Anais da XI Jornada de Iniciação Científica da UFRRJ Em busca de soluções para a questão da violência contra a mulher no campus da UFRRJ* Carolina Chaves Araujo1, Perla Alves Ferreira2, Ana Angélica Fonseca 3 & Maria de Freitas Campos4 1,2,3. Aluna de graduação do Curso de Economia Doméstica. E-mail: [email protected]; 4. Professora do Departamento de Economia Doméstica. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, ICHS, DED. BR 465, KM 7, Seropédica, RJ. CEP: 23890-000. * Trabalho apresentado no XVI CBED – Viçosa/MG. Palavras-chave: Violence, Genus, Campus e Society. Abstract Rio de Janeiro, da atuação do Vice-reitor da Rural, a partir da mesa redonda, cujo o tema era – Violência e Mulher, organizada pela área de Ciências Sociais da Universidade, foi criada uma comissão para tratar da violência contra a mulher no Campus. Mediante tais acontecimentos fez-se um contato com o Departamento de Economia Doméstica e uma professora da área de família orientadora de uma estagiária com interesse no tema. Foi definido então um plano de trabalho. The violence against women has ben increased inside UFRRJ campus. This fact is really upsetting and results in various psychological and social problems. The purpose of this paper is to show the experience lived by three students of Domestic Economy who have interviewed 60 women students living at the University lodgement, aged between 20 and 35 years old. The women were asked for about the circulation inside and outside the campus, company, routines and violence endurance. The consideration about violence and this experience, reinforced the idea of an SOS violence inside the campus, corresponding to the course and its family area. Material e Métodos Na primeira etapa foi elaborado um folder e um questionário. Nosso trabalho foi testar este piloto. Para o teste optou-se por trabalhar com questionário incluindo uma amostragem de 10% das alunas alojadas no campus. A intenção é que a pesquisa seja estendida a todas as mulheres da UFRuralRJ. Esta experiência assumida por três alunas do Curso de Economia Doméstica, teve como objetivo inicial a verificação da adequação do instrumento. Em paralelo possibilitou a vivência da adequação da teoria à prática. Introdução O conhecimento da existência de violência contra a mulher dentro do Campus da UFRRJ tem-se acentuado e provocado a preocupação interna nos últimos anos. Este trabalho partiu de uma situação concreta: a denúncia de um aluno que no ano de 2000 presidia o DCE e foi procurado por colegas que passaram por situações de violência. Através da coleta de dados de jornais e relatos de vítimas, conseguiu-se a publicação das denúncias em um conceituado veículo de comunicação. A partir deste fato houve uma reunião associada as presenças com autoridades internas e externas ao Campus, onde acontecimentos muito sérios foram revelados. A extensão do problema pode ser avaliada pela presença na reunião de um deputado estadual do PT, da representante do Conselho Estadual de Direitos da Mulher, da Coordenadora das Delegacias Especiais de atendimento à mulher do Estado do Resultados e Discussão A violência como questão social A violência contra a mulher coloca-se entre as três modalidades mais graves de violência criminal constatadas no Brasil. Todas elas estão, de algum modo, articuladas à maior das violências, que concerne à violência estrutural associada à exclusão em massa da cidadania. Modificar essa situação, 339 v. 11, n. 2, p. 339-342, 2001 Anais da XI Jornada de Iniciação Científica da UFRRJ contextualiza o homem autor da onipotência. Ela faz gerar relações de gênero pressupostas por pactos construídos historicamente através das raízes patriarcais reforçadoras da sexualidade masculina. Em muitos casos, pode-se ver ainda a hierarquia entre os homens e mulheres “aqui em casa em mando, lá fora são eles”. São dois níveis de poder bem demarcados em espaços diferentes, em contexto de desigualdade. O preço que as mulheres pagam por esse poder é alto, como a fragilização pela não-participação e o não – reconhecimento dos seus direitos. A linha divisória entre a casa e rua começa a ser cada vez menos nítida na sociedade moderna pela circulação dos indivíduos, homens e mulheres. Mas ao reforço do intimismo corresponde hoje uma vivência da intimidade nos mais diversos espaços, como aponta GIDDENS. Por outro lado, o marcante “cercamento” e “gradeamento” das áreas residenciais demonstram, em cidades brasileiras, o medo