INSTITUTO FEDERAL DO PARANÁ ANDRÉ EDWARD TAVARES DA SILVA O USO DE SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA (SIG'S) NO RECONHECIMENTO DA DINÂMICA ATUAL DO USO DO SOLO DA BACIA INCREMENTAL DO RIO DA VILA PARANAGUÁ 2013 ANDRÉ EDWARD TAVARES DA SILVA O USO DE SISTEMAS DE INFORMAÇÃO GEOGRÁFICA (SIG'S) NO RECONHECIMENTO DA DINÂMICA ATUAL DO USO DO SOLO DA BACIA INCREMENTAL DO RIO DA VILA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado Informática ao do Curso Técnico de Instituto Federal do Paraná, como requisito para obtenção de titulação acadêmica. Orientadora: Dra. Gislaine Garcia de Faria PARANAGUÁ 2013 2 A Ismael & Valdinéia 3 AGRADECIMENTOS A essa força sobrenatural que move o mundo e que podemos chamar de Deus. À minha orientadora, professora Gisa, por me acolher em seu projeto, em sua sala e por desprender tempo e atenção para as demandas relativas ao desenvolvimento deste trabalho. Aos meus pais, por compreenderem as noites em claro e pelo apoio às decisões que tomei. Aos meus colegas de trabalho, Jairo e Nagao, e ao meu superior Rafael, por compreenderem o motivo de tantas ausências. Aos meus colegas, amigos e irmãos da turma de Informática 2011 do IFPR campus Paranaguá, que compartilharam comigo tantas alegrias e tristezas, derrotas e triunfos, aos quais desejo apenas o melhor. A estes e a todos que de alguma forma contribuíram para a realização deste trabalho, deixo o meu muito obrigado! 4 “Se tiveres que tratar com água, consulta primeiro a experiência e depois a razão.” (Leonardo Da Vinci) 5 RESUMO Este estudo aborda o avanço dos assentamentos urbanos na área da bacia hidrográfica incremental do rio da Vila, espaço de crescimento preferencial da malha urbana do município de Paranaguá, onde está localizado o campus do IFPR. Esse trabalho visa reconhecer, a partir de informações de imagens de satélite e fotografias aéreas, a dinâmica de uso e ocupação do solo, tendo em vista o crescimento populacional que ocorre de maneira desordenada no município. As técnicas e materiais utilizados para fins deste trabalho foram a revisão teórica dos estudos realizados na área, dados censitários do IBGE, o plano diretor do município, cartas e mapas temáticos produzidos com o auxílio do SPRING (Sistema de Processamento de Informações Georeferenciadas), e a quantificação de áreas a partir do banco de dados organizado. Palavras-chave: Bacia hidrográfica. SIG. SPRING. Plano diretor. Paranaguá. 6 ABSTRACT This study approaches the progress of the urban settlements at the incremental watershed of Vila’s river’s area, preferential growth space of the Paranaguá’s city’s urban space, where the IFPR’s campus is located. This work aims to recognize, from the information of satellite’s images and aerial photographs, the dynamics of use and occupation of the soil, in view of the population increase that occurs in a disorderly manner at the city. The techniques and materials used for this work were the theoretical review of the studies realized in the area, the city’s master plan, thematic charts and maps produced with the assistance of SPRING (Processing System of Georeferenced Informations), and the quantification of areas from the organized database. Keywords: Watershed. GIS. SPRING. Master plan. Paranaguá. 7 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Localização da Bacia do Rio da Vila .......................................................... 18 Figura 2: Vista Aérea de Paranaguá ......................................................................... 18 Figura 3: Expansão Urbana em Paranaguá / 1792-1990 .......................................... 20 Figura 4: Ocupações Irregulares em Paranaguá....................................................... 21 Figura 5: Passos para o estudo do sensoriamento remoto. ...................................... 24 Figura 6: Fotografia Aérea da Área de Trabalho em 1980 ........................................ 28 Figura 7: Imagem de Satélite da Área de Trabalho em 2006 .................................... 28 Figura 8: Imagem de Satélite da Área de Trabalho em 2013 .................................... 29 Figura 9: Carta de Uso do Solo da Bacia em 1980 ................................................... 35 Figura 10: Carta de Uso do Solo da Bacia em 2006 ................................................. 37 Figura 11: Carta de Uso do Solo da Bacia em 2013 ................................................. 39 Figura 12: Decréscimo da vegetação na área da bacia ............................................ 40 Figura 13: Entrada do Jardim Jacarandá .................................................................. 42 Figura 14: Rede de esgoto despejando águas servidas no rio da Vila ...................... 42 Figura 15: Encanamento de águas servidas em direção ao rio da Vila ..................... 43 Figura 16: Encanamento de águas servidas sobre um tributário do rio da Vila ........ 43 Figura 17: Sistemas de coleta de esgoto. ................................................................. 44 Figura 18: Estação de Tratamento de Esgoto na Região .......................................... 44 Figura 19: Depósito de resíduos sólidos ................................................................... 45 Figura 20: Depósito de resíduos sólidos ................................................................... 45 Figura 21: Ocupações irregulares ............................................................................. 46 Figura 22: Zoneamento na Região da Bacia do Rio da Vila ...................................... 46 8 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1: Crescimento populacional de Paranaguá. ................................................ 19 Gráfico 2: Uso do Solo na Bacia da Vila em 1980..................................................... 36 Gráfico 3: Uso do Solo na Bacia da Vila em 2006..................................................... 36 Gráfico 4: Uso do Solo na Bacia da Vila em 2013..................................................... 38 Gráfico 5: Áreas Urbanas na Área da Bacia ............................................................. 40 Gráfico 6: Ocupações Irregulares na Área da Bacia ................................................. 41 Gráfico 7: Cobertura Vegetal na Área da Bacia. ....................................................... 