O beijo e Santa: devoção e sociabilidade
nas Minas do século XVIII
Ms. Meynardo Rocha de Carvalho
Universidade Federal do Rio de Janeiro
No século XVIII mineiro era costume comum à véspera do dia de Santa Cruz,
comemorado a cada três de maio, reunirem-se os membros das famílias mais devotas para enfeitar as suas cruzes. Rito que consistia em adornar, com flores e fitas,
pequenas cruzes de madeira para serem afixadas geralmente na porta de entrada
dos domicílios ou na parede da frente da casa. Segundo essa tradição, na mesma
noite do dia dois para o dia três, Nossa Senhora passava beijando cada uma das
cruzinhas enfeitadas e, dessa forma, dispensava as mercês necessárias a cada uma
das zelosas famílias.
Esse costume mineiro, ainda observado nos dias atuais, reflete o encontro de
duas devoções fundamentais ao cotidiano colonial: a devoção à cruz e a devoção à
Nossa Senhora. Ambas promovidas pelo Estado português como elementos de homogeneização e identificação do Império e, ao mesmo tempo, vivenciadas pelos
colonos de acordo com as possibilidades culturais fomentadas pela colonização.
Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
FERREIRA, Marieta de Moraes, AMADO, Janaína (org.). Usos e abusos da História Oral.
Rio de Janeiro: FGV Editora, 2005. p. 151. De uma maneira geral, refiro-me aqui ao capítulo
11: Tradição oral e História Oral: revendo algumas questões. De Julie Cruikshank. p. 149164. Para estudos elaborados sobre textos folclóricos dos séculos XVIII e XIX, citados pela
autora, a tradição oral é identificada com esperanças nacionalistas de se reconstituir uma
herança cultural perdida ou em processo de desaparecimento. Por outro lado, pôde servir de
instrumento ao Estado para ampliar os controles tanto políticos, quanto administrativos. Visão da qual compartilho e que se encontrará mais bem desenvolvida pelo texto, no entanto,
substituindo a tradição oral, que nos remete ao objeto, pela idéia de devoção, que dinamiza
e dá vida ao processo em si.
Segundo a tradição oral das Minas Gerais. Refiro-me nesse caso ao Bispado de Mariana,
mais especificamente a região de Ouro Preto e Mariana, bem como São João Del Rei e Tiradentes, onde a devoção à cruz enfeitada pode ser observada. Trata-se de uma pesquisa em
sua fase inicial.
1104 - Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano
Cruz enfeitada – Tiradentes/MG – set. 2005
De acordo com Alfredo Bosi, “a produção dos meios de vida e as relações de
poder, a esfera econômica e a esfera política, reproduzem-se e potenciam-se toda
vez que se põe em marcha um ciclo de colonização. Como se fossem verdadeiros
universais das sociedades humana”. Logo, no sentido político, a metrópole exercia, dentro das possibilidades, uma relação de jugo sobre os territórios conquistados permeada pelo sentido de dominação como ação transitória a um estágio social superior. Possibilidade somente alcançável a partir da intervenção de um
agente sócio-político com capacidade de promover a civilização, que no caso português, baseou-se na implantação da religião católica. Daí a reprodução das relações culturais, econômicas e de poder permeadas pelo modelo político e religioso
do Estado serem responsáveis pela criação de um novo tempo, a ser contado a
partir da presença do colonizador e sob o prisma de seus valores.
Para Portugal, a cruz foi o principal estandarte no processo de colonização por
ser considerada, dentro da cultura católica, como um elemento por excelência
transformador e, conseqüentemente, o principal símbolo de mudanças nos territórios conquistados, que a partir da presença da Santa Cruz e pelas mãos dos portugueses, saíam do desconhecimento e eram consagrados à Majestade Divina. Permitindo que os “os monarcas portugueses primeiro atendessem à fé do que as
BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. p. 12.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 34.
VARAZZE, Jácopo de. Legenda Áurea: vidas de santos. São Paulo: Cia. das Letras, 2003. p. 767.
CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José
Olympio Editora, 1993. p. 309 e 310. “a tradição cristã enriqueceu prodigiosamente o simbolismo da cruz , e condensou nela a história da salvação e paixão do Salvador”.
