A RESISTÊNCIA DE CORPOS QUE
NÃO AGÜENTAM MAIS:
a oficina de criatividade em um contexto manicomial
Fátima Avila
Socióloga; mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional (UFRGS).
Tania Mara Galli Fonseca
Psicóloga; professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional (UFRGS).
Resumo
Trata-se de mostrar a Oficina de Criatividade do Hospital
Psiquiátrico São Pedro como um espaço da heterotopia e da
resistência, onde o louco tem possibilidade e permissão de manter
um contato com o mundo, através de sua produção plástica. A
oficina se desloca, da posição em que a clínica se propõe como
mera suplência institucional proporcionada à loucura, para um
outro contexto, que se deixa afetar por singularizações e devires.
Palavras-chave: heterotopia; resistência; acontecimento.
Abstract
We want to show the Creativity Workshop of the São Pedro
Psychiatric Hospital as a space of heterotopie and resistance,
where the intern has the possibility and the permission to contact the
outside world, through its plastic production. The Workshop has
shifted from mere institutional substitute to madness to another
context in which it is affected by singularities and changes.
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Keywords: heterotopia; resistance; event.
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Pensar a Oficina de Criatividade do Hospital Psiquiátrico São Pedro1
requer uma breve “visita” ao contexto de sua criação, ou ao modelo pelo qual ela se
inscreveu no espaço institucional. É a partir de 1978 que os primeiros movimentos
da reforma psiquiátrica no Brasil começam a fluir. Em seu desdobramento político,
no Rio Grande do Sul, é sancionada a Lei da Reforma Psiquiátrica n.9715/92.
Nesse texto, proíbe-se a construção de novos hospitais, criando-se recursos
alternativos extra-hospitalares, tais como os atendimentos comunitários e as
pensões protegidas. Nessa ótica, o Hospital Psiquiátrico São Pedro (HPSP)
começa a sofrer um processo de desativação, como instituição asilar, conjugando
ações que passam pela criação de moradias para seus ex-internos, ou mesmo pelo
“retorno” do asilado à sua família. Antes disso, algumas iniciativas2 buscavam criar
espaços que proporcionassem a ressocialização do usuário institucionalizado,
através de alternativas para a saída das pessoas do interior das unidades. Tais
empreendimentos enfrentavam um certo tempo social em que a instituiçãomanicômio solidificou-se como depósito da loucura, entretanto conseguiram traçar
alguns rumos que viabilizaram o terreno para que o acontecimento3 reforma
psiquiátrica pudesse vir à tona no HPSP.
Assim é que, costurando-se em duro tecido de disputa por novos
caminhos, para uma visualização da urgência de vida que a afeta, a reforma
psiquiátrica não se torna a simples transposição de uma trajetória que está
permeada pela exclusão e pelo silêncio – corpos abafados pela medicação, pelo
isolamento e pelo descaso social – para um radioso modo de vida, que a
contextualizaria no mundo tal como ele é. Tratou-se e trata-se, sim, de encontrar
caminhos alternativos para o sofrimento, outras formas de viabilizar a vida no ser
louco, já que o asilo se situa num campo institucional de vitoriosos e derrotados, e
nele o psicótico está submetido a práticas do saber-poder difíceis de serem
rompidas. Mas, nesse momento, quer-se assinalar que junto a esses saberes
fortemente instituídos, fronteirizaram-se ações que, muito lentamente, insinuaramse: eis a brecha que fez fluir a Oficina de Criatividade.
A emergência da oficina na fissura do instituído
110
Tendo como suporte o trabalho empreendido por Nise da Silveira junto ao
Museu das Imagens do Inconsciente-RJ, em 1990 é implantada no Hospital
Psiquiátrico São Pedro, a Oficina de Criatividade, hoje chamada Núcleo de
Atividades Expressivas Nise da Silveira, que surgiu, pois, afinada com o
movimento de reforma psiquiátrica. Emerge, assim, uma alternativa de
atendimento a pacientes internados na área hospitalar/asilar, estes aí vivendo, às
vezes, há mais de trinta anos.