41 9 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Retângulo Envolvente do Projeto .............................................................. 27 Tabela 2: Chaves de Interpretação. .......................................................................... 32 Tabela 3: Quantificação dos Usos do Solo. .............................................................. 34 10 LISTA DE SIGLAS BD – Banco de Dados CF – Constituição Federal IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IFPR – Instituto Federal do Paraná IHGP – Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais PDDI – Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado PI – Plano de Informação PNRH – Plano Nacional de Recursos Hídricos RGB – Red, Green, Blue SGBD – Sistema Gerenciador de Banco de Dados SIG – Sistema de Informação Geográfica SPRING – Sistema de Processamento de Informações Georreferenciadas UFPR – Universidade Federal do Paraná 11 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................... 13 1.1 JUSTIFICATIVA .............................................................................................. 13 1.2 OBJETIVOS.................................................................................................... 14 1.2.1 Objetivo Geral .......................................................................................................... 14 1.2.2 Objetivos Específicos ............................................................................................... 14 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ..................................................................... 16 2.1 BACIAS HIDROGRÁFICAS ............................................................................ 16 2.2 CARACTERIZAÇÃO E LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE TRABALHO .............. 17 2.3 PLANO DIRETOR .......................................................................................... 21 2.4 GEOPROCESSAMENTO ............................................................................... 22 2.5 SENSORIAMENTO REMOTO ........................................................................ 23 2.6 SPRING .......................................................................................................... 24 3 METODOLOGIA ............................................................................................. 26 3.1 ORGANIZAÇÃO DO BANCO DE DADOS...................................................... 26 3.2 GEORREFERENCIAMENTO ......................................................................... 27 3.3 CLASSIFICAÇÃO DO USO DO SOLO ........................................................... 30 3.3.1 Classificação Não Automática .................................................................................. 30 3.3.2 Chaves de Interpretação .......................................................................................... 31 3.4 QUANTIFICAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DOS DADOS ..................................... 32 3.5 ELABORAÇÃO DAS CARTAS TEMÁTICAS .................................................. 32 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO ..................................................................... 34 4.1 O PLANO DIRETOR ....................................................................................... 46 5 CONCLUSÃO ................................................................................................. 48 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... 49 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 50 12 1 INTRODUÇÃO O Instituto Federal do Paraná - Campus Paranaguá, está localizado na região periférica do município de Paranaguá, dentro da Bacia Hidrográfica Incremental do Rio da Vila. A bacia hidrográfica, segundo Yassuda (1993), corresponde à área onde se dá a “interação das águas com o meio físico, o meio biótico e o meio social, econômico e cultural", tornando-se uma unidade natural da paisagem, de destacada importância para as questões voltadas ao planejamento das áreas urbanas e rurais.1 A dinâmica urbana da cidade de Paranaguá, segundo Godoy (1998), está intimamente ligada às atividades portuárias que, ao longo dos anos, desencadearam a expansão da cidade de maneira desequilibrada, preferencialmente em direção às regiões periféricas, conforme lembrado por Cerdeira (1998). O presente trabalho se atém a explorar as dinâmicas de uso e ocupação do solo nesta região, compreendendo as ações do poder público na gestão desses espaços e verificando o atual ordenamento e impactos na paisagem, utilizando para isso, os recursos da cartografia e de manipulação de dados georreferenciados. 1.1 JUSTIFICATIVA O presente trabalho é apresentado como requisito para obtenção de grau técnico na área da informática, no entanto o que se propõe é a imersão desta área do conhecimento na área da geografia, atuando como ferramenta de trabalho e facilitador das atividades propostas. Concebe-se, desse modo, uma interdisciplinaridade divergente da que comumente é percebida nos trabalhos da área informacional. Motivado pelo interesse em compreender a dinâmica de ocupação e uso do solo no espaço geográfico em que o campus Paranaguá do IFPR está inserido, contextualizando as ações do poder público na organização desse espaço, confrontando-as com as normativas previstas no Plano Diretor do município, e 1 Alguns programas de governo adotaram a bacia como unidade de trabalho, como o Programa de Gestão do Solo e Água em Microbacia do governo do Paraná, e o Programa de Microbacias do governo de São Paulo, com o objetivo de conservar e recuperar a capacidade produtiva dos recursos naturais. 13 realizando uma análise temporal dos usos do solo dentro da bacia, é que se concebe este projeto. Por conseguinte, formularam-se as seguintes questões: De que forma, ao longo dos anos, se deu a ocupação urbana na área da bacia hidrográfica incremental do rio da Vila? Quais são os instrumentos utilizados pela gestão pública e como se ordena o planejamento desse espaço? Poder-se-á representar as dinâmicas de ocupação do solo dessa região por meio de produtos das tecnologias de geoprocessamento, da cartografia e de dados censitários? As respostas para essas perguntas e a análise desses itens são importantes para otimizar as múltiplas perspectivas sobre o espaço trabalhado. Assim, espera-se que, além de contribuir com esta importante etapa de formação acadêmica, o trabalho possa servir de referência para projetos que venham a desenvolver atividades voltadas à área. 1.2 OBJETIVOS Tendo em vista as prerrogativas destacadas no item anterior, foram traçados alguns objetivos a serem alcançados no desenvolvimento deste trabalho. 