REGINALDO SOUZA SANTOS MEMORIAL Descritivo da formação acadêmica, da produção científica e técnica, da participação e colaboração no desenvolvimento administrativo – institucional da Escola de Administração e da Universidade Federal da Bahia – UFBA. Salvador (BA), maio de 1999. 1 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO I. Formação Acadêmica e Profissional II. Produção Científica e Técnica III. O Exercício das Atividades de Docência e de Orientação IV. Participação e Colaboração no Desenvolvimento Administrativo e Institucional da Universidade e da Escola de Administração V. Pontos de uma Agenda Acadêmica 2 APRESENTAÇÃO Neste Memorial procuro descrever a minha trajetória de vida, abordando tanto os aspectos acadêmicos, stricto sensu , quanto os aspectos profissionais, em sentido mais amplo. O seu objetivo é servir de instrumento avaliativo da Banca Examinadora do concurso de Professor Titular do Departamento de Finanças e Políticas Públicas da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia - ao qual me submeto e por isso procuro me orientar de acordo com as regras do referido edital. No sentido de alcançar o desiderato acima, estruturo este Memorial em cinco partes. Na primeira, faço um relato, dentro de uma seqüência lógico – histórica, da minha formação acadêmica, visando, sempre que possível, relacionar as opções pelos cursos de formação (nisso se inclui também a opção pela instituição de destino) com as tendências mais evidentes de cada momento da vida sócioeconômico- política nacional. Na segunda, procuro pontuar a minha produção técnico - científica , a partir de um exame crítico dos relatórios derivados das pesquisas e dos diferentes textos produzidos e publicados. Aqui, é relevante dizer que o conteúdo desta parte decorre em muito daquilo que foi realizado na etapa anterior ao trabalho de tese. Na terceira parte, faço um relato mais geral das minhas atividades de ensino e orientação, procurando destacar que tais atividades vão se conformando de forma mais positiva à medida que se consolida um campo próprio da investigação científica. Na quarta, procuro comentar, da maneira mais isenta possível, aquela que tem sido, até aqui, a minha contribuição, através de ações individuais e/ou coletivas, para a construção de um ambiente acadêmico fecundo - e que, neste momento, se consolida mantendo a excelência. Na quinta e última parte, tento sistematizar algumas idéias que constituirão os passos de um projeto de futuro para a consolidação dos aspectos positivos da minha trajetória de vida até aqui apresentada. Finalmente, quero dizer que produzir este documento não foi, verdadeiramente, uma tarefa das mais fáceis, apesar de aparentar o contrário. Trata-se de um discurso em que o sujeito fala de si mesmo, cujo texto final será submetido a uma avaliação e o resultado desta pode consolidar ou alterar uma trajetória de vida acadêmica que se assenta em duas décadas de trabalho. É caminhar no fio da navalha: de um lado, o exagero avaliativo pode significar provocação e, de outro lado, precaução excessiva pode significar falta de convicção. Este foi o desafio permanente! 3 I. FORMAÇÃO ACADÊMICA E PROFISSIONAL Meu curso secundário (l970/72) e os primeiros dois anos de universidade (1973/74) foram fortemente marcados pela conjuntura da época: milagre econômico e forte repressão política, decorrente do autoritarismo do governo militar, fase mais dura de todo esse ciclo de exceção. Motivado por razões econômicas e políticas, esse era também o momento em que se faz amplas reformas no ensino brasileiro, principalmente com a introdução do ensino profissionalizante no segundo grau em substituição à base clássico – humanística até então vigente. Entre as profissionalizações, o modismo era fazer administração, em cujo campo iniciei já no secundário e só conclui o ciclo ao finalizar o mestrado, em 1982. Para a universidade fiz a opção pelo curso de Administração Pública da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, que também oferecia o curso de bacharelado em Administração de Empresas e o curso de Secretariado Executivo. Apesar de naquela época a Bahia possuir um setor empresarial privado em relativa expansão e diversificado – por exemplo, a criação da Petrobrás, a implantação do Centro Industrial de Aratu-CIA, do Polo Petroquímico de Camaçari -COPEC, a implantação de diversos distritos industriais em mais de uma dezenas de cidades de porte médio do interior do Estado, a ampliação da agricultura com o surgimento da agroindústria etc. -, na verdade o grande empregador era efetivamente o setor público. Neste, além de permitir um trabalho de concepção mais fecunda, particularmente àqueles que estavam diretamente envolvidos com o processo de planejamento, também era a única via possível para aqueloutros que desejassem fazer estudos pós-graduados, pois durante o período de estudos se garantia salários de manutenção e também o emprego quando do retorno, além de novas oportunidades de empregabilidade no sistema universitário brasileiro – que àquela época passava a ser cada vez mais exigente da qualificação docente. Também este foi o momento em que o sistema de pós – graduação mais se expandiu, com a consolidação no Sudeste e expandindo-se para outras regiões. De igual maneira, também havia relativa facilidade para se fazer pós no exterior, através dos apoios concedidos pelos sistemas CAPES e CNPq, entre outros organismos dos governos estaduais e federal. Desse modo, se é verdade que no final dos 60 e todo os anos 70 o desejo maior do jovem universitário era obter o diploma, ingressar no mercado de trabalho com salários compensadores e, assim, garantir um patrimônio previdenciário para uma aposentadoria mais digna, também pode-se tomar como verdadeiro que uma parcela expressiva desses jovens universitários fez a opção pelo aprofundamento dos estudos de graduação, ingressando no sistema de pós – graduação do Brasil ou do exterior. Acabei optando pela segunda opção. Já com esse projeto previamente definido e consolidado nos primeiros seis meses de universidade, então deliberadamente decidi que os quatro primeiros semestres do meu bacharelado em Administração Pública seriam reservados para aprofundar estudos em campos não contemplados pelo segundo grau profissionalizante. [É importante dizer que este foi um momento em que a economia estava em pleno emprego e a demanda por mão – de – obra com 4 nível universitário excedia em muito à capacidade de oferta do sistema; assim, era comum jovens estudantes de nível superior ingressarem precocemente no mercado de trabalho e não concluírem os estudos]. Final de 1974 e início de 1975, ingressei como estagiário na Secretaria de Fazenda do Estado da Bahia, desenvolvendo tarefas de acompanhamento da execução financeira de toda administração pública estadual. Neste lugar fiquei até concluir os meus estudos universitários e os primeiros sete meses na qualidade de profissional de nível superior. Mais precisamente: de julho de 1977 a fevereiro de 1978, época em que fui para o Rio de Janeiro fazer o curso de mestrado na Fundação Getúlio Vargas. Embora não houvesse uma programação prévia, a verdade é que esse estágio inicial iria condicionar, até aqui, toda a minha carreira – tanto a acadêmica, quanto a profissional. O começo de tudo é o estudo sobre a análise da estrutura de gastos do Estado da Bahia, no período de 1967 a 1976, como forma de avaliar o impacto da Reforma Tributária, que entrou em vigência em 1967, sobre os níveis de gásto e endividamento públicos. Mal havia iniciado o trabalho de levantamento dos dados estatísticos quando fui obrigado a viajar para fazer o mestrado. [O estudo ficava, portanto, suspenso para ser retomado numa outra oportunidade]. No ato da inscrição do programa de mestrado era-se induzido a definir a área de concentração que seria objeto de aprofundamento, inclusive a possível temática de tese. Assim, optei pela área de concentração em Planejamento Governamental, tendo como sub - área estudos de políticas agrícolas. A escolha da área e da sub–área era óbvia naquele momento, pois foi o momento em que o Brasil procurava consolidar em definitivo o processo de industrialização, completando a sua matriz industrial com a implantação da indústria químico- petroquímica e setores da indústria de bens de capital, através da execução do II PND – Plano Nacional de Desenvolvimento. Se dificuldades já se avizinhavam (com a desaceleração econômica e prenúncios de dificuldades crescentes no Balanço de Pagamento, particularmente na conta capital), ainda assim os altos índices de crescimento econômico e a proposta de políticas sociais estruturantes, ampliando o grau de cobertura em áreas como habitação, previdência pública, atendimento médico etc., era uma sinalização de que o Estado continuaria sendo a locomotiva do processo de desenvolvimento brasileiro. Ao