UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E DA SAÚDE CURSO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS Danilo Scudilio Maranho PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: ANÁLISE DAS COMPETÊNCIAS E HABILIDADES EXIGIDAS PELO EXAME DA FUVEST São Paulo 2010 DANILO SCUDILIO MARANHO PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS: ANÁLISE DAS COMPETÊNCIAS E HABILIDADES EXIGIDAS PELO EXAME DA FUVEST Trabalho de Graduação Interdisciplinar apresentado ao Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como exigência parcial para a obtenção do grau de Licenciatura em Ciências Biológicas Orientadora: Prof. Dra. Rosana dos Santos Jordão São Paulo 2010 Dedico este trabalho à minha família e amigos, por se constituírem enquanto pessoas, igualmente admiráveis em essência, estímulos que me impulsionaram a buscar vida nova a cada dia. Meus agradecimentos por terem aceitado se privar de minha companhia pelos estudos, me concedendo a oportunidade de realizar-me ainda mais. “O que sabemos é uma gota. O que não sabemos é um oceano.” – Isaac Newton. AGRADECIMENTOS Ao Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, assim como a Universidade Presbiteriana Mackenzie, pelo apoio e infraestrutura disponibilizadas para a realização deste presente estudo. A minha Orientadora Prof. Dra. Rosana Santos Jordão, pelo incentivo, confiança, presença, simpatia e auxílio às atividades e discussões sobre o andamento e normatização deste Trabalho de Conclusão de Curso. Aos professores do corpo docente da Licenciatura, Adriano Monteiro de Castro, Magda Pechliye, Rosana Santos Jordão, que com garra, coragem e muita insistência, nos preparam para este momento sublime, onde todo o esforço conjunto não foi perdido, mas foi se construindo e renovando de forma a garantir o nosso melhor. A Deus pela oportunidade e pelo privilégio que me foi dado em compartilhar tamanha experiência e, ao freqüentar este curso, perceber e atentar para a relevância de temas que não faziam parte, em profundidade, de minha vida. A minha família, especialmente meus pais José e Maria, e minha irmã Michelle, que mais uma vez me guiaram com luz e carinho neste tempo de difícil convivência, sempre me cobrando e me instigando a realizar e produzir coisas, só esperando o meu melhor. Aos meus amigos que me mostraram, e ainda mostram todos os dias à importância de ser amado, e de conviver com pessoas íntegras e humildes. Agradeço especialmente aos colegas da Licenciatura, Bianca Kida, Maria Eduarda Kolonko, Natalia Moreira, Raisa Abdalla e Soraya Maciel, que passaram e lutaram pelo mesmo processo, sempre compartilhando experiências, dúvidas, anseios e medos. Lembro também o amigo Fernando Grimaldo, que me incentivou a nunca desistir do presente estudo e a sempre continuar estudando e batalhando por um ideal, mesmo quando adversidades batiam a minha porta, meus profundos e sinceros agradecimentos. Aos colegas de classe pela espontaneidade e alegria na troca de informações e materiais em uma rara demonstração de amizade e solidariedade. Agradeço a todos que tiveram de tolerar minha relutância, aceitar minha ausência em atividades e eventos, e puderam ser capazes de compreender o quanto significava para mim. E, finalmente, meus sinceros agradecimentos a todos os que participaram da minha vida, e que de alguma forma, me levaram até a realização deste presente estudo, fruto de muito trabalho, dedicação, alegria e choro. RESUMO Em textos de educação, é freqüente encontrar os termos competências e habilidades, e estas idéias se estabelecem como fundamentais para uma educação que informe e forme o aluno de forma a torná-lo capacitado. Dessa forma, o currículo por competências se estabeleceu mais fortemente no contexto educacional brasileiro com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) em 1999, e suas orientações complementares (PCN+), em 2002. Com isto, o presente estudo busca identificar e analisar competências e habilidades exigidas em um vestibular de Biologia muito conhecido, a FUVEST, tendo como base os Parâmetros Curriculares Nacionais, para analisar se este exame de vestibular se adéqua a este sistema. Foram analisadas duas provas de vestibular, uma de 1996 e outra de 2010, com base em categorias de competências e habilidades. A análise das questões de vestibular mostrou as habilidades exigidas em cada prova. As provas possuíam perfil semelhante quando da exigência de um grupo de competências, porém em sua essência, cada uma delas abordava e exigia habilidades de forma diferenciada, uma de caráter mais conteudista e a outra de caráter mais abrangente, mobilizando mais recursos e competências. Palavras-chave: competências; habilidades; currículo; PCN; PCN+; FUVEST; Biologia; ABSTRACT Texts in education, we often find the terms skills and abilities, and these ideas are established as fundamental to an education that informs and forms the student in order to make it capable. Thus, the curriculum by competencies are more strongly established in the Brazilian educational context with the publication of the National Curriculum Parameters (PCN) in 1999 and its supplementary guidance (PCN +), in 2002. With this, the present study seeks to identify and analyze skills and abilities required in a well known biology vestibular, the FUVEST, based on the National Curriculum, to examine whether this examination of vestibular system fits this. We analyzed two vestibular tests, 1996 and 2010, based on categories of competences and skills. The analysis showed vestibular issues of the skills required in each event. The tests had a similar profile when the requirement of a group of skills, but in essence, each addressed and required skills in different ways, a character more content and another of a more comprehensive, mobilizing more resources and expertise. Keywords: skills, abilities, curriculum, PCN, PCN +; FUVEST; Biology; SUMÁRIO 1. Introdução ....................................................................................................... 10 2. Referencial Teórico......................................................................................... 12 3. Procedimentos Metodológicos ....................................................................... 30 3.1 Coleta de Dados ....................................................................................... 30 3.2 Análise de Dados ..................................................................................... 31 3.3 Categoria 01............................................................................................. 32 3.4 Categoria 02............................................................................................. 33 3.5 Categoria 03............................................................................................. 34 4. Resultados e Análise ....................................................................................... 36 5. Considerações Finais ...................................................................................... 52 6. Referências Bibliográficas ............................................................................. 54 7. Anexos .............................................................................................................. 57 Anexo 1 – Prova de vestibular FUVEST 1996................................................. 58 Anexo 2 – Prova de vestibular FUVEST 2010................................................. 65 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Diferenças entre Escola Tradicional e Escola Nova ................ 20 Tabela 2 – Conjunto de competências “Representação e Comunicação” ............................................................................................ 24 Tabela 3 – Conjunto de competências “Investigação e Compreensão” ............................................................................................ 25 Tabela 4 – Conjunto de competências “Contextualização sócio-cultural” ............................................................................................ 26 Tabela 5 – Competências, habilidades e conceitos verificados no exame de 1996 ....................................................................................... 36 Tabela 6 – Competências, habilidades e conceitos verificados no exame de 2010 ....................................................................................... 37 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Frequência geral das competências exigidas no exame da FUVEST 1996 e 2010 ................................................................................ 39 Figura 2 – Comparação de competências exigidas nos exames da FUVEST 1996 e 2010 ................................................................................ 40 Figura 3 – Frequência relativa geral e específica exigidas pelos exames de 1996 e 2010 ............................................................................... 42 10 1. Introdução Sobre a educação escolar, dados do Censo 2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indicam um aumento da taxa de escolarização entre jovens de 15 a 17 anos, de 55,3% para 78,8%. Dessa forma, os jovens possuem maior acesso a escolarização formal e nela se mantém por mais tempo, principalmente devido a reprovações sistemáticas, que criam distorções entre a idade ideal e a série cursada, causando especulações, dúvidas e preocupações quanto aos rumos da educação no Brasil. Uma preocupação que ganha destaque na área da educação é a oferta de um ensino globalizado e uniforme, capaz de formar com qualidade todos que dele usufruem. Com essa tônica, foram criados programas que orientem e concretizem esse ensino de qualidade a todos. Tais programas têm como base A Lei de Diretrizes e Bases (LDB), os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM), e suas orientações complementares publicadas posteriormente, os PCN+. Estes dois últimos documentos norteadores deste estudo. Estes documentos estão pautados em três princípios: o desenvolvimento de competências e habilidades, a interdisciplinaridade e a contextualização dos conteúdos. Como esclarece Valente (2003), ao se procurar compreender sobre competências e habilidades encontradas no contexto educacional brasileiro, percebe-se uma escassez de literatura e produções teóricas sobre o assunto. As competências em documentos oficiais servem como princípios organizadores do currículo. Constituem-se em conhecimentos fundamentais que se espera que o aluno adquira até o final da educação básica. Porém, o caráter classificatório do vestibular é entendido por muitos como algo que nega o ensino por competências, e não há como se preocupar com a qualidade de ensino, sem considerar-se a importância da avaliação como instrumento de acompanhamento, que resulta em classificações. Com isso, o exame vestibular tornou-se também uma ferramenta de verificação de conhecimentos para diferenciar os que mais sabem dos que menos sabem, e 11 vem sendo a principal forma de ingresso em universidades. Porém, será que os exames de vestibular exigem do aluno somente conceitos como muitos acham? E, quando exigidas, será que as competências e habilidades em provas de vestibulares são as mesmas descritas nos parâmetros curriculares nacionais? Buscando analisar provas de vestibular da FUVEST de Biologia, este estudo procurará identificar e comparar as competências e habilidades encontradas nessas provas com as descritas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s). 