Distribuição espacial da população e comportamento eleitoral: as
potencialidades de uma interface interdisciplinar∗
Cláudia Gomes de Siqueira♥
Palavras-chave: distribuição espacial da população; comportamento eleitoral; eleições presidenciais
de 2006; estado de São Paulo
Este texto constitui um estudo inicial feito com o objetivo de explorar as potencialidades de
uma interface entre ramos específicos da Demografia e da Ciência Política, ou seja,
distribuição espacial da população e comportamento eleitoral. No balanço da literatura
nacional, destacam-se poucos estudos na Ciência Política relacionando comportamento
eleitoral e população. Já no balanço da literatura demográfica, tanto nacional como
internacional, não se destaca nenhum estudo relacionando populações e eleições. Diante
dessa pouca exploração conjunta desses dois fenômenos sociais e, considerando a
importância desempenhada pela migração nos processos de urbanização e distribuição
populacional no Brasil, pelo menos, nos últimos 70 anos, decidiu-se pela realização deste
estudo, relacionando migração e comportamento eleitoral. Nesse sentido, neste estudo
exploratório, procurou-se relacionar os dados eleitorais de 2006 com as informações sobre
migração para as regiões do estado de São Paulo, classificadas em áreas de expulsão e áreas
de atração populacional. Em seguida, comparou-se os resultados com os dados eleitorais e
migratórios em nível nacional, com o objetivo de se avaliar em que medida a dinâmica
paulista, nas eleições de 2006, se aproximou da dinâmica nacional. Com esse exercício, de
caráter exploratório, pretende-se avaliar as potencialidades do diálogo entre os dois campos
disciplinares e apontar os caminhos para o desenvolvimento de estudos futuros.
∗
Trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambu –
MG – Brasil, de 29 de setembro a 03 de outubro de 2008.
♥
UNICAMP / NEPO
1
Distribuição espacial da população e comportamento eleitoral: as
potencialidades de uma interface interdisciplinar ∗
Cláudia Gomes de Siqueira♥
Apresentação
A elaboração deste texto representa uma primeira investida em direção à elaboração
de uma interface interdisciplinar entre a Demografia e Ciência Política, mais especificamente
entre os processos gerais de distribuição espacial da população e comportamento eleitoral.
Trata-se de um estudo exploratório que se orientou pelos seguintes questionamentos: A
distribuição espacial da população pode constituir um fator que explique o comportamento
eleitoral? O estudo da relação entre distribuição populacional e comportamento eleitoral
contribui para uma maior compreensão do fenômeno migratório ou do próprio
comportamento eleitoral? Essa relação nos permite conhecer melhor os impactos da
implementação de determinadas políticas públicas?
Destaca-se que a realização do presente estudo foi fortemente inspirada por alguns
estudos sobre as bases sociais do comportamento eleitoral e das forças políticas,
empreendidos por diferentes autores, em diferentes momentos, no município de São Paulo1 e
no interior paulista, mais especificamente o município de Presidente Prudente2.
Embora os dois grupos de estudos possuam escopos diferenciados, apresentam em
comum o objetivo de relacionar o comportamento eleitoral com as características
socioeconômicas do eleitorado, localizados no espaço em estudo.
Nos estudos feitos na cidade de São Paulo, os votos eleitorais de diferentes pleitos
foram distribuídos pelas diferentes regiões da cidade, sendo que, no estudo de Pierucci
(1989), o objetivo era situar e analisar o voto conservador dos paulistanos, nas eleições de
1985 e 1986, e, no estudo de Figueiredo et. alli (2002), buscava-se identificar os padrões de
distribuição de votos no município, entre 1994 e 2000.
Por sua vez, no estudo de Lamounier (1978) sobre as eleições de 1976 em Presidente
Prudente, o autor correlacionou o comportamento eleitoral com o contexto socioeconômico,
destacando que a estrutura econômica pouco diversificada do município era um fator que
dificultava a abertura local a uma postura oposicionista, reforçando o perfil “arenista” da
localidade. O estudo de Kinzo (1992) sobre as eleições de 1989, baseado na análise dos votos
e de indicadores socio-econômicos do eleitorado prudentino, apontou para uma continuidade
da herança conservadora em Presidente Prudente.
Diante disso, destaca-se que o presente estudo compartilha com as citadas pesquisas a
opção pela caracterização da base social do voto, porem com a diferença que, no nosso caso,
∗
Trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambu –
MG – Brasil, de 29 de setembro a 03 de outubro de 2008.
♥
UNICAMP / NEPO
1
Sobre o comportamento eleitoral no município de São Paulo, considerou-se, basicamente, Pierucci (1989) e
Figueiredo et alli (2004). Os dois trabalhados fazem referência a outros importantes estudos na mesma linha de
investigação e que deverão ser considerados no posterior aprofundamento deste estudo.
2
Lamounier (1978) e Kinzo (1992).
2
não será feito, a caracterização sociodemográfica da população, contrastada com o respectivo
comportamento eleitoral.
Como se trata de um primeiro estudo exploratório, não se pretende fazer uma análise
em profundidade. Pretende-se, tão-somente, explorar, paralelamente, dados econômicos e
demográficos gerais e resultados eleitorais, para, daí, discutir, inspirada na bibliografia
selecionada, as potencialidades da relação entre os dois fenômenos em estudo.
Assim, optou-se por focar a análise nas regiões administrativas do estado de São
Paulo, a partir dos seguintes dados selecionados: dados eleitorais da eleição presidencial de
2006 (1o. e 2o.turnos) e alguns dados de caracterização econômica e demográfica das regiões
paulistas no período recente.
Nesse momento, o que se pretende é elaborar um panorama do comportamento
eleitoral das regiões do estado de São Paulo, contrastando-o com a caracterização econômica
e demográfica das regiões analisadas.