lado disso, tínhamos na Bahia a expansão da fronteira agrícola – a Chapada Diamantina, com o café; o Extremo-Sul, com os hortifrutigranjeiros; e, sobretudo, o Oeste, com produção de grãos, particularmente soja. Estes fatores, aliados ao sentimento de retomar o trabalho na área de finanças públicas deixado para trás, me fizeram desenvolver uma temática de tese intitulada Planejamento e Investimentos Públicos no Setor Agropecuário Baiano – 1970/1979. O objetivo básico era mostrar que nem tudo ia bem no processo de modernização do setor agropecuário brasileiro, porque, assim como o crédito agrícola – o principal instrumento de modernização do setor -, os investimentos governamentais vinculados à montagem de uma infra–estrutura de apoio ao setor estavam fortemente concentrados naqueles produtos voltados para o mercado internacional. No segundo semestre de 1979, retornei a Salvador e me vinculei ao Centro de Planejamento do Estado da Bahia – CEPLAB, onde passei a integrar um 5 grupo de estudos que estava analisando a importância do Setor Produtivo Estatal Baiano – SPEB no processo de desenvolvimento econômico, social e institucional do estado. A parte sob a minha responsabilidade foi a análise da dinâmica organizacional e do desenvolvimento institucional. A principal contribuição minha a esse estudo está no próprio relatório de pesquisa e em artigo publicado na Revista de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas, em 1985, intitulado Empresas Estatais: Tentativa de Definição de Tipologia para o Entendimento do Processo de sua Expansão. Após a conclusão desse estudo, em julho de 1980, fui convidado a integrar o corpo técnico da recém – criada Assessoria Econômica da Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, onde permaneci até junho de 1983. A minha passagem pela Secretaria da Fazenda ganha importância acadêmico – profissional na medida em que tive a oportunidade de realizar, até aquele momento, os meus dois mais importantes trabalhos – o primeiro refere-se à minha Dissertação de Mestrado, destacada acima; o segundo trata-se da recuperação do meu primeiro trabalho de pesquisa, iniciado no segundo semestre de 1977 e abandonado em fevereiro de 1978, momento em que ingressei no programa de mestrado. Este estudo tem um mérito histórico e uma constatação. O mérito histórico está no fato ser o primeiro estudo sobre o Estado da Bahia que procura associar as finanças públicas e o processo de desenvolvimento, trabalhando uma série histórica referente aos anos 70. A constatação empírica está no fato de negar uma evidência que parecia óbvia até aquele instante: por ser o governo federal responsável pela política desenvolvimento econômico e em havendo algum grau de divisão institucional do setor público brasileiro, então caberia aos estados –membros e aos municípios um envolvimento maior com os programas voltados para as políticas sociais estruturantes: saúde, habitação, educação etc.; na verdade isso não é comprovado no estudo – e o que concluímos é que, enquanto não se chega a um estágio mais avançado de industrialização, o plano orçamentário do Estado Capitalista está mais voltado para os projetos produtivos e para a infra –estrutura, particularmente aquela de natureza mais econômica. Vale ressaltar que os resultados desse estudo foram condensados em um artigo intitulado Mudanças nos Padrões Produtivo Organizativos, a Divisão Institucional do Trabalho, e o Processo Alocatório de Recursos no Estado Capitalista – uma referência ao caso da bahia, publicado na Revista Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas. Depois da defesa da Dissertação de Mestrado (em 1982) e já na qualidade de professor do Departamento de Administração Pública da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, a minha preocupação acadêmica maior passou a ser fazer o programa de doutorado. Inicialmente, pensei seguir a tradição do meu Departamento, que era fazer a pós na University State of California - no meu caso seria um doutorado em Administração Pública, tendo como área de concentração Planejamento Governamental. Já aceito para ingressar no ano letivo 1985/1986, recebi uma informação de que o Instituto de Economia da Universidade Estadual de Capinas estava criando um doutorado em Economia do Setor Público, objetivando, sobretudo, formar quadros profissionais para atuarem como agentes no processo de formulação e implementação de políticas no país. Dadas as instabilidades e as incertezas da situação econômica brasileira, então fiz a opção por esperar o programa da UNICAMP. Além disso e mais 6 importante, havia toda uma orientação teórica na Escola da UNICAMP que me interessava muito mais do que a alternativa que se apresentava na USC. Assim, no segundo semestre de 1986 ingressei no programa de doutoramento de Campinas e, em dezembro de 1991, de lá saí com o título de Doutor em Economia com a defesa da tese intitulada “A História das Idéias sobre o Estado e a Teoria das Finanças Publicas no Contexto do Capitalismo”, sob a orientação do professor doutor José Carlos de Souza Braga. Antes mesmo da defesa de tese de doutoramento já havia assumido, em setembro de 1990, o cargo de Diretor Geral do Centro Educacional de Tecnologia em Administração - CETEAD, instituto vinculado à Escola de Administração da UFBA. Em dezembro de 1992, assumi a Direção da Escola de Administração, cujo mandato de quatro anos finalizou, portanto, em novembro de 1996. Não obstante as atividades administrativas, não foram interrompidas as chamadas obrigações acadêmicas: as atividades de ensino, orientação, pesquisa e, em ritmo menor, de extensão. Depois de cinco anos de conclusão do Doutorado, achei por bem fazer uma reciclagem mediante um programa de pós–doutorado, preferindo uma universidade fora do país. Como estava desenvolvendo pesquisas sobre o desequilíbrio fiscal do estado brasileiro e tinha em perspectiva ampliar o escopo do trabalho incluindo os países da Península Ibérica , então optei pelo programa do Instituto Superior de Economia e Gestão(ISEG) da Universidade Técnica de Lisboa n(UTL), na qualidade de bolsista da CAPES e desenvolvendo o projeto “O Desequilíbrio Fiscal do Estado Brasileiro – bases para um programa de reformas”. O período do estágio foi de setembro de 1997 a agosto de 1998. Na oportunidade pude desenvolver a parte teórica da pesquisa, que se traduz como aprofundamento do meu trabalho de tese de doutorado. II. PRODUÇÃO CIENTÍFICA E TÉCNICA Neste capítulo, o meu esforço maior será determinar de forma mais clara possível a linha teórica e analítica dos trabalhos realizados por mim ao longo da minha trajetória de vida acadêmica e profissional. Esta tarefa fica um tanto mais difícil na medida em que os trabalhos são diferentes e realizados em épocas distintas, embora guardando complementariedade de um em relação ao outro. Para facilitar o entendimento, vou me permitir enquadrá-los em dois grandes campos analíticos: o campo da Administração Política e o campo da Economia Política. Para entendimento do primeiro eu me valho das considerações de Noberto Bobbio acerca dessa temática para chegar ao entendimento da administração política como sendo ...a forma pela qual o Estado se organiza e se estrutura para gerir o processo das relações sociais de produção [vide trabalho meu em co-autoria com Elizabeth Matos Ribeiro, publicado na Revista de Administração Pública, n.4 de 1993]. Para o caso da economia política, e considerando que grande parte do que tenho feito está no campo das finanças públicas, eu parto da definição smithiana: a economia política, considerada um setor da ciência próprio de um estadista ou de um legislador, propõe-se a dois objetivos distintos: primeiro, prover uma renda 7 ou manutenção para a população ou, mais adequadamente, dar-lhe a possibilidade de conseguir ela mesma tal renda ou remuneração; segundo, prover o Estado ou a comunidade de uma renda suficiente para os serviços públicos [A Riqueza das Nações, v1.p 357]. Nesse caso, pode-se concluir que uma está perfeitamente integrada e relacionada com a outra: se Economia Política é capaz de apontar o grau de necessidade do estadista e da sociedade e os meios de provê-los, a Administração Política, traduzida na sua forma mais convencional como a Gestão do processo produtivo sob o comando do Estado, é capaz de arranjar os parâmetros operativos ( organizacionais e institucionais) para a execução dos desideratos da sociedade. Com essa metodologia expositiva, acho que não seria muito pertinente traçar uma linha de comentários tomando cada texto de per se e nem fases sucessivas de um em relação ao outro. Nesse caso, o mais apropriado seria enquadrar os trabalhos dentro daqueles dois grandes campos apontados acima e explicitar o que de mais relevante foi concluído. No primeiro campo – o da Administração Política – se enquadram praticamente todos