Trabalho 183
CARACTERÍSTICAS DEMOGRÁFICAS, EDUCACIONAIS E DE TRABALHO DOS GERENTES DE ENFERMGEM EM HOSPITAIS PÚBLICOS DE NATAL/RN
INTRODUÇÃO: A consolidação da Enfermagem como atividade profissional teve início a partir da divisão do trabalho médico atrelado ao fortalecimento das instituições hospitalares como local de cura e desenvolvimento do conhecimento1. Nessa perspectiva, idealizou uma profissão embasada em reflexões e
questionamentos, sob a égide de conhecimentos científicos diferentes do modelo biomédico. Assim, durante as décadas de 1950 e 1960 muitas teorias de enfermagem buscaram inseri – la no plano da ciência e
determinar seu campo de domínio como profissão, enfatizando, também, o processo de enfermagem (PE)
como metodologia da assistência. Dessa forma, esses modelos passaram a constituir o corpo de conheci mento teórico das ações de enfermagem, orientando-as, e o PE, a forma de implementá-los. Assim, o PE
tornou-se uma atividade intelectual deliberada, por meio da qual a enfermagem é abordada de uma manei ra sistemática, proporcionando ordenamento e direcionamento ao trabalho do enfermeiro, além de servir
com meio para avaliação da qualidade dos cuidados profissionais 2. Este deve ser realizado em todos os
ambientes do cuidado profissional de Enfermagem, sejam públicos ou privados e está legitimado através
dos seguintes dispositivos legais: Lei do Exercício Profissional nº 7.498, de 1986, art. 11, alínea c; Artigo
1º da Resolução 358/2009 do Conselho Federal de Enfermagem e também constante da Resolução
272/2002 sob a denominação de Sistematização da Assistência de Enfermagem3,4. Apesar de sua importância como metodologia assistencial do fazer beneficiando pacientes e, atualmente, estar presente na formação de todo profissional enfermeiro, tem-se observado a não utilização do PE em instituições hospitalares. Denota-se que a implementação do PE envolve desde a sua valorização pelos enfermeiros até as
questões institucionais, as quais envolvem recursos humanos, materiais e flexibilidade da instituição em
instituir novas ações e ser ou não aberta a mudanças. Desse modo, o gerente de enfermagem é ator principal na tomada de decisões e efetivação de políticas de interesse da enfermagem da instituição. Assim sendo, acredita-se, que o perfil do enfermeiro gerente é um elemento importante para a promoção da institu cionalização do PE no contexto hospitalar. No entanto, há pouca informação sobre as características sociodemográficas e de trabalho desses profissionais enquanto responsáveis pela implementação dessa metodologia no trabalho da enfermagem. Este trabalho aborda características dos enfermeiros gerentes que trabalham em hospitais públicos e que participaram de um estudo mais amplo sobre a sua percepção da viabilidade de implantação do PE no contexto de trabalho. OBJETIVOS: Identificar as características educacionais e de trabalho dos enfermeiros que atuam como gerentes de enfermagem nos hospitais públicos.
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Refletir sobre o papel do enfermeiro gerente enquanto promotor do PE. METODOLOGIA: Pesquisa
descritiva realizada em quatro hospitais públicos do Estado do Rio Grande do Norte e quatro do Complexo Hospitalar da Universidade Federal desse Estado de junho a dezembro de 2010. Participaram 45 enfermeiros que atuam como gerentes e identificados pelos administradores dos hospitais. Estes responderam
um questionário que solicitava dados sociodemográficos, educacionais e de trabalho entre outras informações relacionadas ao estudo geral. RESULTADOS: Dos 45 gerentes de enfermagem dos hospitais, 4
eram homens e 41 mulheres, demonstrando uma tendência à feminilidade na força de trabalho. Aspecto
que não mudou muito, pois ao longo da história de enfermagem sempre houve predominância feminina,
embora alguns autores afirmem que desde 2003 esteja havendo um aumento gradual de profissionais do
sexo masculino. Ademais da predominância de gerentes casados (55,6%), seguido de solteiros (28,9%),
observou-se que a faixa etária dos gerentes está entre 22 e 65 anos. Sendo 86,7% do total de 45 com idade
superior a 36 anos e 13,3% inferior, demonstrando quadro de maturidade. Esse perfil demográfico foge à
realidade dos padrões de gerência atuais, já que a propensão é incorporar profissionais jovens, por acreditar na sua força inovadora5. Concernente ao perfil educacional, observou-se que o tempo de graduação
numa faixa de 1 a 33 anos; a maioria, 75%, possui mais de 15 anos formado e teve sua formação em universidades públicas, sendo que o principal órgão formador foi a Universidade Federal do Rio Grande do
Norte. Fato relevante, o qual pode denotar currículos não contemplativos do PE, considerando que a época de formação da maioria desses profissionais foi na década de 1990 quando se iniciava a discussão sobre esse metodologia. Como visto, as teorias de enfermagem que enfatizam o referido processo datam
das décadas de 1960/70. Mais precisamente, com destaque no Brasil, esse impulso se realizou a partir do
final dos anos 1980, por ocasião da regulamentação do exercício profissional da enfermagem no país 6.