Meynardo Rocha de Carvalho - 1105
conquistas, e primeiro pelejassem pela causa de Deus que pela sua própria” sem,
no entanto, deixarem de congregar a relação econômica com a religiosa. Já que, “o
sistema colonial, efetivamente, constituiu-se no componente básico da época mercantilista, o elo que permitiu estabelecer as mediações essenciais entre os diversos
níveis da realidade histórica”. Ao retomar a compreensão desse elo metrópolecolônia, Serge Gruzinski chama a atenção para o processo de circulação cultural
presente nesse processo, fomentado a partir da monarquia-católica. Terminologia
ampla ao congregar política e religião de forma integrada e perceber uma interação
cultural entre metrópole e colônia, de forma mútua e igualitária, sem as peias geradas pelo entendimento bipolar e estático10.
Assim, o modelo religioso promovido pelo Estado português tornou-se fundamental à tessitura do império à medida que promovia a transição social anexando,
concomitantemente, territórios e almas11. Porém ao fazê-lo, atuava muito mais
como gênese de um processo do que propriamente responsável pelo seu fim, visto
que as acepções católicas assumiriam nuanças próprias em cada uma das vastas
regiões do Império. A própria idéia de ordenação político-social vinculava-se à
dimensão providencial e messiânica da religião, permitindo ao Império, nos momentos de maior necessidade, assegurar a unidade que lhe era tão cara, pois que
era forjada sobre tantas diferenças.
Segundo João Francisco Marques, após o processo de Restauração, concluído
em 1640, a própria condição de liberdade experimentada por Portugal foi percebida como mercê divina, gerando a partir de então, uma onda de cultos à Virgem,
aos santos e celebrações eucarísticas. Sendo assim, as múltiplas referências aos
santos como intercessores em prol do Império português, inseriam-se na relação
constante de cultos e práticas devotas que permitiam trazer o discurso hagiográfico
para o âmbito do cotidiano12. No qual o culto mariano sobrepôs-se a outros como
Sermão hystórico panegyrico da Conceição de Nossa Senhora, padroeyra do Reyno de
Portugal. Pregado na Cappela real a 8 de dezembro de 1709 por D. Joseph Barbosa; offerecido ao ilustríssimo e reverendíssimo senhor Nuno da Cunha Attaíde. Bispo da Inquisição
Geral, capellão mor de Sua Majestade, do seu conselho de estado e de seu despacho. Lisboa, na officina Real Valentim da Costa Deslandes. MDCCX, fls 204 a 226.
NOVAIS, Fernando A. Portugal e o Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808).
São Paulo: Hucitec, 1989. p. 57.
10
GRUZINSKI, Serge. Os mundos misturados da monarquia católica e outras connected histories.
Revista Topoi, nº 2. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001. pp. 175-195. “a monorquia-católica cobre um
espaço que reúne vários continentes; aproxima ou conecta várias formas de governo, confronta, de
maneira às vezes bastante brutal, tradições religiosas totalmente distintas.” p. 180.
11
RAMINELLI, Ronald. Império da fé: ensaio sobre os portugueses no Congo, Brasil e Japão.
In: FRAGOSO, João, BICALHO, Maria Fernanda, GOUVÊA, Maria de Fátima. (orgs.). O Antigo Regime nos trópicos. A dinâmica imperial portuguesa. Sécs. XVI – XVIII. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2001. pp. 227-247.
12
Decretos e determinações do Sagrado Concílio Tridentino. A invocação, a veneração e
as relíquias dos santos, e as sagradas imagens. Coimbra: per Joam de Barreira, aos quatro de
dezembro de MDLXIIII. Pp. 29-33.
1106 - Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano
agregador dentro da diversidade estrutural do Império e, conseqüentemente, gerador de uma inclusão religiosa-patriótica13.
Se por um lado a presença da Santa Cruz identificava a possessão portuguesa
refletindo a extensão de um Estado católico, por outro a devoção à Nossa Senhora
fortalecia essa conquista à medida que vinculava as interações entre a diversidade
das gentes e a unidade do Império. Adquirindo assim, a capacidade de fragmentar
as variadas crenças presentes nos domínios portugueses e, ao mesmo tempo, promover a “homogeneização possível” a partir das diretrizes católicas14.