1.2.1 Objetivo Geral Construir um banco de dados em SIG (Sistema de Informação Geográfica) da bacia incremental do rio da Vila como subsídio a avaliação do uso e ocupação do solo. 1.2.2 Objetivos Específicos Experimentar o uso de SIGs no levantamento de dados socioeconômicos e ambientais; Avançar nas pesquisas científicas do IFPR na compreensão do local em que o campus Paranaguá está inserido; Compreender as dinâmicas de uso do solo da bacia hidrográfica incremental do rio da vila; 14 Elaborar cartas e mapas temáticos a partir de dados do sensoriamento remoto (fotografias aéreas e imagens do Google Earth); Organizar gráficos e tabelas que contemplem o avanço urbano na área da bacia. 15 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 BACIAS HIDROGRÁFICAS A bacia hidrográfica pode ser compreendida como um conjunto de terras drenadas por um rio principal e seus afluentes, tendo origem nas regiões mais elevadas e percorrendo em direção às mais baixas até a sua foz, que pode ser o mar, um lago ou ainda um rio de maior porte. As bacias hidrográficas podem ser classificadas em sub-bacias, no caso de sua foz ser outro rio ou, bacias incrementais, como é o caso do rio da Vila, que deságua, por intermédio do rio Itiberê, na baia de Paranaguá. (PORTO; PORTO, 2008). O conceito de bacia hidrográfica como unidade territorial surge em meados do século XVIII com o geógrafo Philippe Buache (1700-1773) que propõe o recorte de conjuntos territoriais fora das divisões políticas, adotando padrões naturais de regionalização dos espaços. O trabalho do geógrafo é subsídio da territorialização da gestão das águas na França, e colaborou também para organização da gestão das águas no Brasil. (FARIA, 2008). A legislação brasileira para gestão das águas avançou muito nas últimas décadas. Em 1934 é decretado o Código de Águas2, numa primeira ação para a gestão dos recursos hídricos. Depois, com a Constituição Federal de 1988, as águas passam a ser consideradas bens de uso comum pertencentes à União ou aos Estados, de acordo com a sua abrangência. A CF institui o Plano Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), sob a lei nº 9.433 em 8 de Janeiro de 1997, que regulamenta o sistema nacional de gerenciamento dos recursos hídricos e dá novos conceitos para a gestão hídrica. No art. 1 do PNRH (1997) constam os incisos: I - a água é um bem de domínio público; II - a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico; [...] IV - a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas; V - a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; 2 Decreto nº 24.643, de 10 de Julho de 1934. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d24643.htm> 16 VI - a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. A bacia hidrográfica fica instituída pelo PNRH como unidade primordial para a gestão das águas, podendo ser divida em sub-bacias de acordo com a necessidade de trabalho, e os Estados passam deter a responsabilidade sobre a gestão dos recursos hídricos sobre o seu território, implantando órgãos e medidas voltados para o assunto. O litoral do Paraná tem o seu comitê de bacia hidrográfica formado apenas em 2013, com a reunião de entidades regionais. 3 2.2 CARACTERIZAÇÃO E LOCALIZAÇÃO DA ÁREA DE TRABALHO A área de estudo fica situada no município de Paranaguá, localizado no litoral do estado do Paraná, sul do Brasil, entre os paralelos 25º34’19” e 25º36’38” de latitude sul, e os meridianos 48º33’20” e 48º35’33” de longitude oeste. A área da bacia do rio da Vila é relativamente pequena, com aproximadamente 8,4 km² que cobre pouco mais de 1% da área do município a que pertence. Possui ainda um perímetro de cerca de 12 km. 3 Primeira Reunião Ordinária do Comitê da Bacia Litorânea. Disponível em: <http://www.aguasparana.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=153>. Acesso em: 22 nov. 2013. 17 Figura 1: Localização da Bacia do Rio da Vila Fonte: Google Earth, 2013. Org.: SILVA, 2013. Por volta do século XVII, Paranaguá limitava-se a um vilarejo de algumas poucas residências às margens do rio Itiberê. Durante o século XX, de acordo com Cerdeira (1998), o município sofre uma expansão; tal crescimento deu-se principalmente pelo desenvolvimento das atividades portuárias (CANEPARO, 2002). Figura 2: Vista Aérea de Paranaguá Fonte: IHGP, 1950 18 Em decorrência da exportação do café, a ocupação do solo se tornou mais intensa, segundo o que afirma Godoy (1998): “o crescimento das atividades portuárias transformou Paranaguá em um polo de atração de populações do campo e de outras localidades, o que ocasionou desequilíbrios sociais e espaciais na cidade”. A autora afirma ainda que após a década de 1950, “o porto foi um forte organizador do espaço e da economia local, forçando ou direcionando o crescimento do setor urbano no comércio de bens e serviços ligados ao setor portuário”. No gráfico abaixo consta o aumento populacional de Paranaguá desde a década de População (em milhares) 1950 até o último levantamento censitário do IBGE. 160 140 120 100 80 60 40 20 0 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010 Gráfico 1: Crescimento populacional de Paranaguá. Fonte: IBGE/SIDRA, 2013; SOUZA, 2010. Org.: SILVA, 2013. O mapa a seguir compõe o Plano Diretor de Paranaguá, e revela a expansão da malha urbana do município no decorrer dos anos. A ocupação se inicia na área nordeste, no leito ocidental do rio Itiberê, em frente à ilha dos Valadares, e cresce na direção sudoeste, sendo as últimas ocupações ocorridas a partir dos anos 1980 no entorno do Jardim Esperança e Vila Garcia, e mais recentemente, a partir dos anos 1990, com os novos bairros Ouro Fino, Porto Seguro e Jardim Paraná. Esses cinco aglomerados urbanos estão assentados sobre a bacia do rio da Vila. 19 Jardim Esperança Ouro Fino Vila Garcia Porto Seguro Jardim Paraná Figura 3: Expansão Urbana em Paranaguá / 1792-1990 Fonte: PDDI, 2007. Org.: SILVA, 2013. De acordo com Caneparo (1999), o cenário produtivo de Paranaguá passa por mudanças bruscas a partir de 1970, quando a mão de obra manipuladora de cargas passa a ser substituída por máquinas, acarretando uma diminuição no número de empregos e o aumento dos problemas sociais no município, que contribuíram “para aumentar ainda mais a desorganização do espaço, bem como a ocupação de áreas insalubres, como os manguezais”. Isso pode ser observado na figura 3, que mostra a identificação de diversas regiões ocupadas irregularmente, inclusive dentro da bacia do rio da Vila. 20 Figura 4: Ocupações Irregulares em Paranaguá Fonte: PDDI, 2007. 