetar e ser afetada. As mudanças corporais de Fukushima são faíscas manifesto de sensações. Seu corpo-caixa de ressonância encarna o cansaço, estado esse que expressa de modo integral, como reverberação corporal única. Seu corpo em tempestade descobre sua existência no ardor muscular e chega, quase sem fôlego, nos limites da fadiga. 82 ―Danzare deve avere un fondamento diverso dalla pura técnica e dalla routine. La tecnica è importante, ma è solo um presupposto. [...] Si deve trovare un linguaggio – con parole, con immagini, movimenti, atmosfere – che faccia intuire qualcosa che esiste in noi da sempre. È una conoscenza molto precisa. [...] Non si trata di arte, e neanche di uma semplice capacita. Si tratta della vita, e dunque di trovare un linguaggio per la vita‖. 150 O corpo de Torres afasta-se de uma identidade única, dado que incorpora misturas numa composição que cruza o que é com o que não é. Chama atenção para um mundo fora do signo, seja um espetáculo de dança ou uma roupa de grife. Um corpo que coloca o visível e o invisível em contato para incitar o olhar do outro às potências da vida. O corpo da bailarina mostra-se como processo de incorporação de uma variedade de corpos, práticas de treinamento e vivências cotidianas, ou seja, o corpo como fluxo de experiências encarnadas. Sendo que é corpo habitado por outros corpos, é fonte de surpresa e rico em mistério. Corpo mistura de arte e ativismo político. Cena 11, Fukushima e Torres se aproximam pela realização de uma dramaturgia corpórea contemporânea, ou seja, composta de acontecimentos. Tanto os bailarinos que compõem o elenco do Cena 11, quanto Fukushima e Torres, são dotados de um corpo treinado e virtuoso que, porém, se oferecem tanto ao risco físico quanto assumem a própria precariedade. Nestes, o acontecimento se molda no efêmero (sinal de vida) de modo imprevisível, subitamente estranho e surpreendente. Contemporâneo que ignora o tempo. É ilimitado. Virtualidade ágil. As coisas só têm limites claros no real. A virtualização, passagem à problemática, deslocamento do ser para a questão, é algo que necessariamente põe em causa a identidade clássica, pensamento apoiado em definições, determinações, exclusões, inclusões e terceiros excluídos. Por isso a virtualização é sempre heterogênese, devir outro, processo de acolhimento da alteridade. (Lévy, 1996, p. 25). Corpo e dança em interação dialógica resultam em corporeidades e teatralidades singulares. Teatralidades ou ―dançalidades‖ (Bernard, 1995)? Para percebê-las devemos ―abrir o corpo‖, quer dizer, ―criar a zona em que o corpo, visto do exterior do interior, entra em contágio com o mundo‖ (Nuno Gil, 2004, p. 27). Significa, igualmente, ―abrir o espaço de agenciamento de fluxos de intensidades, para que estes fluam segundo as vias mais adequadas. Agenciar é tecer, serzir, atar, anexar, conectar, forjar os dispositivos apropriados à intensificação das forças‖ (Nuno Gil, 2004, p. 27). Sendo que o corpo inteiro percepciona o mundo e a cognição se faz por meio dos afetos e do seu contágio, a ideia de abertura do corpo se aplica a possibilidades de compreender poéticas da dança contemporânea compostas como devir. Criar sentidos é um desafio permanente para o vivo. É uma prática política. 151 A interface entre política e dança se faz num tempo-espaço de ―partilha do sensível‖, quer dizer, num campo de efetuação do sensível caracterizado pela inclusão em um conjunto comum e separação em partes exclusivas (Rancière, 2010b). Em tal fronteira, corpos procuram novas formas de relacionamento e convivência, pensam sobre o que é e o que pode ser (dito, feito), elaboram práticas sociais de transformação e ruptura, definem lugares e tecem redes de participação e negociação. Política e dança contemporânea contestam ordens e operam no antagonismo, na multiplicidade, no dissenso. São esferas da experiência que valorizam o embate e afastam o ideal do consenso, ou seja, impedem a afirmação de uma lei global que serve de orientação para todos. Segundo Rancière, o dissenso é um processo que abre uma fissura na ordem sensível ao confrontar as configurações instituídas da percepção, da produção, do pensamento e da ação com algo de inadmissível e improvável. O dissenso pressupõe a igualdade na medida em que reconhece e dá voz ao desigual (2010b, p. 91). Afinal é neste encontro - dança contemporânea e política, que se persegue o possível. É interessante notar o interesse dos artistas citados em reunir dança e teoria. Ahmed explora o evolucionismo de Darwin, Fukushima explora os pensamentos de Nietzsche, Torres pesquisa política lendo Zygmunt Bauman, Judith Butler e Andre Lepecki. Os três abrem a dança a diversas formas de pensar, encarando-a como um campo de conhecimento e desenvolvimento de ideias próprias. Forjam mais um espaço entre: não há separação entre teoria e prática. Em suas danças, conceitos filosóficos e científicos são explorados de modo específico no corpo e na cena. As teorias não lhes servem para ilustrar nem comentar a dança, mas são ligadas a modos particulares de pesquisa e findam por sofrer transformações radicais. Pois quando utilizadas em processos criativos, teorias se tornam matérias para novas conexões. Há corpo, luz, figurino, cenografia, música, silêncio, nudez, movimento, técnica, teoria... Há uma maneira singular de pensar esse conjunto de multiplicidades e realizar uma fusão que se identifica como dança. Nesta rede, a área tende a ganhar maior complexidade. No solo Eu prometo, isto é político, Torres teve a colaboração teórica e interlocução do filósofo Charles Feitosa. Ela conta que quando o convidou para trabalhar, não sabia exatamente como iriam proceder juntos na ação criativa. Neste momento, Feitosa propôs uma prática baseada na relação acadêmica de orientador- 152 orientanda, formato imediatamente recusado pela coreógrafa, por considerar que ―o trabalho artístico engloba outras dinâmicas‖ (2012). A partir daí, os dois começaram a pensar conjuntamente sobre possíveis procedimentos de realização. Foi então que, por meio de troca de textos, encontros e conversas semanais, a parceria ocorreu. Para Torres, a colaboração teórica [...] avança no terreno do ensaio, da prática, de escolhas, de escolha por música ou por não música, escolha por falar ou não falar, escolha se eu vou tirar a máscara no final ou não vou tirar a máscara em momento algum. Eu não sei muito explicar mas, acho que são inteligências diferentes, de ordens diferentes, mas que se conversam muito. [...]. Eu acho que a relação do teórico com o prático, do meio acadêmico com você querer montar um espetáculo cênico, é da mesma ordem: são negociações e sempre um questionamento [...]. (2012). Desde 1999, o Cena 11 conta com a interlocução teórica da professora doutora em arte Fabiana Dultra Britto, que colaborou nos trabalhos Projeto SKR (2002), SKINNERBOX (2005), SIM: ações integradas de consentimento para ocupação e resistência (2008) e Guia de ideias correlatas (2009). No entanto, Ahmed observa que a ausência de patrocínio e a distância geográfica entre Salvador (cidade em que Britto reside) e Florianópolis, dificulta a manutenção da colaboração. O coreógrafo exalta as parcerias, a troca de questões que ocorrem em seus processos criativos, bem como, as leituras, especialmente de filosofia, que por vezes explicam suas ações na dança, levando-o a outros lugares e ao encontro de diferentes soluções. Para Ahmed, uma investigação em dança equivale a [...] uma investigação de um aspecto científico como qualquer outra área. Como é em dança, ela precisa ter algumas características, mas não são muito diferentes de algumas metodologias básicas científicas. Você tem que... começa a se especular, depois se cria hipóteses, depois das suas hipóteses você faz algo prático, você tenta verificar estas hipóteses, destas hipóteses você cria sua tese. Na verdade... Cada momento vai te dar novas ferramentas, novas necessidades, novos parceiros para você ficar mais próximo de algumas realidades, que as vezes você não estaria fazendo outro tipo de pesquisa. E as vezes as pessoas que você tem perto também. (2012). Fukushima sublinha que não faz seus trabalhos a partir de teorias, mas que ―organicamente, leituras e perguntas vão aparecendo no corpo‖. O coreógrafo justifica seu interesse na filosofia por causa das perguntas ontológicas que faz a si mesmo, pelo desejo de ―achar um sentido para a vida‖. Ele ressalta: ―quero saber o 153 sentido da existência, quero saber mais do humano, quero saber mais do mundo, quero saber mais porque a gente pensa tanto, é algo mais existencial‖ (2011). Por esta via surgiu a atração por Nietzsche e seu discurso acerca do niilismo. Diz Fukushima: [...] eu fui estudar: o que é que ele fala aqui do grande cansaço? Fui ver que tem a ver com o niilismo, e que a gente não pode cair nessa, num grande cansaço. Para mim foi existencial, mesmo. Desde a infância tenho uma coisa meio tristinha, meio sem sentido, meio nostálgica, do ter uma tendência para depressão [...] Eu falei: ‗nossa, eu quero transformar isso‘. E acho que a arte serve bem para isso: para transformar muitas coisas. Esse cansaço veio bem para me dar mais força. E eu fiquei mais forte mesmo. (2011). A dança, tal qual o teatro, é uma forma comunitária de arte. Pressupõe a interação de indivíduos (que se encontram juntos num mesmo local e horário), cada qual com o poder de traduzir a seu modo aquilo que percebe. Esse ―poder comum das igualdades das inteligências‖ é exaltado por Rancière como a possibilidade de ―emancipação do espectador‖, quer dizer, deixar vir a tona a capacidade de todos anônimos, sábios e ignorantes, de associação e dissociação. Pois a emancipação é a saída de uma condição de menoridade. O autor explica que cada um de nós aprende, ensina, observa, seleciona, compara, age e conhece no cotidiano, e assim, ligamos o que vemos e escutamos com aquilo que já havíamos visto e escutado. Conectamos o que sabemos com o que desconhecemos. Tal potencial permite que sejamos atores de nossa própria história e, invariavelmente, espectadores desta mesma história (Rancière, 2010a, p. 23-28). Com esta reflexão, considera-se que a dança [...] não é a transmissão do saber ou do respirar do artista ao espectador. É antes essa terceira coisa de que nenhum deles é proprietário, da qual nenhum deles possui o sentido, essa terceira coisa que se mantém entre os dois, retirando ao idêntico toda e qualquer possibilidade de transmissão, afastando qualquer identidade entre causa e efeito. (Rancière, 2010a, p. 24-25). Torres conta sobre o período de um mês em que participou de um projeto de residência no México, e que para pagar sua passagem, foi apresentar o solo Carne dentro de um festival internacional, em uma cidade mexicana chamada Morelia. Na programação do evento, os espetáculos internacionais eram os mais aguardados pelo público. Na noite anterior à sua apresentação, a coreógrafa foi ao teatro para assistir o espetáculo de uns amigos alemães, que teve plateia lotada. Surpresa com 154 a grande quantidade de pessoas, recorda: ―[...] fui vê-los na noite anterior e vi aquela galera, eu falei: ‗Gente, eles vão me comer. Eu vou ficar sem roupa em cima da mesa! Caraca! Eles não vão entender nada!‘‖ (Torres, 2012). Ela ainda lembra que ficou ―morrendo de medo‖, mas como não tinha como ―fugir‖, realizou a apresentação de Carne em Morelia. A dançarina conclui: Fiz o trabalho todo. Para mim é infindável, fico fazendo aquela coisa e olhando... e as pessoas, uma saía ía para trás, a outra ía para frente, e eu fazendo... E aí no final, eles fizeram uma ovação, eles aplaudiram de pé de uma maneira que eu assim ‗não chora, não chora, não chora‘. Porque foi super bem recebido, as pessoas vinham falar comigo, falavam: ‗Ah, eu tenho um trabalho com prostitutas e pessoas que sofrem violência e eu gostei muito do seu trabalho‘. E eu vi que eu é que cheguei com preconceito, achando assim: ‗eles não vão entender‘. Mas como assim não vão entender, né? Cada um tem o seu entendimento, sua capacidade de entendimento e os seus conhecimentos. Mas aquilo me deu uma transformação de não só confiar no trabalho - porque cada trabalho puxa uma coisa nas pessoas, mas de estar aberto, você vai viajar, e vai mostrar, e vai conhecer pessoas, então se coloque nessa exposição que é conhecer pessoas. Isso foi muito transformador para mim, porque as pessoas vinham com as bagagens delas e falavam: ‗Ah, eu gostei muito por causa disso e tal...‘ Aí eu vou vendo também o que o trabalho vai acionando em cada um, sabe? (Torres, 2012). A quebra de fronteira ocorre entre artista e espectador. Corpos se entrelaçam, conhecem e se dão a conhecer. O espectador não é um vidente e o artista um visível, ambos são ―videntes e visíveis, tocantes e tocáveis, atores e espectadores. [...] O entrelaçamento é justamente a condição que todo participante do evento teatral tem de, simultaneamente, ver-se vendo, ver-se sendo visto, ser visto vendo, ser visto vendo-se‖ (Fabião, 2003, p. 27). De alguma maneira estamos sempre traduzindo o vivido. Escrever sobre teatralidades contemporâneas da dança é produzir um outro devir, que de modo algum, será espelho da obra comentada, mas uma cartografia de possíveis efeitos apreendidos. Pois, como já dito, o contemporâneo na dança é raro, insubordinado, força geratriz que escapa a qualquer tentativa de reserva. Se já parece lugar comum falar de contaminação e deslizamento entre gêneros artísticos na composição da dança é, ao invés, extraordinário encontrar obras que consigam fabricar e habitar um mundo próprio. Trabalhos cuja feitura é expansão costurada por meio de uma singular capacidade relacional. A fronteira nomeia um cenário de trama, espaço de hibridação ocupado pela dança contemporânea em seus exercícios de percepção - 155 interface que sobrepõe interior e exterior do nosso corpo. A teatralidade, afinal, não escapa da fronteira, pois que se faz no entre dois: terreno criativo de encontros. 156 4 COMPONENTE: TEATRALIDADE [...] quando o ator desaparece da cena, o espectador torna-se, por sua vez, o ator, e também o encenador. Mais nada acontece sobre a cena e o pânico ganha o espectador. Se alguma coisa acontece agora, é no cérebro do espectador, sozinho, diante de uma cena esvaziada do principal: o ator. [...]. Se então o encenador/ator/bailarino desaparece, cabe ao espectador assegurar o espetáculo, continuar a delirar, deixar sua imaginação encher o espaço da cena, pois, como todo mundo sabe, ―the show must go on‖.83 Jérôme Bel O que é a teatralidade? O termo é dono de concepções divergentes, é ambíguo, vasto e peculiar, tal qual uma perspectiva complexa fixada no imaginário. Inicialmente, é definido sob lógicas teatrais particulares variando em conformidade a determinações históricas localizadas neste âmbito84. Mais tarde a palavra deixa de fazer alusão exclusiva ao universo do teatro e oscila em territórios diversos. Assim, surgem diferentes modos de entendimento e aplicação em distintos campos do conhecimento (a exemplo de análises na área da política, religião, história, antropologia, filosofia, semiótica, comunicação, publicidade e psicologia)85. Juan Villegas entende a teatralidade ―como um discurso no qual se privilegia a construção e percepção visual do mundo‖ e enfatiza a coexistência de diversos ―sistemas de teatralidades‖ com códigos próprios (2010, p. 99-101). O autor cita como exemplo: teatralidade social, teatralidade política, teatralidade pedagógica, teatralidade desportiva, teatralidade religiosa, dentre outros. Obviamente tais sistemas não funcionam de modo isolado, ou seja, há imbricações entre esses diferentes modos de teatralidade. Diante de tais considerações, cabe o alerta do professor Edélcio Mostaço: ―A noção de teatralidade é complexa, a despeito de sua 83 Jérôme Bel. Que morram os artistas. In: SOTER, Silvia. PEREIRA, Roberto. (Orgs.). Lições de Dança 4. Rio de Janeiro: UniverCidade, 2003. p. 15-34. 84 Para conhecer a história do conceito, ver Féral (2003). Sugere-se ainda o texto Teatralidade, a espessura do olhar, capítulo escrito por Edélcio Mostaço (2010), que explicita a evolução do termo. 85 Sugestão de leitura: Ricardo Kosovski. Teatralidade como matriz comunicacional: novas percepções. 2001. 365f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2001. 157 aparente simplicidade em constituir-se como um substantivo urdido a partir do adjetivo teatral‖ (2007, p. 1). O Dicionário de teatro de Patrice Pavis assinala que o conceito de teatralidade ―tem algo de mítico, excessivamente genérico, até mesmo de idealista e etnocentrista. Só é possível (considerada a pletora de seus diferentes empregos) observar certas associações de ideias desencadeadas pelo termo teatralidade‖ (1999, p. 372). É por esse prisma que a ideia de teatralidade é tomada nesta tese: como meio para trilhar caminhos singulares, quer dizer, para desvendar modos artísticos que privilegiam a especificidade. Como pensar a teatralidade no âmbito da dança? O contemporâneo na dança gera um olhar para o não-vivido no que é vivido ou para o escuro na luz, como sugeriu Giorgio Agamben (2009). Não podemos deixar de considerar que a dança contemporânea pertence a um campo estético híbrido (de muita contaminação), questiona frequentemente suas próprias categorias (é instável e volúvel) e vive na transgressão de conhecimentos (é transitória e processual). Assim, convém aos propósitos desta pesquisa, a teatralidade distinguida como fenômeno capaz de projetar outros estados sensíveis no corpo, expandir comportamentos, despertar imagens e conteúdos extras. A teatralidade referida a uma ação criativa (devo lembrar que percepção é ato) gerada numa situação dinâmica e relacional. Que sempre emerge como atividade e movimento. Seu domínio é o do encontro afetivo, em instâncias que friccionam produção e recepção, real e ficção, processo e produto, caos e ordem. Operação que produz ecos singulares, múltiplos, contraditórios. Exercício de produção do invisível. Jogo especulativo. Lente de apreensão de uma realidade. Deslocamento de si. Mecanismo para ampliação de fronteiras. Revelação espetacular. Reflexão de um fato. Motor para novas perguntas? Pela ótica da teatralidade conveniente aos propósitos desta tese, a dança é um ato artístico de transformação do real e transgressão do cotidiano. Ao mesmo tempo, a teatralidade intervém na dança como possibilidade geradora e identificadora de mudanças, intervenção de pensamentos e análises. Talvez seja oportuno, portanto, o uso da palavra no plural: teatralidades, pois um projeto coreográfico contemporâneo é sempre dotado de especificidades que lhe são 158 próprias. A teatralidade na dança contemporânea vive no limiar, na ambiguidade, no transitório: não cessa de propor trocas e experiências. Faz com. A professora mexicana Ileana Diéguez Caballero (2007) investiga teatralidades atuais no contexto latino americano, em especial, àquelas criações teatrais que emergem fortemente transpostas por práticas políticas e produzem estranhamentos. A autora chama atenção para ideias importantes na tarefa de olhar e considerar a teatralidade contemporânea. Reproduzo a seguir apenas algumas, na medida de interesse ao desenvolvimento desta tese, ou seja, tomo emprestado formulações e características que podem nos aproximar das danças aqui analisadas. Teatralidades distintas surgem com a utilização do convívio como recurso para aproximar pessoas, produzir afecções, suspender o isolamento. A esfera relacional se faz presente em cenas fundadas no encontro e no diálogo, de tal modo que todos os participantes se convertem em criadores. Desta maneira, práticas de socialização propõem espaços para realização de experiências. Alguns contextos poéticos potencializam o real86 a tal ponto, que o espectador perde a própria noção de estar espectador. O real é problematizado em escolhas que se referem ao tempo e espaço de ocorrência da cena, bem como, no desejo de compartilhar reflexões acerca do processo de criação artística com o público. Por vezes o real se impõe como experiência concreta de um corpo que se mostra como presença política, em atitudes que estabelecem uma ética ou arriscam vidas. Ficção e realidade se misturam para dar lugar a acontecimentos constituídos na profanação (Caballero, 2007). Ao lado das variáveis acima, Caballero (2007) reflete sobre dispositivos artísticos de subversão cultural e social, os quais enfatizam a conexão entre ética e estética, a união entre pensamento e prática. Dentre eles os procedimentos de hibridização, quer dizer, novas formas de ação que confrontam e reinventam linguagens ao cruzar diferentes suportes artísticos. Com esta estratégia, perguntas radicais acerca de modos de dominação são lançadas, as categorias tradicionais de 86 Os procedimentos de inserção do ―real‖ tratados nesta tese, apontam para situações cênicas que acolhem e utilizam qualquer coisa banal da realidade social humana, como por exemplo, colocar pessoas comuns (nãodançarinos) para dançar. Neste sentido, se afastam do fantasioso e espetaculoso, para ir de encontro ao ordinário, utilizado, frequentemente, como dispositivo de crítica e provocação. 