Autor: Dimas Santana Souza Neves¹
Orientador: Nicanor Palhares Sá.²
PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX: UMA VERSÃO
COM A HISTÓRIA ORAL
Esta comunicação apresenta o processo pelo qual o Estado de Mato Grosso buscou
produzir uma ruptura no modelo educacional vigente nos primórdios da republica,
particularmente sobre os métodos de ensino. Principalmente, a partir do desafio da superação
da predominância do uso do sistema mnemônico, expresso nas ações de decorar, lembrar e
repetir (SOUZA, 1998, p.83).
Ainda teremos como desafio demonstrar como o ideário daquele período propiciou a
construção de modelos de ensino baseados na observação e experimentação, fundamentados a
partir das noções de sentido:
Apesar de interessado em desenvolver também o tato, o olfato, a audição e o paladar, o
ensino intuitivo privilegiava a visão. As experiências eram sempre realizadas “por professores”
e os objetos visualizados mais que tocados. Assim, endereçava a constituir uma “pedagogia do
olhar”. Nada irrelevante para um século que se acostumava a perceber na fotografia a
identidade do real. (VIDAL, 1999, p. 114)
Esta produção, portanto, tratará de discutir as práticas pedagógicas na primeira
república, a partir do debate acerca das mudanças ocorridas no processo de escolarização,
aproveitando alguns trabalhos empíricos anteriormente desenvolvidos.
As atividades empíricas com o qual subsidiamos este trabalho foi organizado e
disponibilizado pelo NDIHR /UFMT – Núcleo de Documentação e Informação Histórica
Regional da Universidade Federal do Mato Grosso na primeira metade da última década do
século XX. Fontes que propiciaram-nos encaminhar outros estudos, neste caso a história da
Educação. Nesse sentido, o Grupo de Pesquisa em História da Educação do Programa de pósgraduação “strictu sensu” do Instituto de Educação da mesma universidade foi contemplado
com partes do projeto desenvolvido pelo NDIHR/UFMT.
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01. Mestrando da Universidade Federal do Mato Grosso e Professor da Unemat
02. Professor Orientador do Programa de Pós Graduação da UFMT
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Ao disponibilizar as gravações e transcrições das entrevistas/depoimentos realizadas
com professores que trabalharam na educação mato-grossense o NDIHR permitiu um diferente
“olhar”, mais um “enfoque” no processo de análise desse material. E é exatamente dessas
atividades que este trabalho quer se encarregar. De ser uma elaboração que subsidie outros
trabalhos e olhares sobre a educação no Mato Grosso durante o período da denominada
Primeira República.
Além do trabalho do NDIHR, este Grupo de Pesquisa cadastrado no CNPQ está
desenvolvendo atividades com o enfoque da história oral e também da história cultural. Assim,
surgem os primeiros trabalhos produzidos
com entrevistas e depoimentos da elite de
educadores de Mato Grosso. Trabalho este que está contribuindo para compreendermos o
processo de organização, escolarização e desenvolvimento dos modelos de ensino neste
Estado. Contudo, precisamos melhorar as entrevistas/depoimentos desses “velhos educadores”,
aprofundar na compreensão do modelo educacional, dos métodos, dos sistemas, enfim da
estrutura e funcionamento do ensino Mato-grossense. Por isso, estes primeiros estudos
subsidiarão futuras intervenções, perguntas, questionamentos dessas pessoas, todos com mais
de 80 anos e necessitam ser instigados e provocados durante as entrevistas e depoimentos,
atitudes que devem ser realizadas com responsabilidade e ética, em busca da veracidade, para
confirmação ou não de informações de determinados períodos e acontecimentos da história da
educação.
No decorrer desta atividade pode-se perceber que a base teórica deste trabalho com
ênfase na história oral, com auxílio da história cultural é ainda inicial, acredita-se que poderá
propiciar entendimento importante para futuros trabalhos., seja pelo confronto de informações,
tanto entre documentos oficiais, quanto entre depoimentos/entrevistas de professores e
professoras.