2.3 PLANO DIRETOR Com a Constituição Federal de 1988, muitas responsabilidades que eram centralizadas no poder público federal são transferidas para os municípios, que passam a ter maior autonomia diante das transformações que ocorrem dentro do seu território. Dentre tais atribuições, ficou instituído que os municípios com mais de 20 mil habitantes precisam ter um Plano Diretor. Não obstante, no Estado do Paraná, através do Decreto 2.581/2004 e da Lei Estadual 15.220/2006, ficou instituído que todos os municípios paranaenses deveriam desenvolver os seus PDs. E ainda estabelece que só serão firmados convênios de financiamento de obras de infraestrutura e serviços somente com os municípios que já possuírem planos diretores ou com os que executarem planos diretores ou planos de zoneamento em conformidade com o Estatuto da Cidade, conforme lembrado por Faria (2008). O Plano Diretor é uma referência que se faz à política de desenvolvimento urbano dos municípios, constituída pelas leis de perímetro urbano, parcelamento do solo para fins urbanos, uso e ocupação do solo urbano e rural, sistema viário, código de obras, código de posturas, e outros instrumentos estabelecidos pelo Estatuto da 21 Cidade. A CF de 1988 reitera a importância do Plano Diretor como “instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana”. (BRASIL, 1988). O município de Paranaguá tem o seu Plano Diretor aprovado em 2007, em um desenvolvimento colaborativo com Universidade Federal do Paraná – UFPR. A área da bacia do rio da Vila está dividida em duas zonas de classificação do PD, que serão abordadas posteriormente neste trabalho. 2.4 GEOPROCESSAMENTO Atualmente o uso do microcomputador para o processamento de dados tem levado à construção dos “Sistemas de Informação”, para análise e armazenamento de dados. Esses sistemas são combinações entre a interação humano-computador (homem – software/hardware), “em concordância com uma série de procedimentos organizacionais que proporcionam informações com finalidade de apoiar as gestões diretivas” (ROSA, 1996). O geoprocessamento pode ser definido, segundo Rosa, como “o conjunto de tecnologias destinadas à coleta e tratamento de informações espaciais, assim como o desenvolvimento de novos sistemas e aplicações, com diferentes níveis de sofisticação”. Pode ser utilizado por profissionais da área de processamento digital de imagens, cartografia digital e sistemas de informação geográfica. Os Sistemas de Informação Geográfica (SIGs) começaram a ser desenvolvidos a partir de meados da década de 1960, após uma série de investimentos em tecnologia de guerra. Com o avanço da tecnologia, por volta da década de 1980, o software passou por diversos aprimoramentos, bem como o hardware, com o uso mais efetivo na manipulação das informações geográficas e a ligação entre a base de dados gráfica e alfanumérica (ROSA, 1996). O SIG serve como uma ferramenta para todas as áreas que fazem uso de mapas, possibilitando, segundo Rosa: unir informações em uma única base de dados, representando vários aspectos do estudo da região; a entrada de dados de várias maneiras; combinar dados de diferentes fontes, gerando novos tipos de informações; gerar relatórios e documentos gráficos; etc. 22 2.5 SENSORIAMENTO REMOTO O Sensoriamento Remoto é uma técnica de obtenção de imagens da superfície terrestre por meio da captação da energia refletida ou emitida pela superfície. Sensoriamento refere-se ao registro da energia por sensores instalados na base de captura das imagens. Por não haver contato físico entre o sensor e a superfície, ou seja, o registro é feito à distância, é que dizemos que o sensoriamento é remoto. As origens do sensoriamento remoto datam do século XIX, quando do investimento em técnicas militares em vista das guerras. A primeira imagem obtida por sensor foi tirada a partir de um balão em 1856. Desde então, o seu uso só intensificou, sendo amplamente utilizado na guerra civil americana, na primeira e segunda guerra mundial. Porém essa tecnologia só é disponibilizada à comunidade não militar após o fim da guerra fria. (FLORENZANO, 2011). As etapas de obtenção de imagens por sensoriamento remoto envolvem as etapas destacadas na figura 4. As informações do sensoriamento são obtidas utilizando-se a radiação eletromagnética, emitidas por fontes naturais como o sol, ou por fontes artificiais como o radar (A). A energia emitida interage com a atmosfera, viajando da fonte até o alvo (B), interagindo com o alvo (C) conforme as propriedades da superfície, e em seguida realiza uma segunda viagem, do alvo para o sensor (B). O sensor remoto registra os dados de radiação emitidos ou refletidos pelo alvo (D) e os encaminha, por meio eletrônico, para uma estação de processamento na Terra (E), onde os dados são processados e traduzidos na forma de imagem. Por fim, a imagem é interpretada para extrair informações dos alvos (F) e, em seguida, a informação extraída é aplicada, para melhor compreensão, obtenção de novas informações ou auxiliar na resolução de algum problema específico (G). 23 Figura 5: Passos para o estudo do sensoriamento remoto. Fonte: CCRS, 2005. O sensoriamento mais comum é feito através de satélites que trabalham basicamente na coleta e análise da radiação emitida pela fonte de energia e refletida pela superfície terrestre. Mas são ainda exemplos de sensoriamento remoto os radares e as fotografias aéreas. Como resultado do trabalho de um sensor, temos os produtos cartográficos, que podem ser mapas, globos, cartas ou plantas. Os produtos de sensoriamento remoto utilizados nessa pesquisa são as imagens de alta resolução dos anos de 2006 e 2013 fornecidas pelo software Google Earth, que são imagens do satélite Ikonos ou Quickboard. A imagem do ano de 1980 é um produto de fotografia aérea, fornecida pelo Instituto de Terras, Cartografia e Geociências (ITCG) do Paraná. A análise, vetorização e quantificação dessas imagens só são possíveis em ambiente de SIG que, para este trabalho, é o SPRING. 