159 arte são problematizadas e as criações ganham maior complexidade. Modelos e comportamentos idealizados também são questionados por meio de manifestações que problematizam o belo e as convenções sociais. Configurações que constroem o grotesco evidenciam a degradação da sociedade, a imagem heterogênea e ambivalente do mundo, ao mesmo tempo em que integram opostos como vida e morte, riso e dor. Trata-se, afinal, de teatralidades constituídas no paradoxo, na desorganização e na inversão. Teatralidades que surgem em agonizantes duelos, por vezes irreverentes, violentos e marginais. Em consonância com a perspectiva de Caballero (2007), desejo ressaltar um tipo de criação de dança que aborda o poder institucional ao problematizar comportamentos, veicular possibilidades de resistência, promover ações de contrapoder. São teatralidades que se tecem como dinâmicas de insurgência e que deflagram forças para potencializar arte e vida. Modos de dança que reinventam formatos e multiplicam acontecimentos por meio de vias que estão a margem de um consenso mais habitual no campo artístico. Cabe ressaltar que tais teatralidades contemporâneas diferem de uma produção de dança política com horizonte pedagógico e unívoco, cumprida na lógica da propaganda e limitada a um plano temático. Ao contrário, no movimento de dança que aqui interessa destacar, a dimensão política é agenciada no fomento à diferença e no abalo aos traços estáveis dos sistemas de produção e visibilidade da arte. A feição de uma teatralidade contemporânea dança com a exceção e busca desestabilizar qualquer hegemonia de pensamento e ação. Produz turbulência e intervém para sacudir o coletivo. Este modo de dança - dispositivo que desmonta modos consagrados de criar e apreciar arte; tende a causar algum estranhamento por parte daquele que observa. Mas vale ressaltar que essa estranheza ―não tem nada a ver com o clichê da loucura, ou com esses estereótipos, mas são modos de afetação singulares, que põem em xeque as nossas maneiras majoritárias de ver, de sentir, de pensar, de perceber, de associar‖ (Pardo, 2011, p. 255). Neste caso, a teatralidade ocorre como chacoalhada para fazer despertar e expandir o humano atrofiado em todos nós. No livro intitulado Dança contemporânea e teatralidade, Michèle Febvre (1995) lembra que a dança ocidental foi, durante muitos anos, essencialmente transpassada pelo confronto entre virtuosidade e expressividade, pela tensão entre a dança ―pura‖ e a dança ―teatral‖. Para a autora, estes seriam os dois pólos em torno 160 dos quais, desde o século XVII, a dança se articulou, acentuando uma ou outra dimensão de acordo com a época e com os criadores. Expressionismo ou formalismo? De fato, ao longo do tempo e por meio de inúmeras manifestações, pesquisadores criaram e mostraram possíveis relações encontradas entre um motivo (o porquê) e um procedimento (o como) de dança. Ou seja, muitas histórias de invenção de técnicas para o corpo e para a cena transitaram entre a crença de exposição de interioridades, emoções e significados no ato de dançar, e a negação de qualquer motivação que exceda a dança. De acordo com Febvre (1995), a compreensão da estética coreográfica atual passa obrigatoriamente pelo nome de Merce Cunningham (1919-2009), cujo projeto, iniciado na década de 1960, alterou de forma radical a práxis compositiva na dança. Para Cunningham a dança existe por si mesma (existência que não se justifica por qualquer utilidade), não tem obrigação de exprimir, demonstrar, significar ou emocionar, nem ilustrar uma música, história, iluminação ou cenário. Ou seja, pode existir como acontecimento. Interessado na ação corporal, Cunningham diferencia e articula suas partes, busca quebrar hábitos motores e combinar possibilidades de movimentos num jogo complexo e paradoxal: ao mesmo tempo em que preserva uma abertura ao acaso e a desordem, busca controlar e dominar o imprevisto. O movimento do corpo é claramente visível e executado, enquanto a subjetividade (aqui entendida como expressão das preferências e sentimentos individuais do bailarino) é mantida à margem. Com o projeto de Cunningham a dança se impõe por si mesma e se liberta de qualquer referência exterior, se confirma num corpo entregue ao poder de dançar (Febvre, 1995). Dançar, [...] isto é, de traduzir em movimentos a lógica interna à produção do sentido; representar os ritmos pelos ritmos, as formas por si próprias [...]. Eis porque esta dança é, em si mesma, sem ter obedecido a um sentido determinado, tão ―libertadora‖: os movimentos são realizados, por um lado, por si mesmos [...]; por outro lado, esta gratuidade da infragramática constitui a própria ―narrativa‖ da dança; narrativa, continuidade temporal desligada do que dá ao tempo o seu sentido e a sua ordem. (Gil, 1997, p. 67-68). Nos anos de nascimento da dança conhecida como moderna, Isadora Duncan declarou que se pudesse descrever sua dança não precisaria fazê-la, mas apenas escrever; acrescentou: ―Explica-se melhor a dança dançando do que publicando comentários e tratados‖ (Kurth, 2004, p. 39). De acordo com essa ideia, toda dança 161 (mesmo as reguladas por normas convencionais) é considerada ―pura‖, pois seus movimentos não reenviam a nenhum sentido fora de si mesmos, quer dizer, ―tudo está a descoberto na expressão, não há nada escondido‖ (Gil, 1997, p. 70-71). Sendo assim, a dança constitui-se ―como um desafio, um dispositivo de transgressão da seriedade ameaçadora dos signos‖ (Gil, 1997, p. 72). Cunningham elaborou sua própria técnica para construir um novo corpo, outra materialidade dançante, uma dança ―atemporal‖ (contemporânea). Esta busca é intensificada hoje, momento em que a dança diversifica o uso de técnicas e modos de apresentação. Este caráter de pluralidade vai ao encontro a uma singularidade no pensamento e na ação de seus criadores. Mas seja qual for o procedimento instituído e as voltas da história, um nó permanece: como articular movimento e sentido? E arrasta outros: Como construir um corpo e uma cena como manifestos de sentidos? Como desviar do conhecido e estabelecer planos de contradições, indagações, provocações? Romper o corpo e a cena em outras teatralidades? Efetuar acontecimentos? 4.1 Compostos Múltiplos A – Existe na África uma dança chamada: ―A Dança do Sozinho‖. Z – É a dança de Mondrian. Não refere um de seus biógrafos que o artista gostava de dançar a sós? A – Seria, então, sua arte um espécie de dança do sozinho? Z – Talvez! Contudo, o projeto do artista abstrato visa, rigorosamente, o contrário. Quer atingir o universal.87 Armindo Trevisan Um plano de composição em dança assegura uma seleção e funciona a partir de conexões múltiplas em dimensões crescentes. Faz-se simultaneamente de formas e conteúdos de expressão que se articula a outros planos para formar uma composição. Segundo Lepecki, um plano de composição ―é uma zona de 87 Armindo Trevisan. A Dança do Sozinho: uma análise da arte abstrata. São Paulo: Perspectiva, 1988. p. 33. 162 distribuição de elementos diferenciais heterogêneos intensos e ativos, ressoando em consistência singular, mas sem se reduzir a uma ‗unidade‘‖ (2010, p. 13). O autor enumera possíveis planos de composição para pensar e fazer a dança contemporânea, dentre eles uma ―política do chão‖, quer dizer, propor outras relações com o chão, supostamente neutro e liso, aonde se dança. Questionar-se sobre o chão em que se dança e se deseja dançar e, assim, construir para si mesmo um chão. Perguntar-se sobre outros modos de exploração do movimento para resgatar o próprio movimento e não permanecer oscilando ―entre a agitação frenética e a passividade depressiva‖. Perseguir um modo de corporeidade adequado a uma obra e vice-versa. Perceber e reforçar o corpo como arquivo, formador e transformador de si e de suas possibilidades criativas (Lepecki, 2010, p. 14-20). Cada plano de composição da dança contemporânea articula componentes de passagem, sistemas múltiplos, constituições de corporeidades. Trata-se de criações que demonstram interesse em questionar e descobrir mundos em suas potencialidades. Frequentemente, as obras situadas neste mapa relacionam aspectos da vida cotidiana e contestam a realidade (o que não exclui os modos de existência da dança). A dança é composta como estratégia de investigação, intervenção e compreensão do ambiente e suas possibilidades. A liberdade de criação e de pensamento dos coreógrafos colabora para que a produção contemporânea atual assuma a forma de um processo: plano de composição permeado pelo risco e interatividade. A dança se torna uma espécie de trânsitos, trâmites e cruzamentos: ficção-real servida de contextos móveis e cambiantes. Por esta via, a dança se afasta progressivamente do compromisso de apresentar uma obra pronta ou um produto final e, assim, contradizer sua relação com o consumo. Há uma relação complexa entre obra e processo no campo da ação artística, posto que uma construção é algo inacabado e, neste sentido, o público recebe sempre um momento do processo: um instante em que a criação (tanto obra quanto processo) é simultaneamente gerada e geradora (Salles, 2010, p. 89). Sendo assim, processo e produto parecem apenas enfatizar diferenças dentro de um amálgama insolúvel. 163 No artigo Indagações sobre o que pode (ser) um processo, Greiner aponta a necessidade de compreender de que modo a escolha pela natureza processual da criação pode fazer diferença numa experiência de dança contemporânea (2010a, p. 81). Por vezes o processo é a própria obra, ou seja, o procedimento de construção da dança é exibido enquanto resultado cênico. Essa possibilidade ocorre em criações abertas ao risco e ao imprevisto, como, por exemplo, uma exibição de contato-improvisação ou uma obra de Merce Cunningham que usa o acaso. São tipos de obra que mostram em cena, ao mesmo tempo, um conjunto de problemas e suas soluções. Apresentam o como se faz, quer dizer, o modo de produção. Podemos falar ainda numa obra como forma que se transforma (processo), a qual ocorre num tipo de trabalho artístico que ao ser exposto publicamente ―acontece exatamente nas conexões, que se renovam a cada atualização‖ (Salles, 2010, p. 90). A constante mobilidade como modo de constituição enfatiza um ambiente de negociações entre os intérpretes, ou entre eles e o público, tornando a amostra apenas uma versão. Há, neste eixo, um continuum de experiências de dança. O solo Como superar o grande cansaço? (2010) de Eduardo Fukushima foi contemplado com uma bolsa na carteira de Pesquisas Coreográficas do programa Rumos Itaú Cultural Dança 2009-2010. Ou seja, seu projeto foi escolhido88 e recebeu um apoio financeiro para desenvolver uma investigação em dança. Os selecionados também frequentaram um workshop sobre criação e manutenção de blog, pois conforme o edital, deveriam alimentar um diário virtual durante os seis meses da pesquisa, ou seja, documentar e divulgar seu processo criativo. Após esse período, a instituição realizou a Mostra de Processos Rumos Dança para apresentar, como o nome indica, o processo de desenvolvimento das pesquisas apoiadas. Os procedimentos poderiam variar de um simples discurso ou uma conversa com o público, até uma amostra da movimentação89. Na ocasião, a Gerente do Núcleo de Artes Cênicas e coordenadora do programa, Sonia Sobral, declarou que a aposta da 88 Foram selecionados a quantia de 21, num universo de 506 propostas de todo Brasil. O valor da bolsa para pesquisa solo foi de vinte mil reais. A comissão de seleção foi composta por Alejandro Ahmed (Florianópolis), Christine Greiner (São Paulo), Lia Rodrigues (Rio de Janeiro), Marcelo Evelin (Teresina) e Vera Sala (São Paulo). Depois da realização da Mostra de Processos com todos os 21 selecionados, 4 foram escolhidos para receber um novo financiamento do Itaú e dar continuidade à investigação. 89 Alejandro Ahmed, Marcelo Evelin e Vera Sala foram designados pelo Itaú Cultural para orientar os artistas neste sentido: discutiram cada pesquisa e o modo de apresentá-la. A Mostra de Processos foi realizada de 6 a 14 de março de 2010 em São Paulo (SP). 164 instituição estava no estudo e na experimentação. Sobral disse: ―Essa edição do Rumos Dança pede aos artistas o desafio de criar estratégias de apresentação de pesquisa‖. E ainda: ―Como a função da mostra é evidenciar a pesquisa em dança, o que o público irá assistir não são estreias, mas um programa de processos‖90. Talvez a maior repercussão do evento foi a de desenrolar uma discussão acerca das (possíveis) diferenças entre um processo e um produto de dança. Inserido neste contexto, Fukushima sustenta que não vê uma grande diferença entre produto e processo: No Rumos se fosse mostra de processo ou se fosse mostra de espetáculo, eu ía apresentar a mesma coisa. Para mim o processo está no produto também, acho que é sempre um processo. A gente nunca chega no lugar... O Cansaço está num processo até hoje. Cada vez que eu apresento é um processo, que não é igual a última apresentação. Porque é dança, é corpo, a gente muda muito. É sempre um processo mesmo. E o produto... [...] as vezes você está muito work in progress sim, porque as questões e o jeito de dançar ainda não estão muito claros. Mas depois de um tempo, quando as coisas passam a ficar mais claras, acho que passa para uma coisa mais produto, digamos. Mas para mim não tem muita diferença. No Rumos, lá é um exemplo bom, que era mostra de processos. E aí eu fiquei pensando lá: ‗Mas e se fosse mostra de espetáculo, o que é que eu ía fazer?‘ A mesma coisa! Entendeu? (Fukushima, 2012). Ao que parece, na dança contemporânea obra e processo se entrelaçam de maneira extrema. O que merece ponderação é que, neste contexto, o foco de constituição do processo é uma pesquisa, ou seja, não a composição de algo por meio de formas e respostas prontas. Vale lembrar que, ao mesmo tempo, seu produto não é sinônimo de um modelo convencional de espetáculo. Para Fukushima, realizar uma pesquisa em dança contemporânea significa [...] ir atrás de uma coisa que você ainda não conhece, que você ainda não sabe, e que você tem antes uma vontade muito forte, até uma necessidade de entender e fazer algo que você não conhece ainda, se aprofundar nisso. Para mim, a pesquisa em dança parte muito do corpo, nessa junção do pensar e dançar ao mesmo tempo. Pesquisar é uma coisa diária, está muito no corpo, mas também está fora do corpo, ela é o tempo inteiro. (2012). A coreógrafa Micheline Torres chama atenção para a determinação de formatos e modos de composição em dança impostos por programas de apoio, editais de incentivo, equipamentos culturais, enfim, pelo próprio mercado. A 90 Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2716&cd_noticia=6745. Acesso em: 23 mar. 2012. 165 necessidade de manutenção do trabalho artístico, de profissionalização, de inserção mercadológica, de ganho de visibilidade, dentre outras urgências, amarrada aos poucos mecanimos que favorecem uma sustentabilidade financeira, força o artista a modelar sua dança de acordo com o padrão solicitado. Torres tem consciência desta ―batalha‖ e se mostra incansável na tarefa de repensar todo e qualquer fazer em dança. Ela também considera que processo e produto [...] não são necessariamente excludentes. Porque o processo pode ser o formato final a que se deseja... Então é uma coisa aberta, que muda a cada semana ou a cada apresentação, é uma coisa que alguém sugere uma música e então a cada dia vai ser uma música diferente. A gente embrulha tudo isso e fala que é processo. [...] mas é óbvio que a gente não pode ser ingênuo de não pensar que a gente também está num mercado, e no mercado você tem a questão do produto que você quer vender. E é genuíno que você queira sobreviver do que você faz. Então você, sim, vai fazer um espetáculo que tem uma hora porque tem um tempo padrão, é um espetáculo que você pode carregar de um lugar pro outro ou se não, se é um espetáculo com vinte pessoas, você vai também lidar com aquilo e o produto vai ter aquilo. [...] Acho que não necessariamente o produto que está inserido no mercado precisa ser algo violento para você, sabe essa relação: edital é um saco porque você tem que fazer isso e eu não quero, e eu não passo em nenhum tal. Porque edital é outra coisa, edital é barco furado, uma hora você está dentro, uma hora você está na água. A gente não tendo uma política cultural estável, com leis e tal, é todo mundo assim: uma hora está num lugar, uma hora está em outro. Mas em relação a processo e produto, e uma coisa não exclui a outra, eu acho que são formatos de apresentação, processo pode ser produto, produto não necessariamente é uma peça para o palco [...]. (Torres, 2012). Não à toa, um produto de dança contemporânea carrega um forte traço de performance (processo), ou seja, oferta de um modo singular de processamento de elementos disparatados: corpos, singularidades, afetos, ideias, etc. O diretor, performer e teórico Renato Cohen (1956-2003) analisa os procedimentos que caracterizam a linguagem work in progress, entendida como sistema específico que gera outros mecanismos de criação, formalização e recepção das artes. O ―sentido ausente‖ é o modo de operar sua construção, que recorta ―experiências de espaçotempo‖ e opera ―com maior número de variáveis abertas, partindo-se de um fluxo livre de associações, uma rede de interesses/sensações/sincronicidades‖ na cena (Cohen, 2006, p. 7; 12; 17). Como work in progress a dança desconstrói métodos clássicos de composição, contempla o fragmento e trafega por redes e fluxos não causais. 166 Tamanha multiplicidade de textos cênicos evoca diferentes estratégias e métodos de análise crítica, o que me leva a buscar e atualizar outras possibilidades de leitura enquanto espectadora e pesquisadora. Tarefa incessante. A cena contemporânea da dança esboça um mapa vasto e complexo, acelerado por metamorfoses e contaminações entre corpos, artes e mundos. Então, como apreender um modo de dança cuja peculiaridade reside exatamente na força da indeterminação e na diferença com a qual concretiza suas possibilidades artísticas? Afinal, o que podemos apreender de uma dança enquanto espectadores? Apenas rastros de intensidades? Gil (2004) supõe que a dança não é feita para ser compreendida, pois de seu movimento contínuo podemos captar apenas a sucessão abstrata e a diferença das formas. O autor lembra que seria vão descrever movimentos dançados para apreender todo o seu sentido e descobrir o nexo da coreografia, pois sua lógica não pode ser inteiramente traduzida no plano da linguagem e do pensamento verbal. Mas então, se o sentido da dança é a própria dança, insiste a pergunta: o que é a dança? Ao considerarmos a dança como acontecimento, tratamos de uma dança como algo que desperta interesse, pois a definição de sentido de uma proposição [...] é o interesse que ela apresenta, não existe outra definição para o sentido. Ele equivale exatamente à novidade de uma proposição. Podemos escutar as pessoas durante horas: sem interesse... Por isso é tão difícil discutir, por isso não cabe discutir, nunca. Não se vai dizer a alguém: ―o que você diz não tem o menor interesse‖. Pode-se dizer: ―está errado‖. Mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma. É que isso já foi dito mil vezes. As noções de importância, de necessidade, de interesse são mil vezes mais determinantes que a noção de verdade. De modo algum porque elas a substituem, mas porque medem a verdade do que digo. Mesmo em matemática: Poincaré dizia que muitas teorias matemáticas não têm importância alguma, não interessam. Não dizia que eram falsas, era pior. (Deleuze, 1992, p. 162). Como despertar o interesse do outro, ou seja, daquele que difere de mim? Que modos de dança interessam às pessoas da dança quando se colocam na posição de público? Num primeiro momento, o coreógrafo Alejandro Ahmed demonstra certo desapontamento: O que me interessa agora do que eu vejo por aí? Eu não vi muita coisa que me interessa muito. [...] tem várias coisas que me tocam, que eu gosto e tal, mas são relações formais que de alguma forma 167 se manifestam... em mim até como um prazer, alguma ideia estética que te agrada, mas ao mesmo tempo eu vejo uma formulação por trás de tudo como uma máquina, que vai de alguma forma revelando suas engrenagens as quais, quando eu olho, muito rapidamente eu consigo ver todo sistema funcionar, entendeu? E aí isso não quebra com a minha expectativa e as vezes começa a ficar chato nesse sentido, porque eu olho, aquilo se revela, eu consigo identificar as belezas de que aquilo é composto, mas essas belezas são tão passíveis de... de serem engendradas de uma forma tão banal as vezes daquela que a gente está acostumado a ver, que eu começo a achar sem graça, entendeu? (2012). Ahmed se diz interessado nos trabalhos do coreógrafo colombiano radicado na Argentina Luis Garay, explica: [...] existe uma despretensão nele, uma necessidade não–formal, sem presunções neoartísticas, inovadoras. Eu vi o trabalho novo dele [...], existe uma crueza, uma necessidade de ativar a nossa posição mental de um outro modo naquilo ali, sem agrado de entretenimento, sem formulações já prontas, realmente uma investigação que faz a tua mente ficar esquisita ali, e ver o que que é aquilo, e conseguir ver um pedaço de madeira, uma garrafa vazia, uma água pingando, uma simplicidade que está me interessando assim. [...] O vento jogando aquela areia, cada grão de areia jogado pelo vento, é de uma perfeição imensa mas de um descontrole total, nesse caso. E o que me interessa é isso, uma dança que possa tirar a gente da ideia que a gente tem controle total sobre algo, entendeu? (2012). O conceito de teatralidade possibilita estudar mecanismos de representação variáveis, basicamente a partir de três elementos: ―ação, vontade de exposição e olhar externo‖ (Cornago, 2008, p. 22). Ou seja, a combinação destes fatores define estratégias distintas de teatralidade, que articulam simultaneamente tipos de ação com modos de mostrar-se externamente e situações do público que vê. Neste atravessamento emerge a teatralidade e possivelmente aparece o sentido, ou seja, o interesse, conforme apontado na fala de Deleuze. Requisito indispensável para emergência da teatralidade na dança é um olhar não passivo do espectador, pois a teatralidade como processo assinala os sujeitos em ação: observado-observador91. Trata-se de um fazer que constrói o objeto ou a obra, ou seja, uma operação 91 Ao fazer alusão a requisição de um olhar não passivo do espectador, desejo reforçar a necessidade de maior interesse, comprometimento e abertura por parte daquele que vê. Não se trata de estabelecer uma oposição entre o que ocorre na cena (agente ativo) e o espectador sentado na plateia (agente passivo). Ou seja, não pretendo me apoiar numa separação entre o ver e o fazer, nem enfatizar uma lógica da transmissão e instrução. Ao contrário, ao considerar o olhar como ação, entendo que o espectador também age, e nessa atividade constrói sua própria história e sentido. Assim, na esteira das reflexões de Rancière sobre a emancipação do espectador, a dança é uma ―terceira coisa‖, que não pertence nem ao artista nem ao espectador, mas se mantém entre os dois (2010a, p.24-25). 