12 2. Referencial Teórico Trabalhar com competências e habilidades na escola é muitas vezes um processo difícil, por mais que amplamente citados por parâmetros curriculares e pela literatura, pois interfere em um fato ainda muito marcante para vários professores, o ensino de conteúdos conceituais (MACEDO, 2008). Para se alcançar um ensino que eduque o aluno de forma a que ele se torne independente e autônomo, e que lhe dê capacidade de aprendizado permanente, o professor deve proporcionar atividades nas quais o aluno possa mobilizar conhecimentos para seu aprendizado, ou seja, o currículo deve estar centrado no ensino de competências e habilidades (BERGER, 2001). O termo competência tem recebido vários significados ao longo do tempo e, como afirma Perrenoud (1999), não existe noção clara do significado de competência, uma palavra de muita variância a qual ninguém pode definir. O dicionário Aurélio, apresenta três significados para a palavra competência: “1. faculdade concedida por lei a um funcionário, juiz ou tribunal para apreciar e julgar certos pleitos ou questões; 2. qualidade de quem é capaz de apreciar e resolver certo assunto, fazer determinada coisa; capacidade, habilidade, aptidão, idoneidade; e, 3. oposição, conflito, luta.” Para Perrenoud (1999) e Machado (2006) competência seria uma capacidade, ou seja, uma faculdade de mobilizar recursos tanto cognitivos, quanto motores para resolver situações de forma eficaz e pertinente. A mobilização de recursos é um dos pontos mais importantes no contexto de competência, já que estas se referem a constituintes de cognição, porém Machado (2006) ainda complementa esta idéia, estabelecendo outros elementos fundamentais para a constituição da noção de competência: pessoalidade, âmbito, conteúdo, abstração e integridade. Para ele, competência é um atributo das pessoas (pessoalidade) e que se exerce num âmbito delimitado envolvendo e exigindo a mobilização de recursos. O desenvolvimento de competências é mediado por conteúdos 13 específicos que exigirão competências específicas, envolvendo capacidade de abstração e, como ninguém se desenvolve por si só, a presença de outros no processo (integridade). As idéias no campo das competências são muito diversas. No campo cognitivo, competências são “modalidades estruturais da inteligência, ou melhor, ações e operações que utilizamos para estabelecer relações com e entre objetos, situações, fenômenos e pessoas que desejamos conhecer”. Competências são operações de caráter psicológico, operações mentais estruturadas em rede que, mobilizadas, permitem a incorporação de novos conhecimentos e sua integração significada a esta rede, possibilitando a reativação de esquemas mentais e saberes em novas situações, de forma sempre diferenciada, garantindo desta forma, um aprendizado contínuo (BERGER, 2001, p. 03). A idéia de mobilização de recursos, ou de esquemas mentais para o desenvolvimento de competências é reforçada por Moretto (2002), quando em seu discurso diz que a mobilização de competências se dá pelo movimentar por força interior, intrínseca, o que difere de deslocar, que seria simplesmente transpassar algo de um lado para outro. A força intrínseca do indivíduo pode ser também descrita como o desejo de resolução da situação problema. A competência expressa um pedido, ou seja, o indivíduo sofre um confrontamento, que se caracteriza num desejo de realização formulado por outrem. Dessa forma, pedir, no âmbito de competências é o mesmo que desejar (MACEDO, 2008). Com relação à mobilização de recursos, esta não se caracteriza pelo uso estático de regras aprendidas, mas a capacidade de mobilizar, de forma criativa e inovadora, recursos quando necessários. Para Perrenoud (1999) e Mello (2003) mobilizar recursos então envolve, além de esquemas e conhecimentos, percepção, pensamento, avaliação, ação e habilidades, caracterizando-se também, pela experiência do sujeito, sendo construída na prática. O universo das competências está diretamente ligado a outros fatores que a cercam. Existem ainda três aspectos importantes para a significação de competências. O 14 primeiro, designado “pedir”, se manifesta no âmbito pessoal, já que a competência se caracteriza por um movimento de desejo do indivíduo, é “desejar aquilo que nos desafia para a boa realização da tarefa, que nos propomos a fazer ou cuja produção desejamos compartilhar” (MACEDO, 2008, p.01). O segundo é o de “pedir com”. O desenvolvimento de competências na escola está ligado a diversos fatores que não somente o desejo do indivíduo. Então, é necessário não somente o saber pedir, mas o de saber fazê-lo junto a coisas e pessoas que estão envolvidas no contexto escolar. Estes devem ser desenvolvidos juntos, visto que os processos precisam ser coordenados e orientados para que se obtenha um mínimo de sucesso (MACEDO, 2008). O terceiro ponto é o de “pedir contra”. Não basta somente saber pedir e saber fazê-lo junto. Estes dois aspectos se tornam indissociáveis do terceiro fator, que seria a competição e rivalidade. Durante todo o aprendizado, diversos aspectos rivalizam, confrontam e dificultam manter o foco. Daí se torna necessário o saber fazer escolhas, correr riscos, tentar e saber agir diante de imprevisto. Com esses três fatores, pode-se dizer que ser competente significa vencer em um ambiente onde diversos fatores rivalizam e dificultam a vitória (MACEDO, 2008). Além dos três pontos que colaboram no entendimento e na significação de competências, Macedo (1999) em seus estudos propõe uma classificação para as competências em três tipos: 1. Competência como condição prévia do sujeito, herdada ou adquirida. Nesta categoria o autor considera o pessoal, ou seja, considera capacidades genéticas e aquisições ou perdas decorrentes das capacidades inerentes, em maior ou menor grau, a todo ser humano. Como exemplo disso, o autor discorre do fato dos seres humanos terem aptidões, ou os comumente chamados, dons para certas funções, que necessitam de qualquer forma, serem trabalhados. 2. Competência como condição do objeto, independente do sujeito que o utiliza. Neste caso, atribui-se a competência ao objeto ou instituição. Dessa forma, a competência é 15 julgada não somente pela capacidade do indivíduo, mas também da capacidade do instrumento que está sendo utilizado. Por exemplo, a competência de um motorista não é julgada somente pela sua competência em dirigir, mas também pela potência do automóvel em que este se encontra. 3. Competência relacional. Este tipo de competência se caracteriza pela capacidade do indivíduo de relacionar suas próprias capacidades com as dos objetos/meios de que ele dispõe. Baseia-se na capacidade de mobilizar fatores internos para solucionar demandas externas. Essas demandas podem surgir inesperadamente ou serem previstas. De toda maneira, a forma de estabelecer relações, que venham a atender os objetivos ou necessidades, depende do próprio sujeito. Até o momento, expuseram-se algumas compreensões sobre o conceito de competência. É fundamental o diferenciar do conceito de habilidades tendo em vista que muitas pessoas o tomam como sinônimos. Sobre as habilidades, pode-se dizer que são consideradas como algo menos amplo do que competências, pois se caracterizam pelo contexto do saber fazer, sempre estando associadas a uma ação - física ou mental - indicadora de capacidade adquirida. Dessa forma, identificar, relacionar, aplicar, analisar, avaliar, manipular com destreza seriam capacidades ou habilidades adquiridas (MORETTO, 2002). Perrenoud (1999), Moretto (1999) e Machado (2006) concordam com a idéia de habilidades serem menos amplas que competências, porém defendem que as competências são formadas por inúmeras habilidades e, dessa forma, uma habilidade não pertence somente a uma determinada competência, uma vez que essa habilidade pode contribuir para diversas competências diferentes. Um feixe de habilidades, referidas a contextos mais específicos, caracteriza a competência no âmbito prefigurado; é como se as habilidades fossem microcompetências (MACHADO, 2008). 16 No dicionário, encontra-se que para ser competente, deve-se ser habilidoso. Porém, somente ser habilidoso não se caracteriza como suficiente para ser competente, colocando a habilidade como algo estruturante da competência. Habilidade é uma expressão da competência, porém a competência não se caracteriza por uma somatória de habilidades (MACEDO, 2008). Entende-se por competências, então, os esquemas mentais, ou seja, as ações e operações mentais de caráter sócio-afetivo, psicomotor ou cognitivo. Estas operações mentais, quando mobilizadas e associadas a saberes teóricos ou experienciais, geram habilidades, ou seja, um saber fazer. Dessa forma, as habilidades decorrem das competências adquiridas e, como citado anteriormente, referem-se ao plano imediato do saber fazer. Através das ações e operações, as habilidades aperfeiçoam-se e articulam-se, possibilitando nova reorganização das competências (BERGER, 2001). As habilidades se apresentam então como parte da família das competências. A diferença entre o que seria uma competência e o que seria uma habilidade depende do contexto. Um dado desempenho pode ser qualificado tanto como uma habilidade, quanto como uma competência (MACHADO, 2008). Machado (2008, p. 7) exemplifica, A competência para redigir um texto narrativo dependerá de habilidades como identificar as características do texto narrativo, empregar corretamente os sinais de pontuação, dentre outras. No entanto, para se identificar características do texto narrativo, será necessário conhecer os elementos da narrativa. Nesse caso, identificar características do texto narrativo deixa de ser uma habilidade para constituir-se em uma competência. No homem, as habilidades psicomotoras são as primeiras a serem construídas, principalmente na infância; em seguida, e gradativamente, tornamo-nos hábeis em falar, adquirimos a linguagem; enquanto isso, nosso esquema psicomotor continua se desenvolvendo, evoluindo para movimentos mais complexos, como andar de bicicleta, mais tarde dirigir um carro, etc. Ser hábil significa ser capaz de realizar alguma coisa. O homem desenvolve de formas diferentes os diversos tipos de habilidades: cognitivas, psicomotoras, afetivas, sociais (GARCIA, 2007). 17 Pode-se perceber que a habilidade não é tratada como algo inato ao ser humano, mas algo que é construído, trabalhado e treinado, modificando o olhar e capacitando o indivíduo a fazer determinada ação ou a exercer determinada faculdade mental (MACEDO, 2008). No caso do ensino de habilidades, Zabala (1998) afirma ser importante levar em consideração as etapas de como o aluno aprende: • A realização de ações que formam os procedimentos é uma condição essencial para sua aprendizagem; • A exercitação múltipla é elemento imprescindível para o domínio competente; • A reflexão sobre a própria atividade permite que o aluno tome consciência de sua própria atuação; • A aplicação em contextos diferenciados possibilita a transferência do conhecimento adquirido. Para a aprendizagem de habilidades, Zabala (1998) apresenta algumas condições que podem se constituir como etapas necessárias para isto. Para ele o professor deve partir de situações significativas e funcionais, estabelecendo em classe uma ordem, elaborando atividades de ensino seqüenciadas que atendam a um processo gradual. Além disso, o autor destaca a importância do que o trabalho dos alunos seja independente, pois dessa forma os aprendizes têm oportunidade de cumprir o proposto com independência, podendo mostrar sua competência no domínio do conteúdo aprendido, aplicando-o a contextos diferenciados. Como se pode notar, o atendimento das condições acima expressas pode levar ao desenvolvimento de habilidades e conseqüentemente de competências, tornando o aluno apto a aprender os conteúdos, e não somente memorizá-los. (MORETTO, 2002). 