Em Minas Gerais, por ocasião da fundação do Bispado de Mariana15, a devoção a Nossa Senhora já era algo corrente e refletia a mariologia como um dos aspectos mais identificadores da colonização portuguesa, já que a santa povoava o
imaginário, os sermões, as preces, além de ser a titular de variadas igrejas e capelas
na colônia. Nossa Senhora também era tida como a madrinha de muitos neófitos e
protetora dos homens que embrenhavam pelos sertões do Brasil em busca das descobertas que justificavam a colonização16.
Nossa Senhora da Assunção com brasão e bandeiras do Império. (Séc. XVIII – pintura de Manoel Rabello de Sousa) - Forro da Sé de Mariana – MG.*
MARQUES, João Francisco. A tutela do sagrado: a proteção sobrenatural dos santos padroeiros no período da Restauração. In: BETHENCOURT, Francisco e CURTO, Diogo Ramada.
Memória da nação. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1987. p. 268.
14
SOUZA, Juliana Beatriz Almeida de. Senhora dos Sete Mares. Virgem Maria no ultramar
português. Tese de doutorado. Niterói: Departamento de História da Universidade Federal
Fluminense, 2002. p. 50.
15
A Arquidiocese de Mariana foi criada por Bento XIV através da Bula Candor Aeternae, de 06
de dezembro de 1745, e efetivamente instalada a 27 de fevereiro de 1748. TRINDADE, Raimundo (Côn.). Instituições e igrejas no Bispado de Mariana. Rio de Janeiro: MÊS/SPHAN, 1945.
16
MOTT, Luiz. Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu. In: NOVAIS, Fernando e SOUZA, Laura de Mello e (orgs.). História da Vida Privada no Brasil. Vol. 01. São
Paulo: Cia. das Letras, 1997. p. 185.
13
* Conforme processo de tombamento do Iphan nº 0075-T-38.
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Com a normatização sócio-religiosa fomentada pelo Bispado sobre os mineiros, criou-se a possibilidade de revisão de algumas práticas devocionais consideradas equivocadas, ao mesmo tempo em que se promovia oficialmente o exercício
de um catolicismo barroco. Este, ao agir de acordo com os Decretos do Sagrado
Concílio Tridentino, fazia tanto bem à Igreja, quanto ao Império, porque a ambos
fortalecia17. Na concepção de Maravall, o barroco é um conjunto de meios culturais e de tipos muito variados, reunidos e articulados para operar adequadamente
com os homens, a fim de prática e satisfatoriamente, conduzi-los e mantê-los integrados no sistema social18. O termo aqui tem a função de dar conta de um processo de inclusão que transcende em muito o aspecto estético por ele demarcado. O
sentido de barroco que interessa a esse trabalho articula-se entre um espaço geográfico-temporal determinado e demonstra-se também na política, na economia e
na situação social, vinculando-se às práticas sociais19 a partir de uma ideologia
homogeneizadora das mentes e comportamentos. Logo, ao buscar penetrar as
consciências e funcionar como controle psicológico, o barroco articulou as diversidades componentes do Império português e fomentou o paradigma de autoridade
e de pertencimento necessários à extensão do Estado absoluto.
A monarquia portuguesa ao congregar-se com a religião católica, utilizou-a
como instrumento privilegiado para inserção dos indivíduos na dinâmica da sociedade colonial através de uma variada gama de devoções, o que permitiu a aproximação entre as diretrizes estatais e a variedade cultural da população, gerando
uma religiosidade mestiça e imbricada, que ao mesmo tempo, era propícia à inserção na dinâmica social do período20.
Foi a partir desses encontros coloniais que, a mesma cruz que representava21 a
presença do Estado, nas Minas do XVIII também estava diretamente vinculada a
devoções extra-oficiais, como a defesa dos perigos das doenças, dos conflitos familiares e dos malfeitores comuns na região do ouro. Daí a sua colocação em porteiras, currais, galinheiros, nas portas das casas, nas beiras das estradas, nas pontes
MARAVALL, José Antonio. A cultura do barroco. Análise de uma estrutura histórica. São Paulo: EdUSP, 1997. De acordo com esse autor, o barroco é um conjunto de meios culturais e de
tipos muito variados, reunidos e articulados para operar adequadamente com os homens, a fim
de prática e satisfatoriamente, conduzi-los e mantê-los integrados no sistema social .p. 120.
18
Ibidem.
19
CHARTIER, Roger. Textos, impressões e leituras. In: HUNT, Lynn. A nova história cultural.
