MICROMORFOLOGIA DE UNIDADES PALEOPEDOLÓGICAS DA VOÇOROCA
SÃO BENTO, LAPA (PR).
Luís Angelo Guerreiro Junior (PAIC-UNICENTRO)
[email protected]
Mauricio Camargo Filho (Orientador)
[email protected]
Palavras-chave: paleossolos, unidades pedossedimentares, Quaternário.
Resumo
O presente trabalho identificou microfeições pedológicas e paleopedológicas em
lâminas delgadas de paleossolos quaternários, sendo elaboradas a partir de
afloramentos na encosta São Bento. As unidades pedossedimentares foram
individualizadas e descritas. Amostras indeformadas de solos e paleossolos foram
coletadas para impregnação objetivando a elaboração de lâminas delgadas. Estas
lâminas foram descritas observando-se, principalmente, as pedofeições pedológicas
e paleopedológicas em paleossolos de 20Ka.
Introdução
No município da Lapa (PR), as encostas situadas ao sul do rio Iguaçu possuem
declividades médias de 13%, podendo variar de 6 a 18 % (CAMARGO, 1998). As
encostas são longas, com comprimento médio de 400m, podendo atingir 700m ou
mais. Entre estas encostas, a que foi denominada São Bento por (CAMARGO, 1998)
foram identificados dois níveis de paleossolos com 40Ka e 20Ka aproximadamente.
Do paleossolo de 20Ka, foram extraídas amostras deformadas e indeformadas para
análise granulométrica e micromorfológica. Das lâminas oriundas deste paleossolo
foram identificadas pedofeições cuja origem esta relacionada ao pedoambiente atual
e pretérito.
Materiais e Métodos
O método de trabalho empregado na descrição dos paleossolos presentes na área
de estudo envolveu duas etapas. A primeira etapa se constituiu na construção de
seção sistemática e descrição macroscópica dos materiais encontrados. A seção
elaborada em campo, permitiu individualizar e descrever as unidades
pedossedimentares, as quais foram descritas segundo os critérios do “Working
Group on the Origem and Nature of Paleosols” (1971) apud Fenwick (1985). A
análise granulométrica foi efetuada segundo a rotina estabelecida no Laboratório de
Geomorfologia Dinâmica e Aplicada da UNICENTRO. As amostras indeformadas,
destinadas à análise micromorfológica, foram confeccionadas segundo a rotina
descrita por CASTRO (1989).
Resultados e Discussão
Segundo Camargo (1998), a presença dos paleossolos São Bento, intercalados por
unidades pedossedimentares na encosta homônima indicam a recorrência de
períodos de estabilidade e instabilidade ambiental (CAMARGO, 1998, CAMARGO e
OLIVEIRA, 1998). As análises granulométricas deste paleossolo indicam que o
mesmo é composto por argila e areia media e fina. A lâmina delgada do paleossolo
de 20Ka foi dividida em porção média superior e média inferior. A porção média
superior da lâmina possui textura franco-argilo-arenosa, é apédica e a distribuição
relativa é quitônica, com áreas gefúricas. Os clastos são suportados, polimodais e a
matriz é moderadamente selecionada. A fábrica não apresenta estratificação nem
gradação, e o contato entre os grãos se apresenta saturado, pontual e, por vezes,
flutuante. Os grãos do esqueleto são constituídos por fragmentos de quartzo (95%),
subarredondados, lisos, nas frações areia grossa até areia fina. A presença de
fragmentos de folhelho (5%) alongados, tabulares ou lenticulares, mal preservados,
encontrados na fração areia média, estão restritos a esta porção da lâmina. O
plasma deste domínio é isótico e os poros são meso e microporos, que se
apresentam sob a forma de cavidades (30%) e canais transversais e longitudinais.
Associados a estes poros estão cutans e preenchimentos (infilling). Os cutans
possuem dimensões que variam de 0,25mm a 2mm, podem ser típicos ou
crescentes, são constituídos de sesquans e geralmente apresentam forte contraste,
fraca adesividade e limites claros. São microlaminados e a extinção é estriada.