18 Esta idéia pode ser complementada quando ao conceituar competência como “uma capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiada em conhecimentos, mas sem limitar-se a eles”, Perrenoud (1999, p.07) explicita de forma precisa a integração entre competência e conhecimento; as competências, diz o autor, mobilizam conhecimentos, põem os conhecimentos em relação e em ação, ou seja, o aluno se torna apto a aprender conceitos. Porém, muitos assumem uma postura crítica diante do contexto educacional de ensino por competências, afirmando que as competências, de certa forma, excluem ou diminuem o valor dos conteúdos. Perrenoud (2000) explica que esse fato ocorre pela falta de entendimento dos profissionais com relação ao ensino de competências. Ainda em defesa desse tipo de ensino, Berger (2001, p.05) afirma: “Construir competências não pressupõe abandonar a apropriação de conhecimentos nem a construção de novos conhecimentos; ao contrário, estes processos são articulados sistemicamente”. Portanto, construir um currículo focado em competências não induz, nem propõe abandonar a transmissão dos conhecimentos, nem a construção de novos saberes; ao contrário, esses processos são indissociáveis na construção das competências. A diferença que ocorre, ou melhor, que se estabelece nesta proposta curricular é que o centro do currículo e, portanto, da prática pedagógica não será a transmissão dos saberes, mas o processo de construção, apropriação e mobilização desses saberes, já que a construção de competências depende de conhecimentos em situação, depende de significados (BERGER, 2001). Então, o ensino de competências nessa perspectiva é desenvolvido através de conteúdos específicos. Isso quer dizer que as competências centralizam o ensino, ou seja, a partir de uma determinada competência que se planeja desenvolver, o professor tem a liberdade de escolher o melhor conteúdo que se adéqüe à formação e à construção daquela competência. Dessa forma, os conteúdos se tornam agora instrumentos das habilidades, pois elas são desenvolvidas através de conteúdos específicos (MORETTO, 2010). Berger (2001) pontua que existe intensa exposição dos alunos a diversos conteúdos somente conceituais e propõe um modelo de ensino assentado sobre três pilares: 19 (I) a flexibilidade para atender a um mundo de informações em constante mudança; (II) o apoio à diversidade, garantindo atenção a grupos diferentes de pessoas; (III) e a contextualização, garantindo uma base de ensino comum, permitindo a significância do ensino para os alunos. Esses três pilares são fundamentais também para o ensino por competências. Antes mesmo de Berger (2001) pontuar os três pilares para o ensino por competências, em 1990, foi realizada a Conferência Mundial de Educação para Todos, em Jomtien, Tailândia. Nessa conferência foram definidos quatro princípios da educação: aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a viver com os outros e aprender a ser. A análise desses princípios mostra que eles vão muito além da informação ou mesmo do mero desenvolvimento de um conhecimento intelectual. Abarcam toda a formação humana e social da pessoa. Em decorrência desses apontamentos, começaram a surgir documentos oficiais em forma de leis ou propostas, com a preocupação de tornar o ensino focado no desenvolvimento de competências, como modo de colaborar na formação social (GARCIA, 2007). No Brasil, os documentos que indicam os novos rumos que a educação almeja seguir são a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN e PCN+). Nestes documentos é clara a mudança de foco proposta na intervenção pedagógica, caracterizando desta forma, um currículo por competências (MORETTO, 1999). Considerando-se tal contexto, buscou-se construir novas alternativas de organização curricular para o Ensino Médio, pautada por duas vertentes: o comprometimento com o significado atual que o trabalho exerce num mundo globalizado e, por outro lado, o comprometimento com o indivíduo, o sujeito ativo que construirá seus conhecimentos. “Há, portanto, necessidade de se romper com modelos tradicionais, para que se alcancem os objetivos propostos para o Ensino Médio” (BRASIL, 1999, p. 14). Como dito anteriormente, existe uma mudança de foco na educação, de uma “Escola Tradicional” para a chamada “Nova Escola”. Para o melhor entendimento da 20 mudança de foco existente, uma comparação entre a escola dita tradicional e a nova escola se mostra necessário. De acordo com Moretto (1999) essas duas modalidades de escola apresentam focos diferentes e meios bem definidos para alcançar esses objetivos, conforme mostra a Tabela 1. Tabela 1 - Diferenças entre a Escola Tradicional e a Escola Nova Escola Tradicional Nova Escola Foco: Aquisição de conteúdos com critério essencialmente acadêmico e muito desvinculado das representações trazidas pelo aluno do contexto externo, social e político. Foco: Aquisição de competências pelo desenvolvimento de habilidades de caráter cognitivo, afetivo e psicomotor. Tradução: O ensino ocorre por listas de conteúdos a serem aprendidas por memorização. Tradução: Nesse modelo, cessa o apelo à memorização. O aluno é capacitado a ser hábil o suficiente para enfrentar o contínuo progresso da sociedade. Meios para alcançar o foco: O aluno deve apresentar a habilidade de memorização e reprodução nos momentos em que é avaliado. Nesse contexto, a compreensão é tida como reprodução do que foi transmitido. Meios para alcançar o foco: Os conteúdos na Nova Escola são selecionados pelo contexto escolar, tendo como critérios a contextualização, relevância e o desenvolvimento do aluno. Os PCN e PCN+ se constituem como uma tentativa de mudança no cenário educacional, propondo mudanças curriculares e metodológicas das práticas pedagógicas na escola, para o alcance dessa “Nova Escola” (RICARDO e ZYLBERSZTAJN, 2007). Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) foram publicados em 1999, e estes documentos apresentam uma visão de currículo moderna e flexível: O termo currículo assume vários significados em diferentes contextos da pedagogia. Currículo pode significar, por exemplo, as matérias constantes de um curso. Essa definição é a que foi adotada historicamente pelo Ministério da Educação e do Desporto quando indicava quais as disciplinas que deveriam constituir o ensino fundamental ou de diferentes cursos do ensino médio. Currículo é um termo muitas vezes utilizado para se referir a programas de conteúdos de cada disciplina. Mas, currículo pode significar também a expressão de princípios e metas do projeto 21 educativo, que precisam ser flexíveis para promover discussões e reelaborações quando realizado em sala de aula, pois é o professor que traduz os princípios elencados em prática didática. Essa foi a concepção adotada nestes Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1999). Depois da publicação dos PCN (1999), se percebeu a necessidade de informações adicionais para o documento, e também a necessidade de explicitar o conceito e contexto de currículo por competências, ocorrendo então a publicação dos PCN+ no ano de 2002, como orientações complementares dos PCN. Em sua organização, os PCN+ agruparam as disciplinas em grandes áreas do conhecimento, uma vez que as competências e habilidades a serem desenvolvidas exigem conteúdos de diferentes disciplinas. Por isso, sua organização é feita por temas estruturadores, supondo que cada tema englobe conteúdos e atividades que sejam capazes de formar determinado conjunto de habilidades. (LOPES, 2002). De acordo com Domingues, Toschi e Oliveira (2000), no novo modelo de formação curricular, definido pelo MEC, as propostas curriculares, a serem desenvolvidas pelas escolas, devem incluir competências básicas, conteúdos e formas de tratamento dos conteúdos coerentes com os princípios pedagógicos de identidade, diversidade e autonomia e, também, os princípios de interdisciplinaridade e contextualização, adotados como estruturadores do currículo do Ensino Médio. A interdisciplinaridade, que abriga uma visão epistemológica do conhecimento e a contextualização, que trata das formas de ensinar e aprender deve permitir a integração de duas dimensões do currículo: 1. A base nacional comum e a parte diversificada, e 2. A formação geral e a preparação básica para o trabalho. Os Parâmetros Curriculares apresentam em sua essência um objetivo explicitado em seus textos, o de que o documento pretende discutir, nos vários níveis e contextos escolares, a condução do aprendizado como forma de se encaixar nas constantes transformações sociais e culturais da sociedade contemporânea, respondendo no que for possível a essas mudanças (BRASIL, 2002). 22 O objetivo central dos Parâmetros Curriculares é o de facilitar a organização do trabalho escolar. Para isso, o documento apresenta as competências gerais que se deseja promover e alcançar ao final do processo. Para isso, sugere a articulação entre os conhecimentos disciplinares, trazendo um conjunto de sugestões de práticas educativas e de organização curricular que, levados pela coerência na articulação, estabelece ainda temas estruturadores do ensino disciplinar na área (BRASIL, 2002). Com a leitura, pode-se perceber na nova proposição curricular que nem as escolas, nem os professores recebem um currículo pronto. A idéia é que os professores desenvolvam seu próprio currículo. Os PCNs apresentam, portanto, o currículo como princípios e metas do projeto educativo, deixando um amplo espaço para a criatividade do professor (BRASIL, 1999). Com a reformulação do Ensino Médio no Brasil pela Lei de Diretrizes e Bases de 1996, o Ensino Médio passa a ser etapa conclusiva da educação básica de toda a população, perdendo o seu caráter bivalente e dicotômico de somente formação préuniversitária ou profissionalizante. O novo ensino médio compõe, agora, a educação básica e assume, então, a meta de “preparar para a vida, qualificar para a cidadania e capacitar para o aprendizado permanente, em eventual prosseguimento dos estudos ou diretamente no mundo do trabalho” (BRASIL, 2002, p. 8). A perspectiva atual que se forma nesse contexto é a de uma aprendizagem permanente, de uma formação continuada, tendo como ponto central nessa construção o sujeito, a cidadania, em função das constantes mudanças sociais (BRASIL, 1999). Os objetivos de formação no nível do Ensino Médio são alterados priorizando-se a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico. Não há mais uma justificativa plausível para a exclusiva memorização de conhecimentos, muitas vezes ultrapassados pela constante mudança que sofrem. O ideal neste novo contexto é capacitar o aluno para que ele possa se desenvolver de forma a poder continuar aprendendo (BRASIL, 1999). 