As entrevistas disponibilizadas demonstram que as relembranças, a rememória e
também as lembranças desses velhos educadores contribuem e muito para esclarecer os
conhecimentos sobre a educação em Mato Grosso. Seja concordando ou questionando, o
processo de cotejar depoimentos/entrevistas com documentos oficiais são importantes, pois a
utilização do método de história oral e da história cultural possibilita uma versão diferente, um
outro olhar, às vezes sobre um mesmo objeto de estudo.
É necessário conhecer o contexto do período, perceber inicialmente que a primeira
república brasileira buscava a superação dos paradigmas do modelo imperial. Segundo o
pensador contemporâneo (CARVALHO, 1998): ...substituir um governo e construir uma
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nação..., era essa a tarefa à qual se propunham os republicanos. Na construção desse ideal, um
locus privilegiado de mudanças, para concretizar a ruptura definitiva era exatamente a
educação. Nesse ponto utilizam-se dos debates acerca das ciências e mais propriamente na área
da educação e absorvem todo um discurso de mudança que vinha desde o império,
principalmente a partir dos pareceres de Rui Barbosa:
Nessa lide de construção, pós “instalação da República Federativa do Brasil”, penso
que o idealismo republicano toma como certo e já existente processo de universalização do
ensino, deixando de discutir políticas educacionais para implementar ações que
transformassem as práticas educativas. Assim, aparentemente tem-se uma constante fuga do
debate acerca das responsabilidades estatais sobre educação para centrar a discussão na esfera
da responsabilidade dos professores. Principalmente acerca do preparo profissional, da
qualidade das aulas, da qualificação docente . Diversos textos, principalmente de Rui Barbosa,
suscitam o debate nessa direção, e são, inclusive, utilizados por representantes do ideário
republicano para demonstrar as novas exigências:
O monumental relatório e o conjunto de Pareceres de Rui Barbosa, propondo a
reforma do ensino primário, elaborado em 1882, serviu de guia, fonte e diagnóstico
para grande parte dos republicanos que se preocupavam, de uma forma ou de outra,
com a instrução pública. O ponto chave desse diagnóstico, que condenava a instrução
pública imperial, centrava-se sobre a questão de método de ensino, elegendo como
figura principal de seus ataques a utilização da repetição e da memória (SOUZA, 2002,
p. 83) (grifos nosso)
Toda esta busca de concentrar o debate no papel do professor, nas atividades cotidianas
do profissional, na capacidade de educar e nas condições de educabilidade,
tinha
necessariamente que passar por dois processos para o modelo educacional brasileiro. Em Mato
Grosso não será diferente. Por isso não se deve falar em um Estado periférico ou isolado,
mesmo porque, apesar da distância geográfica dos grandes centros urbanos do País, havia um
ideário a ser apregoado pelos republicanos e interesses em transformações do modelo
educativo para outras possibilidades políticas eleitorais das forças e pensamento hegemônicos.
Entretanto, algumas necessidades eram prementes. Primeiro, discutir o papel do
professor. De preferência que pudesse responsabilizar esse profissional por todo fracasso dos
atuais e eventuais distorções do modelo a ser implementado pelo ideário republicano. Eis
porque acreditamos que buscava-se consolidar o aparelho do Estado e as mudanças deveriam
ocorrer tão somente no regime, do imperial para o republicano. Segundo, fazer esquecer, no
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máximo ter ao lado para relembrar, observar, enfim poder olhar as produções do pensadores
do regime monárquico e construir novos símbolos para a estruturação da República brasileira,
portanto havia a necessidade de construir o patrimônio educacional. Daí porque realizar as
reformas no método, na forma, mas continuar pregando e afirmando a necessidade da escola, o
“Estado da Educação”. O método seria o regime.