os meus trabalhos que tratam do Estado, do processo de formulação e implementação de políticas públicas – no âmbito local, estadual, regional e nacional- e das relações intra e intergovernamentais. Nesse rol destaco como os mais relevantes os seguintes trabalhos: a) Notas Preliminares sobre o Padrão de Intervenção do Estado da Bahia-l955/l980, publicado na RAP, n. 2 de 1988; b) Empresas Estatais da Bahia: uma análise contábil- financeira, publicado na Revista do Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais- CENPES, em 1986; c) Breves Notas sobre a Natureza da Política Agropecuária Brasileira: do planejamento por produto ao planejamento global, publicado na RAP n.2 de 1989; d) projeto de pesquisa Avaliação das Políticas Públicas do Estado da Bahia (durante os anos 80) e as Perspectivas para os Anos 90, resultados publicados em livro com o título Políticas Públicas Baianas: análise e perspectivas, em 1991; e) a Administração Política Brasileira, publicado na RAP, n.4 de 1993; f) os projetos de pesquisa desenvolvidos, a partir de 1995, com financiamento da SUDENE , com destaques para Finanças Municipais e Possibilidades de Descentralização no Plano da Região Nordeste e Análise Institucional do Poder Executivo dos Estados do Nordeste [ vide currículum vitae ]. Dos trabalhos referenciados, as contribuições relevantes, no meu modo de ver, vão desde o ineditisno de algumas análises, a oportunidade conjuntural de outras (que servisse de orientação às políticas governamentais), até aportes teóricos que me parecem consistentes para a compreensão de nossa realidade. Assim, o texto “Notas Preliminares...” é uma tentativa de entender, pois não se conhecia até então, o padrão de intervenção que caracterizou um Estado como o da Bahia, assim como a tendência das políticas públicas no contexto de uma unidade federada e com projetos de expansão das estruturas econômicas e sociais descompassados no tempo em relação ao projeto nacional. O estudo “uma análise contábil – financeira” (item “b”) se realizou pela motivação de se contrapor ao diagnóstico da ortodoxia que dava conta (mesmo sem ter qualquer comprovação empírica, a não por evidências 8 pontuais e convenientemente determinadas) que a desaceleração econômica e a alta inflacionária decorriam do excessivo intervencionismo governamental, que em razão de sua baixa produtividade reduzia a eficiência geral do sistema econômico e, por conseqüência, produzia desequilíbrios nos planos orçamentários do estado; e o foco desses desequilíbrios era justamente o assim considerado Setor Produtivo Estatal – SPE. Desse modo, esse estudo começou a ser realizado antes mesmo de o Governo Federal criar a Secretaria Especial de Controle das Empresas Estatais – SEST, vinculada ao Ministério do Planejamento. Desse modo a Bahia tornou-se um dos estados pioneiros nesse tipo de estudo. A principal conclusão do estudo foi que: a) no conjunto, o SPE era superavitário; b) as empresas ou o conjunto de empresas de um mesmo setor quando apresentavam déficits estes decorriam ou de política de preços para conter a alta inflacionária ou de subsídios concedidos (sem o devido ressarcimento por parte do Tesouro Estadual ) a consumidores (transportes de massa, por exemplo) e/ou a empresas privadas compradoras de insumos produzidos pelo SPE; e c) também ficou evidente que caso o Estado deixasse de criar aquelas estruturas produtivas sob o seu comando dificilmente o desenvolvimento econômico e social estaria no estágio então alcançado. Penso que nesta mesma linha de compreensão encontra-se os estudos relacionados com a política agropecuária brasileira, particularmente o intitulado Breve Notas sobre a Política Agropecuária (ítem “c”), que procura fazer um contraponto ao relativo consenso em torno do planejamento agrícola brasileiro, particularmente nos anos 30, 40 e 50, afirmando que nesse período o planejamento seria geral, enquanto que nos anos posteriores teríamos uma situação inversa; ou seja, perderíamos a característica de um planejamento mais geral para dar lugar a um planejamento por produto. A nossa hipótese contrária ao consenso se baseia no fato de que para viabilizar o Programa de Substituição de Importações – PSI a saída fora fortalecer aqueles que se pretendia derrotar – no caso as oligarquias agropecuárias; mas o apoio ao setor não era genérico, porém localizados naqueles produtos que tinham realização no mercado internacional. Daí se poder compreender a criação do Instituto do Açúcar e do Álcool – IAA, do Instituto Brasileiro do Café - IBC, Instituto de Cacau da Bahia – ICB, Instituto Baiano do Fumo – IBF, os vinculados a madeira, couros e peles, sal etc. Só a partir dos anos 60, quando se inicia o processo de modernização da agricultura brasileira (apropriadamente denominada de “modernização conservadora”) é que o governo vai articular uma política mais ampla e integrada, mediante programas de eletrificação rural, irrigação, pesquisa e extensão, armazenagem, abastecimento, os PDRI’s (particularmente para uma região problemática como a Nordeste) e, sobretudo, a política de crédito rural, que era verdadeiramente integradora, inclusive na formação dos Complexos Agroindustriais. Um trabalho típico de avaliação de conjuntura e de sinalização de tendências foi o estudo de 1990 e publicado em livro em 1991 (ítem “d”) e que procura fazer uma avaliação da economia e das políticas públicas para e do Estado da Bahia, durante os anos 80. Este trabalho, além de ser um dos poucos que em dados momentos procuram buscar uma interpretação para um período relativamente longo do que está acontecendo com a economia e com as políticas do setor público, tem o mérito de construir uma agenda que, relendo9 a hoje, vejo ter uma atualidade exemplar. Trata-se do capítulo III Políticas Públicas e Pontos para uma Agenda de Governo, que se desdobra em seis pontos, a saber: I. considerando que a recessão era causada por uma política restritiva do governo federal, ainda assim o governo estadual poderia manipular alguns instrumentos em favor de uma política expansionista de gastos (tal como fora na década anterior), pois não se cristalizava como verdade absoluta a máxima de que os estados e municípios nada podem fazer dado que os instrumentos estão nas mãos do governo federal. A nossa argumentação foi ( e é ) no sentido de relativizar tal assertiva – mais uma vem sem o maior esforço para uma comprovação empírica; II. remete para uma reflexão crítica no sentido de se rever algumas práticas de gestão e os conteúdos das políticas. O nosso quadro de indigência é tão grande que as políticas públicas no Brasil têm sido avaliadas mais pelo grau de cobertura do que pela qualidade e efetividade. A proposta naquela oportunidade era que o governo do Estado da Bahia assumisse a crise como um dado e se desse conta que a busca desesperada por uma maior cobertura da política pública estava levando a uma perda de efetividade; ou seja, a construção de um novo posto de saúde quase sempre implica no sucateamento de um outro já existente. Nessas condições, o mais correto do ponto de vista da utilização de recursos, numa situação de escassez, é fazer uma expansão pela melhoria da qualidade e produtividade da estrutura existe vis-à-vis a expansão pura e simples de novas estruturas; III. a partir dos pontos apontados acima, dizíamos que ficava aberta a oportunidade para se discutir uma nova agenda para o setor público brasileiro, tomando por base o Código Tributário Nacional , visto que a uniformização leva a um maior desequilíbrio justamente em razão das condições pré – existentes. Então, impõe-se como urgente a revisão da descentralização, consagrados na Constituição de 1988. Esta imposição (válida até hoje) decorre da evidência de que existem situações em que a produção deve ser assumida pelo governo federal, outras em que o governo central deve atuar subsidiariamente e, ainda outras, que devem prescindir da cooperação da União; IV. induzíamos a se pensar adequadamente a problemática político-institucional, porque é nesse nível que se estabelecerão as negociações que viabilizariam os pontos mais importantes da agenda que se estava propondo. Apontava-se na oportunidade que o maior desafio dos anos 90 para os estados–membros em geral, e para a Bahia em particular, seria conduzir eficiente e eficazmente os serviços públicos estaduais na área social, alem dos serviços que estavam sendo descentralizados (de forma pactuada ou não). Julgava–se importante e oportuno o Estado preparar-se para o exercício dessas funções, além de deve iniciar um adequado programa de assistência aos municípios a fim de capacitá-los para as também inúmeras ações que estavam (e ainda estão) sendo municipalizadas. Para tanto seria necessário: a) traçar políticas globais e setoriais e convocar o setor privado para a execução de parte dessas políticas; b) re - elaborar