São Paulo: Martins Fontes, 2001. pp. 211-239.
20
GRUZINSKI, Serge. O pensamento mestiço. São Paulo: Cia. das Letras, 2001. p. 62. O
termo mestiçagem se propõe a designar as misturas que ocorreram em solo americano no
século XVI entre seres humanos, imaginários e formas de vida, vindos de quatro continentes,
América, Europa, África e Ásia. Portanto, trata-se de um conceito que surge com o objetivo
de compreender o múltiplo e o imbricado, situações baseadas na possibilidade dos encontros postos em ação a partir da Idade Moderna européia. Embora a análise de Gruzinski
esteja focada para a realidade mexicana, o processo de mestiçagem é análogo em todas as
áreas coloniais do Novo Mundo e, por isso, nesse trabalho é tomado por empréstimo.
21
GINZBURG, Carlo. Olhos de Madeira. Nove reflexões sobre a distância. São Paulo: Cia.
das Letras, 2001. p. 85.
17
1108 - Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano
etc; de forma que os maus espíritos e assombrações que teimavam em insuflar brigas e confusões na região do garimpo, fossem afastados.
Cruz na Ponte do Rosário – final do séc.
XVIII – São João Del
Rei – MG
Segundo Dom Frei Manuel da Cruz, primeiro bispo de Mariana,
a Capitania estava incendiada pela ganância e pela busca do metal mais precioso, então aqui farto e fácil. O território desta região aurífera, não inferiorizado a outros na multidão de habitantes e adventícios (...) atrai os mineiros
para a extração do ouro (...). Daí , vários iludidos e apegados aos vícios são
dominados pela ganância do ouro. Nem digas que alguns eclesiásticos ficam
imunes de se queimar nessa desonra (...). Então encontrarás muito de seus
vizinhos iludidos e apegados a atitude de ambição, vaidade, soberba e aos
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perigosos prazeres da carne. Impelida certamente a estes hábitos pela abominável cobiça do ouro (...)22.
Nesse contexto de inseguranças, “a Bela, a Vera, a Sacratíssima Cruz e o Filho
de Deus eram fonte de saúde, de perdão e graça aos fiéis do catolicismo barroco”23.
A devoção era fortalecida com a festa de Santa Cruz e com as ladainhas que se faziam a ela, como por exemplo, as dos mil bagos de milho. Nessa, passando-os um a
um, de mão em mão, ao redor de uma mesa, os devotos diziam: “Jesus, Maria José,
minha alma Vossas é”24. Afirmativa que se complementava com a seguinte oração:
Arreda e afasta satanás,
Porque essas almas não são suas.
Ao dia da Santa Cruz
Direi mil vezes Jesus25.
Também era comum colocar cruzes nas pontes e cruzeiro no ponto mais alto
da cidade. Normalmente, o cruzeiro era decorado com os martírios do Cristo e as
cruzes das pontes, que também eram decoradas, tinham a função de espantar o
“sujo”26 que ao andar solto por aquela região da colônia – produto dos vícios da
sociedade mineradora – intuía as pessoas para que cometessem suicídios se jogando das “alturas” das pontes, além de outras sortes de atitudes promovidas pela ilusão diabólica gestada encontro de culturas.
Ainda sobre as pontes, cabe destacar a função de ligação desempenhada por
elas, permitindo que qualquer um indivíduo passasse de um lado a outro do território. À medida que elas fossem amparo para uma Santa Cruz, impediam que o diabo
também passasse, reduzindo assim o seu espaço de ação27.
Relatório do Episcopado de Mariana para a Sagrada Congregação do Concílio de Trento,
1757, Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, fls. 79-85.
23
CAMPOS, Adalgisa Arantes. “Quaresma e Tríduo Sacro nas Minas Setecentistas: Cultura
Material e Liturgia”. In: Revista Barroco. Belo Horizonte: Centro de Estudos Mineiros. nº 17,
1996. p. 209-218.
24
Tradições de Minas por Márcio Vinícius Horta. Disponível em: www.descubraminas.com.br
Acesso em 05 de setembro de 2003.
25
Ibidem.
26
Nomenclatura popular dada ao diabo, evitando dessa maneira pronunciar seu nome.
