7 TRATAMENTO DE FERIDAS EXPERIMENTAIS DO CÃO UTILIZANDO A MEMBRANA AMIÓTICA DE EQÜINO.* (**) NEUSA MARGARIDA PAULO RESUMO Neste experimento avaliaram-se os resultados da aplicação da membrana amniótica de égua, conservada em glicerina a 98% sobre feridas experimentais realizadas no dorso de cães. Foram provocadas duas feridas circulares em cada animal e estas foram observadas durante 20 dias. As feridas foram designadas F1 para aquelas tratadas com membrana amniótica conservada em glicerina à 98%, e FT para as feridas testemunhas, tratadas com solução fisiológica. As feridas foram mensuradas nos dias 0, 5, 10, 15 e 20 e os resultados analisados estatisticamente pela análise de variância. Nesta ocasião, foram coletadas amostras para os exames histopatológicos ( exceto o dia 0). As bactérias mais frequentemente isoladas das secreções purulentas das feridas foram Staphylococcus aureus e Streptococcus spp. Os exames histopatológicos das amostras coletadas das feridas F1 e FT não evidenciaram diferenças nos períodos de cicatrização.Ainda, a análise estatística das mensurações obtidas não mostrou diferença significativa na redução das feridas nos períodos 0 a 5, 5 a 10, 10 a 15 e 15 a 20 dias. Baseado nos resultados obtidos, concluiu-se que a membrana amniótica da égua, conservada em glicerina a 98%, não promove a aceleração da cicatrização no cão e não impede o desenvolvimento de microrganismos nestas feridas. As alterações observadas durante este experimento foram presença de coágulos submembranosos, secreções purulentas e sero-sanguinolentas, lise das membranas e fragmentação ou descolamento das membranas. DESCRITORES: Membrana amniótica, bandagem biológica, cicatrização de feridas. SUMMARY TREATMENT OF EXPERIMENTAL WOUNDS OF THE DOG USING THE MARE’S AMNIOTIC MEMBRANE. In this experiment the results of the application of mare’s amniotic membrane, conserved in glycerine at 98%, onto experimental wounds made in dog’s back were evaluated. Two circular wounds were made in each animal and they were watched for twenty days. The wounds treated with amniotic membrane conserved in glycerine were called F1; and the witness wound, treated with physiological solution, Ft. They were measured on the days 0, 5, 10, and 20 and the results were statiscally analysed by variance test. Samples for the histopatological tests were then collected (except on day 0). The most frequent bacteria isolated from the purulent wounds were Staphylococcus aureus and Streptococcus spp. The alterations seen during this experiment were the presence of submembranal clots, purulent serosanguineous secretion, lysis of the membranae and fragmentation or detaching of the membranae.The histopathological tests of the samples taken from the wounds F1 and FT did not show any difference in the treatment periods 0 to 5, 5 to 10, 10 to 15 and 15 to 20 days.Judging from the results obtained we can conclude that mare’s amniotic membrane, conserved in glycerine at 98% do not increase the healing process but it prevents the retraction of the edges of the experimental cutaneous wounds. It does not prevent the development of microrganisms in these wounds either. KEY WORDS: Amniotic membrane, biological dressing, wounds repair. 1. INTRODUÇÃO Um fator de grande importância no tratamento de feridas é a sua proteção contra traumatismos adicionais. Esta proteção é obtida por meio de bandagens oclusivas que visam também a evitar a formação de hematomas, seromas e edemas, bem como obliterar o espaço morto, reduzir a motilidade excessiva das bordas e diminuir as perdas de calor e de água que se processam através da superfície das lesões. Entretanto a função mais importante das bandagens é proteger a ferida contra contaminações. Entre os inúmeros materiais utilizados como bandagens, a membrana amniótica tem despertado o interesse de inúmeros pesquisadores. Ela é considerada bandagem ideal devido a sua antigenicidade, além de apresentar em sua constituição, fatores de crescimento celular. A primeira referência ao uso da membrana amniótica (MA) de origem humana para o tratamento de feridas foi feita por Sabella (1913). Este autor relatou que a aplicação da mesma sobre feridas promove a aceleração da cicatrização . Pigeon (1960) relatou que a MA sobre feridas durante 10 a 15 dias, exibe uma aparência de filme plástico. O autor revelou que a cicatrização se procede de maneira mais rápida. Entretanto, assinalou que nas queimaduras de 3º grau, bem como na * Parte da tese de Doutorado apresentada pela autora à Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - USP - Departamento de Cirurgia - São Paulo - SP. ** Profª. Adjunto do Departamento de Medicina Veterinária da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Goiás, Goiânia - GO. Setor de cirurgia. CEP 74.001.970 - Campus R. Un. Alfenas, Alfenas, 4:7-10,1998 8 N. M. PAULO presença de infecção, as membranas amnióticas tornam-se moles e desintegradas. Colocho et