168 cognitiva. O sentido mora no interesse. A dança (e porque não dizer, a realidade toda) se apresenta como um convite. Pode ser interessante, ou não. Especial é ir a um encontro de cada vez de modo atencioso e verificar que um interesse remete sempre a outro: (re)descoberta daquilo que nos impulsiona e nos lança um pouco mais para lá. 4.2 Textos em Comum A mediação da imagem não permite a identidade. Duas pessoas que veem o mesmo objeto acabam vendo-o diferente. O ato sensorial não se realiza in vitro, mas na complexidade de um mundo de imagens filtradas pelo prisma da sensibilidade. Por isso, não há dois homens que vejam igual, não só o mesmo quadro, mas uma paisagem, um objeto qualquer.92 Armindo Trevisan Em seu livro O teatro é necessário?, Denis Guénoun afirma que o teatro não se restringe a uma atividade, mas a duas ações indissociáveis: fazer e ver (2004, p. 14). Sua hipótese é que o teatro só existe a partir da simultaneidade entre ambas. Lehmann compactua de suposição semelhante ao escrever que Teatro significa um tempo de vida em comum que atores e espectadores passam juntos no ar que respiram juntos daquele espaço em que a peça teatral e os espectadores se encontram frente a frente. A emissão e recepção dos signos e sinais ocorrem ao mesmo tempo. A representação teatral faz surgir a partir do comportamento no palco e na plateia um texto em comum [...]. Desse modo, uma descrição pertinente do teatro está ligada à leitura desses textos em comum. [...] a situação do teatro constitui uma totalidade de processos comunicativos evidentes e ocultos. (2007, p. 18). ―Textos em comum‖ ou teatralidades. A indicação do comum diz respeito ao que Rancière elabora como ―partilha do sensível‖, ou seja, o comum não é algo dado a priori, mas construído. Trata-se de um espaço produtivo que não descreve um plano de igualdade, homogeneidade, unidade e identidade, ao contrário, tem como condição a pluralidade e a fragmentação. O comum é constituído no encontro de 92 Armindo Trevisan, op. cit., 1988, p. 37. 169 singularidades, as quais compartilham as próprias diferenças e colocam em comum algo que antes não era. Nas palavras de Rancière: A ―partilha do sensível‖ designa o sistema de evidências sensíveis que dá a ver, em simultâneo, a existência de um comum e os recortes que definem, no seio desse comum, os lugares e as partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa, simultaneamente, o comum partilhado e as partes exclusivas. (2010b, p. 13). Tal interface tem dimensão política, pois convoca à experiência de transformação, de participação na confecção do sensível e produção de sistemas específicos de afetabilidade. Como criador, Ahmed exalta a possibilidade do compartilhar dada pela dança e questiona o significado de estar diante do outro: Então a arte da presença apesar de tudo o que está ali se pretender como ficção, todo o contexto é um contexto real, que acontece no tempo do agora e na presença dos dois - do espectador e do artista. E tirando proveito dessa relação básica e óbvia que a gente às vezes não percebe, de que estou aqui às 21 horas e você está aqui às 21 horas, no mesmo lugar que eu, tentando se comunicar de alguma forma, ou se disponibilizando para uma comunicação, isso já é acho que a grande força da arte da presença hoje, num mundo onde a gente pode estar com uma pessoa que está... sei lá na China ao mesmo tempo no skype, no iphone, aonde for... Então quando ela está realmente na minha frente, qual é essa diferença? Qual é o valor disso? Qual é o poder que isso tem, de eu ter um corpo que está a distância do meu braço diretamente, entendeu? Ou a distância de alguns passos ou por aí. (2012). A partilha do sensível equivale à partilha do jogo. É neste sentido que a dança contemporânea determina um espaço-tempo compartilhado e articulador da produção e do olhar. Se a teatralidade nasce de um exercício dinâmico no campo perceptivo, ou seja, se instaura num jogo entre obra e espectador, é neste plano relacional que se experimentará uma realidade outra. Mas como o espectador vivencia uma obra de dança contemporânea? Que tipo de olhar é convocado pela cena? Certamente o jogo da dança contemporânea ocorre num campo que possui leis e regras diferentes daquelas do cotidiano. Resta aprender a jogar e, indo mais longe, tentar descrever o jogo. Guénoun (2004) ressalta que o jogo, do ponto de vista da cena, é interessante exatamente por conta da singularidade de seu campo e de suas normas. Neste sentido, o teatro se mostra como necessidade prática dos homens de jogar. Ao longo de seu livro, o autor argumenta sobre a necessidade do teatro na 170 vida dos homens. Num dado momento, explica que com o advento do cinema, os heróis do teatro se refugiaram nas imagens. Assim, os espectadores de hoje não vão mais ao teatro em busca de personagens ou histórias (para tal, podem ir ao cinema, assistir um DVD ou ler um livro), mas vão ao teatro para ver um espetáculo, ou seja, ver uma operação própria de teatralidade (o jogo). Seu interesse são as práticas da cena enquanto práticas, quer dizer, desejam ver como fazem aqueles que se apresentam. Vão ao encontro de uma encenação, de uma operação de exibição autônoma. Argumenta que as escritas cênicas contemporâneas efetivam uma lógica peculiar de jogo dotada de rigor da existência da cena, o que equivale a dizer que [....] o primeiro requisito do jogo provém da apresentação do corpo. Não da representação pelo corpo de alguma coisa da qual o corpo seria a figuração, mas da exibição do próprio corpo. Ora, esta mostração pretende alcançar uma verdade que não é a da adequação a uma imagem, mas a da integridade de uma presença. [...] Trata-se então de elaborar uma verdade física. (Guénoun, 2004, p. 133). Para o autor os métodos são variados e têm exigência apresentativa (e não representativa), o jogo é procurado como exibição íntegra (inteira) e honesta (ética e técnica juntas). A dança seria um recurso potente para testar a precisão cênica do movimento, liberto do mimetismo. E cada elemento posto em cena - cenário, figurino, luz, som, vídeo, entre outros – funcionaria como mais um elemento de diálogo (Guénoun, 2004). Na esteira destas colocações, uma pluralidade de enunciadores é posta em relação por meio de processos que ativam a produção de diferentes poéticas cênicas. Para Féral (2003, p. 28), a polifonia enunciativa é um princípio da teatralidade, o que nos lembra a impossibilidade de existir um único significado no texto da dança, mas, ao invés disso, a presença de intertextualidade. De maneira intencional os criadores contemporâneos desestruturam os moldes da recepção, levantando a necessidade de problematizar e mudar a perspectiva do observador, de modo a torná-la apropriada aos fenômenos cênicos. Em um campo onde não há um único centro, um olhar totalizador em busca da compreensão torna-se falível e parcial, se contradiz, falha, retorna, vibra, torna-se experiência (Lehmann, 2008). A interatividade aparece como condição de fruição na contemporaneidade, onde a 171 cena não tem a dizer, mas a mostrar. Uma exibição que corre para alcançar o sensível e gerar uma nova percepção, nada uniforme. Quando uma obra de arte recorre à sugestão do espectador para sua elaboração, pode ocorrer que ao invés do reconhecimento e da troca, implante-se a desilusão, a insegurança, a solidão e o silêncio. As percepções individuais isolariam os espectadores e impediriam a pergunta e o diálogo com ou sobre as obras. A falta de referências do espectador, recluso na impossibilidade de encontrar nexos nos discursos da obra, tem efeito perturbador. Neste caso, pode-se retornar a um comportamento meramente contemplativo. A necessidade do olhar teatral é, tanto quanto a do fazer, necessidade do jogo. [...] O olhar sobre o jogo, por não ser nem olhar cognitivo nem investimento imaginário, se articula aos jogos possíveis que cada um ativa para si. [...] os que olham não vão ao teatro. Porque o teatro é regido e pensado segundo pressupostos e ritos que são os da época da representação. Ou então vão muito pouco: ali não há lugar pra eles. (Guénoun, 2004, p. 150). Dedicada à prática do experimento e disposta a correr riscos (portanto vulnerável também ao fracasso), uma dança contemporânea firma-se como ponto de encontro provocador de novos modos de percepção. Do corpo que enuncia ao corpo que observa. E vice-versa. O caráter heterogêneo, paradoxal e distorcido pertence à contemporaneidade, que solicita uma renovação acerca das perspectivas da recepção. Neste contexto, a sinestesia aparece como traço marcante de suas propostas cênicas. Lehmann explica que O aparato sensorial humano dificilmente suporta a falta de referência. Privado de seus nexos, ele procura referências próprias, torna-se ―ativo‖, fantasia ―descontroladamente‖, e o que lhe ocorre então são semelhanças, conexões, correspondências, mesmo as mais remotas. O rastreamento de conexões anda junto com a desamparada concentração da percepção nas coisas que se oferecem. [...] A sinestesia imanente ao acontecimento cênico, [...] não mais consiste em um elemento implícito do teatro como obra de encenação oferecida à contemplação, mas em uma oferta explícita da atividade no teatro como processo de comunicação. (2007, p. 141). Esta percepção sinestésica é ainda produzida pela estruturação nãohierárquica dos elementos compositivos e a simultaneidade, capazes de sobrecarregar o aparato perceptivo. Como não há possibilidade de apreender tudo que se oferece num mesmo instante, a percepção é fragmentada e cabe ao 172 espectador escolher e acompanhar não a totalidade do espetáculo, mas aquilo que ele mesmo selecionou. Sua liberdade tem cunho excludente e limitado (Lehmann, 2007, p. 147). Berthoz afirma que a percepção é ativa, pois perceber implica selecionar e coordenar um repertório de ações possíveis e um conjunto de informações disponíveis. ―De fato, decidir é vincular o presente ao passado e ao futuro, é ordenar‖ (Berthoz, 2003, p. 10). A dança contemporânea derruba paradigmas e se instaura como situação instável e provocativa, atuação em processo (e não como produto pronto e finalizado). Contrariando as tradições, solicita uma percepção flutuante e encoraja a percepção por outras vias sensoriais. ―Uma poética da compreensão é substituída por uma poética da atenção que armazena o estímulo e o mantém na préconsciência; que lhe possibilita uma inscrição efêmera no aparelho perceptivo sem permitir que ele se dissipe num ato de compreensão: um rastro de memória ao invés de consciência, a compreensão fica adiada‖ (Cohen, 2006, p. 143; 146). Neste contexto, a percepção é sempre tomada como algo particular, sempre ―em relação a‖. Pois a significação da dança ocorre tanto no corpo daquele que faz, quanto no corpo daquele que observa. Godard explica que O movimento do outro coloca em jogo a experiência de movimento própria ao observador: a informação visual provoca no espectador uma experiência cinestésica (sensações internas dos movimentos de seu próprio corpo) imediata. As modificações e as intensidades do espaço corporal do dançarino vão encontrar ressonância no corpo do espectador. O visível e o cinestésico, absolutamente indissociáveis, farão com que a produção de sentido no momento de um acontecimento visual não deixe intacto o estado do corpo do observador: o que vejo produz o que sinto e, reciprocamente, meu estado corporal interfere, sem que eu me dê conta, na interpretação daquilo que vejo. (2001, p. 24). Cada dança proposta na cena como jogo pede o interesse das partes em jogar. E implica o uso de estratégias, quer dizer, procedimentos compositivos, os quais promovem a emergência de teatralidades. 173 4.3 Operações de Teatralidade [...] toda obra de arte supõe diálogo? Se existe um sujeito, ele quererá revelar-se. Ou então estará falando sozinho. Ninguém quer falar sozinho, nem consigo mesmo. Ao falar, a pessoa interpela alguém, mesmo que este alguém seja fictício.93 Armindo Trevisan ―Qualquer‖ espaço serve para um corpo que dança. Pode ser um palco bastante tradicional como o italiano, pode ser uma arena, pode ser uma sala, banheiro ou cozinha, pode ser na rua, num espaço público, pode ser... Qualquer espaço não é exatamente um espaço qualquer, mas a proposição de um ambiente singular e específico, cuja escolha desenha o caráter da dança e as conexões que essa propõe ao público. Pode ocorrer que o acontecimento se dê num espaço que mantém a clássica separação entre palco e plateia. Ou num espaço de integração artista-público. Ou num espaço absolutamente cotidiano, público, de passagem (um prédio, uma rua, uma praça, um hotel, etc.). Ou. Trata-se, afinal, de buscar continuamente diferentes alternativas para construção e atualização de procedimentos estéticos. E, dentre múltiplas estratégias, há aquela que modifica possíveis relações entre corpo e objeto, ou seja, provoca mudanças materiais para requalificar e redefinir a diversidade de elementos da composição cênica e, sendo assim, a própria dança. Há uma necessidade criativa de testar diferentes usos dos signos e instituir outras lógicas de configuração. O contemporâneo não cansa de rever dualidades aceitas como palco-plateia, artista-espectador, realidade-ficção. Um dos procedimentos em crescente utilização, que facilita a realização de experiências transformadoras no campo da dança, é o abalo ou anulação da distância física entre palco e plateia. A promoção do encontro entre artista e espectador manifesta o desejo da dança de se afastar de uma linguagem préfabricada e converter-se num acontecimento. O pesquisador Óscar Cornago ressalta a tentativa recorrente de envolver o público no ambiente cênico, criar um sentimento de coletividade, fazer o espectador consciente da necessidade de sua participação para a formalização do espetáculo e, assim, arrancá-lo da condição de consumidor passivo (2006, p. 1-13). Ou seja, ao juntar espectadores e artistas 93 Armindo Trevisan, op. cit., 1988, p. 41. 174 busca-se provocar uma alteração significativa em ambos os papéis. Ao mesmo tempo em que se transforma a cena num ambiente estimulante para os presentes, o público é convocado a construir uma possibilidade de dança e realizar uma experiência. Este modo de relação entre obra-espectador equivale ao modelo mítico, em contraposição ao modelo estético, no estudo de Cohen (2009, p. 122). Na relação estética, observada na cena convencional, ―existe um distanciamento psicológico em relação ao objeto – eu não entro na obra, eu não faço parte dela; eu sou observador [...] eu tenho um distanciamento crítico em relação ao objeto‖. Este posicionamento é igualmente aplicado ao artista, que representa ao invés de ser. Trata-se de um modelo de ―representação do real‖. Já a relação mítica explora a participação do espectador, bem como, a ação real-viva do atuante, caracterizando-se por uma vivência do real. Na prática, como lembra Cohen, o modelo estético (relação distanciada) e mítico (relação de inserção) se confundem (2009, p. 122). Que consequências surgem do deslocamento do público para dentro da cena, além de impulsionar sua imersão na obra e transformá-lo em espectador ―produtivo‖? A professora e teórica Anne Ubersfeld explica que quando vamos ao teatro sabemos que estamos indo ao encontro de uma cena com denotação irreal ou imaginária, que difere da vida cotidiana e tem seus próprios códigos e leis de funcionamento. Mas neste mesmo espaço e tempo nos colocamos diante de marcas da concretude: vemos pessoas e objetos indiscutivelmente ―reais‖. Tais coisas ―verdadeiras‖ se inscrevem num contexto (teatral) de negação, onde o que existe é para a composição da cena e não para o mundo ―real‖. A autora afirma que: A revolução contemporânea do lugar cênico [...] com seu propósito de mesclar público e ação cênica, espectadores e atores, não fere esta distinção fundamental: ainda que o ator estivesse sentado no colo do espectador, uma ribalta invisível, uma corrente de cem mil volts promoveria uma radical separação entre os dois. Ainda que houvesse representação de um fato real (como no teatro político ou no teatro de agitação), esse real, uma vez teatralizado, assumiria um estatuto de não-realidade, tornando-se aparentado ao sonho. (Ubersfeld, 2005, p. 20-24). É certo que distância e proximidade alteram a percepção do espectador, no entanto, mudanças de ângulo e pontos de observação no espaço não são suficientes para fazê-lo ver de fato, quer dizer, para que faça uma experiência em si 175 mesmo. A interação aspira uma impressão de sinceridade na obra, a construção de uma ficção com pretensão de realidade. O caráter processual é enfatizado num tipo de obra que [...] não se apresenta como uma unidade com princípio e fim, senão como um percurso incerto que se realiza em frente ao público, no mesmo momento, de modo que este chegue a sentir uma dose de insegurança, de não estar preparado para tudo o que se passa, e, portanto talvez de maior realismo ou verdade, mesmo que afinal não deixe de ser senão uma ficção, mas, ficções reais. Deste modo o público se faz mais consciente de sua própria situação frente à cena, do seu estar-sendo-espectador como um processo também inseguro, aberto, real.94 (Cornago, 2006, p. 10, tradução livre da autora). Segundo Cornago uma ―teatralidade social‖ emerge com a ―sociedade da imagem‖, num contexto democrático ligado a cultura midiática de integração. A teatralidade recorre à presença do espectador para tornar o social um acontecimento aqui e agora. Diz o autor: ―A dimensão relacional desse acontecimento, entre um eu concreto em frente a um tu ao qual se dirige diretamente, caracteriza um dos capítulos mais significativos das práticas cênicas na busca de um efeito de realidade‖ (2008, p. 22-29). Proliferam cenas da dança contemporânea que utilizam o real enquanto recurso para composição e oferta de tempos-espaços de experiência(s). Como a ficção serve-se do real para potencializar seu discurso? Neste contexto é possível encontrar, frequentemente, um princípio de negação da própria dança, na medida em que o artista consegue inverter ordens estabelecidas e desestabilizar ideias tradicionais. Contradição e ambiguidade surgem como possibilidades para trabalhar a contemporaneidade na cena. A dança propõe ocasiões intensas para dilatar a percepção e chamar atenção à carência atual de autenticidade. Ao espectador resta exercitar o sensível e lembrar que está mergulhado num universo artístico polissêmico: realidade onde cada um trabalha a própria subjetividade e faz as leituras possíveis. No convite à dança, o público recebe a responsabilidade de formalização da obra. O real permanece como potência no corpo e na cena, espaço 94 ―[...] no se presenta como una unidad con principio y fin, sino como un transcurso incierto que se está realizando frente al público, en ese mismo momento, de modo que este llegue a sentir una dosis de inseguridad, de no preparación de todo lo que ahí está pasando, y por tanto quizá de mayor realidad o verdad, aunque finalmente no deje de ser sino una ficción más, ficciones reales. De este modo el público se hace más consciente de su propia situación frente al escenario, de su estarsiendo-espectador como un proceso también inseguro, abierto, real‖. 176 de testes para novas possibilidades e ultrapassagem de limites. Uma dança contemporânea trabalha com as impossibilidades para criar suas próprias realidades e se ocupa, afinal, de uma captação qualitativamente diferente do real. O real é, pois, por um lado, o intempestivo, o que vem sempre a contra-tempo da realidade, o que quebra as convenções, as rotinas, os conformismos, a passividade; e, por outro, é o que chega no momento exato, singular, único, do presente que define de uma maneira nova. Abre os olhares para um outro ponto que se ocultava sob a realidade. (Gil, 2004, p. 168). A dança contemporânea está na ordem de um real insistente e nada óbvio. Devir puro. A teatralidade resulta de dinâmicas perceptivas (do olhar que une um observado, seja sujeito ou objeto, a um observador), fazendo emergir a ficção num espaço diferente, onde se experimenta o espetacular e vivencia uma relação incomum com o real. Assim, o exercício de percepção e reconhecimento da teatralidade se instaura num jogo extraordinário entre obra e espectador, como nos casos discutidos a seguir. 