Pró-Reitoria de Graduação
Curso de Serviço Social
Trabalho de Conclusão de Curso
A MÚSICA E O SERVIÇO SOCIAL COMO MEDIAÇÕES
EMANCIPATÓRIAS
Autor: Walberth Teixeira da Silva
Orientadora: Maria Valéria Duarte de Souza
Sumário
Sumário....................................................................................................................................... 1
Brasília - DF
2014
WALBERTH TEIXEIRA DA SILVA
A MÚSICA E O SERVIÇO SOCIAL COMO MEDIAÇÕES EMANCIPATÓRIAS
Artigo apresentado ao curso de graduação em
Serviço Social da Universidade Católica de
Brasília – UCB, como requisito parcial para a
obtenção do título de Bacharel em Serviço
Social.
Orientadora: Prof.ª MSc. Maria Valéria Duarte
de Souza
Brasília
2014
Artigo de autoria de Walberth Teixeira da Silva, intitulado, “A MÚSICA E O
SERVIÇO SOCIAL COMO MEDIAÇÕES EMANCIPATÓRIAS”, apresentado como
requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Serviço Social da Universidade
Católica de Brasília (UCB), em 19 de Maio de 2014, defendido e aprovado pela banca
examinadora abaixo assinada:
_____________________________________________________
Prof.ª MSc. Maria Valéria Duarte de Souza
Orientadora
Curso Serviço Social – UCB
_____________________________________________________
Prof. Msc. Luis Alberto Delgado
Banca Examinadora
Curso Serviço Social – UCB
_____________________________________________________
Assistente Social Esp. Vangerlina Dias de Carvalho
Banca Examinadora
Membro Externo
Brasília
2014
Dedico este artigo a todos os músicos
brasileiros (e compositores), em especial
àqueles que não veem os frutos de seu trabalho
colhidos com a justiça que lhes é condigna,
verdadeiros proletários artistas, diante da
precarização e do abandono por parte do
Estado com sua frágil e questionável política
de cultura. Às pessoas não musicistas, que
trabalham com esta arte direta e indiretamente,
na contribuição para a emancipação de muitos
em diversos espaços. Elas já sabem do que se
trata. Aos sujeitos (usuários do Serviço Social
ou não) atendidos, pois puderam presenciar
esta mudança em suas vidas. Do mesmo modo,
para os que dão crédito e/ou apoiam qualquer
labor artístico com causas humanas, assim
como a quem acreditou e incentivou esta
produção. Pois todos os mencionados
anteriormente, de uma forma ou de outra, não
encontram o devido reconhecimento neste
país.
AGRADECIMENTO
Primeiramente, à minha mãe, em especial, pois com sua colossal paciência e fé em
meu potencial nunca desistiu e sempre me apoiou, amparou e estimulou nos momentos mais
complicados desta trajetória desde seu princípio, pois sem sua firmeza, que conforma meu
pilar emocional, certamente, nada seria; aos demais da família.
Aos meus amados avós José Pequeno e Maria de Jesus por seus exemplos, dois grandes doutores na vida, sem suas colaborações e apoio o caminho para a conclusão do meu curso de Serviço Social seria pouco provável.
Ao grande amigo e companheiro de trabalho dos tempos de empresa e um grande acadêmico na vida, Jairo Oliveira, pois foi com seus conselhos em um momento crucial de minha
vida, que fizeram a diferença entre o fato de estar ou onde estou hoje, inserido em uma universidade ou perdido no desamparo do não saber o que fazer para mudar de trajetória.
A um verdadeiro Mestre na Música e na vida, Carlos Mossmann, e sua igualmente
inteligentíssima esposa Ádia Quadros, meus valiosíssimos e estimados amigos, pois foram
fundamentais as suas ajudas na busca do meu equilíbrio emocional, que se fez necessário em
momentos profundamente dramáticos, componentes desta minha trajetória de vida.
À minha grande mestra e amiga, Professora Maria Valéria, a quem tenho grande admiração e referência pela postura pessoal e profissional, por ter topado o desafio de orientar uma
proposta de trabalho tão inédita, desafiante e ousada quanto esta, em meio a um contexto de
dificuldades pessoais minhas (mas também de alegrias); de violação, expropriação e escassez
de tempo pelo sistema capitalista neoliberal em que vivemos hoje; e de sua agenda cheia enquanto docente e Assistente Social... Ela, com sua elegância, categoria e paciência encorajame sempre perante os desafios da academia e do mundo com suas opiniões sempre precisas.
Contrastes
Há várias histórias dentro da grande história
nada se pode editar...
e na condição,
o novo e o velho numa simulação
o novo e o velho numa fusão
o novo e o velho numa contentação
de que um novo dia vai nascer
só para aqueles que sobreviverem
a novos dias
Há várias noites que não sonhamos com nada
além de um novo despertar...
e na solidão,
o novo e o velho numa situação
o novo e o velho numa posição
o novo e o velho numa contradição
de que um novo dia vai nascer
só para aqueles que sobreviverem
a novos dias
(Walberth Teixeira)
7
A MÚSICA E O SERVIÇO SOCIAL COMO MEDIAÇÕES EMANCIPATÓRIAS
WALBERTH TEIXEIRA DA SILVA
Resumo:
O presente artigo abordou sobre a relação Serviço Social/Música nos palcos sociais e profissionais como Mediações emancipatórias; as diversas formas de sua utilização pelo Assistente
Social para tais objetivos bem como parte de sua instrumentalidade; as possibilidades desta
combinação no fortalecimento do usuário dentro e fora do contexto da atuação; a ligação política entre estas duas áreas do conhecimento e com a Questão Social. Tal análise considerou
elementos caríssimos ao tema, como a perspectiva histórica, discorrendo sobre as múltiplas
dimensões e determinações dos fatos que o envolveram, dentro do contexto da luta pela superação dos problemas e pela reprodução da vida social. Após análise minuciosa, debate com
autores, ruminando conceitos e observando práticas, foi possível a confirmação de sua hipótese: “A música, assim como as demais formas de expressão artísticas e ou culturais, exerce o
papel de mediação emancipatória para os usuários do Serviço Social.” Tem enorme relevância
para a categoria por apresentar esta área artística como espaço concreto e com potencial de
grandes resultados, mas ainda pouco explorada. Esta produção teve ainda a pretensão de compor parte de uma vanguarda acadêmica já existente e subsidiar futuras pesquisas sobre o assunto, pois nele se encontra um universo de alternativas. Utilizou-se para esta elaboração o
método histórico-dialético de análise e tratamento dos dados, estes coletados através de pesquisa bibliográfica, documental, sendo de característica qualitativa, de natureza exploratória e
com Análise de Conteúdo para sua interpretação.
Palavras-chave: Música. Serviço Social. Mediação. Emancipação.
1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho possui relevância social por tratar do potencial abrangente da música no interior das relações sociais mais gerais da sociedade, estas que são manifestações de
interesses dentro de um jogo político-ideológico das classes fundamentais e suas subclasses,
cujos objetivos dos mais variados, influenciam contundentemente na conformação de paradigmas sociais que tomam forma de dominação, emancipação, conservação ou de mudanças.
Aos Assistentes Sociais, é importante por apresentar a música, enquanto uma poderosa arma
nesta correlação de forças, apontando para objetivos emancipatórios, tal como ressalta o atual
projeto ético-político-profissional da categoria.
A comprovação da música enquanto estratégia emancipatória, é a forma pela qual a
sociedade burguesa trata a arte de um modo geral, propiciando condições
para que a arte seja compreendida tão somente como criação de indivíduos excepcionalmente dotados, portadores de uma vocação, [sic] que, por inspiração [sic] quer
seja de ordem humana, religiosa ou mágica, em suas criações expressam emoções
pessoais criando obras originais e únicas. (PEIXOTO, 2005, p. 156 – grifos do autor).
Influenciando todo o social, também o faz à vida e consequentemente ao trabalho de
todas as profissões, inclusive o Serviço Social, pois estão inseridas neste contexto ideológico.
8
Tomando consciência dele, a música - como qualquer outro elemento dentro da amplitude de
subsídios que a realidade oferece - pode se converter em sua ferramenta interventiva.
A partir de uma abordagem histórico-dialética, para contrapor tal concepção, – que
inferido aqui, é conservadora por separar o aspecto político da arte – observou-se que as expressões artísticas são resultado das subjetivações dos autores, em meio à realidade objetiva;
que a absorve e então devolve ao meio, resubjetivada, como expressão refletida. Conforme
expõe a autora, “a arte é imanente ao social: nasce na e para a sociedade.” (PEIXOTO, 2005, p. 157).
E o Serviço Social, enquanto profissão inserida na divisão social e técnica do trabalho
possui diretriz ético-política voltada para a luta pela efetivação dos direitos conquistados,
combinando diversas estratégias para esta finalidade.
A Música, conforme apontam alguns estudos de diversas áreas (incluindo o Serviço
Social) pode ser não só apenas mais um instrumento, uma técnica 1 a ser utilizada pelo
Assistente Social para a elaboração de estratégias diversas – sejam aquelas de
fortalecimento/empoderamento do usuário, de estreitamento/estabelecimento de vínculos com
eles; ou para a obtenção de dados necessários à atuação do profissional – como ainda muito
mais além: pode ser uma verdadeira mediação emancipatória por seu potencial abrangente e
impactante no ideário (objetivo e subjetivo) dos usuários das políticas sociais, rebatendo nas
várias situações de sua vida.
A Música e o Serviço Social possuem muitas características em comum, – mais do que
se pode observar num primeiro momento – tanto que acabam por se mesclar, atuar em conjunto entre os profissionais ou serem ambas utilizadas por um único, que as desenvolvam simultaneamente; características como a ludicidade, criatividade, potencial educativo, fortalecimento, organização, mobilização entre outros. A constatação a cerca de tais possibilidades foi o
que intrigou e motivou de forma especial a esta elaboração, por incluir também a identificação
pessoal do pesquisador enquanto parte do universo deste estudo. A relação política entre as
áreas também foi abordada.
Tratou-se de uma pesquisa bibliográfica e documental, de natureza qualitativa e
exploratória, de caráter introdutório ao tema. A linha de abordagem pautou-se no método
histórico-dialético e Análise de Conteúdo para examinar o material pesquisado. A obtenção
das informações sobre o tema foi feita através de consultas às seguintes fontes:
Produções (período entre 1993 a 2013)
• Trabalhos de pesquisa e produções de Assistentes Sociais sobre Música e Mediação.
• Artigos científicos, trabalhos de pesquisa, documentos acadêmicos da Universidade Federal do Pará.
• Livros de Serviço Social.
• Revistas eletrônicas: “Serviço Social e Sociedade”, “Textos & Contextos”, “Revista Brasileira de História & Ciências Sociais”, “Temporalis” e de capacitação profissional da
ABESS.
• Dicionários eletrônicos.
Este trabalho possuiu enquanto objetivo principal investigar a possibilidade da música como mediação emancipatória a partir das experiências de trabalhos realizados por
Assistentes Sociais. Enquanto específicos que auxiliaram nesta tarefa estão:
1
Têm-se aí duas dimensões inscritas: o instrumento e a técnica. O primeiro sinaliza a parte integrante do mundo
dos objetos de uso (Ex: Abordagem, entrevista, reunião, visita domiciliar, etc.), ou seja, são as ferramentas.
(SARMENTO, 1994). O segundo é mais complexo - compreende um conjunto de ações articuladas dentro de
uma dada sistemática, que expressa, materializa, dá vida à teoria. Ela está associada à “habilidade humana de
fabricar, construir e utilizar instrumentos”. (VARGAS, 1994, p. 15 apud TRINDADE, 2001, p. 3, grifo nosso).
9
• Identificar os fatores aos quais ela contribui no sentido de reforçar/potencializar resultados;
• Verificar de que formas o Assistente Social atua utilizando-a como parte de sua instrumentalidade;
• Observar os aspectos políticos da relação com o Serviço Social e Questão Social.
Para fundamentar a pesquisa foi necessária a articulação de várias categorias, tais
como: Mediação, Música, Emancipação, Empoderamento, Estratégias, Instrumentalidade,
Questão Social e Serviço Social. Para tanto, o pilar referencial que deu sustentação à
elaboração deste artigo consistiu em produções de Assistentes Sociais que trabalham em
instituições ou projetos diversos que usam a música em seu cotidiano. Contou-se também com
a contribuição – dentro e fora destas obras – de outros ramos de estudo como Arte,
Etnomusicologia, Educação e História, por exemplo. Este fato (a busca de fundamentação
teórica em outras áreas de conhecimento) é justificado pela pouca produção no Serviço Social
sobre o tema, além da percepção de que os resultados extrapolam o âmbito social, ou seja,
possuem desdobramentos multideterminantes.
O contexto histórico e social em que todos estes estudos foram desenvolvidos
compreende o que a Sociologia chama de capitalismo neoliberal (ver seção 2). Nele
acontecem rebatimentos em todas as esferas da vida humana 2 , (e não humana 3 ) pelo seu
condicionamento aos ditames e interesses do Capital4. Tal abordagem foi necessária para se
compreender os fenômenos que também permeiam a relação estudada aqui.
Embora no Brasil a profissão de Assistente Social já tenha seus mais de setenta anos,
só recentemente os profissionais estão se apoderando da música enquanto parte de seu
inventário tático-estratégico ou ferramenta de trabalho. Trata-se de uma possibilidade para a
atuação do Serviço Social. Nas seções a seguir encontram-se as discussões e os resultados
observados durante o processo, iniciando pela relação política entre as áreas e a Questão
Social.
2 A RELAÇÃO POLÍTICA ENTRE SERVIÇO SOCIAL, MÚSICA E A QUESTÃO
SOCIAL.
O Serviço Social surgiu historicamente vinculado aos interesses da burguesia
industrial, com vistas ao controle e abrandamento de tensões geradas pelo fenômeno de
desgaste geral da força de trabalho e a pauperização. (MARTINELLI, 2009). No contexto dos
países da América Latina, possuía enquanto características constitutivas valores religiosos
católicos, inspirados numa espécie de messianismo (IAMAMOTO, 2009).