Distribuição espacial da população e comportamento eleitoral no estado de São Paulo
Iniciaremos esse estudo com a apresentação das características demográficas e
econômicas gerais relativas às regiões analisadas. Assim, na tabela 1, encontram-se os dados
populacionais relativos às regiões administrativas e regiões metropolitanas paulistas, onde se
observa que mais da metade das regiões apresentaram taxa de crescimento populacional
acima da média do estado, no período recente.
Regiões
Tabela 1: População total e taxa de crescimento populacional
Regiões administrativas - Estado de São Paulo, 1991-2006
Taxa de crescimento populacional
População
(% a.a.)
1991
2000
2006
1980-1991
1991-2000
2000-2006
RMSP
15.369.305
17.852.637
19.355.815
1,86
1,68
1,36
RMC
1.866.025
2.332.988
2.620.909
3,40
2,59
1,96
RM Santos
1.214.980
1.473.912
1.653.736
2,19
2,17
1,94
Campinas
4.382.452
5.383.260
6.010.392
2,91
2,31
1,85
Sorocaba
2.005.788
2.463.754
2.776.343
2,65
2,31
2,01
São José dos Campos
1.642.399
1.988.498
2.221.420
2,77
2,15
1,86
São José do Rio Preto
1.126.330
1.297.799
1.410.608
1,59
1,59
1,40
Ribeirão Preto
892.884
1.058.652
1.162.794
2,86
1,91
1,58
Bauru
821.544
955.486
1.041.735
2,01
1,69
1,45
Marília
786.962
886.735
956.748
1,35
1,34
1,27
Central
725.635
853.866
936.549
2,70
1,82
1,55
Presidente Prudente
732.802
787.561
827.721
0,94
0,80
0,83
Araçatuba
613.039
672.572
710.378
1,44
1,04
0,92
Franca
538.804
639.463
707.370
2,52
1,92
1,70
Barretos
356.741
394.835
421.967
2,64
1,13
1,11
Registro
226.608
265.348
290.453
1,86
1,77
1,52
31.436.273
36.974.378
40.484.029
2,12
1,82
1,52
Total do Estado SP
Fonte: Fundação Seade, 1991-2006
Conforme os dados da tabela 1, o grupo das regiões com crescimento populacional
superior ao crescimento estadual é composto, na sua maioria, por aquelas situadas na porção
leste do estado, destacando-se o desempenho de Sorocaba, Santos, São José dos Campos e
3
Campinas. Por sua vez, o grupo das regiões com crescimento abaixo da média do estado,
conta com a RMSP e compõe-se, principalmente, por regiões situadas no noroeste do
território paulista, destacando o baixo desempenho de Araçatuba e Presidente Prudente.
O dinamismo econômico das regiões paulistas, no período recente, é evidenciado
pelos dados referentes ao PIB per capita e participação de cada região no PIB estadual,
apresentados na tabela 2.
Tabela 2: Produto Interno Bruto (per capita e participação no PIB estadual)
Regiões administrativas e metropolitanas - Estado de São Paulo, 2000-2004
2000
2004
Regiões
PIB per capita Participação no PIB
Participação no PIB
PIB per capita
(em reais)
estadual
estadual
RMSP
RMC
RM Santos
Campinas*
São José dos Campos
Sorocaba
São José do Rio Preto
Central
Ribeirão Preto
Marília
Araçatuba
Barretos
Presidente Prudente
Franca
Bauru
Registro
Fonte: Fundação Seade
*Inclui a região metropolitana de Campinas
11.094,14
12.600,05
7.632,22
10.551,32
13.229,62
7.062,18
6.813,48
9.225,35
7.863,17
6.596,54
8.732,18
9.601,77
5.846,67
6.263,76
7.040,47
3.912,14
53,96
8,05
3,07
15,53
7,19
4,76
2,41
2,15
2,27
1,59
1,59
1,03
1,25
1,09
1,12
0,28
14.383,96
19.822,97
11.935,34
16.073,08
16.794,85
11.301,20
10.581,05
13.553,78
10.559,33
9.929,26
12.058,90
17.281,08
8.742,58
9.577,19
10.542,97
6.421,96
50,33
9,36
3,51
17,35
6,66
5,58
2,68
2,28
2,21
1,70
1,55
1,31
1,30
1,21
1,02
0,34
Devido ao curto período de tempo, observa-se, como era de se esperar, que, entre
2000 e 2004, a posição que cada região assume mantém-se praticamente a mesma nos dois
momentos. O principal destaque é que, depois da RMSP, as regiões com maiores indicadores
são aquelas, cujas sedes mais se beneficiaram com o processo de desconcentração econômica
da RMSP, iniciada nos anos 703, entre os quais destacam-se Campinas, Santos, São José dos
Campos, Sorocaba, São José do Rio Preto, Central e Ribeirão Preto.
Para complementar o perfil sócio-demográfico das regiões paulistas, na tabela 3, são
apresentados os dados referentes ao saldo migratório anual de cada região, em 1991 e 2000:
3
Baseado em Baeninger, 2000.
4
Tabela 3: Saldo migratório anual
Regiões administrativas e metropolitanas - Estado de São Paulo, 1991-2000
RA’s e RM’s
1991
2000
RMSP
RM Campinas
Campinas*
Sorocaba
RM Santos
São José dos Campos
São José do Rio Preto
Ribeirão Preto
Central
Bauru
Franca
Marília
Registro
Barretos
-24.966
25.403
41.365
11.337
4.748
9.630
525
7.197
6.294
2.341
2.893
-2.492
-1.182
2.685
24.399
26.433
50.917
19.652
13.115
12.358
7.804
6.297
5.581
4.909
3.160
1.661
288
120
Araçatuba
-1.288
-5.735
-134
-2.684
Presidente Prudente
Fonte: Fundação Seade
*Inclui a região metropolitana de Campinas
Assim, com relação aos dados da tabela 3, observa-se que entre as regiões que
apresentaram saldos positivos crescentes nos dois períodos encontram-se aquelas mais
dinâmicas, beneficiadas pela desconcentração econômica (RM Campinas e RA’s de
Campinas, Sorocaba, Santos, São José dos Campos, São Jose do Rio Preto e Bauru) e Franca.