4.4 SIM - Ações Integradas de Consentimento para Ocupação e Resistência – Grupo Cena 11 Cia. de Dança [...] os Outros são mundo possíveis, aos quais as vozes conferem uma realidade sempre variável, conforme a força que elas têm, e revogável, conforme os silêncios que elas fazem. Elas são ora fortes, ora fracas, até que se calam, por um momento (com um silêncio de cansaço). Ora elas se separam e até mesmo se opõem, ora se confundem.95 Gilles Deleuze O projeto coreográfico do Cena 11 intitulado SIM - ações integradas de consentimento para ocupação e resistência é uma ação proposta em sessões para 95 Gilles Deleuze. Sobre o teatro: um manifesto de menos; o esgotado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2010, p.77. 177 grupos restritos de pessoas.96 A ideia é colocar à prova o comportamento dos bailarinos e do público, simultaneamente, por meio da interação. Dispõe palco e plateia no mesmo espaço, união física que propõe uma nova relação e arrasta outro modo de conhecimento. SIM promove uma experiência sensitiva, na qual os corpos dos bailarinos se deixam afetar pela plateia, ao mesmo tempo em que procuram afetar o espectador, incluído para desenvolver o procedimento criativo. A dinâmica passa de signos transmitidos para energias co-vivenciadas. O envolvimento corporal do espectador transfere sua atenção da ilusão para a própria posição no espaçotempo. Assim, a presença e o lugar por ele ocupado se tornam tema central da coreografia. Novos modos de percepção são intensificados. Não são poucos os esbarrões e as tensões provocadas no decorrer do processo, que projeta uma luta de forças constante entre artistas e participantes. Num encontro promovido pelo Cena 11 para discutir o experimento Plateia teste97, o público foi solicitado a descrever a situação vivida. Os relatos atestaram que a proposta de mistura (elenco e plateia) funcionou tanto para aproximar quanto para separar. Sensações de confinamento, coerção, opressão, submissão foram denunciadas por um público que se disse paralisado diante da vontade de intervir na cena em choque com um sentimento de exclusão. Todas as falas e contribuições foram consideradas pelo diretor do grupo Ahmed, sem qualquer insinuação sobre qual seria o modo mais ―correto‖ de se comportar. A conversa explicitou a feição de teste da coreografia: experimento que ocorre numa esfera instável, pois cada ação procede necessariamente por escolhas, tanto possíveis quanto impostas. Ao juntar espectadores e artistas no palco, a companhia buscou provocar uma alteração significativa em ambos os papéis, convocou o público para construir uma possibilidade de dança e realizar uma experiência. Ofereceu a obra como processo, transformando a cena em uma situação provocativa para todos bailarinos e espectadores. Corpos se colocaram como obstáculos para outros corpos, impediram suas passagens, impuseram vontades. As relações eram 96 No Teatro Pedro Ivo de Florianópolis (SC) a quantidade máxima foi de 45 pessoas. Estive presente na sessão de 14 de abril de 2011. 97 Plateia teste foi o nome da ação que antecipou a produção final de SIM - ações integradas de consentimento para ocupação e resistência. Participei deste procedimento no Teatro Pedro Ivo, Florianópolis, dia 13 de abril de 2010. O encontro posterior teve como objetivo conversar sobre esta pesquisa coreográfica com interlocução da Professora Doutora Fabiana Britto. Foi realizado no dia 27 de maio de 2010. Programa do Festival Múltipla Dança, Teatro SESC Prainha, Florianópolis. 178 continuamente modificadas, as formas deformadas e, assim, toda e qualquer ação atingia uma percepção direta. A dança como devir solicitava um engajamento pessoal. A conversão dos espectadores em participantes produz uma ―situação social‖, onde estes percebem o quanto sua experiência depende de si mesmos e dos outros (Lehmann, 2007, p. 173). Em SIM - ações integradas de consentimento para ocupação e resistência, os eventos de dança se efetivam nos moldes de uma experiência que intensifica a partilha de energia (e não de uma comunicação na qual a informação corre de um emissor a um receptor). A fruição depende da participação do espectador, disponível e inclinado ou não para ativar memórias e significados. A professora e pesquisadora portuguesa Cláudia Marisa Oliveira explica que um espetáculo sempre instaura um espaço dialético de subjetividade, ou seja, envolve continuamente um movimento criativo e não passivo (2009, p. 15-33). A passividade existiria apenas como entrega e escuta. Tanto a ação quanto o efeito de uma obra de arte dependem de um investimento afetivo, na crença daquilo que fazemos (dançando/atuando ou observando). A proposição artística de Ahmed incita a troca e um estado adaptativo do corpo, a todo instante forçado a se locomover no espaço e rever seu lugar. Trata-se de um tipo de adesão que empurra a ação de quem dança e faz ―dançar‖ quem saiu de casa para o teatro com a mera intenção de observar. O público se vê inserido numa rede caótica, permeada de eventos e encontros. A simultaneidade de ocorrências impede um olhar totalizador. Diante das várias opções em curso, cada um decide como montar a sua própria dança. Um jogo se arma e uma experiência se oferece por meio deste. Como é proposta (e não imposição, já que ninguém é impedido de ir embora), apenas faz experiência aquele que arrisca e se dispõe a jogar. Na lógica de provocação do Cena 11, a experiência é algo singular e impossível de ser reproduzida. Artistas e espectadores são conduzidos a enfrentar um acontecimento e, ainda que inseridos numa mesma situação, não fazem a mesma experiência. Pois 179 [...] é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto em quem encarna. Não está, como o conhecimento científico, fora de nós, mas somente tem sentido no modo como configura uma personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, em definitivo, uma forma humana singular de estar no mundo, que é por sua vez uma ética (um modo de conduzir-se) e uma estética (um estilo). Por isso, também o saber da experiência não pode beneficiar-se de qualquer alforria, quer dizer, ninguém pode aprender da experiência de outro, a menos que essa experiência seja de algum modo revivida e tornada própria. [...] a lógica da experiência produz diferença, heterogeneidade e pluralidade. [...] a experiência tem sempre uma dimensão de incerteza que não pode ser reduzida. Além disso, posto que não se pode antecipar o resultado, a experiência não é o caminho até um objetivo previsto, até uma meta que se conhece de antemão, mas é uma abertura para o desconhecido, para o que não se pode antecipar nem ―pré-ver‖ nem ―pré-dizer‖. (Bondia, 2002, p. 27-28). A movimentação ―típica‖ da companhia forma-se por saltos e quedas. Antes de buscar exprimir ou significar algo, o corpo que dança realiza e testa seu potencial no plano do fazer. Mostra-se o corpo como matéria submetida à lei da gravidade, como corpo-pessoa que age e não como corpo-instrumento do qual se serve para realizar. A radicalidade com a qual o corpo se lança no espaço e cai no chão intensifica uma sensação de ordem fisiológica (dor, susto, surpresa, medo) que faz o real vibrar aos olhos de quem observa. ―Quando o palco se iguala à vida, quando a banalidade real se despeja nele, surge o medo quanto à integridade de quem atua‖ (Lehmann, 2007, p. 355). Cada ação de dança busca tirar o outro do hábito, indicar a existência da vida e, deste modo, manifesta o plano do real na composição. Ao enfatizar o gesto da dança como ação e não como ilustração ou ―passo‖ de dança, o grupo Cena 11 arquiteta uma fisicalidade que incorpora o real, firmando compromisso com a realidade cotidiana. Com um elenco de constituição física diversa, a companhia afasta a ideia de corpo ideal para enfatizar imagens corporais que exploram posturas inusitadas, quedas, gestos cotidianos (o andar e o correr estão lá sempre), o som em falas, cantos, gritos, risadas e choros. Em SIM um andar exaustivo cobre todas as direções e percursos no espaço. São caminhadas que afirmam, lançam suspeitas, arriscam, transgridem, conjeturam operações enunciadoras que, porém, não se reduzem aos seus traçados gráficos. Vozes e ruídos misturam-se para gerar associações na imaginação do espectador. A cena auditiva articula-se a dramaturgia visual para produzir novas relações espaciais, emotivas e corporais. 180 O ritmo domina o espaço; aspectos negativos como peso, carga, dor e violência se antepõem à harmonia, que era preciosa para a tradição da dança. [...] na queda e na elevação, na dor e no erotismo provocante pergunta-se com Nietzsche pelo ―deus dançarino‖, procura-se um ser anterior a toda determinação dialética, que [...] se encena no riso e na transgressão. (Lehmann, 2007, p. 340). O público participa de uma circunstância projetada na esfera da instabilidade e do imprevisível, estigma da linguagem do Cena 11 que é de risco, marcada pela vulnerabilidade do corpo e pela descoberta de novas significações. O participante entra em cena duplamente: atua por meio de imagens projetadas em vídeo ―ao vivo‖, torna-se ainda mais próximo, passa da condição de representado para a de sujeito. As imagens reforçam a teatralidade de algo ativo, enérgico, real e presente, ressaltando e revelando qualidades e comportamentos humanos. Pois a exibição simultânea do rosto de um participante de modo ampliado na tela, por exemplo, afeta não somente aquele que vê sua face em destaque, mas outros participantes. Entra na disputa pela atenção. Tal dispositivo ressalta o interesse de Ahmed em provocar novas adaptações no corpo, que continuamente deve modificar a si mesmo para sobreviver. Trata-se, também, de explorar um ―presente dilatado‖, ou seja, de propor experiências para complexificar e reinventar a nossa percepção do tempoespaço, de mobilizar o vivo (Pardo, 2011, p. 462). Nos momentos que antecedem a finalização de SIM, duas bailarinas permanecem junto aos microfones falando sem parar. Em meio a outras sonoridades, projeção de imagens e movimentos que se misturam a ação das duas intérpretes, não é possível acompanhar nem identificar o teor dos seus discursos. Somente mais tarde, quando elas não estão mais na cena, as falas vêm à tona e revelam suas percepções individuais acerca do que se passara no palco até ali. São frases do tipo: ―Naquele momento eu caí com o rosto bem próximo ao pé daquele senhor. Eu fiquei constrangida, mas ele nem se moveu‖. ―Por que aqueles dois rapazes não foram para o outro lado junto com os outros? Por que eles não se mexem? Isso me irrita‖. Ao final de SIM, outros microfones são montados como oferta e convite para que o público fale sobre suas percepções. Os bailarinos se retiram do palco e os espectadores ficam sós com a opção de se expressar ou ir embora. Alguns falam. Outros saem. Outros ficam imóveis, um tanto estampa no rosto a pergunta de que se aquilo seria mesmo o término do ―espetáculo‖. 181 A natureza deste tipo de proposta é a de correr riscos, pois na medida em que envolve uma ação real que efetivamente dá vida ao seu objetivo e constitui o plano de ação, pode ou não ser eficaz. O trabalho do Cena 11 é instigante: Por que analisar e convocar o outro à análise? Que tipo de eficácia busca o grupo? O que deseja modificar e sensibilizar? Penso que a decisão de trocar e interrogar da companhia destaca seu incansável questionamento acerca da própria atividade, juntamente com a opção de apreender novos saberes e sentidos para seus movimentos. SIM é um modo de afetar e ser afetado num palco de puro contágio. Como isso é possível? Voltamos, novamente, a uma dança constituída como processo e experiência, pois seu formato só existe no embate entre bailarinos e espectadores. A capacidade de afecção de uma pessoa é sempre única. A teatralidade emerge como possibilidade efetivada num encontro, neste entre, acontecimento que jamais será o mesmo para todos. A inter-relação é o procedimento utilizado em SIM para alcançar a diferença, algo inesperado. Uma dança que é crítica, pois opera na perspectiva de surgimento do novo. Com este agenciamento coletivo, o Cena 11 desvia-se do modelo que separa palco-plateia para dar acesso ao indefinido. A relação eleva-se como o mais importante da cena, como forma de compor intensidades e potencializar um espaço para realização de acontecimentos. Uma dança-experimentação que busca o informe e renuncia uma finalidade e uma significação a priori. Uma dança-mergulho no caos. 182 SIM - ações integradas de consentimento para ocupação e resistência (2011), Grupo Cena 11. Fotos: Cristiano Prim. Fonte: Arquivo pessoal de Cristiano Prim. 183 SIM - ações integradas de consentimento para ocupação e resistência (2011), Grupo Cena 11. Fotos: Cristiano Prim. Fonte: Arquivo pessoal de Cristiano Prim. 184 4.5 O Corpo é a Mídia da Dança? Outras Partes - Vanilto Lakka98 Pois a incerteza pessoal não é uma dúvida exterior ao que se passa, mas uma estrutura objetiva do próprio acontecimento, na medida em que sempre vai nos dois sentidos ao mesmo tempo e que esquarteja o sujeito segundo esta dupla direção. O paradoxo é, em primeiro lugar, o que destrói o bom senso como sentido único, mas, em seguida, o que destrói o senso comum como designação de identidades fixas.99 Gilles Deleuze O corpo é a mídia da dança? (2006) é um processo de pesquisa coreográfica no formato solo - criação e execução de Vanilto Lakka, iniciado em 2005 dentro do programa Território Minas do Fórum Internacional de Dança (FID). A ideia do trabalho, porém, nasceu em 2002, quando o coreógrafo frequentava a graduação em Ciências Sociais na Universidade Federal de Uberlândia (formou-se em 2004). Naquele momento, Lakka tentava encontrar uma maneira de juntar as ciências sociais com a dança e se deparou com o livro Cibercultura (Editora 34, 1999) de Pierre Lévy (1956). Estimulado pela discussão do filósofo francês sobre diferentes mídias, suas características e modos de relação sensorial, Lakka criou e testou uma série de experimentos práticos, os quais resultaram na primeira versão da composição O corpo é a mídia da dança?. Mais tarde, contemplado para receber apoio financeiro do programa Rumos Itaú Cultural Dança - edição 2006-2007, Lakka deu continuidade à investigação agrupando outros bailarinos e associando Outras partes ao título original. 98 Criador-intérprete residente em Uberlândia, Minas Gerais. Mestre em Artes e Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia. Iniciou seus estudos em dança no ano de 1991 por meio do movimento de dança de rua na cidade de Uberlândia. Atualmente mantém carreira solo e desenvolve trabalhos em colaboração com outros artistas. 99 Gilles Deleuze, op. cit., 2009a, p.3. 185 O projeto O corpo é a mídia da dança? Outras partes tem como foco a criação, análise e composição de movimentos em diferentes mídias e se estrutura numa investigação que transita por site, telefone, gibi interativo e espaço cênico.100 Seu propósito é discutir as possibilidades de construção da dança, questionando sua existência em diversos corpos, suportes e mídias. O espetáculo estreou em 2007, tem duração aproximada de 1 hora e se estrutura com pequenas coreografias de autoria do próprio Lakka, o qual dança na companhia de Chiquinho da Costa e Rafael Guarato. Numa configuração de arena, o público é disposto ao redor do evento cênico, bastante próximo aos artistas. O espetáculo se compõe na colaboração destes atores e se estrutura numa experiência ―real‖ de dança. Quando o público entra na sala encontra os três dançarinos em movimento, numa espécie de treino, o qual já explicita procedimentos de constituição da dança. A realização dos artistas não é mecânica tampouco ignoram a entrada dos espectadores, mas por vezes param, olham e cumprimentam os que chegam. Uma conexão com a experiência humana é produzida de imediato. Insinua-se que não pretendem falar de uma experiência (do corpo que vivencia a dança), mas fazer e compartilhar uma experiência. Talvez aqui já se possa supor uma crítica ao bailarino como figura inacessível e perfeita. Ao invés, o bailarino se mostra em cena como indivíduo social e político. Os dançarinos conversam entre si e decidem ―vamos lá!‖. Lakka chama o técnico de som na cabine pelo nome e solicita ―solta a música!‖. Os três executam uma coreografia moldada num pensamento contemporâneo e na dança de rua, e que exige grande habilidade, virtuosismo, agilidade e força física. Quando música e dança terminam, o público aplaude e os artistas seguem caminhando pelo espaço. Suando e bastante ofegantes alcançam suas toalhas, se enxugam e tomam água. A dinâmica do real volta a aparecer: o cansaço do corpo que dança é exposto. O corpo se entrega a fragilidade e se afirma como pessoa, se apresenta ―sem a proteção do papel, sem o fortalecimento por meio da serenidade idealizante do ideal‖ (Lehmann, 2007, p. 346). Vestir-se e despir-se também faz parte da cena, contribuindo para provocar os olhares que avaliam. 100 Site: http://www.lakka.com.br/midiadadanca. Telefone: (34) 3212-7073. 186 Se teatro e dança, cada qual ao seu modo, historicamente buscaram figurar a realidade, fabricar ilusão e momentos mágicos voltados a um público supostamente passional, hoje há um empenho para ultrapassar o mote do prazer e suscitar a reflexão do espectador. Não há mais uma preocupação de esconder o como se faz da cena para produzir um efeito surpresa: cenário e figurino são trocados na frente do público, o artista cessa a atuação para saciar sua sede ou fazer um comentário qualquer fora do contexto, o dançarino pára a música, assume um erro e recomeça a dançar. Há uma denúncia da composição cênica (assinalada no contraponto que expõe o verdadeiro e a ilusão) que produz uma condição complexa de recepção e que ―obriga o espectador a tomar consciência do duplo estatuto das mensagens que recebe e, portanto, a remeter à denegação tudo o que pertence ao conjunto do espaço cênico, uma vez isolada a zona onde se dá a reviravolta operada pela teatralidade‖ (Ubersfeld, 2005, p. 25). No decorrer da apresentação os dançarinos conversam muitas vezes com os espectadores: pedem que liguem e desliguem o aparelho para soltar e pausar o som, dão instruções para a manipulação de um carrinho bate e volta, solicitam escolher a realização da dança com ou sem música, apenas para citar alguns exemplos. Há variadas ofertas para a intervenção do público. Num certo momento distribuem bilhetes onde se lê ―Nós vamos dançar. Quando quiser você pode dizer pára ou continua‖. A troca direta não se limita ao modo verbal. Os artistas dançam numa teia fabricada com a ajuda da plateia que segura o barbante. A seguir, o próprio público é convidado a ―brincar‖ de acordo com as regras ditadas por Lakka: ―o corpo deve passar por cima ou por baixo do fio, mas não pode tocar no barbante‖. Como muitos se levantam e aderem a proposta, outras se impõem: ―não pode pisar na cabeça do amigo!‖, adverte sorrindo o coreógrafo. O dispositivo do barbante é utilizado para criar uma nova ambientação e propiciar a interação com o público, que é convidado a jogar. A partir de tarefas simples como saltar, abaixar, levantar, rolar, arrastar e deslizar, a dança se faz acontecimento no corpo do participante. O não-dançarino dança. Lakka se diz atraído pela possibilidade de compartilhar com o público uma ideia diferente de dança, afetá-lo de modo a colocá-lo literalmente em movimento. Deseja dar-lhe um imprevisto, exemplifica: ―o cara fez um artifício que me colocou em movimento e eu 187 estou dançando!‖ (Lakka, 2012). Aqui, um corpo não treinado também pode ser mídia da dança. O caráter imediatista e interativo que define a atualidade se evidencia na composição de Lakka, que adota a estratégia de falar em primeira pessoa e se afirmar como indivíduo num ambiente íntimo e contraditório, mas real, para se dirigir ao outro, próximo e também real, fisicamente presente, com a intenção de se comunicar com clareza. A sucessão de eventos no espetáculo promove a inscrição do real no corpo de quem faz e de quem vê, como se gritasse ―você está vivo‖. Há uma conexão com o real do espectador. A cena é construída com (e não somente para) o público, ou seja, o espetáculo se ergue com a sua atividade, a partir do seu comportamento. A obra se estrutura como afirmação de um presente, de um corpo e de um espaço, do real aqui e agora. Enquanto presente, a dança-pensamento de Lakka guarda uma tensão constante entre indivíduo e sociedade, entre unidade e coletivo, entre corpo e ambiente. É processo, segundo Lakka: algo em constante atualização. O coreógrafo não vê a necessidade de dançar um trabalho sempre com a mesma exatidão, por isso, permanece atento as necessidades ditadas por cada realidade e busca a adaptação. Para exemplificar, ele fala sobre um projeto em execução, que consiste em apresentar O corpo é a mídia da dança? Outras partes num circuito em bailes de dança de salão, na cidade de Uberlândia. Lakka considera que os bailes constituem uma prática importante de aprendizado, equivalente a uma ―aula de conversação‖. Explica: ―Como num curso de idioma, o cara fica ali pegando contato com o código e depois ele tem um evento em que ele vai conversar. Eu sempre achei muito interessante essa estratégia deles enquanto algo que socializa e coloca em prática códigos de dança‖ (2012). Mas o fato que aqui interessa é: [...] ontem a gente ficou muito receoso, porque como é que você vai fazer uma coisa que tem o barbante se todas as mulheres estão de salto e saia, sabe? É uma situação difícil, porque está todo mundo ali com o corpo vertical, ninguém está a fim de ficar na horizontal, entendeu? Eu não tinha pensado nisso, mas na hora que a gente viu, a gente ficou pensando, pensando, pensando em como podia fazer. Por fim a gente não fez o barbante, a gente não conseguiu ir até o barbante. Mesmo o carrinho, num espaço restrito com um monte de mesa. Também a gente ficou um pouco receoso na hora de fazer, mas a gente arriscou. Então não tem essa necessidade de fazer o trabalho inteiro, tem uma maleabilidade. Acho que essa ideia de 188 processo passa um pouco por isso, um trabalho que está maleável, sabe? (Lakka, 2012). O corpo é a mídia da dança? Outras partes expõe seu próprio modo de construção cênica para o público, que tem a oportunidade de visualizar um método singular de produção da dança. A movimentação enérgica de Lakka, Chiquinho e Rafael impressiona, assim como o jeito simples e eficaz pelo qual interpelam os espectadores, costurando as cenas com habilidade. Tudo é realizado de maneira ―espontânea‖: executar um salto mortal parece tão ―natural‖ quanto falar. Ainda que reconheçamos corpos treinados e especializados, eles se mostram despojados de artifícios, não ostentam glamour, se vestem com roupas do dia-a-dia, dançando de tênis ou descalços. Sem poses de bailarino, se aproximam dos homens comuns e se afastam da simulação. A dança se faz com ―testemunhos‖ individuais, onde corpos expostos se tornam passíveis de ameaças física, psicológica e social (Schechner, 2000, p. 250). Dois bonequinhos em cena e um carrinho – corpos em miniaturas, também respondem aos comandos e ―dançam‖. A pergunta levantada no título da obra ―o corpo é a mídia da dança?