Estas observações puderam ser percebidas comumente, nos três primeiros Códigos de
Ética Profissional do Assistente Social 5 . Destacou-se a concepção filosófica baseada nos
pressupostos Neotomistas (crença em valores absolutos fundamentados na visão abstrata dos
2
Esta ideologia difunde o individualismo em detrimento do social, de todo interesse coletivo, pois assim se torna
mais fácil a cooptação no jogo de correlação de forças políticas: com as classes subalternas desarticuladas (individualizadas), não há resistências às manobras por parte das classes dirigentes (burguesas).
3
Ver o documentário “Terráqueos”, que trata sobre a indústria alimentícia.
4
O Capitalismo é composto de duas unidades fundamentais: o Capital e o Trabalho. O primeiro é tudo aquilo
que viabiliza o processo produtivo, reunindo as condições objetivas, ou seja, técnicas e mecânicas para a
transformação da matéria-prima em produto final e onde se concentram os processos produtivos situados em
um determinado espaço físico. Assim, é a propriedade privada, a unidade principal (para a classe burguesa)
deste modo de produção, notadamente, como exemplo clássico, a empresa. O segundo é a própria classe
trabalhadora, o proletariado. (MARX, 1863).
5
Códigos de Ética anteriores do Serviço Social, de 1947, 1965 e 1975. Esses dois últimos foram reelaborações
do primeiro. (BONETTI et al, 2010). O documento é a expressão máxima registrada sobre uma profissão.
10
sujeitos e de sua sociabilidade, perfectibilidade e dignidade), possuindo assim, uma
característica a-histórica e hierarquizada dos citados elementos e da Questão Social (que é
reduzida a problemas morais).
A visão a-histórica e acrítica (e, consequentemente “apolítica”) das relações sociais
perdurou na categoria durante um longo tempo, atravessando, inclusive uma fase marcada
pela busca do tecnicismo que, no Brasil, alcançou seu auge no período militar autoritário
instaurado no país em 1964. Porém, a partir da segunda metade dos anos 70, um intenso
movimento pela redemocratização do país rebateu em vários setores da sociedade. O Serviço
Social brasileiro não ficou imune a este processo. Os Assistentes Sociais que já adotavam uma
postura crítica ante o conservadorismo predominante tanto na atuação quanto na sociedade e
que foram silenciados pela ditadura se rearticulam e, em 1979 no lendário Congresso da
ABESS6, – Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social - conhecido como “Congresso
da Virada”, alteraram a correlação de forças no interior da profissão, dando início a um novo
projeto ético-político-profissional.
Assim, após o fim do período ditatorial, em 1985, durante a redemocratização, houve a
materialização de um processo já antes iniciado de ruptura em relação às influências abstratas
de ser humano e com o pressuposto de harmonia/estabilidade do conjunto da sociedade. Este
novo projeto de profissão, contrapôs-se ao ideário de neutralidade profissional, introduziu-se
o princípio da contradição, de noção de "compromisso" com a classe trabalhadora, com
valores democráticos, tendo em vista “uma pratica que tenha como pressuposto o real, e não
modelos abstratos", (BONETTI et al., 2010, p. 120) com perspectiva ideopolítica crítica em
relação aos projetos profissionais anteriores.
Ou seja, ao longo deste percurso histórico, perpassado por crises de identidade
(MARTINELLI, 2009), reconceituação (NETTO, 2011), contradições diversas, mudou sua
vertente hegemônica ético-política, passando a atuar na perspectiva de luta pela efetivação de
direitos pela primazia da garantia pelo Estado enquanto provedor e interventor em questões
deste interesse e no “compromisso com os valores da liberdade, democracia, cidadania e
direitos sociais.” (BONETTI et al, 2010, p. 14).
Os compromissos assumidos com uma perspectiva de sociedade emancipada são expressos, primeiramente no Código aprovado em 1986. Este é considerado um marco para o
projeto de ruptura com o conservadorismo. Porém, deficiências em seu aspecto operativo ensejaram um processo de revisão que culminou com a aprovação de um novo, em 1993. E com
a vigência deste, a profissão passou ao “Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes - autonomia, emancipação e plena expansão dos
indivíduos sociais” (CFESS, 2012, p. 23). Deste modo, a categoria assume claramente a
emancipação enquanto horizonte a ser contemplado na efetivação do exercício profissional; o
Serviço Social atuaria, assim, como mediação emancipatória concreta tal como considerada
neste trabalho7.
Porém, neste mesmo período sócio-histórico em que foi aprovado o Código de 1993,
em contexto mundial, aprofunda-se, principalmente na América latina e, particularmente no
Brasil, o Neoliberalismo – que tem seu início como processo global de reestruturação
econômica iniciado na década de 1970. Ele foi pensado com a maciça colaboração de Hayek
(Áustria, 1899-1992) para propor uma “alternativa” à chama da “crise do Welfare State”8.
6
7
8
Atual Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPS).
Evidentemente, salva a possibilidade de ser confrontada teórica e conceitualmente tal afirmativa.
Que como já ressaltado, tem seu pano de fundo a crise do sistema capitalista, que é cíclica. O Welfare State
(Bem Estar Social) já se constituía uma alternativa a uma crise anterior severa, do modelo produtivo Taylorista-fordista. Ele se constituía, resumidamente, em políticas de concessões do Estado de benefícios e “direitos” à
massa proletária industrial visando acalmar as tensões e problemas sociais que o modo gerava, como desemprego em massa, dentre outros.
11
Nesta ideologia o que é defendido é a preservação intransigente do direito a “liberdade”
(negativa-formal9) em detrimento de tudo o que for entendido pela hegemonia como uma
ameaça ao pleno funcionamento do mercado (MONTAÑO e DURIGUETTO, 2010).
Qualquer forma de intervenção estatal de regulação sobre o setor econômico 10 – ou
deliberação que contrarie os interesses mercadológicos, ainda que sacrificando direitos significaria degenerar o mercado, motor da sociedade. Este regime se estende até a atualidade.
É ao som desta trilha sonora que o projeto ético-político profissional emancipatório do
Serviço Social enfrenta o desafio de prosperar. Por isso deve ter competência teóricometodológica e direção política para não atuar na perspectiva meramente de reprodução desta
superestrutura e para a classe trabalhadora, já tão subalternizada11, nas palavras de Gramsci.
Gramsci defende como um dos caminhos para a transformação social a educação e
que, por meio desta os sujeitos podem passar de pessoas acríticas a conscientes, e daí,
emancipadas. (GRAMSCI, 1999 apud CONCEIÇÃO, 2010). O Serviço Social também possui
este aspecto pedagógico12.
Ressalte-se que este conceito de educação em Gramsci, vai muito além do aspecto
escolar. É uma atividade que é socialmente organizada, possuindo um caráter político, por
carregar a concepção de mundo e de sociedade, valores, ideias, juízos e preconceitos. Por isso
também não é neutra, pois é controlada pelas estruturas sociais e seus interesses, atendendo a
classes, à manutenção da ordem vigente. (CAVALCANTE, 1984, apud CONCEIÇÃO, 2010).
Mas, por ser atividade social, mesmo a serviço das elites dominantes na disseminação de suas
ideologias, para seus objetivos de subalternização da classe trabalhadora,
também pode buscar superar e desmascarar tal ideologia por meio da resistência à
educação dominante, gerando conhecimentos e valores que lhe são próprios. Pode
ser responsável pelo aparecimento de uma nova ordem intelectual e moral, que superando o senso comum, possibilite o questionamento e o desenvolvimento de forças
para a transformação e superação das contradições da sociedade. Isso ocorre, porque
nenhuma ideologia pode dominar inteiramente, havendo no espaço social a possibilidade de uma correlação de forças, de disputa ideológica. (CONCEIÇÃO, 2010, p.
52).
Desse modo, mesmo com a prevalência da ideologia dominante, sempre existem espaços de contradição e neles deve ser desenvolvido o trabalho do Assistente Social, com o seu
caráter pedagógico13, buscando semear os elementos de uma nova forma de educação (portanto, como uma Mediação para tal), pois ela serve inclusive como mantenedora de unidade de
blocos sociais. (CONCEIÇÃO, 2010; RUMMERT, 1986 apud CONCEIÇÃO, 2010).
É neste sentido que a profissão do Serviço Social é importante, com este caráter
educativo mencionado linhas acima. Ele o faz quando informa aos usuários sobre seus
direitos, “ensinando” sobre procedimentos, recursos necessários, caminhos, etc. Para que
9
A tradição Liberal possui uma visão formal de liberdade. Fromm (1980 apud MONTAÑO e DURIGUETTO,
2010) distingue duas formas de liberdade: a formal-negativa (“ou liberdade de...”), que é “ausência formal
de impedimentos ou restrições que um sujeito ou instituição possa exercer sobre a pessoa em questão; ausência
de interferência externa no caminho ou na ação das pessoas”; (MONTAÑO e DURIGUETTO, 2010, p. 49) e a
liberdade positiva (“liberdade para...”), que é um conceito não formal, mas que é importante para compreensão do conteúdo, pois significa a “capacidade de fazer” (IDEM, IBIDEM).
10
Mas, contraditoriamente, recorrem ao Estado em tempos de crise aguda, na intervenção via injeção de recursos
financeiros.
11
O conceito de classes subalternas pertence a Gramsci. As classes subalternizadas são, basicamente, as camadas
trabalhadoras da sociedade capitalista, ou seja, são dirigidas, submetidas politicamente pela classe burguesa
que detém o controle hegemônico - capacidade de governar, outra conceituação segundo este autor (MONTAÑO e DURIGUETTO, 2010) - social, consequentemente, do modo de produção.
12
Processo mais detalhado linhas à frente.
13
Iamamoto (2004; 2009) aborda, que sempre historicamente a profissão possuiu esta característica.
12
isso ocorra, o profissional desenvolve a técnica, que invariavelmente possui este aspecto, já
que os sujeitos tomam contato com o que antes não se sabia: o que é o direito, como
conseguir, os mecanismos de luta, as instâncias, as estratégias.
2.1 O PROCESSO DE MEDIAÇÃO
Este processo todo explicado acima constitui e se instala dentro de um fenômeno
macro entendido como Mediação 14 . Trata-se de um termo vinculado ao marco categorial
marxista, entendido da seguinte forma:
Mediação portanto é a categoria que dá direção e qualidade à prática, baseada no
método dialético marxista, resultado de um processo dinâmico e ativo desenvolvido
pela interação entre as pessoas, objetos, conceitos, preconceitos, instituições, enfim
uma rede de associações em que o usuário é tido como sujeito engajado na
construção de sua própria história. (VERGARA, 2003, p. 2).
A autora situa Mediação como categoria do Serviço Social e como instrumento
teórico-metodológico de sua prática profissional, usada para apreender, decodificar e intervir
na conformação da rede institucional e do contexto sócio-histórico dos sujeitos de direitos
violados no seio da Questão Social15, mediando as construções tecidas nos processos em suas
biovias16 com as possibilidades, respostas, e demais alternativas de mudança. (VERGARA,
2003; FALEIROS, 2011b).
Este mecanismo, como se pode perceber, é construído em processo, no cotidiano, com
sentido de se estabelecer um elo (uma conexão) entre a existência (presença) do direito (seja
um serviço ou benefício, por exemplo) e a mediação 17 do usuário, tendo em vista que o
paradigma dominante, que se reflete na “função” das instituições dentro do sistema capitalista
não visa colaborar para a emancipação de seus demandatários, com formas enquadradas de
prestação nas políticas sociais, atendendo dentro da lógica de mercado da quantidade.
(VERGARA, 2003; FALEIROS, 2006). E encaminhamentos em si, ressalta Faleiros (2011a),
não constituem Mediação.
É para que se possa estabelecer essa “conexão” – parte do entendido como Mediação18
- entre os objetivos institucionais e os dos usuários que
A mediação, como processo de comunicações, informações e estabelecimento de
relações sociais, no qual os usuários tenham expressão de identidade e de atitudes,
leva a instituição a se identificar como um espaço de convergência de sujeitos
históricos, do social e da expressão pessoal, com sujeitos mobilizados, organizados e
participativos, fazendo história e buscando permanentemente seus direitos de
cidadãos. (VERGARA, 2003, p. 3).
Por este aspecto qualitativo, abordando as dimensões não quantificáveis e trabalhando
com e a partir delas para seu suporte e superação, é que se tornou uma categoria essencial
para a atuação profissional do Assistente Social (também para a emancipação), pois
14
Conceito-chave para toda a compreensão da análise desenvolvida e pelas contribuições de autores do Serviço
Social citados em trabalhos de Assistentes Sociais.
15
A Questão Social foi mais trabalhada e detalhada na seção 2.2.
16
Conceito de Faleiros (2011a) para explicar as trajetórias de vida dos sujeitos de direitos, em especial, os demandatários dos serviços do Assistente Social.
17
Se faz necessário estabelecer a diferenciação entre esta mediação citada (com “m” minúsculo) e a Mediação (a
categoria analisada, que é de base marxista-dialética). A primeira são as percepções adquiridas com sua história
de vida, em suas biovias e não possui o mesmo sentido da segunda.
18
Neste caso, Mediação compreendida em Marx e classificada como de primeira ordem, mas que, dependendo
das correlações de força, pode se tornar de segunda ordem também. (Explicadas na seção 2.2).
13
Pelas mediações as relações, objetivos e projetos pessoais adquirem uma função que
diminui o peso dos fatores institucionais e sociais, tornando assim a instituição o
lugar de novas significações sociais que promoveriam à superação e/ou
transformação da realidade vivida pelos usuários. (VERGARA, 2003, p. 3).