Por sua vez, as regiões que apresentaram saldos migratórios positivos e decrescentes são
Ribeirão Preto, Central e Barretos.
Por outro lado, entre as regiões que passaram de um saldo migratório negativo para
positivo ao longo do período encontram-se a RMSP, Marília e Registro. Por fim, as regiões
mantiveram saldos migratórios negativos, embora declinantes, foram Araçatuba e Presidente
Prudente.
Considerando esses dados como indicadores do perfil sócio-demográfico das regiões
paulistas, passa-se então ao tratamento dos dados relativos ao comportamento eleitoral
recente. Nesse sentido, deu-se continuidade ao estudo exploratório buscando verificar se o
comportamento eleitoral apresentava alguma variação em função dos perfis sóciodemográficos regionais delineados.
Antes de abordar os resultados eleitorais de 2006 das regiões paulistas, as tabelas
seguintes fornecem informação sobre o desempenho dos principais candidatos no pleito para
presidente nos dois turnos. Em termos de grandes regiões do país, os dados da tabela 4
mostram o melhor desempenho de Alckmin nas regiões Centro-Oeste e Sul, enquanto Lula
foi mais votado nas regiões Norte e Nordeste.
5
Tabela 4: Eleições presidenciais de 2006 (votos válidos)
Desempenho dos principais candidatos por grandes regiões e UF de São Paulo (1o.turno)
Brasil
Regiões
Alckmin (PSDB)
Votos
Heloísa Helena
(PSOL)
Lula (PT)
Outros
Total
%
Votos
%
Votos
%
Votos
%
Votos
%
2.444.729
36,4
3.767.303
56,1
361.326
5,4
146.181
2,2
6.719.539
100,0
Nordeste
6.514.319
26,1
16.636.114
66,8
1.105.430
4,4
655.966
2,6
24.911.829
100,0
Sudeste
19.150.177
45,2
18.330.563
43,3
3.671.430
8,7
1.200.373
2,8
42.352.543
100,0
Norte
SP
11.927.802
54,2
8.091.867
36,8
1.558.639
7,1
430.735
2,0
22.009.043
100,0
Centro-Oeste
3.538.052
51,6
2.639.738
38,5
471.835
6,9
208.339
3,0
6.857.964
100,0
Sul
8.303.579
54,9
5.273.096
34,9
962.078
6,4
577.028
3,8
15.115.781
100,0
17.513
44,8
15.551
39,8
3.294
8,4
2.719
7,0
39.077
100,0
51.896.171
44,0
54.754.232
46,4
8.134.032
6,9
3.221.341
2,7
ZZ*
BRASIL
118.005.776 100,0
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral
* Denominação não especificada, mas somada no cômputo total
Na região Sudeste, Alckmin e Lula praticamente igualaram-se em número de votos,
com uma diferença de quase dois pontos percentuais em favor do primeiro. Porém, quando se
tomam somente os dados do estado de São Paulo, constata-se a vitória do candidato tucano
sobre o petista, com o mesmo percentual próximo aos das regiões onde seu desempenho foi
melhor (54,2%).
Por sua vez, no segundo turno Lula, vence Alckmin na região Sudeste, mas perde o
pleito para o adversário no estado de São Paulo (tabela 5).
Tabela 5: Eleições presidenciais de 2006 (votos válidos)
Desempenho dos candidatos por região e UF de São Paulo (2o.turno)
Brasil
Alckmin (PSDB)
Lula (PT)
Total
Regiões
Voto
%
Votos
%
Votos
Norte*
2.056.263 39,9
3.095.544 60,1
5.151.807
Nordeste
5.738.148 22,9
19.352.049 77,1
25.090.197
Sudeste
18.364.505 43,1
24.215.936 56,9
42.580.441
SÂO PAULO
11.696.938 52,3
10.684.776 47,7
22.381.714
Centro-Oeste
3.179.623 47,6
3.497.431 52,4
6.677.054
Sul
8.007.389 53,5
6.956.425 46,5
14.963.814
ZZ**
20.912 53,8
17.948 46,2
38.860
BRASIL
49.063.778 42,0
67.820.109 58,0
116.883.887
%
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
100,0
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral
*Não inclui os votos do estado do Amazonas
** Denominação não especificada, mas somada no cômputo total
Com os dados eleitorais expostos nas tabelas 4 e 5, objetivou-se tão-somente situar o
estado de São Paulo no contexto nacional, no pleito presidencial de 2006, não sendo a
6
intenção deter-nos por mais tempo na análise de tais dados. Pretende-se, então, partir para a
avaliação do desempenho eleitoral dos candidatos nas diferentes regiões paulistas.
Aqui, no entanto, surge uma questão crucial para o desenvolvimento posterior do
estudo proposto neste texto: a análise de dados eleitorais associados a informações relativas à
população não é algo inédito no campo das Ciências Sociais.
Nesse sentido, o estudo de Carreirão (2007), no campo da Ciência Política, é bastante
representativo, no qual o autor analisa a intenção de voto e o desempenho dos candidatos à
presidência do Brasil, no pleito de 2006, de acordo com os estados da federação e as grandes
regiões do país, ao qual são agregados alguns dados sobre a população, como renda,
escolaridade e cor, com o objetivo de se apontar os diferenciais do voto.
Diante disso, caberia, então, perguntar: qual seria a especificidade do estudo proposto
aqui? No que ele se diferenciaria dos estudos já realizados no campo da Ciência Política?
Sabe-se já que, nos estudos associando-se o comportamento eleitoral e a distribuição
espacial da população, não se pretende considerar a dimensão demográfica de forma
secundária, como um pano-de-fundo da análise. Ao contrário. Pretende-se investigar a
interação entre os dois processos, explorando as potencialidades de uma dimensão atuar sobre
a outra.
