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do2o encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas
Dança: Memória e História
Dance: Memory and History
Renata Xavier1
UNESP
Resumo
Um recorte/olhar sobre a história da dança brasileira e suas memórias, atualizadas em
diferentes tempos e lugares, foi o tema central das discussões-conversas instigantes entre os
pesquisadores presentes no grupo de estudo do comitê Memória durante o 2º. Encontro da
ANDA em Porto Alegre.
Palavras-chave: Dança, Memória, História.
Abstract
An interval/look about the history of Brazilian dance and its memories, updated in different
times and places, was the central theme of stimulating discussions-conversations among the
researches present in the study group of the Memory committee during the 2nd Encounter of
ANDA in Porto Alegre.
Keywords: Dance, Memory, History.
1
Pesquisadora de dança Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUCSP (2009). Vem realizando atualmente
o estágio Pós-Doutoral no Instituto de Artes da UNESP/ SP. Coordenadora do Comitê Memória e Devires em
Linguagem de Dança da ANDA (2011-2012).
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Memória e cultura são indissociáveis na nossa constituição enquanto
seres humanos. (...) O que é memória? É evocação, no presente, de
algo – um evento, lugar, pessoa ou coisa – de um tempo passado, e tal
evocação só é possível porque outros que, como nós, foram no
passado testemunhas daquele evento, estiveram naquele lugar,
encontraram com aquela pessoa, etc.
MONTES
No mundo da dança, não é raro que os dançarinos aprendam as
sequências de movimentos sem qualquer recurso com suporte visual
ou escrito. Coreografias inteiras ficam quase que exclusivamente na
memória dos dançarinos.
BOPP
Há anos discute-se o que é possível registrar de uma dança, uma vez
que a dança é uma arte efêmera, que deixa de existir no momento em
que a sua apresentação finaliza.
GREINER
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O professor, pesquisador e coreógrafo francês Dominique Dupuy (2007), fala dos três
tempos da dança: antes, durante, e depois, sendo seu desejo que esses tempos estejam
correlacionados. O tempo anterior é o da concepção, da elaboração, do aprendizado, do
ensaio; durante é o tempo da apresentação; depois virão seus vestígios, seus traços e suas
memórias.
Sabemos que, de um modo geral, no Brasil, não há políticas públicas que valorizem a
preservação da dança em instituições de memória. E, mesmo assim, as poucas instituições
públicas que existem ainda resistem. Como reflexo dessa falta de acervos públicos, os acervos
privados de pesquisadores, críticos e artistas tornam-se públicos e se encontram em domicílios
ou sob a guarda de alguém ou de alguma instituição particular.
É, evidentemente, sintomática a presença de arquivos privados diante da insuficiência
de arquivos públicos. Nesse contexto, é de extrema importância a preservação-construção da
memória da dança para o seu reconhecimento como um campo de conhecimento.
Para o historiador Ulpiano Meneses (2007: 23), a crise da memória, na sociedade
ocidental data do século XVIII, quando “surgem formalmente organizadas as instituições da
memória – o museu moderno data daí. Quer dizer, o museu é um sintoma da crise da
memória”. Ulpiano destaca, ainda, os seguintes aspectos relativos à memória: retenção,
registro, depósito de informações, conhecimento ou experiências; trata-se, também, de “um
mecanismo de seleção, de descarte, de eliminação: a memória é um mecanismo de
esquecimento programado” (op.cit.).
Bernard (2001), filósofo francês especialista em dança, também fala do conceito de
memória. Para o autor, na dança, o desejo de memorizá-la pode ser realizado de cinco
maneiras distintas: pela notação coreográfica, pela fotografia, pelo vídeo, pelo filme
cinematográfico e pelos testemunhos – falados e/ou escritos.