Este processo explicado até aqui conforma uma pequena parcela da relação política do
Serviço Social. Tudo isto acontece, é planejado e executado tendo como norte os 11 princípios
do Código de Ética Profissional do Assistente Social, de 1993, onde se encontra explícita a
escolha ideológica do sujeito que escolher exercer o Serviço Social, tendo como a espinha
dorsal a defesa intransigente dos direitos da classe trabalhadora e o compromisso com uma
sociedade mais justa e livre de exploração19.
Assim, o Assistente Social quando atua no contexto dos problemas sociais20, contribui
em última instância - quando defende e luta pela efetivação de direito - para a emancipação
dos sujeitos.
2.2 A QUESTÃO SOCIAL
O conceito de Questão Social21 começou a ser utilizado no século XIX22 na Inglaterra,
período em que a sociedade passou a sofrer drásticas mudanças em suas características.
Anteriormente ao sistema capitalista, o modelo de produção era basicamente de caráter
mercantil, ou seja, não necessariamente está associado à produção de mercadorias 23 .
(NETTO e BRAZ, 2010).
Ainda em tempos mais longínquos, datando do escravismo, aparecia com maior ou
menor grau de intensidade dependendo da região. Como no modo de produção escravista a
força de trabalho era dominada e fazia parte do Capital, não se caracterizava realização de
mercadorias.
Com a ascensão da Revolução Industrial, a população inglesa se viu obrigada 24 a
migrar do campo para os centros urbanos, fazendo com que um verdadeiro exército de
trabalhadores se formasse, caracterizando a massa proletária. (MARTINELLI, 2009). Isto
porque é fundamental para a produção de acumulação de excedente25 neste novo regime e a
divisão social do trabalho para produzir diferentes mercadorias, tudo isto dentro dos meios
19
Ver Artigos. II e VIII do Código de Ética Profissional de 1993, em “Princípios Fundamentais”.
Basicamente, mas não somente.
21
A origem e autoria deste conceito se devem a Karl Marx.
22
Porém, Marx observa em seus estudos a data do fenômeno ocorrendo desde muito antes, nos primórdios do
Capitalismo (mais especificamente na transição do Feudalismo para este modo de produção). Em discussão
acadêmica, a mercadoria é conceituada por Marx como o objeto que satisfaz as necessidades humanas, sejam
estas materiais ou espirituais. Mas é necessário atenção. Só é possível definir mercadoria na seguinte condição:
“[...] somente valores de uso* que satisfaçam necessidades sociais (humanas) de outrem e, portanto, sejam
requisitadas por outrem, constituem mercadoria” (NETTO e BRAZ, 2010, p. 80, grifo nosso).
*
Ou seja, de importância à usufruto essencial à humanidade, em suma, utilidade prática, real, necessária ou
fundamental.
24
Lei de Cercamento, ocorrida nos séculos XVI-XVIII, período de transição do Feudalismo para o Capitalismo.
Com esta lei, promulgada pelo parlamento inglês e pela Casa Real, (dinastia Tudor – 1485 a 1603) os pequenos
proprietários e camponeses tiveram a sua terra usurpada, sendo forçados a se mudar para os centros urbanos,
para as proximidades das fábricas para então ter de vender sua força de trabalho para o Capital industrial. Tal
legislação foi elaborada como uma estratégia das classes hegemônicas para suprir as crescentes demandas de
mão-de-obra que acompanhavam as mudanças sociais geradas pelo avançar da influência do capitalismo e pela
percepção do uso comercial das terras naquele momento histórico. (MARTINELLI, 2009).
25
A teoria da Mais-Valia explicada com mais detalhes, em Marx (1863), na sua obra que leva este mesmo nome
e nos vários volumes de O Capital; mas pode ser encontrado também (e em linguagem mais acessível) em
Netto e Braz, (2010).
20
14
de produção de propriedade privada. Ou seja, que as ferramentas necessárias para sua
realização sejam pertencentes a um proprietário. (NETTO e BRAZ, 2010).
Assim, para o Capital acumular excedentes, ele é obrigado 26 a explorar e o faz
subalternizando a classe proletária a exaustivas jornadas de trabalho. Como fruto das extensas
cargas laborais a que fora submetida naquela época, - chegando a trabalhar 16 horas por dia,
incluindo mulheres e crianças (MARTINELLI, 2009), - somadas à ausência de qualquer
proteção social por parte dos estados nacionais - observou-se um efeito de desgaste geral da
força de trabalho 27 , conduzindo a uma rotatividade e constante substituição; ou seja, os
trabalhadores eram simplesmente descartados, fazendo surgir o fenômeno de pobreza
extrema, qual veio a dar nome ao processo resultante e intrínseco do modo de produção
capitalista: o pauperismo.
A este último mais recorrentemente se atribui a relação com o conceito de Questão
Social: a degradação, o quadro de miséria gerado em meio à classe trabalhadora que se
encontra à margem das linhas de produção, (em suma e contextualizando, os desempregados).
Citando Iamamoto (2004) – e entendendo que, embora trazendo esta temática de
forma particularmente diferente, isto torna mais rica a análise proposta aqui, não havendo
conflitos de caráter teórico, mas de complementaridade – pode-se contextualizar, quando a
autora expõe as Expressões da Questão Social, uma série de problemas da sociedade28, como
o supracitado desemprego, a violência, situação de rua, de miséria e demais violações de
direitos de todas as ordens; entendendo no movimento macro, que há vinculação com a
própria lógica do modo de produção, geradora de desigualdades e aviltamento da classe
trabalhadora - ou como queira em Gramsci (apud CONCEIÇÃO, 2010), subalterna.
Assim resumida 29 a Questão Social é parte da lógica intrínseca e resultante do
sistema capitalista, ou seja, enquanto existir ele continuará a gerar estas desigualdades
sociais, ligadas diretamente a esta “necessidade” eterna de acumulação pela via da
exploração. O Assistente Social adquire em sua formação conhecimento deste fato: enquanto
atuar, se deparará com essas mediações e contradições sistêmicas.
E esse fenômeno da Questão Social é ele também permeado de mediações. Estas, por
sua vez, se relacionam com as do sistema capitalista, em escala macrossocial. Almeida (2001,
apud VERGARA, 2003), observa uma análise delas do ponto de vista marxista, distinguindo
dois tipos: as de primeira e segunda ordem.
As mediações de primeira ordem são as que permitem a interação entre os seres
humanos e a natureza bem como entre seus semelhantes, permitindo a transformação, a
superação, resolução (VERGARA, 2003). Já as de segunda ordem se limitam em apenas
alterar o aparente, conservando todas as outras características e configurações do modo de
dominação da produção. Esta ocorre especialmente e essencialmente no sistema capitalista.
Para este sistema, são muito caras as mediações de segunda ordem que são compostas
pelos valores, ideologias de domínio (seja de gênero ou de qualquer natureza), enfim, uma
variedade de tipos de complexos sociais existentes que compõem a sociedade. (VERGARA,
2003; ABESS, 1999).
O Assistente Social ao atuar dentro do campo das mediações, tanto as dos usuários
26
Lei Geral de Acumulação do Capital, em Marx, (apud NETTO e BRAZ, 2010). Em virtude de sua
complexidade não pôde ser detalhada nesta produção, mas que é altamente recomendável a sua consulta.
27
É a própria energia vital que o trabalhador dispõe e se vê condicionado a vender no sistema capitalista.
28
Por social pressupõe-se coletividade, da unidade micro para o plano macro da sociedade, no movimento
histórico e sua vinculação dialética com os problemas do Capital, bem como do Sistema capitalista.
29
Poderá ocorrer ao longo desta produção uma alternância quanto à utilização de um ou outro termo, não como
confusão conceitual ou teórico-metodológica: mas como uma proposta de articulação, tendo em vista que as
perspectivas complementam as análises realizadas, pois várias formas de utilização da Música pelo Serviço
Social como Mediação foram observadas.
15
quanto as macrossociais (como a alienação do trabalho 30 ) ainda lida com as formas
fragmentárias com que as instituições dirigem as ações – que de acordo com Faleiros (2006)
se trata, da função subordinada economicamente dos serviços à lógica de mercado do sistema
capitalista. (ou seja, mediações de segunda ordem). O profissional, a princípio, buscaria as de
primeira ordem.31
Os espaços institucionais se mostram, embora com todas as contradições inerentes do
sistema capitalista, “rico em determinações e mediações” (PONTES, 1997 apud VERGARA,
2003). Neles se encontram as várias outras; como as dos usuários, do Assistente Social, as de
segunda ordem do Estado burguês neoliberal, onde são estabelecidas as Mediações
multidisciplinares combinadas com vistas a contemplar os atendidos.
Dentro deste cenário da Questão Social a Mediação deve ser mais que uma proposta,
uma categoria reflexiva, ontológica e processada de forma semelhante ao Método
Dialético (VERGARA, 2003), uma verdadeira arma para o Assistente Social. Mas para isso o
profissional precisa se instrumentalizar.
Como ilustração breve desta argumentação segue a objetivação da autora:
Trabalhar com e nas mediações, para o Assistente Social, significa apoiar, capacitar
e promover mediações capazes de desvendar e penetrar nas realidades concretas dos
usuários, promovendo superação e/ou transformação num processo interativo, no
qual, profissional e usuário sejam atores responsáveis pelas ações. (VERGARA,
2003, p. 6).
E, ao mesmo tempo, “só tem sentido na perspectiva da superação e ou transformação,
objetos centrais para a lógica dialética. Os elementos que constituem a mediação: movimento,
contradição e superação [...] uma relação de negação, um enfrentamento [...]” (VERGARA,
2003, p. 6) ao determinado, às “verdades produzidas”, nas palavras de Foucault 32 (2004), e
não de equilíbrio (quando em sentido de ajustamento).
As mediações ontológicas existem independentemente do conhecimento da razão
humana, então mesmo que inconscientemente os profissionais de Serviço Social
estarão envolvidos com mediações, isto é, sempre haverá mediações fazendo parte
das suas intervenções. (PONTES, 1997 apud VERGARA, 2003, p. 9).
E outra Mediação interessante que se relaciona, atravessa irremediavelmente todo o
discutido ao longo deste trabalho é também uma das formas de expressão cultural, artística
mais antigas da humanidade, além de uma categoria e uma ciência: A Música.
2.3 A MÚSICA
A Música é muito mais do que mera combinação de sons (DICIONÁRIO ONLINE DE
PORTUGUÊS, 2013), reflete a expressão de todas as culturas humanas, de modo que não há
achados históricos de sociedades sem essas expressões musicais (MERRIAN, 1964 apud
LEAL et al, 2008).
30
O processo de alienação do trabalho se dá dentro da lógica do modo de produção capitalista. É um processo
político, - porém, intrínseco do sistema, pois sem explorar ele não se sustenta. É sua característica principal em que a classe trabalhadora é alienada, ou seja, expropriada, objetiva e subjetivamente dos resultados do seu
trabalho realizado na esfera produtiva. (MARX, 1863).
31
Isto é afirmado salvo grave erro de análise e às discussões feitas por vários autores do Serviço Social, como
em Netto (2011), Iamamoto (2004; 2009), Faleiros (2011a), Pontes (1997 apud VERGARA, 2003), nos
princípios fundamentais e gerais do Código de Ética Profissional do Assistente Social de 1993, por exemplo.
32
Célebre autor francês, que estudou profundamente as relações que tangem o poder, seus desdobramentos nas
camadas mais baixas bem como seus núcleos. (Cf. Microfísica do Poder).
16
Para Fisher (1987 apud CONCEIÇÃO, 2010) a função da arte, que foi originalmente
pensada com intuito de auxiliar a difusão de ideologias que reforçassem a dominação,
exploração - especialmente de mundos inexplorados - em muito se diferencia no contexto
onde há relação de luta de classes, como o atual, pois elas a recrutam como instrumento para
os seus interesses. Aí esta o fator político das expressões artísticas33 desde sua gênese.
Conceição (2010), ao analisar Marx, citado por Peixoto em seu trabalho, pensa o
seguinte sobre a representação das artes:
A arte é qualificada como uma das formas de consciência social [...], ou seja, [...]
é também através da arte que os homens tomam consciência das transformações da
base econômica e das alterações que eles promovem na superestrutura da sociedade.
A arte não se coloca acima das relações sociais. Ela é inerente a essas relações. É
um componente da superestrutura que pode contribuir para distintas funções e
utilidades, conforme a interpretação e a posição do artista. (CONCEIÇÃO, 2010, p.
58, grifo nosso).
Isto revela a ligação histórico-social e política que a música assume na história da
humanidade além do como a arte sempre mediou os assuntos e questões de seu tempo. No
argumento seguinte – que fala por si só e dispensa análises complementares – expõe:
Nota-se, aqui, a relação da arte com a educação: que carregada de uma determinada
ideologia, a arte pode tanto servir à manutenção da hegemonia dominante, como
pode ter por função a libertação e a transformação do homem. Para Fisher
(1987), a arte pode levar o sujeito a compreender a realidade e transformá-la,
pois tem como possibilidade tirar o homem de um estado de fragmentação, conseqüente da divisão do trabalho no modo de produção capitalista e que causa a alienação do homem no/pelo trabalho. Entende-se que a arte pode servir a esse homem
como meio de "libertação", como meio de pensar com mais criticidade, sua própria existência, podendo auxiliar o desvendamento da alienação que sofremos no
cotidiano de nossa realidade social. (CONCEIÇÃO, 2010, p. 58, grifo nosso).
Aí se encontra a outra grande Mediação emancipatória: a música, quando atendendo
a esses objetivos e contribuindo para os processos e etapas a eles inerentes (alguns podem ser
visualizados na seção 4). Já no tocante ao estabelecimento de conexão entre a função da arte
como possibilidade de pensamento sobre seu aspecto pedagógico a autora trouxe antes como
necessário a tal finalidade (com o aporte teórico gramsciano), o conceito de homem massa.
Devido à sua consciência fragmentada, não tem clareza e entendimento de sua própria ação, não podendo avaliar criticamente sua forma de participação no processo
histórico. Todavia, para o autor, é necessário pensar além do que o homem é, ao focar também “o que o homem pode se tornar ?" [sic] (CONCEIÇÃO, 2010, p. 59,
grifo do autor).