O caminho teórico para isso definiu-se retomando a percepção de Pierucci (1989)
sobre a potencialidade dos comportamentos eleitorais “lançarem luz sobre estilos de vida em
contextos urbanos complexos”4. Embora ele estivesse se referindo aos grandes centros, como
a cidade de São Paulo, considera-se que tal potencialidade seja possível em outros contextos
urbanos diferentes, além da capital paulista.
Soma-se a isso a consideração de que se, por um lado, o comportamento eleitoral pode
nos dizer algo sobre o modo de vida das pessoas de um determinado lugar no espaço, por
outro, a dinâmica econômica e demográfica das diferentes territorialidades também pode nos
fornecer elementos para compreender o comportamento político da sua respectiva população,
ao longo do tempo, o que, por sua vez, pode nos ajudar, por exemplo, a entender a
diversidade surgida na implementação de políticas públicas em diferentes contextos.
É claro que o comportamento eleitoral de uma determinada população não é
apreendido a partir de apenas um tipo de pleito, num único ponto no tempo. Faz-se necessária
a consideração de uma certa variedade de pleitos eleitorais, para diversos cargos, em
diferentes momentos no tempo, para se poder afirmar que uma determinada população ou
comunidade possui um determinado tipo de comportamento eleitoral.
Além disso, a reflexão sobre o comportamento eleitoral não pode prescindir da
discussão, por um lado, sobre identidade (ou preferência) partidária5 e, por outro, sobre a
organização institucional local (partidária ou não)6. Porem, como se trata de uma
aproximação inicial à relação entre alguns aspectos da dinâmica demográfica e
comportamento político, não vem ao caso agora nem investir numa análise histórica de um
determinado comportamento eleitoral, nem aprofundar tal discussão teórica, deixando para
estudos posteriores essas investidas na pesquisa.
Por outro lado, reconhece-se que a caracterização sócio-demográfica das regiões
paulistas a partir das variáveis mais gerais já apresentadas é insuficiente para um
desenvolvimento mais aprofundado da análise sobre a relação entre população e
comportamento eleitoral.
Nesse sentido, para tal desenvolvimento far-se-ão necessários, posteriormente, um
escopo espacial mais reduzido, um refinamento de dados socio-econômicos e dados
referentes à distribuição espacial da população, uma série histórica de dados populacionais
4
Pierucci, 1989, p.64.
Carreirão & Kinzo (2004) fornecem uma boa introdução a esse tema.
6
Ames (1994) faz uma discussão sobre o tema, concentrando-se nas organizações partidárias.
5
7
(migrante, não-migrante, tempo de residência no município, origem do migrante, entre
outros) e dados eleitorais desagregados por distritos eleitorais, realização de estudos de caso,
entre outros procedimentos.
Porém, trata-se de tarefas a serem realizadas em estudos posteriores, desenvolvidas
em diferentes etapas. Neste momento, pretende-se tão-somente empreender um estudo
exploratório, a partir de um cruzamento simples entre alguns dados sócio-demográficos e
eleitorais gerais referentes às regiões paulistas, destacando as associações mais significativas
entre eles.
Nesse sentido, a organização dos dados selecionados orientou-se pela seguinte
questão norteadora: regiões com perfis sócio-demográficos diferentes apresentariam também
diferenças no comportamento eleitoral? O padrão do desempenho dos principais candidatos a
presidente, em 2006, observado em nível nacional (com Lula sendo vitorioso nas regiões
menos desenvolvidas do país), se repetiria em escala estadual, entre as diferentes regiões
paulistas?
Os dados da tabela 6 e 7 ilustram o desempenho dos principais candidatos a presidente
no estado de São Paulo, em 2006, nos dois turnos da eleição:
Tabela 6: Eleições presidenciais de 2006 (1o. Turno)
Votação segundo regiões administrativas e regiões metropolitanas
Estado de São Paulo – Brasil
RA’s e RM’s
RM Campinas
RM Santos
RMSP
Presidente Prudente
Campinas*
Barretos
Ribeirão Preto
Registro
Araçatuba
Franca
São José Campos
Central
Sorocaba
Marília
Bauru
São José Rio Preto
Total Estado SP
Eleitorado
1.757.825
1.119.807
13.449.227
611.727
4.107.770
302.048
801.608
203.974
522.998
478.737
1.506.119
661.364
1.862.843
675.484
725.292
1.008.736
28.037.734
Votos Válidos
%_Alckmin
PSDB
%_Lula
PT
%_HHelena
PSOL
%_CBuarque
PDT
%_Outros
46,4
47,4
50,4
54,4
54,8
59,6
56,5
61,0
59,9
61,9
59,8
60,2
61,4
62,4
62,2
62,9
57,1
44,4
41,4
39,6
37,7
36,7
34,3
34,3
33,9
33,3
32,4
31,9
31,7
31,0
30,5
29,8
29,4
39,6
6,7
9,2
8,1
6,1
6,2
4,7
6,7
3,6
5,1
4,3
6,3
6,0
5,8
5,4
5,7
5,8
7,5
2,3
1,8
1,7
1,6
2,1
1,3
2,3
1,3
1,6
1,4
1,9
1,9
1,6
1,5
2,1
1,7
1,9
0,2
0,2
0,2
0,2
0,2
0,1
0,2
0,2
0,2
0,1
0,2
0,2
0,2
0,2
0,2
0,2
0,2
1.397.756
887.458
10.683.182
455.161
3.229.158
229.519
607.112
144.129
395.504
377.048
1.198.794
508.700
1.443.773
513.982
557.448
778.075
22.009.043
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral
*Inclui a região metropolitana de Campinas
Observa-se que, no primeiro turno das eleições presidenciais de 2006, com exceção
das regiões metropolitanas de Santos e Campinas, o candidato do PSDB obteve mais de 50%
dos votos em todas as regiões administrativas do estado e na região metropolitana da capital.
O candidato do PT não foi vitorioso em nenhuma das regiões, sendo que seu melhor
desempenho concentrou-se na RM’s de Campinas e Santos.