Da mesma forma, no Brasil, a discussão a respeito da história da dança – e suas formas
de registro – vem se expandindo, principalmente nos últimos anos. Assim também a
contribuição da memória – que é viva e sempre atual – tem sido resgatada por meio de
entrevistas. Entrevistas com os bailarinos, coreógrafos, professores e outras testemunhas
(familiares, amigos, alunos...) ajudam a recontar a história. Toda essa temática foi o tópico
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central das conversas preciosas entre os pesquisadores presentes no grupo de estudo do comitê
Memória durante o II Encontro da ANDA em Porto Alegre.
Pesquisas (o lugar da memória)
Para Meneses (op.cit.), o tempo da construção da memória está no presente, que
sincroniza várias temporalidades. A opção por entrevistas pode permitir a construção de um
recorte da história-pensamento da dança brasileira, bem como refletir sobre o trânsito que se
dá entre a dança (cênica), e a (im) possibilidade de acesso à sua memória, questão esta central
nas discussões do comitê.
Os doze textos apresentados pelos pesquisadores deste comitê apontam para essa
direção e fortalecem o interesse pelo tema, ou seja, pesquisas estão sendo realizadas
reforçando (ou circundando) o recorte dança / história/ memória.
Entre os trabalhos, os de mapeamento e de reconstituição da história da dança do Rio Grande
do Sul vêm sendo feitos pelas pesquisadoras Sigrid Nora, Silvia Wolff, Flávia Valle, Luciane
Soares e pelas alunas de graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Paola Silveira, Fernanda Boff e Natália Porto, sob orientação de Mônica Dantas.
Sigrid Nora (Quando o Fim é apenas outro Começo) contextualiza não só a história da
dança cênica no Brasil – a partir da vinda de artistas europeus entre as duas Grandes Guerras
Mundiais do século XX, e da Revolução Russa de 1917 –, como também a do Rio Grande do
Sul na década de 1920. O foco de sua pesquisa são os desdobramentos dessa história no
estado gaúcho e, principalmente, na cidade de Caxias do Sul por volta dos anos 1950.
Resgatar e vasculhar a história da dança cênica em Caxias do Sul é, então, uma narrativa a ser
construída. A escassez de documentos levou a pesquisadora a optar pela exploração da
oralidade: as entrevistas a serem feitas poderão trazer o passado para o presente, “o tempo
vivo da memória” (BOSI, 2003). Em diferentes narrativas, a história de outro tempo poderá
ser reconstituída.
Silvia Wolff (Trajetória e permanência do Ballet em Porto Alegre: considerações
somáticas sobre seu ensino e prática na contemporaneidade) investiga como a técnica clássica
(ballet) vem sendo utilizada nos processos de criação e interpretação em dança
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contemporânea e no ensino atual de dança no Rio Grande do Sul; ela aborda em seu trabalho
os caminhos seguidos pelo ensino do ballet em Porto Alegre e sua relação com o
desenvolvimento dos métodos de educação somática.
Flavia Valle (Memórias, narrativas e registros de dança: uma retrospectiva dos
trabalhos sobre a história da dança no Rio Grande do Sul) mapeou a trajetória do Grupo Terra
– companhia gaúcha independente existente entre os anos de 1981 e 1984 –, sua produção
artística e seu lugar na história da dança do Rio Grande do Sul. Ainda hoje, vários
colaboradores do Grupo Terra participam da Companhia Terpsí Teatro de Dança que vem
atuando em Porto Alegre desde 1987. Seu interesse pelo tema surgiu enquanto ministrava um
curso na graduação, quando também se deparou com falta de material organizado e/ ou
sistematizado (bibliografia, filmes, fotos...) que contasse a história da dança gaúcha.
Luciane Soares (Grupo de Dança da UFRGS: entre suas memórias e histórias)
pesquisa a história do Grupo de Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), criado em 1976 pela professora Morgada Cunha, e vinculado à pró-reitoria de
extensão da universidade (é reconhecido como um dos primeiros grupos criados dentro de um
ambiente universitário). Para tanto, vai analisar a produção coreográfica do grupo de 1976 a
1983 e entrevistar alguns participantes, tendo como pano de fundo não só a relação deste
grupo com a cidade de Porto Alegre, mas também a história da dança do Rio Grande do Sul.