O período denominado de Primeira República é toda tomada por esse debate a respeito
da educação na sua forma, na discussão sobre o papel, a importância, a necessidade do
professor e a relação com o aluno e a aprendizagem, ou seja, a metodologia do ensino,
instrumentos para a prática da relação aprendizagem/ensino ou vice-versa. Mas era necessário
denunciar quem eram os responsáveis. Relato do Presidente de Estado à Assembléia
Legislativa, em 13 de maio de 1907 dá mostras da situação calamitosa, segundo ele
proporcionada pelos professores:
As nossas escolas públicas, regidas em geral por professores mal preparados e sem a
indispensável vocação para o magistério, estão longe de satisfazer as necessidades do ensino, da
educação da infância que as frequente. E isto se dá aqui na Capital, muito mais grave é o mal no
interior, como vos é desconhecido. (APMT)
Portanto, busca-se consolidar a idéia de que deveria haver mudanças significativas na
prática dos professores, também na sua formação, na qualificação para as atividades que
deveriam desempenhar para a construção da nacionalidade brasileira e dos ideais do regime
republicano.
A mudança na concepção teórica das metodologias, bem como a instalação de museus
nas escolas do Mato Grosso, além de laboratórios, introdução dos livros didáticos no lugar dos
compêndios enciclopédias e as próprias legislações são mudanças significativas e que merecem
ser estudados profundamente. Além de buscar mais informações e conhecimentos sobre a (re)
criação da Escola Normal para formação de professores, pois, fazem parte de um arcabouço
teórico mais enfático do que simplesmente o debate acerca das metodologias do ensino.
Essas reformas e modificações fazem parte do que foi denominado, principalmente
pela professora Diana Vidal, como a “pedagogia do olhar”. Por isso, devem merecer diferentes
olhares, outros enfoques em nossos projetos de pesquisa como no caso de estudar a cultura
escolar, as práticas pedagógicas, as relações de poder a partir das reformas republicanas, as
tomadas de decisões, as práticas disciplinares, controle, vigilância e punição, diretores e
inspetores escolares entre outros temas que constituirão enfoque para conhecimento dos
historiadores da educação no Mato Grosso que trabalharão com a história oral e história
cultural.
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Na inauguração do “tempo novo”, dos “novos rumos” no Mato Grosso, o
desenvolvimento da instrução pública, bem como a busca de aquisição das primeiras letras
estão intimamente conjugadas com o desenvolvimento do ensino intuitivo ou do método
analítico.
...desde a introdução do método analítica, durante a reforma da instrução pública de
1910, parece que houve uma avaliação positiva relativamente ao emprego desse método para o
ensino da leitura, por parte das autoridades educacionais de Mato Grosso que, ao implantar uma
nova reforma da instrução pública, oficializou a utilização desse método no estado de Mato
Grosso, mediante sua inclusão no Regulamento da Instrução Pública Primária de 1927.
(AMÂNCIO, 2000, p. 205)
Mas a questão do método estava, intimamente, ligada à compreensão de mundo, de
ciência, de ideais, de construção teórica. Portanto, não bastava, a partir daí ensinar a ler e
escrever. A questão mais importante era formar cidadãos políticos capazes de compreender o
sentido da República:
Assim, não bastava mais apenas instruir, era preciso educar, em todos os aspectos.
Nesse sentido, o Presidente de Mato Grosso, em 1913, reforçava, em seus discursos, a
necessidade de auxiliar os mato-grossensses, para:
“adquirirem os conhecimentos indispensáveis a boa prática do governo republicano e ao
conveniente exercício de sua liberdade e dos seus direitos como homem e como cidadão” –
Joaquiam A C. Marques
Isso exprimia uma das funções da escola, na visão dos dirigentes: a boa prática do
governo republicano, ou seja, a formação de cidadão ordeiros, obedientes e trabalhadores.
(ALVES, 1994, p. 39-40)
Eis uma confirmação do modelo educacional na formação do ser humano. Em
depoimento pessoal, enfocando o ensino e a sua utilização a então aluna Maria Arruda relata
para a pesquisadora Marta Arruda “...A escola nos ensinava educação, comportar na rua, na
sociedade....” e continua nos informando, agora como professora: “..Aos sábados tinha aulas
de práticas agrícolas, higiene, religião tudo na pratica, moral e cívica, ensinávamos os cantos
dos índios, eu adotei a caligrafia lá por minha conta...” (fita nº 86, NDIHR)
Esse relato da centenária professora Maria Muller, narrando um período educacional
por volta de 1904 ou 1905 aproximadamente. É possível perceber assim que iniciava-se no
Mato Grosso o processo de mudança significativa na aplicação de métodos educacionais.