Feita esta consideração, a “função da arte, de acordo com Fisher (1987), concerne
sempre ao homem total, capacita o 'Eu' a identificar-se com a vida de outros, capacita-o a incorporar aquilo que ele não é, mas tem possibilidade de ser.” (CONCEIÇÃO, 2010, p.59). Ou
seja, se utilizada com objetivo de educar, buscando superar a conformidade e o paradigma de
alienação, pode ter o efeito de empoderar (dando mais criticidade) aos usuários (no contexto
de programas ou projetos em que o Serviço Social atue) ou potencializar o trabalho do Assistente Social como intelectual orgânico da classe trabalhadora (detalhes nas seções 4.4 e 4.5).
33
Neste trabalho, por vezes aparecerá este termo. A justificativa de sua utilização se dá entendendo que a música
é expressão cultural e artística. Assim julgou-se válida a consulta a estes referenciais teóricos, pois neste campo
a contribuição, inclusive de Assistentes Sociais tem se mostrado mais abundante em relação ao primeiro em
específico.
17
“O artista pode ser um perturbador da ordem estabelecida, à medida que expõe por
meio de suas obras, suas reflexões e suas ideologias, assim como [...] os sentimentos confusos
da massa em relação ao momento em que vive.” (CONCEIÇÃO, 2010, p. 59). Tanto esta
afirmativa possui sua veracidade, que foi observado, no período ditatorial brasileiro, por
exemplo, que um dos setores mais atacados estrategicamente foi o “mundo da cultura” (NETTO, 2011), que englobava as expressões artísticas de um modo geral que servissem como
meio de propagação de protestos contra o contexto de repressão.
Ao analisar uma passagem de Lukács citado por Peixoto em seu trabalho, Conceição
(2010) ressalta uma outra função que a arte exerce, expondo que a
arte como reflexo da realidade, que esta não deve representar um mecânico espelhamento do real, mas sim captar sua essência com a intenção de possibilitar sua
apreensão pela consciência, pois esse processo pode ampliar a consciência dos indivíduos, ao se depararem com uma realidade inusitada e simultaneamente ampliar lhes a autoconsciência ao observarem a si mesmos e ao refletirem sobre seu modo de
pensar e agir. [...] Já os indivíduos podem, no ato de presenciar o novo, aprender
uma nova visão de mundo. (CONCEIÇÃO, 2010, p. 59).
Mas, é com o advento do sistema capitalista que ocorre a cisão entre trabalho como
criação e produtivo, que antes eram um. De livre e criador se converte em alienado,
direcionado à obtenção de mais-valia. Deste modo surgem as especialidades (fragmentos que
se tornam novas áreas laborais) que são todos os campos de atividade produtiva, incluindo a
arte. (PEIXOTO, 2003 apud CONCEIÇÃO, 2010).
Refletindo sobre esta fragmentação referida pela autora, a arte também fragmentada
foi assim analisada, dentro do contexto social capitalista, em três níveis:
a “arte elitista”, que essencialmente propõe-se como atemporal e pura, expressão do
sentir e de emoções pessoais, fruto da genialidade do autor; a “arte para as massas”,
uma arte que padroniza gostos e submete as diferenças a um padrão e a um público
médio, caracterizada como indústria cultural; e a “arte popular”, que põe sua tônica
no consumo não mercantil, cujo valor essencial é a representação e satisfação solidária de desejos coletivos. (CONCEIÇÃO, 2010, p. 60).
Os três níveis não atuam separadamente, mas determinam-se pela relação existente
com as classes sociais destinadas. Assumem vários sentidos e conotações e a essência de seu
conteúdo é que muitas vezes se interliga com os objetivos ideopolíticos destas frações sociais.
Também não se propõem neutros, pois sua idealização no imaginário muito tem de relativo
com a materialização dos momentos históricos das diferentes ordens conjunturais societárias e
com o posicionamento dos intelectuais artistas de cada momento.
“A arte pode ser usada como poderoso instrumento para o enriquecimento da prática
profissional, meio pelo qual o Assistente social busca atingir seus objetivos.” (CONCEIÇÃO,
2010, p. 61). Esta afirmativa possui multidimensões e multideterminações que foram inviáveis de se desdobrar por completo neste trabalho, mas esboçadas nas próximas páginas.
Embora dividida em pequenas seções (com intuito meramente didático-pedagógico) a
explicação sugere que todo o discorrido até aqui acontece numa relação dialética, não linear
ou hierarquizada. Objetivamente e subjetivamente, se entrelaçam e entrosam perspectivas
ideológicas, políticas, sociais e subjetivas comuns aos três elementos relacionados no título
desta parte: Música, Serviço Social e Questão Social, como numa orquestração de vários artistas do mundo da vida.
3 A MÚSICA ENQUANTO COMPOSIÇÃO NA INSTRUMENTALIDADE DO
SERVIÇO SOCIAL
18
3.1 A INSTRUMENTALIDADE NO SERVIÇO SOCIAL
Nome que trouxe estímulos essenciais à compreensão desta dimensão da profissão de
Assistente Social, Guerra (2011) expõe que a instrumentalidade se constitui de elementos
dentro de um “arsenal de conhecimentos, informações, técnicas, habilidades [...] nem sempre
perceptível aos sujeitos [...] manifestado no “fazer” dos profissionais [...] ao longo de um
processo histórico [...] complexo [...]” (GUERRA, 2011, p. 22).
Ou seja, é composta na dialética do cotidiano de atuação, compreendendo as
multideterminações do exercício profissional, dos sujeitos, das demandas (institucionais, dos
usuários e do Serviço Social), na dinâmica social da contradição, historicamente construída de
acordo com a tática a ser empregada pelo protagonista da ação. Esta dimensão não se isola
nem desassocia das demais (ela articula as três: a técnico-operativa, teórico-metodológica e
ético-política).
Assim como o Serviço Social, as artes também apresentam aspectos peculiares,
carregados de sentido, refletindo a cultura, a história e a conjuntura de seu tempo, muitas
vezes servindo de mediações entre o pensamento, proposta e objetivos dos artistas. (PRATES,
2007). Do mesmo modo possuem uma dimensão criativa e educativa que segundo Conceição
(2010) pode potencializar a atuação profissional do Assistente Social, contribuído para
diversos propósitos.
É em meio a estas características que a profissão pode lançar seu arsenal teóricometodológico. Dentro deste palco a “possibilidade de emancipação e humanização inerentes à
arte pode oferecer aos sujeitos condições para criticar a situação vivida e redimensioná-la.”
(CONCEIÇÃO, 2010, p. 51). Este ato reflexivo é uma etapa primordial para a emancipação.
Conceição (2010) argumenta se referindo de forma precisa a um eixo fundamental
para o Serviço Social, de forma a evitar que o leitor imagine um equívoco quanto à utilização
na prática profissional, ou seja, da arte com “um fim em si”. Assim ela diz:
O uso da arte no Serviço Social deve ser condizente com os objetivos profissionais,
ou seja, requer a utilização de uma arte que vise a superação da ordem e das relações
de exploração vigentes. Assim, os objetivos profissionais do assistente social,
quando voltados para a emancipação dos sujeitos e somados ao potencial educativo da arte, buscam colaborar para a construção de uma nova e superior hegemonia,
para a formação de homens mais críticos e conscientes. (CONCEIÇÃO, 2010, p. 57,
grifo nosso).
Ou seja, para que a arte possa potencializar os objetivos ético-políticos do Assistente
Social, é necessário antes que o profissional possua afinação teórico-metodológica para não se
perder, quando a música for usada como uma técnica34 do Serviço Social ou com ele trabalhar
de forma multidisciplinar.
Deste modo, independente do tipo de trabalho proposto, este deve fomentar subsídios
intelectuais que possibilitem o questionamento, a reflexão e a não aceitação passiva de
determinações e paradigmas ideoculturais fetichizados35, impostos pela classe dominante36.
34
Já debatido previamente sobre instrumentalidade.
No sentido de processo em que os sentidos foram atribuídos automaticamente, “enfeitiçados”, como sugere o
termo traduzido de um dicionário básico de português; sem reflexão crítica prévia.
36
„A classe dominante difunde, por meio da indústria cultural, uma ideologia conforme a sua manutenção no
poder, utilizando o vasto alcance de público por esta propiciado para reproduzir a hegemonia e, assim, manter
a relação de exploração vigente na sociedade. Apesar de ter um grande aparato tecnológico, é esteticamente
empobrecida e, basicamente, sem qualidade humana ou marcada por apelos a emoções rasteiras, difundida ou
mesmo imposta em larga escala por aparelhos de comunicação de massa, em especial pelos meios de maior
penetração cultural, como o rádio, a televisão e o cinema” (PEIXOTO, 2003, p.82). [sic] Apresenta-se como
35
19
Isto para que as pessoas atendidas passem a ter condições de se situarem como sujeitos sociais
ativos, históricos e não como mera massa de manobra. Como se trata do caso das expressões
artísticas como perspectiva de instrumentalidade, deve ser considerado que
o uso da arte, ou qualquer estratégia de exposição, não pode prevalecer sobre o que é
essencial, o conteúdo aprofundado e problematizado da mensagem orientada para
uma finalidade, ou a exposição perde densidade e substância. (PRATES, 2007, p. 11
apud CONCEIÇÃO, 2010, p. 64).
Ela deve dialogar com a realidade que vai receber a intervenção. Neste sentido, as
artes servem de estratégia37 de articulação para se formular interpretações das expressões dos
sujeitos
materializados na arte enquanto matéria-prima e também no que se refere ao uso
da arte como estratégia pedagógica e de exposição (fundamental para que os sujeitos possam se reconhecer enquanto produtores de suas obras e para que se percebam
como sujeitos da história). Assim, o reconhecimento da necessidade de práticas alternativas e de intervenções interdisciplinares é essencial, uma vez que nenhuma
área sozinha pode dar conta dos complexos fenômenos sociais existentes no trato
dos sujeitos enquanto “homem total”. (PRATES, 2007, apud CONCEIÇÃO, 2010, p.
64, grifo nosso).
Em suma, o uso da música enquanto alternativa para a intervenção em Serviço Social
pode ser muito profícuo, desde que haja domínio e competência teórico-metodológica para
isso. Partindo das considerações iniciais feitas, seguem as análises das experiências
documentadas em Conceição (2010), Leal et al (2008), Prates (2007) e Vergara (2003).
3.2 AS POSSIBILIDADES DA MÚSICA ENQUANTO TÉCNICA DO SERVIÇO SOCIAL
O principal elo entre a Música e o Serviço Social, unanimemente observado em todas
as referências à temática aqui analisadas, direta ou indiretamente, é o da criatividade. Dentro
desta perspectiva Silva (2000 apud CONCEIÇÃO, 2010) levantou em entrevistas realizadas
com Assistentes Sociais que trabalham em projetos de intervenção com a arte, algumas sínteses como as seguintes:
• A arte vista como instrumento capaz de trazer estímulo ao potencial criativo e crítico do ser humano, como requalificadora de valores, como criadora de novas formas de vida e de realidades;
• A necessidade da criação de trabalhos ou projetos capazes de propiciar o acesso da
população às diversas formas de arte, democratizando esse acesso, principalmente às
camadas menos favorecidas desse direito, das quais faz parte a maioria dos usuários
dos serviços sociais e/ou assistenciais deste país;
um instrumento educativo, surgindo como uma típica “superestrutura do regime capitalista” usada para fins de
controle das consciências. E ainda que assumindo os modos exteriores de uma cultura popular, ao invés de
crescerem espontaneamente de baixo são impostos de cima. Em contrapartida, a essência a que se propõe a denominada “arte popular” visa fazer frente às imposições e à massificação imposta pela indústria cultural, preocupa -se com os interesses da classe trabalhadora, com o intuito de clarificação das relações sociais. Seus produtores podem ser considerados intelectuais orgânicos da classe trabalhadora, já que se trata de pertencentes ou
consonantes com os objetivos desta. ‟ (CONCEIÇÃO, 2010, p. 60).
37
Sobre estratégias, Faleiros (2011a) entende todo o conjunto de articulação de correlação de forças, mediações
entre o subjetivo dos usuários, suas condições objetivas e a totalidade enquanto classe social, fortalecendo e
empoderando assim o seu “eu” e formulando suas representações, consequentemente a concepção de direitos
que o sujeito possui, despertando as potencialidades enquanto poder coletivo, valendo-se inclusive o Assistente
Social, do poder e autonomia que lhe foi conferido enquanto profissional de Serviço Social.
20
• O papel da arte enquanto força que se contrapõe à desumanização, enquanto força
em oposição à massificação dos homens;
• A importância do estímulo do potencial criativo do próprio Serviço Social que caminha rumo à elaboração de ações ou intervenções mais criativas;
• A relevância de se criar, através do trabalho quotidiano do assistente social, oportunidades que possibilitem o afloramento do potencial criativo dos usuários.
• A arte como meio de operacionalização do acesso e da ampliação dos direitos do
cidadão. (SILVA, 2000 apud CONCEIÇÃO, 2010, p. 61).
De acordo com Merrian 38 (1964 apud LEAL et al, 2008, p. 5) a música, enquanto
expressão cultural das classes sociais, “é um meio de interação social, produzida [...] para
outras pessoas, [...] um comportamento aprendido, [...] qual sons são organizados,
possibilitando uma forma simbólica de comunicação na interrelação [sic] entre indivíduo e
grupo.” Com estas características, se torna uma técnica eficiente no trabalho social tanto para
criação de vínculos entre seus membros quanto em relação ao profissional, “quebrando o
gelo”, por exemplo. Neste contexto destacam-se as dinâmicas de grupo, podendo objetivar
integração social de indivíduos de diferentes seguimentos ou específicos. (PRATES, 2007).