al. (1974) não confirmaram aceleração da epitelização nem na vascularização de feridas tratadas com MA, verificando ainda autólise de algumas membranas aplicadas sobre as feridas. No que se refere à aderência da MA sobre o leito das feridas Walker et al. (1977) acrescentaram que as membranas permanecem aderidas, apesar da movimentação do corpo do paciente. Esta característica foi atribuída à formação de feixes de fibrina entre a MA e a superfície das feridas por Jadon et al. (1986). As membranas biológicas se aderem às feridas em duas fases. A primeira é fibrino-colágenodependente e ocorre dentro de 24 horas após a sua aplicação. A segunda é fibro-vascular e se desenvolve de 24 a 72 horas. O comportamento destas fases vai promover ou não a aderência da membrana com conseqüente formação de bolsas, favorecendo o crescimento de microrganismos (Alsbjorn, 1992). O aumento do tecido de granulação no leito de feridas tratadas com MA foi relatado também por Bennet et al. (1980); Faulk et al. (1980); Jadon et al. (1986). Waikakul et al. (1990) compararam a MA à bandagem impregnada com antibióticos no tratamento de úlceras. Observaram a não aceleração da cicatrização e presença de infecção no grupo tratado com MA. Similarmente Subramanian et al. (1990) relataram que úlceras tratadas com MA persistem de 15 a 45 dias, enquanto que aquelas tratadas com antibióticos cicatrizam entre 10 a 45 dias. Para ambos os tratamentos houve crescimento de Staphylococcus, Escherichia coli e Pseudomonas. A comparação entre a bandagem de MA e a gaze impregnada com mel foi procedida por Subrahmanian (1994) no tratamento de queimaduras. O autor observou que o tempo médio de cicatrização foi de 9,4 dias para aquelas feridas tratadas com mel e de 17,5 dias para as tratadas com MA. Considerou que a aderência da membrana dentro de 8 a 16 horas é talvez o fator que ajude a prevenir infecções e a limitar a perda de fluidos. Em ambos os grupos foram isolados Staphylococcus aureus, Pseudomonas aeruginosa, Klebsiella, Escherichia coli e Proteus. Marks et al. (1987), abordando a susceptibilidade das feridas tornarem-se infectadas pelo Staphylococcus aureus, consideraram que o atrito causado pelas bandagens em geral, é um dos agentes predisponentes de infecção. Oliveira (1975) tratou feridas iatrogênicas de eqüinos com fragmentos de MA. Observou menor tempo de cicatrização, reduzida formação de tecido de granulação exuberante, bem como baixa incidência de bactérias patogênicas e pequeno aumento de área R. Un. Alfenas, Alfenas, 4:7-10,1998 total nas feridas tratadas, em comparação àquelas testemunhas. Ainda o autor pode identificar, mediante técnicas laboratoriais específicas, presença do fator de crescimento de fibroblastos nas membranas amnióticas. Por ser a membrana amniótica produto de fácil obtenção, processamento e estocagem, objetivouse com este experimento avaliar os resultados obtidos da sua aplicação sobre feridas experimentais em cães, visando a encontrar uma alternativa de baixo custo para o tratamento de feridas nesta espécie animal. 2. MATERIAL E MÉTODO Para este experimento foram utilizados 18 cães adultos e sadios, sendo 4 fêmeas e 14 machos com peso variando entre 6 e 20kg, provenientes do Centro de Zoonoses de Goiânia. Induziram-se duas feridas contra-laterais, de posição constante, no dorso dos animais, com o auxílio de um perfurador metálico de 25mm de diâmetro. Após a indução cirúrgica das feridas, esperou-se 10 minutos para promover a sua morfometria através de paquímetro, obtendo-se o seu raio (r), A membrana amniótica (MA) conservada em glicerina a 98%, foi colocada sobre as feridas situadas no lado direito, usando-se uma fina camada de goma arábica na pele íntegra, para auxiliar a sua aderência . As feridas localizadas no lado esquerdo foram lavadas apenas com solução fisiológica. As feridas foram inspecionadas diariamente e a cada cinco dias procedia-se a sua morfometria e a coleta, sob anestesia local, de fragmentos de tecido para análise histopatológica. Os resultados obtidos das mensurações foram analisados pelo teste de variância. As membranas amnióticas foram substituídas a cada cinco dias ou quando sofriam lise, fragmentação, descolamento, queda ou presença de infecção. Neste último caso, procedeu-se a coleta de material para análise microbiológica. Para proceder a troca das membranas as mesmas foram umedecidas com soro fisiológico sendo então tracionadas até sua completa eliminação. Os animais foram observados durante 20 dias, sendo então sacrificados. 