Na tabela 7, os dados mostram o desempenho de Alckmin e Lula no segundo turno
das eleições:
8
Tabela 7: Eleições presidenciais de 2006 (2o. Turno)
Votação segundo regiões administrativas e regiões metropolitanas – Estado de São Paulo
%_Alckmin
%_Lula
Votos Válidos
(VV) /
RA’s e RM’s
Eleitorado
(VV)
Eleitorado
PSDB
PT
RM Campinas
1.757.825
1.418.476
80,7
44,5
55,5
RM Santos
1.119.807
895.700
80,0
45,9
54,1
RMSP
13.449.227
10.876.622
80,9
49,9
50,1
Presidente Prudente
611.727
461.515
75,4
51,8
48,2
Campinas*
4.107.770
3.292.193
80,1
52,0
48,0
Ribeirão Preto
801.608
624.552
77,9
52,9
47,1
Registro
203.974
144.267
70,7
54,2
45,8
Barretos
302.048
232.775
77,1
55,0
45,0
São José Campos
1.506.119
1.210.161
80,3
55,7
44,3
Araçatuba
522.998
401.044
76,7
56,5
43,5
Central
661.364
520.237
78,7
57,0
43,0
Franca
478.737
382.735
79,9
57,6
42,4
Bauru
725.292
565.614
78,0
57,6
42,4
Sorocaba
1.862.843
1.465.813
78,7
57,7
42,3
Marília
675.484
520.247
77,0
58,4
41,6
São José Rio Preto
1.008.736
788.239
78,1
60,3
39,7
Total Estado SP
29.795.559
23.800.190
79,9
51,8
48,2
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral
*Inclui a região metropolitana de Campinas
De acordo com a tabela 7, o resultado do segundo turno mostra que Lula saiu-se
vitorioso nas três regiões metropolitanas e ficou em segundo lugar em todas as regiões
administrativas do estado, nas quais a proporção de votos no PT ficou abaixo da média
estadual, com exceção da região de Presidente Prudente, onde a proporção de votos nos dois
candidatos se igualou à performance estadual.
Retomando a hipótese do estudo, e considerando somente as regiões administrativas,
observa-se que não houve, nos dois turnos, uma correlação significativa entre o desempenho
eleitoral dos candidatos, por um lado, e os diferenciais sócio-econômicos e demográficos das
regiões a partir das variáveis utilizadas, por outro.
Focando-se, por sua vez, nas regiões metropolitanas paulistas, observa-se que é onde
se registram os melhores desempenhos de Lula no estado de São Paulo.
No primeiro turno, na RMSP Alckmin obteve a maioria dos votos, e, nas regiões de
Campinas e Santos, nem Alckmin e nem Lula alcançaram maioria absoluta, podendo-se
afirmar que foi onde o voto de protesto no PSOL causou impacto no desempenho do
candidato petista. Já no segundo turno, Lula obteve a maioria dos votos nas três regiões
metropolitanas.
Considerando a hipótese deste trabalho, poder-se-ia afirmar que ela se confirma em
parte, pois no conjunto das regiões paulistas, o melhor desempenho eleitoral de Lula deu-se
nas regiões metropolitanas, que estão entre as regiões do estado mais dinâmicas econômica e
demograficamente. Ou seja, é nos grandes centros urbanos do estado que se verifica uma
melhor adesão à candidatura de Lula.
Isso nos permite concluir, provisoriamente, que a dinâmica nacional, no pleito
presidencial de 2006, não se verifica no âmbito intra-estadual no caso paulista: a performance
do PT no contexto paulista não apresentou o mesmo padrão verificado no plano nacional,
9
escala na qual o petista teve melhor desempenho nas regiões menos dinâmicas do país (Norte
e Nordeste).
Porém, a não-confirmação da hipótese é provisória porque as variáveis utilizadas não
foram suficientes para se captar as diferenças entre as regiões metropolitanas, assim como
não foram suficientes para evidenciar alguma diversidade na escala das regiões
administrativas.
Diante disso, optou-se por aplicar a hipótese do estudo à escala espacial das subregiões do estado, desagregando-se as mesmas variáveis econômicas, demográficas e
eleitorais no nível de todas as regiões de governo que compõem cada região administrativa
para averiguar a ocorrência de alguma correlação que nos permita alguma inferência a esse
nível de análise.
Os dados da tabela 8 mostram as sub-regiões onde se registrou a melhor performance
do candidato do PT no interior paulista, no segundo turno das eleições presidenciais de
20067:
Tabela 8: Eleições presidenciais de 2006 (2o. Turno)
Votação segundo regiões de governo selecionadas – Estado de São Paulo
Regiões de Governo
Eleitorado
Campinas
Votos Válidos (VV)
VV/ Eleitorado
% Alckmin PSDB
% Lula
PT
1.907.911
1.538.340
80,6
45,1
54,9
Jundiaí
526.634
428.205
81,3
48,9
51,1
Santos
1.119.807
895.700
80,0
45,9
54,1
140.855
103.590
73,5
48,0
52,0
87.733
70.135
79,9
48,6
51,4
Andradina
Cruzeiro
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral; Fundação Seade
Dentre as 42 regiões de governo do interior do estado de São Paulo, em apenas 5
regiões registrou-se a obtenção da maioria dos votos pelo candidato do PT, no segundo turno
das eleições de 2006. Os dados da tabela 8 ilustram o comportamento eleitoral dessas cinco
regiões.
A tabela 9 apresenta os dados demográficos referentes às regiões de governo
selecionadas, no período recente:
Tabela 9: População total, taxa crescimento populacional (%a.a.) e saldo migratório anual
Regiões de governo selecionadas - Estado de São Paulo, 1991-2006
Taxa crescimento
Saldo migratório
População
Regiões de
(%a.a.)
anual
governo
1991
Campinas
Santos
Jundiaí
Andradina
Cruzeiro
Fonte: Fundação Seade.