2.6 SPRING O Sistema de Processamento de Informações Georreferenciadas (SPRING) é um software disponibilizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e que compõe o grupo dos Sistemas de Informações Geográficas (SIGs). Esses sistemas 24 permitem o processamento de imagens cartográficas, a análise espacial, modelagem numérica de terreno e consulta a banco de dados espaciais. O SPRING é uma ferramenta primordial para o desenvolvimento de projetos, implantação de empreendimentos, atividades agrônomas, trabalhos científicos e etc, quando se trata de análise e representação cartográfica de terreno. Ele atua através do gerenciamento de banco de dados georreferenciados e possibilita uma análise espacial rápida e precisa. O sistema tornou o uso das informações geográficas mais eficientes, permitindo visualizar produtos estatísticos em forma de mapas, diagramas ou desenhos, além do cruzamento de dados. 25 3 METODOLOGIA O método adotado para a construção deste trabalho foi a divisão das atividades em duas linhas principais: a revisão bibliográfica, trazendo as considerações de outras pesquisas para subsidiar esta, e; paralelamente, a organização do banco de dados georreferenciado no sistema de informações geográficas (SIG), o SPRING (Sistema de Processamento de Informações Georreferenciadas). As leituras realizadas permitiram compreender a região de maneira abrangente, primeiramente pela caracterização da região litorânea e do município, e finalmente a região drenada pelo rio da Vila e seus afluentes. Elas possibilitaram ainda verificar as condicionantes que delinearam a configuração desses espaços e compreender os conflitos decorrentes da ocupação que ocorre nesta área. A partir do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI) do município de Paranaguá, pôde-se entender o planejamento para gestão dos espaços na área da bacia do rio da Vila e confrontar com a verificação das ações públicas em campo. A organização do banco de dados culminou com a organização das cartas temáticas sobre o uso do solo da bacia nos ano de 1980, 2006 e 2013. As principais etapas metodológicas adotadas para o desenvolvimento deste trabalho foram: a organização do banco de dados; georreferenciamento e importação das imagens; classificação do uso do solo; quantificação das áreas, classes e organização das tabelas e gráficos; e elaboração das cartas temáticas. 3.1 ORGANIZAÇÃO DO BANCO DE DADOS Tendo em vista as múltiplas versões do SPRING, convencionou-se para esse trabalho a versão 5.2.3, disponibilizada no site do INPE. O primeiro passo para iniciar um trabalho no SPRING é a criação de um banco de dados que tem a responsabilidade de armazenar os dados gerados pela manipulação realizada. No menu Arquivo > Banco de Dados é preciso decidir um diretório para armazenamento do BD no computador do usuário, um nome para ele, e um SGBD (Sistema Gerenciador de Banco de Dados), definido pelo campo Gerenciador. Depois desses passos cria-se o banco e ativa-o. O segundo passo é criar um projeto dentro do BD, através do menu Arquivo > Projeto > Projeto. Na janela que se abre é preciso nomear o projeto, e escolher um 26 sistema de projeção cartográfica, através do item Projeção. Os sistemas de projeção são constituídos de fórmulas matemáticas que transformam as coordenadas geográficas da superfície esférica da Terra em coordenadas planas, ou vice-versa, mantendo uma relação entre elas. Com o avanço dos estudos nessa área, chegouse a inúmeros sistemas de projeção. Nesse trabalho convencionamos o sistema Polyconic com o modelo de representação da Terra Datum->SIRGAS2000. Executase então a projeção e automaticamente a o sistema retorna para a tela do projeto. É preciso, por fim, escolher o tipo das coordenadas, que para o nosso caso foi o GMS, e os valores de longitude e latitude do retângulo envolvente. O retângulo envolvente é o recorte geográfico da área em que se pretende trabalhar. Nesse projeto trabalhamos na área da bacia do rio da Vila, em menor escala, e no município de Paranaguá, em escala maior. As coordenadas do retângulo envolvente precisam ser maiores do que qualquer imagem que for georreferenciada. Adotou-se então as seguintes coordenadas do retângulo envolvente do projeto: Coordenada 1 2 Latitude s 26º 0’ 39” s 24º 10’ 47” Longitude o 49º 0’ 23” o 48 0’ 29” Tabela 1: Retângulo Envolvente do Projeto Depois disso cria-se o projeto e ativa-o. 3.2 GEORREFERENCIAMENTO O georreferenciamento constitui-se de uma técnica essencial para se trabalhar em ambiente SIG. Ele torna possível a localização geográfica a partir de pontos da superfície terrestre lançados no ambiente gráfico. Para fins deste trabalho, referenciamos quatro imagens: Carta topográfica do Ministério do Exército, na escala 1:25.000, do município de Paranaguá, para identificação dos canais de drenagem e recorte do perímetro da bacia; Fotografia aérea cedida pelo ITCG da área da bacia no ano de 1980, na escala 1:25.000 (figura 6); 27 E imagens de alta resolução obtidas através do software Google Earth dos anos de 2006 e 2013 (figuras 7 e 8). Figura 6: Fotografia Aérea da Área de Trabalho em 1980 Fonte: ITCG, 1980. Figura 7: Imagem de Satélite da Área de Trabalho em 2006 Fonte: Google Earth, 2006. 28 Figura 8: Imagem de Satélite da Área de Trabalho em 2013 Fonte: Google Earth, 2013. O georreferenciamento de imagens é possível através do menu Arquivo > Registro. Esse comando abrirá duas telas, a Auxiliar e Registro. É na tela Registro onde se faz a identificação de pontos na imagem. Escolhemos a forma de aquisição dos pontos pelo teclado e a imagem a ser georreferenciada pelo botão Imagem. Para cada ponto identificado cria-se através de um nome e aplica-se a cada um as coordenadas de latitude e longitude, no caso de georreferenciamento nas coordenadas GMS, e X e Y, no caso de coordenadas planas. Para um georreferenciamento mais preciso, ficou estabelecido que se identificasse um mínimo de doze pontos ligeiramente espalhados ao longo da imagem. Cada ponto criado gera um cursor de cor verde na tela Auxiliar, onde se mostra a imagem, para que o usuário identifique-o nela. Tendo feito os passos anteriores pode-se salvar a imagem registrada e fechar as duas telas. É preciso então importar a imagem para o projeto, através do menu Arquivo > Importar > Importar Imagens Registradas. Na tela que abre é preciso selecionar o diretório onde está a imagem, em seguida o arquivo georreferenciado, 29 as bandas, a categoria das imagens, e o nome do Plano de Informação (PI) em que elas ficarão armazenadas. Convencionou-se a importação das bandas que compõem a mesma imagem, o mesmo nome, variando as numerações 1, 2 e 3 ao final de cada uma. Executa-se então o comando de importação logo a imagem ficará disponível no painel lateral esquerdo, dentro do item da respectiva categoria. Para deixá-la visível, seleciona-se o PI e aplica-se uma das três faixas de cores RGB (do inglês, vermelho, verde e azul, respectivamente), disponíveis nas caixas de seleção na parte inferior do painel. 