Deste modo, enquanto uma mediação criada pelo Assistente Social, a música atua
no tecer de comunicações, estabelecimento de relações sociais nas quais os cidadãos em geral
tenham expressão de sua identidade, enquanto sujeitos históricos, na busca da ação na ânsia
do fazer pessoal, assim como em grupos organizados, participativos, na luta por estes direitos.
(VERGARA, 2003).
Mas, o uso da música requer do Assistente Social atenção fundamental sobre os aspectos ideológicos, psicológicos e sociais que ela pode exercer enquanto influência sobre os usuários. Muito mais do que simplesmente colocar para tocar, é preciso pensar além da arte em
si, é refletir sobre “as experiências e questões que são colocadas em foco.” (CONCEIÇÃO, 2010, p. 62, grifo nosso).
Isto porque ela “é constituída de uma multiplicidade de códigos capazes de produzir
efeitos, visões e opiniões, mas que em geral passam despercebidos do espectador, gerando
nestes um estado de excitação emocional que o torna mais receptivo a influências.” (CONCEIÇÃO, 2010, p. 62-63). É preciso, pois, “ultrapassar o [...] que está aparente. É nesta relação que se insere a prática do profissional, ao fomentar a construção e a percepção [...].”
(CONCEIÇÃO, 2010, p. 63).
Já enquanto instrumento, observou-se muito a utilização da música no levantamento
de dados sobre demandas para políticas sociais, sua ampliação ou implementação; de
problemas ou fatores de risco que determinada população corra, quando algum assunto for
muito sensível de ser tratado abertamente pela sua intensidade subjetiva. (CONCEIÇÃO,
2010; PRATES, 2007).
Assim, ela permite a apropriação de um determinado espaço e nele as suas relações
estabelecidas (e as que estabelece). Neste quadro, é possível extrair através da socialização
de experiências as informações e possíveis elementos necessários à sua intervenção.
(PRATES, 2007).
Tanto em um uso quanto em outro (técnica e instrumento), Prates (2007) chamou
atenção para um fator que deve ser observado na atuação, que é a sensibilidade (não
confundida com emotividade, mas percepção aguçada) no uso. De modo que a razão 39 não
38
Autor que formulou a teoria da Etnomusicologia, na qual reforçou a necessidade de se abordar a combinação
de estudos antropológicos e musicológicos, entendendo a música como uma das expressões culturais da
humanidade, sendo produto de uma estrutura constituída, portanto, importante para tal compreensão, inclusive
dos seus sistemas simbólicos. (LEAL et al, 2008).
39
Refere-se à racionalidade formal-abstrata, característica marcantemente rígida dos moldes burocráticos, que
geralmente é buscada nas ciências da natureza. (GUERRA, 2011). A razão necessária na articulação do texto é
aquela cuja a sua essência é ontológica e dialeticamente crítica.
21
deve se sobrepor à arte ou subestimar a realidade, mas estabelecer uma relação entre ambas. A
autora expôs isto lembrando Marx ao tratar a questão da estética na transmissão das
mensagens, devendo o profissional fazê-la de forma agradável e articulando-a aos sentidos e
representações do ouvinte-receptor. Assim, por exemplo,
“a dor, só é vivida de modo sensível pelo homem que desenvolve os sentidos, dizia
Marx, no II Manuscrito, e quanto mais desenvolvido este sentido, maiores as
possibilidades de identificação com a dor alheia, porque nos solidarizamos com ela
ao invés de banalizá-la, naturalizá-la. (PRATES, 2007, p. 231).
4 A MÚSICA NA POTENCIALIZAÇÃO E NO FORTALECIMENTO DO TRABALHO
DO ASSISTENTE SOCIAL
Para a elaboração desta parte do trabalho foi consultada a contribuição de Assistentes
Sociais em conjunto com outras áreas do conhecimento as quais eles articularam, como
Etnomusicologia, Neuropsiquiatria, por exemplo. Isto foi aliado à percepção histórica
intrínseca ao modo de análise adotada aqui. A justificativa para essa consulta adicional de
outras óticas profissionais se deu pela percepção, através das leituras bibliográficas e
documentais a elas realizadas, de que o potencial da música vai muito além do esperado,
como já ressaltado em diversos momentos.
Esta abordagem está inserida no movimento dialético de considerar as
multidimensões,
multideterminações,
particularidades
e
da
totalidade
deste
fenômeno/processo. Além disso, o Assistente Social geralmente se insere em quadros
multidisciplinares e nestes espaços se apropria dos conhecimentos das outras áreas para a sua
perspectiva social (BISNETO, 2009) e com isso construir as melhores alternativas possíveis.
Neste contexto, o Assistente Social que utiliza o método histórico-dialético deve
observar em sua atuação profissional os fatores históricos, econômicos, sociais, psicológicos,
etnológicos, raciais, condições objetivas e subjetivas de vida, etc.
Foi peculiar observar no tocante às experiências referentes à musicalidade, uma
relação subjetiva que se estabelece e que contribui para a potencialização 40 nos trabalhos
pesquisados. Assim como no labor, também a música, quando um ser humano realiza esta
mediação modificadora e transformadora, ele próprio percebe os resultados do feito e aquilo o
resubjetiva, mudando aquela pessoa agora para um novo patamar, pois aquela necessidade que
o levou ao seu objeto de criação fora suprida, mas que agora o impulsiona além, já que novas
vão surgindo. Por conseguinte, o processo de construção se faz contínuo (ABESS, 1999) e a
humanização deste ser vivo se eterniza. (NETTO apud BONETTI et al, 2010).
Isto porque a música também possui sua carga intelectual, dentro de uma lógica
própria de operação que exige do executor a aprendizagem sobre decodificação de sons
(fonemas, notas, acordes, pausas, por exemplo) e sua organização (como nas escalas),
conhecimentos gerais sem os quais não se consegue realizar. Os exercícios de coordenação
motora, respiração, ritmo e sincronia completam o quadro de esquemas cognitivoemocionais41 mobilizados no processo de uma simples oficina de ensino musical. Este caráter
de objetivação e execução faz desta arte também um trabalho42 realizado.
40
Trata-se do efeito gerado pela música, o qual reforça as capacidades e processos intelectivo-cognitivos e
sociais dos indivíduos e grupos atendidos pelo Serviço Social, comprovados por estudos da neuropsiquiatria e
percebidos e apropriados pelo Assistente Social e seu processo de trabalho, tal como desenvolvido linhas à
frente.
41
Isto porque a música é uma atividade que também propicia espaços de convivência e cooperação, para que o
resultado aconteça, mesmo que exija treinamento individual.
42
Afirmação feita, salvo discussões conceituais sobre trabalho em Marx (1863), com base nos seus elementos
característicos e constitutivos da laboralidade em ABESS (1999).
22
Nesse contexto (e também neste sentido), alguns processos relacionados à
musicalidade 43 são importantíssimos de serem abordados para ajudar na compreensão do
como a música atua como fator de empoderamento, por exemplo, que é social. (ver seção
4.5). Dentre eles, especialmente se destacam os processos neurosensoriais e o fator
resiliência 44 , por exemplo, que ao serem percebidos, compreendidos e apropriados pelos
Assistentes Sociais contribuem para que este profissional melhor utilize45 a arte para seus
objetivos. Do contrário, o não conhecimento daquilo que se pretende atuar pode decorrer em
fracasso e no fetiche da técnica como um “fim em si”, esgotando seu sentido e perdendo a
objetividade.
A seguir, cada seção tratou de aspectos que são Mediações para emancipação,
considerando que para este fato (que é um resultado) acontecer é necessário que ocorram tais
etapas. Os resultados foram observados consultando as obras de Bisneto (2009), Faleiros
(2011a), Conceição (2010), Prates (2007) Leal et al (2008) e Matus (1996).
4.1 MÚSICA E SERVIÇO SOCIAL NO FORTALECIMENTO PELA CULTURA
Feitas estas observações e levando em consideração os estudos científicos destas
diferentes áreas, o Assistente Social deles se apropria e parte para o fortalecimento – que é
uma das estratégias em Serviço Social (FALEIROS, 2011a) - dos sujeitos (aliando-os à sua
atuação, que como se sabe, é de caráter social).
Leal et al (2008) trabalharam nesta perspectiva tendo largamente o apoio em estudos
da Etnomusicologia, conhecida como “antropologia da música” (MERRIAN, 1964 apud
LEAL et al, 2008) que estuda esta arte enquanto cultura. Tal ciência dá ênfase na
musicalidade dentro dos diversos contextos históricos e sociais, abordando e ressaltando o
fazer musical segundo o ponto de vista dos atores envolvidos, seja em comunidades
tradicionais urbanas ou rurais.
Tanto a Etnomusicologia quanto o Serviço Social possuem o objetivo de valorizar, de
fortalecer as pessoas através do respeito cultural, fazendo com que o posicionamento político
destas duas áreas convirja. A primeira, através da preservação e do reconhecimento de suas
práticas musicais como culturas, colabora com a construção da resiliência delas, pelo reforço
de sua identidade dentro destas referidas características, particularidades que lhes são tão
singulares, únicas, ampliando sua capacidade de resposta aos desafios da vida. (LEAL et al,
2008). No segundo, está explicito em seu Código de Ética profissional, de 199346 esta postura.
Isto porque o caminho para a emancipação abrange uma dimensão muito ampla e não
se resume a aspectos jurídicos ou econômicos, indo para além, não dependendo de
43
A musicalidade não compreendida apenas no sentido de que a pessoa esteja necessariamente vinculada a
indústria da música, ou seja artista “profissional”. Ela é entendida aqui como em exemplo parecido da
instrumentalidade do Serviço Social em Guerra (2011): envolve desde o interesse pelas expressões musicais, a
prática, amadora ou não, bem como ato de aprendizagem e sua busca também se encaixam neste entendimento.
44
Conceito da área de humanas, com ênfase na psiquiatria/psicologia. Relaciona-se com a capacidade de
recuperação, resistência, diante de problemas e outros contratempos dos indivíduos. (Ver entre as páginas 20 e
21).
45
E obviamente que isto se daria através de um processo e não como uma fórmula mágica nem com
procedimentos rígidos, aliás, como tudo relacionado aos assuntos de Serviço Social.
46
“VI. Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à
participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças;” (CFESS, 2012, p. 23), “VII.
Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráticas existentes e suas expressões
teóricas, e compromisso com o constante aprimoramento intelectual;” (CFESS, 2012, p. 24), e “XI. Exercício
do Serviço Social sem ser discriminado/a, nem discriminar, por questões de inserção de classe social, gênero,
etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual, identidade de gênero, idade e condição física.” (IDEM
IBIDEM) são só alguns exemplos.
23
emancipações associadas (à instituições47) e deve acontecer independentemente destas, não
importando que tipo de concepções de mundo ou de sociedade os indivíduos venham a ter.
Compreende sim, a aquisição elementos para suplantação de condições objetivas de vida
(GUERRA, 2011), mas também subjetivas, pois uma se complementa à outra, numa relação
dialeticamente articulada. Ele muitas vezes abrange este regate histórico ou afirmativo
mencionado no parágrafo anterior.
Neste contexto, os profissionais (Assistente Social e Etnomusicólogo) estão lidando
com o que Faleiros (2011a) chama de Representações Sociais. “Esta se traduz [...] pela
consciência de si e do outro [...] envolve manifestação da cultura, da ideologia, do eu, da vida
diária e das relações de classes de maneira heterogênea e confusa” (FALEIROS, 2011a, p.
102).
Esta confluência de perspectivas profissionais propiciou que houvesse um trabalho
muito profícuo no contexto das representações sociais, no projeto social relatado em Leal et al
(2008) a seguir.
4.2 MÚSICA E SERVIÇO SOCIAL NO ENFRENTAMENTO DA FRAGILIZAÇÃO
Tratou-se do projeto observado pelas autoras “Música e Serviço Social – Integrando
Saberes48” surgido como resultado de um processo construído no Projeto Luamim – peças
interventivas na realidade. 49 Este último “prevê o desenvolvimento de ações de ensino,
extensão e pesquisa na área do Serviço Social no contexto das ciências culturais, objetivando
integrar cultura / produção / criação intelectual e artística / ciência”. (LEAL et al, 2008, p. 5).
Este projeto surgiu como forma de intercâmbio profissional, pois a música demonstrou, ao longo do tempo, forte potencial de intervenção social, o que instigou a produção acadêmica de estudantes, professores e diversas áreas do conhecimento.
E demonstrando a importância da relação de graduandos de Serviço Social e de Música, ressaltando que ambos em conjunto estabelecem relação mútua de benefícios, no tocante a
ampliação em seus leques de técnicas específicas e reforçando suas competências teóricometodológicas, surgiu como objetivação destes estudiosos. Além de tudo, o projeto
amplia para os seus participantes as possibilidades de intervir na realidade, construindo-a / reconstruindo-a, atendendo a uma demanda atual de interdisciplinaridade,
com muitas possibilidades de ampliação de atendimento às necessidades de abertura
de campo de estágio curricular, trabalhos de pesquisa e extensão em diversas áreas
do conhecimento. (LEAL et al, 2008, p. 1).
O projeto Luamim desenvolve trabalhos através de oficinas de canto e coral para
jovens de 14 a 17 anos, estudantes de escola pública municipal nos bairros de Guamá e Terra
Firme (Belém – PA), como instrumentos de sociabilização, musicalização e resiliência. Assim
foram observados os seguintes aspectos quais a música potencializa no seu interior, de
acordo com o analisado na produção das autoras.
47
Instituição entendida em sentido amplo, como algo que se institui, ou é instituído histórica e socialmente (os
sistemas de valores, de crenças, saberes populares, de classe, etc.) além daquelas consolidadas legalmente (de
serviços públicos de saúde, educação, entre outras). (BERGER e BERGER, 2004).