23 É importante destacar, tendo em vista tais aspectos e reflexões, as determinações da Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI, também contempladas pela Lei de Diretrizes e Bases Nacional, Lei nº 9.394/96, em seu contexto: a) a educação deve cumprir um triplo papel: econômico, científico e cultural; b) a educação deve ser estruturada em quatro alicerces: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver e aprender a ser. Preparar o aluno para todas essas características demanda um currículo voltado à formação social, além de conhecimentos conceituais, ou seja, exige condições efetivas de aprendizagem permitindo ao aluno: • Comunicar-se e argumentar; • Defrontar-se com problemas, compreendê-los e enfrentá-los; • Participar de um convívio social que lhes dê oportunidades de se realizarem como cidadãos; • Fazer escolhas e proposições; • Tomar gosto pelo conhecimento, aprender a aprender. A base nacional dos currículos perde seu contexto estritamente disciplinar e organiza o novo ensino médio em três grandes áreas: 1. Linguagens, códigos e suas tecnologias; 2. Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias; 3. Ciências humanas e suas tecnologias. A área de Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias engloba as disciplinas de Biologia, Física, Química e Matemática. Estas ciências compartilham uma mesma área, pois possuem em comum a investigação da natureza e do desenvolvimento 24 tecnológico, compartilhando também linguagens para representações e sistematizações, compondo assim a cultura científica e tecnológica humana. Os objetivos educacionais que compõem essa área se comportam de forma a se organizarem em conjuntos de competências: São os conjuntos: Representação e comunicação; Investigação e compreensão; e Contextualização sócio-cultural. Todos os conjuntos de competências se relacionam de forma a garantir o aprendizado significativo para o aluno e devem se desenvolver de forma integrada, ou seja, as disciplinas conjuntamente se desenvolvendo. Cada conjunto de competências abarca em si, um desenvolvimento de habilidades próprias. A seguir são apresentadas as Tabelas 2, 3 e 4, retiradas na íntegra dos PCN+ (2002), cada uma delas indicando um conjunto de competências gerais e suas competências específicas. No conjunto Representação e Comunicação encontram-se as seguintes competências: Tabela 2 – Conjunto de competências “Representação e Comunicação” REPRESENTAÇÃO E COMUNICAÇÃO Símbolos, códigos e nomenclaturas Reconhecer e utilizar adequadamente na forma oral e escrita símbolos, códigos e nomenclatura da linguagem científica Articulação dos símbolos e códigos Ler, articular e interpretar símbolos e códigos em diferentes linguagens e representações: sentenças, equações, esquemas, diagramas, tabelas, gráficos e representações geométricas Análise e interpretação de textos e outras comunicações Consultar, analisar e interpretar textos e comunicações de ciência e tecnologia veiculadas por diferentes meios Elaboração de comunicações Elaborar comunicações orais ou escritas para relatar, analisar e sistematizar eventos, 25 fenômenos, experimentos, questões, entrevistas, visitas, correspondências Discussão e argumentação de temas de interesse Analisar, argumentar e posicionar-se criticamente em relação a temas de ciência e tecnologia Fonte: BRASIL, 2002, p. 27 No conjunto Investigação e compreensão, estão alocadas as seguintes competências: Tabela 3 - Conjunto de competências “Investigação e Compreensão” INVESTIGAÇÃO E COMPREENSÃO Estratégias para enfrentamento de situações problemas Identificar em dada situação-problema as informações ou variáveis relevantes e possíveis estratégias para resolvê-la Interações, relações e funções; invariantes e transformações Identificar fenômenos naturais ou grandezas em dado domínio do conhecimento científico, estabelecer relações; identificar regularidades, invariantes e transformações Medidas, quantificações, grandezas e escalas Selecionar e utilizar instrumentos de medição e de cálculo, representar dados e utilizar escalas, fazer estimativas, elaborar hipóteses e interpretar resultados Modelos explicativos e representativos Reconhecer, utilizar, interpretar e propor modelos explicativos para fenômenos ou sistemas naturais ou tecnológicos Relações entre conhecimentos disciplinares, interdisciplinares e interáreas Articular, integrar e sistematizar fenômenos e teorias dentro de uma ciência, entre as várias ciências e áreas de conhecimento Fonte: BRASIL, 2002, p. 30 No último conjunto, apresentadas as seguintes competências: o de Contextualização sócio-cultural, são 26 Tabela 4 - Conjunto de competências “Contextualização sócio-cultural” CONTEXTUALIZAÇÃO SÓCIO-CULTURAL Ciência e tecnologia na história Compreender o conhecimento científico e o tecnológico como resultados de uma construção humana, inseridos em um processo histórico e social Ciência e tecnologia na cultura contemporânea Compreender a ciência e a tecnologia como partes integrantes da cultura humana contemporânea Ciência e tecnologia na atualidade Reconhecer e avaliar o desenvolvimento tecnológico contemporâneo, suas relações com as ciências, seu papel na vida humana, sua presença no mundo cotidiano e seus impactos na vida social Ciência e tecnologia, ética e cidadania Reconhecer e avaliar o caráter ético do conhecimento científico e tecnológico e utilizar esses conhecimentos no exercício da cidadania Fonte: BRASIL, 2002, p. 32 Os PCNs como visto, estão pautados no desenvolvimento de competências e habilidades, mas também em mais dois princípios: a interdisciplinaridade e a contextualização dos conteúdos (VALENTE, 2003). A interdisciplinaridade e a contextualização, segundo Domingues, Toschi e Oliveira (2000), devem ser o recurso ou a estratégia para superar o agrupamento de conteúdos, tornando-os adequados às características dos alunos e do ambiente socioeconômico. Dessa forma a interdisciplinaridade nos PCNs, primeiramente, deve articular experiências, pois: nessa nova compreensão do ensino médio e da educação básica, a organização do aprendizado não seria conduzida de forma solitária pelo professor de cada disciplina, pois as escolhas pedagógicas feitas numa disciplina não seriam independentes do tratamento dado às demais, uma 27 vez que é uma ação de cunho interdisciplinar que articula o trabalho das disciplinas, no sentido de promover competências (BRASIL, 2002, p. 13). A interdisciplinaridade não tem por intenção criar novas disciplinas, mas tem intenção: de utilizar os conhecimentos de várias disciplinas para resolver um problema concreto ou compreender um determinado fenômeno sob diferentes pontos de vista. Em suma, a interdisciplinaridade tem uma função instrumental. Trata-se de recorrer a um saber diretamente útil e utilizável para responder às questões e aos problemas sociais contemporâneos (BRASIL, 1999, p.22). No ensino médio, a interdisciplinaridade deve ser compreendida de forma relacional onde, por meio de práticas escolares, sejam estabelecidas interconexões e passagens entre os conhecimentos através de relações que complementem, convirjam ou divirjam (LOPES, 2002). Com relação à contextualização, esta deve permitir que o currículo seja dinâmico. Por meio da contextualização, de acordo com a reforma, é possível relacionar as disciplinas com o cotidiano dos alunos, a realidade escolar, além das características que formam o ambiente local e regional. Isso significa, em outras palavras, conseguir uma “sintonia fina entre a interdisciplinaridade e a contextualização, revelando a identidade de cada escola, o que é expresso na sua autonomia pedagógica” (DOMINGUES, TOSCHI e OLIVEIRA, 2000, p.11). Uma das principais contribuições, apontadas como favoráveis com a publicação dos PCNs é de que estes documentos procuram ressaltar a necessidade de se ampliar os objetivos escolares e, dessa forma, ir além da simples apropriação de conteúdos disciplinares. Isso ocorre principalmente pela articulação das competências com os conteúdos construídos a partir de temas estruturadores (RICARDO e ZYLBERSZTAJN, 2007). Porém, nem todos aceitam ou compreendem de fato estes documentos. Segundo Valente (2003), a compreensão dos termos competência e habilidade e o entendimento dos Parâmetros Curriculares é dificultada pela escassez de fontes de consulta, 28 e ainda acrescentam-se outros elementos, que contribuem para deixar mais obscura a compreensão: • A falta de ênfase dos Parâmetros Curriculares do Ensino Médio quanto aos conceitos de competência e habilidade; • nos PCNs do Ensino Médio, o quadro que consta ao final de cada área e disciplina traz as respectivas competências e habilidades, como se ambas fossem idênticas; • na literatura consultada, o termo competência ora encampa as habilidades, ora diferencia os dois conceitos; Além da escassez de literatura, críticas acerca dos PCNs são levantadas por Ricardo e Zylberstajn (2007) com relação ao excessivo detalhamento e proposição que o documento apresenta, sendo apontado por muitos professores como um documento que passa a noção de obrigatoriedade. Outra crítica apontada sobre os parâmetros curriculares, e uma das principais, é a noção de que a apropriação de competências exalta uma submissão ao mundo do trabalho, versando sobre um discurso neoliberal. Porém essa crítica pode ser debatida quando se pensa que em sua essência, os PCNs procuram instigar o debate e buscar alternativas inovadoras para a educação (RICARDO e ZYLBERSZTAJN, 2007). Diante do exposto até o momento, podemos nos questionar: Mas, e quanto aos alunos que se formam hoje? O vestibular segue a mesma reforma indicada para o ensino médio? O vestibular cobra uma formação abrangente, por competências, ou uma formação estrita, conteudista? De acordo com o MEC, os sistemas de avaliação deveriam ser elaborados com o objetivo de testar a capacidade do estudante em cinco grandes competências, que podem ser assim resumidas: dominar linguagens, compreender fenômenos, enfrentar situações-problema, construir argumentação e elaborar propostas. Sobre as provas de vestibular, Neto (1995, p. 335) afirma: 29 Nos países subdesenvolvidos, onde a distribuição de renda sacrifica perversamente parcelas da população, negando-lhes a oportunidades educacionais que fariam desses indivíduos cidadãos integrais, retirandolhes a condição de excluídos e marginais, a seleção engendrada pelo Vestibular torna ainda mais visível os desequilíbrios assinalados. A LBD em seu texto, não prevê o vestibular como fator determinante para o acesso ao ensino superior. Em seu artigo 44, parágrafo II, a LDB explicita: Art. 44 – A educação superior abrangerá os seguintes cursos e programas: II – de graduação, abertos a candidatos que tenham concluído o ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em processo seletivo (grifo nosso); Portanto, o artigo 44, parágrafo II da referida Lei, estabelece a classificação como etapa necessária para o ingresso no ensino superior. Dessa forma, não necessariamente o ingresso deve ser orientado em forma de exame, podendo outras formas de seleção a serem admitidas. (KANASHIRO, 2007). Segundo Neto (1995), o vestibular é conseqüência da delimitação de vagas oferecidas e da necessidade de definição prévia de um perfil de conhecimentos adquiridos. Tendo então o objetivo de selecionar e classificar, a aferição no processo seletivo tornou-se mais objetiva, com os testes de múltipla escolha, e mais conceitual, tanto em questões de múltipla escolha, quanto em questões dissertativas, que priorizam classificar o aluno que possui maior conhecimento conceitual. Neto (1995) escreveu seu estudo antes da publicação da LDB e da publicação dos PCNs. Será que os vestibulares ainda se comportam dessa forma? Ou será que desde a publicação destes documentos os vestibulares adotaram medidas de classificação baseadas em provas estruturadas para a aferição das competências desenvolvidas pelos alunos? Isto é o que este estudo pretende responder. 