3.3 CLASSIFICAÇÃO DO USO DO SOLO Com esse trabalho identificamos o uso do solo na área da bacia através da divisão dos tipos de uso em classes. A classificação foi possível através da representação de polígonos vinculados à identificação visual do uso. 3.3.1 Classificação Não Automática O SPRING possui um mecanismo de classificação do uso do solo automatizado, baseado na identificação dos pixels de imagens espectrais, que são os produtos diretos do sensoriamento remoto. Este trabalho baseia-se na análise de imagens raster4 nas extensões JPEG, TIFF, etc., que não são espectrais e, portanto, não possibilitam a classificação automática. Adotamos então a classificação manual dos tipos de uso do solo. O primeiro passo para a classificação foi a criação de três categorias do tipo temática, uma para cada ano. É possível fazer isso através do menu Arquivo > Modelo de Dados, e na tela que aparece dá-se um nome para a nova categoria e escolhe-se o tipo do modelo. Nessa mesma tela, selecionando a aba Classes Temáticas, já é possível inserir as classes de uso adotadas para tal categoria, quais são: arruamentos, áreas urbanas em consolidação, áreas urbanas consolidadas, clareiras, ocupações irregulares, vegetação manguezal, vegetação ombrófila densa 4 Imagens do tipo Raster, são aquelas que têm como base uma matriz, que armazena em suas células as informações de cor de cada pixel. 30 de terras baixas e, a nível de localização, IFPR. As classes serão abordadas no próximo subitem. Ativa-se a imagem do ano a ser classificada e, dentro da respectiva categoria, é criado um PI para cada classe. Seleciona-se o PI e, no menu Temático > Edição Vetorial, cria-se o polígono da respectiva classe. É preciso configurar o tipo do desenho para o modo passo e linha fechada. Tendo criado os polígonos, ajusta-se os pontos, poligoniza-se as linhas e associa-se a respectiva classe. Então é só sair da edição vetorial e os dados inseridos ficam salvos. 3.3.2 Chaves de Interpretação As chaves de interpretação consistem em diferentes classificações das parcelas de uma imagem, tendo em vista os elementos de tonalidade/cor, textura, tamanho, forma, sombra, altura, padrão e localização, que “sistematizam e orientam o processo de análise e interpretação de imagens”. (FLORENZANO, 2011). As chaves servem como guia para identificação correta dos objetos numa imagem aérea ou orbital. Para cada trabalho realizado existem chaves de interpretação distintas, de acordo com o foco e a qualidade ou dimensões da imagem. Para esse trabalho ficaram convencionadas as chaves de interpretação de Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas (Restinga 5), vegetação com influência fluviomarinha (Manguezal), Arruamentos, Clareiras, Ocupações Irregulares, Áreas Urbanas em Consolidação e Áreas Urbanas Consolidadas, conforme descrito na tabela 2. Nome Restinga Manguezal Arruamentos Clareiras 5 1980 2006 2013 Textura enrugada devido à diversidade de cor e altura da vegetação. Textura mais lisa. Predominante nas áreas de influência marítima e alagadas. Aberturas de ruas lineares na vegetação, formando quadras inabitadas. Aberturas disformes na vegetação para instalação de uma ou duas residências, plantio ou sem uso identificado. Para esse trabalho usamos o termo Restinga para nos referir à Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas, no entanto, esta não pode ser confundida à vegetação de influência marinha direta, que predominam nas dunas praianas. 31 Ocupações Irregulares Não se aplica. Áreas Urbanas em Consolidação Não se aplica. Áreas Urbanas Consolidadas Não se aplica. Regiões habitadas irregularmente. Não possui uma simetria na paisagem. Semelhantes às clareiras com muitas moradias. Áreas com presença de algumas residências e em recente agregação de novas moradias. Apresentam algum padrão de urbanização, como divisões de lotes, quadras e arruamentos. Áreas de ocupação antrópica já consolidada, com presença de grande Não se aplica. número de residências e divisão de lotes, quadras e ruas bem definidos. Tabela 2: Chaves de Interpretação. 3.4 QUANTIFICAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DOS DADOS Foi possível realizar a quantificação da área da bacia e das classes de uso do solo para cada imagem. Essa funcionalidade pode ser acessada pelo menu Ferramentas > Operações Métricas do SPRING. No modo apontamento, ao clicar sobre um determinado polígono obtêm-se as medidas da área e perímetro dele. É possível quantificar através de um recurso semelhante disponível pelo menu Temático > Medidas de Classes, que retornará as medidas das classes do PI selecionado. Com os dados retornados pela quantificação das classes foi possível elaborar tabelas e gráficos que reforçam o caráter urbano-ocupacional da área da bacia. 3.5 ELABORAÇÃO DAS CARTAS TEMÁTICAS A elaboração das cartas foi possível através do software ArcMap, da série ArcGIS, da empresa ESRI. É um software que opera mediante compra de licenças de uso. O ArcGIS é um SIG, porém seu uso, nesse trabalho, limitou-se a confecção das cartas, devido às funcionalidades serem mais completas e a disposição visual ser mais amigável. Para inserir as classes digitalizadas em ambiente SPRING no projeto criado no ArcMap, foi preciso exportá-las para a extensão de arquivo shape e, em seguida, importá-las através do menu File > AppData > AppData. Tendo as devidas classes importadas coube-se a organização na folha e a inserção do título, escala gráfica, 32 seta do norte, legenda e descrição. Tais elementos puderam ser inseridos de maneira automatizada através do menu Insert. 