48
Parceria entre os cursos de Música e Serviço Social, o projeto Música e Serviço Social – Integrando Saberes,
através do PROINT (Programa Integrado Ensino, Pesquisa e Extensão) com recursos da Universidade Federal
do Pará (UFPA), insere os acadêmicos, proporcionando-lhes oportunidades de desenvolver suas habilidades
técnicas enquanto futuros arte-educadores com grupos altamente vulneráveis.
49
Desde 1992 o projeto Luamim oferta oficinas de práticas musicais a crianças e adolescentes nos bairros de
Guamá e Terra Firme (Belém – PA).
24
nosso cérebro tem a capacidade de adaptar-se diante dos acontecimentos
vivenciados em nosso dia-a-dia, sendo que o ambiente em que estamos inseridos
tem grande papel transformador. Nesse contexto, nossa capacidade de renovação é
completa, assim como acontece [...] com nossas atitudes, pensamentos e formas de
assimilação para determinados acontecimentos e, por ser o homem único, há
diferenças comportamentais em cada indivíduo. Certas pessoas, diante dos
dissabores da vida, além de confrontarem as situações, enfrentam as tensões com
desenvoltura, fazendo de cada experiência um aprendizado positivo. Ou seja,
desenvolveram ao longo da vida um comportamento resiliente. (LEAL et al, 2008, p.
2).
Assim, a música age gerando estímulos cerebrais, contribuindo com que as pessoas
desenvolvam formas de enfrentamento dos problemas, adversidades, bem como melhorando a
capacidade de recuperação (no caso da musicoterapia) de acidentes graves, doenças; retardando o processo de degenerações (ou até anulando); estabelecendo fuga de distúrbios, transtornos e vários outros, tipos de enfrentamento que se classificam como coping50.
O coping51 (enfrentamento) é a maneira (acervo cognitivo pessoal) de lidar com os
problemas, situações de tensão, estres, circunstâncias de violações de direitos que cada ser
humano possui. O indivíduo escolhe e se acostuma a usar. São reações relacionadas à “demandas situacionais, fatores pessoais e recursos disponíveis.” (LEAL et al 2008, p. 4).
Quando não é possível para a pessoa este enfrentamento, ocorre a fragilização, onde o
Assistente Social trabalha com a estratégia de empoderamento (que é a perspectiva social).
Esta breve explicação sobre a categoria foi necessária para a compreensão mais ampla do como o projeto lançou seus resultados. (LEAL et al, 2008).
O projeto trabalha estas formas de enfrentamento através da música, por causa do seu
caráter de integração cultural, o que contribui para a socialização, reintegração destas
pessoas fragilizadas emocionalmente, proporcionando, através de sua expressividade, o
compartilhamento de suas experiências. Como o ser humano é um organismo essencialmente
social, esta troca de vivências de luta colabora para a superação, e emancipação dos usuários
(e demais indivíduos), tendo como uma destas vias a edificação da resiliência.
A seção a seguir aborda outra forma de potencialização da música em conjunto com o
Serviço Social e também mais uma Mediação para a emancipação: a reabilitação.
4.3 MÚSICA E SERVIÇO SOCIAL NA REABILITAÇÃO
A música possui o potencial reforçador de todas as capacidades, – até porque ela
fornece os estímulos a várias áreas do cérebro – isto é confirmado por médicos de diferentes
especialidades que utilizam da musicoterapia em seus pacientes, (indo de psiquiatria,
passando pela gerontologia até a pediatria) “pois a utilização de sons, ritmos e melodias ajuda
a restabelecer a saúde física e mental de alguns pacientes” (LEAL et al, 2008, p.3), indo o
efeito terapêutico da música, [...] muito além do aspecto tranquilizante [sic] de uma
sonata ou de uma sinfonia, pois estudos garantem que a música potencializa a reabilitação de pacientes em casos de doenças degenerativas do cérebro, além de induzir
a liberação de certas substâncias, como dopamina e serotonina, que proporcionam
sensação de prazer e bem-estar. (LEAL et al, 2008, p.3).
E também a música “ajuda os indivíduos a se expressarem melhor emocionalmente
aliviando as tensões, favorecendo o convívio social e buscando superar a adversidade.”
50
51
Conceito da neuropsiquiatria (ver próximo parágrafo).
São vários os tipos de coping classificados: o de evitação (que é a fuga), de extravaso emocional (exalação da
agressividade através de grito ou choro), entre vários que a neuropsiquiatria já estudou. (LEAL et al, 2008).
25
(LEAL et al, 2008, p. 3). Ela representa uma alternativa àqueles que possuem este tipo de
dificuldade. Seus efeitos até parecem mágicos, mas explicados cientificamente. “Em alguns
casos, a música consegue desviar o foco de atenção do indivíduo da dor e do sofrimento para
a alegria e o prazer.” (IDEM, IBIDEM). Deste modo,
“transformar a dor em peça de arte é um dom comum entre pessoas que aprendem a
sublimar o sofrimento de forma reparadora” (Assis, 2006, p.95), ou seja, a estratégia
de cicatrização por meio da arte e do humor é considerada um dos fatores de
resiliência mais preciosos. (LEAL et al, 2008, p. 3, grifo nosso).
Deste modo, no que tange a busca pela superação da fragilização arte se mostra uma
grande aliada, pois consegue colaborar para que os sujeitos desenvolvam a autonomia na reapropriação das relações sociais ainda no convívio entre os semelhantes em mesma condição.
“As atividades privadas, como por exemplo, as que envolvem primordialmente afeto e emoção, têm maior grau de autonomia em relação às estruturas sociais”. (BISNETO, 2009, p.
193).
Mas, elas por si só não são suficientes e essa autonomia inicial tem que ser articulada e associada a outras ações para completar os outros passos que conduzem à emancipação, como os programas de moradias dentre outros – onde justamente são encontrados os
desafios, tendo por exemplo o confronto com setores burgueses imobiliários e o mercado de
trabalho excludente. E aí é que entra o saber do Assistente Social, fazendo a Mediação que
complementa a inicialmente realizada pela música e estas outras áreas.
Tais desafios não querem dizer que por isso o trabalho (ou mesmo a possibilidade de
emancipação) esteja necessariamente comprometido ou severamente condicionado. Tampouco foi dito que seja tarefa simples. A música pode ser uma Mediação quando fornece subsídios a apropriação crítica da realidade pelos pacientes, resubjetivando e eliminando os
entraves psíquicos e traumáticos que a ideologia capitalista inicialmente postulou em sua vida.
Isto se dá – e foi observado nos setores de saúde, em especial o da saúde mental52 - de
forma a ser utilizada como instrumento no processo para reapropriação subjetiva e institucional53 (BISNETO, 2009) do indivíduo (ou grupo) em questão. É possível, pois historicamente
ao transformar os objetos o próprio ser humano se transforma, porque adquire uma nova habilidade e esta por sua vez gera novas necessidades. Há uma relação íntima entre objetivo e subjetivo. “Toda prática transforma objetos e produz subjetividade de forma dialética, isto é, positiva e negativamente”. (BISNETO, 2009, p. 187).
Neste caso, ela pode ser um meio para produzir essa vinculação inicialmente subjetiva
para posteriormente estabelecer-se relação objetiva (no que se refere à realidade social da qual
fora excluído, e isso de forma crítica, não numa perspectiva ajustadora ou de “integração social”54), pois nesse próprio processo de produção, o indivíduo (ou grupo social) se apodera
subjetivamente, gerando assim (e gradualmente) as condições para seu fortalecimento e superação do estado de sofrimento mental do qual se encontrava; depois consequentemente, para
a retomada de sua vida no retorno à sociedade. Tudo isso se dá em um processo, não progressivo linearmente, lento e gradual.
A pessoa vai alcançando a condição de emancipada, na medida em que ocorra a apropriação completa do percurso percorrido e politicamente do processo global do qual esteve
inserido, ou seja, quando se tornou capaz de se perceber criticamente na volta ao convívio
52
Ver livro Serviço Social e Saúde Mental – José Augusto Bisneto, mais precisamente em seu capítulo 4 da
obra, ao tratar de reapropriação institucional, o autor cita, entre outros instrumentos de auxílio as expressões
artísticas e musicoterapia no decorrer de tal processo.
53
Ver nota de rodapé número 47 da seção 4.2.
54
Crítica já muito bem desenvolvida pelo autor, quando “integração social” é utilizada como estratégia burguesa
de esvaziamento político.
26
comunitário. Tal caminho não é simples, pois envolve uma relação com todo tipo de mediações sociais possíveis, incluindo o preconceito enfrentado socialmente, associado ao estigma
gerado no caminho e notadamente atrelado ao desenvolvimento histórico do capitalismo que
sempre tratou com desprezo àqueles que não se adequam à sua lógica de dominação e exploração (BISNETO, 2009). Como um solo musical em compasso altamente acelerado, o despreparo e o pouco-caso macrossocial em relação com o tema da saúde mental entra em cena.
Mas o autor faz mais um alerta fundamental: a eficiência ou não de uma ferramenta
depende igualmente da capacitação de quem a utiliza. Não importa qual ela seja, se não
houver ligação entre as três dimensões do Serviço Social (teórico-metodológica, técnicooperativa e ético-política) se esgotará. Deste modo, para a pretensão da utilização da música
enquanto Mediação, o Assistente Social necessita articulá-las de forma crítica e mais ainda,
com conhecimento de um elemento ineliminável: a condição de sujeito social. Se desconsiderar esse fato, ocorrerá uma grande confusão e corre-se o risco de se imaginar que uma eventual falha se deu pela hipotética ineficiência da técnica – sendo que nem sempre o problema se
apresenta neste quesito.
É preciso analisar também que modelo (terapêutico55 ou de qualquer forma) de atuação o profissional vai se orientar bem como a visão de mundo a qual defende. (BISNETO,
2009). A não definição desses aspectos também acarreta em ineficiência e inobjetividade da
ação. Não podem restar intenções difusas, ou o resultado igualmente se fará difuso.
Se o desejo é de trabalhar na perspectiva de emancipação, o Assistente Social jamais deverá se esquecer de considerar a vinculação da vida social dos atendidos com o modo
de produção capitalista e suas instituições burguesas, quais Deleuze e Guattari (1976, apud
BISNETO, 2009) situam como os principais causadores e disseminadores de sofrimentos
mentais bem como de transtornos gerais, surgidos pelo choque cultural entre o que a ideologia
deste sistema impõe e o que os sujeitos são de fato, além do aviltamento diário da classe trabalhadora.
4.4 MÚSICA E SERVIÇO SOCIAL NO FORTALECIMENTO POLÍTICO
O Assistente Social ao perceber e se apropriar destes resultados, pode trabalhar não só
a dimensão social das doenças em questão, como articular estas mediações do usuário e do
grupo familiar, construindo as estratégias para a superação e a redescoberta do poder outrora
perdido com a vinda da enfermidade, assim como assinala Faleiros (2011a). Nas sociedades
capitalistas, estas perdas estão relacionadas à correlação de forças 56 , em que os grandes
proprietários do Capital, através de seu poderio econômico e político, proveniente de seu
patrimônio material (ver na seção 4.5.1 mais detalhes), fazem valer seus interesses que
invariavelmente incorrem em precarização e perdas para a classe trabalhadora. Mas as “forças
subalternas têm o patrimônio da mobilização e da organização política, do questionamento
ideológico, da ampliação da democracia e da cidadania e da sua inserção cultural e afetiva”
(FALEIROS, 2011a, p. 49).
E se compreendido que há interação entre os seres humanos, natureza e arte, através
das atividades musicais é possível esta superação no que tange suas limitações gerais de
compreensão, de sua totalidade social e seus contextos específicos. Isto porque quem faz a
55
Bisneto (2009) trouxe em sua obra um entendimento mais amplo sobre este “efeito terapêutico”, (referente ao
termo do parágrafo) que abrange um sentido de reapropriação e não de “práticas terapêuticas”, pois é sabido
que este último fazer não compete ao Serviço Social.
56
São mediações econômicas, políticas e ideológicas articulas a outros efeitos como pressão de poder, direito a
sobrevivência ou questionamento de instituição, dentro de uma trama de enfrentamentos e lutas de diferentes
ordens, visando valer interesses de grupos antagônicos, envolvendo capacidade (recursos objetivos e
conhecimentos) e “força econômica e política em função de seu patrimônio”. (FALEIROS, 2011a, p. 48).
27
ação são os sujeitos. Argumentou-se com base nos achados documentais em Vergara (2003)
que a música pode servir como mediação de primeira ordem pelo caráter transformatório e
edificante se devidamente articulada ao aspecto político de elaboração de estratégias de luta
(para a sua emancipação, por condição objetiva, material, emocional ou contra a alienação) e
de resistências diversas. As letras, pela capacidade de ocultar e codificar sentidos fizeram com
que as canções do período ditatorial brasileiro adquirissem este estilo e tornassem meios de
transmissão destes sinais de articulação para luta.
Assim, a música se mostra um mecanismo de exteriorização de sentimentos (tanto
pessoal quanto coletiva) frente à insatisfações por motivos políticos57, históricos ou como um
veículo de protesto, por exemplo, mediante conjunturas de precarização e arrocho políticoinstitucional. 58 Os problemas em comum são o elo entre os sujeitos, que são convergidos
numa movimentação, qual a arte trata de mediar, unindo, criando uma identificação social
através de seus códigos, mensagens e informações. Assim, ela cria uma espécie de “selo” que
potencializa sensações, desejos e ações. (CONCEIÇÃO, 2010; PRATES, 2007). Algumas
canções se tornam lemas de determinadas bandeiras de luta, que são cantadas durante o ato,
criando uma vinculação identitária, emocional e de pertencimento a Movimentos Sociais59,
por exemplo.
Nesse processo há uma redução do peso dos fatores institucionais e sociais, adquirindo
novas significações que colaboram para a superação (e consequentemente, emancipação),
transformando da realidade vivida pelos sujeitos. (VERGARA, 2003).
