1 A ENFERMAGEM PROFISSIONAL DO TRABALHO: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA Grassele Denardini Facin 1 Sílvia Maria de Oliveira Pavão 2 É crescente a preocupação dos profissionais quanto à saúde do trabalhador. Aos poucos, a saúde do trabalhador foi conquistando o interesse dos profissionais da saúde, e gerando nos trabalhadores o sentimento de reivindicações por melhores condições de trabalho, levando especialmente as áreas médica e da enfermagem a desenvolverem projetos com o objetivo de promover a qualidade da saúde. A Enfermagem do Trabalho, como especialidade, vem buscando aprofundar, desenvolver conhecimentos e ampliar seu papel junto à área de saúde do trabalhador. Este trabalho do tipo qualitativo, que tem como objetivo relatar uma experiência profissional ao trabalhar em uma empresa como enfermeira do trabalho, valorizando o cuidado/atenção e responsabilidades com a saúde dos trabalhadores, consiste em uma contribuição teórica e prática para a enfermagem, ampliando a discussão da atenção à saúde do trabalhador. A experiência ocorreu em uma empresa localizada no interior do estado do Rio Grande do Sul, nos anos de 2005 e 2006, composta por aproximadamente 800 funcionários, sendo o Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho- SEESMT (um serviço regulamentado pela Norma Regulamentadora 4 - NR-4 do Ministério do Trabalho e Emprego - MTE, de acordo com a Lei no 6.514/78 da Secretaria de Segurança e Saúde no Trabalho, através dos decretos que determinaram o cumprimento das Convenções 148 e 155 da Organização Internacional do Trabalho – OIT) composto por oito funcionários – um engenheiro do trabalho, três técnicos de segurança do trabalho, dois técnicos de enfermagem, um enfermeiro e um médico do trabalho. O dimensionamento dessa tarefa no interior da empresa vinculava-se à gradação do risco da atividade principal e ao número total de empregados do estabelecimento. Em função do número de funcionários e do grau de risco da empresa, a norma estipula se a empresa precisa ter SESMT e como este ficará 1 Enfermeira. Professora substituta da Universidade Federal de Santa Maria. Endereço. Barão do Triunfo 1634, Santa Maria, RS. CEP: 97010-015. [email protected] 2 Orientadora. Educadora Especial. Especialização em Psicopedagogia Mestrado e Doutorado em Educação. Professor Adjunto do Centro Universitário Franciscano. Santa Maria, RS. [email protected]. 2 composto. Esses serviços devem manter entrosamento permanente com o Controle Interno de Prevenção de Acidentes - CIPA, que tem como objetivo a prevenção de acidentes e doenças decorrentes do trabalho, de modo a tornar compatível permanentemente o trabalho com a preservação da vida e a promoção da saúde do trabalhador. A CIPA é composta por representantes do empregador e dos empregados, de acordo com o dimensionamento previsto pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2007). Dentre as várias funções do enfermeiro do trabalho, foram implantadas algumas, tendo em vista que fiquei nessa empresa apenas um ano. Dessa forma foi organizada a parte assistencial e burocrática que antes não estava completa nem atualizada, mantendo assim cadastros atualizados, a fim de preparar informes para subsídios processuais nos pedidos de indenização e orientação em problemas de prevenção de doenças profissionais. Foi também implementada a evolução da Enfermagem, que ocorria sistematicamente com os atendimentos dos trabalhadores. Aos poucos, a saúde do trabalhador foi conquistando o interesse dos profissionais, e gerando nos trabalhadores o sentimento de reivindicações por melhores condições de trabalho. Tudo isso motivou ainda mais a área médica e da enfermagem a desenvolver projetos com o objetivo de promover a qualidade de saúde dos trabalhadores dessa empresa. A responsabilidade como enfermeiro do trabalho foi de imensurável valia, pois os trabalhadores deviam estar sempre em dia com os exames médicos periódicos, bem como prestar assistência a pequenos, médios e poucas vezes graves acidentes. “O processo de enfermagem dentro da saúde do trabalhador consiste em promoção de cuidados e proteção aos trabalhadores, torná-los conscientes dos riscos a que estão expostos e fazer com que participem do seu auto-cuidado. Com isso pretende-se minimizar os riscos ocupacionais” (BULHÕES, 1986, p. 204). Um dos projetos desenvolvidos com bons resultados foi em relação ao ruído, pois os profissionais ficavam expostos por um período prolongado a eles, e