2000
2006
1991/2000
2000/2006
1991
2000
2.019.329
1.214.980
2.529.419
1.473.912
2.835.408
1.653.736
2,53
2,17
1,92
1,94
26.125
4.748
27.748
13.115
534.129
171.617
669.781
179.048
758.493
185.800
2,55
0,47
2,09
0,62
3.536
-1.434
7.175
-1.046
104.219
113.969
120.513
1,00
0,93
-604
-354
7
A região de governo de Santos corresponde à região metropolitana de Santos e a região de governo de
Campinas inclui 18 dos 19 municípios da região metropolitana de Campinas.
10
Observa-se a clara configuração de dois grupos distintos de região: um grupo de
regiões com maior população, com as maiores taxas de crescimento populacional no período
recente e com saldos migratórios positivos e crescentes (Campinas, Santos e Jundiaí); um
segundo grupo, composto por regiões com menor população, menores taxas de crescimento
populacional e com saldos migratórios negativos, de um período e a outro (Cruzeiro e
Andradina).
Já, na tabela 10, encontram-se dados a partir dos quais pode-se evidenciar o
diferencial entre as regiões quanto ao seu dinamismo econômico. Observa-se que as regiões
mais dinâmicas demograficamente são aquelas com maior participação no PIB estadual,
enquanto registra-se o inverso entre as regiões menos dinâmica em termos demográficos, ou
seja, regiões com menores indicadores demográficos são as com menor participação no PIB
estadual.
Tabela 10: Produto Interno Bruto (pib, per capita e participação no PIB estadual)
Regiões de governo selecionadas - Estado de São Paulo, 2000-2004
2000
2004
Regiões de
% Pib
PIB per capita
% Pib
PIB per capita
governo
PIB*
PIB*
estadual
(em reais)
Campinas
8,52
31.600,12
Santos
3,07
Jundiaí
2,35
0,73
0,15
Fonte: Fundação Seade.
*Em milhões de reais correntes
Andradina
Cruzeiro
estadual
(em reais)
12.309,11
9,93
54.264,09
19.433,59
11.397,63
7.632,22
3,51
19.197,47
11.935,34
8.700,81
2.707,56
12.797,97
15.076,50
2,35
0,66
12.844,91
3.589,44
17.361,67
19.630,42
539,25
4.702,23
0,19
1.026,36
8.627,98
Assim, a análise dos resultados eleitorais pode ser feita a partir de dois grupos de
regiões, classificados de acordo com seu dinamismo econômico e demográfico8: 1) o
primeiro, composto pelas regiões de Campinas, Jundiaí e Santos e, 2) o segundo, formado
pelas regiões de Andradina e Cruzeiro.
O primeiro grupo é formado por três das regiões paulistas mais dinâmicas econômica
e demograficamente, onde, apesar do voto majoritário no PT no conjunto da região, Lula
apresentou uma performance internamente diferente em cada uma delas. Na região de Santos,
o candidato petista não alcançou maioria dos votos na sede regional, mas foi majoritário nos
municípios de maior porte da região9.
Por sua vez, as regiões de governo de Campinas e Jundiaí, que são as duas regiões
mais dinâmicas da região administrativa de Campinas, registraram votações municipais
bastante distintas entre si. De um lado, na região de Jundiaí, o voto petista não alcançou a sua
maioria na sede regional, mas a obteve em municípios médios e grandes10. De outro lado, na
região de governo de Campinas, Lula obteve maioria dos votos na sede regional e em vários
municípios de diversos portes populacionais11.
O segundo grupo é formado por duas das regiões de governo menos dinâmicas do
estado de São Paulo. No contexto da região administrativa de Araçatuba, destaca-se a vitória
8
A avaliação dessas regiões de governo no contexto de suas respectivas regiões administrativas baseou-se na
análise desenvolvida sobre os municípios paulistas em Siqueira (2003).
9
São os municípios de Cubatão, Guarujá, Praia Grande e São Vicente.
10
Municípios de Cabreúva, Campo Limpo Paulista, Itupeva e Várzea Paulista.
11
Municípios de Americana, Artur Nogueira, Cosmópolis, Engenheiro Coelho, Estiva Gerbi, Hortolândia,
Indaiatuba, Mogi-Guaçu, Monte-Mor, Nova Odessa, Paulínia, Santa Bárbara e Sumaré.
11
petista na sub-região de Andradina, onde Lula não teve maioria dos votos na sede da região,
mas a alcançou nos pequenos municípios e em alguns com população entre 15 mil e 30 mil
habitantes12.
Por sua vez, a sub-região de Cruzeiro, que compõem a região administrativa de São
José dos Campos, registrou uma melhor performance do candidato do PT na sede regional e
em alguns dos municípios de pequeno porte da região13.
Com isso, é possível observar que também na escala das regiões de governo, ou subregional, não se verifica uma correlação, negativa ou positiva, entre as variáveis que permita
afirmar que, em determinados contextos regionais, áreas mais ou menos dinâmicas
econômica e demograficamente tendem a votar num ou noutro candidato – o que nos leva a
considerar que a hipótese inicial deste estudo não é adequada à realidade intra-estadual
paulista.
Diante disso, considerando o contexto estadual de predomínio quase unânime da
vitória do PSDB nas regiões paulistas, os casos de vitória do PT em determinadas subregiões, diversificadas entre si, tanto em termos econômicos e demográficos, quanto em
termos de desempenho eleitoral, nos conduz numa direção que possa se constituir no caminho
mais adequado para aprofundarmos a reflexão sobre a relação entre dinâmica demográfica e
comportamento eleitoral.
Assim, considerando o estudo de Lamounier (1978) sobre o comportamento eleitoral
do município de Presidente Prudente, nas eleições municipais de 1976, o autor destaca a
influência do contexto sócio-econômico na conformação do perfil político local. Ele enfatiza
que o “arenismo”14 identificado nas eleições de 1976, no município em estudo, estava
relacionado aos “fortes efeitos políticos de uma estrutura econômica local pouco
diversificada”15, distinguindo-se como pólo regional no setor de comércio e serviços16.