Ensaio? Talvez. O importante é perceber que estamos diante de um processo lento de mudança
cultural, de conceito de educação, de sociedade, de método, de sociedade, enfim de homens e
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mulheres e as possibilidades da educação. Talvez em um utilitarismo da educação na
formação do sujeito. Na construção da escola como local de responsabilidade total pela
criança, pela formação do ser juvenil, pela produção do adulto cidadão e instituição
responsável pela construção, execução dos ideais republicanos de sociedade e de pátria.
À essas mudanças os governantes deste Estado, inteiramente comprometidos com os
ideais da construção da identidade republicana e da nacionalidade brasileira, trazem alguns
paulistas para construção do “novo paradigma educacional”. Com muito comprometimento
com o pensamento que permeava a Escola Normal de São Paulo conforme nos informa a
pesquisadora da UFMT:
Esses professores, frutos de uma geração produtiva e comprometida com os princípios
republicanos estavam “afinados” com a metodologia propagada pela Escola Normal de São
Paulo e com a bibliografia pedagógica publicada nesse período. A esses “especialistas” foi
confiada a organização da instrução pública de Mato Grosso. (AMÂNCIO, 2000, pág. 88)
Nessa perspectiva, “os paulistas” como ficaram conhecidos, principalmente Gustavo
Kulhmann e Leowigildo Martins de Mello, são os professores que se responsabilizaram pelas
reformas educacionais da primeira fase em Mato Grosso, a partir do ideário republicano, como
é informado neste fragmento de dissertação da uma professora da Federal de Mato Grosso:
Assim, entende-se que a compreensão de algumas medidas adotadas no ensino
primário, a definição de métodos de ensino de leitura usados nas primeiras décadas do século
XX, a escolha de cartilha e livros, as regras de funcionamento dos grupos escolares e da Escola
Normal do estado de Mato Grosso depende, entre outros fatores e, em grande parte, da
compreensão do papel importante que esses normalistas desempenharam, enquanto autoridades
da instrução pública matrogrossensse....(AMÂNCIO, 2000, págs. 88-89)
Importante também é perceber as mudanças que tomarão a educação no Mato Grosso.
Um depoimento da aluna, posteriormente professora neste Estado, mostra, a dimensão do
abandono e da rupturas com o método de ensino da tradição imperial: (Figueiredo, 1983)
...Tinha o método analítico, conhecia primeiro as letras, silabas ABC, a criança inteligente,
que tinha pessoa em casa que ajudava auxiliava tirava os três A, B e C que agora é jardim de
infância completo, a mesma coisa, diferença é só no método de.....Isto, possibilita-nos perceber
na prática profissional, na cultura e no cotidiano escolar a manifestação da vontade dos
governantes, principalmente quando a professora exemplifica a teoria do método analítico na
continuidade do seu depoimento/entrevista à jornalista Martha Arruda : ...A criança depois que
conhecia as vogais, ia para as consoantes, não podia ser decorado, e sim gravado, então o que
nós fazíamos pegávamos um papel no tamanho daquela página e fazia um buraco certo
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naquela letra, então que letra é essa? Até saber direitinho as letras e silabas... (Fita nº 04,
NDIHR-UFMT (grifos nosso).
Na gravação, informa o sentido do aprendizado de “dar sentido às coisas”,
“compreender”, “entender” as letras e não apenas utilizar a memória para relembrar, recordar.