a conscientização quanto ao uso do equipamento de proteção individual adequado, os protetores auriculares que nem sempre eram utilizados, pois os funcionários não acreditavam ser importante, sendo que alguns estudos comprovam que a exposição prolongada a ruídos pode desenvolver fatores sérios à saúde do indivíduo, como a Perda Auditiva Induzida pelo Ruído Ocupacional (PAIRO), citada por Baggio e Marziale, (2001). Além disso, muitas outras atividades foram realizadas pelo profissional enfermeiro na atenção da saúde do trabalhador dessa empresa. Entre essas se destaca: a observação periódica 3 quanto às condições de segurança e periculosidade da empresa, a fim de identificar a necessidade no campo de segurança, higiene e melhoria do trabalho, bem como execução e avaliação de programas de prevenções de acidentes e de doenças profissionais ou não-profissionais, com análise direta dos fatores que poderiam causar estresse ocupacional, dos riscos e das condições de trabalho, para favorecer a preservação de integridade física e mental do trabalhador, isso foi desenvolvido por meio de observações diretas e palestras, em encontros com os trabalhadores, por exemplo, na Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho, SIPAT. Nesses encontros foram abordados pelo profissional enfermeiro e profissionais técnicos em segurança do trabalho temas pertinentes à higiene, doenças sexualmente transmissíveis, alcoolismo, tabagismo, aulas práticas de primeiros socorros, prevenção e combate a incêndios, além da NR -5 e prevenção de acidentes de trabalho. É também função da enfermeira responsável técnica/do trabalho, elaborar, executar e/ou supervisionar e avaliar as atividades de assistência de enfermagem aos trabalhadores, proporcionando-lhes atendimento ambulatorial, no próprio local de trabalho, controlando sinais vitais, aplicando medicamentos prescritos, curativos, e outros tratamentos, para reduzir o absenteísmo profissional; bem como orientar os funcionários no ato da admissão quanto ao esquema vacinal completo – principalmente tétano - e cumprimento completo deste por meio de campanhas realizadas em conjuntos com a secretaria de saúde do município, disponibilizando assim funcionários adequadamente treinados, para realizar os reforços na empresa; organizar e administrar o setor de enfermagem da empresa, provendo pessoal e materiais necessários, treinando e supervisionando técnicos de enfermagem, promovendo o atendimento adequado às necessidades de saúde do trabalhador. No período que permaneci na referida empresa, foram adquiridos vários materiais que auxiliavam na assistência de enfermagem do trabalho, bem como foi disponibilizado um espaço físico amplo, para comportar a assistência médica e odontológica para os trabalhadores dessa empresa. Além destes encaminhamentos e ações, foi implantada a ginástica laboral, para melhor desempenho das atividades diárias dos funcionários, com excelentes resultados em termos de satisfação e desempenho do trabalhador. Com a boa receptividade dos trabalhadores e diretivos e contabilizando o melhor desempenho das tarefas como resultado da atenção a saúde dos trabalhadores dessa empresa, fui convidada pelo gerente da empresa a fazer parte da CIPA. Conclui-se da importância e a dimensão das responsabilidades 4 do enfermeiro do trabalho em uma empresa, pois juntamente com a equipe do SEESMT e CIPA, foi possível desenvolver uma assistência/prevenção da saúde do trabalhador que se mostrou resolutiva na prevenção e controle da saúde. Além disso, se enfatizou a importância da atuação do enfermeiro na saúde do trabalhador, um campo que pode ser melhor explorado pelos profissionais da área em instituições de natureza diversa. Palavras-chave: Organização e gestão do trabalho, Saúde do trabalhador, Formação e capacitação. Referências Bibliográficas: BAGGIO, Maria Cristina Ferreira; MARZIALE, Maria Helena Palucci. A Participação Da Enfermeira Do Trabalho No Programa De Conservação Auditiva. Rev. LatinoAm. Enfermagem., Ribeirão Preto, v. 9, n. 5, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010411692001000500015&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 14 jun. 2007. Pré-publicação. BULHÕES, I. Enfermagem do trabalho, v. 2. Rio de Janeiro: Ideas, 1976 - 1986. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR 5 - Comissão Interna de Prevenção de Acidentes. Disponível em <http://www.mte.gov.br/legislacao/normas_regulamentadoras/nr_05.asp.> Acesso em: 14 jun. 2007.