“Acontecimentalizar” a oficina consiste, assim, no reencontro de suas
conexões, dos jogos de forças, e das estratégias que se formam e fluem em sua
superfície. Ao proceder a uma “desmultiplicação causal” da loucura, através do
estudo dos muitos processos que a constituíram, Foucault (2004) problematiza as
relações socioeconômicas que ali se produziram, e mostra todo um conjunto de
práticas que se materializam, “acontecimentalizando a loucura” e apontando, pelas
fendas da história, mais uma forma de docilização do corpo. Trata-se, pois, de
vasculhar o cristalizado, buscando multiplicidades intensivas, aquilo que se
produziu e se significa na ordem do intempestivo. Atualizando a história, criando
fissuras na linearidade temporal, estaremos na busca constante de devires,
abrindo o presente para as singularidades, de possibilitar a construção de novos
saberes, num projeto sempre inacabado, mas pleno de vitalidade. Numa forma de
operação, correr os riscos que se produzem no sentido da vida como amor fati, num
esforço de superação e da ética do guerreiro, um combate dos homens livres
(Nietszche, apud Amarante, 2000). Assim, o acontecimento produz-se pela relação
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de forças, sem mecanicismos, mas brilho puro em sua efetuação. Libertados do
modelo platônico de história, podemos pensar nas singularidades, em seus
desvios e acidentes, distante das teleologias. A história não é uma única duração, é
uma multiplicidade de durações, envolvidas e em cadeia: “acontecimentalizar” é
deixar surgirem singularidades. Não há um marco zero da história, mas um fluxo
descontínuo, estilhaçado em mil pontos, que pode ser articulado. Esses fluxos
transversalizam a história: a proveniência, que aponta para o múltiplo dos
acontecimentos, no qual o corpo “é inteiramente marcado pela história” e pela ruína
que a história ali produz. E ele é o ponto de partida quando pensamos nos
apagados caminhos que constituem as trilhas da loucura, onde o louco tem seu
corpo esvaziado, suas lembranças ressecadas, sendo fragilmente montado num
outro corpo, fabricado que é pela instituição-manicômio, como um átomo que não
produz qualquer laço com os outros que o circundam.
Projeto forjado na adversidade, visto que, em muitas ocasiões, esteve por
ser desativado4, especialmente por tratar-se de um espaço que não opera no
mesmo viés da clínica tradicional, a Oficina de Criatividade inseriu-se na linha de
que a reforma psiquiátrica não se viabiliza somente como uma questão técnica ou
assistencial, mas mostra-se com um disruptor de um modo de subjetivação Tratase de uma bifurcação incomum no seio de uma instituição psiquiátrica
praticamente devastada, em função do descaso com que o poder público tratou a
loucura dos pobres, ao longo dos anos, secundarizando-a socialmente,
especialmente pela ótica do insano como ser improdutivo, desqualificado e sem
interesse para os valores do sistema capitalista.
Na oficina, o asilado-louco se faz linguagem, mesmo que fisicamente
mudo. Lá, produz-se um clima que contagia a todos os que a freqüentam,
sugerindo-nos uma constante atualização de um passado que não houve e de um
futuro que se vive no hoje, a todo instante. Trata-se de uma “atmosfera” tão peculiar
que os internos, quando lá estão, falam “lá, no São Pedro”, como se o território da
oficina fosse sua libertação, constituindo-se, pois, um fora no interior do asilo.
Forçamo-nos a criar um novo olhar, então, para esse outro estado subjetivo que se
formula no interno quando ele se afasta da rotina manicomial, provido de outra
linguagem que não aquela do seu cotidiano. A oficina emerge como um outro
espaço, capaz de abrigar seu transbordamento, que está inerte no manicômio:
nela, consolida-se a permissão para deixar-se aflorar, tendo como ferramentas
lápis, pincéis, argila, papel, tintas. Dali, onde está concretizada sua internação,
para o outro espaço, o interno subtrai algo daquele estado letárgico do hospício,
onde é medicado, alimentado, onde dorme, e também caminha, erraticamente, por
suas ruas e praças. Os versos de Claudina (Centeno, 1994, p.53), paciente e
moradora do HPSP de tantos anos, podem auxiliar-nos a perceber a potência de
aprisionamento e confinamento do espaço manicomial:
H.P.S.P.
Entrei na Divisão Kraepelin e fui deitar-me numa cama
Estou aqui há 30 anos
Divisão Bleuler
Minha caminha na Divisão Bleuler
Minha pobreza
111
Rima
Quarto-quartinho
Cama-caminha
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Na oficina, nesse outro espaço que não deixa de ter ressonâncias com o
hospital-asilo, mas que também se distingue dele por sua capacidade de fazer
circular uma outra aragem, há uma configuração que possibilita a presentificação
da expressão plástica do louco, da potencialização de sua subjetividade, um
espaço do possível, ainda que dentro do território tradicional da institucionalização
da loucura.