Cutans de detritos argilo-quartzosos são formados por material fino mesclados por
grãos de quartzo na fração areia muito fina. Os hipocutans identificados são
constituídos de sesquans, possuem forte contraste e moderada adesividade,
freqüentemente são opacos. Preenchimentos (infilling) são comuns nesta porção da
lâmina, e apresentam baixo contraste e moderada adesividade e são densos
completos. A extinção é estriada a difusa, e os limites são claros. Não houve
identificação de nódulos nesta área da lâmina. No setor da lâmina denominado
domínio dos microcutans, a textura é franco-argilo-arenosa. A amostra é apédica e a
distribuição relativa é quitônica. Os clastos são suportados, polimodais, e a matriz é
moderadamente selecionada. A fábrica não possui estratificação nem gradação, e o
contato entre os grãos é saturado, pontual e/ou flutuante. Os grãos do esqueleto são
constituídos essencialmente por fragmentos de quartzo subarredondados, lisos, nas
frações areia grossa até areia fina. O plasma deste domínio é isótico e os poros são
predominantemente microporos, que se apresentam sob a forma de cavidades e
canais transversais e longitudinais. Diferentemente da porção média superior da
lâmina, neste domínio os cutans dificilmente ultrapassam o diâmetros de 0,25mm,
sendo mais comuns os que possuem diâmetros de 0,100mm. São cutans típicos ou
crescentes, constituídos de sesquans, geralmente apresentam forte contraste, fraca
adesividade, limites distintos e raramente são microlaminados. Preenchimentos são
relativamente comuns e como nos cutans, não ultrapassam 0,100 mm de espessura.
Conclusões
A descrição da lâmina demonstra que em sua porção médio superior há maior
concentração de meso e macroporos, cuja origem parece estar relacionada à
atividade biológica. Não raro, os poros identificados contêm cutans, que podem ser
típicos, crescentes e de detritos. Cutans de detritos, segundo Bullock et al., (1985) e
Nahon (1991), resultam de acumulações nas paredes dos poros ou cavidades, de
material fino, transportado por tração ou suspensão, através de soluções que
penetram nessas cavidades. São cutans formados de detritos de partículas que
podem derivar de corpos cristalizados ou não, grãos de quartzo, minerais opacos e
partículas argilosas (NAHON, 1991). Para esse autor, a presença de cutans de
detritos pode ser considerada como indicador de sedimentação em microambiente
aquoso. As microlaminações, identificadas nos cutans, se formam com a progressiva
deposição de material com maior ou menor concentração de ferro e matéria
orgânica (húmus). A presença de hipocutan em poro de canal sugere mudanças no
regime hídrico do pedoambiente. Na fase de umedecimento ou saturação do poro,
há precipitação de material a partir da solução circulante na parede do poro. Embora
ainda haja necessidade de maior detalhamento da micromorfologia desses
paleossolos, os resultados preliminares sugerem que o paleossolo estudado foi
submetido a mudanças de regime hídrico durante sua formação.
Agradecimentos
Agradeço ao Professor Mauricio, a Fundação Araucária, pela bolsa PAIC, que
permitiu a realização do presente trabalho.
Referências
BULLOCK, P.; FEDOROFF, N.; JONGERIUS, A.; STOOPS, G.; TURSINA, T. Handbook for
Soil Thin Section Description. Albrighton, Waine Research Publications, 1985.152p.
CAMARGO, G. Processo de erosão no Centro e Sul do Segundo Planalto Paranaense:
evolução de encosta e influência da erosão subterrânea na expansão de voçorocas.
1998. 210p. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Universidade Federal de Santa
Catarina, Florianópolis.
CAMARGO, G.; OLIVEIRA, M. A. T. de. Análise tridimensional de volumes de solo e
evolução de encosta em área afetada por erosão em voçorocas e em túneis no sul do
Segundo Planalto paranaense. Geosul. Florianópolis, v. 14, n.27, 1998. p. 430-437.
CASTRO, S. S. Micromorfologia de solos: pequeno guia para descrição de lâminas
delgadas. Apostila. IPT/CAPESXCOFECUB/DG-USP, 1989.
FENWICK, I. Paleosols: Problems of recognition and interpretation. In: BOARDMAN,
J. (Ed) Soils and Quaternary landscape evolution. Nova Iorque: John Wiley &
Sons, 1985. 391p.
NAHON, D. B. Introduction to the petrology of soils and chemical weathering. Nova
Iorque:John Wiley & Sons, 1991. 313 p.
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