A ORIGEM DO VIDRO E SEU USO NA ARQUITETURA BERGAMO, Ana Paula Rodrigues Horita1 MOTTER, Camila Belim2 RESUMO A arquitetura tem como função abrigar o homem das adversidades do tempo e proporcionar proteção, conforto e deixar a luz entrar para a escuridão dos espaços. Diferentes técnicas foram utilizadas ao longo da história para poder executar estas funções e proporcionar estes efeitos. O vidro teve sua produção inicial como elemento decorativo. Seu potencial foi descoberto e sendo valorizado e aperfeiçoado com o tempo. Atualmente, é indispensável na construção civil. Material tão valorizado e com diferentes aplicações, hoje em vários casos, tem seu uso de forma desenfreada, causando muitas vezes, problemas de superaquecimento na edificação e na região externa onde se encontra proporcionando também, maior consumo de energia para refrigeração interna dos ambientes. Este estudo analisa a história deste material, assim como seu uso na atualidade e os cuidados que devem ser tomados com sua aplicação. PALAVRAS-CHAVE: arquitetura, vidro, fachadas em vidro, raios solares, aquecimento excessivo. THE ORIGIN OF GLASS AND ITS USE IN ARCHITECTURE ABSTRACT The architecture has the function to house the man from the adversities of weather and provide protection, comfort and let the light get into the darkness of space. Different techniques have been used throughout history to perform these functions and provide these effects. The glass had its initial production as a decorative element. Its potential was discovered and being cherished and perfected over time. Currently, it is essential in construction. Material so valued and with different applications, today in many cases, its use has run rampant, causing often overheating problems in the construction and the outer region where also providing greater energy consumption for cooling of indoor environments. This study examines the history of this material, as well as its use in the present and care should be taken in its application. PALAVRAS-CHAVE EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: architecture, glass, glass facades, sunlight, excessive heating. 1. INTRODUÇÃO O conhecimento sobre os diversos tipos de vidros utilizados na arquitetura e suas tecnologias agregadas é fundamental para saber quais se adéquam melhor ao local onde será aplicado e qual terá o melhor desempenho para as funções realizadas nestes ambientes. O seu uso é indispensável e não carece ser evitado, mas há a necessidade de compreender onde é melhor sua utilização para que questões de funcionalidade, conforto e estética não sejam comprometidas. Este estudo foi realizado para ampliar o conhecimento sobre o vidro e seu uso na arquitetura. A justificativa da pesquisa sobre este tema se da ao fato do vidro ser um material considerado uma das maiores descobertas da humanidade e que, hoje em dia, utiliza-se em grande escala e apresenta ampla variedade com diversas características. Atualmente seu uso é 1 2 Docente do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade Assis Gurgacz - FAG Discente do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade Assis Gurgacz - FAG Anais do 12º Encontro Científico Cultural Interinstitucional - 2014 ISSN 1980-7406 1 indispensável para entrada de luz e circulação de ares nas edificações. Também traduz conforto e visibilidade para o exterior, contudo, no momento de projetar, é de extrema importância verificar fatores que não comprometam o meio correspondente ao seu uso. Durante esta pesquisa, serão abordadas questões como o conhecimento da origem do material; o surgimento do vidro na arquitetura e suas funções; características dos vidros utilizados na construção civil; benefícios e adversidades causadas pelo uso inadequado; cuidados a serem tomados na sua escolha e possíveis soluções para manter sua funcionalidade agregada à estética da edificação. Para embasamento teórico, autores como Richards (2006), Neufert (2011), Giovanni (1992), Yazigi (2009), Azeredo (2004) e Nakamura (2014), são dispostos para refletir sobre esta pesquisa. 