E se a loucura pode ser considerada da perspectiva do excesso, muito
mais do que da do defeito ou falta, podemos também reportá-la a comportamentos
que são estranhos ou que não cabem em nossa compreensão cartesiana, mas
nem por isso são desprovidos de vida e de potência de criação.
Os sujeitos loucos, ainda que controlados em suas manifestações
subjetivas, podem potencialmente manifestar-se através da arte5, já que a arte
refere-se a um espaço de transposição, potencializando toda forma de expressão
para dialogar com o mundo.
Mas, que obra é esta que é produzida na oficina pelo interno? Falar sobre
as procedências de uma arte louca, descontextualizando-a da vida cotidiana, não
nos habilita a uma codificação, a uma linha ordenadora e classificatória e,
conseqüentemente, a sua inclusão num sistema desveladamente comercial e
fugaz. A produção plástica de um psicótico é sim um processo no qual o sofrimento
subsiste à obra, como um retalho de vida desconstruída dos códigos sociais. Um
artista pode produzir um devir-louco em sua obra, e um psicótico pode mostrar seu
devir-artista ao relacionar-se com uma produção plástica ou poética. É a forma de
se fazer ouvir e ver, quando as mentes loucas transitam por fora de uma linearidade
de pensamento.
Se falarmos, então, das fronteiras fluidas entre loucura e arte, poderemos
dizer que naquele momento em que o interno, quando na oficina, passa para a
matéria a sua criação – sempre momento único –, ele está rompendo
continuamente com a completude de sua obra, pois esta está em constante devir,
sem acomodação. Foucault (2004), quando fala na produção de artistas-loucos,
como Nietszche e Artaud, força-nos a pensá-la como uma abertura ao silêncio, ao
confronto entre vida e morte, em que a loucura “não se esgueira para os interstícios
da obra: ela é exatamente, a ausência de obra”. Assim, quando falamos da
produção plástica do asilado, é no fora que se encontra a ausência de obra, onde
ele revolve o que se sobrecodificou no manicômio: “uma experiência que se dá sob
o signo do Acaso, da Ruína, da Força ou do Desconhecido, [...] que se expõe às
forças do fora, mas que mantém com ele uma relação de vaivém, de troca, de
trânsito, de aventura” (Pelbart, 1993, p.95-96). Desse lugar polissêmico, onde
transitam diversas entradas, muitas saídas, lugar tomado de frestas e o contrário
de uma ciência, é ali, nesse fora, que se produz a vivência do insólito, sem
formações racionais ou equilibradas. Trata-se de uma exterioridade que dá acesso
ao dentro e é, desde sempre, dela indissociada.
112
Esse trânsito pode levar, então, ao desmantelamento de estruturas
fortemente estabelecidas, não por sua mera destruição, mas pelo agenciamento
de novos modos éticos e estéticos, pode dar passagem às forças de vida. Trata-se
de fugir ao representacional e, no sentido espinosiano, à opção para abertura aos
devires, para a alegria em afirmar as potências do vir-a-ser.
“Chamamos ética não a um dever para com a Lei ou o Bem,
nem tampouco a um poder de segregar ou distinguir o puro do
impuro, o joio do trigo, o Bem do Mal, mas a uma capacidade
da vida e do pensamento que nos atravessa em selecionar,
nos encontros que produzimos, algo que nos faça ultrapassar
as próprias condições da experiência condicionada pelo social
ou pelo poder, na direção de uma experiência liberadora, como
num aprendizado contínuo” (Fuganti, 2005, p.6).
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Pensemos, então, na Oficina de Criatividade como um solo criado para
re-singularização do louco, como espaço “inobediente” em relação à tradição
normalizadora, como operador de fissuras no ordenamento “civilizado” do
hospício. A oficina possibilita o devir-artista do louco, acolhendo sua expressão
plástica como uma forma de contato com o mundo, e está voltada para produzir o
finito-ilimitado dos corpos e para a aceitação da alteridade e das alterações. Há
vibratilidade em sua produção, uma certa inquietude perpassa todo o processo de
sua comunicação, sendo que, através dela, podemos vincular-nos às forças que
produzem trânsitos entre loucos e arte, nas quais podemos criar diálogos por suas
semelhanças e por suas trajetórias.