‖ pode ser desviada para questionar que dança é possível em cada corpo. Os brinquedos revelam um modo de dança em que o corpo é objeto, é instrumento previamente projetado para uma função executiva – ―dançar‖. Neste sentido, o dançar é mera repetição de passos e trajetos. Os funcionários da dança ou corpos organizados agem de modo previsível e uniforme. Os bonecos ressaltam o paradoxo que se formula num corpo reduzido a imagem: [...] um corpo que está aí, existe e persiste, mas não temos (ou pouco temos) contato com ele, não o sentimos. [...] um corpo que é não-corpo, posto que está ausente de si mesmo, e uma imagem que não é imagem, posto que é presença de uma presença (e não a presença de uma ausência). Resulta aí um xis (chi em grego, letra que dá origem à palavra ―quiasma‖): o corpo imagem em conflito com a imagem-corpo. (Baitello, 2008, p. 110). Reformula-se a questão: Como um corpo se faz mídia para uma dança contemporânea? Baitello sugere que tomar consciência da ―perda‖ de um corpo e de sua presença pode ser o ponto de partida para se aprender a ―pensar com o corpo‖ (2008, p. 111). Tanto mais vivo, um corpo se afasta de se fazer como produto pronto para ser consumido. Cada corpo tem uma dança que lhe é própria. 189 O pensamento compositivo de Lakka também ressoa na sua produção teórica. O coreógrafo concluiu recentemente um Mestrado em Artes 101, com uma dissertação que se propõe a refletir sobre o complexo arte-cidade-corpo-dança na atualidade. Nesta, ele constata o uso da cidade como passagem (cenário), e não como espaço a ser experimentado. O autor reconhece um contexto em que há um empobrecimento da experiência sensório-motora e, simultaneamente, a predominância a uma dependência visual. Lakka observa que: A formação em dança reflete, em grande medida, a organização da sociedade e seus preceitos de aproximação entre corpo e espaço; dessa forma é compreensível que os currículos de dança situem a maioria de suas atividades em espaços de sala que guardam como característica a inexistência de obstáculos, a simetria de paredes e ângulos, assim como um chão com textura única e preferencialmente que possa absorver o impacto, sobretudo os das articulações, como joelhos e tornozelos. (Freitas, 2011, p. 3). O autor discute manifestações urbanas como B.boying e Le Parkour102, cujos praticantes propõem usos não-convencionais da arquitetura urbana, ou seja, práticas em que ocorre grande contaminação entre corpo e cidade. Nota ainda importantes diferenças no processo de transmissão destas técnicas corporais, como a não-linearidade na propagação do conhecimento, a não hierarquização dos sujeitos envolvidos no processo e o uso permanente da improvisação. Por fim, Lakka serve-se de sua experiência prática como professor, intérprete e criador para formular uma proposta de ensino aprendizagem que considere o ambiente urbano como espaço formador. Neste sentido, leva em conta a formação de um corpo para dança em conexão direta com o ambiente da rua, deslocando-o de um espaço seguro (sala de aula) para um espaço de risco (arquitetura da cidade). Cruzando a referência cênica com a teórica propostas por Lakka, evidenciase a importância de averiguar possibilidades variadas de interação: entre artista e público, entre corpo e cidade. Ele afirma ser curioso a respeito de uma 101 Universidade Federal de Uberlância, 2011. Dissertação intitulada Para uma cidade habitar um corpo: proposições de uso do espaço urbano e seus acréscimos na formação do artista cênico. 102 B.boying é uma das danças que pertence a cultura Hip Hop, surgida no final da década de 1960 na periferia de Nova Iorque (EUA). O Le Parkour surge na década de 1980, ao sul de Paris, na França. Foi fundado por David Belle e Sebastian Focan, inspirados no treinamento militar de soldados franceses denominado Parcours du Combattant, que consiste na ultrapassagem de obstáculos (Freitas, 2011). 190 [...] pessoa que está em cena e que tem experiência da cidade, dessa pele que está da cidade. De como é que vai vivenciar essa textura diferente de um piso liso. Como é que esse cara que sempre teve um treinamento, a vida inteira, num chão liso, e que tem que dançar num chão áspero, como é que ele vai modelar essa informação corporal que ele teve durante muito tempo, e o que que ele pode utilizar disso praquele espaço, que em alguma medida nega aquela informação original que está no corpo dele. (Lakka, 2012). O espetáculo O corpo é a mídia da dança? Outras partes termina após um intervalo de escuridão, quando aparece um pequeno aquário no centro da sala com um peixe alaranjado nadando. A presença do animal se iguala a dos dançarinos e também aponta para o real, dado que ele não ―representa‖ em cena, mas somente ―é‖ um peixe. No fim das contas, a ficção potencializa o real: um peixe que nada passa a ser olhado como um corpo que dança. Na dança do real de Lakka, a teatralidade emerge numa sucessão de acontecimentos, os quais ocorrem numa cena-campo de pesquisa e por meio de um processo colaborativo sensível entre bailarinos, espectadores, brinquedos e um peixe. Nesta companhia não só o peixe está deslocado, já que as posições dos humanos são também transformadas no decorrer dinâmico da composição. É exatamente a interconexão entre os envolvidos que fornece um caminho para remover e produzir diferenças. Corporeidades diversas se atravessam, apagam limites e desviam normas estabelecidas de comportamento. Desapropriação conveniente à teatralidade como manifestação do acontecimento. 191 O corpo é a mídia da dança? Outras partes (2007), Vanilto Lakka. Fotos: Cristiano Prim. Fonte: Arquivo do Festival Múltipla Dança. 192 O corpo é a mídia da dança? Outras partes (2007), Vanilto Lakka. Fotos: Cristiano Prim. Fonte: Arquivo do Festival Múltipla Dança. 193 4.6 The Show Must Go On - Jérôme Bel103 Com efeito, conforme à natureza do acontecimento, é aí que aparece um resultado da ação completamente diferente da própria ação.104 Gilles Deleuze Possibilidades de conexão entre real e ficcional questionam modelos prontos de composição e viabilizam novos discursos no corpo e na cena da dança contemporânea. Em um texto105 sobre teatralidade na Alemanha, Helga Finter constata que a partir da década de 1990 o teatro ganhou um viés político ao suscitar ponderações sobre uma ―sociedade do espetáculo globalizada‖. Renunciando as convenções, abdica do emprego de atores profissionais para ―contaminar o teatro com uma hiper-realidade‖ e intervir no real. A dança também se serve de tais recursos para borrar as ligações entre arte e vida, como no espetáculo The show must go on106 (2001) de Jérôme Bel. O coreógrafo provoca e engana as expectativas do público. A frustração é intensificada para o espectador desinformado acerca do contexto (não convencional) da montagem e fechado para uma criação artística diferente. Enquanto uma parte da plateia permanece na esperança de ver o que não irá aparecer e imaginar o não realizável, a outra observa estupefata. Cabe dizer que sem uma rendição por parte de quem observa, a experiência intensa da dança não se cria e resta lugar para uma rasa apreciação. Logicamente, é mais fácil por parte do público em geral identificar uma obra da dança clássica de repertório, dado que segue sempre o mesmo padrão de composição de movimentos e atos; obedece a uma ordem determinada com início, meio e fim; tenta narrar uma história conhecida, etc. Há, neste caso, um 103 Jérôme Bel (1964) vive em Paris. Estudou no Centro National de Danse Contemporaine de Angers (1984/85). De 1985 a 1991 dançou na França e Itália. Em 92 trabalhou como assistente do coreógrafo Philippe Découflé. Dentre seus espetáculos estão Nom donné par l'auteur (1994), Jérôme Bel (1995), Shirtology (1997), The last performance (1998), Xavier Le Roy (1999), The show must go on (2001), The last performance (a lecture) (2004). Criou para o Balé da Ópera de Paris Véronique Doisneau (2004) e uma versão brasileira para a bailarina Isabel Torres do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Montou Pichet Klunchun and myself (2005) com o bailarino tailandês Pichet Klunchun. 104 Gilles Deleuze, op. cit., 2009a, p.225. 105 Helga Finter. A teatralidade e o teatro. Espetáculo do real ou realidade do espetáculo? Notas sobre a teatralidade e o teatro recente na Alemanha. Itaú Cultural, São Paulo. Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/proximoato/pdfs/teatro%20coletivo%20e%20teatro%20politico/helga_fi nter.pdf>. Acesso em: 29 jul. 2010. 106 Assisti este espetáculo no Teatro SESC São Paulo (SP), em novembro de 2002. 194 reconhecimento imediato da obra, normalmente sem abalo ou inquietação por parte de quem observa. Dewey distingue reconhecimento e percepção, a qual só existe quando ocorre uma interação contínua. Para ele: O reconhecimento é a percepção refreada antes de ter a possibilidade de se desenvolver livremente. No reconhecimento, existe o começo de um ato de percepção. Mas esse começo não é autorizado a servir ao desenvolvimento de uma percepção plena da coisa reconhecida. [...] recaímos em um esquema previamente formado. Um detalhe ou arranjo de detalhes serve de pista para a simples identificação. [...] A percepção substitui o mero reconhecimento. Há um ato de reconstrução, e a consciência tornase nova e viva. (2010, p. 134-135). Como não é possível rotular e etiquetar uma dança contemporânea, ou seja, um modo constituído na impermanência e instabilidade, a ação de perceber está implicada na teatralidade como dispositivo de co-criação da obra. Implica movimento. Deslocamento para fora de si mesmo e ampliação do próprio corpomundo. Assim, o fazer uma experiência não surge como algo espontâneo, mas parte de uma atitude atenta, aberta e disponível que deve ser cultivada. Sem tal postura não há ―obra‖, edificação, construção... Não há emergência de teatralidade. Em The show must go on cerca de 20 pessoas comuns vestidas de modo ordinário fazem coisas normais ao som de músicas muito populares, numa representação irônica da própria sociedade. Um DJ107 situado na frente do palco seleciona numa pilha de CDs os hits musicais das últimas décadas, os quais servirão para ativar a sucessão de cenas, quer dizer, músicas-clichês orientarão sequências e significados ao longo da coreografia. Quando as luzes começam a acender, os artistas sobem ao palco e dançam com a ordem Let´s Dance de David Bowie. Mais tarde, alguns espectadores se arriscam e acompanham a famosa e repetitiva dança da Macarena108. O humor desconcertante de Bel se ergue em cenas como o solo de um DJ gordo ao som de Private Dancer (de Tina Turner) e os duos que se limitam a reproduzir a marcante pose de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet na proa do navio em Titanic, ao som de My heart will go on (com Celine Dion), música-tema do filme. O espetáculo encerra com a canção The show must go on deixando no ar as questões da banda Queen: para quê estamos vivendo? O quê 107 Disk Jockey. Tradução: "condutor de disco". Canção espanhola de Los del Río que fez muito sucesso no Brasil nos anos de 1990. Contudo, foi o êxito da dança coreografada que fez com que a mesma se difundisse pelo mundo. 108 195 estamos procurando? Interrogações que possivelmente se juntam a outras da plateia: Para quê um espetáculo como este? O que pretende comunicar? Isto é dança afinal? Não há nada de fácil em lidar com a potência cultural dessas presenças, verdadeiras fantasmagorias assombrando noções clássicas ou tradicionais de arte, comunicação, dramaturgia, corpo e cena. (Fabião, 2008, p. 237). Bel mostra um processo de criação vizinho à narrativa do real, com a pretensão de estimular o pensamento e as emoções do público. Próximo a um modo de arte discriminado como conceitual e experimental, The show must go on circulou em importantes festivais pelo mundo e alcançou boa inserção no mercado internacional da dança contemporânea. Nada impede, no entanto, que se questione seu status de espetáculo. Alguns denominam as obras de Bel como ―impertinentes sabotagens‖ ou ainda, designam The show must go on como apenas uma ―ocorrência coreográfica‖.109 A construção de Bel tem cunho grotesco, ou seja, desorganizador e desestabilizador, problematizando o preceito do belo na arte (Caballero, 2007, p. 57). Ao tentar unir dança e vida Bel adere à causa de Duchamp110 e é acusado de destruir ou ―sabotar‖ a dança. Bel conecta-se aos princípios da nova dança pósmoderna americana: a exigência de tornar os corpos reais despojando-os de quaisquer artifícios (técnica, vestuário, cenário, iluminação, etc.), o propósito de recusar o espetáculo, o virtuosismo, o uso de truques, o glamour, a afetação do artista, a sedução do espectador, enfim, a tentativa de ―alcançar o objeto verdadeiro‖, ou seja, ―o objeto real‖ (Gil, 2004, p. 151). Trata-se daquele tipo de artista que pretende alterar o curso da história, pois Intervém no curso do tempo, transformando o presente (realidade) por fazer desabrochar nele elementos imperceptíveis para a maior parte dos olhares. Melhor: a ação que a sua obra representa não só antecipa o futuro, mas transforma radicalmente o presente (e, portanto, o futuro). É uma espécie de ato performativo que o artista 109 The show must go on: uma Bel(a) provocação. Revista da dança, Lisboa. Disponível em: <http://www.revistadadanca.com/node/177>. Acesso em: 23 jul. 2010. 110 Marcel Duchamp (1887-1968) transportava elementos prontos com finalidade prática e não artística da vida cotidiana para o campo das artes. Os denominados ready mades criticam radicalmente a noção comum de obra de arte como manufatura, caracterizando-se como uma atitude que salienta a produção artística como conceito. 196 efetua. [...] Cria o presente, arruinando a realidade estabelecida. (Gil, 2004, p. 166-167). Podemos considerar Bel um complicador cultural ou educador da percepção, pois que ele ativa e destaca ―a latência paradoxal do vivo – o que não pára de nascer e não cessa de morrer, simultânea e integradamente‖ (Fabião, 2008, p. 237). Distanciando-se de uma mera citação de signos, o trabalho de Bel ganha evidência como singularidade de pensamento e comentário da própria arte da dança no contexto do mundo. Indicia o acontecimento. Em The show must go on o coreógrafo utiliza estímulos visuais e sonoros reconhecíveis ao público para produzir efeitos de reflexão. Constrói dança como antidança, transforma crítica em procedimento e operação de dança em ato de profanação. Neste caso, a teatralidade ocorre fundamentalmente como incentivo à discussão das próprias possibilidades da dança. Oferece-se como estímulo para repensar o automatismo com o qual vivemos. Talvez para confrontar comportamentos mecanizados, zombar das convenções sociais, ativar e desafiar o senso crítico. Para chamar a outros diálogos criativos. Para criar corpos desconfortáveis e insatisfeitos. Para testar o limite de nossa tolerância no confronto com algo diferente, novo e inesperado. Dança que apela ao público para sua própria fabricação. Teatralidade como falta. 197 The show must go on (2001), Jérôme Bel. Fotos: Mussacchio Laniello. Fonte: <http://www.jeromebel.fr>. Acesso em: 12 set. 2011. 198 4.7 Retrato do Outro – Erika Rosendo111 Não perguntaremos, pois, qual é o sentido de acontecimento: o acontecimento é o próprio sentido.112 um Gilles Deleuze Erika Rosendo realizou, ao longo do ano de 2009, uma série de performances de dança num espaço público bastante movimentado da cidade onde habita: uma praça no centro de Joinville. Ao todo foram realizadas 15 interferências artísticas com duração de 1 hora cada, num local de intenso trânsito de pessoas com personalidades, aparências e objetivos muito diversos. Tais eventos foram agrupados num projeto concebido e dirigido por mim, nomeado Retrato do Outro, o qual foi pensado dentro da tendência da arte contemporânea de se voltar para o espaço da rua e da vida cotidiana. O ―outro‖, numa abordagem antropológica, se refere a uma construção identitária, ou seja, um processo pelo qual um grupo constitui valores, representações e sentidos próprios. Serve também para distinguir e indicar o diferente, o que não é o mesmo. A proposta do trabalho Retrato do Outro consistiu na produção de imagens e ideias a partir da percepção do outro, e utilizou a improvisação em dança para configurar o ato cênico. A improvisação teve papel importante no projeto, elaborado como experimento para provocar diferentes modos de pensar, fazer e ver dança. Por outro lado, a disposição em atuar num espaço público, quer dizer, num local não convencional para exibição da dança, revela um interesse em extrapolar os limites dos espaços fechados para propor uma arte aberta e viva. Nesta perspectiva, o espectador deixa de ser observador distanciado e torna-se parte integrante do trabalho. 111 Natural de Natal. Formada em dança contemporânea pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (Joinville, 2007), em coreografia pelo Projeto Arte Ação (Natal, 2006) e em balé clássico pela Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão (Natal, 2000). Atua como professora e coreógrafa na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. Integra o elenco da AMA Cia. de Dança e desenvolve uma carreira solo como intérprete-criadora. 112 Gilles Deleuze, op. cit., 2009a, p. 23. 