2. O VIDRO: Origem The resultant surface has become the aura of the architecture, the building has disappeared in the transparency of the façade. The architectural conceptualization captures and idea – It is no longer a space or place, it is purely ephemeral. […]material that both defined and encapsulated the relationship between space, light and form – a material that captured the physical properties of shelter, warmth and comfort, as well as providing a potent symbol of the interface between spiritual light and well-being 3 (RICHARDS, 2006, p.11) Desde os tempos das cavernas até as moradias atuais, a função da arquitetura sempre foi abrigar o homem das adversidades do tempo e proporcionar proteção, conforto e deixar a luz entrar para a escuridão dos espaços. Diferentes técnicas foram utilizadas ao longo da história da arquitetura para poder executar estas funções e proporcionar estes efeitos. Desde pequenas aberturas com a proteção de janelas feitas em madeira ou papel oleado, o homem visou técnicas para que seu abrigo não se tornasse enclausurado. Com o passar dos anos, o vidro, material que antes apenas criavam-se adornos, tornou-se indispensável para exercer as funções arquitetônicas. 3 A superfície se tornou a aura da arquitetura, o prédio desapareceu na transparência da fachada. A concepção da arquitetura captura uma ideia – não é mais um espaço ou um lugar, é puramente efêmero. Material que define e encapsula as relações entre espaços, luz e forma. Material que captura as propriedades físicas do abrigo, o aconchego e o conforto, assim como providencia um potente símbolo da interface entre luz espiritual e bem estar. 2 Anais do 12º Encontro Científico Cultural Interinstitucional – 2014 ISSN 1980-7406 Segundo Giovanni (1992), o vidro tem como registro sua descoberta realizada da queima acidental da areia pelos fenícios 3.000 a.C., os quais, por terem sido grandes navegadores, difundiram esta descoberta rapidamente. Inicialmente usado para criação de pequenos ornamentos como vasos, copos e jarras, passou a exercer a função de espelhos e produção de vitrais. Estes vários usos foram sendo descobertos por diferentes civilizações que entraram em contato com este material singular. Mesmo tendo os materiais necessários para sua fabricação, era necessário produzi-lo em grandes escalas e tamanhos amplos, largos. Sua essência estava em sua transparência e cor, mas a necessidade era que fosse produzido de forma chapada, mas não haviam tecnologias suficientes para que se mantivesse firme. O material ainda era extremamente fraco, sendo fácil de quebrar. Desenvolvimentos químicos proporcionaram melhoras em sua resistência e aparência. Os bizantinos desenvolveram artifícios para colorir e melhorar os aspectos dos vidros, enquanto os venezianos tornaram-se grandes fabricantes de espelhos ao aplicar uma fina camada de mercúrio em uma das faces do vidro. A transparência do vidro aconteceu devido à migração gradual da produção desse material pelo Mediterrâneo para França e Alemanha (RICHARDS, 2006). Estas trocas de mercadoria fizeram com que os procedimentos de fabricação fossem sendo repassados e melhor desenvolvidos A era gótica teve grande contribuição para o desenvolvimento do vidro na arquitetura. Os arcos permitiram a aplicação dos vidros coloridos em sua estrutura, proporcionando a entrada de luz e, ao mesmo tempo, transmitindo mensagens bíblicas através de seus desenhos em vitrais. Por muito tempo os países baixos tinham as janelas como sinônimo de riqueza de negociações. No Renascimento, o material já se apresentava de forma mais resistente e de uso mais comum. Richards (2006) afirma que no século XX, a busca pela transparência, reflexão, translucidez e opacidade, juntamente com as melhorias dos vidros, evoluíram com a construção civil. O vidro passou a ser considerado uma membrana que controla o meio ambiente, encapsula o espaço e mediate the light4. O desenvolvimento das tecnologias deste material contribuíram para que ele pudesse ser usado como um complemento estrutural. Aquele material que antes era frágil e não resistia a esbarrões e não possibilitava produção em tamanhos amplos e em grande escala, hoje resiste a fortes intempéries e é de utilização imprescindível. 