33 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO Ao longo do período analisado, nos anos 1980, 2006 e 2013, pode-se perceber as aberturas na vegetação, acompanhadas de novas moradias. As regiões com divisões de lotes e quadras caracterizam áreas urbanas consolidadas ou em fase de consolidação, incentivadas pela gestão pública, devido ao caráter linear e visualmente organizado. As áreas de aberturas não lineares e disformes na paisagem caracterizam manchas de clareiras e ocupações irregulares. Nessas áreas não há a intervenção do poder público e predomina o adensamento habitacional em meio à vegetação, ocupando os territórios de maneira indiscriminada. Na tabela a seguir constam os dados de quantificação das áreas das classes de uso do solo. 1980 (km²) (%) 0,43 5,1% 2006 (km²) (%) 0,38 4,5% 2013 (km²) (%) 0,23 2,7% Clareiras 0,68 8,1% 0,33 3,9% 0,21 2,5% Manguezal 0,14 1,6% 0,14 1,6% 0,14 1,6% Restinga Ocupações Irregulares Áreas Urbanas em Consolidação Áreas Urbanas Consolidadas IFPR 7,01 83,0% 5,92 70,1% 5,54 65,6% 0 0 0,16 1,9% 0,61 7,2% 0 0 0,99 11,7% 0,35 4,2% 0 0 0 0 0,83 9,9% 0 0 0 0 0,06 0,7% Classes Arruamentos Tabela 3: Quantificação dos Usos do Solo. Fonte: Quantificação de Áreas – SPRING. Org.: SILVA, 2013. A interpretação da imagem de 1980 nos retornou a identificação de quatro tipos de uso do solo: os arruamentos, as clareiras, o manguezal e a restinga. Predomina, nesse período, a cobertura vegetal, com 83% da área da bacia de floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas (Restinga) e 1,6% de vegetação com influência fluviomarinha (Manguezal). Cerca de 8% da área são aberturas de clareiras e 5% de arruamentos. Esses dados podem ser visualizados na carta de uso do solo na figura 9. 34 Figura 9: Carta de Uso do Solo da Bacia em 1980 35 Arruamentos Clareiras Manguezal Restinga Gráfico 2: Uso do Solo na Bacia da Vila em 1980. Fonte: Quantificação de Áreas – SPRING. Org.: SILVA, 2013. Na imagem do ano de 2006, da figura 10, foi possível identificar o avanço das ocupações urbanas e aberturas de novos arruamentos em detrimento da cobertura vegetal. A vegetação ombrófila passa a cobrir 70% da área e o manguezal permanece inalterado. As ocupações urbanas em fase de consolidação ocupam 11,7% da área e os novos arruamentos 4,5%. Verifica-se uma redução no percentual de clareiras (3,9%) em relação ao de 1980. Essa diferença deve-se ao aumento das ocupações irregulares (1,9%), ou consolidação de residências no interior das clareiras. Arruamentos Clareiras Manguezal Restinga Ocupações Irregulares Urbanas em Consolidação Gráfico 3: Uso do Solo na Bacia da Vila em 2006. Fonte: Quantificação de Áreas – SPRING. Org.: SILVA, 2013. 36 Figura 10: Carta de Uso do Solo da Bacia em 2006 37 No ano de 2013 foi possível identificar, além dos tipos de usos dos anos anteriores, áreas urbanas consolidadas. Essas áreas são ocupações que passam a ter lotes e residências bem definidas, além da estrutura asfáltica nas ruas. Notou-se uma redução dos arruamentos para 2,7% da área da bacia, devido à ocupação dessas áreas por residências, elevando o número de áreas urbanas consolidadas e em consolidação para 9,9% e 4,2%, respectivamente. Por consequência, a cobertura de restinga continua em redução, passando a representar 65,6%. A cobertura do manguezal permanece sem alteração. Nesse ano, considerou-se a área do IFPR, pela representatividade no local e pelo caráter da pesquisa. A carta elaborada para esse ano pode ser vista na figura 11. Arruamentos Clareiras Manguezal Restinga Ocupações Irregulares Urbana em Consolidação Urbana Consolidada IFPR Gráfico 4: Uso do Solo na Bacia da Vila em 2013. Fonte: Quantificação de Áreas – SPRING. Org.: SILVA, 2013. 38 Figura 11: Carta de Uso do Solo da Bacia em 2013 39 Do ano de 1980 para 2006, havendo 26 anos de intervalo, percebe-se o adensamento populacional preferencialmente em áreas destinadas para ocupação, os arruamentos. Enquanto que, de 2006 para 2013, num intervalo de 7 anos, ocorrem as ocupações irregulares de maneira mais expressiva. Em 1980 não há incidência de ocupações urbanas, apenas arruamentos e clareiras. Em 2006 o nível de urbanização sobe para 12% da área da bacia, e para 14% em 2013 (gráfico 5). O mesmo crescimento é verificado para as ocupações irregulares: de 0% em 1980, o número sobe para 2% em 2006 e 7% em 2013 (gráfico 6). Enquanto que para a cobertura vegetal da bacia o número decresce de 85% em 1980 para 72% em 2006 e 67% em 2013 (gráfico 7), que pode ser verificado na figura a seguir. 16% 14% 12% 10% 8% 6% 4% 2% 0% 1980 2006 2013 Gráfico 5: Áreas Urbanas na Área da Bacia Fonte: Quantificação de Áreas – SPRING. Org.: SILVA, 2013. 1980 2006 2013 Figura 12: Decréscimo da vegetação na área da bacia Fonte: Vetorização – Spring. Org.: SILVA, 2013. 40 8% 7% 6% 5% 4% 3% 2% 1% 0% 1980 2006 2013 Gráfico 6: Ocupações Irregulares na Área da Bacia Fonte: Quantificação de Áreas – SPRING. Org.: SILVA, 2013. 85,0% 80,0% 75,0% 70,0% 65,0% 60,0% 1980 2006 2013 Gráfico 7: Cobertura de Restinga na Área da Bacia. Fonte: Quantificação de Áreas – SPRING. Org.: SILVA, 2013. As atividades em campo possibilitaram constatar algumas das formas de ocupação representativas identificados na interpretação das imagens. A imagem a seguir foi tirada na entrada do Jardim Jacarandá, localizado à jusante da bacia e com características de ocupação irregular recente, onde está uma placa colocada por moradores. Foi possível verificar que muitas casas dessa região ainda não possuem infraestrutura mínima (saneamento básico, energia elétrica, acesso aos serviços públicos, etc.). 41 Figura 13: Entrada do Jardim Jacarandá Fonte: O Autor, 2013. Nas imagens a seguir observa-se o problema da ausência de um sistema de coleta de esgoto adequado. As águas servidas 6 são jogadas diretamente no rio da Vila. Figura 14: Rede de esgoto despejando águas servidas no rio da Vila Fonte: O Autor, 2013. 6 A expressão águas servidas refere-se às águas utilizadas pelas residências e coletadas pelas redes de esgoto. 