a política estadual de ciência e tecnologia no sentido de desenvolver potencialidades industriais, agropecuárias e serviços em geral para que a Bahia pudesse atuar em espaços possíveis da cadeia produtiva 10 nacional; c) elaborar uma política regional, capaz de se viabilizar alternativas para regiões em processo de decadência (Semi – Árido, Recôncavo e Cacaueira); d) adotar uma política ambiental em função das pressões da sociedade e de projetos como a duplicação do Pólo Petroquímico, da Refinaria Landulpho Alves e da entrada em operação de unidades fabris de celulose; e e ) por último, estruturar um núcleo que trouxesse para o interior do Governo informações e discussões sobre as profundas e rápidas transformações que estão ocorrendo a nível mundial para, a partir desse conhecimento, começar pensar a Bahia no longo prazo. A síntese no campo analítico da Administração Política tento fazê-la quando da publicação, em 1993, do texto intitulado A Administração Política Brasileira. Aqui chego a duas grandes conclusões. Primeira, o processo de vinculação de recursos, instituído pela Reforma Tributária de 1967, se, de um lado, fora benéfico por articular, pela primeira vez na história político – administrativa do Brasil republicano, um programa integrado de produção pública (União, estados e municípios) e, assim , ampliando os resultados de cada unidade de capital investida pelo estado brasileiro, por outro lado, a permanência por mais de duas décadas desse modelo de vinculação levou a um desequilíbrio estrutural das contas setor público brasileiro, particularmente dos estados e municípios, pelas razões a saber: 1) invariavelmente a vinculação se verificava na conta capital, o que implicava que uma unidade de investimento no tempo To ampliava os gastos em custeio no tempo T1, T2...Tn. O problema do desequilíbrio orçamentário surge quando se verifica que o orçamento de custeio dos estados e municípios é financiado com recursos próprios, sem dúvida a parte significativamente menor do total do orçamento de receita na grande maioria dessas unidades; este desequilíbrio ficava potencializado mais ainda quando se constata que o governo federal quase sempre era solidário com os estados e municípios nos gastos com investimento, mas não no de custeio; 2) como a vinculação era uma determinação constitucional e homogênea para a totalidade dos estados e municípios (a título de exemplo: 15% do Fundo de Participação dos estados e municípios eram destinados para a educação tanto no município de Campos do Jordão/SP, quanto no de Cárceres/MT), o resultado foi produzir uma estrutura produtiva excedente em algumas localidades e uma estrutura faltante em outras – como não havia possibilidade de remanejar verbas de um programa para outro e, muito menos ainda, da conta capital para a conta custeio, então a tendência de desequilíbrio estrutural estava potencializada tanto nas localidades ricas, quanto nas pobres; e 3) o resultado final é que esse desequilíbrio levou à inadimplência de praticamente todas as unidades subnacionais brasileiras – particularmente a inadimplência junto aos organismos federais de financiamento; desse modo, em busca de uma política de ajuste fiscal do Estada brasileiro, o governo federal fez uma política de assunção desses débitos e que terminou por implicar também num desajuste em suas próprias contas[vale dizer que esta tese, até onde eu posso conhecer, é inédita]. 11 A segunda conclusão vai na direção de mostrar que a década de 70 é o momento em que o Estado brasileiro, principalmente no II PND, estrutura um Programa de Bem - Estar Social, com tendência de universalizar a cobertura em programas como a previdência pública, a educação e a saúde [ vale dizer que estamos falando de um Programa de Bem – Estar Social e não de um Estado de Bem – Estar Social – Welfere State -, que na minha concepção tem conteúdos e amplitudes diferentes]. A nossa tese é que isto fica pouco visível porque antes mesmo dessas políticas sociais estruturantes se consolidarem, entramos na crise dos anos 80 e 90 e o Estado brasileiro fez uma opção exclusiva de políticas públicas – a do ajuste fiscal – e com isso perdeu-se a oportunidade de fazer com que o resultado do nosso desenvolvimento alcançado até aquele momento chegasse à grande maioria da população. Pior do isso: nas décadas de 80 e 90 sequer mantivemos conquistas de períodos anteriores; por isso as décadas de 80 e 90 são caracterizadas pela desconstrução com despatrimonialização social. Por último, penso que nesse campo da Administração Política as minhas últimas contribuições estão nas pesquisas realizadas com o patrocínio da SUDENE e do IPEA, no período de 1995 a 1998. Trata-se, portanto, de estabelecer um novo conceito para a caracterização do grau de dependência de uma unidade da federação em relação a uma outra unidade superior e de um princípio a respeito da relação entre a alocação de recursos e os níveis de produção dentro do setor público brasileiro. O estabelecimento de um novo conceito de dependência financeira ocorreu a partir da demonstração de que o relação usualmente usada (transferências/ receita total) para medí-lo era teoricamente errada, utilizando a argumentação que se segue. Imaginemos duas comunidades: A e B. A comunidade A é pobre e para financiar as necessidades básicas da população precisa de uma complementação de recursos de terceiros (transferências) da ordem de 90%, supondo que os 10% restantes são compostos de recursos próprios. Supondo ainda que o orçamento é de 100 unidades monetárias e está sempre em equilíbrio, então podemos concluir que o grau de dependência é de 90%, tanto faz se se toma a relação transferência/receita total ou transferência/despesa total. Em situação oposta encontra-se a comunidade B, que é rica. O seu orçamento de 3000 unidades monetárias é também composto de transferências (2000 unidades monetárias) e de recursos próprios o restante. Por ser uma comunidade rica, o nível de produção de bens e serviços já foi satisfeito, apenas necessitando mantê-lo. O Comitê Assessor informa que para manter as atividades sob a responsabilidade da comunidade são necessárias apenas 1000 unidades monetárias. A partir dessa informação, o Conselho Municipal decide que o restante dos recursos disponíveis (2000 unidades monetárias) será poupado para arcar com possíveis imponderabilidades. Depois de n ano, constata-se que a comunidade é autofinanciável e o recurso transferido é desnecessário para financiar os gastos do orçamento, mas que é obrigado a recebê–lo por força de uma determinação constitucional. Nesse caso, qual a relação a ser estabelecida para medir corretamente o grau de dependência: transferência (2000 unidades monetárias) divididas pela receita total (3000 unidades monetárias) ou a relação transferência no financiamento do gasto total, que seria 0/1000? Parece óbvio que esta última relação é a mais correta; então, pode-se dizer 12 que o grau de dependência fica melhor definido pela participação das transferências no financiamento do gasto total. Com relação ao princípio acima, podemos dizer que já há muito tempo que análises a respeito das relações intergovernamentais e da descentralização não tem trazido contribuições novas a seu respeito. Sem desmerecimento algum, penso que os estudos se caracterizam mais pelo acompanhamento de conjuntura do que por qualquer outra coisa. E não têm trazido tais contribuições ou porque as hipóteses de trabalho são bastantes restringidas ou porque o questionamento prévio ao desvelamento da essência do objeto pesquisado é equivocado – por exemplo: ao invés de se perguntar por que os níveis de produção pública são tão insatisfatórios, prefere –se ainda perguntar por que determinado produto está sendo oferecido por esta e não por aqueloutra unidade de governo; ou então está-se mais atrás ainda na medida em que se investiga para saber quem está fazendo o quê no leque da produção pública no Brasil. Em grande medida vê-se que nos trabalhos de investigação a respeito dessa temática a forma está substituindo o conteúdo. Sendo assim, podemos verificar que existem no Brasil dezenas, talvez centenas, de trabalhos identificando e quantificando o grau de desenvolvimen-to, o nível de renda per capita, o grau de dependência de recursos, a participação do gasto de pessoal no tal das receitas etc., mas nada se sabe ou se procura saber sobre os custos da produção pública no Brasil e, assim, a partir de um orçamento dado, confrontar a produção efetiva com a produção potencial. Foi nessa linha de questionamento e investigação que concluímos que a noção ou o princípio da escassez absoluta de recursos para caracterizar a pobreza e justificar o baixo índice de oferta de bens e serviços públicos em determinadas regiões do Brasil era totalmente equivocado. Mediante o cotejo de três orçamentos municipais baianos [Amargosa, Eunápolis e São Francisco do Conde] concluímos que aquele município de menor orçamento (Amargosa) tinha apresentado resultados alocativos infinitamente superiores àqueles que dispunham de orçamento e receita per capita bem superiores (Eunápolis e, particularmente, São Francisco do Conde, que pode ganhar o título de símbolo da incompetência alocativa. Nesse sentido, substituímos o princípio da Escassez Absoluta pelo de Abundância Relativa de Recursos. Com Relação ao campo da Economia Política penso que o ponto inicial de minha contribuição se dá justamente com o trabalho de investigação iniciado pouco antes de minha ida para o programa de mestrado, em 1978, e só concluído, em 1983, intitulado Mudanças nos Padrões Produtivo – Organizativos, a Divisão Institucional do Trabalho e o Processo Alocatório de Recursos no Estado Capitalista – uma referência ao caso da Bahia e publicado na Revista de Administração Pública da FGV. Com esse trabalho penso que a minha principal contribuição pode ser avaliada em duas dimensões: a) uma prática, por ser, salvo melhor juízo, o primeiro estudo a avaliar a política governamental do Estado da Bahia por um período relativamente longo [ a década de 70] e b) uma outra teórica, por associar a mudanças nos padrões produtivos e organizativos de um Estado inserido na dinâmica capitalista como determinantes na expansão dos gastos públicos e, sobretudo, demonstrar que se na proposta keynesiana os gastos estatais 13 devem ser anticíclicos, no Estado capitalista que emerge no pós 30 [ e particularmente no pós Segunda Guerra] os gastos também assumem uma característica pró – ciclo; isto é o que foi verificado para o caso da Bahia, na década de 1970. Um segundo trabalho dentro desse campo do conhecimento refere-se à própria dissertação de mestrado, concluída em 1982, e intitulada Planejamento e Investimentos Públicos no Setor Agropecuário Baiano1970/79. De fato, um estudo complementa o outro em termos da análise da realidade baiana, porém neste último a preocupação era o entendimento da política pública para um setor específico e verificar se esta obedecia à orientação das políticas formuladas pelo governo federal ou se ela tinha algum grau de autonomia. Assim, não só constatamos uma autonomia restringida pelo direcionamento dado pelas políticas federais, como a lógica era a mesma; isto é, com os esforços concentrados naquelas regiões e produtos voltados fundamentalmente para o mercado externo. Independente do mérito e do campo demarcatório em que estejam os trabalhos anteriores, em verdade os estudos desenvolvidos no programa de doutorado e no de pós- doutorado, além de serem as minhas melhores contribuições ao conhecimento, são as sínteses de todo o trabalho anteriormente realizado, a despeito do fato de que para efeitos metodológicos de exposição deste memorial tivesse dividido em Administração Política e Economia Política. Digo que é uma síntese porque sem aqueles trabalhos pretéritos dificilmente teria condições de abrir perspectivas para a realização dos referidos estudos e, muito menos ainda, de poder fazer aportes teóricos que os considero relevantes para este campo do conhecimento. No trabalho do doutorado a grande preocupação era com a crise, compreendida pelos ideólogos do capitalismo como circunscrita ao setor público e o déficit invariavelmente é tomado como variável analítica. Nesse sentido, a ortodoxia considera que a instabilidade do sistema econômico está sendo determinada por uma política orçamentária desequilibrada, na qual a despesa está sempre crescendo adiante das receitas, que se traduz em déficit do setor público. Para financiá–lo o governo é obrigado a recorrer permanentemente à emissão de moeda. Esta expansão do poder de compra provocado pelo desequilíbrio fiscal do Estado produz “necessariamente” instabilidade no sistema de preços, com efeitos negativos sobre a economia real. A partir dessa premissa da ortodoxia, todo o meu esforço teórico e analítico foi no sentido de negá-la. Primeiro porque a ortodoxia parte da hipótese de que na raiz dos desequilíbrios das contas públicas está uma política excessiva e desordenada de gastos; na verdade, os desequilíbrios orçamentários verificados nos países capitalistas decorrem da obrigatoriedade que tem o Estado capitalista de avançar gastos visando a garantia da taxa de lucros [particularmente dos setores líderes], sobretudo quando garante a produção em setores de infra-estrutura econômica, projetos produtivos na área da indústria de base, pesquisa e desenvolvimento, gastos em programas de bem-estar social, gastos militares etc. Segundo porque, em muitos casos, a base analítica fica subordinada às 14 armadilhas ideológica do liberalismo; com isso, a análise econômica perde significado, pois todo instrumental teórico utilizado é arranjado no sentido de apontar resultados consentâneos com as postulações ideológicas – isto é o mesmo que fazer a história econômica pelo ponto de chegada, em cujo processo o referencial teórico tem apenas o papel de ornamento analítico[ pois dele pode-se prescindir facilmente], já que os resultados são conhecidos a priori. A síntese desse diagnóstico da ortodoxia pode ser apresentada da forma que segue: maior grau de intervenção aumenta a ineficiência alocativa, o que faz declinar o nível de produtividade do sistema econômico. Portanto, mais gastos públicos e menor receita ampliam o déficit público. Com o Estado competindo por recursos, o déficit faz aumentar as taxas de juros e os níveis de preços. Com isso, ficam dificultadas as possibilidades de novos investimentos com conseqüente queda no nível de atividade econômica: é a crise generalizada. Qual é, então, a solução recomendada pela ortodoxia para se conter o ímpeto intervencionista do Leviatã? O Caminho apontado tem duas variantes, porém convergentes para o mesmo ponto. De um lado, sugere-se o corte linear das despesas, estimando-se que, a um dado percentual, em N anos o equilíbrio será alcançado e os problemas resolvidos. De outro lado, e como reforço à medida anterior, recomenda-se a transferência para a iniciativa privada do ativo estatal imobilizado na produção de mercadorias e serviços – essa medida não só possibilita aumentar a eficiência alocativa do sistema econômico, como também permite ao Estado o resgate mais acelerado da sua dívida junto aos agentes econômicos. Com efeito, a discussão se processa a partir de uma visão ad hoc da intervenção do Estado, como se a interferência direta ou indireta deste no desenvolvimento econômico e social não fosse uma condição historicamente determinada pelo processo de acumulação verificado nas economias capitalista. Nesse ponto surge um dilema para a teoria econômica ortodoxa: como o Estado tem podido financiar esse elevado grau de intervenção sem afetar o ritmo da acumulação do setor privado e o nível de bem-estar dos cidadãos, já que sua ação alocativa é considerada ineficiente? Sem dúvida, esta é a questão-chave para se entender se as hipóteses em que se sustentam a ortodoxia tem validade para sustentar a noção de crise fiscal do Estado capitalista. Verifica-se que a curiosidade teórica da ortodoxia constatou, ainda no século XIX, através do alemão Adolph Wagner, que o desenvolvimento da moderna sociedade industrial implicaria em crescentes pressões pelo progresso social . A partir dessa constatação, Wagner formulou a sua lei de tendência crescente dos gastos públicos: à medida que a renda nacional cresce, os gastos públicos crescem numa proporção ainda maior. Mas tal constatação era válida apenas na fase inicial do desenvolvimento econômico, pois para as fases posteriores, inclusive numa situação de pós-industrialização, os adeptos da linha ortodoxa das finanças públicas transferem o problema para o longo prazo, dando conta, de um lado, que a situação-limite da tendência dos gastos crescerem numa proporcionalidade maior do que a renda seria a capacidade de pagamento de impostos por parte do contribuinte ou, de outro 15 lado, supondo que os gastos do Estado são motivados por demandas sociais, formula-se a hipótese de que, no longo prazo, há uma tendência de deslocamento para baixo da função despesa em razão do elevado nível de bem–estar social. No caso da primeira hipótese ela não se sustenta nem mesmo em condições de um capitalismo estacionário. No caso da segunda só poderia ser verdadeira caso a motivação de gastar do Estado fosse determinada única e exclusivamente pela demanda de bens de consumo público – o que não é essa a verdade da produção estatal nos marcos do capitalismo. Na verdade, o leque da produção estatal é muito mais amplo do que o pressuposto e varia desde as ações administrativo – normativas, passando pelo complexo industrial – militar, pelas despesas de caráter sócio – econômico [como educação, saúde, transportes, centros de pesquisas etc.], até chegar à produção direta