Paola Silveira (Cartografias da dança contemporânea no Rio Grande do Sul: a
atuação de grupos e companhias) e Fernanda Boff (Movimentos para a construção de um
mapa artístico, histórico e cultural da dança contemporânea no Rio Grande do Sul) dedicamse ao mapeamento da dança contemporânea no Rio Grande do Sul. A primeira busca uma
tipologia do que foi produzido nos últimos vinte anos, e a segunda a identificação dos
principais grupos atuantes no estado. Natália Porto (A dança de rua em academias e escolas
de dança de Porto Alegre: do início até a atualidade) estuda o fenômeno cultural conhecido
por hip hop, procurando verificar o histórico da atuação de coreógrafos de dança de rua
enquanto professores dessa modalidade em escolas de dança de Porto Alegre.
Ana Teixeira (A dança na esteira da oficialidade: a inauguração da Academia Real de
Dança, na França do século XVII, e seu eco no Brasil do século XXI) vem pesquisando a
relação secular do fazer-pensar a dança entre as companhias públicas brasileiras (há registro
de 19 companhias de dança oficiais no Brasil) e a primeira instituição oficial Academia Real
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de Dança, criada em 1661, pelo rei Luís XIV (Rei Sol). Possíveis desdobramentos dessa
conexão são a manutenção de um modelo administrativo já contido na carta do rei Luís XIV e
a constante atualização do vínculo dança-Estado com as implicações que isso acarreta,
atingindo a produção artística dessas companhias, por exemplo.
Os trabalhos de Ana Teixeira e Silvia Wolff reforçam que princípios do ballet
permanecem no Brasil desde sua origem na corte francesa do século XVII. Ao falar da
fundação de várias companhias e escolas de dança no Brasil, desde 1930, públicas
(companhias oficiais), através do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ou privadas, como é o
caso da Escola de Bailados Clássicos Lya Bastian Meyer, em Porto Alegre, a pesquisa de
Sigrid Nora dialoga com os trabalhos de pesquisa de Ana e Silvia.
Sayonara Pereira (Corpos que esboçam memórias) pesquisa a memória do corpo que
dança; como a história, as memórias, as sensações, as situações pessoais vividas ou
imaginadas podem viabilizar uma possível representação cênica no corpo do interprete. A
pesquisadora ressalta que a memória inscrita no corpo do intérprete a partir de uma obra
cênica aprendida pode ser comparável a um tipo de “história oral”, tanto pela sua fluidez,
como pela sua forma de apreensão e transmissão. Como exemplo, descreve dois trabalhos
cênicos, criados por ela, Saudades (1996) e Caleidoscópio das Águas (1999). Vale ressaltar
que Sayonara dançou no Grupo Terra (acima citado), que faz parte da pesquisa de Flávia
Valle.
Andréia Camargo (Memória e continuidade: as implicações de um fenômeno de
relançamento) discute o passado (1973-1983), a “desaparição” (ou o encerramento) e o
relançamento oficial (2008) do grupo de dança, Pró-Posição (Sorocaba/ SP) e as implicações
decorrentes desse processo na história do grupo, no presente. A pesquisadora, que também faz
parte do Grupo Pró-Posição, quer discutir essas implicações sob três aspectos: lógica da
continuidade versus lógica da recuperação, a memória como mecanismo criativo e o
desaparecimento, como instância reguladora de continuidade. Em 2008, o trabalho O cisne,
minha mãe e eu (Janice Vieira e Andréia Nhur) relançou o Grupo Pró-Posição no panorama
da dança brasileira.
Tainá Albuquerque (Dança, criação e memória na terceira idade: uma perspectiva
nietzschiana) relata a importância da dança na memória de dois grupos de idosos que praticam
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dança de salão para a terceira idade. Cada grupo freqüenta bailes distintos, seja pela geografia,
seja pela função que exercem dentro do contexto da cidade do Rio de Janeiro.