199 No momento inicial, a conduta de Rosendo consistia em caminhar pela praça, procurando perceber tudo aquilo que ali se manifestava enquanto outro. A composição da dança ocorria no trânsito das múltiplas informações reconhecidas. A ideia era a de que tudo o que tem existência material e sensível concorre para a dança. Uma movimentação refinada e diferente da habitual se desenhava no corpo da intérprete. O assunto imediato de sua dança é o corpo. Os estudos do corpo não cessam de problematizar as relações que ocorrem entre corpo e ambiente. Como o corpo conhece? Como a bailarina percebe e reconhece o ambiente? Como o outro se conecta ao seu próprio corpo? Como se articula com sua memória, imaginação, consciência, desejo? Em que medida tais trocas modificam seus estados corporais? Como o corpo funciona no ato perceptivo? Considerando que o corpo anatômico e o corpo que atua no mundo são indissociáveis, entende-se a dramaturgia do corpo que dança como [...] uma espécie de nexo de sentido que ata ou dá coerência ao fluxo incessante de informações entre o corpo e o ambiente; o modo como ela se organiza em tempo e espaço é também o modo como as imagens do corpo se constroem no trânsito entre o dentro (imagens que não se vê, imagens-pensamentos) e o fora (imagens implementadas em ações) do corpo organizando-se como processos latentes de comunicação. (Greiner, 2008, p. 73). A percepção está ligada a mobilidade. Qualquer abalo sofrido pelo corpo ―é função da intenção, do desejo, que fazem o sujeito voltar-se para o mundo. Um componente afetivo filtra sem cessar o exercício da percepção. É esse componente que colore e interpreta o trabalho da sensação para organizá-la em uma paisagem de emoções‖ (Suquet, 2008, p. 514). O sensível e o imaginário dialogam no corpo humano ―com infinito refinamento, suscitando interpretações, ficções perceptivas que dão origem a outros tantos corpos poéticos‖. O movimento seria um continuum, e tanto ―a mobilidade íntima do corpo como também sua projeção no espaço respondem a um princípio de propagação, de contágio reativo. Não existe imobilidade, somente gradações da energia, às vezes infinitesimais‖ (Suquet, 2008, p. 516-520). Na dança de Rosendo o corpo se expõe como realidade autônoma e ganha destaque em sua substância física e gestualidade, quer dizer, o corpo não se apresenta como portador de significados e explicações, mas como tema absoluto da 200 dança. O sentido é a própria ação de dançar, de realizar uma combinação específica de movimentos segundo uma lógica própria. O arranjo compositivo expõe uma corporeidade intensiva que ―não ―narra‖ mediante gestos esta ou aquela emoção, mas se manifesta com sua presença como um lugar em que se inscreve a história coletiva‖ (Lehmann, 2007, p. 160). Quando a dança reivindica existência a partir de sua materialidade e indica que o movimento é expressivo em si mesmo, a questão do corpo dançante não é abordada no sentido de uma produção significante, mas no da realização (Febvre, 1995). Assim, a pergunta sobre como o corpo pode exprimir ou significar, é descartada. O que pode um corpo? Tal é a questão que (re)aparece. Como a dança de Rosendo foi recebida pelas pessoas que transitavam na praça? Quais as implicações de dançar num espaço não institucionalizado, de livre passagem coletiva? Usualmente um espetáculo de dança é concebido para se apresentar num teatro, ou seja, um edifício que abriga dois pólos distintos: o palco para os artistas e a plateia com poltronas para o público. Há uma separação clara entre quem se exibe e quem observa ou contempla. Trata-se de um esquema clássico de apresentação cênica. No entanto, dentre tantas fronteiras já derrubadas, a área da dança não cansa de buscar e testar alternativas para borrar limites. Um de seus projetos experimentais implica na mistura artista-espectador, colocando-os no mesmo espaço físico da cena. Tal estratégia permite destruir ou modificar a polaridade destes corpos, outorgando-lhes novas funções e possibilidades cognitivas. Considerando o processo ininterrupto de troca entre corpo e ambiente, onde um modifica continuamente o outro, interessa descobrir as consequências geradas por esta proximidade material, bem como, verificar que tipo de osmose se torna possível. Dançar numa praça seria apenas uma entre tantas modalidades para criar um tipo inusitado de relação entre artista e público. Um ponto do centro da cidade não é um espaço cênico nem tampouco apenas um lugar. Ele discursa sobre uma experiência, uma situação urbana que incorpora o pessoal e o coletivo. Aqui, novamente, os espectadores são convertidos em participantes. O projeto de composição para a dança de Rosendo aproxima-se de um performar e distancia-se de uma concepção espetacular, ou seja, uma produção fantasiosa com cenários e figurinos elaborados, valorizada com recursos de 201 iluminação, sonorização e vídeo, dentre outras opções criativas. A mostração de Rosendo não contém artificialismos e a pretensão de se impor como espetáculo: o figurino é a roupa do dia-a-dia, ou seja, a artista veste-se de si mesma, a luz do sol dispensa holofotes, a arquitetura da rua, da praça, da cidade, formam o cenário, a plateia transita num ―teatro‖ a céu aberto e compõe a cena da dança. A ação de Rosendo tem o tom de convocação. As respostas e reações do público são díspares (confirmando a multiplicidade dos corpos humanos): alguns demonstram interesse, param para admirar, comentam, aplaudem, outros ignoram, estranham, demonstram desconforto, olham com espanto. Alguns até arriscam acompanhá-la com gestos ―de dança‖. No corpo da dançarina, sempre em movimento relativo a algo outro, [...] ocorre uma aventura política, a partilha do território. Uma nova organização do espaço e das tensões que o habitam vai interrogar os espaços e as tensões próprias do espectador. É a natureza desse ―transporte‖ que organiza a percepção do espectador. É, então, impossível falar da dança ou do movimento do outro sem lembrar que falamos de uma percepção particular, e que a significação do movimento ocorre tanto no corpo do dançarino, como no corpo do espectador. Assim, a rede complexa de heranças, aprendizagens e reflexos que determina a especificidade do movimento de cada indivíduo determina também o modo de perceber o movimento dos outros. (Godard, 2001, p. 25). As formas de relação e diálogo entre Rosendo e ―os outros‖ foram múltiplas. Enquanto proposta de contemporaneidade instiga questionamentos acerca da vida, do mundo, da arte. Tais performances colaboram para contestar a compreensão da dança como um modo artístico estanque, fechado, universal e imutável. Por outro lado, incitam a entender dança enquanto realização cênica que recusa a submissão de regras e hierarquias, a obrigação da harmonia e da perfeição. Numa das performances, eu acompanhava a distância os ―passeios dançantes‖ de Rosendo pela praça. Vendo que eu prestava atenção, um homem se aproximou de mim e começou a tecer comentários: ―Essa menina é louca, ela está drogada‖. Do seu ponto de vista, Rosendo não era uma dançarina, mas uma pessoa desequilibrada e perturbada, pois agia de forma incomum. O homem surpreso percebia um corpo em crise (não-saudável), não um corpo em arte. Para ele as ações de Rosendo não se assemelhavam aquilo que denominamos como dança e, definitivamente, aquele lugar não era um espaço da dança. Diante do 202 estranhamento, o espectador optou por virar de costas e ignorar a dançarina. Fechar-se. De modo contrário, abrir o corpo é uma escolha para ―despertar nele todos os seus poderes de hiperpercepção, e transformá-lo em máquina de pensar‖, ou seja, reativar ―o que todos os regimes de poder do corpo procuram apagar, esforçando-se por produzir o corpo unitário, sensato‖ (Gil, 2004, p. 169). Apreender a contemporaneidade é buscar penetrar no espaço do risco. É válido para quem deseja viver o tempo do real, artista ou não. Não foram poucas as reações que me levaram a pensar sobre o papel ocupado por um dançarino no mundo atual. A aventura política de Rosendo comprovou que ao lado da admiração e do respeito conquistados, há desdém por sua profissão, acompanhada de uma forte ideia da dança como passatempo, coisa inútil e sem valor para o desenvolvimento humano. O individualismo impera nas ruas, onde muitos rostos ensimesmados e preocupados se cruzam, sem se perceber ou reconhecer. Talvez o maior desafio de Rosendo tenha sido o de estabelecer uma conexão intensa e real com o outro. Graças ao Festival de Dança, promovido anualmente desde 1983, Joinville é divulgada e conhecida como a ―cidade da dança‖. Certo dia durante a performance, um grito irrompeu da janela de um prédio em direção a Rosendo: ―O festival de dança já acabou!‖. A artista, sem interromper sua movimentação, retrucou com ironia: ―Mas isto aqui não é a cidade da dança?‖ Ora, se Joinville é de fato a ―cidade da dança‖, a dança não deveria estar lá o tempo todo? Sempre presente? A ocorrência serve para revelar uma contraposição entre a ilusão criada por um slogan midiático, e a realidade de inclusão bastante parcial da dança no cotidiano da cidade. Mas o ponto que aqui interessa é: quando a arte se oferece de modo tão explícito e direto, numa proposta de intensa troca com o público, a previsibilidade de ações e reações praticamente se extingue. Tal estratégia equivale a um ato de exposição desafiador e por vezes perigoso para o artista. Por outro lado, o risco arrasta potencialidades artísticas e descobertas inéditas, tão valiosas aos criadores. Além das pessoas, a arquitetura do espaço aparece como elemento importante para constituir dança no projeto Retrato do Outro. Prédios, bancos, construções, edifícios, lixeiras, enfim, qualquer construção e objeto outro, merece ser percebido e utilizado na ação criativa. Em grande medida, a dinâmica da 203 movimentação ocorre em função do espaço. Ele também fala. É co-participante. Partes do mundo dialogam com a trajetória da bailarina. Seu caminho ocupa e enfatiza o espaço real da dança, ―ressaltado em sua constituição sensorial‖. Sua operação reconduz o espaço particular ―a si como ser-assim e ser-aqui, como perceptibilidade intensificada‖ (Lehmann, 2007, p. 269). Rosendo, a bailarina, ―evolui num espaço próprio, [...] cria o espaço com o seu movimento‖ (Gil, 2004, p. 47). O espaço do seu corpo imbrica-se no espaço objetivo, forja seu próprio espaço. O corpo tem de se abrir ao espaço, tem de se tornar de certo modo espaço; e o espaço exterior tem de adquirir uma textura semelhante à do corpo a fim de que os gestos fluam tão facilmente como o movimento se propaga através dos músculos. O espaço do corpo, como espaço exterior, satisfaz esta exigência. O corpo move-se nele sem enfrentar os obstáculos do espaço objetivo estranho, com os seus objetos, a sua densidade, as suas orientações já fixadas, os seus pontos de referência próprios. No espaço do corpo, este cria os seus referentes aos quais as direções exteriores devem submeter-se. (Gil, 2004, p. 50). O tempo influi de diferentes modos. Considere simplesmente a ocasião na qual o outro se encontra (com pressa, por exemplo), a qual condiciona seu interesse de entrar ou não em relação com o que lhe é apresentado. Pense acerca das alterações climáticas neste contexto, definitivas para uma ação artística que ocorre a céu aberto. O tempo é exclusivo de cada pedestre em seu movimento. A dança, experiência não-cotidiana no espaço da praça, apresenta-se como tempo compartilhado e vivido. Dá-se um processo inestancável, sem começo, meio e fim, que modifica a paisagem circundante. Rosendo dança ―isolada‖ em seu papel de intérprete-criadora. Não existe música para acompanhar a dança. O barulho dos carros misturado as vozes dos transeuntes moldam a paisagem sonora do tempo-espaço. Não há qualquer artifício para sugerir uma atmosfera não-habitual ou ―teatral‖. Neste caso, a dança explicita ―o campo do real como permanentemente ―co-atuante‖, tomando-o de modo factual, e não apenas conceitual, como objeto não só da reflexão‖, mas da própria configuração performativa (Lehmann, 2007, p. 163-164). É nesta condição de aproximação entre dança e cotidiano, que a bailarina cria espaços fictícios. Trabalha corpo e dança como potências para produzir teatralidade e chamar a atenção do 204 outro para duas realidades em si mesmas: dança e vida. Quando a teatralidade é promovida via irrupção do real, o jogo poético entre dança e realidade parece vingar como provocação política e questionamento das normas de comportamento social. A dança de Rosendo colabora para ressaltar e redefinir o contexto da cidade e da arte, para provocar a sensibilidade do outro e desregular uma rotina pré-fixada. Sua presença tem um tom de interrogação: O que nos é permitido fazer no espaço público? A pergunta se desdobra em outras: Quais regras se impõem neste terreno? O local traria em si a tendência da dança para se impor ao espectador enquanto realidade ou ficção? Seria este limite um problema e um objeto de configuração da própria dança? O espaço urbano é comumente estabelecido como local de convivência social. De acordo com Certeau (1999), uma praça deixa de ser mero lugar (algo sem vida) para se transformar em espaço (lugar praticado) quando ocupada pelos pedestres e, assim, tornar-se espaço vivenciado, o qual reflete as relações entre homens e mundo. O autor observa que o espaço é qualificado pela atividade que permite: denomina espaço praticado um lugar apropriado pelo uso, por suas possibilidades de ação (Certeau, 1999). Se o espaço pode ser múltiplo em seus fazeres, assusta perceber como a correria do dia-a-dia, a indiferença e as difíceis condições de vida colaboram para afastar o homem das atividades culturais e sociais. Neste contexto, o projeto Retrato do outro aparece como tentativa de dirigir a criação artística às coisas do mundo, potencializando reflexões e uma tomada de consciência mais crítica. Aposta numa dança criadora de confronto e oferta de contato com o diferente, como possível alerta para o automatismo com o qual vivemos e nos relacionamos. Além disto, o projeto colabora para desestabilizar a definição da dança e colocar em questão o caráter das representações artísticas. Assim, interpela criticamente o mercado e o sistema de validação da dança. Incentiva a refletir sobre a evolução dos sentidos no contexto das artes cênicas. De fato, a relação proposta de troca extingue hierarquias, transforma e reorganiza os sentidos. Ao lado do olhar – que ocorre geralmente de forma focalizada – coloca-se, no mínimo com igual importância, o ouvir. Trata-se de ouvir não na forma como se faz com uma língua (e a compreende), mas na forma de um estar-no-meio-de-som-e-sonoridade. Um ouvir que atua diretamente sobre o corpo enquanto espaço de ressonância e sobre o sentir corporal direcionado para uma troca de energia entre 205 agentes da apresentação [...] e espectadores, bem como as ―atmosferas‖ [...] que existem num espaço e nas quais todos os participantes ―submergem‖. [...] com a criação de campos energéticos e de outros ―entre-espaços‖, o teatro formula um novo saber cultural [...]. É um saber performativo que não pode ser transmitido discursivamente através da língua, mas apenas experimentado no próprio corpo. Ou seja, é um saber que só pode ser obtido por caminhos que percorrem experiências profundamente desconcertantes e perturbadoras. (Fisher-Litchte, 2007, p. 139). Semiótica e fenomenologia, entre outros campos de estudo, nos lembram que a realidade é ―irreal‖, ou seja, é ideia, mediação, interpretação, ponto de vista. Tudo o que é, existe como possibilidade. A realidade é única e aquela que meu corpo pode perceber, é do jeito que é porque é para mim. O olho tem propriedades e modos de funcionar determinados pela anatomia. Como a natureza evolui em interface com a cultura, também a função do ver é um aprendizado, um canal de apreensão da vida que pede treino para construir seu saber. A recepção do mundo como imagem capta apenas pedaços, fragmentos, recortes. Retrata somente um instante, sempre fugidio. Ao recortar o momento, isola o detalhe. O retrato não copia, reinventa o real. Retrato do Outro é uma proposta de intervenção artística – ao mesmo tempo simples e complexa – que oferece dança como vida na sua realidade de percepção, afecção, ação e transformação. A teatralidade de uma dança que se faz num espaço da rua reitera de modo especial a condição do encontro para ganhar existência. Antes de tudo porque o artista na rua não tem um público assegurado, como é mais provável que o tenha numa sala de espetáculo, mas constrói um edifício com e para sua própria ação. E também porque deve fazer de sua dança, nas palavras do diretor e professor de teatro Amir Haddad, um ―substantivo‖ (algo que designa a substância ou o que há de essencial e importante) e não um ―adjetivo‖ (algo derivado e secundário). Seguindo a hipótese de Haddad, uma dança na rua se torna um substantivo quando as pessoas param para ver e se constitui como adjetivo quando elas não permanecem mais do que cinco minutos. Esclarece que segurar a plateia na praça depende de fatores como a qualidade do trabalho, a capacidade do artista em ―estar inteiro‖ e de estabelecer um contrato de interesses (Pardo, 2011, p. 190-191). Os pactos efetuados (ou não) colaboram para verificarmos o status da arte na sociedade, que não é (ou não deveria ser tomada como) uma realidade autônoma e separada das demais esferas do vivido. Por outro lado, ao considerarmos que a teatralidade diz 206 respeito ao homem em sua necessidade de diálogo e deslocamento de si, o artista pode encontrar na rua, no cotidiano, um espaço importante para escutar e olhar o diferente, alimentar seu poder de criar. Diante da riqueza e contradição de universos distintos presentes fora de uma sala de aula e ensaio, da mistura que se apresenta em identidades móveis e moventes nas cidades, a teatralidade se oferece como fonte de leitura, preparo e espera: motor de um encontro presente como porvir. 207 Retrato do outro (2009), Erika Rosendo. Fotos: Eneas Lopes. Fonte: Arquivo pessoal de Jussara Xavier. 208 Retrato do outro (2009), Erika Rosendo. Fotos: Eneas Lopes. Fonte: Arquivo pessoal de Jussara Xavier. 209 5 ENTRE TANTOS [...] a noção do presente tem vários sentidos: o presente desmesurado, desencaixado, como tempo da profundidade e da subversão; o presente variável e medido como tempo da efetuação; e talvez ainda um outro presente. Como aliás, haveria uma efetuação comensurável se um terceiro presente não o impedisse a cada instante de cair na subversão e de se confundir com ela? Sem dúvida, pareceria que o Aion não tem em absoluto presente, pois que o instante não cessa nele de dividir em futuro e passado. Mas não é senão uma aparência. [...] este presente do Aion, que representa o instante [...] é o presente sem espessura, o presente do ator, do dançarino ou do mímico, puro ―momento‖ perverso.113 Gilles Deleuze A teatralidade numa dança se efetua de muitos modos que ocorrem ao mesmo tempo e, portanto, cada participante pode captá-la em sua própria diferença. Investigar uma teatralidade é perseguir relações e não objetos em si mesmos. Agamben sugere que nosso saber condiciona uma zona de não-conhecimento e se mantém em relação com uma ignorância, nos termos do recalcamento ou do pressuposto. Este último modo, segundo Agamben, é mais eficaz e potente, pois o não-saber é o que o saber pressupõe como território inexplorado que se trata de conquistar. Não remete a uma exaltação a obscuridade, ao segredo, a fantasmagoria, a uma doutrina arcana ou a uma ciência mais alta. A esfera de não conhecimento arrasta um convite e, talvez, conclui Agamben, ela nem exista e existam ―apenas os seus gestos. Como Kleist114 tão bem compreendera, a relação com uma zona de não conhecimento é uma dança‖ (2010b, 131-133). Ciente desta limitação, o texto que segue permanece como um possível entre tantos outros. São quatro estados de exceção: SIM - Ações Integradas de Consentimento para Ocupação e Resistência, O Corpo é a Mídia da Dança? Outras Partes, The Show Must Go On e Retrato do Outro. Ou quatro modos de ser e estar que se desviam do comum e efetuam um acontecimento, pois são danças que propõem experimentos sem antecipação exata do que virá e abalam as atitudes de re113 Gilles Deleuze, op. cit., 2009a, p. 172-173. Heinrich von Kleist (Bernd Heinrich Wilhelm von Kleist, 1777-1811), poeta, romancista, dramaturgo e contista alemão. Nota da autora. 114 210 conhecimento. Sem rota certa, dançarinos e público-participante entram em devir: embarcam numa passagem desconhecida para o que será. A teatralidade acontece, então, nessa aventura arriscada de encontro: experiência que não podemos controlar mas que depende fundamentalmente de nosso desejo de se expor e, assim, criar. Tal experiência é de ordem poética e passa longe da vivência de um consumidor que procura uma solução definitiva para o que lhe falta. Lakka recorda uma conversa sobre O corpo é a mídia da dança? Outras partes num programa televisivo, em que o entrevistador lhe perguntou ―se o trabalho era muito experimental‖. Sua resposta foi positiva, esclarecendo que ―é um trabalho que depende muito dessa ideia de experimentação, mas ao mesmo tempo, é um trabalho profissional que já está bem estruturado‖. Pois o coreógrafo entende que a há uma ideia de experimento que remete à uma produção com aparência de ―tudo solto no ar‖. Ele alerta que ―existe uma tradição que está a fim de experimentar, que se interessa por experimentação [...]. É um universo experimental profissional, que já tem algumas certezas sobre o que fazer para ativar‖ novos modos de pensar a dança (Lakka, 2012). Costumeiramente, pessoas de uma plateia qualquer tecem comentários sobre um espetáculo que acabam de presenciar nestes termos: ―Seria melhor se o figurino fosse verde‖; ―A luz estava muito escura, podia ser mais clara e colorida‖; ―Adorei os movimentos, mas gostaria que a música fosse outra‖; ―Não entendi aquele solo, para quê aquilo?‖; ―Por que os bailarinos gritavam tanto? Que desnecessário!