de mercadorias de consumo – segundo a boa tradição neoclássica – estritamente privado. Desse modo, pude concluir nessa discussão teórica com a ortodoxia que as restrições ao crescimento dos gastos mais que proporcional à expansão da renda não ocorrem pelo lado da receita – principalmente aquelas decorrentes dos tributos -, mas antes pelos limites impostos à capacidade de endividamento, dado que o Estado não teria condições de financiar essa larga base produtiva mediante mecanismos tradicionais, do tipo apropriação de parte do excedente social pela via fiscal. Nesse sentido, avançar na discussão acerca do gasto público e das formas de financiamento, pelo caminho aqui indicado, pode significar para o pensamento ortodoxo das finanças públicas a destruição dos seus próprios alicerces teóricos. A partir dessa discussão inicial, fui motivado a alargar o escopo da minha tese tendo em vista a necessidade que se apresentava de adentrar-me nos fundamentos teóricos que dão sustentação à política liberal no capitalismo de hoje. Assim, fui estudar a Escola Clássica, cujo estudo me permitiu concluir: 1) Adam Smith é quem melhor procura definir os limites ótimos da intervenção do Estado no sistema econômico: 2) a sua famosa expressão mão – invisível não tem em sua obra o status que muitos ditos modernos querem atribuir-lhe hoje em dia – ela aparece na obra apenas circunstancialmente; 3) também Smith, além de ser considerado o fundador da economia enquanto uma disciplina própria, ele procura conceituar a Economia Política a partir de sua compreensão da inserção do Estado na dinâmica social – a partir desse momento a Teoria das Finanças Públicas passa a ganhar importância singular em todas as obras dos autores da Escola Clássica, inclusive com David Ricardo intitulando a sua principal obra de Princípios de Economia Política e Tributação; 4) de igual modo, Say caso não tivesse aprofundado sua discussão acerca das finanças públicas – como exemplo a natureza dos gastos produtivos e improdutivos – dificilmente teria chegado à sua Lei dos Mercados; 5) Ricardo, não só absorve a Lei dos Mercados de Say, como vai aprofundar as discussões acerca das finanças públicas trabalhando como ninguém o lado das receitas para concluir que a tributação, em última instância, recai sobre o capital e por isso ela cria obstáculos à acumulação; por conta disso defende a intervenção ao estritamente necessário para fazer reduzir as necessidades de gastos; 6) Malthus, apesar do seu conservadorismo e do pouco reconhecimento de Keynes, é quem vai se 16 contrapor à Lei dos Mercados de Say e à idéia da tributação como um obstáculo à acumulação de Ricardo, mostrando que o ciclo da produção capitalista não se encerra no circuito da produção, mas também devem ser incluídos os circuitos da realização (venda do produto produzido) e da distribuição dos resultados finais. A partir dessa construção ele pode chegar ao princípio da demanda efetiva. Na parte II da tese trabalho uma discussão com a chamada Escala Neoclássica, cujas principais conclusões são: 1) a construção teórica das finanças públicas abandona a tradição clássica fundada no valor trabalho e segue a concepção teórica da Escola Neoclássica fundada na valor utilidade, baseado na cálculo econômico racional e na economia de bem-estar – tão bem concebida nos seus marcos iniciais por Arthur Cecil Pigou; e 2) a recusa em aceitar a formulação de Milton Friedman que afirma ser a política econômica expansionista keynesiana sustentada na idéia do déficit orçamentário, construído pelo lado da despesa; se o problema é um déficit, então ele pode ser construído pelo lado da receita, através do corte nos impostos – afirma Friedman. Essa não era a essência do princípio da demanda efetiva e a construção da sua teoria do emprego; a idéia era, numa situação de queda acentuada no nível de atividade, elevar o nível de dispêndio em consumo e investimento, particularmente neste último, e não produzir um déficit. Na parte III trato fundamentalmente do pensamento de Keynes acerca das finanças públicas e os ataques sofridos por ele por conta de suas proposições nesse campo. Em verdade Keynes sequer abriu uma seção em sua principal obra para tratar sticto sensu das finanças públicas, mas é óbvio que quando escreve o Capítulo 3, O Princípio da Demanda Efetiva, e o Capítulo 24, Notas Finais Sobre a Filosofia Social a que Poderia Levar a Teoria Geral – sem mencionar passagens importantes no restante do seu livro, inclusive quando procura determinar a melhor forma de financiar o gasto governamental numa situação de depressão – ele tem em mente as políticas fiscais e monetárias, o orçamento público, portanto as finanças públicas. Outro ponto importante das concepções de Keynes nessa área é constatar que o Estado que emerge depois da crise dos trinta e da Segunda Guerra não fazia parte da agenda de Keynes, portanto não é uma concepção sua como afirmam quase unanimemente os conservadores e os progressistas de diferentes origens. Em vários momentos Keynes diz que numa situação de insuficiência de demanda efetiva o Estado deve elevar os gastos, porém quando a situação de pleno emprego se avizinhar o Estado deve desacelerar os seus dispêndios e passar o ativo construído para as mãos do setor privado. Desse modo, construir um anti-keynesianismo a partir do Estado que se conformou depois dos anos trinta é um equívoco analítico imperdoável. Sem margem a dúvidas, a síntese maior dessa minha produção científica e técnica ocorre a partir do desenvolvimento da parte teórica do Projeto Endividamento e Esgotamento do Padrão de Financiamento do Setor Público Brasileiro, durante o programa de pós-doutoramento no Instituto Superior de Economia e Gestão – ISEG da Universidade Técnica de Lisboa – UTL. Na tentativa de aprofundar o trabalho realizado durante o programa de doutorado, neste eu procuro me deter frente a problemática da crise. A ala hegemônica procura circunscrever a crise nos limites do chamado 17 [equivocadamente] Estado de Bem-Estar Keynesiano. Na minha concepção um problema já ficara resolvido desde o trabalho de tese, qual seja: o Estado que se combatia não tinha inspiração nas teses de Keynes, assim como a crise não estava nos limites das contas públicas. Os indicadores de crescimento lento ou nulo, desemprego aberto e a financeirização do capitalismo apontavam para o situação de maior gravidade. Porém, a partir da análise de Keynes foi possível encontrar o fio da meada e formular um contraponto crítico. Todo o equívoco tem origem na formulação da hipótese inicial, dando conta que o Estado atua externamente ao sistema econômico e, mesmo assim, restrito à esfera do consumo. Para me contrapor a essa formulação foi necessário incorporar à teoria a variável investimento. A partir dessa integração foi possível perceber que o Estado é o único capitalista, dentro do capitalismo, a possuir as condições de definir e orientar os níveis de produto e emprego, pois atua com relativa autonomia sobre os níveis de oferta e demanda agregadas. Superado esse ponto, então restava saber o momento em que o Estado passa a ser o principal capitalista a comandar capitais. E o ponto de inflexão é justamente a crise dos anos 30. Saber o que ocorreu nas relações do Estado com a economia naquele momento é a chave para se compreender o que está ocorrendo com a economia política do capitalismo a partir dos anos oitenta. Assim, deve ficar claro que o Estado que emerge a partir dos anos trinta não é o que se tem em mente nas análises correntes. Ao contrário, é um Estado que surge em circunstâncias privilegiadas porque passa a ser responsável por uma parcela ponderável da produção social, tanto pelo lado do consumo quanto [e principalmente] pelo do investimento. À medida que a economia crescia a taxas elevadas (dentro de um quadro de relativa harmonia social, sustentado pelas instituições criadas nos acordos de Breton Woods, na implementação do Plano Marshall, nos programa de Bem –Estar Social etc.) era de se esperar que a produção sob a responsabilidade do Estado apresentasse um desempenho ainda maior em razão de quatro condições especiais. A primeira, como a produção estatal estava concentrada em bens e serviços de consumo coletivo e o chamado Welfare State era um programa que visava (por diversas razões) permitir às massas um acesso rápido aos resultados do progresso alcançado, a tendência era (até por razões técnicas) a oferta crescer, em certos casos, adiante da demanda – o que exigia volumes cada vez maiores de investimentos. A segunda, embora se saiba que as taxas de retorno do investimento nesses setores sejam menores, ainda assim o Estado se beneficiava da condição de monopolista natural; como a demanda insatisfeita era ampla, então havia condições de mercado para que a produção nesses setores crescesse mais rapidamente em comparação àquela voltada