Nesse sentido, o autor afirma que:
“(...) numa estrutura desse tipo, as oportunidades de emprego dependerão
freqüentemente de favores e lealdades pessoais: uma teia de relações
propícia ao que se poderia chamar de neocoronelismo urbano. Será, de
qualquer modo, uma estrutura pouco receptiva ao apelo oposicionista, nos
termos da disputa partidária que hoje se trava no Brasil.” (Lamounier apud
Kinzo, 1992:51)
Com isso, nota-se que o autor relaciona a estrutura econômica e de emprego da
população de Presidente Prudente ao seu perfil político-eleitoral, evidenciando a influência
exercida pelo primeiro na conformação do segundo.
Por sua vez, Kinzo (1992) dá continuidade aos estudos de Lamounier (1978), focando
sua análise nas eleições presidenciais de 1989, em Presidente Prudente. Confrontando o
resultado eleitoral de 1989 com dados da PEA de 1970 e do Censo de 1980 sobre a estrutura
econômica e de emprego, a autora conclui que há uma continuidade política no município,
caracterizada por seu conservadorismo político-eleitoral.
Numa avaliação geral, essa influência exercida pela estrutura econômica e de emprego
sobre o perfil político e eleitoral da população, destacada pelos dois estudos, constitui, a
nosso ver, a influência da própria dinâmica demográfica e econômica
sobre o
comportamento político-eleitoral, num determinado espaço e contexto – o que vem de
12
São os municípios de Ilha Solteira, Castilho, Guaraçaí, Sud Menucci, Lavínia, Itapura, Suzanápolis e Nova
Independência.
13
São os municípios de Queluz, Arapeí e Areias.
14
O candidato a prefeito da Arena, em 1976, obteve 78% dos votos (Kinzo, 1992:52).
15
Kinzo, 1992:51.
16
Autor destaca que 59% da PEA estava alocada neste setor, em 1970 (Kinzo, 1992:51).
12
encontro com objetivo deste estudo, que é explorar as potencialidades da relação entre
distribuição espacial da população e comportamento eleitoral.
Porém, considerados dessa perspectiva, e não diminuindo a importância desses
estudos, essas análises baseiam-se em dados insuficientes para sustentar o argumento da
influência da estrutura econômica e ocupacional sobre o comportamento eleitoral: como são
estudos baseados em surveys sobre identidade partidária e intenção de voto, a caracterização
socioeconômica e demográfica do município foi feita a partir de dados gerais, entrando mais
como um pano-de-fundo do estudo do que como uma variável explicativa.
Para complementar essa discussão, devido à existência de estudos prévios sobre o
comportamento político-eleitoral em Presidente Prudente, levantou-se os resultados das
eleições presidenciais de 2002 e 2006, nas quais o candidato do PT foi eleito, para contrastar
com o pleito de 1989:
Tabela 11: Resultados das eleições presidenciais de 1989, 2002 e 2006 (2o. Turno)
Município de Presidente Prudente e Estado de São Paulo (%)
Presidente Prudente
Estado de São Paulo
1989
Collor (PRN) Lula (PT)
65,7
34,3
58,0
42,0
2002
Serra (PSDB)
45,9
44,6
2006
Lula (PT) Alckmin (PSDB) Lula (PT)
54,1
53,6
46,4
55,4
51,8
48,2
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (2002; 2006); Kinzo, 1992: 50 (1989)
Em comparação com as eleições de 198917, baseado em Lamounier (1978), pode-se
afirmar que os resultados das eleições de 2002 apontam para uma maior abertura ao
“oposicionismo” no município de Presidente Prudente18, uma vez que o desempenho eleitoral
do candidato petista passou de 34,3%, em 1989, para 54,1%, em 2002, revertendo o nível de
adesão ao candidato de “esquerda” no município19.
Já em 2006, verifica-se uma redução, em comparação com o pleito anterior, na
adesão ao candidato de “esquerda”, embora fosse Lula o candidato situacionista, porem,
continua sendo uma adesão relativamente alta, quando comparado com os resultados de 1989.
Como explicar essa mudança, ao longo do tempo, na adesão a um candidato de
“esquerda”, no município de Presidente Prudente? Poderia se supor, de acordo com
Lamounier (1978) e Kinzo (1992), uma mudança significativa na estrutura socioeconômica e
ocupacional no município que pudesse fornecer subsídios para explicar essa mudança no
comportamento eleitoral da população?
No estudo sobre as eleições de 1989, Kinzo (1992) concluiu que o comportamento
eleitoral em Presidente Prudente não estava relacionado tanto com determinantes socioeconômicos, mas sim com fatores de ordem político-ideológica. Porem, não se poderia
questionar, em que medida, a dinâmica socioeconômica e demográfica contribui para a
configuração político-ideológica de uma determinada localidade?
17
Como já foi destacado em outra parte deste trabalho, faz-se imprescindível considerar os debates dentro da
Ciência Política sobre comportamento eleitoral, identidade partidária, organizações políticas locais, entre outros
temas, para, posteriormente, se aprofundar o diálogo entre Ciência Política e Demografia – o que seria
impossível faze-lo aqui devido aos limites deste primeiro estudo.
18
Seria necessário considerar as eleições presidenciais de 1994 e 1998 para se avaliar, de forma mais completa,
se houve, de fato, um processo de abertura ao oposicionismo no município e como ele desdobrou-se no tempo.
Além disso, para complementar essa avaliação seria necessária a consideração de outros pleitos, estaduais e
municipais. Porém, para os nossos propósitos, aqui, consideraremos apenas as duas últimas eleições
presidenciais.
19
A mesma tendência se verifica em nível estadual.
13
Diante disso, poderia se colocar que a perspectiva analítica da identidade partidária
como fator explicativo da escolha eleitoral seria o suficiente para responder a essas questões e
deixar o debate sobre comportamento eleitoral no âmbito da ciência política. Porem, o que se
pretende aqui é justamente uma interface entre a demografia e a ciência política, através da
exploração das potencialidades existentes na relação entre distribuição espacial da população
e comportamento eleitoral.