30 3. Procedimentos metodológicos 3.1 Coleta de Dados Tendo em vista o objetivo do presente trabalho de analisar provas de um vestibular para analisar as competências e habilidades encontradas e compará-las com as descritas nos PCN+, trabalhou-se com a análise de duas provas de vestibular, uma anterior à publicação dos PCN’s e outra posterior a sua publicação. O vestibular escolhido foi o da FUVEST, por ser um dos mais concorridos e de maior reconhecimento no Brasil. Selecionaram-se os anos de 1996 e 2010. A FUVEST 1996 foi escolhida por ser do ano anterior à publicação da LBD, documento que inseriu a noção de competências e habilidades no contexto educacional brasileiro, e a escolha pela FUVEST 2010 se caracterizou por ser a prova mais atual, e de longa data, distante da publicação do PCN, tendo havido tempo para a incorporação das competências e habilidades na prova de vestibular. As provas analisadas são de segunda fase do processo seletivo e se caracterizam por provas de caráter dissertativo. O exame de 1996 consta de 10 questões dissertativas e do exame de 2010, 6 questões dissertativas. O instrumento escolhido para a coleta de dados foi à análise documental. De acordo com Lüdke e André (2003), a análise documental é uma técnica pouco utilizada na área de educação, porém pode se mostrar um recurso importante para a abordagem de dados qualitativos, além de ser considerada fonte de evidências que são capazes de fundamentar afirmações e declarações do pesquisador. Uma crítica freqüente a análise documental, segundo Guba e Lincoln (1981) apud Lüdke e André (2003), é de que os documentos não são amostras representativas dos fenômenos estudados, de que documentos não são objetivos e possuem validade questionável, e também de que a escolha dos documentos representa um ato arbitrário. As contestações acima podem ser rebatidas por um princípio que norteia e faz o uso de análise documental apropriado, segundo Holsti (1969) apud Lüdke e André 31 (2003), quando o interesse do pesquisador permeia estudar um fator a partir da própria expressão, ou seja, a linguagem do sujeito é essencial para o processo, o uso de análise documental é vantajoso. Optou-se então por análise documental, pois o tema demanda análise local de questões de vestibular, para em sua essência encontrar e evidenciar as competências e habilidades que estão sendo exigidas ao aluno. A entrevista nesse caso seria contraproducente, pois primeiro teria de se direcionar o olhar dos concorrentes, para depois analisar suas falas, demandando ainda uma preparação dos envolvidos e fugindo ao foco do trabalho. 3.2 Análise de dados As questões de vestibular do exame da FUVEST foram analisadas resultando no levantamento das competências e habilidades presentes em cada uma delas. A análise da prova foi feita a partir de categorias de competências e habilidades, que resultaram em um documento com todas as habilidades encontradas em cada questão (ANEXO 1). As categorias foram definidas com base nos próprios PCN, sendo então dividas em três grandes competências, C1 (Comunicação e Expressão), C2 (Investigação e Compreensão) e C3 (Contextualização sócio-cultural). Cada uma das grandes competências apresenta diversas habilidades, definidas pelo símbolo H(x), onde x corresponde ao número de cada habilidade. A lista de habilidades para a análise foi feita unindo as competências gerais para a área de Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias, com as competências e habilidades específicas da área de Biologia, ambas descritas nos PCN (1999). Apresenta-se, a seguir, as categorias em forma de lista de habilidades que estão descritas nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM, 1999, p. 21). 32 3.3 Categoria 01 Comunicação e Expressão – C1 • H1 - Analisar qualitativamente dados quantitativos representados gráfica ou algebricamente relacionados a contextos sócio-econômicos, científicos ou cotidianos. • H2 - Apresentar suposições e hipóteses acerca dos fenômenos biológicos em estudo. • H3 - Apresentar, de forma organizada, o conhecimento biológico apreendido, através de textos, desenhos, esquemas, gráficos, tabelas, maquetes etc. • H4 - Conhecer diferentes formas de obter informações (observação, experimento, leitura de texto e imagem, entrevista), selecionando aquelas pertinentes ao tema biológico em estudo. • H5 - Descrever processos e características do ambiente ou de seres vivos, observados em microscópio ou a olho nu. • H6 - Expressar dúvidas, idéias e conclusões acerca dos fenômenos biológicos. • H7 - Exprimir-se oralmente com correção e clareza, usando a terminologia correta. • H8 - Identificar variáveis relevantes e selecionar os procedimentos necessários para a produção, análise e interpretação de resultados de processos e experimentos científicos e tecnológicos. • H9 - Identificar, analisar e aplicar conhecimentos sobre valores de variáveis, representados em gráficos, diagramas ou expressões algébricas, realizando previsão de tendências, extrapolações e interpolações e interpretações. • H10 - Identificar, representar e utilizar o conhecimento geométrico para aperfeiçoamento da leitura, da compreensão e da ação sobre a realidade. • H11 - Interpretar e utilizar diferentes formas de representação (tabelas, gráficos, expressões, ícones, textos...). • H12 - Ler e interpretar textos de interesse científico e tecnológico. • H13 - Perceber e utilizar os códigos intrínsecos da Biologia. • H14 - Produzir textos adequados para relatar experiências, formular dúvidas ou apresentar conclusões. • H15 - Utilizar as tecnologias básicas de redação e informação, como computadores. 33 3.4 Categoria 02 Investigação e compreensão – C2 • H1 - Aplicar as tecnologias associadas às Ciências Naturais na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. • H2 - Articular o conhecimento científico e tecnológico numa perspectiva interdisciplinar. • H3 - Compreender o caráter aleatório e não determinístico dos fenômenos naturais e sociais e utilizar instrumentos adequados para medidas, determinação de amostras e cálculo de probabilidades. • H4 - Desenvolver modelos explicativos para sistemas tecnológicos e naturais. • H5 - Elaborar estratégias de enfrentamento das questões. • H6 - Entender e aplicar métodos e procedimentos próprios das Ciências Naturais. • H7 - Estabelecer relações entre parte e todo de um fenômeno ou processo biológico. • H8 - Fazer uso dos conhecimentos da Física, da Química e da Biologia para explicar o mundo natural e para planejar, executar e avaliar intervenções práticas. • H9 - Formular hipóteses e prever resultados. • H10 - Formular questões a partir de situações reais e compreender aquelas já enunciadas. • H11 - Formular questões, diagnósticos e propor soluções para problemas apresentados, utilizando elementos da Biologia. • H12 - Interpretar e criticar resultados a partir de experimentos e demonstrações. • H13 - Procurar e sistematizar informações relevantes para a compreensão da situação-problema. • H14 - Relacionar fenômenos, fatos, processos e idéias em Biologia, elaborando conceitos, identificando regularidades e diferenças, construindo generalizações. • H15 - Relacionar o conhecimento das diversas disciplinas para o entendimento de fatos ou processos biológicos (lógica externa). • H16 - Relacionar os diversos conteúdos conceituais de Biologia (lógica interna) na compreensão de fenômenos. 34 • H17 - Selecionar e utilizar metodologias científicas adequadas para a resolução de problemas, fazendo uso, quando for o caso, de tratamento estatístico na análise de dados coletados. • H18 - Utilizar critérios científicos para realizar classificações de animais, vegetais etc. • H19 - Utilizar instrumentos de medição e de cálculo. • H20 - Utilizar noções e conceitos da Biologia em novas situações de aprendizado (existencial ou escolar). 3.5 Categoria 03 Contextualização sócio-cultural – C3 • H1 - Associar conhecimentos e métodos científicos com a tecnologia do sistema produtivo e dos serviços. • H2 - Compreender as ciências como construções humanas, entendendo como elas se desenvolveram por acumulação, continuidade ou ruptura de paradigmas, relacionando o desenvolvimento científico com a transformação da sociedade. • H3 - Entender a relação entre o desenvolvimento de Ciências Naturais e o desenvolvimento tecnológico e associar as diferentes tecnologias aos problemas que se propuser e se propõe solucionar. • H4 - Entender o impacto das tecnologias associadas às Ciências Naturais, na sua vida pessoal, nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social. • H5 - Identificar a interferência de aspectos místicos e culturais nos conhecimentos do senso comum relacionados a aspectos biológicos. • H6 - Identificar as relações entre o conhecimento científico e o desenvolvimento tecnológico, considerando a preservação da vida, as condições de vida e as concepções de desenvolvimento sustentável. • H7 - Julgar ações de intervenção, identificando aquelas que visam à preservação e à implementação da saúde individual, coletiva e do ambiente. 35 • H8 - Reconhecer a Biologia como um fazer humano e, portanto, histórico, fruto da conjunção de fatores sociais, políticos, econômicos, culturais, religiosos e tecnológicos. • H9 - Reconhecer o sentido histórico da ciência e da tecnologia, percebendo seu papel na vida humana em diferentes épocas e na capacidade humana de transformar o meio. • H10 - Reconhecer o ser humano como agente e paciente de transformações intencionais por ele produzidas no seu ambiente. • H11 - Utilizar elementos e conhecimentos científicos e tecnológicos para diagnosticar e equacionar questões sociais e ambientais. 