Reforçando essa ideia, coloca-se que a formação dada pela universidade há dez anos ainda estava atrelada
às teorias administrativas sob a ótica taylorista-fordista, as quais enfatizam o trabalho humano regido por
normas, numa visão sistêmica e fechada7. Um dado revelador mostra que 38 gerentes (86,4%), possuíam
pós-graduação, prevalecendo a modalidade de especialização/residência (84,1%) e somente 6,8%, mestrado, não aparecendo nenhum com doutorado. Esse fato revela, além de uma exigência do mercado de trabalho, no tocante à mão-de-obra especializada, uma preocupação em adquirir novos conhecimentos, estar
a par de novas tecnologias. Considera-se que as experiências na pós-graduação providenciam uma base
para os profissionais inovarem e ampliarem as suas ações, na medida que, já qualificados, estes poderiam
exercer seu papel como agentes de mudança para a melhoria da assistência. Implantar um PE requer, além
de conhecimentos teóricos e interesse, disponibilidade de tempo. Dessa forma, a jornada de trabalho exerce grande influência. Observou-se que a maioria dos gerentes (26) obedece a uma jornada diária de seis
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horas; nove seguem oito horas; cinco, doze horas e cinco seguem carga horária não especificada. Além
disso, 21 possuem outro vínculo empregatício e 23 trabalham somente na instituição especificada. Uma
constatação relevante foi que na maioria das instituições visitadas a gerência de enfermagem acontece de
modo descentralizado, oriunda de uma das principais estratégias de construção do Sistema Único de Saúde, levando à participação coletiva e mais democrática da assistência de enfermagem, promovendo a execução de objetivos compatíveis com as necessidades, facilitando o PE. CONCLUSÃO: A pesquisa mostrou que, na prática, os profissionais entrevistados são do gênero feminino; na faixa etária madura, acima
de 36 anos de idade; com formação acadêmica acima de quinze anos, mas consciente do seu crescimento
profissional através da atualização dos conhecimentos; com tempo de trabalho em média de 15 anos; e
com carga de trabalho de seis horas, em sua maior parte. Assim, revelou-se um perfil dos gerentes de enfermagem que trabalham nos hospitais públicos de Natal com condições de atender a necessidade de se
implantar o PE, tendo em vista características indicadoras de profissionais maduros e experientes no que
se refere ao trabalho na enfermagem. Por outro lado, o perfil mostra também, uma população que possivelmente não teve suficiente embasamento teórico e prático relacionado ao PE, considerando o tempo de
formado. Ademais, observou-se que a descentralização da enfermagem nos postos de trabalho é uma prática que poderá facilitar o PE. Desse modo, os dados sócio-demográficos esboçam um desenho dos gerentes de enfermagem sinalizando para a viabilização de mudanças de paradigmas, as quais poderão propiciar o PE, a partir da observação da tendência feminina para as inovações; da busca por uma formação extra-curricular e, nesse sentido, as instituições de ensino têm o papel de incentivar o PE, como forma de
melhorar o trabalho da enfermagem. Além disso, acredita-se que cabe às instituições de saúde, como interessadas no aperfeiçoamento da prestação dos serviços, promover capacitação para o engajamento da implementação do PE. CONTRIBUIÇÕES/IMPLICAÇÕES: O trabalho contribui para a discussão sobre
a implementação do PE na assistência de enfermagem ao ressaltar a importância do perfil dos enfermeiros
gerentes nos hospitais. Alertou para a necessidade desses gerentes na luta pelos interesses dos profissionais de enfermagem, pela sistematização da assistência em prol da melhoria do cuidar. Isso implica na
educação continuada nesses contextos e na procura por articulação com os órgãos formadores para as atualizações sobre o PE. REFERÊNCIAS: 1.MELO,CMM. Divisão social do trabalho e enfermagem. São
Paulo: Cortez, 1986. 2. STATON, M; PAUL, C; REEVES, JS. Um resumo do processo de enfermagem.
In: GEORGE, J. B. Teorias de enfermagem: os fundamentos para a prática profissional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. Cap. 2, p. 24-37. 3. Conselho Federal de Enfermagem. Lei nº 7.498/1986. Disponível
em: http://www.portalcofen.gov.br/2007/materias.asp?ArticleID=22&sectionID=35 Acesso em Ago 2009.
4. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 358/2009. Disponível em: URL: http://www.803
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portalcofen.gov.br/2007/materias.asp?ArticleID=10113&sectionID=34 Acesso em Dez 2009. 5. ALVES,
M; PENNA, CMM; BRITO, MJM Perfil dos gerentes de unidades básicas de saúde. Rev Bras Enferm, v.
57, n. 4, p. 441-6, jul./ago. 2004. 6.TANNURE, MC; GONÇALVES, AMP. SAE, Sistematização da assistência de enfermagem: guia prático. 2ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. 7. NÓBREGA, MFB
et al. Perfil gerencial de enfermeiros que atuam em um hospital público federal de ensino. Rev. enferm.
UERJ, v. 16, n. 3, p.333-8. jul/set, 2008.
Descritores: Assistência Enfermagem, Cuidados de Enfermagem, Gerência.
Área Temática: Processo de Cuidar em Saúde e Enfermagem.
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