para o chamado mercado privado e competitivo. A terceira, dado que o avanço tecnológico impõe transformações qualitativamente expressivas, notadamente no emprego e na contribuição dos setores na formação da renda nacional, o setor serviços passou a se constituir no espaço privilegiado para a expansão e valorização de capitais, particularmente a partir do momento em que o aumento do nível de renda ampliou o mercado consumidor com melhores expectativas de lucros. A quarta e última, mesmo com a emergência da crise que implicou em crescimento lento e assimétrico 18 entre os países e na redução nas margens de lucro, ainda assim o Estado, impelido pela necessidade de recuperar os níveis dos negócios e do emprego, continuou a impulsionar o ritmo das atividades – na expressão de economistas e cientistas políticos desavisados -, continuou a praticar um keynesianismo forçado até o momento (início dos 80) em que as abstrações dos economistas ortodoxos encontram gerentes aplicados para levá-las à prática. A partir dessas observações fica claro, portanto, que, diferentemente do imaginado pelas análises correntes, o Estado definitivamente se insere na dinâmica capitalista na qualidade de principal capitalista a comandar capitais – em algumas situações chegando a gerenciar mais de 50% da renda nacional e em outras mais de 70% da Formação Bruta de Capital Fixo. Esta divisão social do trabalho que ocorreu a partir de 30 e, no bojo dela, o Estado assumindo a liderança para definir as coordenadas das condições sociais de produção e distribuição – assim como proposto por Keynes – o capitalismo pode experimentar o momento mais auspicioso de sua história. Enquanto o capitalismo crescia a taxas elevadas e de forma simétrica não havia sinais aparentes de ruptura do pacto entre Estado e os capitalistas. Porém, com o prolongamento da recessão dos anos 70 e a assimetria do crescimento econômico verificado entre os países, o pacto entra num processo de dissolução radical. Esta situação implica no acirramento da competição, particularmente entre os capitais líderes e rivais e se instala uma autofagia que parece não encontrar limites quando se trata de ampliar os espaços na produção, nas finanças, no comércio, nos serviços e, até mesmo, nos restritos mercados dos países do terceiro/quarto mundos, outrora relegados à própria sorte! Este processo parece chegar ao seu estágio mais dramático da competição quando a concorrência leva à disputa pelas riquezas já materializadas, através das fusões e incorporações, cujo volume de negócios neste final de década já chega à casa dos trilhões de dólares! Com o aprofundamento da crise e o acirramento da competição, que reduz ainda mais os espaços para a realização de novos negócios e para a realização do lucro geral no âmbito privado, os setores estatais produtores de bens e serviços e da intermediação financeira passam a se constituir na nova fronteira privilegiada de expansão do capital e na arena ampla para novos rounds da disputa intercapitalista, não só entre as próprias empresas privadas, entre estas e o Estado, mas, sobretudo, entre os países que visam criar mecanismos de proteção aos capitais nacionais – a formação dos blocos regionais é uma evidência muito forte dessa conclusão [vide o texto A Economia Política Contemporânea e o Pouco que Sabemos. Documento de Trabalho n. 2/98. UTL/ISEG/CEDIN – Centro de Estudos de Economia Européia e Internacional. Lisboa, 1998]. Este caminho analítico nos permite, portanto, deslocar o foco da crise do âmbito restrito do desequilíbrio fiscal do Estado para o contexto do próprio capitalismo. Pode-se ver também que o capitalismo, ao encontrar dificuldades no processo de acumulação e expansão, ao invés de criar novas fronteiras de expansão fora dos seus limites, procura recriá-las nos espaços já devidamente constituídos enquanto tal. 19 Por outro lado, abordagens dessa natureza indicam que o pensamento crítico e inovador da Economia Política contemporânea deve avançar – de um lado, a partir de uma retrospectiva para recuperar aportes teóricos válidos da Escola Clássica e as fontes básicas de análise nos pensamentos de Marx, Kalecki, Keynes, Schumpeter e Galbraith e, de outro lado, com a perspetiva de atualizar e abrir novos caminhos que possibilitem a formulação e implementação de uma política econômica que tenha como finalidade o bemestar e a libertação dos povos! III. O EXERCÍCIO DAS ATIVIDADES DOCENTES E DE ORIENTAÇÃO Como a Escola de Administração é uma instituição que tem o seu programa de formação acadêmica completo [ graduação e pós – graduação lato sensu – especialização – e stricto sensu - mestrado profissional, mestrado acadêmico e doutorado] tenho geralmente atuado em todos esses níveis, seja ministrando aulas, seja fazendo a orientação de alunos. No campo específico do ensino devo dizer que, muito embora em algumas ocasiões tenha ministrado cursos cujos conteúdos estão na abrangência de minha área de formação, os meus esforços nesta área estão mais concentrados em duas disciplinas: Políticas Públicas/Administração de Empresas Estatais e, sobretudo, Finanças Públicas, com as quais sou mais identificado no meio acadêmico e técnico. No caso da disciplina Políticas Públicas/Administração de Empresas Estatais procuro dar como referencial teórico comuns aos dois cursos a compreensão que se tem do Estado na dinâmica capitalista. Começo com os clássicos (Smith, Ricardo, Say, Mill etc.), faço contraponto à Escola Clássica com as abordagens de Malthus e Engels. Em seguida, estuda-se o pensamento da Escola Neoclássica, o pensamento de Keynes acerca dessa temática, assim como o de Schumpeter. Na seqüência dessa base teórica, passo a introduzir uma análise da crise da capitalismo dos anos 30, buscando explicações, de um lado, para o processo de formulação e implementação de políticas públicas de uma forma mais sistemática e, de outro lado, o entendimento para as diferentes razões que levaram à conformação de blocos produtivos estatais em diferentes países e regiões capitalistas. Depois dessa abordagem mais geral, passo a analisar o caso brasileiro a partir dos pressupostos Cepalinos e keynesianos para o entendimento do Estado na liderança do processo de industrialização do Brasil, o planejamento enquanto método de intervenção e as políticas públicas enquanto mecanismos para impulsionar o desenvolvimento econômico e social do país e sua abrangência. Por último, procuro analisar o grau de articulação dessas políticas num contexto federado como o brasileiro (administração política), os instrumentos de financiamento (os equívocos observados no nosso caso em particular), a crise dos instrumentos de financiamento – o processo de mudança e de desconstrução das políticas públicas no Brasil. Com relação ao curso de Administração de Empresas Governamentais procuro discutir o processo de sua expansão na economia brasileira, os momentos mais importantes desse processo, os conflitos políticos, gerenciais 20 - que levam a uma situação de ambigüidade estrutural no desenvolvimento institucional do Setor Produtivo Estatal – SPE. Por fim, é analisado no curso o período de nossa crise e o momento em que se desfaz esse modelo através das privatizações – que também o caracterizo como um momento de desconstrução; até porque a realidade e a política dizem respeito a uma mesma nacionalidade. Na disciplina Finanças Públicas o referencial teórico básico são os clássicos, particularmente os mais representativos como Adam Smith, David Ricardo, Jean-baptiste Say, John Stuart Mill. De forma diferenciada também incluo na Escola Clássica Thomas Robert Malthus, por ser aquele que melhor desenvolveu o princípio da demanda efetiva em contraposição às teses de Ricardo e Say. Para o estudo da Escola Neoclássica o curso trabalha inicialmente com a Economia do Bem-estar e Teoria das Finanças Públicas de Arthur Cecil Pigou, assim como a Teoria das Finanças do contemporâneo de Pigou o também inglês Hug Dalton. Em relação à questão da tributação discute-se a escola austríaca e italiana; de igual modo, para a natureza e características dos bens públicos o programa volta-se para a escola americana estudando autores como Paul Samuelson, Richard A. Musgrave e William Baumol. O estudo da Escola Neoclássica é concluído com a discussão sobre a forma de constituição de déficit à moda friedmoniana. A parte teórica do curso é concluída com o estudo da economia keynesiana e a sua teoria do emprego na qual o gasto público tem importância destacada, particularmente numa situação em que o nível de atividade econômica esteja abaixo do pleno emprego. Também é a oportunidade em que se estuda mais profundamente Keynes no sentido de negar que o Estado que nasce após a crise de 30 e a Segunda Guerra é derivado de suas proposições. A quarta e última parte do curso se conclui com o estudo da sociedade brasileira, analisando fundamentalmente o papel dos gastos públicos na constituição do capitalismo industrial, o padrão de financiamento característico em cada uma das fases desse processo e a crise que se manifesta a partir de 1980 e que perdura até os dias de hoje. No plano da orientação de monografias (em cursos de especialização, embora as fizesse não as tenho registrado no meu currículo vitae), dissertações de mestrado e teses de doutorado é notório que este trabalho se fortalece à medida em que a área de investigação vai ficando mais definida e consolidada; ou seja, na medida em que se percebe um maior amadurecimento acadêmico do docente/pesquisador. A análise cronológica do meu próprio currículo vitae demonstra isso. Só depois da conclusão do doutorado e do desenvolvimento de estudos na linha da administração e da economia políticas – com os apoios da SUDENE e do CNPq – é que vai se observando uma certa procura e convergência de interesse entre o aluno da pós e o professor- orientador, inclusive para programas de outras unidades da universidade. Isto, a meu ver, é o que explica as oito orientações que estou fazendo no presente (acima até do limite técnico permitido pela CAPES), sendo quatro de doutorado e quatro de mestrado. 