36 4. Resultados e Análise A análise das provas permitiu a construção de duas tabelas onde foram organizadas as habilidades e o conteúdo conceitual exigidos por cada questão. Na tabela 5 constam os dados referentes ao exame de 1996 e a tabela 6, ao de 2010. Tabela 5 – Competências, habilidades e conceitos verificados no exame FUVEST 1996 Questão Competências encontradas Habilidades encontradas B.01 C1 H3 H11 H13 H17 C2 B.02 C1 C2 H3 H13 H19 Genética de populaces H3 H11 H2 H3 -- B.03 C1 B.04 C1 B.05 C1 H3 B.06 C1 B.07 C1 H3 H11 H13 H2 H3 H11 H12 H14 H4 H11 H3 H11 C2 C3 Conteúdos conceituais exigidos Genética, herança autossômica recessive Fisiologia vegetal, anatomia vegetal, ecologia Evolução Transcrição RNA Ecologia B.08 C1 B.09 C1 H3 C2 H16 Biologia celular, divisão celular, meiose Biologia celular, botânica, bioquímica C1 H2 H3 Biologia celular, fisiologia cardíaca, B.10 37 C2 H11 H12 H13 H16 fisiologia respiratória Tabela 6 - Competências, habilidades e conceitos verificados no exame FUVEST 2010 Questão Competências encontradas Habilidades encontradas B.01 C1 H3 H5 H11 B.02 C1 H3 H11 H13 C1 H3 C2 H16 B.03 C1 B.04 C2 C1 B.05 C2 C1 B.06 C2 H3 H6 H8 H11 H13 H7 H13 H3 H14 H16 H2 H3 H11 H13 H7 H12 H13 Conteúdos conceituais exigidos Zoologia, Características morfológicas de diferentes grupos do reino animal Genética, meiose, crossing-over, 2ª Lei de Mendel Fisiologia cardíaca, sistema Circulatório Interação entre seres vivos Botânica, ecologia, evolução Imunologia Com relação aos três grupos de competências utilizados no presente trabalho, verificou-se que cada uma tem um foco diferenciado. No grupo Comunicação e 38 Expressão (C1), notou-se que o foco das habilidades visa garantir a capacidade de interpretação de diferentes dados, a partir da análise de diferentes modos de representação. Demandam, ainda, a elaboração e a construção de hipóteses e conclusões, além da produção de textos, gráficos ou outras formas de representação para a expressão de idéias ou conceitos com clareza. Observou-se que o conjunto de habilidades do grupo Investigação e Compreensão (C2) tem seu foco vertido para a articulação do conhecimento científico, a compreensão de informações relevantes para o entendimento e a elaboração de estratégias para enfrentamento de questões-problema, a capacidade crítica e hipotética sobre diferentes fenômenos e a utilização de diferentes conceitos da biologia ou de diferentes disciplinas para o enfrentamento de questões-problema. Já o de grupo de habilidades relativas à contextualização sócio-cultural (C3) possui um foco voltado ao desenvolvimento de uma consciência no aluno que o permita associar os conhecimentos científicos com estruturas da sociedade, como a economia e a política. Encontramos questões que avaliavam, também, a compreensão do desenvolvimento do conhecimento científico como dependente de interesses da sociedade, além da habilidade de identificar os impactos do conhecimento científico na sociedade e na natureza, assim como de elaborar estratégias para intervenção em casos de impactos ambientais. Comparando as competências e habilidades exigidas pelos dois exames da FUVEST, verificou-se que os perfis gerais das provas são parecidos. Em ambos, as habilidades mais exigidas são as que compõem o grupo Expressão e Comunicação (C1), seguidas pelas do grupo Investigação e Compreensão (C2) e Contextualização sóciocultural (C3), como pode ser observado na figura 1, a seguir: 39 Figura 1 – Frequência relativa das competências exigidas no exame da FUVEST 1996 e 2010 A maior cobrança do grupo de competências C1 pode ser facilmente compreendida já que o aluno necessita se comunicar com o examinador de alguma forma, mostrando assim o conhecimento e a capacidade de redigi-lo de forma lógica. A exigência pela forma escrita de expressão pode ser exemplificada pelos enunciados das questões B.01 de 1996 (ANEXO 2) e B.05 de 2010 (ANEXO 3) analisadas como: (B.01, 1996) Numa população de 100 pessoas, 36 são afetadas por uma doença genética condicionada por um par de alelos de herança autossômica recessiva [...] Justifique suas respostas, mostrando como chegou aos resultados numéricos. (B.05, 2010) [...] Um arbusto possui folhas largas, com estômatos em suas duas faces e alta concentração de clorofila. Cite um bioma brasileiro em que esse arbusto ocorre, relacionando as características da folha com as do bioma. A partir dos enunciados, fica claro o quanto o grupo de competências C1 está presente nos enunciados. Isso ocorre, pois sem exceção, todas as questões de exame cobram do aluno, a representação de suas idéias em forma de texto ou de qualquer outra representação que possa ser corrigida posteriormente por um examinador. A grande exigência do grupo de competências C1 pode estar relacionada, também, à grande 40 preocupação que a LDB (1996) e os PCN (1997) inseriram no contexto educacional brasileiro, de um ensino voltado principalmente ao desenvolvimento da capacidade cognitiva do aluno de comunicar-se e de argumentar. Embora se tenha encontrado um perfil geral similar entre os dois exames, algumas diferenças puderam ser detectadas. Quando comparados separadamente, percebeu-se que o exame de 1996 e o de 2010 exigem praticamente a mesma porcentagem do grupo C1, porém, existe um aumento expressivo na exigência do conjunto de competências C2, como mostradas na figura 2. Figura 2 - Comparação de competências exigidas nos exames da FUVEST 1996 e 2010 41 O aumento expressivo da exigência do grupo de competências C2, pode mostrar uma mudança no perfil da prova de vestibular da FUVEST, já que este grupo de competências representa em sua essência características muito marcantes da área da Biologia, como a investigação a partir de situações problemas. Porém, a percepção de uma mudança real ou somente aparente do perfil geral dos exames só pode ser exemplificado com uma análise mais específica, a de habilidades. Durante a análise das questões de cada prova, foram evidenciadas no total 56 habilidades, 32 presentes no exame de 1996, e 25 no exame de 2010. Os dados colocados numa média aritmética simples, dividindo-se a quantidade de habilidades pelo número total de questões do exame, chegamos ao resultado em 1996 numa média de 3,2 habilidades/questão, e em 2010, 4,16 habilidades/questão. Desta forma, notou-se que proporcionalmente a FUVEST 2010 exige um maior número de habilidades que a FUVEST 1996. Estes dados foram dispostos na figura 3, que mostra as habilidades exigidas pelos dois exames da FUVEST, além de apresentar a frequência específica de habilidades de cada exame separadamente. A nomeação das habilidades na figura 3 se dá pela junção do grupo de competência (C1, C2 ou C3) no qual a habilidade está inserida, mais o número da habilidade correspondente (H1, H2 e etc). A figura 3 mostra que existe ponto comum entre os exames. Nos dois existem as duas habilidades mais exigidas são a do grupo de competências C1, habilidades C1H3 e C1H11. Isso ocorre pois as duas habilidades versam no âmbito mais essencial para a realização de um exame de vestibular, a capacidade de expressar de forma organizada os conhecimentos aprendidos (C1H3) e a interpretação de diferentes meios de comunicação, como gráficos, tabelas e outros (C1H11). 42 Figura 3 – Frequência relativa geral e específica de habilidades exigidas pelos exames de 1996 e 2010 Porém, é possível perceber que, ao todo, a exigência de habilidades não é similar nos dois exames. Uma diferença muito marcante é o aumento de habilidades do grupo de competências C1 no exame de 2010. Em 1996, somente quatro habilidades do grupo C1 foram exigidas (C1H2, C1H3, C1H11, C1H13), já no exame de 2010 foram exigidas sete competências do grupo C1 (C1H2, C1H3, C1H5, C1H6, C1H8, C1H11, C1H13). As três novas habilidades exigidas pela FUVEST 2010 conferem uma característica interessante a esta prova. Além da cobrança natural de expressão do candidato, o exame passa a exigir que os alunos possuam a capacidade de observação do 43 meio de estudo, pois requisita a descrição de processos característicos de fenômenos e seres vivos em estudo (C1H5), a identificação de variáveis ou elementos necessários , assim como a escolha dos procedimentos mais eficazes para a realização do problema proposto, produção e análise de resultados (C1H8), assim como a elaboração de conclusões acerca de fenômenos biológicos (C1H6). A tendência ao aumento da exigência de habilidades do grupo de competências C1 – Comunicação e Expressão, pode indicar que o vestibular da FUVEST, como supracitado, tem atuado na direção das propostas feitas pelo PCN(1999) que reforçam a necessidade de se desenvolver nos alunos da escola básica a competência de comunicação e argumentação. Com relação às habilidades de grupo de competências C2 – Investigação e compreensão, existe um equilíbrio maior no número total entre os exames, já que seis destas foram exigidas em 1996, e cinco em 2010. O perfil geral de exigência de habilidades então se manifesta de forma semelhante, já que quatro habilidades são comuns aos dois exames (C2H12, C2H13, C2H14, C2H16). Este perfil se traduz então pelo caráter de questões nos exames que cobram do aluno a relação entre os diversos conteúdos da Biologia (C2H16) e entre fenômenos e fatos da Biologia para apresentação de conclusões (C2H14), assim como a interpretação de resultados de experimentos (C2H12) e a sistematização e identificação de variáveis relevantes para a resolução de uma situação problema (C2H13). Estas habilidades exigidas nos exames indicam que, por momentos, o exame FUVEST oferece situações-problema para que o aluno possa mobilizar seus conhecimentos de forma a solucionar a proposição, desenvolvendo hipóteses e apresentando conclusões, o que está de acordo com a proposta de Zabala (1998). Este autor afirma que o desenvolvimento de habilidades, assim como a sua exigência, devem ser feitas partindo de situações significativas ou problemáticas que demandem do aluno a mobilização de diversas faculdades mentais para a resolução do problema proposto, como exemplificam as questões B.04 de 2010 (ANEXO 2) e B.07 de 1996 (ANEXO 1). 44 (B.04, 2010) As mariposas da espécie Diataea saccharalis colocam seus ovos na parte inferior de folhas de cana-de-açúcar. Esses ovos desenvolvem-se em larvas que penetram no caule e se alimentam do parênquima ali presente. As galerias feitas por essas larvas servem de porta de entrada para fungos da espécie Colleotrichum falcatum. Esses fungos alimentam-se da sacarose armazenada no caule. As usinas de açúcar e álcool combatem as mariposas, liberando pequenas vespas (Cofesia flavipes), cujos ovos são depositados sobre as larvas das mariposas. Quando os ovos eclodem, as larvas da vespa passam a se alimentar das larvas da mariposa. b) Dentre as interações descritas nesse texto, indique uma que você classificaria como parasitismo, justificando sua resposta. (B.07, 1996) O gráfico a seguir mostra dados sobre o teor de CO2 atmosférico nos últimos 100 anos. a) Que fatores podem explicar estes resultados? b) Se esta tendência for mantida, que prováveis conseqüências isto trará para a biosfera, a nível planetário? Justifique sua resposta. c) A diminuição do consumo de energia elétrica teria alguma conseqüência na tendência indicada pelo gráfico? Justifique sua resposta. Na questão B.04 de 2010, existe um texto que situa o aluno no contexto do tema que está sendo proposto. Neste texto são apresentadas diversas relações entre seres vivos, assim como diferentes níveis tróficos. A partir deste contexto, a questão propõe ao aluno que este apresente um fenômeno de parasitismo, com base no texto fornecido, justificando sua resposta. É possível perceber que existe uma situação problema passada ao 45 aluno e um problema proposto, cabendo ao aluno identificar as variáveis que melhor o levem a resolução da questão, evidenciando a exigência de habilidades contidas no grupo de competências C2. Na questão B.07 de 1996 diversas habilidades são exigidas. Primeiramente, a partir da análise de um gráfico o aluno deve elaborar hipóteses e construir conclusões sobre o aumento da concentração de CO2 atmosférico. Para isto o aluno deve relacionar os dados do gráfico com os conteúdos aprendidos e, além disso, elaborar previsões acerca deste fenômeno, habilidades descritas no grupo C2 de competências. Para solucionar esta questão, são exigidas as habilidades C2H7 e C2H13. A habilidade C2H7 se caracteriza por exigir do aluno estabelecer relações entre uma parte e um todo de um fenômeno. Nesta questão isto ocorre, pois o aluno necessita estabelecer relações entre o fenômeno exigido pela questão, o parasitismo, e toda a cadeia alimentar elencada. Dessa forma o aluno precisa, além do conteúdo, da capacidade de relacionar estes fenômenos. Para tanto, o