Aproveito aqui para registrar meus agradecimentos ao Sr. Abel André de Melo e a Dona
Efigênia Sacramento, que muito contribuíram para esse trabalho através das muitas histórias
que me contaram em Ouro Preto, em janeiro de 2006.
27
Para esse trabalho estou entendendo como Minas as pesquisas feitas nas cidades de São
João Del Rei, Tiradentes, Ouro Preto e Mariana. Portanto, essas tradições orais às quais estou me referindo fazem parte exclusivamente desses locais e, embora ocorrendo em outras
partes do Estado, não foram por mim pesquisadas.
22
1110 - Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano
Apesar da forte dinâmica agregada ao culto à Santa Cruz em Minas no XVIII, o costume de se enfeitar a cruz remete-se à própria Península Ibérica, mais especificamente ao
século XVI, quando se institucionalizou a perseguição aos judeus em Portugal.
De acordo com Olinto Rodrigues dos Santos Filho, essa tradição é proveniente da
tentativa de auto-afirmação vivenciada pelos cristãos-novos portugueses frente às investidas da Inquisição28. O cuidado familiar dispensado então na ornamentação de
uma pequena cruz de madeira, ao ser exposta na frente da casa, tinha por função demonstrar a efetiva conversão do grupo ali residente. E, conseqüentemente, também
servia de “bandeira de paz” frente às investigações do Santo Ofício e à demonstração
pública do exercício religioso dentro da “normalidade” do catolicismo estatal. Esse
costume que se estendeu à colônia com o processo colonizador, fortaleceu-se nas
Minas mediante o ambiente de vigilância e ordenação imposto pelo Estado a uma região fundamental à manutenção das rendas do Império. O que corrobora o sentido da
colonização: a anexação de territórios vinculada à anexação das gentes mineiras.
Sociabilidade religiosa
No Antigo Regime, o indivíduo ao nascer era inserido numa rede social e a
partir de tal condicionamento era levado a movimentar-se de acordo com as possibilidades de seu grupo. Era na interação com ele que o homem encontrava a condição de desenvolvimento das formas de sociabilidades que, embora móveis e variáveis, construíam-se a partir do modelo pré-estabelecido pelo Estado e
centralizado na figura do rei.
A partir do momento que não se concebe o homem fora dessa rede de interdependências, pressupõe-se um sistema social de ordens e valores fora do qual não
existe possibilidade de convívio ou pertencimento social.29 Ou seja, ao contrário
de uma rede no sentido literal, na sociedade de antanho, quanto mais o indivíduo
se envolvia na teia social, maior a possibilidade de movimento, qual seja, se fazer
representar no contexto através da existência social e da construção da identidade
individual, relativamente autônoma.
Nessa relação, o modelo religioso tanto direcionava os colonos enquanto
súditos do rei de Portugal, como da Majestade Divina. Paradigma que pleiteava
uma ordenação total, já que a vida resumia-se principalmente a essas duas instân-
Opinião colhida em quadro explicativo sobre a cruz enfeitada na Biblioteca e Casa de
Cultura de Tiradentes, em setembro de 2005. Olinto José dos Santos Filho é historiador e
pesquisador da 13ª SR Iphan – MG. Luiz Mott, no artigo Cotidiano e vivência religiosa: entre
a capela e o calundu, também aborda o costume de se colocar pequenas cruzes de madeira
nas portas das casas. Referindo-se ser um hábito resguardado pela tradição oral. In: NOVAIS,
Fernando (org.). História da vida privada no Brasil. Cotidiano e vida privada na América
Portuguesa. São Paulo: Cia. das Letras, 1997. p. 165.
29
ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Lisboa: Editorial Estampa, 1987. p. 41.
28
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cias: o reino da terra e o Reino dos Céus. Sendo que o alcance do último seria uma
conseqüência do comportamento cotidiano experimentado no primeiro. E qual
poderia também resvala-lo ao inferno de acordo com a ação do próprio homem.
A partir dessa proposição é possível compreender que a perspectiva religiosa
difere da perspectiva laica. Isso porque ela vai além da realidade da vida cotidiana,
conduzindo o indivíduo a uma compreensão mais ampla e complementadora do
seu dia-a-dia. Para a qual a fé e a devoção são elementos fundamentais. Já que “a
religião ajusta as ações humanas a uma ordem cósmica imaginada e projeta imagens de ordem cósmica no plano da experiência humana“.30
A religião pode ainda ser compreendida como um sistema de símbolos que
atua para estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos, de uma ordem de existência
geral e vestindo essas concepções com tal aura de fatalidade que as disposições e
motivações parecem singularmente realistas31.