‖; ―Senti falta de movimentos com os quadris‖, etc. Frases deste tipo servem apenas para revelar o gosto de cada um. Ir a um espetáculo de dança não equivale a ir numa loja, provar, escolher um produto e ainda ter o direito de devolvê-lo depois. A experiência de uma dança contemporânea precisa, no mínimo, o cultivo da intuição para que se faça acontecer. O acontecimento traz algum tipo de deslocamento, uma outra sensação, talvez desencaixe o que está bem arrumado, dê um empurrão para um não-saber. A falta de ―domínio‖ ou ―segurança‖ na relação ofertada por teatralidades contemporâneas pode tanto transportar para algo novo, quanto terminar em frustração e inércia. De fato, ainda é comum uma reação negativa por parte do público que lamenta ―não entendi nada, devo ter algum problema‖. Dado a 211 averiguação da própria ―incompetência‖ analítica, a pessoa não volta mais ao teatro para ver algo do gênero. Se por um lado, apurar o limite do próprio saber é posicionar-se de modo sincero, por outro, deve-se considerar que a apreciação de uma obra de dança não se restringe a sua compreensão e ao seu conhecimento profundo. Ficar emocionado ou abalado, ser surpreendido por uma dança que consegue tornar audível e visível forças impossíveis de tais representações, é bastante conveniente. Ao que parece, uma dança como acontecimento solicita nossa capacidade de estar à escuta da vida e deixar-se arrastar para potências que estão além de nossa compreensão. A teatralidade gerada nos trabalhos citados do Cena 11, Lakka, Bel e Rosendo, diz respeito a contestação de identidades. Afinal, como é ser plateia? Como é ser bailarino? O que pode ser dança? Quais são seus atributos? Onde é possível construir dança? Que lugar é este? Quem é você? Quem sou eu? Existe alguma exclusividade que nos define? Existe algo que pode diferenciar dança de todo o resto? Desatualizados-deslocados do próprio presente, o público participante pode deixar-se guiar pelos acontecimentos, pelas relações de multiplicidade que se efetuam. E nesse movimento, a problematização sucede como um despertar do pensamento, recolhendo todo possível, convidando a pensar o impensado. Outras vidas saltam nestas composições. Vidas de todos e de ninguém. A teatralidade gestada no espetáculo SIM do Cena 11 ocorre num modo de ‗atropelamento‘, sem definição certa de qualquer começo ou fim. A dança é composta num misto de empurrão e confusão, na subversão de funções, no embaralhamento de códigos e na menção a possíveis correlações. A transformação é a todo momento forçada, a atmosfera produzida é de inversão e constante atrito. Um único acontecimento junta o rir e chorar, arrastar e voar, construir e destruir, dentro e fora, individual e coletivo, palco e plateia. A queda, historicamente marcada como um erro na execução de uma partitura de dança, é mostruário da virtude dos corpos que formam o Cena 11. Neste grupo, um acidente ou ruído no percurso é potência de ação, e não sinônimo de fracasso ou desastre. Envolto num misto de negação e permissão, SIM orienta e desorienta o público a ocupar e resistir. Quais os desdobramentos possíveis da apoderação de outros espaços e da instalação de novos modos de vida, distintos dos padrões vigentes? Como um teste peculiar acerca de regras de relacionamento, SIM pode ser tomado como uma ação direta de 212 dança que repercute em todos os seus integrantes e nas relações que estabelecem entre si, sinalizando a adoção de princípios e práticas alternativas de vida. Ao empoderar o público ocupante, o grupo convida-o a experimentar sua própria vontade de estar e existir, e força uma escolha firme entre a permanência e o movimento. A força do acontecimento no espetáculo O corpo é a mídia da dança? Outras partes e na performance Retrato do outro, está no modo de articular a banalidade do real e o extraordinário do espetáculo numa mesma zona de afetação. A virtuose do bailarino e a simplicidade do homem comum são levados ao extremo e concorrem simultaneamente nestas composições. Os artistas buscam criar uma empatia imediata com o público, convocando-os a dançar, fazendo-os compositores. A percepção e aceitação de algo em comum (a diferença) entre os mesmos, este algo que promove uma espécie de abertura do corpo e revela algo a mais, inscreve um fenômeno físico e quase instantâneo de amizade. O efeito que decorre da identificação do outro é de avivamento do corpo, tornado expresso de alegria e satisfação. A lógica da convivência se mantém presente ao longo de seus processos, que se desenrola com fluidez e procede no tom de uma conversação informal. Quem segue quem? Há um paradoxo estabelecido entre artista e público, simultaneamente guias e guiados, líderes e seguidores. Retrato do outro produz o próprio lugar que ocupa e se confunde com ele. É neste vínculo que anuncia sua incompletude, estende um vazio e reclama um espaço para a dança em si. O acontecimento é disposto no abandono de posições fixas e meios previsíveis (dançar num palco teatral com iluminação, a exemplo), ou seja, pressupõe um ato de despojamento. Retrato do outro é uma dança que continua. Você a viu começar? Está no fim? Não há orientação temporal linear. Afinal, um acontecimento mora no entre. Nas obras discutidas acima, a matéria envolve ações a cumprir, do artista com um outro. O tempo age e abre-se. Gera acontecimento. Nestas danças, o tempo incorporal - segundo a teoria dos estóicos, permite acolher tempos heterogêneos e simultâneos. Oferece permissão para o desenvolvimento (ou não) de ações. É um deslocamento em conjunto que faz a obra, a mobilidade é causa em 213 si. Pode ser lento ou rápido. Mexa-se! O espetáculo deve continuar. Estamos, afinal, tratando de danças que criticam um sistema padrão de dança. Em The show must go on, o acontecimento desfruta de uma ‗realidade-irreal‘ de maneira extremamente desconcertante. A incerteza pessoal diante daquilo que se vê e se passa na cena não é uma dúvida exterior, mas é a estrutura objetiva do próprio acontecimento, como afirma Deleuze, ―na medida em que vai nos dois sentidos ao mesmo tempo e que esquarteja o sujeito segundo esta dupla direção‖ (2009, p. 3). O paradoxo do fantástico-ordinário coreografado por Bel, está em destruir o bom senso como sentido exclusivo e o senso comum como determinação de identidades fixas. A teatralidade é invocada no desconforto. O ―show‖ é controlado pela música, fundamental no desenrolar de uma experiência conjunta entre artista e público. A obviedade da trilha e da dança, a sós e em relação, torna a composição duplamente clichê e, no limite, a composição é ao mesmo tempo enfadonha e engraçada. Como se sabe, o sarcasmo se faz na costura de uma verdade com uma mentira, e pode tanto magoar quanto divertir. Mas apesar do coreógrafo não desejar iludir ninguém, nem todos conseguem entender sua intenção. Bel é, sobretudo, um insurgente contra qualquer forma de autoritarismo na dança. Os corpos que dançam nestes contextos não se deixam definir por suas formas, seus órgãos, suas funções, mas sim e principalmente por seus modos, por seu poder de afetar e ser afetado. Ou seja, são determinados por sua capacidade de afetos. No entanto, quem sabe antecipadamente os afetos de que é capaz? Ninguém. Por isso, danças contemporâneas acontecem. São histórias de experimentação, de conexão de singularidades díspares, dos poderes de afetar e ser afetado, de composição das variações e transformações corporais próprias. Casos que se distanciam da invenção de figuras, poses e sequências gestuais, e tendem a capturar forças. Assim, corporeidade e teatralidade nos núcleos criativos estudados associam-se a formação de um campo de forças, penetrando nesta questão crucial: como relacionar potências, intensidades e fluxos? Olhamos um corpo e esse corpo nos olha. Vemos uma dança e ela mesma nos vê. Tudo se faz e se exprime nessa ligação e, exatamente por isso, permanece tão árduo dizer o que é um corpo e uma dança. Quando um bailarino do Cena 11 se 214 lança com grande impacto ao chão, será que aqueles que participam do espetáculo sofrem algum tipo de choque? Quando os artistas da companhia de Jérôme Bel dançam a ―Macarena‖, o que faz com que alguns da plateia subam ao palco para dançar? Como a energia de Lakka, Chiquinho da Costa e Rafael Guarato em cena contamina os corpos daqueles que formam o público? Que atitude se tem diante da dança entusiasmada de Erika Rosendo? Será que não estamos sempre, de algum modo, dançando e criando junto? Não se trata de realizar uma experiência similiar a do outro, mas de tomar parte em um modo de mistura, próprio ao acontecimento. Neste embate, que é físico, o corpo tem a possibilidade de ganhar outros devires. Tais confrontos revelam ainda, a impossibilidade de se criar um discurso homogêneo sobre o assunto, pois o modo de funcionamento de uma dança contemporânea é altamente singular. Neste sentido, uma dança contemporânea é sempre um espaço potencial para o surgimento da diferença. E a busca da teatralidade neste contexto diz respeito ao seu descobrimento e a sua descrição, quer dizer, torna-se um ato de invenção. Uma tentativa de tocar o outro que, simultaneamente, me toca. Um desafio permanece na função crítica da dança contemporânea: o da escrita como acontecimento (que transforme a quem escreve e quem a lê), ao invés da frequente organização de uma série de explicações causais, justificadas pela existência de significados prévios e fundadas nos livros soberanos de história da dança. A afirmação do acontecimento instala outra lógica de discurso, não somente no palco, mas também no papel. Convém lembrar que o acontecimento é um ―incorporal‖, quer dizer, sua materialidade está na realização do efeito (deriva da matéria, mas não é formado como ela). Efetuar uma narrativa da não-imposição de sentidos, mas de estímulo a problematização, seria como investir num regime de ―acontecimentalização‖ da dança. Foucault perseguiu tal forma de relação com a história, ele explica o termo: Eu experimento trabalhar no sentido de uma ‗acontecimentalização‘. Se o acontecimento foi, durante muito tempo, uma categoria pouco avaliada pelos historiadores, pergunto-me se, compreendida de uma certa maneira, a acontecimentalização não é um procedimento de análise útil. Que é preciso entender por isso? Primeiro, uma ruptura de evidência. Ali onde se tentaria referir-se a uma constante histórica ou a um ato antropológico imediato ou, ainda, a uma evidência impondo-se da mesma maneira a todos, trata-se de fazer surgir uma ‗singularidade‘. Mostrar que não era ―tão necessário assim‖; não era 215 tão evidente que os loucos fossem reconhecidos como doentes mentais; não era tão evidente que a única coisa a fazer com um delinquente fosse interná-lo; não era tão evidente que as causas da doença devessem ser buscadas no exame individual do corpo, etc. Ruptura das evidências, essas sobre as quais se apoiam nosso saber, nossos consentimentos, nossas práticas. Temos aqui a primeira função teórico-política do que chamaria de ―acontecimentalização‖. Além disso, a acontecimentalização consiste em reencontrar as conexões, os apoios, os bloqueios, os jogos de força, as estratégias, etc., que, em um momento dado, formaram o que, em seguida, funcionará como evidência, universalidade, necessidade. Ao tomar as coisas dessa maneira, procedemos a uma espécie de desmultiplicação causal. (Foucault apud Carmo, 2010, p. 90). Para ser contemporâneo é necessário desacostumar o olhar e desejar o acontecimento que, na superfície das coisas e apesar de mim, acontece. A vida. A ferida. A morte. Entre tantos efeitos de um dançar. 216 CONCLUSÕES TRANSITÓRIAS O devir-ilimitado torna-se o próprio acontecimento.115 Gilles Deleuze Compor uma tese é abrir-se ao acontecimento. Momento após momento, o resultado se mostra não como algo pronto, mas como um processo em desenvolvimento que nunca se esgotará. Assim como uma criança que cresce diariamente, sem nunca exaurir todas as possibilidades de ser. É sempre um presente em expansão, um corpo que se cria de modo permanente. Tenho dois filhos, e tal experiência é bastante útil para compreender o que significa dizer que o sentido de um acontecimento é o próprio acontecimento. Neste momento, entendo a contemporaneidade de uma dança quando essa me faz mergulhar com mais intensidade na vida. Uma dança que se queira acontecimento, inevitavelmente, almeja uma captação diversa do real, para gritá-lo ou perguntá-lo ou dizê-lo. Como todo pedaço de vida, é risco e transformação. Se o acontecimento está na esteira do imprevisível, tal dança deve aceitar, usar e ultrapassar todo erro aparente. A dimensão do acontecimento guarda uma abertura ao incerto e ao novo. Quando acontece, apenas é. Tem o direito de ser diferente. Ela (uma dança) é na medida do desejo e interesse investidos. Por que tanta dança em que nada acontece? Ao contrário, percebo as criações aqui estudadas como modos de dança fabricados num embate radical com a realidade, que questionam o poder e não deixam de examinar as próprias categorias do seu fazer. São produções que transbordam vida (por isso abraçam o feio, o bonito, o chato, o belo, o gozo, o inquieto, o vazio, a dor, etc.), estão investidas de anseios infinitos, lançam perguntas e findam por provocar outros pensamentos e olhares para o mundo. Afinal, todo acontecimento é liberação de potência. O que pode uma dança? Como emancipar o corpo? Como alcançar novas fronteiras (incluindo incompatibilidades) para gerar diferenciações no campo da 115 Gilles Deleuze, op. cit., 2009a, p. 9. 217 dança? Como favorecer a irrupção de princípios criativos impensados? Como propagar comportamentos críticos e criadores? Como captar e mostrar a força e o fluxo apesar de toda e qualquer forma? Como transpor os clichês? Como abrir o corpo a novas percepções, para que a dança não seja julgada ―por uma apreciação estetizante, mas à luz de sua potência de desterritorialização, de sua capacidade de traçar linhas de vida (como, com qual força, a obra carrega aquele que a produz e que a recebe?)‖? (Pelbart, 2011b, p. 41). Como primar pelo acontecimento? Tais questões concorrem apenas para provocar e projetar possíveis pesquisas, dado que norma ou lei alguma é suficiente para fabricar o vivo. Corporeidades ilimitadas. Múltiplas teatralidades. Conhecimentos indeterminados. O corpo como devir é matéria escancarada, que se deixa atravessar por todo tipo de intensidade. Faz-se e refaz-se a todo o momento: é manifesto de afetos e afetações. Dentre as possibilidades do corpo, há sempre uma capacidade latente de jogar com o visto, dialogar com o vivido, de ir ao encontro. A emergência da teatralidade aguarda por este sair de si mesmo. O problema, adverte Pelbart, é que temos ―dificuldade em acreditar no que nos acontece, pois já nada parece poder acontecer-nos‖ (2011b, p. 43). Ainda que tudo ecoe como coisa já vista, vivida, ouvida, pensada, lida, tentada e feita, cabe a percepção determinar o intolerável e, simultaneamente, o desejável. É uma escolha política, que pede pela recuperação de nossos modos de percepção, pelo desbloqueio de nossa capacidade de afeto e afetação (Pelbart, 2011b, p. 43-47). O contemporâneo faz uma dança que pensa continuamente a si mesma e trata de perseguir o que ainda não foi pensado. Uma dança insubmissa, de afrontamento contínuo. Seu processo inventivo implica o eterno movimento de descoberta e ultrapassagem de limites, num modo de tensão inesgotável. Neste território, não há um complexo certo e restrito de ideias e elementos fundamentais, mas há sobreposição de práticas e discursos diferentes e, sobretudo, o questionamento de cada constituição do saber e do fazer. Por isso, não há território fixo, mas um terreno que privilegia a aventura do conhecimento e a diferença como potencial instauradora de novas perspectivas. O território somente é válido em referência ao movimento que o lança para um outro lugar e o faz ir além. Neste sentido, o artista contemporâneo é um dissidente, indisciplinado por natureza, que materializa seus desejos num conjunto que pertence à dança contemporânea. Este 218 fazer junto simultaneamente (com outro, seja bailarino, público, etc.) é essencial, pois o acontecimento só acontece quando há uma diferença de potencial, na mistura. No contexto desta tese, considera-se que a composição de uma corporeidade não privilegia a conquista de um modelo, mas investe no processo, no entre, no encontro. Com este propósito o corpo se faz sempre provisório e relacional, e adota uma prática implicada num modo específico de compartilhar. Uma corporeidade contemporânea diz respeito a materialização de um corpo aberto ao experimento, portador de singularidade própria e desestabilizador do já conhecido. Como não existe programa nem conduta de treinamento considerado ideal, resta um modo de treinar que preserve a atitude de busca, uma prática que explore tanto o risco, quanto as possibilidades de inventar relações. Se já é sabido que todo treinamento impõe restrições, resta descobrir se e como o mesmo será favorável à transformação. Torna-se apenas indispensável povoar corpos de multiplicidade, torná-los espaços de afetos e conceder ao pensamento novos meios de expressão. Na esteira de uma dança-acontecimento há necessidade de um corpo se afastar de categorizações quaisquer, não se fechando em princípios e práticas genéricas e universais. A contemporaneidade de uma dança pode se encontrar em composições que se utilizem exclusivamente de corpos treinados permanentemente na metodologia do balé clássico ou em outras técnicas e métodos autorais mais ou menos estruturados, como as propostas de Martha Graham, Alejandro Ahmed e Steve Paxton, por exemplo. Independentemente da língua formal adotada, um aspecto é primordial: o tratamento dado à mesma quando em exercício criativo. Assim, a contemporaneidade não está, necessariamente, na negação de uma técnica ou de uma linguagem, mas sim, na criação de uma sintaxe singular. Um artista contemporâneo não pretende conservar uma gramática, mas frequentemente lhe concede um tratamento deformador, alterando signos e regras de combinação para criar uma língua estrangeira em seu próprio idioma. Em se tratando de formular uma fala de dança contemporânea, não há limites de linguagem nem do pensamento. A tarefa mais imediata e eficaz é a de resistir e permanecer num estado de invenção e variabilidade, contra a dominância de ideias, clichês e lugarescomuns. A tendência do contemporâneo é a de criticar e eliminar os universais. 219 Não se trata de uma reserva obsessiva pela inovação e pelo original. No que diz respeito aos estereótipos, talvez a sugestão de Bogart seja proveitosa: devemos considerá-los, assumí-los e transformá-los. Ao entender o estereótipo como um universo de memória, história e pressupostos, a diretora chama atenção à sua utilidade como ferramenta criativa: capaz de soltar a imaginação e provocar diferentes associações no diretor e no espectador (2011, p. 97-113). Nestes termos, forçar os limites dos estereótipos e dos clichês pode servir para desconstruir padrões, bem como, para estimular e testar desvios. Ao habitar a contemporaneidade, a dança não se coloca ponto final. Esta posição de abertura à diversidade precisa ser alcançada também pelo público. Pois, dado que os estereótipos funcionam como dispositivos de previsão e orientação, frequentemente a dança contemporânea é reduzida a imagens idealizadas, tais como: modo artístico ―radical‖, dança sem pé nem cabeça, totalmente maluca, onde qualquer coisa é possível, dança em que todo mundo fica parado ou pelado..., ou seja, a dança tem seu valor distorcido. Nesta situação de falsa sensação de compreensão, o estereótipo tem efeito negativo: torna-se opinião equivocada e obstáculo para interação. É possível estabelecer uma forma acabada para um homem? E para uma dança? De que tipo seriam? Resta descobrir como se desviar de modelos pré-fabricados e encontrar seus próprio meios para criar e alcançar o acontecimento. Talvez, a resposta comece num conhecimento de si, das próprias possibilidades e limitações, bem como, dos possíveis modos de superação. Buscar estímulos e impulsos. Sair do lugar. Do conforto para o risco. ―O corpo é a mídia da dança?‖, pergunta Lakka. ―Como superar o grande cansaço?‖, questiona Fukushima. O que você deseja descobrir? Pois ter uma pergunta já é dar um passo, e iniciar um percurso de conhecimento. Prossiga. ―Eu prometo, isto é político‖, declara Torres. Encontre motivos e obriguese, seja fiel, insista, comprometa-se consigo mesmo. ―SIM - ações integradas de consentimento para ocupação e resistência‖, o Cena 11 assume uma posição e encontra um modo afirmativo para ir adiante. Resistir é permanecer firme, não ceder ou, pelo menos, não sucumbir tão rapidamente. Prossiga e apodere-se de novos espaços. Uma dança contemporânea privilegia a multiplicidade, que é, em si mesma, uma forma de relação, um modo de coexistência de heterogêneos. Tal preferência 220 não serve, no entanto, para fixar uma qualidade genérica no campo estudado, mas para abordar a dança contemporânea como composição cujo modo é acontecimento. Trata-se de examinar como se privilegia a constituição de singularidades plurais ao invés de totalizações genéricas, em que danças são concretizadas e performadas por renovados dispositivos de conhecimento. Sendo que o acontecimento nunca é algo pré-determinado, mas gerado em ação, a teatralidade surge como possibilidade de criação de experiências e abertura de caminhos para a diferença. Para quem produz dança, para quem vê dança, para quem compartilha um espaço-tempo numa mesma zona de afetação. Tomada como um modo para olhar e conhecer uma dança (não se trata de decifrar e interpretar, mas de realizar uma experiência de sensação e percepção), a teatralidade torna-se ferramenta conveniente para verificar encontros e possíveis acontecimentos. Ecoa transformações capazes de modificar a configuração de saberes estabelecidos e comportamentos padronizados. Falar em teatralidade na dança, nos termos desta tese, é sublinhar a defesa da liberdade: liberdade de sentir, agir, dançar, ver e pensar por si mesmo. Ao mesmo tempo, é acentuar a força do existir: o poder de afetar e ser afetado. Neste viés, a experiência é sempre pessoal e ganha lugar sobre a compreensão. Pelo viés da teatralidade pode-se distinguir a contemporaneidade de uma dança. Posto que a teatralidade remete a uma atividade de olhar e de tradução (é sempre uma criação), é capaz de revelar suas possibilidades intensivas, suas forças atrativas e de contágio, seus traços desviantes, os movimentos micro e/ou macroscópicos que envolvem e transportam suas formas. Neste modo de exposição da existência, é possível encontrar o que há de contemporâneo numa dança: como uma construção artística do presente se faz explosão de vida e suspende o tempo cronológico (ganha um tempo próprio), se faz acontecimento? Podemos designar uma dança como contemporânea e, portanto, como acontecimento, quando a ação de percebê-la no presente constrói o tempo como unidade a partir de diferentes estratos. Tal ato é uma sintetização que conserva uma multiplicidade de ecos, pois o tempo do acontecimento é repetitivo, não diferencia antes e depois, mas conjuga remissão e dilatação, estabelece simultaneamente o anterior e o ulterior. É somente instante presente e paradoxal no próprio modo por meio do qual se dá: a dança é algo diferente do que está sendo dançado. Neste 221 acontecimento, é a própria ação que fabrica a temporalidade do tempo e lhe dá um corpo. O sentido de uma dança contemporânea não está na caracterização de seus códigos, mas no interrogar a complexificação dos seus limites e possíveis, as relações de suas próprias (de)formações e as condições que manifestam o acontecimento. Seu jogo é o da fuga e transgressão pois, entre excessos e insuficiências, toma distância de modelos de ação e pensamento conformados a priori. Afinal, cabe dizer que a proposta de um trabalho como devir elimina o ponto de chegada ou o fim, pois entende-se a obra como variação contínua, como composição que apenas acontece em suas relações. Assim, é um modo próprio de conexão que diz um trabalho, uma obra, uma dança, um corpo. Um: artigo indefinido que individualiza e impõe a diferença. ―Aforimos sem juízo‖116: O contemporâneo não é o qualquer coisa da dança. É, sim, o acontecimento da dança. 116 Termo cunhado pelo escritor e jornalista Daniel Piza (1970-2011) como modo de atacar verdades estabelecidas e inverter lugares-comuns. A expressão, que não pode ser entendida literalmente e se abre a interpretações, dá título a um de seus livros (Aforismos sem juízo, Bertrand Brasil, 2008). 