aluno necessita identificar as variáveis relevantes para, neste caso, a identificação do fenômeno de parasitismo, caracterizando a habilidade C2H13. Porém, mesmo que muito similares quanto às habilidades do grupo C2, pode-se afirmar que no exame de 2010 essas habilidades estão mais bem distribuídas entre as questões. Das seis questões propostas, quatro delas cobravam habilidades do grupo C2, enquanto que no exame de 1996, de dez questões propostas, somente cinco demandavam o grupo C2. Com relação às habilidades do grupo de competências C3, estas são exigidas na questão B.07 de 1996 (ANEXO 1), e pudemos identificar a C3H4 e C3H11. Nesta questão, é exigido do aluno que seja capaz de compreender os impactos ambientais das tecnologias atuais de produção de energia na sua vida pessoal, assim como na atmosfera (C3H4), e de identificar variáveis e estratégias possíveis para a redução desses impactos (C3H11). Pela figura 3, é possível perceber também que no exame de 2010 não foram exigidas habilidades do grupo C3. Uma possível causa para isso é a de que no atual exame 46 de vestibular da FUVEST, houve uma mudança no estilo da prova, com a inserção de uma etapa composta por questões interdisciplinares, que podem exigir mais habilidades de contextualização sócio-cultural. Porém, essa mudança, não explica a ausência da contextualização, já que esta, em Biologia principalmente, é um fator muito marcante, devendo ser considerada nos exames de vestibular. As habilidades do grupo de competências C3 são menos enfatizadas na escola básica, pois o currículo é ainda muito fechado, e muitas das habilidades pessoais são pouco desenvolvidas no ambiente formal de aprendizagem onde o foco é a capacitação técnica do indivíduo, sendo necessário, portanto, agregar às existentes estratégias de ensino alternativas para que a excelência na formação seja assegurada. Analisando as questões dos exames, notou-se uma diferença interessante. No exame de 1996, as questões são mais diretas e o seu teor mais conteudista, do que em 2010. Em 1996, muitas questões não apresentam informações que possibilitem ou ajudem o aluno a respondê-las sem o conteúdo, como mostrado nos exemplos abaixo das questões B.08 e B.09 (ANEXO 1). (B.08, 1996) Um grupo de células de mesmo tecido está em processo de divisão. Algumas fases desse processo estão representadas a seguir. a) Que tipo de divisão celular está ocorrendo? Justifique sua resposta. 47 b) Qual seqüência de números indica a ordem em que acontecem as etapas sucessivas no processo da divisão? c) Em que etapa(s) está(ão) ocorrendo eventos(s) que promove(m) variabilidade genética? Justifique sua resposta. (B.09, 1996) Complete a tabela a seguir, comparando a fotossíntese à respiração aeróbica em um mesmo organismo. Na questão B.08, a questão cobra do aluno identificar na figura a divisão celular, pedindo o seqüenciamento dos eventos, o tipo de divisão celular e a etapa em que ocorre o crossing-over. Na questão B.10, uma tabela é dada e o que se demanda do aluno é o preenchimento das lacunas, comparando dois processos celulares, sem um texto informativo sobre os processos, ou pelo menos sobre um dos processos. Nestas questões não há um número significativo de habilidades sendo exigidas, a não ser as do grupo C1, e a resolução da tarefa fica por parte, estritamente, do conhecimento do candidato sobre o tema proposto. Portanto, o teor das questões é extremamente conteudista, uma vez que não existem habilidades sendo exigidas que possam mobilizar conteúdos, pois estes são cobrados no ato. Os PCN (1999) mudam os objetivos da formação do Ensino Médio, priorizando a formação intelectual que, diz o documento, ocorre pelo ensino de competências. Desta forma, não existe justificativa plausível para a exclusiva memorização 48 de conhecimentos e sua aplicação sem fundamentação, como o que ocorre nas questões supracitadas. Porém, um fator importante do exame de 1996, é que uma questão foge ao quadro apresentado anteriormente. A questão B.03 (ANEXO 1), demanda muito menos conceito do candidato, pois sua resolução pode ser realizada, na maior parte, com as informações presentes no gráfico e na tabela apresentadas na questão. (B.03, 1996) A pepsina é uma enzima digestiva cuja velocidade de reação é influenciada tanto pelo pH quanto pela temperatura do meio. Fixada a temperatura, a velocidade de reação varia com o pH como mostrado no gráfico a seguir. a) Planejou-se um experimento para verificar qual a temperatura que determina a velocidade máxima da reação. Cinco tubos de ensaio contendo pepsina e um substrato adequado são colocados em diferentes temperaturas. Complete a tabela I, indicando o valor do pH que deve ser usado em cada um dos tubos. b) Nas colunas A, B e C da tabela II são apresentados três conjuntos de resultados. Nas coordenadas a seguir, construa o gráfico correspondente à coluna de resultados corretos, relacionando a porcentagem de substrato digerido com a temperatura. c) Justifique a resposta do item anterior. Nos dois exames analisados, esta questão é a única que apresenta a característica de ser extremamente interpretativa, mobilizando do aluno diversas 49 habilidades de comunicação e expressão, como a leitura de tabelas e gráficos conjuntos e elaboração de resultados, hipóteses e conclusões, a partir de dados do exercício. Porém em 2010, a maioria das questões constam de textos, gráficos ou tabelas que inserem o aluno no tema, e dão informação relevantes para a situação proposta, demandando ao aluno a mobilização dos conceitos para a realização da tarefa, como mostrado no exemplo abaixo das questões B.04 e B.06 (ANEXO 2). (B.06, 2010) As duas curvas (A e B) do gráfico mostram a concentração de anticorpos produzidos por um camundongo, durante oito semanas, em resposta a duas injeções de um determinado antígeno. Essas injeções foram realizadas com intervalo de seis meses. a) Identifique as curvas que correspondem à primeira e à segunda injeção de antígenos. b) Quais são as características das duas curvas que permitem distinguir a curva correspondente à primeira injeção de antígenos daquela que representa a segunda injeção? c) Por que as respostas a essas duas injeções de antígenos são diferentes? Nestas questões é possível perceber que os textos ou gráficos fornecem informações relevantes para a realização do problema proposto e situam o aluno no contexto desta questão problematizadora. São então, questões com caráter problemático, ou seja, situam um determinado fenômeno biológico, e o apresentam de forma questionadora 50 exigindo habilidades específicas como leitura de diferentes formas de comunicação, percepção de variáveis relevantes, identificação de regularidades e outras. Porém, somente com estas capacidades o aluno não é capaz de realizar a tarefa, ou seja, o aluno deve mobilizar, conjuntamente, as habilidades específicas e os conceitos aprendidos caracterizando então, o que o ensino por competências traz como ideologia (MORETTO, 2010). Todavia, não somente por apresentar tabelas, gráficos ou figuras que uma questão se torna eficiente em verificar competências. Em 2010, a questão B.05 (Anexo 2) traz um texto explicativo que situa o aluno no aspecto evolutivo das semelhanças de estruturas dos seres vivos mesmo quando de locais diferentes. Porém, na problematização feita ao candidato, esta questão não cobra nada do que foi exposto e cobra do aluno a memorização de estruturas de vegetais de biomas diferentes. (B.05, 2010) a) As plantas Z e W, embora morfologicamente muito semelhantes, não possuem relação de parentesco próximo. Em ambas, as folhas são modificadas em espinhos. O mapa ao lado mostra suas áreas originais de ocorrência na América do Sul (planta Z) e na África (planta W). Como se explica que essas plantas, que ocorrem em continentes diferentes, apresentem folhas modificadas de maneira semelhante? 51 b) Um arbusto possui folhas largas, com estômatos em suas duas faces e alta concentração de clorofila. Cite um bioma brasileiro em que esse arbusto ocorre, relacionando as características da folha com as do bioma. Desta forma, pode-se dizer que o exame FUVEST 2010, traz consigo algumas características importantes. No exame, os conceitos estão mais bem ligados a habilidades específicas e competências que os mobilizam, caracterizando assim, o ensino por competências, enquanto o exame FUVEST 1996, ainda se concentra num âmbito mais restrito, mais conteudista, o que pode ser explicado por ser anterior à publicação da LBD (1996) e dos PCN (1999) e PCN + (2002). 52 5. Considerações Finais Os exames analisados apresentaram diferenças marcantes para o estudo proposto. Em 1996, diversas habilidades foram exigidas dos candidatos, principalmente no âmbito da comunicação e expressão. As questões deste exame eram mais diretas em cobrar conteúdos conceituais, não apresentando grande porcentagem de situações-problema, ou de habilidades específicas que capacitassem o aluno a investigar e a resolver problemas. Um fator importante e relevante é que o exame de 1996 apresentou uma questão que, em sua essência, demandava mais habilidades que conceitos. Essa questão poderia perfeitamente aparecer na prova de 2010 e mostra que já havia em 1996 a exigência de habilidades para além do conteúdo conceitual estanque. O exame de 2010, com relação ao de 1996, seguiu a tendência inserida no contexto educacional pela LDB (1997) e pelos PCN (1999) e PCN+ (2002), de um ensino por competências. A FUVEST 2010 apresentou um aumento na exigência de habilidades do grupo C1 – Comunicação e expressão, estando de acordo com a preocupação enfática de desenvolver no aluno a capacidade cognitiva de expressão em diferentes meios, e da interpretação de meios de comunicação em diferentes níveis. Outra tendência abarcada pelo exame de 2010 foi a de partir de situaçõesproblemas para a realização de tarefas, desenvolvendo no aluno a capacidade crítica de se posicionar com relação a um assunto, de modo a formular hipóteses e conclusões, assim como, perceber e identificar aquela parte como integrante de um todo. O exame 2010 não se caracteriza, em sua maioria, por questões extremamente conceituais como o de 1996, seguindo a tendência de um ensino mais voltado a uma formação humana e de valor, e não somente científica e conteudista. Pode-se concluir que a FUVEST, no ano de 2010, seguiu a tendência atual de reformulação do ensino, com os novos objetivos , descritos na LDB (1997) e nos PCN (1999) para a formação do aluno do ensino médio que são: Comunicar-se e argumentar; Defrontar-se com problemas, compreendê-los e enfrentá-los; Fazer escolhas e proposições. 53 É certo que este exame de vestibular ainda não contempla, em toda a sua essência, uma prova abrangente que estimule intensamente a mobilização de competências, já que quarenta e seis habilidades estão descritas para a área de Biologia nos PCN (1999), e somente dezesseis foram encontradas. Porém, se assim como no exame de 2010, outros exames contemplarem esta tendência, o ensino por competências estará cada vez mais firmado, e atuante na filosofia atual da educação. 54 6. Referências Bibliográficas BERGER FILHO, Ruy. Currículo e competências. BERGER, R. (2000). Currículo e Competências. In: Seminário Internacional de Educação Profissional. Brasília. 