3. RESULTADOS A redução média das feridas está representada na Tabela 1. Assim, a análise de variância não mostrou diferença significativa na redução das feridas F1 e FT nos períodos 0 a 5, 5 a 10, 10 a 15 e 15 a 20 dias. As principais alterações encontradas para ambas feridas estão resumidas na Tabelas 2 e 3. TRATAMENTO DE FERIDAS EXPERIMENTAIS DO CÃO UTILIZANDO... Tabela 1. Resultados médios das mensurações das feridas cutâneas experimentais tratadas com MA conservada em glicerina a 98% e tratadas com soro fisiológico, Goiânia, Goiás,1995. Período (dias) 0-5 5 - 10 10 - 15 15 - 20 Tratamento Glicerina a 98% Soro fisiológico X X 0,21 a 0,17 a 0,35 a 0,50 a 0,41 a 0,41 a 0,25 a 0,26 a As médias segidas da mesma letra não diferenciam entre si estatisticamente pelo teste de Tkey (p<0,05). Tabela 2. Alterações observadas nas feridas cutâneas experimentais tratadas com MA conservada em glicerina a 98%, Goiânia, Goias, 1995. Tipo de alteração N.º de animais Coágulo sub-membranoso Secreção purulenta Secreção sero-sanguinolenta Lise das membranas Fragmentação das membranas Descolamento das membranas 1 12 10 2 12 5 % 5,5 66,5 55,5 11,1 66,5 27,7 Tabela 3. Alterações observadas nas feridas cutâneas experimentais testemunha tratadas com soro fisiológico, Goiânia, Goiás, 1995. Tipo de alteração N.º de animais Traumatismos Secreção purulenta Secreção sero-sanguinolenta Larva de Musca domestica 3 5 2 1 9 colágeno e regeneração epitelial. Focos com infiltrado inflamatório. 4. DISCUSSÃO Considerando os resultados das análises histopatológicas, encontra-se que os elementos achados nas amostras das feridas tratadas com MA não são diferentes daqueles das feridas teestemunhas. Estas observações contrariam aquelas de Bennett et al. (1980), Oliveira (1995) que encontraram aumento do tecido de granulação no leito de feridas tratadas. Aceleração da cicatrização atribuída ao uso da membrana amniótica sobre feridas relatada por Sabella (1913), Pigeon (1960), Faulk et al., (1980) Matthews et al., (1981), Jadon et al., (1986), Oliveira (1995) não pôde ser demonstrada neste experimento. Analisando os resultados das mensurações das feridas a cada cinco dias (Tabela 1), não observou-se diferenças estatísticas na evolução da cicatrização para qualquer tratamento, mesmo na presença de processo infeccioso. No que concerne a presença de microrganismos nas feridas tratadas com membranas amnióticas, o esperado efeito antimicrobiano não pôde ser demonstrado. A infecção das feridas não foi evitada pelas membranas, o que confirma os relatos de Colocho et al. (1974), Walker et al. (1977), Waikakul et al. (1990), Subramanian et al. (1990) que não evidenciaram redução de flora microbiana quando utilizaram a MA para tratamento das feridas. % 16,6 27,7 11,1 5,5 Quanto à evolução das feridas, não houve diferenças histopatológicas nas amostras examinadas, referentes aos distintos marcos temporais de avaliação. Os resultados para ambos os tratamentos foram os seguintes: - 5 dias: Resposta inflamatória intensa, marginação leucocitária, presença de fluido, início de proliferação fibroblástica e neoformação vascular. - 10 dias: Resquícios de material fibrinoso, hemorragia e reação inflamatória intensa. Proliferação fibroblástica discreta e numerosos vasos neo formados. Sinais de colagenização e regeneração epitelial. - 15 dias: Desaparecimento da resposta inflamatória com exceção da superfície. Resposta epitelial regenerativa com restituição do revestimento. - 20 dias: Aumento da deposição de As bactérias mais freqüentemente isoladas das secreções presentes nas feridas foram Staphylococcus aureus e Streptococcus spp. Para as feridas tratadas com MA, a infecção determinou abaulamento e flutuação das membranas, algumas vezes culminando na lise destas. Pigeon (1960), Colocho et al. (1974) salientaram que, na presença de infecção as membranas tornam-se moles e desintegradas. Segundo Marks et al. (1987) o Staphylococcus aureus quando presente na ferida, necessariamente não contribui para retardar a cicatrização. As frequentes trocas das membranas , bem como a dificuldade de sua manutenção ocasionada pelas fragmentações, poderiam ter propiciado a instalação de microrganismos havendo o desenvolvimento de secreções purulentas nas feridas. Entretanto Walker et al.(1977); Waikakul et al. (1990); Subramanian et al. (1990); Subramanian (1994) referiram que microrganismos são achados freqüentes em feridas tratadas com membranas amnióticas. R. Un. Alfenas, Alfenas, 4:7-10,1998 10 N. M. PAULO 5. CONCLUSÕES A avaliação do tratamento de feridas experimentais do cão utilizando a membrana amniótica de eqüino, conservada em glicerina a 98% permitiu concluir que: 1.O padrão histológico das feridas cutâneas experimentais tratadas com MA de eqüino conservada em glicerina a 98% não difere daqueles das feridas testemunhas tratadas com solução fisiológica. 2. A membrana amniótica de eqüino conservada em glicerina a 98% não impede a infecção de feridas cutâneas experimentais no cão. 3.A membrana amniótica de eqüino, conservada em glicerina a 98% quando utilizada para o tratamento de feridas cutâneas experimentais no cão não promove a aceleração da cicatrização. PIGEON, J. Treatment of second-degree burns with amniotic membranes. Canadian Medical Association Journal, v. 83, p. 844-845, 1960. SABELLA, N. 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