222 REFERÊNCIAS AGAMBEN, Giorgio. Signatura rerum: sobre el método. Barcelona: Anagrama, 2010a. ______. Nudez. Lisboa: Relógio D´Água, 2010b. ______. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009. ______. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005. ______. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. ______. A comunidade que vem. Lisboa: Presença, 1993. AHMED, Alejandro. Alejandro Ahmed: depoimento [1.º jun. 2010]. Entrevistadora: Jussara Janning Xavier. Florianópolis: Academia Catarinense de Ginástica, 2010a. ______. Alejandro Ahmed: entrevista [26 maio 2010]. Entrevistadora: Jussara Janning Xavier. Florianópolis: Teatro Pedro Ivo Campos, 2010b. ______. Alejandro Ahmed: entrevista [7 fev. 2012]. Entrevistadora: Jussara Janning Xavier. Florianópolis: Coqueiros, 2012. ALBRIGHT, Ann Cooper. Coreographing difference: the body and identity in contemporary dance. New England: Wesleyan University Press, 1997. AUSTIN, John Langshaw. How to do things with words. 2.ed. Oxford: Oxford University Press, 1976. AZEVEDO, Sônia Machado de. O papel do corpo no corpo do ator. São Paulo: Perspectiva, 2004. BADIOU, Alain. Pequeno manual de inestética. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. BAITELLO, Norval. Corpo e imagem: comunicação, ambientes, vínculos. In: RODRIGUES, David (Org.). Os valores e as atividades corporais. São Paulo: Summus, 2008. p. 95-112. BANES, Sally. Terpsichore in sneakers: post-modern dance. Middletown: Weslean University Press, 1987. BARDAWIL, Andréa. Por um estado de invenção. In: NORA, Sigrid (Org.). Temas para a dança brasileira. São Paulo: Edições SESC SP, 2010. p. 248-266. 223 BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. BAUDRILLARD, Jean. Senhas. Rio de Janeiro: Difel, 2001. BAUSCH, Pina. Dance, dance, otherwise we are lost. Laurea Honoria Causa a Pina Bausch. Università degli Studi di Bologna. Facoltà di Lettere e Filosofia. Bologna, 25 nov. 1999. p. 21-34. BERNARD, Michel. Danse et Théâtre. In: CORVIN, Michel (Org). Dictionnaire Encyclopédique du Théâtre. v.2. Tradução de José Ronaldo Faleiro. Paris: Bordas, 1995. p. 251-252. BERTHOZ, Alain. La décision. Paris: Odile Jacob, 2003. BOGART, Anne. A preparação do diretor: sete ensaios sobre arte e teatro. São Paulo: Martins Fontes, 2011. BONDIA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação. Tradução: João Wanderley Geraldi. Rio de Janeiro, n.19, Jan/Fev/Mar/Abr 2002, p. 24. CABALLERO, Ileana Diéguez. Escenarios liminales: teatralidades, performances y política. Buenos Aires: Atuel, 2007. CALDAS, Paulo. Derivas críticas. In: NORA, Sigrid (Org.). Temas para a dança brasileira. São Paulo: Edições SESC SP, 2010. p. 56-77. CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem & outras metas. 4.ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. CARMO, Miguel Ângelo Oliveira do. Acontecimento e atualidade em Michel Foucault: uma análise a partir do Dits et Écrits. 2010. 200f. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010. CAUQUELIN, Anne. Frequentar os incorporais: contribuição a uma teoria da arte contemporânea. São Paulo: Martins Fontes, 2008. CENA 11 COMPANHIA DE DANÇA. Disponível <http://www.cena11.com.br/html/coreogra.html>. Acesso em: 15 out. 2009. em: CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes do fazer. Petrópolis: Vozes, 1999. COHEN, Renato. Work in progress na cena contemporânea: criação, encenação e recepção. São Paulo: Perspectiva, 2006. ______. Performance como linguagem. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 2009. 224 COLLAÇO, Gabriel; AHMED, Alejandro. Autoria no corpo involuntário. In: XAVIER, Jussara; MEYER, Sandra; TORRES, Vera. (Orgs.). Tubo de ensaio: experiências em dança e arte contemporânea. Florianópolis: Edição do Autor, 2006. p. 102-107. CORNAGO, Óscar. Escena contemporánea 2006. El teatro de acciones o las ficciones reales. [2006], p. 1-13. ______. Teatralidade e ética. In: SAADI, Fátima; GARCIA, Silvana. Próximo ato: questões da teatralidade contemporânea. São Paulo: Itaú Cultural, 2008, p. 22-29. ______. Atuar ―de verdade‖: a confissão como estratégia cênica. Urdimento, Florianópolis, vol.1, n.13, p. 99-111, set. 2009. COPELAND, Roger. Merce Cunningham: the modernizing of modern dance. New York: Routledge, 2004. DAMÁSIO, Antônio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Cia. das Letras, 1996. DELEUZE, Gilles. Sobre o teatro: um manifesto de menos; o esgotado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2010. ______. Lógica do sentido. 5.ed. São Paulo: Perspectiva, 2009a. ______. A dobra: Leibniz e o barroco. 5.ed. São Paulo: Papirus, 2009b. ______. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 2006. ______. Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta, 2002. ______. Conversações: 1972-1990. São Paulo: Editora 34, 1992. ______. Cinema 1: a imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1983. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? 3.ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 2010. ______. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, v.5. São Paulo: Editora 34, 1997a. ______. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, v.4. São Paulo: Editora 34, 1997b. ______. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, v.3. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996. ______. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, v. 2. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Tradução Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998. 225 DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010. DIDEROT, Denis. Textos escolhidos: Diderot. Tradução e notas de Marilena de Souza Chauí, J. Guinsburg. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores). EDUARDO FUKUSHIMA. Disponível em: <http://fukushima.wordpress.com>. Acesso em: 2 jul. 2011. ESPINOSA, Bento de. Ética. Lisboa: Relógio D`Água,1992. FABIÃO, Eleonora. Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. Revista de Artes Cênicas sala preta, São Paulo, Departamento de Artes Cênicas, ECA/USP, n.8, p.235-246, 2008. ______. Corpo cênico, estado cênico. Folhetim: Teatro do pequeno gesto, Rio de Janeiro, n.17, p. 24-33, mai - ago. 2003. FABRINI, Ricardo Nascimento. A arte depois das vanguardas. Campinas: Unicamp, 2002. FEBVRE, Michèle. Danse contemporaine et thèâtralité. Paris: Editions Chiron, 1995. FERAL, Josette. Acerca de la teatralidad. Caderno de teatro XXI. Buenos Aires: Nueva geracion, 2003. ______. Teatro, teoria y prática: Mas allá de las fronteras. Buenos Aires: Galerna, 2004. FERNANDES, Sílvia. Teatralidades contemporâneas. São Paulo: Perspectiva: 2010. FERRACINI, Renato. Nem interpretar, nem representar. Atuar. In: MOSTAÇO, Edélcio (Org.). Para uma história cultural do teatro. Florianópolis; Jaraguá do Sul: Design editora, 2010. p.309-331. FISHER-LITCHTE, Erika. The transformative power of performance: a new aesthetics. New York: Routledge, 2008. ______.Transformações. Revista Urdimento, Florianópolis, vol.1, n.09, p. 135-140, dez. 2007. FORTIN, Sylvie. Nem do lado direito, nem do lado do avesso: o artista e suas modalidades de experiência de si e do mundo. In: WOSNIAK, Cristiane; MARINHO, Nirvana (Orgs.). Seminários de dança. O avesso do avesso do corpo: educação somática como práxis. Joinville: Nova Letra, 2011. p.25-42. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. 18.ed. Rio de Janeiro: Graal, 2007. 226 ______. A Ordem do Discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Trad. de Laura Fraga de A. Sampaio, 2. ed. São Paulo: Loyola, 1996. ______. Vigiar e Punir: História da Violência nas Prisões. Rio de Janeiro: Vozes, 1975. ______. Microfísica do poder. Organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979. FREITAS, Vanilto Alves de. Para uma cidade habitar um corpo: proposições de uso do espaço urbano e seus acréscimos na formação do artista cênico. 2011. 117 f. Dissertação (Mestrado em Artes) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2011. FUKUSHIMA, Eduardo. Eduardo Fukushima: entrevista [27 nov. 2011]. Entrevistadora: Jussara Janning Xavier. Florianópolis: Restaurante Ponta das Caranhas, 2011. ______. Eduardo Fukushima: entrevista [10 mar. 2012]. Entrevistadora: Jussara Janning Xavier. São Paulo: Residência do artista, 2012. GALHÓS, Claudia. Pina Bausch: sentir mais. Alfragide: Dom Quixote, 2010. GIL, José. Movimento total: o corpo e a dança. São Paulo: Iluminuras, 2004. ______. Metamorfoses do corpo. 2.ed. Lisboa: Relógio D´Água, 1997. ______. Paradoxical body. In: LEPECKI, André; JOY, Jenn. (Orgs.) Planes of composition: dance, theory, and the global. Calcutta: Seagull Books, 2009. GILPIN, Heidi. Aberrations of gravity. In: SPIER, Steven (Org.). William Forsythe and the practice of choreography: it starts from any point. Londres: Routledge, 2011. p.112-127. GODARD, Hubert. Gesto e percepção. In: SOTER, Silvia. PEREIRA, Roberto. (Orgs.). Lições de Dança 3. Rio de Janeiro: UniverCidade, 2001. GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos indisciplinares. 3.ed. São Paulo: Annablume, 2008. ______. Indagações sobre o que pode (ser) um processo. In: GREINER, Christine; SANTO, Cristina Espírito; SOBRAL, Sônia. (Orgs.). Cartografia Rumos Itaú Cultural Dança: mapas e contextos. São Paulo: Itaú Cultural, 2010a. p.79-84. ______. O que resta do butô: os riscos do colonialismo na dança. In: NAVAS, Cássia; ISAACSSON, Marta; FERNANDES, Sílvia. Ensaios em cena. Salvador: ABRACE – Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas; Brasília: CNPq, 2010b. p.218-227. 227 ______. Arte na universidade para germinar questões e testar procedimentos. In: XAVIER, Jussara; MEYER, Sandra; TORRES, Vera. (Orgs.). Tubo de ensaio: experiências em dança e arte contemporânea. Florianópolis: Edição do Autor, 2006. p.31-35. GRIGOLO, Gláucia. O paradoxo do ator-marionete: diálogos com a prática contemporânea. 2005. 168f. Dissertação (Mestrado em Teatro) - Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis. 2005. GUÉNOUN, Denis. O teatro é necessário? São Paulo: Perspectiva, 2004. HADOT, Pierre. O que é a filosofia antiga? 2.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. KATZ, Helena. Um, Dois, Três. A dança é o pensamento do corpo. Belo Horizonte: FID Editorial, 2005. ______. Ikiru, quando o butô se torna puro clichê. 22 mar. 2011. O Estado de S. Paulo. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ikiru-quando-obuto-se-torna-puro-cliche,695282,0.htm. Acesso em: 25 out. 2011. ______. Abre aspas: O Brasil é moderno não é contemporâneo. Revista Muito. Entrevista à Tatiana Mendonça. Grupo A Tarde. Salvador, 30 out. 2011, p.8-12. Disponível em: http://www.helenakatz.pro.br/. Acesso em: 20 mar. 2012. KATZ, Helena et al. Grupo Corpo Companhia de Dança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1995. KATZ, Helena; GREINER, Christine. Por uma teoria do corpomídia. In: GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos indisciplinares. 3.ed. São Paulo: Annablume, 2008, p.125- 133. KOSOVSKI, Ricardo. Teatralidade como matriz comunicacional: novas percepções. 2001. 365f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2001. KURTH, Peter. Isadora: uma vida sensacional. São Paulo: Globo, 2004. LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2.ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008. LAKKA, Vanilto. Vanilto Lakka: entrevista [10 mar. 2012]. Entrevistadora: Jussara Janning Xavier. São Paulo: Arai Residence, 2012. LAPOUJADE, David. O corpo que não aguenta mais. In: LINS, Daniel; GADELHA, Sylvio (Orgs.). Nietzsche e Deleuze: que pode o corpo. Rio de Janeiro: Relume Dumará; Fortaleza: Secretaria da Cultura e Desporto, 2002. p.81-90. LE BRETON, David. Conclusion. Anthropologie du corps en scène. Tradução José Ronaldo Faleiro. In: BARBA, Eugenio et al. Le training de l´acteur. Paris: Conservatoire National Supérieur d´Art Dramatique/Actes Sud, 2000. 228 LEHMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático. São Paulo: Cosac Naify, 2007. ______. Motivos para desejar uma arte da não-compreensão. Revista Urdimento. Florianópolis, SC, n.9, Abril 2008. p.141-152. LEPECKI, André. Agotar la danza: performance y política del movimiento.Espanha: Centro Coreográfico Galego, Universidad de Acalá; Mercat de les Flors, 2008. ______. Planos de composição. In: GREINER, Christine; SANTO, Cristina Espírito; SOBRAL, Sônia. (Orgs.). Cartografia Rumos Itaú Cultural Dança: mapas e contextos. São Paulo: Itaú Cultural, 2010. p.12-20. LESTE, Thembi Rosa. Dança: modos de estar. Princípios organizativos em dança contemporânea. 2010. 88 f. Dissertação (Mestrado em Dança) - Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010. LÉVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996. LOUPPE, Laurence. Poétique de la danse contemporaine. 3.ed. Bruxelles: Contredanse, 2004. ______. Poétique de la danse contemporaine: la suite. Bruxelles: Contredanse, 2007. MACHADO, Roberto. Deleuze, a arte e a filosofia. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010. MALYSSE, Stéphane. Em busca dos (H)alteres-ego: olhares franceses nos bastidores da corpolatria carioca. In: GOLDENBERG, Mirian (Org). Nu & Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca. Rio de Janeiro: Record, 2002. p.79-137. MENICACCI, Armando. O ensino da dança frente às tecnologias: algumas reflexões. In: WOSNIAK, Cristiane; MEYER, Sandra; NORA, Sigrid (Orgs.).Seminários de dança: o que quer e o que pode (ess)a técnica? Joinville: Letradágua, 2009. MEYER, Sandra. Cena 11 propõe debate de ideias. A Notícia, Florianópolis, 23 mar. 2005. MICHELINE TORRES. Disponível em: <http://www.euprometoistoepolitico.com>. Acesso em: 2 abril 2011. MIRANDA, Maria Brigida de. Playful training: towards capoeira in the physical training of actors. Saarbrucken: Lap Lambert Academic Publishing, 2010. MONTEIRO, Marianna. Balé, tradição e ruptura. In: PEREIRA, Roberto; SOTER, Silvia (Orgs.). Lições de Dança 1. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 1998. p. 169-189. 229 MOSTAÇO, Edélcio (Org.). Para uma história cultural do teatro. Florianópolis; Jaraguá do Sul: Design Editora, 2010. MOSTAÇO, Edélcio. Considerações sobre o conceito de teatralidade. Revista DaPesquisa Revista de investigação em artes. Florianópolis, SC, vol. 2, n.2, 6 p., Ago./2006-Jul./2007. NIETZSCHE, Friedrich. Considerações extemporâneas. In: Os Pensadores, v.XXXII, São Paulo: Abril, 1974. ______. Além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro. Curitiba: Hemus, 2001. NIJINSKI, Vaslav. Cadernos: o sentimento. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1998. NUNES, Sandra Meyer. As metáforas do corpo em cena. Florianópolis: Udesc/AnnaBlume, 2009. NUNO GIL, José. Abrir o corpo. In: FONSECA, Tânia; ENGELMAN, Selda. (Orgs.). Corpo, arte e clínica. Porto Alegre: UFRGS, 2004. p.13-28. OLIVEIRA, Cláudia Marisa. Para uma dramaturgia do corpo. Repertório teatro & dança, Salvador, Universidade Federal da Bahia, n.13, p.15-33. 2009. PARDO, Ana Lúcia (Org.). A teatralidade do humano. São Paulo: Edições SESC SP, 2011. PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. São Paulo: Perspectiva, 1999. PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens críticas: Robert Smithson: arte, ciência e indústria. São Paulo: EDUC; Editora SENAC São Paulo; FAPESP, 2010. PELBART, Peter Pál. A vertigem por um fio: políticas da subjetividade contemporânea. São Paulo: Iluminuras, 2000. ______. A potência de não: linguagem e política em Agamben. Revista Literária Polichinello, 20 mai. 2009. Disponível em: <http://www.polichinello2004.blogger.com.br/2009_05_01_archive.html>. Acesso em: 7 out. 2001. ______. Biopolítica. Revista de Artes Cênicas sala preta, São Paulo, Departamento de Artes Cênicas, ECA/USP, n.7, p.57-66, 2007. ______. Elementos para uma cartografia da grupalidade. In: SAADI, Fátima; GARCIA, Silvana. Próximo ato: questões da teatralidade contemporânea. São Paulo: Itaú Cultural, 2008. ______. A interface entre vidas precárias e práticas estéticas. In: PARDO, Ana Lúcia (Org.). A teatralidade do humano. São Paulo: Edições SESC SP, 2011a. 230 ______. Indivíduo e potência. In: NEUPARTH, Sofia; GREINER, Christine (Orgs.). Arte agora: Pensamentos enraizados na experiência. São Paulo: Annablume, 2011b. ______. O tempo não reconciliado. São Paulo: Perspectiva, 1998. PESSOA, Fernando. Livro do desassossego por Bernardo Soares. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. PONZIO, Ana Francisca. O classicismo do contemporâneo. Gesto: revista do Centro Coreográfico do Rio, Rio de Janeiro, n. 2, p. 66-69, jun. 2003. PRIMO, Rosa. Ligações da dança contemporânea nas sociedades de controle. In: SOTER, Silvia; PEREIRA, Roberto (Orgs.). Lições de Dança 5. Rio de Janeiro: UniverCidade, 2005. p.107-122. QUILICI, Cassiano Sydow. Antonin Artaud: teatro e ritual. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2004. ______. O extemporâneo e as fronteiras do contemporâneo. In: V Congresso da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas, 2009, São Paulo. Anais do V Congresso da ABRACE. São Paulo: Anais da ABRACE, 2009. p.1-4. ______. Teatros do Silêncio. Revista de Artes Cênicas sala preta, São Paulo, Departamento de Artes Cênicas, ECA/USP, n.5, p.69-77, 2005. RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. Lisboa: Orfeu negro, 2010a. ______. Estética e política: a partilha do sensível. Porto: Dafne, 2010b. RENGEL, Lenira. Dicionário Laban. 2.ed. São Paulo: Annablume, 2003. RIBEIRO, Antônio Pinto. Dança temporariamente contemporânea. Lisboa: Passagens, 1994. RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre: L&PM Editores, 2006. ROACH, Joseph R. The player’s passion: studies in the science of acting. London, Toronto: Associated University Presses, 1985. ROLNIK, Suely. A vida na berlinda. In: COCCO, Giuseppe; PACHECO, Annelise; VAZ, Paulo (Orgs.). O trabalho da multidão: império e resistências. Rio de Janeiro: Gryphus, Museu da República, 2002. Disponível em: <http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/Berlinda.pdf>. Acesso em: 27 out. 2011. 231 ROPA, Eugenia Casini. O solo de dança no século XX: entre proposta ideológica e estratégia de sobrevivência. Revista Urdimento. Florianópolis, SC, n.12, Março 2009. p.61-71. ROSENDO, Erika. Erika Rosendo: entrevista [2 fev. 2012]. Entrevistadora: Jussara Janning Xavier. Joinville: Joinville Garten Shopping, 2012. RYNGAERT, Jean-Pierre. Jogar, representar: práticas dramáticas e formação. Tradução Cássia Raquel da Silveira. São Paulo: Cosac Naify, 2009. SALLES, Cecilia Almeida. Blogs como registros de processos de criação. In: GREINER, Christine; SANTO, Cristina Espírito; SOBRAL, Sônia. (Orgs.). Cartografia Rumos Itaú Cultural Dança: mapas e contextos. São Paulo: Itaú Cultural, 2010. p.87-93. SCHECHNER, Richard. Performance: teoría y prácticas interculturales. Buenos Aires: Rojas: UBA, 2000. SERRES, Michel. Variações sobre o corpo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. ______. Os cinco sentidos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. SETENTA, Jussara Sobreira. O fazer-dizer do corpo: dança e performatividade. Salvador: EDUFBA, 2008. SILVA, Jardel Sander da. Camelos também dançam. Movimento corporal e processos de subjetivação contemporâneos: um olhar através da dança. 2006. 139f. Tese (Doutorado em Psicologia clínica) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006. SOULAGES, François. Estética da fotografia: perda e permanência. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2010. SPIER, Steven (Org.). William Forsythe and the practice of choreography: it starts from any point. Londres: Routledge, 2011. SULCAS, Roslyn. Watching the Ballett Frankfurt, 1988-2009. In: SPIER, Steven (Org.). William Forsythe and the practice of choreography: it starts from any point. Londres: Routledge, 2011. p.4-19. SUQUET, Annie. O corpo dançante: um laboratório da percepção. História do corpo: as mutações do olhar. O século XX. Vol. 3. Petrópolis: Vozes, 2008. p.509540. TREVISAN, Armindo. A Dança do Sozinho: uma análise da arte abstrata. São Paulo: Perspectiva, 1988. TORRES, Micheline. Micheline Torres: entrevista [12 mar. 2012]. Entrevistadora: Jussara Janning Xavier. Rio de Janeiro: Residência da artista, 2012. 232 TURNER, Victor. Dewey, Dilthey e Drama: um ensaio em antropologia da experiência. Tradução Herbert Rodrigues. Cadernos de campo, São Paulo, PPGAS, USP, n.13, 2005. p.177-185. UBERSFELD, Anne. Para ler o teatro. São Paulo: Perspectiva: 2005. VARELA, Francisco; THOMPSON, Evan; ROSCH, Eleanor. A mente incorporada. Ciências Cognitivas e Experiência Humana. Porto Alegre: Artmed Editora, 2003. VIANNA, Klauss. A dança. 2.ed. São Paulo: Siciliano, 1990. VILLAÇA, Nízia. A cena do corpo comunicativo. In: MOSTAÇO, Edélcio (Org.). Para uma história cultural do teatro. Florianópolis; Jaraguá do Sul: Design editora, 2010. p.63-85. VILLEGAS, Juan. Multiculturalismo e multiteatralidades na América Latina. In: MOSTAÇO, Edélcio (Org.). Para uma história cultural do teatro. Florianópolis; Jaraguá do Sul: Design editora, 2010. p.87-108. WOSNIAK, Cristiane. MEYER, Sandra. NORA, Sigrid (Orgs.). Seminários de dança. O que quer e o que pode (ess)a técnica? Joinville: Letradágua, 2009. ZOURABICHVILI, François. Deleuze e o possível (sobre o involuntarismo na política). In: ALLIEZ, Éric (Org.). Gilles Deleuze: uma vida filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000. p. 333-355. ______. O vocabulário de Deleuze. Rio de Janeiro: Centro Interdisciplinar de Estudo em Novas Tecnologias e Informação Unicamp, 2004.