Argumenta-se que essa interface é possível até mesmo no debate sobre a formação da
identidade partidária. Pois, considerando-se que a identidade partidária (ou preferência
partidária)20 é formada, de um lado, por um elemento psicossociológico, relacionado com o
processo de socialização dos indivíduos, e, de outro lado, por um elemento histórico-político,
relacionado com a experiência acumulada como eleitor ao longo da vida adulta, há uma
dimensão dessa identidade passível de ser analisada numa interface com a demografia.
Assim, mesmo diante das possíveis “reflexividades”21 dos atores políticos nos
contextos eleitorais – que poderia dificultar a identificação de um padrão de comportamento
político-eleitoral – , conhecer a composição da população de uma determinada localidade,
como se inserem na estrutura ocupacional, quem são os migrantes, de onde vieram, em que
contexto eles chegaram na localidade, como se inserem na estrutura econômica, que espaços
ocupam na estrutura urbana, poderia nos fornecer subsídios para analisar a dimensão
psicossociológica da preferência partidária, a partir da qual poder-se-ia inferir algo sobre a
dimensão histórico-política e, então, chegar a avaliações substantivas sobre o comportamento
eleitoral determinado.
A discussão desenvolvida até aqui, a partir dos trabalhos de Lamounier (1978) e
Kinzo (1992), mostra que é insuficiente basear a análise do comportamento eleitoral somente
em dados gerais sobre o perfil econômico e ocupacional e em indicadores demográficos
gerais da população, na localidade em estudo. Eles fornecem um panorama, uma visão
superficial do fenômeno, mas não dão conta de responder a questões mais substantivas
relacionados ao comportamento político-eleitoral da população.
Diante disso, faz-se necessário o aprofundamento da análise, a partir da realização de
estudos de escopo mais reduzido, como, por exemplo, ao nível de distritos eleitorais e/ou
setores censitários, utilizando dados sobre a dinâmica socioeconômica e demográfica mais
desagregados, numa perspectiva histórica. Além disso, esse tipo de estudo deverá contar
coma realização de estudos de caso, com a realização de surveys e de entrevistas qualitativas.
Encerraremos essa seção retomando as considerações de Pierucci (1989) a respeito da
localização do voto. No estudo sobre as bases sociais da direita política na cidade de São
Paulo, o autor destaca que a localização geográfica do voto remete a discussão sobre o
comportamento eleitoral para a história política e para a conformação cultural dos espaços
considerados.
A mesma colocação sobre a localização do voto pode ser feita para os casos
analisados aqui, ou seja, as regiões metropolitanas, administrativas e de governo do estado de
São Paulo, complementando que, a história política e cultural está relacionada com o
processo de estruturação urbana desses espaços e com as formas que a população vem se
distribuindo sobre eles, ao longo do tempo.
Pois, uma vez que se tratam de espaços estruturados distintamente, sob a ação de
diferentes formas do desenvolvimento econômico e da distribuição espacial da população no
território paulista, ao longo do tempo, contribuindo para que os diferentes grupos sociais
20
Essas considerações sobre a formação da identidade partidária baseiam-se em Carreirão & Kinzo (1992).
De acordo com Giddens (1991), a reflexividade da vida social moderna “consiste no fato de que as práticas
sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas,
alterando assim constitutivamente seu caráter.” (Giddens, 1991:45)
21
14
usem e ocupem diferentemente o espaço urbano, o comportamento eleitoral apresentaria um
significado diferente para a população dos diferentes espaços.
Assim, a partir disso é que se pode apontar as diferenças entre as regiões
metropolitanas paulistas, por exemplo, quanto aos resultados eleitorais registrados em 2006.
O mesmo vale para as distintas regiões de governo que registraram votação majoritária do
candidato petista, no segundo turno do último pleito presidencial.
Com isso, acredita-se que se possa aprofundar e enriquecer a análise da relação entre
distribuição populacional do espaço e comportamento eleitoral, fazendo uso do recurso de
reconstituição histórica da ocupação dos espaços estudados, visando captar o quanto e como
isso contribuiu para a conformação política e cultural de sua população.
Algumas considerações
Por se tratar de um estudo ainda bastante incipiente, as considerações colocadas aqui
se revestem de um caráter ainda provisório, apontando mais para os caminhos e agendas de
pesquisas posteriores do que para conclusões definitivas.
Assim, considerando-se que a elaboração deste texto teve como objetivo explorar as
potencialidades do diálogo entre Demografia e Ciência Política, mais especificamente, de
uma interface entre distribuição espacial da população e comportamento eleitoral, destaca-se
que o exercício desenvolvido anteriormente, mais do que apresentar resultados definitivos,
contribuiu para apontar as questões a serem desenvolvidas em estudos posteriores.
Nesse sentido, destaca-se, primeiramente, a necessidade de adotar uma perspectiva
teórico-metodológica que contemple as dimensões do estudo, o que, por sua vez, baseia-se no
aprofundamento teórico dos dois campos disciplinares: a distribuição espacial da população e
o comportamento eleitoral.
Em termos operacionais, em estudos posteriores, torna-se necessário, por um lado,
especificar o tipo de dado populacional mais propício para se trabalhar conjuntamente com o
comportamento eleitoral e, por outro, definir escalas espaciais menores e recortes temporais
que incluam um número maior de pleitos eleitorais.
Com isso, considera-se que o diálogo entre a Demografia e a Ciência Política, nos
moldes propostos aqui, ainda precisa percorrer um importante caminho para poder se avaliar
a sua potencialidade. Embora ainda inexplorado pela demografia do país, trata-se de um
campo de análise que se revelou, no decorrer deste texto, bastante intrigante e desafiador,
principalmente em termos teórico-metodológicos, o que, por si só, justifica a concentração de
esforços para a sua exploração.
15
BIBLIOGRAFIA
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