4 Mediar a luz. Anais do 12º Encontro Científico Cultural Interinstitucional - 2014 ISSN 1980-7406 3 2.1. Tipos de vidros A evolução tecnológica proporcionou a produção de diferentes tipos de vidros. Entre eles estão os vidros temperados, laminados, lisos e float. Cada um para um uso distinto (YAZIGI, 2009). Eles podem ser classificados, segundo Azeredo (2004), por tipo, forma, transparência e acabamentos de superfície. Neste estudo são explanadas apenas as categorias do vidro. Entre as variedades do material estão: •Vidro Float: É o vidro comum, liso, transparente e a matéria-prima que dá origem aos temperados, laminados, insulados, serigrafados e espelhos. Sua composição inclui sílica, sódio, cálcio, magnésio, potássio e alumina. É aplicado na arquitetura, indústria moveleira, automotiva e de linha branca (eletrodomésticos). Atualmente, no Brasil, é produzido com espessuras que variam de 3 a 19 mm. •Vidro temperado: considerado vidro de segurança, é submetido a tratamento o qual introduz tensões adequadas que se, fraturado em qualquer ponto, desintegra-se em pequenos pedaços menos cortantes que em vidros recozidos. •Vidro laminado: também avaliado como vidro de segurança, é manufaturado com duas ou mais chapas de vidro firmemente unidas e alternadas com uma ou mais películas de material aderente, de maneira que, quando quebrado, tende a manter os estilhaços colados nesta película. •Vidro duplo ou insulado: formado por duas ou mais chapas de vidro, selada em sua periferia, formando vazios entre as chapas paralelas. Entre os dois vidros, há uma camada interna de ar ou de gás desidratado – dupla selagem. A primeira selagem evita a troca gasosa, enquanto a segunda garante a estabilidade do conjunto. •Vidro aramado: considerado vidro de segurança, formado por uma chapa de vidro que contém em seu interior, fios metálicos incorporados à sua massa durante a fabricação. A tendência é que, quando quebrado, os estilhaços mantenham-se presos aos fios. •Vidro térmico absorvente: vidro com capacidade de absorver pelo menos 20% dos raios infravermelhos, reduzindo o calor que entra na edificação. Dependendo do tipo do vidro, ele pode ser produzido em forma plana, curva perfilada ou ondulada; transparente, translúcido ou opaco; superfície lisa, polida, impressa, fosca, espelhada, gravada, esmaltada ou termo-refletida; colorido ou incolor. Neufert (2011) afirma que para um equilíbrio das superfícies envidraçadas de um edifício, recomenda-se a utilização de apenas um tipo de vidro. 4 Anais do 12º Encontro Científico Cultural Interinstitucional – 2014 ISSN 1980-7406 2.3. Problemas causados pelo mau uso Este material, com sua beleza e funcionalidade, permitiu um avanço em seu uso que, atualmente, está sendo empregado de forma até mesmo desenfreada em estruturas arquitetônicas. A preocupação em diminuir o consumo de energia nas edificações é um desafio atualmente. Ao mesmo tempo em que edifícios recobertos por panos de vidro colaboram para a entrada de luz natural na edificação, questões térmicas são comprometidas, do mesmo modo afirma Nakamura (2007): “[...] as fachadas de vidro podem atingir temperaturas superficiais elevadas. Essa carga de calor é irradiada e afeta quem fica próximo das fachadas”. O vidro, utilizado como material arquitetônico, apresenta diferentes componentes em sua fabricação, técnicas de aplicação e possibilita ser produzido em diferentes formas, criando diversos efeitos. Entretanto, não é sempre que se emprega seu uso adequadamente. A escolha imprópria do material ou um projeto mal elaborado, pode resultar em desconforto térmico - para quem se apresenta dentro de uma edificação e até mesmo para pessoas que passam ao redor desta região – e gastos excessivos ou desnecessários. Costuma-se aplicar o vidro insulado ou refletivos – mais conhecido como espelhado – nas fachadas. O insulado age de forma que evita o aquecimento demasiado e a entrada de ruídos, pois sua dupla camada espaçada por ar colabora com essa eficiência. O refletivo age de forma adequada para diminuir a incidência de raios solares para a parte interna da edificação, porém tem alta taxa de reflexão luminosa. Ambos trabalham de maneira interessante, porém, é claro, não exercem a mesma função que uma vedação opaca - incidência de raios solares vai continuar abrangente caso a posição seja onde o sol permanece por maior parte do dia. É necessário verificar isso de acordo com a região em que se encontra, pois há variações da posição solar no globo terrestre. Conforme notícia na BBC News London (2013), o arranha-céu Walkie-Talkie – localizado na cidade de Londres –, enquanto ainda em construção, já causou danos pela má projetualidade e disposição