42 Figura 15: Encanamento de águas servidas em direção ao rio da Vila Fonte: O Autor, 2013. Figura 16: Encanamento de águas servidas sobre um tributário do rio da Vila Fonte: O Autor, 2013. Esse problema evidencia uma falta de gestão pública em proporcionar o saneamento básico adequado. Além dos efeitos visuais e do odor deixado pelos dejetos, existem impactos causados ao meio ambiente e riscos à integridade física dos habitantes da região. Outro problema denotado na região foi a inatividade e fragilidade do sistema de tratamento de esgoto instalado na região. Na figura 17 verifica-se, ao fundo, um bueiro do sistema de tratamento de esgoto, porém fica em destaque na imagem o escoamento de águas de maneira irregular. A figura 18 é uma foto da Estação de Tratamento de Esgoto instalada na região e que, desde a suas instalação, está inativa. 43 Figura 17: Sistemas de coleta de esgoto. Fonte: O Autor, 2013. Figura 18: Estação de Tratamento de Esgoto na Região Fonte: O Autor, 2013. Outro problema verificado na região da bacia foram os resíduos sólidos depositados indiscriminadamente em qualquer local, conforme as figuras 19 e 20. 44 Figura 19: Depósito de resíduos sólidos Fonte: O Autor, 2013. Figura 20: Depósito de resíduos sólidos Fonte: O Autor, 2013. As ocupações irregulares podem ser verificadas na imagem a seguir, onde há a instalação de residências dentro dos limites de restrição à ocupação nas margens dos rios e tributários. 45 Figura 21: Ocupações irregulares Fonte: O Autor, 2013. 4.1 O PLANO DIRETOR De acordo com o Plano Diretor municipal, a bacia do rio da Vila está inserida sobre a Zona de Consolidação e Expansão Urbana (ZCEU) e Zona de Consolidação e Qualificação Urbana (ZCQU), conforme observado na figura 22. ZCQU ZCEU Área Rural Figura 22: Zoneamento na Região da Bacia do Rio da Vila Fonte: PDDI, 2007. Org.: SILVA, 2013. Por meio da lei complementar nº 62, de 27 de agosto de 2007, de Paranaguá, ficou estabelecido o zoneamento urbano municipal, bem como a definição das zonas localizadas na bacia. Na região da bacia está localizada a ZCQU-2 e a ZCEU-1. A 46 primeira é caracterizada, no art. 29 da referida lei, por “possuir áreas consolidadas regulares e irregulares, áreas passíveis de ocupação e proximidade com área de proteção e conservação ambiental”. A segunda é caracterizada, no art. 35, “por possuir áreas com grandes porções de terra, ocupadas de forma rarefeita, aptas à ocupação, carentes de infraestrutura, serviços e atividades socioeconômicas”. A lei municipal estabelece, nos artigos 30 e 36, para essas duas regiões, a promoção da ocupação ordenada do território, a qualificação da paisagem, a implantação de novos usos e atividades (com foco no habitacional), a ampliação de equipamentos e serviços públicos, a ampliação da oferta de infraestrutura (visando a ocupação do território), e a preservação ambiental do entorno. Essa divisão permite realizar uma primeira reflexão sobre as dinâmicas de ocupação dessa região. Pode-se afirmar que a bacia do rio da Vila está imersa na região preferencial de expansão do município e, portanto, a sua configuração social e ambiental está diretamente ligada à atuação da gestão pública, que admite e considera as deficiências da região na forma do zoneamento. Dessa forma, concluise que, se por um lado o modo de ocupação acelerado trouxe impactos ambientais e sociais à área da bacia, por outro se propõe que haja uma readequação e melhoramentos desses espaços, através da consolidação das ZCQU e ZCEU. 47 5 CONCLUSÃO Apesar de todas as dificuldades o objetivo principal deste trabalho foi atingido, com a construção do banco de dados georeferenciado da bacia do rio da Vila no ambiente do SPRING. O software é uma ferramenta que possui muito recursos, porém o aprendizado para sua manipulação demandou muito tempo. No entanto pode-se concluir que os objetivos traçados no escopo deste trabalho foram cumpridos. 48 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A pressão por moradias em Paranaguá é muito alta. O jornal Gazeta do Povo noticiou tal problemática 7 , levantando também uma possível solução: a verticalização das moradias. Apesar de polêmico do ponto de vista das potencialidades da paisagem, segundo o jornal, é uma questão de tempo para que essa transformação ocorra. Enquanto isso, o modelo de crescimento observado neste trabalho ainda é o horizontal, e se desenvolve sem uma infraestrutura mínima, modelo que se agrava quando considerada a velocidade com que se observam as ocupações irregulares na área da bacia do rio da Vila. Esse modelo esboça práticas descompassadas com o previsto no Estatuto da Cidade e no Plano Diretor do município. O que foi possível constatar é uma ausência do poder público em gerir a ocupação dos espaços de maneira coerente e equilibrada. Verifica-se a falta de se pensar prioridades para a gestão urbana, que é verificado na interferência do poder público somente depois que as ocupações irregulares já se estabeleceram e passam, aos poucos, a representar novos núcleos populacionais. Há de se considerar ainda os impactos ambientais que esse modelo provoca. Haja vista a grande perda de cobertura vegetal na área da bacia e os impactos que reverberam na quantidade e qualidade da água, bens necessários à manutenção da vida. Embora a Bacia Hidrográfica Incremental do Rio da Vila represente apenas um por cento da área total do município, ela é a área preferencial, senão a única, para o crescimento urbano e, portanto, precisa ser gerida de forma a reduzir os impactos e cumprir com o disposto no Plano Diretor e Estatuto da Cidade: que todos têm e merecem o direito à cidade. 7 Crescimento e preservação em sintonia. Disponível em: <www.gazetadopovo.com.br/imobiliario/conteudo.phtml?id=1378862>. Acesso em: 26 nov. 2013. 49 REFERÊNCIAS BRAGA, R. Planejamento urbano e recursos hídricos. In: BRAGA, R.; CARVALHO, P. F. (Org.) Recursos Hídricos e Planejamento Urbano e Regional. Rio Claro: UNESP, 2003. p. 113-127. BRASIL. Casa Civil. Constituição Federal de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 26 nov. 2013. CAMARA, G.; SOUZA, R.C.M.; FREITAS, U.M.; GARRIDO, J. SPRING: Integrating remote sensingand GIS by object-oriented data modeling. [S.l.]: Computers & Graphics, mai-jun 1996. pp. 395-403. CANEPARO, S. C. A Dinâmica Espacial da Ocupação dos Manguezais (1952-1996). Desenvolvimento e meio ambiente: em busca da interdisciplinaridade: pesquisas urbanas e rurais, Curitiba, n. 77, p. 63-71, 2002. CARVALHO, S. N. de. Estatuto da cidade: aspectos políticos e técnicos do plano diretor. São Paulo, Perspec, 2001, vol.15, n. 4, p. 130-135. CASTRO, F. V. F.; SOARES FILHO, B. S.; VOLL, E. Cartografia Temática. 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