2001. BRASIL, Ministério da Educação, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio. Brasília: Ministério da Educação, 1999. BRASIL, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCN+ Ensino Médio: orientações curriculares educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: MEC, SEMTEC, 2002. BRASIL. Lei 9394/96, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DOU (23/12/96) DOMINGUES, J. J; TOSCHI, N. S. e OLIVEIRA, J. F. A reforma do Ensino Médio a nova formulação curricular e a realidade da escola pública. Educação e Sociedade. 2000, vol.21, n.70, p 63-79. GARCIA, L. A. M. Competências e habilidades: Você sabe lidar com isso? Educação e Ciência On-line. Brasília: Universidade de Brasília - UnB, 2007. KANASHIRO, D. S. K. Do ensino médio ao superior: que ponte os une? Um estudo de provas de vestibular de língua espanhola. Dissertação (Mestrado) - Universidade de São Paulo – USP. São Paulo. 2007. LOPES, A.C. Competências na organização curricular da reforma do ensino médio. Boletim Técnico do SENAC, Rio de Janeiro, v. 27, n. 3, p. 1-20, 2002. LÜDKE, M. e ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária Ltda. 6ª Reimpressão. 2003. 55 MACEDO, L. Competências na educação. Universidade de São Paulo - USP. 2008. (Acesso ao texto via online) MACEDO, L. Competências e habilidades: Elementos para uma reflexão pedagógica. In: J. S. Moraes. (Org.). Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM): Fundamentação teóricometodológica. Brasília: O Instituto (INEP/MEC), 1999. MACHADO, N. J. Sobre a idéia de competência. Seminários em Epistemologia Didática (SEED). Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo - FEUSP. 2006. MACHADO, T. M. R. Organização curricular: objetivos ou competências e habilidades? Procurando a diferença entre “seis e meia dúzia”. 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Nova Escola. 2000. p. 19-31. RICARDO, E. C. e ZYLBERSZTAJN, A. Os parâmetros curriculares nacionais na formação inicial dos professores das ciências da natureza e matemática do ensino médio. Investigações em Ensino de Ciências, Vol. 12. 2007. p. 339 – 355. VALENTE, S. M. P. Competências e habilidades: pilares do paradigma avaliativo emergente. Tese (Doutorado). Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho – UNESP. Marília. 2003. ZABALA, A. A prática educativa: Como ensinar. Porto Alegre: ArtMed, 1998. 57 6. Anexos 58 ANEXO 1 – Prova de vestibular FUVEST 1996 B.01 Dois irmãos (Pedro e Paulo) casam-se com duas irmãs (Maria e Joana), todos normais. O primeiro casal, Pedro e Maria, tem uma criança afetada por uma doença muito rara de herança autossômica recessiva. a) Desenhe o heredograma representando os dois casais e seus respectivos pais. b) Qual é a probabilidade de que uma futura criança de Paulo e Joana venha a ser afetada por essa mesma doença genética? Considere desprezível a probabilidade de uma nova mutação. c) Se Paulo e Joana tiverem uma primeira criança afetada pela mesma doença genética, qual será o risco de que uma segunda criança desse casal também seja afetada por essa mesma doença? Por quê? Justifique suas respostas, mostrando como chegou aos resultados dos itens b) e c). B.02 Numa população de 100 pessoas, 36 são afetadas por uma doença genética condicionada por um par de alelos de herança autossômica recessiva. a) Expresse, em frações decimais, a freqüência dos genes dominantes e recessivo. 59 b) Quantos indivíduos são homozigotos? c) Suponha que nessa população os cruzamentos ocorram ao acaso, deles resultando, em média, igual número de descendentes. Considere, também, que a característica em questão não altera o valor adaptativo dos indivíduos. Nessas condições, qual será a porcentagem esperada de indivíduos de fenótipo dominante na próxima geração? Justifique suas respostas, mostrando como chegou aos resultados numéricos. B.03 A pepsina é uma enzima digestiva cuja velocidade de reação é influenciada tanto pelo pH quanto pela temperatura do meio. Fixada a temperatura, a velocidade de reação varia com o pH como mostrado no gráfico a seguir. a) Planejou-se um experimento para verificar qual a temperatura que determina a velocidade máxima da reação. Cinco tubos de ensaio contendo pepsina e um substrato adequado são colocados em diferentes temperaturas. Complete a tabela I, indicando o valor do pH que deve ser usado em cada um dos tubos. b) Nas colunas A, B e C da tabela II são apresentados três conjuntos de resultados. Nas coordenadas a seguir, construa o gráfico correspondente à coluna de 60 resultados corretos, relacionando a porcentagem de substrato digerido com a temperatura. c) Justifique a resposta do item anterior. B.04 Um botânico recebeu duas plantas de origens desconhecidas. Estudando-as, concluiu que uma delas era polinizada por insetos e oriunda de região de alta pluviosidade; já a outra era polinizada pelo vento e provinha de uma região árida. Explique como ele pôde ter chegado a estas conclusões, com base nas observações e análises realizadas. B.05 Entre os cães domésticos encontramos uma grande diversidade morfológica (p. ex.: Fox, São Bernardo, Doberman, Poodle e muitos outros). Já entre os cães selvagens (Cachorro-do-mato, Lobo-guará), a diversidade é muito menor. a) Como se explica, em termos evolutivos, essa diferença? b) Que nível taxonômico atribuímos à grande diversidade encontrada dentro de cada grupo de animais domésticos? Por quê? c) Por que os cães "vira-latas" são, em média, mais resistentes a doenças que os cães com pedigree? B.06 Uma doença genética de herança dominante é causada por mutações em um gene localizado em um autossomo. Os indivíduos A, B e C têm mutações em um segmento de DNA desse gene, cuja seqüência normal está representada a seguir. Seqüência normal CAA AAC TGA GGA ATG CAT TTC (m) GTT TTG ACT CCT TAC GTA AAG Indivíduo A 61 CAA AAC TGA GGA ATT CAT TTC (m) GTT TTG ACT CCT TAA GTA AAG Indivíduo B CAT AAC TGA GGA ATG CAT TTC (m) GTA TTG ACT CCT TAC GTA AAG Indivíduo C CAA TAC TGA GGA ATG CAT TTC (m) GTT ATG ACT CCT TAC GTA AAG Usando a tabela que relaciona alguns codons aos respectivos aminoácidos e considerando que a fita molde a ser transcrita é aquela assinalada com a letra m, responda: a) Quais serão os segmentos de proteínas produzidos, respectivamente, pelos indivíduos A, B e C? b) Como será o fenótipo (normal ou afetado dos indivíduos A, B e C? Por quê? 62 B.07 O gráfico a seguir mostra dados sobre o teor de CO2 atmosférico nos últimos 100 anos. a) Que fatores podem explicar estes resultados? b) Se esta tendência for mantida, que prováveis conseqüências isto trará para a biosfera, a nível planetário? Justifique sua resposta. c) A diminuição do consumo de energia elétrica teria alguma conseqüência na tendência indicada pelo gráfico? Justifique sua resposta. B.08 Um grupo de células de mesmo tecido está em processo de divisão. Algumas fases desse processo estão representadas a seguir. a) Que tipo de divisão celular está ocorrendo? Justifique sua resposta. 63 b) Qual seqüência de números indica a ordem em que acontecem as etapas sucessivas no processo da divisão? c) Em que etapa(s) está(ão) ocorrendo eventos(s) que promove(m) variabilidade genética? Justifique sua resposta. B.09 Complete a tabela a seguir, comparando a fotossíntese à respiração aeróbica em um mesmo organismo. B.10 O termo hipóxia refere-se à condição na qual a disponibilidade ou a utilização de oxigênio está reduzida. Os indivíduos B, C, D e E, relacionados na tabela a seguir, estão submetidos, a diferentes formas de hipóxia. O indivíduo A tem metabolismo de oxigênio normal. Considere que o peso, o sexo e a idade de todos os indivíduos são os mesmos. 64 a) Qual dos indivíduos está sofrendo as conseqüências de uma dieta pobre em ferro? Qual apresenta insuficiência cardíaca e circulação deficiente? Em que dados você baseou suas conclusões? b) Qual deles está sofrendo de envenenamento que impede suas células de usar o oxigênio? Justifique a resposta. c) Observa-se uma aceleração da freqüência respiratória quando sobe o nível de gás carbônico. Explique como isso acontece. 65 ANEXO 2 – Prova de vestibular FUVEST 2010 B.01 O quadro abaixo mostra diferenças que ocorrem no reino animal quanto ao plano corporal e aos sistemas digestório, circulatório e nervoso: Os anelídeos, por exemplo, apresentam as características A3, B3, C3 e D2. a) Que grupo animal apresenta as características A1, B1, C1 e D1? b) Que características de A, B, C e D estão presentes em um crustáceo? c) Que características de A, B, C e D estão presentes em um anfíbio? B.02 Nas células somáticas de um animal, um cromossomo tem os alelos M1, Q1, R1 e T1, e seu homólogo possui os alelos M2, Q2, R2 e T2. a) Na folha de respostas, está esquematizada uma célula germinativa desse animal com esses cromossomos duplicados. Ordene os alelos dos lócus M, Q, R e T nesses cromossomos. b) Admitindo a ocorrência de um único crossing-over (permutação) entre os lócus Q e R na divisão dessa célula germinativa, esquematize as células resultantes dessa divisão com os respectivos alelos dos lócus M, Q, R e T. B.03 O esquema abaixo representa o coração de um mamífero. 66 Indique, com os números correspondentes: a) as câmaras do coração em que o sangue apresenta maior concentração de gás carbônico; b) as câmaras do coração às quais chega sangue trazido por vasos; c) o vaso que sai do coração com sangue venoso; d) a câmara da qual o sangue arterial sai do coração. B.04 As mariposas da espécie Diataea saccharalis colocam seus ovos na parte inferior de folhas de cana-de-açúcar. Esses ovos desenvolvem-se em larvas que penetram no caule e se alimentam do parênquima ali presente. As galerias feitas por essas larvas servem de porta de entrada para fungos da espécie Colleotrichum falcatum. Esses fungos alimentam-se da sacarose armazenada no caule. As usinas de açúcar e álcool combatem as mariposas, liberando pequenas vespas (Cofesia flavipes), cujos ovos são depositados sobre as larvas das mariposas. Quando os ovos eclodem, as larvas da vespa passam a se alimentar das larvas da mariposa. a) Com base nas informações contidas no texto acima, indique os organismos que ocupam os seguintes níveis tróficos: a1) produtor; 67 a2) consumidor primário; a3) consumidor secundário. b) Dentre as interações descritas nesse texto, indique uma que você classificaria como parasitismo, justificando sua resposta. B.05 a) As plantas Z e W, embora morfologicamente muito semelhantes, não possuem relação de parentesco próximo. Em ambas, as folhas são modificadas em espinhos. O mapa ao lado mostra suas áreas originais de ocorrência na América do Sul (planta Z) e na África (planta W). Como se explica que essas plantas, que ocorrem em continentes diferentes, apresentem folhas modificadas de maneira semelhante? 68 b) Um arbusto possui folhas largas, com estômatos em suas duas faces e alta concentração de clorofila. Cite um bioma brasileiro em que esse arbusto ocorre, relacionando as características da folha com as do bioma. B.06 As duas curvas (A e B) do gráfico mostram a concentração de anticorpos produzidos por um camundongo, durante oito semanas, em resposta a duas injeções de um determinado antígeno. Essas injeções foram realizadas com intervalo de seis meses. a) Identifique as curvas que correspondem à primeira e à segunda injeção de antígenos. b) Quais são as características das duas curvas que permitem distinguir a curva correspondente à primeira injeção de antígenos daquela que representa a segunda injeção? c) Por que as respostas a essas duas injeções de antígenos são diferentes?