21 IV. PARTICIPAÇÃO E COLABORAÇÃO COM O DESENVOLVIMENTO ADMINSITRATIVO E INSTITUCIONAL DA UNIVERSIDADE E DA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO. Ao longo dos meus 26 anos de relação com a Escola de Administração (a contar de 1973, época em que nela ingressei como aluno de graduação), sempre exerci liderança positiva na busca de uma melhor qualificação acadêmica. Foi assim na época do mestrado, quando muitos de meus colegas resolveram seguir os mesmos passos. Diferente não foi quando (já professor da Escola) sai para o doutorado-vários outros professores sentiram a necessidade e a motivação de fazer o mesmo. Em 1980, ao regressar do Rio de Janeiro com os créditos do curso de mestrado concluídos, ingressei na Escola de Administração da UFBA na qualidade de docente colaborador. Mesmo antes de defender a tese, que só foi ocorrer em setembro de 1982, fui convidado pelo professor José Osório Reis – o então Diretor da Escola – a fazer parte de um grupo de professores – sob a coordenação do professor Fabrício Vasconcelos Soares – responsável pela elaboração do Projeto Curso de Mestrado em Administração da Escola. Este programa era vital para as pretensões acadêmicas da Escola, tendo em vista que havia um atraso em sua implantação de pelo menos 10 anos. A minha colaboração na execução do programa ficou mais facilitada na medida em que assumi a Chefia do Departamento de Administração Pública – cargo que exerci por quase quatro anos, saindo em 1986 – momento em que fui fazer o programa de doutorado. Em 1983, tem início a primeira turma do Mestrado em Administração da Universidade Federal da Bahia. Fazendo parte do corpo docente, comecei a ensinar a disciplina Administração Financeira Governamental – que depois se transformaria em Teorias das Finanças Públicas. Se é verdade que o mestrado iniciava com um atraso de 10 anos, então, em 1983, a Escola deveria estar iniciando o programa de doutorado. Esta era a nossa avaliação, mas nos perguntávamos em seguida: como acelerar a implantação do programa de doutorado se sequer temos quadros para consolidar um programa de mestrado? O equacionamento desse problema passava inexoravelmente pela qualificação do quadro docente contratado, dado que as novas contratações dependiam da autorização do Ministério da Educação e Cultura – MEC, que por sua vez dependia de autorização da área econômica que, segundo a palavra oficial, tinha como prioridade equilibrar as contas públicas. Sendo assim, em 1985, decidi ir para o programa de doutorado no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, cujas aulas tiveram início em 1986. Diante da situação de escassez de docentes com grau maior de qualificação, a minha saída implicava um desfalque tanto no Departamento quanto no programa de pós – graduação. A saída possível era fazer algum tipo de negociação com o Governo Estadual no sentido de disponibilizar para o programa algumas pessoas do seu quadro técnico. Com o aval do Governo do Estado, o estímulo para a vinda de doutores e mestres para colaborar com o programa ficou mais facilitada ainda na medida em que foi possível viabilizar junto ao CNPq bolsas de Desenvolvimento Científico Regional –DCR. 22 O ano de 1990 marca o meu retorno de Campinas e era um momento em que vivíamos uma incerteza muito grande em termos da economia do país, particularmente em razão da posse do primeiro presidente eleito em eleições livres, no pós regime militar. Não obstante, no plano interno da Escola de Administração já tínhamos o que comemorar, pois o programa de mestrado se consolidava – vindo a obter o conceito A no ano de 1992, época em que estava em elaboração o programa de doutorado, que teve início com a primeira turma no ano de 1993 – portanto dez anos depois de instalado o mestrado. Além de me reintegrar e passar a colaborar decisivamente com os programas da Escola, em setembro de 1990, assumi a Diretoria Geral do Centro Educacional de Tecnologia em Administração –CETEAD – instituição que fora fundada, exatamente em 1983, para dar suporte financeiro e institucional à Escola , em particular ao programa de mestrado. Dentro desse processo de mudança qualitativa da Escola era de fundamental importância integrá-la por inteiro. Isto significava que a sua Direção deveria estar empenhada nesse esforço, principalmente nas reformas curriculares dos cursos de graduação, a definição de uma política para a área de extensão e a consolidação da pesquisa, como caracterizadora de nossa identidade em uma área própria , e consequentemente dos programas de ensino de pósgraduação. Foi com esse desiderato que a comunidade da Escola de Administração me elegeu Diretor [com aproximadamente 90% dos votos válidos] para um mandato de quatro – de dezembro de 1992 a novembro de 1996. Quero crer que o exercício dos cargos acadêmicos tem maior efetividade quando assumidos por aqueles docentes que exercem uma certa liderança de natureza intelectual. Sendo assim, o exercício dos cargos acadêmicos impõe algum tipo de restrição ao melhor desempenho acadêmico. Foi essa a razão que me motivou a, de setembro de 1997 a agosto de 1998, sair para um programa de pós-doutoramento, durante o qual tive a oportunidade de retomar de forma mais intensiva e reflexiva os meus estudos sobre a temática relativa à crise fiscal do Estado Capitalista. Voltando do pós-doutorado, continuei a prestar a minha colaboração com o desenvolvimento institucional da Universidade e da Escola na medida em que fui convidado a continuar participando do Colegiado do Núcleo de PósGraduação da Escola, coordenar o Programa de Mestrado Acadêmico e representar a Escola no Conselho de Coordenação da Universidade. Caso seja aceita a análise dando conta que a Escola teve, até aqui, dois momentos distintos: o primeiro que vai de 1959, ano de sua fundação, até 1979; o segundo que se inicia em 1980 [ano em que a segunda geração de ex-alunos ingressa no seu quadro docente e da qual eu faço parte] e no qual a Escola vai experimentar as transformações que lhe deram a reputação no cenário nacional e internacional de que hoje desfruta, então posso dizer que a minha colaboração nesse processo tem sido fecunda até o presente momento. 23 V. PONTOS DE UMA AGENDA ACADÊMICA Independente de qual venha a ser o resultado do Concurso para Professor Titular do Departamento de Finanças e Políticas Públicas e independente do nome que receba este texto – denominado aqui de memorial -, ainda assim penso ser impossível deixar de pensar uma agenda de trabalho. Nesse sentido, devo dizer que o trabalho de pesquisa quando guiado pela perseverança e com o compromisso crítico nunca deve ser gerenciado de acordo com as conveniências de um tempo administrativo- burocrático, mas sim daquele tempo teórico – portanto o tempo que se faz necessário para a busca do saber. Sendo assim, eu imagino que nesse caso as noções de passado, presente e futuro parecem fazer parte de um mesmo tempo, portanto de um mesmo espaço. É essa compreensão que me faz entender que neste texto denominado de memorial e que trata fundamentalmente de um trabalho acadêmico cabe uma seção que trate de uma agenda, mesmo que ela traga em si uma idéia de futuro. Com isso apenas quero pontuar que o meu trabalho de investigação deve ter uma continuidade a partir do que já foi realizado até aqui. Se o meu campo de trabalho diz respeito às finanças públicas e isso tem certa relevância para compreensão da dinâmica do sistema capitalista, diante do processo de privatização em curso, minha agenda acadêmica passa, antes de tudo, pela compreensão dessa crise do capitalismo de hoje e seus desdobramentos no futuro próximo. 24