Dessa forma, pensar a interseção feita pela Cruz Enfeitada entre o privado
e o público nas Minas Gerais, não chega ser uma demarcação estática. Visto que,
se de dentro pra fora a função da cruz enfeitada era demonstrar que a casa pertencia a uma família devota e afeita ao catolicismo estatal, de fora pra dentro as benesses advindas do Reino dos Céus, através do beijo de Nossa Senhora, completavam
o processo. Qual seja o da ordem cósmica, bem como, das teias sócio-religiosas da
sociedade mineira. Importa ressaltar ainda que “o beijo, desde a Antiguidade, assumira a significação espiritual de união e adesão mútuas”32. Assim, Nossa Senhora
ao beijar cada uma das cruzes enfeitadas, praticava um ato de adoração e amor
para com a Santa Cruz e, conseqüentemente, para com o seu Soberano Filho, representado também por ela. Além de através do beijo, exemplificar a concórdia, a
submissão e o respeito que deveriam fazer parte do cotidiano devoto, exteriorizados pela cruz enfeitada na fachada das residências em consonância com o Estado
oficialmente católico. Porém, se as vidas dos santos deveriam funcionar como modelos de comportamento à população, o exemplo de Nossa Senhora também funcionava como espelho e, como tal, deveria ainda refletir a obediência, a pobreza e
a castidade tão necessárias a uma vida virtuosa e religiosamente súdita33.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989. p.104. Já em
Durkheim, na “Definição do fenômeno religioso e da religião”, a religião aparece vinculada
a tudo que é sobrenatural, ou seja, a toda ordem de coisas que ultrapassam o alcance do
entendimento humano. Logo, a religião respalda tudo que escapa à ciência e ao pensamento
claro. In: DURKHEIM, Emile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins
Fontes, 1996. p. 03-32
31
Ibidem., pp. 104 e 105.
32
CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. Op.cit., pp. 127-128.
33
ALGRANTI, Leila Mezan. Honradas e devotas: mulheres da colônia. Condição feminina
nos conventos e recolhimentos do sudeste do Brasil – 1750-1822. Rio de Janeiro/Brasília:
Jose Olympio/ Editora da UnB, 1993. p. 198. Embora estudando os conventos e recolhimentos femininos, a autora chama a atenção para a obediência como a primeira virtude. Já que
dela dependiam o funcionamento e a harmonia da vida comunitária.
30
1112 - Atas do IV Congresso Internacional do Barroco Íbero-Americano
Todo o processo de proteção desempenhado pela cruz enfeitada, iniciavase com o cuidado familiar em adornar a sua cruz. O que representava um esforço
ativo na busca da proteção e congregação com a cultura católica vivenciada dentro
da casa, mas que só se completava com a exterioridade do culto. Essa em consonância aguda com a administração metropolitana34. Assim, a materialização das
mercês divinas realizadas através do ritual religioso, permeado pela simbologia
própria, além de proporcionar o ânimo e a motivação necessária à realidade da
vida individual ou do grupo familiar, permitia num processo mais amplo, qual seja
a congregação com o grupo social, a participação nele e a identificação advinda do
ethos35. Essa interação levava o indivíduo a uma modelagem “imposta” pelos padrões sociais vigentes, no qual o caráter, os valores morais e estéticos, e a própria
visão de mundo, eram fomentados a partir desse senso social vigente. A devoção
religiosa ao agir sobre o indivíduo, levava-o a uma modificação tão fundamental ao
convívio social, quanto à salvação de sua alma. Logo, esse processo por excelência, era gerador da civilização necessária à manutenção do Estado nas Minas Gerais e, conseqüentemente, da estabilidade do Antigo Regime português.
Porém, se a estabilidade política passava pela ordenação de mundo prevista pela religião católica, havia uma necessidade dessa religião englobar o maior
número possível das gentes mineiras, levando-as a congregar dessa égide religiosa
sócio-política. Assim, as pessoas ao se inserirem – necessariamente – nas redes de
interdependência tão comuns à sociedade do período, passavam a “movimentarem-se” de acordo com as possibilidades de maior ou menor liberdade proporcionadas pelo envolvimento nessa “teia”.