Para isso será necessário o museu. Como local onde se pudesse depositar todo o passado, as
“coisas velhas” da política, da educação e da escola, nos informa, categoricamente, a
pesquisadora:
A escola, diferentemente do museu ou arquivo, não seria constituído como um “lugar
da memória”. Ruptura com os valores comunais e instauradora de uma nova racionalidade, a
escola produzia um presente que negava sua continuidade com o passado. Ao traçar as linhas de
sua identidade, diferenciando-se do espaço doméstico e do religioso, a escola desterrava as
práticas do ontem: nem repetir, nem venerar o passado pelo trabalho da memória. Por isso
passava a abrigar bibliotecas e museus escolares, esses sim, pequenos “lugares de memória”,
encravados na nova instituição. (VIDAL, 1999, p. 111)
Isto ainda possibilita que se perceba que as mudanças definidas nos estados de maior
densidade política, no período republicano foram acompanhadas por outros, como neste caso o
Mato Grosso, sem muito tempo de diferença, apesar da longínqua distância. A mudança em
Mato Grosso acompanhou basicamente o ideário advindo dos grandes centros.
As que ocorrerem aqui são frutos de uma profunda interação de pensadores dos estados
de Mato Grosso e São Paulo no campo da educação, talvez pela proximidade territorial e
também dos ideais, distanciando-se da monarquia da capital federal, então Rio de Janeiro.
Em Mato Grosso, essa mudança ou ruptura do paradigma da metodologia de ensino
estava além da criação de museus ou bibliotecas, mesmo laboratórios. A “pedagogia do olhar”
avança com intensidade profunda em busca de interferir nos programas de ensino, nas
atividades profissionais, enfim no que e no como devemos conhecer. Sua origem estava em
um passado remoto e significativo das ciências, conforme nos informa a pesquisadora:
Os métodos intuitivos e os estudos da natureza deslocavam para observar a antiga arte
do ouvir e repetir: marca do ensino verbalista praticado nas escolas catequéticas do século XVI,
atualizado para o ensino primário no fim do século XVIII. A pedagogia “do ouvir!” deslocavase para a “do olhar” no fim do século XIX, ao mesmo tempo que a arte de memorizar perdia
seu prestígio. (VIDAL, 1999, p. 111)
Além de buscar esquecer o passado sombrio das idéias emanadas na escola do período
imperial, os republicanos mato-grossenses tinha o propósito de realizar reformas, criar museus,
laboratórios e promover a educação a partir dos do então “novos métodos” de ensino. A
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pesquisadora Laci Alves, nos mostra um discurso do então Presidente do Estado Joaquim
Costa Marques em 1912,:
No Mato Grosso, além da Escola de Aprendizes Artífices foi implantado o Lyceu de
Artes e Offícios São Gonçalo, no qual seriam oferecidos cursos de instrução primária e
secundária, ao lado de oficinas de carpintaria, ferraria, sapataria, alfaiataria, impressão e
encardenação, bem como aulas de música e desenho.
Nelle se encontram tamém um gabinete de Phisyca e Chimica e um pequeno museu
para o estudo de História natural e um observatório metereológico, devidamente installado”.
(ALVES, 1994, p. 42) (sic)
A partir desse discurso é possível perceber que as mudanças definidas pela legislação
de 1910 em Mato Grosso iria provocar mudanças além dos métodos de ensino, mas na
estrutura e organização da educação e do ensino da Primeira República. Sobretudo produzir
mudanças na concepção de mundo, na filosofia da educação, na formação do sujeito, do
cidadão que desejam formar os educadores representantes do ideal republicano. Assim,
compreendem que é a partir da concepção teórica, baseada nas ciências consideradas
modernas, é que poderiam definir métodos de ensino ou metodologias do processo ensinoaprendizagem, e formar os cidadãos de acordo com os interesses republicanos, em uma visão
utilitarista de escola, de ciência, de método e de profissionais da educação e do próprio ser
juvenil, futuro cidadão republicano.
Percebe-se outras definições na organização do ensino implantado pela normatização da
reforma da década de 10 em Mato Grosso em seu Título I, Capítulo II do Regulamento da
Instrução Pública de 1910
Art. 12 “O ensino nas escolas primárias será tão intuitivo e prático quanto possível,
nelle o professor partir sempre em suas preleções do conhecido para o desconhecido e do
concreto para o abstrato, e abstendo-se outrossim de perturbar a intelligência da criança com o
estudo prematuro de regras e definições, mas antes, esforçando-se para que os seus alumnos,
sem se fatigarem, tomem interesse pelos assumptos de que houver de tratar em cada lição.”