Deste modo, na vida humana muitas vezes o caminho emancipatório compreende (não
linearmente ou necessariamente nesta ordem) reabilitação num primeiro momento, coping;
resiliência - com o aprendizado e assimilação pelas experiências (próprias de vida e sociais) passando pelo empoderamento (como ganho de poder de luta para a saída da situação de
vitimização e por direitos) e culminando na tomada de consciência política de sua condição
enquanto sujeito agente.
Como já exposto, a expressão musical, assim como qualquer outra atividade desenvolvida pelo ser humano, pode colaborar para a potencialização das objetivações, emancipação,
ou para a dominação, reforçando – e isso em nível macrossocial – as relações de gênero e
“raça”, o fetiche da mercadoria, entre outras ideologias que impedem mesmo o progresso moral (VASQUEZ, 1993) e monopolizam o poder que deveria estar nas mãos do próprio povo
sobre aqueles que o lideram através dos governos. (DUSSEL, 2007).
Isto ocorre, por causa de sua característica de contemplação ampla e de edificação de
identidade social60, coletiva, na conformação de comunidades musicais diversas, reforçando a
parte referencial que fala da expressão artística como integrante de uma determinada cultura
(estudos da Etnomusicologia).
Mas só é possível porque a música consegue servir de Mediação, mediando todas as
mediações inerentes a cada trajetória individual, coletiva, como os valores, crenças,
57
Estas formas de manifestação em si já conformam atitudes políticas, entendendo-a em sentido amplo, mas que
também não descarta a possibilidade de isto se dar no espaço e formatos político-partidários.
58
A música, assim como as manifestações de ruas, imprensa, teatros, escolas, igrejas, organizações populares
diversas pode se tornar um foco de questionamento diante de uma conjuntura específica global. (FALEIROS,
2011b). Dentre exemplos clássicos estão o movimento musical Punk nos Estados unidos e Inglaterra dentre
vários países na década de 70. No Brasil destacam-se o Tropicalismo, Manguebeat, rap, samba paulista das
décadas de 50 e 60 dentre uma vasta pluralidade de manifestações culturais e regionais pelo país, conhecidas e
não estudadas. O ponto comum observado em todos os contextos consiste em protestos e insatisfação perante
os problemas sociais.
59
Sobre a articulação entre Música e Movimentos Sociais é indicada para consulta à produção de Fernanda Rosa
(no prelo) “A Música de Protesto e os Movimentos Sociais Contemporâneos” (Trabalho de Conclusão de
Curso).
60
Ver mais detalhes sobre identidade na seção 4.5.2.
28
convicções, objetivos em comum, entre várias outras que mais a natureza humana e social
pode dispor. É uma das formas mais potencias de mobilização, de unificação das pessoas, que
mesmo desconhecidas entre si, podem se entender no engajar de uma determinada causa, pois
ela é também uma forma de linguagem 61 e através dela são passadas ideias e ideologias
(PEIXOTO, 2005).
4.5 MÚSICA E SERVIÇO SOCIAL NO EMPODERAMENTO
Por empoderamento Faleiros (2011a) compreende o processo pelo qual os Assistentes
Sociais, municiados do conhecimento das multideterminações dos sujeitos, suas estratégias
particulares e descobrindo o processo que os fragilizou, constrói em conjunto com eles, a
tática-estratégia de enfrentamento de sua fragilização, numa relação política mais vantajosa
para as classes populares, que não só visa tal superação como a tomada de consciência e
construção de força para a luta de forma autônoma.
É compreendido ainda que este processo leva em consideração três dimensões
voltadas para o fortalecimento do eu, da criticidade e o uso de recursos:
a) O desenvolvimento do sentido do eu mais positivo e poderoso; b) a construção de
uma capacidade de compreensão mais crítica da rede das realidades sociais e políticas e do meio; e c) o fomento de recursos e estratégias ou de mais competência funcional para alcançar objetivos pessoais e coletivos. (LEE, 1994, p.13 apud FALEIROS, 2011a, p. 51).
Deste modo, o autor situou que para tanto:
O aumento do poder dos clientes implica tornar explícita a relação de poder na intervenção profissional, por exemplo, fazendo um contrato claro com os usuários,
compartilhando com eles as informações e as técnicas, clarificando os papéis de cada um. Implica também agrupá-los, usando seu [sic] poder de pressão e o poder legalmente sancionado. (FALEIROS, 2011a, p. 52 – grifo do autor).62
No contexto da letra “c”, foi observada uma forma de utilização da música na organização social com a assessoria de um Assistente Social como um possível intelectual orgânico,
por exemplo, no interior dos Movimentos Sociais. Apropriado deste potencial abrangente e
socializante desta arte e seus espaços, colabora para o empoderamento dos sujeitos do grupo,
pela via de estímulo à luta por objetivos em específico ou mais amplos, por conquista de determinado acesso a direitos de que venham a carecer, pois através
das práticas de coletivização ajuda-se o usuário (cliente) a sair da compreensão individualista de seu problema, por exemplo, colocando o cliente em contato com outros
usuários, apoiando o questionamento das soluções individuais, fazendo-se contatos
com os membros da rede do cliente, encorajando-o a fazer alianças. (FALEIROS,
2011a, p. 52).
Mas para se compreender o empoderamento como resultado final de um processo de
trabalho, é necessário abordar (ainda que forma sucinta) o fortalecimento de duas áreas que
ele implica: a autonomia e da identidade.
61
Faculdade qual o ser humano transmite ideias, pensamentos, podendo ser falada, escrita ou através de sinais
socialmente convencionados. (DICIONÁRIO ONLINE DE PORTUGUÊS, 2014). “A primeira instituição com
que se depara o indivíduo é a linguagem, [...] transmitida pelos adultos [...] é a instituição social que supera
todas as outras [...].” (BERGER e BERGER, 2004).
62
O autor utiliza esta palavra “cliente” como um sinônimo de usuário.
29
4.5.1 O fortalecimento da autonomia
Os processos acima descritos (assim como o desenvolvimento da autonomia) se inserem numa orquestração da vida social muito mais ampla. Trata-se da correlação de forças
que compreende dentre outras coisas todos os tipos de relação possíveis: de dominação/resistência, conflito/consenso, hegemonia/contra-hegemonia, resultantes dos diversos
projetos societários em cena. Todas, geralmente baseadas em poder. (FALEIROS, 2011a).
Estas tensões inerentes às biovias, (que ocorrem em todos os espaços, independente
de normativas, convenções e consensos) não raro resultam em confrontos entre indivíduos (no
meio deles mesmos) e os modelos societários desiguais, as instituições de que necessitem,
culturas e outros. (FALEIROS, 2011a). Neste processo há violências diversas, preconceitos
(de raça, religião, cultura, orientação sexual, convicções ideológicas, etc.), que dentro da correlação de forças, acarretam a fragilização social dos sujeitos e sua perda de recursos63 de luta
pela vida (perdendo assim a sua autonomia). Tudo isto dentro do movimento da contradição,
sempre existente ao longo da história da humanidade. (VASQUEZ, 1993).
Nesta perspectiva não há como desconsiderar os diversos fatores das biovias dos indivíduos e grupos, passando à defesa destes em confrontação com a superestrutura, levando em
conta que ela primeiro o vitimou, contraditoriamente, pela falha na devida64 prestação de serviços essenciais à sua reprodução social e qualidade de vida, por exemplo. (FALEIROS,
2011a). Assim, “O processo de intervenção é visto, aí, para além do relacionamento e da solução imediata de problemas através de recursos, no contexto das relações sociais”. (FALEIROS, 2011a, p. 44).
Autonomia significa “capacidade de reproduzir-se na complexidade da historicidade e
da cotidianeidade das mediações de poder e das energias e recursos próprios e de representarse criticamente, [...] com a aprendizagem da dúvida [...] recusa da alienação, da tutela, do controle.” (FALEIROS, 2011a, p.62). E o seu desenvolvimento implica apropriação pela consciência da necessidade histórica bem como o descobrimento e uso da própria força no contexto
das carências e possibilidades. Compreende ainda “um processo de negação da tutela e da
subalternidade pela afirmação da própria palavra e da construção das decisões sobre seu
próprio destino.”65 (FALEIROS, 2011a, p. 62, grifo nosso). Preceitos que constituem a peculiar atitude enquanto indivíduo emancipado.
A atuação do profissional neste fortalecimento consiste (basicamente) em fornecer os
subsídios, estímulos, para que o fragilizado se aproprie criticamente dos aspectos que circundam sua fragilização, de forma crítica e pela reflexão própria diante da correlação de forças
que lhe é desfavorável (FALEIROS, 2011a). As informações disponíveis e a socialização de
dados sobre o contexto, aliados à dimensão pedagógica do Serviço Social (IAMAMOTO,
2004) constituem a Mediação necessária ao processo.
Como a música possui o caráter ideológico (PEIXOTO, 2005) ela dialoga com todo
este movimento de considerar o amplo e no fomento ao questionamento das situações injustas
impostas pela superestrutura, além de ser capaz de abranger todas as complexidades. Assim
diante do método ela contribui no resultado do empoderamento, perpassado pelo fortalecimento da autonomia (e da identidade, na seção 4.5.2), das seguintes formas:
63
É o que Faleiros (2011a), explica como os elementos objetivos e subjetivos que cada indivíduo dispõe para a
luta e reação perante as adversidades.
64
Na teoria Social sobre o Estado, a primazia da promoção da estrutura, condições e serviços essenciais à
produção e reprodução de seu povo repousa sobre seu colo.
65
Pois as “decisões sobre o próprio destino, e mesmo sobre seu próprio corpo, são limitadas as relações de
classe, de raça, de gênero, de sociabilidade local. São, no entanto, [...] contraditórias, de [...] poderes que
aumentam ou diminuem no enfrentamento das forças, [...] organização [...] negociação [...] conflitos e
consensos possíveis.” (FALEIROS, 2011a, p. 62-63).
30
• pela relação que inicia de fuga/transferência do problema para o estado de prazer pelos momentos de distração → Apropriação da realidade pela arte, alongando sua percepção de totalidade → percepção do paradigma individuo/coletivo (LEAL et al, 2008; PRATES, 2007);
• Exposição/extravaso dos sentimentos reprimidos → coleta de dados/observação de elementos pelo Assistente Social para sua atuação, simultaneamente. (CONCEIÇÃO, 2010; LEAL
et al, 2008; PRATES, 2007);
• Fortalecimento pelo compartilhamento de experiências com outros sujeitos na mesma condição nos grupos formados e pelo trabalho pedagógico do Serviço Social (FALEIROS,
2011a; IAMAMOTO, 2004, 2009).66
4.5.2 O fortalecimento da identidade
A identidade é uma construção social, que compreende “um processo coletivo e estruturado, relacionado à cultura, à ideologia, à comunicação e à ação, produto de uma realidade
exterior ao sujeito”. (NEGREIROS, 1995 apud FALEIROS, 2011a, p. 64). Contempla desde o
nome, origem, laços, pontos de vista, “suas trajetórias culturais, [...] orgulho de pertencer a
uma etnia e seus conflitos étnicos” (IDEM, IBIDEM). São várias as conexões que fazem com
que um indivíduo exista socialmente: “filho de, pai de, empregado de, patrão de, cidadão de,
amigo de...” (FALEIROS, 2011a, p. 46). Nestas relações e nas mediações sistêmicas é que o
ser humano elabora suas representações. (FALEIROS, 2011a).
Assim, o “desenvolvimento da auto-estima, [sic] do apreço por si mesmo, implica o
questionamento dos papéis sociais que são atribuídos aos dominados e [...] da ideologia da
desigualdade, da naturalização das diferenças sociais.” (FALEIROS, 2011a, p. 64).
“Na particularidade do Serviço Social, é fundamental destacar a intervenção nas condições de vida e de trabalho (reproduzir-se) articuladas à formação da identidade individual e
coletiva (re-presentar-se) [sic] na vinculação sujeito/estrutura”. (FALEIROS, 2011a, p. 44).
Nesta atuação complexa a competência teórico-metodológica deve consistir na construção em
conjunto com o usuário (portanto, respeitando e considerando o seu ponto de vista) as estratégias de superação dos problemas. Além do mais, a crítica à discriminação supracitada
aliada às mediações de Movimentos Sociais específicos (FALEIROS, 2011a) contribui para
este fortalecimento, que completa a questão do empoderamento.
Neste palco a música contribui no reforço destas representações (seja de raça, gênero,
condição social, etc.) – que podem tanto ser positivas ou negativas – potencial qual depende
do Assistente Social o direcionamento da polaridade. (MERRIAN, 1964 apud LEAL et al,
2008).
Ou seja, o empoderamento, assim como a música, possui etapas. Estas são como notas,
que por sua vez soam em passos, que combinados formam os acordes, a serem utilizados para
compor parte da grande sinfonia, que é a totalidade dos contextos das diferentes camadas
humanas. Pois é no conjunto que se toca às distintas áreas almejadas, canções de
transformação.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente Trabalho de Conclusão de Curso buscou trazer ao conhecimento a
observação da música e o Serviço Social como Mediações emancipatórias, consultando
análises de experiências concretas de Assistentes Sociais, além da identificação pessoal do
pesquisador sobre o assunto. Antes de tudo, tratou-se de uma possiblidade a mais de atuação e
articulação para a profissão social, dentre tantas já existentes, mas também, como muitas,
66
Estes três pontos do tópico também são a forma como a música contribui para o fortalecimento da identidade.
31
pouco explorada ainda.
Apesar do grande estranhamento de profissionais e acadêmicos quanto à relação
“Arte e Serviço Social”, esta se encontra presente cotidianamente nos mais variados
aparatos institucionais e, principalmente, naqueles onde os profissionais visam à
informação, socialização, humanização e emancipação dos sujeitos. Essa relação
fica evidente não só no espaço profissional, mas também nos espaços acadêmicos,
quando, mesmo que de forma discreta, a arte permeia as relações profissionais, sem
dúvida como um importante instrumento de intervenção profissional para a
emancipação e a liberdade. (CONCEIÇÃO, 2010, p. 65).