O modelo plasmado pela Santa Cruz em interação com a vida de Nossa Senhora,
era então, por excelência, fomentador de sociabilidades a partir das disposições estatais. Visto que em teoria, vincular-se à Santa Cruz, era de alguma forma também vincular-se aos ditames de Lisboa e acatar as suas diretrizes. Mas também, porque a cruz tinha como um dos principais atributos a transformação de lugares profanos em sacros.
E, de acordo com a expansão da devoção, tinha o dom de ir uniformizado o território
e as almas, colocando-os sob a égide do Cristo em conformação com a ordem universal propagada pela religião36.
Porém, a partir das interpenetrações geradas pelo encontro de culturas e disposições dos agentes sociais é possível pensar em práticas culturais permeadas pela apro-
Sobre transição de valores de uma geração a outra, me inspirei em: LEVI, Giovanni. A
herança imaterial. Trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2000. Trabalho no qual incerteza e poder aparecem como elementos
fundamentais para o entendimento da herança imaterial.
35
“O ethos de um povo é o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético, e sua disposição é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que
a vida reflete”. Idem., p. 93
36
DaMATTA, Roberto. A casa e a rua. Espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. Inspirei-me um pouco no Cap. I deste livro para pensar essa proposta. Nele o
autor trata de “Espaço – casa, rua e outro mundo: o caso do Brasil”.
34
Meynardo Rocha de Carvalho - 1113
priação entre grupos, mas sempre numa mão-dupla “entre a instituição e a comunidade, entre o modelo normativo e a experiência coletiva”37. Comportando dessa maneira
no cotidiano social, ajustes, combinações e resistências culturais próprias do encontro
que é sempre múltiplo. E que nas Minas, tanto promoviam ao Reino dos Céus, quanto
à aquisição do status social necessário e genuíno das redes de interdependências do
período. Geradoras de dissimulação já que, nem sempre os interesses sociais e da salvação se equiparavam e, consequentemente, colocavam-se em desequilíbrio ou num
equilíbrio fluido; gênese de uma religiosidade externa, visual e representativa. Na qual
ficava clara a ordenação social e, conforme idealizada, a “vontade divina”38.
Dessa forma as representações adquiriram aspecto de verdades e passaram a
ser mais fundamentais no barroco mineiro do que a exteriorização sincera propriamente dita. O que levou a uma supervalorização dos signos como promotores
dessas verdades e valores, e ainda, à manutenção da ordem social. Numa constante interação entre o público e o privado, muito mais complementadora, do que
concorrente39. Na qual a religião como principal elemento sociabilizador envolvia
ambos os espaços. E criava neles as condições para que transmutados na alegoria
barroca, tanto a Santa Cruz como as representações de Nossa Senhora, personificassem para a população mineira os elementos concernentes à salvação. Inserindo-se duplamente na construção das sociabilidades já que eram fim e gênese de
relações individuais e de grupos40.
Dessa maneira a devoção à Santa Cruz e a Nossa Senhora, individual ou imbricadamente, desempenharam condições fundamentais para a sociabilização dos mineiros. Especialmente ao inseri-los numa ordenação imperial que ultrapassava a geografia
ultramarina para alcançar também o Reino dos Céus.
CHARTIER, Roger. Textos, impressão, leituras. In: HUNT, Lynn. A nova História Cultural.
São Paulo: Martins Fontes: 2001.p. 234.
38
HANSEN, João Adolfo. “O discreto” In: NOVAES, Adauto. (org.). Libertinos e libertários.
São Paulo: Cia da Letras, 1996. p. 77-102.
39
VENTURA, Maria da Graça A. Mateus. “Espaços de sociabilidade de um mercador português em Lima (1635-1639)”. In: VENTURA, Maria da Graça A. Mateus (coord.) Os espaços
de sociabilidade na Ibero-América (sécs. XVI-XIX). Lisboa: Edições Colibri, 2004. p. 167172.
40
ARGAN, Giulio Carlo. História da Arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 15. Segundo o autor, cada obra não apenas resulta de um conjunto de relações,
mas determina por sua vez todo um campo de relações que se estendem até o nosso tempo
e o superam.
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Meynardo Rocha de Carvalho