Esta é uma tentativa secular de tratar com igualdade os diferentes, pois deixa entender
os autores da Reforma da Instrução Pública que todas as escolas deste Estado deveriam
obedecer aos mesmo princípios e determinações. Sem se importar com as diferentes escolas,
com as distâncias entre uma freguesia e outra, com a ausência de estruturas de controle, a
Primeira República tenta homogeneizar o pensamento no interior das escolas. Devemos
perceber qual será o resultado desses esforços.
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Apesar de tudo, há uma histórica modificação nos rumos da educação. Ao comentar o
artigo disposto na legislação de 1910,
a pesquisadora da UFMT percebe a significativa
mudança ocorrida no processo de regulamentação do modelo educacional do Mato Grosso.
Assim declara a professora:
Em outras palavras, o aluno deveria se tornar o centro do processo educacional e o
professor deveria estimulá-lo a aprender, da formas mais prática e agradável possível. No lugar
de castigos, o professor deveria motivar seus alunos e, ao invés de uso de palmatória, foram
introduzidas penas disciplinares: repreensão em particular, repreensão perante a escola,
privação dos bilhetes de satisfação....... (ALVES, 1994, p. 37-38) (grifos nosso)
Mas não é exatamente isso que acontece. O paradigma educacional republicano
desejoso de promover mudanças significativas, apenas o faz na aparência. Na prática as
atitudes, as ações dos profissionais que atuavam no Estado de Mato Grosso era de acordo com
a realidade existente. Pois ao tratar as escolas isoladas tal qual os grupos escolares, a
regulamentação deixou de perceber a realidade das nossas escolas e da sociedade da época. As
práticas culturais e sociais, sobretudo.
Nada melhor que um depoimento de quem viveu esse período para demonstrar tal
situação. O professor Natalino Ferreira Mendes, hoje com 92 anos vive em Cáceres e nos relata
situações vivenciadas nas primeiras décadas do século XX em Mato Grosso: ....Então de
acordo com a época havia tudo isso. Acredito. por eu ser estudioso, comportado, nunca levei
bolos, apenas repreensão, e ficava muito aborrecido, mas bolo mesmo nunca levei. (Fita nº 78,
NDIHR) (grifos nosso)(
Os famosos “bolos” aqui não constituem nenhuma guloseima de períodos festivos. Ao
contrário, é a manifestação do uso da palmatória nos castigos àqueles que não aprenderam, que
desobedeceram, enfim que contrariassem, no período juvenil,
a ordem social, moral ou
educacional, familiar e ou escolar. O “bolo” é um eufemismo do bater com palmatória à mão
de quem errou, enfim é a “dor nas mãos”, é a dor “do sofrimento” de se educar do método de
ensino pela decoração e memorização.
O próprio professor Natalinos Ferreira Mendes nos informa ainda sobre essa ação na
escola pública também a partir de outros métodos de disciplinarização:
Mas eu via numa escola pública aqui, onde hoje é a secretaria da educação. Tinha uma
escola do famoso mestre Castanha, eu passava e ficava olhando na janela. Esse professor ficava
com uma taquara, tipo vara de pescar. A sala era grande, então essa vara alcançava até o último
aluno, em qualquer canto que estivesse. Então o professor de posse dessa vara dominava a
classe. E ai daquele que fosse pego em fragrante. Ele descia a vara mesmo!. (Fita nº78, NDHIR)
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A continuidade da aplicação, do exercício com os métodos tradicionais prosseguiram
em Mato Grosso, com e apesar das reformas educacionais, seja de 1910 ou de 1927. Pois não
modificaram a compreensão de mundo, de cidadania, de criança, de educação e educabilidade.
