gente na arquitetura zaha para ver e ouvir Seixos de rio e erosão inspiram as formas da mais nova obra de Zaha Hadid, a Guangzhou Opera House, a ser aberta este mês na China. Volumes grandiosos, fluidez e sensualidade – marcas do vocabulário da arquiteta – criam um gigante dedicado à cultura por Cynthia Garcia Laureada pelo Pritzker em 2004, pelo conjunto da obra, a arquiteta Zaha Hadid fechou 2010 com mais uma estatueta. Primeiro espaço público na Itália dedicado à arte contemporânea, o museu MAXXI, inaugurado em 2009, em Roma, levou o mais cobiçado prêmio de projeto arquitetônico ao ser nomeado World Building of the Year pelo World Architecture Festival (WAF), em novembro passado, em Barcelona. Gianluca Racana, diretor da Zaha Hadid Architects, recebeu a honraria no lugar da arquiteta iraquiana, que estava mergulhada em outra obra com sua assinatura, a inaugurar este mês em Guangzhou, maior cidade do sul da China. Às margens do rio Pearl, a Guangzhou Opera House é o moderníssimo teatro municipal ecologicamente sustentável, com exterior de granito cinza-escuro apicoado e panos triangulares de vidro texturizado, que transformará a terceira maior cidade chinesa em pólo cultural do sudeste asiático. O complexo faz parte da primeira fase do projeto de reurbanização desse centro, que será acrescido de museu, serviços metropolitanos e parque no Tourist Park Island, um novo bairro. “Um prédio público acessível e aberto ao grande público elimina resquícios de segregação ancorados nos centros urbanos carentes de vida cultural”, afirma Zaha Hadid. A arquiteta fez sua primeira incursão na China em 1981, no início da carreira, dois anos depois de o país ter restabelecido relações diplomáticas com o mundo ocidental. “Bagdá, onde nasci, é moldada pelos dois rios da Mesopotâmia, o Tigre e o Eufrates; a China também gira em torno de seus grandes cursos fluviais”, compara. 94 CASAvogue O auditório já é um marco cultural na China. Na pág. ao lado, formas alveolares sustentam os vários pisos intercalados do minucioso projeto CASAvogue 95 gente na arquitetura Top 5 “Esta arquitetura tem a fluidez que há dez anos é a minha assinatura” Conheça as principais obras arquitetônicas de Zaha Hadid, recém-concluídas e in progress 1 Maxxi: Museu de Arte do Século XXI Roma, Itália, 1998–2009. Área: 30 mil m². Projeto premiado pelo WAF 2010, com galerias e espaços expositivos e assimétricos para as manifestações artísticas contemporâneas. 2 Ponte Sheikh Zayed Abu Dhabi, Emirados Árabes, 1997–2010. Comprimento de 842 m e altura de 64 m. Liga a ilha de Abu Dhabi através de duas vias com quatro pistas cada sobre arcos assimétricos de alumínio. 3 Edifício-sede da CMA CGM Marselha, França, 2005– março/abril de 2011. Terreno: 8.400 m². Área construída: 94 mil m² (torre: 58 mil m² / anexo: 36 mil m²). As fachadas têm pilares metálicos curvos. 96 CASAvogue 4 Glasgow Riverside Museum of Transport Fotos: Virgile Simon Bertrand / Divulgação (auditório) e Luke Hayes (retrato); todas as demais imagens foram cedidas pelo escritório de Zaha Hadid Acima, a Guangzhou Opera House em obras. Ao centro, imagem digitalizada do projeto. No alto, desenhos da arquiteta conceituam o auditório inspirado em pedras de rio. À dir., vista interna dos panos de vidro texturizado que formam as fachadas. Na pág. ao lado, Zaha Hadid, nascida em Bagdá, hoje aclamada a maior arquiteta mulher da história Integrado ao cenário natural, este projeto é mais um exemplo do traço limpo e futurista da maior arquiteta da história e primeira mulher a receber o Pritzker. Compreende duas construções que abrigam um auditório cada uma, conceituadas na forma orgânica de seixos rolados que cobrem o fundo dos rios e em princípios da geologia, topografia e erosão. Assentado em uma área de 70 mil m², com 42 mil m² de área construída, custo de US$ 202 milhões, fruto do trabalho de uma equipe de 40 arquitetos – a maioria chinesa – e duração de seis anos entre aprovação do projeto e sua realização, a Guangzhou Opera House figura entre as três maiores casas de espetáculo da China, ao lado do Teatro Nacional de Pequim e o Grand Theatre de Shanghai. “A boa arquitetura é um fator intimamente ligado à cultura”, afirma a mestra que criou há dez anos o movimento arquitetônico da fluidez desconstrutiva. Formado por uma constelação mapeada por milhares de leds brancos, minúsculos, o projeto de light design fornecido pela Beijing Light & View para o interior do auditório integra a iluminação às formas orgânicas das paredes douradas com acabamento acetinado, “como um interminável tecido de seda Glasgow, Escócia, 2004– maio de 2011. Área: 11 mil m². Com sua arquitetura inspirada em um túnel, o museu está situado na confluência dos rios Clyde e Kelvin. 5 Centro Aquático de Londres Inglaterra, 2005–2011 / 2012. Área: 37 mil m². Projetado para a Olimpíada de 2012, tem geometria fluida a partir de um eixo ortogonal perpendicular a uma ponte sobre o Tâmisa. CASAvogue 97 gente na arquitetura “A computação gráfica foi essencial para o projeto, especialmente no interior do auditório” As linhas orgânicas do projeto são exaltadas pela constelação de leds que iluminam o auditório 98 CASAvogue pura”, segundo as palavras da profissional, enfatizando sua sensualidade arquitetônica. A engenharia acústica é assinada pela firma australiana Marshall Day Acoustics, em parceria com o escritório de Zaha, únicos colaboradores estrangeiros a integrar o grupo responsável pela construção, formado por dez empresas chinesas de ponta. Com consultoria da ENFI, de Pequim, especializada em auditórios, os dois teatros foram desenhados para apresentar óperas, performances e concertos complexos. O maior compreende 1.800 lugares, e o mais intimista, 400 poltronas, ambos com assentos high-tech forrados com tecido em tom de cobre metalizado. Sobre a complexidade acústica do projeto, detalha Zaha: “Utilizamos placas de GRFC (composto de gesso e fibra de vidro) moldadas artesanalmente uma a uma para equalizar o som. Os moldes foram calculados individualmente em arquivos digitais 3D. Tudo foi milimetricamente estudado para afinarmos os parâmetros acústicos de reverberação, volume e clareza. Também levamos em consideração a escala atonal própria da música chinesa e a tonalidade da música ocidental, adequando parâmetros para esses dois conceitos musicais radicalmente diferentes”. Nos dias 25 e 26 de fevereiro, datas de sua abertura, a Guangzhou Opera House estará em festa. O mundo da arquitetura terá os olhos e os ouvidos voltados ao sul da China e à palestra a ser proferida pela incansável visionária Zaha Hadid. Resta saber quando a ópera Turandot (que se passa na China Imperial), de Puccini, banida desse território, será apresentada no magnífico teatro de um grande país que preza a cultura, mas veta a liberdade de opinião. CASAvogue 99