Buscou-se, com todo o cuidado que o estudo pediu, explicitar que tal relação é antes
de tudo política para evitar equívoco de proposições reducionistas. Avaliou-se não só a
veracidade que a rigidez acadêmica e científica requer, mas também o quão impactante isto
pôde ser observado no mundo da vida, no real. E mostrou-se surpreendente o seu
desdobramento.
Ao notar que a música, assim como qualquer outro elemento da realidade, pode ser
apropriada enquanto espaço, instrumento, técnica e fator de potencialização, por exemplo, isto
construiu o alicerce para argumentar e destrinchar ao máximo o como ela se torna uma
Mediação para emancipação.
Mas este trabalho nem de longe comportou todas as percepções e descobertas
possíveis sobre a temática destas duas profissões em conjunto: cada tópico em si pode
constituir produções independentes ao serem aprofundados. Tratou-se de um universo a ser
desbravado e os achados utilizados foram percebidos dentro de um (ainda) limitado acervo
bibliográfico no Serviço Social, bem como às demais áreas por eles apropriadas e
documentadas. Sua abordagem apenas pairou sobre os aspectos mais gerais em todos os
resultados. Apenas a consulta desta experiência de intercâmbio entre ramos do conhecimento
de um projeto envolvendo as duas ciências na Universidade Federal do Pará, por exemplo, já
mostrou o quão vastas podem ser tais possibilidades.
Dentro desta ideia, ficaram de fora (por razões de limitações simplesmente quanto à
forma) do trabalho, por exemplo, as relações específicas que são diariamente estabelecidas
entre Música e Serviço Social na atuação junto a crianças e adolescentes, com os idosos,
mulheres vítimas de violência, deficientes de diversos graus, população negra, indígena,
Movimentos Sociais (existem inclusive algumas produções, - mas muito poucas ainda, é
verdade - em universidades federais e estaduais pelo Brasil que abordam a articulação em
certas áreas dentre as citadas acima).
Observou-se que a música é muito mais do que mera combinação de sons e que
ultrapassa todos os limites humanos e para além. Que ao agir no cérebro, desencadeia uma
série de reações e estímulos, colaborando para que as pessoas desenvolvam formas de
superação de suas adversidades, contribuindo com a capacidade de regeneração em casos de
doenças ou acidentes, auxiliando e retardando (ou até anulando) processos de degenerações,
estabelecendo fuga de distúrbios, amenizando transtornos e vários outros benefícios.
E tudo isso apenas como benefícios “adicionais”, pois além de tudo possui um aspecto
pedagógico e de fortalecimento político, por se passar através das letras dos artistas – ou
simples pessoas que adquiriram a habilidade musical ao longo da vida – o seu compromisso
com sua visão de mundo e de sociedade, como vistos ao longo deste trabalho. Pode, ainda, ser
um instrumento de lazer e de edificação de vínculos sociais, nas diferentes composições de
estilos de vida e de compassos nas conformidades de luta por seu provimento. É neste
contexto, aliado aos vários estudos citados anteriormente que o profissional que atua com a
música adquire as bases para o empoderamento dos sujeitos.
Mas para tornar tudo isto palpável, é altamente recomendável associação à ideia de
Matus, quando o autor trata em um de seus princípios sobre planejamento – o da avaliação
32
constante e sistemática – do ininterrupto movimento de reflexão através desse
acompanhamento, permitindo as correções e ajustes ao longo do processo. (MATUS, 1996).
Ou seja, a articulação proposta é viável desde que haja condução com vontade política,
determinação, disposição para as consequências inesperadas, competência teóricometodológica e aliança ético-política com aquele que se deseja a razão do ato emancipatório:
o ser social.
Quanto à emancipação defendida e explicada neste trabalho, ela possui caráter
político, compreendendo uma gama de acontecimentos que vão desde a capacidade de
tomada de decisões e de direção da própria vida (mas não somente67), fazendo com que o
indivíduo (ou grupo social, conforme o caso) desenvolva os fatores resiliência,
empoderamento, autoconsciência crítica, capacidade total para realizar, vontade política,
governabilidade (enquanto sujeito), compreensão das representações sociais (e suas
influências), conhecimento e domínio de sua condição enquanto pessoa humana, de direitos e
responsabilidades. E jamais se limitaria aos aspectos econômicos ou jurídicos, pois “um
fortalecimento ideológico, por exemplo, pode não se acompanhar de ganhos econômicos ou
políticos, implicando diferentes mediações”. (FALEIROS, 2011a, p. 47, grifo nosso).
Ou seja, entender seus efeitos, além da manifestação nos contextos mencionados na
análise, dentro da totalidade dialética, foi a forma mais adequada aos moldes deste trabalho,
um método de compreensão que tem sua formulação, mas também consiste na percepção de
desdobramentos. Feitas tais observações mais gerais, segue a consideração final.
Com o respaldo da sanção da metodologia científica; considerando que foi delimitado
e exposto a relação política entre música, Serviço Social e Questão Social; que houve exemplificações reais do como a expressão artística pode ser utilizada pelo Assistente Social na
potencialização junto aos atendidos, além do como faria parte de sua instrumentalidade; e que
ambas as áreas estudadas em conjunto apresentam possibilidades concretas de atuação na conformação do objetivo da emancipação; verificou-se como confirmada a hipótese proposta pelo
projeto que originou este estudo: “A música, assim como as demais formas de expressão artísticas e/ou culturais, exerce o papel de mediação emancipatória para os usuários do Serviço
Social.”
The Music and the Social Work as emancipatory mediations
Abstract:
This present article touched on the relationship between Social Work and Music, in the midst
of social and professional stages, as emancipatory Mediations; the various forms of its use by
the Social Worker for his objectives as well as part of his instrumentality; the possibilities of
this combination in the strengthening of the user inside and outside context of acting; the
political connection between these two knowledge areas and then with Social Question; This
analysis considered elements dear to the theme, like historical perspective, discoursing about
the multiples dimensions and determinations of the involving facts, in the context of fighting
for surmounting the problems and reproduction of social life. After thorough analysis,
debating with authors, ruminating over concepts, observing the practices, was possible the
confirmation of its hypothesis: “The Music, as well as other artistic or cultural expressions,
exercises a emancipatory mediation role for the users of Social Work.” It has enormous
relevance for the category by presenting this artistic field as concrete space and potential for
great results, but still little explored. This production also had pretension in composing part of
an already existing academic vanguard and subsidize future researches about this thematic,
67
O que evitou a confusão com o conceito de autonomia.
33
because it is a universe of alternatives. Was utilized by this elaboration the historicaldialectical method of analysis and processing data, these collected through bibliographic and
documentary research which has qualitative feature, exploratory and basic nature using
content analysis for their interpretation.
Keywords: Music. Social Work. Mediation. Emancipation.
6. REFERÊNCIAS
-ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESCOLAS DE SERVIÇO SOCIAL (ABESS). O Processo de Produção/Reprodução Social, Trabalho e Sociabilidade. In Capacitação em Serviço
Social e Política Social, Módulo 2, pp. 20-33, CEAD-UNB, 1999.
-BEHRING, E. R.; BOSCHETTI, I. Política Social – Fundamentos e História. São Paulo,
Cortez, 2011.
-BERGER, P; BERGER, B. O que é uma instituição social? In.: FORACCHI, M.;
MARTINS, J de S. Sociologia e sociedade: leituras de introdução à sociologia. Rio de
Janeiro: LTC, 2004. Disponível em: <http://alissongebrimkrasota.blogspot.com.br/2011/04/oque-e-uma-instituicao-social.html> Acesso em: 03 Jan. 2014.
-BISNETO, J. A. Serviço Social e Saúde Mental – Uma análise institucional da prática.
São Paulo: Cortez, 2009.
-BONETTI, D. A. et al. Serviço Social e Ética: Convite a uma nova praxis. São Paulo,
Cortez, 2010.
-BRASIL. Código de Ética do Assistente Social, Lei 8662/93. Brasília, Conselho Federal de
Serviço Social, 2012. Disponível em: <http://www.cfess.org.br/arquivos/CEP_CFESSSITE.pdf> Acesso em: 30 Dez. 2012.
-CONCEIÇÃO, D. G. O. Serviço Social e prática pedagógica a arte como instrumento de
intervenção social. In: Serv. Soc. Rev., Londrina, V. 12, N.2, JAN./JUN. 2010. Disponível
em:
<http://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=servi%C3%A7o%20social%20e%20m%C3%
BAsica&source=web&cd=18&cad=rja&ved=0CGcQFjAHOAo&url=http%3A%2F%2Fwww
.uel.br%2Frevistas%2Fuel%2Findex.php%2Fssrevista%2Farticle%2Fdownload%2F7542%2
F6830&ei=bwuhUOynLok8AT3uID4Cw&usg=AFQjCNFxeHjZ0O_YQUwyahBWBONF2SYwMQ> Acesso em: 12
Dez. 2012.
-DICIONÁRIO ONLINE DE PORTUGUÊS. Disponível em:
<http://www.dicio.com.br/emancipacao/> Acesso em: 02 Jan. 2013.
-DUSSEL, E. 20 teses de política. Trad. Rodrigo Rodrigues. São Paulo: Expressão Popular/
Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales - CLACSO, 2007.
-FALEIROS, V. P. Estratégias em Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2011.
34
______________. O que é Politica Social? São Paulo: Brasiliense, 2006 (2ª reimpressão da
5ª ed. De 1991).
______________. Saber Profissional e Poder Institucional. São Paulo: Cortez, 2011.
-FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, Graal, 2004. Disponível em
<http://www.nodo50.org/insurgentes/biblioteca/A_Microfisica_do_Poder_Michel_Foulcault.p
df> Acesso em: 02 Out. 2012.
-GIL, A. C. Métodos e técnicas de Pesquisa Social. São Paulo: Atlas, 1999.
-GUERRA. Y. A Instrumentalidade do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2011.
-IAMAMOTO, M. V. As Dimensões Ético-políticas e Teórico-metodológicas no Serviço
Social Contemporâneo. San José. ALAETS, 2004. Disponível em:
<http://www.fnepas.org.br/pdf/servico_social_saude/texto2-2.pdf> Acesso em: 25 Jun. 2013.
_________________. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: Esboço de uma interpretação histórico-metodológica. São Paulo. Cortez; [Lima, Peru] CELATS, 2009.
-LEAL, A. L. et al. Música e Serviço Social – Integrando Saberes. Disponível em:
<http://www.abemeducacaomusical.org.br/Masters/anais2007/Data/html/pdf/art_m/M%C3%
BAsica%20e%20Servi%C3%A7o%20Social_Ana%20Luiza%20Leal.pdf> Acesso em: 25
Dez. 2012.
-MARTINELLI, M. L. Serviço Social- Identidade e alienação. São Paulo: Cortez, 2009.
-MARX, K. Manuscritos Econômicos e Filosóficos (terceira parte). 1863. Transcrito por
OLIVEIRA, A. M., 2007 e HTML por ARAÚJO, F. A. S. Disponível em:
<https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/index.htm> Acesso em: 23 Jun.
2013.
-MATUS, C. Adeus, Senhor Presidente – Governantes e Governados. São Paulo: Fundap,
1996.
-MINAYO, M. C. S. et al. Pesquisa Social-Teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes,
2011.
-MONTAÑO, C.; DURIGUETTO, M. L. Estado, Classe e Movimento Social. São Paulo:
Cortez, 2010.
-NETTO, J. P. Ditadura e Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2011.
-NETTO, J. P.; BRAZ, Marcelo. Economia Política - uma introdução crítica. 6ª Ed, São
Paulo: Cortez, 2010.
-PEIXOTO. M. I. H. A Arte no cotidiano: Consciência e autoconsciência. In: Anais – III
Fórum de pesquisa e científica em arte. Curitiba: Escola de Música e Belas Artes do Paraná,
2005. Disponível em:
<http://www.embap.pr.gov.br/arquivos/File/anais3/maria_ines_hamann.pdf > Acesso em: 28
Jun. 2013.
35
-PRATES, J. C. A arte como Matéria-prima e Instrumento de trabalho para o Assistente
Social. In: Revista Textos & Contextos Porto Alegre v. 6 n. 2 jul./dez. 2007. Disponível em:
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/teo/ojs/index.php/fass/article/viewFile/2313/3244> Acesso
em: 12 Dez. 2012.
-SARMENTO, H. B. M. Instrumentos e Técnicas em Serviço Social: elementos para uma
discussão. Tese de Mestrado PUC / SP, 1994.
-SILVA, J. R. S. et al. Pesquisa documental: pistas teóricas e metodológicas In Revista
Brasileira de História & Ciências Sociais. Ano I - Número I - Julho de 2009. Disponível em:
<http://rbhcs.com/index_arquivos/Artigo.Pesquisa%20documental.pdf> Acesso em: 02 Jan.
2013.
-STÁLIN, J. V. Sobre o Materialismo Dialético e o Materialismo Histórico. Rio de Janeiro:
Edições Horizonte, 1945. Disponível em:
<http://www.marxists.org/portugues/stalin/1938/09/mat-dia-hist.htm> Acessado em: 28 Mai.
2013.
-TRINDADE, R. L. P. Desvendando as determinações sócio-históricas do instrumental
técnico-operativo do Serviço Social na articulação entre demandas sociais e projetos
profissionais. In: a Revista Temporalis nº04, Ano II, julho a dezembro de 2001. Disponível
em: <http://cress-mg.org.br/arquivos/rosa%20predes%20instrumental.pdf> Acesso em: 24
Nov. 2013.
- VAZQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janeiro, 14ª Civilização Brasileira, 1993.
- VERGARA, E. M. B. O significado da categoria mediação no Serviço Social. Disponível
em: <http://cacphp.unioeste.br/projetos/gpps/midia/seminario1/trabalhos/Assistencia%20Social/eixo3/98eva
vergara.pdf> Acesso 23 Dez. 2012.
Download

Walberth Teixeira da Silva - Universidade Católica de Brasília