O professor nos informa ainda que ao final da primeira metade do século XX muitas técnicas
do velho método de ensino e disciplina continuavam em vigor: Então era natural, até 1944,
quando eu comecei a lecionar, puxar a orelha da criança, botar de joelho, colocar aquele
papel escrito “sou burro” e tantas as outras coisas, ainda estava em vigor”.(Fita nº 78, NDIHR)
Todas essas assertivas do depoimento do professor da Academia Mato-grossense de
Letras em relação aos castigos e punições nas escolas são corroboradas por pesquisas de
profissionais da UFMT, como Alves (1994, p....), segundo ela por falta de controle e vigilância
...Contudo, o que se evidenciou na prática é que as novas técnicas pedagógicas só foram
aplicadas nos grupos escolares, nas demais escolas isoladas, os professores continuavam
utilizando os métodos antigos, por falta de orientação e fiscalização...
Não há portanto uma completa ruptura com as velhas metodologias no ensino de Mato
Grosso. As denominadas escolas isoladas ficaram a mercê dos conhecimentos dos profissionais
responsáveis pelas unidades escolares. Apenas os grupos escolares tiveram a oportunidade do
debate, da reflexão, enfim da prática de metodologias de ensino diferenciadas daquelas
emanadas do período imperial.
A tese de doutorado de Lázara Nanci de Barros Amâncio, denominado Ensino de
Leitura na Escola Primária no Mato Grosso: Contribuição para o Estudo de Aspectos de um
Discurso Institucional no Início do Século XX, à página 174 , trata de um método diferente,
eclético, que aproximava os métodos mnemônicos e o intuitivo, ao menos no ensino da leitura,
e que, segundo a pesquisadora, não há comprovação de que foi utilizado no Mato Grosso nesse
período de transição metodológica do período republicano. Denominado de “Método João de
Deus”, teve aplicação na educação paulista e que torna-se necessário conhecer em Mato
Grosso.
BIBLIOGRAFIA
VIDAL, Diana Gonçalves. Texto: Por uma Pedagogia do Olhar: os museus escolares no fim do
Século XIX, in VIDAL, Diana Gonçalves & SOUZA, Maria Cecília Cortez C. de. A Memória
e a Sombra. São Paulo: SP; Autêntica: 1999.
AMÂNCIO. Lázara Nanci de Barros. Ensino de Leitura na Escola Primária no Mato Grosso:
Contribuição para o Estudo de Aspectos de um Discurso Institucional no Início do Século XX.
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Tese de Doutorado, 2000; Univesidade Estadual Paulista – Campus de Marília, São Paulo;
264 pgs..
SOUZA, Maria Cecília Cortes Christiano de. Decorar, lembrar e repetir, in SOUZA, Cynthia
Pereira de (org.). História da Educação: Processos, Práticas e Saberes; São Paulo; Escrituras
Editora, 1998, 141 pgs.
SILVA. Elizabeth Figueiredo de Sá Poubel e. Escola Normal de Cuiabá (1910-1946):
Contribuição para História da Formação de Professores em Mato Grosso. Disssertação de
Mestrado; 2000; Universidade Federal de Mato Grosso. Cuiabá-MT; 120 pgs.
CARVALHO, José Murilo de. Pontos e Bordados.
3 ed. Editora Minas Gerais, Belo
Horizonte: MG; 1988.
ALVES, Laci Maria Araújo. O processo de Expansão Escolar em Mato Grosso(1910 – 1946:
Uma abordagem histórica). Dissertação de Mestrado (História da Educação), 1994;
Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT, 201 pgs.
Fontes:
MATO GROSSO.. Regulamento da Instrucção Pública Primária do Estado de Mato Grosso –
1910 (Decreto n. 265 de 22.10.1910)
______________.Arquivo Público de Mato Grosso - PMT. Relatórios de Presidente de Estado.
1908.
Ana Catarina de Figueiredo (Anita). Depoimento/Entrevista Oral (entrevistada pela Jornalista
Martha Arruda em 1983 – NDIHR-UFMT, Fita nº 04)
Maria de Arruda Muller. Depoimento/Entrevista Oral (entrevistada pela Jornalista Martha
Arruda em 1983 – NDIHR-UFMT, Fita nº 86
Natalino Ferreira Mendes. Depoimento/Entrevista Oral (entrevistado pela Jornalista Martha
Arruda em 1983 – NDIHR-UFMT, Fita nº 78
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Práticas pedagógicas na primeira metade do século XX