das famílias e a contraposição à violência previsível, dirigida às famílias como um todo, mas em especial aos seus membros visto como frágeis. A violência contra a mulher não pode ser classificada como “crime menor”, porque supostamente, é dirigida a uma pessoa que tem menos cidadania e possui valores inferiores ao do homem. Prevalecendo, então, a relação de submissão da mulher em relação ao homem. longe de ser um “caso de polícia”, depende de medidas que promovam uma mudança cultural profunda. Para que isso ocorra, é certo que precisam ser revistas as relações de poder, reordenada a educação das crianças, para que as formas opressivas que assumem os papéis sociais “mulher” e “homem não se perpetuem. São medidas que não se concretizam a curto prazo. Nesse caso específico, é extremamente importante ressaltar a idéia a qual palavra Campus nos remete, que é de espaço restrito e aparentemente seguro. Mas na verdade, o que se destaca é o livre acesso ao Campus e a falta de identificação pessoal e social. As denúncias aumentaram consideravelmente e as vítimas muitas vezes são responsabilizadas pelos atos violentos sofridos, quer pela ação contundente do agressor, quer seja pelo descaso das autoridades constituídas e setores da sociedade. Culpabilizar as mulheres pela violência sofrida, colocar no seu comportamento ou na sua vestimenta as razões do abuso sexual é uma forma primária de dar significado às relações de poder, que tem mantido historicamente a desigualdade entre homens e mulheres. Exatamente por isso esta pesquisa se torna relevante. A violência de gênero é uma das piores faces da discriminação contra as mulheres. Uma questão que ultrapassa fronteiras e não escolhe idade, cor, etnia, religião, nacionalidade, opção sexual ou condição social. A violência contra a mulher envolve o reconhecimento dos seus direitos, presentes na Constituição Brasileira. Faz-se necessário cientificar aquelas mulheres vítimas da violência, que aceitam este fato em suas vidas, a praticar a denúncia. Torna-se fundamental que se estabeleça e se perpetue a identidade de lutadora, construída no enfrentamento de situações de risco. No entanto, é ideal que se supere esta necessidade pela superação das condições de risco. Retoma-se então JURANDIR COSTA, quando menciona uma banalização da violência que, na sua nova feição no Brasil expõe as pessoas a suas regras próprias, gerando expectativas e padrões de respostas. Em conseqüência, as leis e outros meios legais de coerção perderam seu poder normativo, levando os indivíduos a agirem no vácuo, sentindo-se no direito de tomar decisões sem limites, desligados dos ideais sociais. A isto se acrescenta o fato de que ao homem brasileiro coube historicamente o papel de alguém que definia normas e direitos, com certa valorização da desigualdade, quando esta satisfazia aos seus interesses. É dentro dessa desigualdade que se Questão jurídica Em 1993, a ONU reconheceu a violência contra a mulher como um obstáculo ao desenvolvimento, à paz e aos ideais de igualdade entre os seres humanos. Considerou-se também que a violência contra a mulher é uma violação aos direitos humanos e que esta violência se baseia, principalmente, no fato da pessoa agredida pertencer ao sexo feminino. As mulheres não podem exercer seus direitos plenamente. Isso se deve à falta de conhecimento das leis que estão em vigor e, pelo fato dos governos e das comunidades não respeitá-las. Faz-se necessário, que toda a população reconheça que a violência contra a mulher é um obstáculo ao desenvolvimento e à consolidação plena da democracia no Brasil. Algumas leis como: Lei Estadual 1886/91, que determina penalidade aos estabelecimentos que discriminam mulheres; proíbe a chantagem sexual, a exigência de testes de urina ou sangue para verificação de gravidez e a comprovação de esterilização para a admissão ou 340 Anais da XI Jornada de Iniciação Científica da UFRRJ mais um questionário poderá provocar alguma mudança em relação a violência contra a mulher. Foi constatado um dado no mínimo alarmante: poucas pessoas conhecem os artigos do código penal dos direitos da mulher. Esse fato contribui para a falta de legislação repressiva e pouco esforço do governo de fazer valer a legislação atual. A violência deve ser estudada como uma questão de desigualdade entre os sexos e de direitos humanos da mulher cuja, a solução implica melhorar a sua condição jurídica e social e criar condições para que participe plenamente da