A LITERATURA NA CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA. Patrícia Rachel Pisani Manzoli - mestranda em Serviço Social pela UnespFranca. [email protected] Esta pesquisa enfoca o papel da Literatura na construção da Cidadania e da Responsabilidade Social Empresarial através do estudo de caso do Projeto Amigos da Estrada. Projeto permanente de Educação para o trânsito desenvolvido pela Fundação Palavra Mágica (uma entidade sem fins lucrativos) patrocinado por Autovias S/A (empresa que faz parte do Programa de Concessões Rodoviárias do Governo do Estado de São Paulo. O Projeto Amigos da Estrada já distribuiu gratuitamente mais de 77.000 livros infantis para alunos de 2ª, 3ª e 4ª séries do Ensino Fundamental, estimulando-os a conhecer o trânsito e a desenvolver noções de ética e cidadania. Desde sua criação, em 2001, o programa já beneficiou 62.000 crianças e educadores, que participam, a cada ano, de ações educativas nas escolas e nas comunidades. Seminário do 16º COLE vinculado: 1 X Educação de Jovens e Adultos A Literatura na Construção da Cidadania Fomentar a leitura enquanto estratégia de desenvolvimento da cidadania e transformação da sociedade é a missão divulgada pela Fundação Palavra Mágica; uma entidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, que tem por finalidade principal acreditar na leitura como um caminho seguro que conduz as pessoas para uma postura mais participativa, criativa e consciente. Um caminho que permite aos envolvidos em seus projetos descobrir novos horizontes, expressar novas idéias e sentimentos para que sejam capazes de transformar positivamente o mundo à sua volta e exercer com dignidade os direitos e deveres de cidadãos. Por isso o presente artigo trata de um dos projetos, elaborado e desenvolvido por esta instituição em parceria com a Autovias S/A, concessionária que faz parte do Programa de Concessões Rodoviárias do Governo do Estado de São Paulo. O Projeto em questão, intitulado Amigos da Estrada, é um programa de educação para o trânsito que trabalha com uma criativa combinação de recursos pedagógicos que vão desde livros de literatura infantil, jogos educativos e palestras, até gincanas e atividades organizadas pelas próprias crianças, sempre com o intuito de disseminar as práticas de leitura como estratégia para a formação de jovens leitores críticos,l capazes de adquirirem mais do que a alfabetização o alcance da competência leitora. Pesquisas recentes mostram que os jovens brasileiros ocupam as últimas posições quando comparados aos de outros 32 países que se submeteram a uma avaliação de sua capacidade de compreensão de textos escritos e sua aplicabilidade no cotidiano. Dados divulgados em setembro de 2003 pelo Instituto Paulo Montenegro, do Ibope, mostram que apenas 26% dos brasileiros com mais de 15 anos de idade têm domínio pleno das habilidades de leitura e escrita. Ou seja: somente um em cada quatro jovens e adultos brasileiros consegue compreender totalmente as informações contidas em um texto e relacioná-las com outros dados. O principal responsável por esse quadro desolador e preocupante - mesmo porque, entre outras conseqüências danosas ao desenvolvimento do ser humano e do cidadão, coloca os jovens brasileiros em condições absolutamente desiguais e desfavoráveis em relação aos demais - é justamente os baixos índices de leitura da população brasileira, sobretudo entre os adolescentes. A leitura, segundo os mais diversos estudos de especialistas, é o grande veículo para o desenvolvimento do conhecimento do ser humano e dele próprio. O livro leva o leitor à reflexão e desperta a percepção mais intensa do tema, promovendo a absorção do seu conteúdo e, mais ainda, o processamento das informações recebidas e o desenvolvimento intelectual. Segundo Ezequiel Theodoro da Silva, ”...as práticas de leitura não nascem do acaso nem do autoritarismo (...), mas sim de uma outra programação envolvente e devidamente planejada, que incorpore, no seu projeto de execução, as necessidades, as inquietações e os desejos de alunos- leitores. Simplesmente 'mandar o aluno ler' é bem diferente de envolvê-lo significativa e democraticamente nas situações de leitura, a partir de temas culminantes”1. Ao mesmo tempo em que estimula o gosto e o hábito da leitura, a linguagem dinâmica e agradável de um bom livro é um convite irresistível para o jovem e a criança mergulharem a fundo nos temas da atualidade. Com prazer e alegria, com doçura e responsabilidade. Por isso, a leitura tem papel fundamental no desenvolvimento da cidadania. Os baixos índices de leitura não só influem negativamente no desenvolvimento pessoal e profissional das pessoas como também, e até por isso, contribuem decisivamente para ampliar o gigantesco fosso social existente em países como o Brasil, promovendo mais exclusão social e menos cidadania. Afinal, o exercício pleno da cidadania requer algumas condições básicas. E, em geral, pessoas que sequer conseguem dominar plenamente as habilidades da leitura e da escrita, com dificuldades de acesso às informações e para compreendê-las e interpretá-las, muito provavelmente também não terão como fazer valer seus mais elementares direitos de cidadão. A capacidade de se comunicar e interagir, por exemplo, é uma condição básica para assegurar a diversidade cultural de um povo. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais “A formação de um leitor passa pelo aprendizado de reconhecer as sutilezas, particularidades, os sentidos, a extensão e a profundidade das construções da literatura”2 Fomentar este processo requer sensibilidade para tratar a literatura como arte que envolve, que emociona, transforma, que promove a vida. Segundo Todorov, “A ficção é um gênero literário que permite uma relação mais solta com o mundo. A narrativa ficcional não se preocupa em exprimir verdades, existe uma liberdade na produção deste gênero. A literatura é uma 1 2 SILVA, Theodoro Ezequiel da. In: A leitura no Contexto Escolar. Série Idéias n.5. São Paulo: FDE, 1988. Parâmetros Curriculares Nacionais – vol. 2 – Língua Portuguesa linguagem corrente, não é um discurso verdadeiro ou falso, não está preocupada com a verdade descritiva. É uma linguagem que em si mesma não representa qualquer verdade apesar de fornecer o meio de exprimir um número ilimitado de verdades. Desta forma o texto literário não entra em uma relação referencial como o fazem freqüentemente as frases do nosso discurso cotidiano”3 Por isso, este artigo vem demonstrar a relevância de um projeto educacional que mesmo tendo como tema central, a educação para o trânsito, escolheu como eixo norteador e estratégia pedagógica, o desenvolvimento da cidadania través da leitura de livros paradidáticos e não necessariamente a produção de cartilhas educativas ou folders explicativos como o fazem muitos dos programas educativos, principalmente envolvendo o tema trânsito que requer a inserção de uma série de regras pertencentes a este contexto. São distribuídos gratuitamente livros de literatura sobre o trânsito urbano (Uma Cidade Super Legal, de Gerson Teixeira e Semíramis Paterno,) e sobre trânsito rodoviário (Uma Viagem Inesquecível, de Galeno Amorim e Semíramis Paterno). Os professores envolvidos participaram de workshops e outros cursos para otimizar o uso do material. Nas aulas, estimulam os alunos a refletir e manifestar suas próprias visões sobre a questão através de redações, maquetes, estatísticas, teatro e música. Além do material paradidático baseado nos chamados Temas Transversais propostos pelo Ministério da Educação, o Projeto também oferece ciclo de palestras dos escritores nas escolas.. Com caráter permanente, o projeto, patrocinado no momento pela Autovias, também é modelo de parceria bem sucedida entre Poder Público, Iniciativa Privada e Terceiro Setor, resultando num bom exemplo de responsabilidade social. A FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo lançou em novembro de 2003 os resultados da pesquisa Responsabilidade Social Empresarial: Panorama e Perspectiva na Indústria Paulista. Segundo a pesquisa, a área de atuação mais comum entre as indústrias de todos os portes é a educação infantil (incluído aí o apoio a creches existentes na comunidade), apontada por praticamente metade das empresas pesquisadas que desenvolvem ações de caráter social. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), incluído no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), é calculado com base nos dados da Prova Brasil realizada em escolas da rede pública que tenham pelo menos 20 alunos matriculados em cada uma das turmas de quarta e de oitava série do ensino fundamental. O Brasil tem hoje uma nota média de quatro pontos, numa escala de zero a dez para o Ideb, o que revela os baixos índices na qualidade de ensino no país. Não é por acaso que os projetos educacionais representam 40% da atuação social das empresas no Brasil segundo uma das últimas pesquisas, realizada em 1999 pelo Centro de Estudos em Administração do Terceiro Setor, da Universidade de São Paulo. 3 TODOROV, Tzvctan: Introdução à Literatura Fantástica, teoria da literatura. Série Debates. Editora Perspectiva. São Paulo. 1992 O Projeto Amigos da Estrada é considerado um programa de Educação para o Trânsito modelo no Brasil e traduz a missão da Autovias de promover mais qualidade de vida, segurança e ética nas rodovias. Desde sua criação, em 2001, o programa já beneficiou 62.000 crianças e educadores, que participam, a cada ano, de ações educativas nas escolas e nas comunidades. Os professores participam de workshops, ministrados por especialistas, sobre como utilizar os livros paradidáticos em sala de aula e sobre como trabalhar, a partir da literatura, todas as possibilidades de aprendizado em educação para o trânsito e para a cidadania que o programa oferece. O objetivo é incentivar os educadores a desenvolverem formas de abordar o tema Trânsito em todas as disciplinas: Português, Matemática, Educação Artística, Geografia, História, Ciências, entre outras.Os professores são os mais importantes aliados do programa e merecem toda a atenção, por isso, depois de um período de trabalho com a literatura, recebem apoio de consultores para implantação e desenvolvimento do Projeto. O programa também foi criado para contribuir com a redução dos índices de acidentes e promover a aproximação da escola com a comunidade onde a concessionária está inserida. A ação é desenvolvida nas cidades de Batatais, Brodowski, Franca, Cravinhos, Luís Antônio, Santa Rosa de Viterbo e São Simão Este é um dos pontos principais e de grande resultado do projeto. O seu alcance nas comunidades lindeiras, provocando uma mudança significativa no comportamento de adultos através do exemplo das próprias crianças. Como o projeto tem como foco atingir não apenas os alunos de Ensino Fundamental, mas fazer destes alunos fios condutores da mensagem de ética e cidadania, de respeito à vida a condutores e pedestres de sua família e comunidade ao seu alcance. Por isso a criança leva o livro para casa e vivencia juntamente aos seus não apenas a leitura, mas compartilha a interpretação do quê leu através do momento de produção de atividades relacionadas á leitura, como maquetes, desenhos, gincanas etc. A Literatura dentro do projeto Amigos da Estrada pode ser encarada como uma missão que une distintas gerações em prol da formação de uma consciência cidadã para o trânsito e para o despertar da leitura em família. “A escrita literária deve traduzir no seu âmago mais um anseio de mudança do que mecanismos de permanência!”.4 4 Introdução do Livro de Nicolau Sevecenko : Literatura como missão. Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. Ed. Perspectiva. São Paulo. 1992.