Ana Ligia Trindade (Notação da Dança: traçando paralelo entre a notação musical
pela criação de uma linguagem universal de notação do movimento) conta que a notação em
dança e a dificuldade de sua aplicação levaram a esboçar paralelos com a notação musical e
sua utilização.
As conexões
Nos doze trabalhos apresentados no comitê Memória pode-se perceber nítida
convergência de objetivos e metodologias de pesquisas. São vários os que se dedicam ao
mapeamento, e a entrevista parece ter sido a opção mais adequada para a reescrita da história
através da memória. Como descreve Meihy:
O processo de busca das fontes informais, principalmente daquelas
que não se encontravam em arquivos, bibliotecas, museus ou acervos
organizados com fins específicos, mudou o papel dos pesquisadores.
Mesmo mantendo a consagração dos arquivos como lugar
privilegiado, os testemunhos dimensionavam outro alcance para os
processos históricos. As possibilidades de registro de entrevistas, de
filmagens ou fotografia não mais poderiam ser postas de lado (2007,
p. 87)
Quanto aos temas, essa convergência remete aos movimentos de um rio recebendo
seus afluentes no seu percurso: a abrangência da dança fundada na França no século XVII
pelo Rei Sol é constantemente atualizada e presente na memória do corpo que dança. Assim
se encontram, contaminando-se a dança clássica, a contemporânea, o hip hop e os passos dos
idosos nos bailes da terceira idade...
Ao mapear a dança do Rio Grande do Sul, as pesquisadoras vêm tecendo uma rede que
pode ser ampliada nos outros estados brasileiros, e inspirar outros trabalhos visando o
mapeamento da dança no Brasil.
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Meu trabalho como pesquisadora e documentadora de dança na cidade de São Paulo,
onde fui testemunha do fechamento de uma instituição pública de memória, o IDART
(Departamento de Informação e Documentação Artísticas/ Divisão de Pesquisas/ Centro
Cultural São Paulo/ Secretaria Municipal de Cultura), possibilitou-me partilhar, como
testemunha, as dificuldades e satisfações vividas pelos pesquisadores desse comitê que,
individualmente e/ou coletivamente, vêm se aprofundando no tema memória e se deparando
com a falta de registro histórico: documentação, material impresso e iconográfico, etc.
O filósofo italiano Giorgio Agamben (2008:27), em seu livro O que resta de
Auschwitz, define um dos significados de testemunha: aquele que viveu algo, atravessou até o
final um evento e pode, portanto, dar testemunho disso.
Para contar a história da dança que vem sendo dançada no Brasil há alguns séculos e
lidar com a ausência de muitos registros históricos, restam, a nós pesquisadores, a perspectiva
e a esperança de contarmos com a memória de seus testemunhos.
Bibliografia
AGAMBEN, G. 2008 O que resta de Auschwitz: o arquivo e a testemunha. São Paulo:
Boitempo.
BERNARD, M. 2001. De la création chorégraphique. Paris: Centre National de la Danse.
BOOP, M. S. 1995. Danse et documentation aux États-Unis. Paris: Marsyas.
BOSI, E. 2003 O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê
Editorial.
DUPUY, D. 2007. Le 3 coups. Quant à la danse (5), Images en Manoeuvres/ Les mas de la
danse.
GREINER, C. 2002. O registro de dança como pensamento que dança. Revista D’Art,
Secretaria Municipal de Cultura, São Paulo.
MEIHY, J. C. S. B. A história oral: caminhos e perspectivas. In: MIRANDA, D. S. (org.),
Memória e Cultura, São Paulo, SESCSP, pp. 85 -91.
MENESES, U. B. 2007. Os paradoxos da memória. In: MIRANDA, D. S. (org.), Memória e
Cultura, São Paulo, SESCSP, pp. 13-33.
MONTES, M. L. 2007. Memória e patrimônio imaterial. In: MIRANDA, D. S. (org.),
Memória e Cultura, São Paulo, SESCSP, pp. 127-135.
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