dos vidros em uma de suas faces. Revestido de vidros refletivos, o sol incidente na fachada fez os raios solares refletirem e atingirem pessoas e objetos na rua. Diferentes danos como derretimento de carros e pequenos incêndios já ocorreram devido a forte concentração solar. Tateoka & Senaga (S/D) sustentam a ideia de que fachadas em vidro devem ser pensadas com critério, devido às seguintes razões: a luz que entra em um local cercado de vidro causa efeito Anais do 12º Encontro Científico Cultural Interinstitucional - 2014 ISSN 1980-7406 5 estufa, por não deixar a radiação que entrou, sair; muita luz não é sinônimo de iluminação boa, o que pode causar ofuscamento aos olhos; o desempenho térmico do edifício está diretamente ligado à capacidade de aproveitamento de técnicas passivas de climatização – ventilação e iluminação natural e inércia térmica do edifício; Sistemas de ventilação e climatização ativos devem funcionar como um complemento às técnicas passivas. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os materiais construtivos evoluíram com intensidade e velocidade. Existem materiais de inúmeras formas, que desempenham diversas funções e estão no mercado para serem usados e aproveitarem seu melhor funcionamento. O mesmo se aplica ao vidro, valioso e impressionante desde sua descoberta como um elemento ornamental, a noção e a função da sua transparência foram espalhados através das janelas como uma chave construtiva (RICHARDS, 2011). Em frente aos problemas vistos atualmente, o que é possível considerar através de todo o desenvolver deste trabalho, é que o projeto mal elaborado afeta diversas questões ao seu entorno. A estética está sendo levada em consideração, desvinculada de sua função que é agregar conforto às pessoas e tentar ao máximo adquirir práticas sustentáveis. A questão não é evitar grandes estruturas com vistas repletas de vidros, mas quais dessas vistas deve conter seu uso. Existem formas de, até mesmo, aplicar o material e usar artifícios que colaborem para que a incidência solar não comprometa a performance. A radiação solar excessiva pode ser “filtrada” por brises e prateleiras de luz, distribuindo melhor a luz no ambiente, ou até mesmo instalações de persianas resistentes à forte incidência solar. De acordo com Tateoka & Senaga (S/D): Cada fachada deve ser pensada de acordo com sua orientação, adotando os sistemas de proteção externa que garantam o sombreamento, mas que permitam a entrada da radiação solar difusa.[...] Além disso, é importante direcionar as janelas que abrem para os ventos dominantes, de modo a tirar proveito da ventilação natural (TATEOKA & SENAGA, S/D). O cuidado com a orientação quanto à insolação, o bom aproveitamento de recursos como ventilação natural e o sombreamento de fachadas, assim como a especificação criteriosa de materiais são algumas das soluções que, quando inseridas dentro de um contexto global de um projeto, podem contribuir para garantir boas condições de climatização a um edifício. Apesar de 6 Anais do 12º Encontro Científico Cultural Interinstitucional – 2014 ISSN 1980-7406 todo esse progresso tecnológico dos materiais e da construção civil, a melhor solução de projeto térmico nem sempre depende de novos materiais (NAKAMURA, 2007). As inovações em materiais aconteceram, mas o projeto deve ser refletido para dar conforto térmico de maneira natural sempre que possível. O projeto de arquitetura ainda é o responsável por se preocupar com estas questões. REFERENCIAS AZEREDO, Hélio Alves. O edifício e seu acabamento. São Paulo, Blucher, 2004. GIOVANNI, Mariacher. O vidro: os estilos na arte. São Paulo, Martins Fontes, 1992. NAKAMURA, Juliana. Zona de conforto: soluções para prover conforto térmico às edificações precisam se conciliar com o entorno e com a demanda por redução do consumo de energia. Disponível em: <http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/162/artigo60713-7.aspx>. Setembro, 2007. Acesso em fevereiro de 2014. NEUFERT, Ernest. A arte de projetar em arquitetura. 17a ed. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2011. RICHARDS, Brent. New glass architecture. North America, Yale University Press, 2006. YAZIGI, Walid. A técnica de edificar. 10ª Ed. São Paulo, PINI, 2009. Anais do 12º Encontro Científico Cultural Interinstitucional - 2014 ISSN 1980-7406 7