sociedade. Os governos devem adotar medidas para promover a educação da comunidade. O público alvo se mostrou muito interessado no projeto de criar um grupo SOS Mulher contra a violência na UFRuralRJ e afirmaram utilizálo se necessário. Dentre os dados acrescentados estão reivindicações basicamente relacionadas a iluminação, transporte e policiamento no Campus. permanência no emprego; e outras que punem a violação dos direitos humanos, todas são de suma importância para inserção no conhecimento de toda a população. A experiência de coleta de dados através do questionário nos mostrou que a faixa etária permaneceu entre 20 e 35 anos e que a população entrevistada em sua maioria é de cor branca. Ficou claro que o tempo de permanência na Universidade é integral e que algum desse tempo é utilizado na realização de cursos extra curriculares, esportes e participação em grupos no Campus. Para a realização dessas atividades de vivência social fora do horário de funcionamento da Universidade, o grupo relacionado sente necessidade de estar sempre acompanhado, mesmo apenas para locomoção dentro do Campus e sozinhas apenas para o inevitável. Muitas alunas enfocaram o fato de precisarem se deslocar apenas para aulas e, ainda assim sentem-se ameaçadas pela falta de segurança nos caminhos para os institutos. Dentre as entrevistadas, a metade relatou possuir vida sexual ativa e todas possuem conhecimento sobre métodos contraceptivos, assim como campanhas sobre AIDS e DSTs. Um número considerável entre as alunas confessou ter sofrido algum tipo de constrangimento por parte de funcionários, professores ou estudantes e muitas vezes alguém da convivência, e complementaram como sendo uma conduta explícita. Algumas sentiram-se pressionada devido à conduta envolver constrangimento no caso da relação poder. Quanto a discriminação racial, não foi relacionado um único caso envolvendo assédio sexual. Um dado muito explícito foi a necessidade que as alunas sentem de evitar determinados lugares. Dentre os relatos foi registrado muitos depoimentos envolvendo constrangimento com uso de arma. Neste observou-se que as pessoas raramente comunicavam as autoridades mas apenas a amigos e família. Quanto ao policiamento do Campus, os relatos foram extremamente parecidos. As alunas se sentem inseguras para transitar no Campus mesmo nos horários de maior movimento, intervalos entre aulas e até horário de almoço. Isso se dá pela falta de policiamento no Campus e o policiamento que existe é tido como precário e em muitos relatos denominado péssimo. Perante muitos outros trabalhos anteriormente realizados com relação a segurança no Campus, algumas entrevistadas dizem que acreditam, mas, o que se percebe é uma descrença de que a realização de Conclusões O questionário utilizado proporcionou observações paralelas. Observa-se a existência de pessoas que querem denunciar mas que têm medo de algum tipo de repressão. Por isso muitas entrevistadas valorizaram a idéia da criação de um grupo SOS Mulher contra a violência. Este, por sua vez, objetivando fixar base de referência para denúncia, paralela a um apoio social e psicológico. Temos a consciência de ter atingido em parte, nossos objetivos principais. A crítica ao questionário levou à indicação de novas perguntas e à percepção de que algumas não estão claras. Além disso, percebemos a diferenciação de posturas entre entrevistados e entrevistadores e a necessidade de um espaço de ampliação do questionamento. Pertencendo ao mesmo universo das entrevistadas nos mantivemos atentos às nossas identificações ao mesmo tempo em que percebemos a facilidade de aproximação. Agradecimentos e Auxílio Financeiro Os autores agradecem a ajuda prestada pelas estudantes que vivem nos alojamentos da UFRRJ. 341 v. 11, n. 2, p. 339-342, 2001 Anais da XI Jornada de Iniciação Científica da UFRRJ Referências Bibliográficas IBAM/UNICEF. Mulher e Políticas Públicas, Rio de Janeiro,1991. ALMEIDA, A.M. de. et al. Pensando a Família no Brasil da Colônia a Modernidade, Rio de Janeiro/ Editora da UFRRJ, 1987. JORNAL DO BRASIL. 18 de maio de 2000, pág. 27. JORNAL DA CIDADANIA. dezembro 2000/ janeiro 2001, páginas 6 e 7. CEPIA/CEDIM. Um Guia de Defesa, Orientação e Apoio/ Violência Contra a Mulher, 2ªed. REVISTA PROPOSTA. março 1994, nº 60 Ano 22. COSTA, J.F. O medo social in Veja Reflexões para o Futuro, 1993. RURAL SEMANAL. abril 24 a 30 2001, nº 11 Ano VII. DA MATTA, R. 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