E é do território-oficina que podemos falar de um acontecimento para os
corpos loucos que circulam no manicômio:
“Certamente o acontecimento não é nem substância nem
acidente, nem qualidade, nem processo; o acontecimento não
é da ordem dos corpos. Entretanto ele não é imaterial; é
sempre no âmbito da materialidade que ele se efetiva, que é
efeito; ele possui seu lugar e consiste na relação, coexistência,
dispersão, recorte, acumulação, seleção de elementos
materiais; não é o ato e nem propriedade de um corpo; produzse como um efeito de e em dispersão material” (Foucault,
2001, p.96).
O acontecimento como ruptura, nos diz Foucault, faz fluir singularidades.
Trata-se do acontecimento como uma inversão de uma relação de forças, de uma
dominação que fraqueja, da confiscação de um poder. Sob um fundo silencioso, o
devir se anuncia, como aqueles que se subtraem ao poder da dominação,
irrompendo num acontecimento, e desconstituindo o vetor linear do tempo
histórico. É a permissão para que se misturem formas, seres, jeitos e produzam um
acontecimento.
Corpo, arte, clínica6
Podemos observar que, na dinâmica da oficina, se desdobra, por sua vez,
um outro modo de clínica, no qual se desfaz a idéia central de reabilitação para o
convívio social. Desloca-se a posição em que a clínica se propõe como mera
suplência institucional proporcionada à loucura para um outro contexto, que se
deixa afetar por singularizações e devires. “Abrir o corpo da clínica implica uma
problematização da questão ética” (Fonseca; Engelman, 2004, p.299), que se cria
na vontade de renovar o socialmente instituído.
A demanda ética não provém, portanto, das formas morais que se
instalam socialmente, mas tem respaldo na criação de modos de vida, nos quais, a
cada momento, é primordial que “sinalizadores ético-políticos” (Rago; Veiga-Neto,
2002, p.237) ajudem a avaliar a trajetória da ação que se faz presente,
metamorfoseando-a e reconfigurando-a.
Eduardo Passos e Regina Benevides (2001, p.90) definem a clínica como
experiência de desvio, como constante busca por novos territórios existenciais,
sendo ela uma “figura do contemporâneo, utópica e intempestiva” sempre em
construção, especialmente por sua dimensão política e por sua força de
intervenção sobre a realidade, procedendo a formas de atualização de si e do
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Esse modo de agir do sujeito que convive com a loucura dentro do asilo
passa, necessariamente, pela transformação sensível em suas formas de
trabalhar, no sentido de se produzirem, no espaço que é do louco, viabilizações
para seu contato com o mundo. Por que não trazer à tona a potência criadora que
está acossada em algum canto da subjetividade louca?
mundo. Essa clínica que, de forma irreversível, se atualiza na reforma psiquiátrica
destoa da órbita dos modelos rígidos característicos da tradicional prática
psiquiátrica que se instaurou, ao longo dos anos, no manicômio. Numa operação
histórica, podemos visibilizar quanto a política, a cidade, as instituições asilares, as
famílias nela se encontram: a clínica amplia seu endereço, desloca seu limite, e é
no fora que a clínica se torna possível, como nos diz Deleuze (2003).
Ao desfossilizar o que há em nós do endurecimento,
descompromissarmo-nos das linearidades e das representações, uma nova
visibilidade pode transformar a vida que vive numa sombra, na qual as coisas são
apenas objetos e, para dar-lhe um mínimo de cores e de sensações, podemos
reinventar formas para escavar o que a vida produz na criação. Assim, uma
interlocução sujeito-objeto faz emergir novas produções de significados, novas
expressões e, nesse interstício, produzir novas formas de vida. Podemos falar,
então, da clínica potencializada pela arte, criando um espaço facetado, múltiplo,
incitado pela emoção, num denso projeto de vida. Assim,
“É no contato com o caos enquanto germe que Deleuze vê a
vocação clínica da arte, 'para além de toda psiquiatria e toda
psicanálise'. Mas devemos especificar que tipo de espaço se
articula a esta forma minimal e flexível, que deixa passar os
fluxos, ao invés de aprisioná-los” (Lancetti, 1990, p.117).
Acreditamos que um de tais espaços pode ser o da oficina que, como
experiência de libertação, e num desdobramento de suas funções, acolhe a
transdicisplinaridade da clínica, num projeto desestabilizador e crítico daquilo que
está instituído, fusionando-se ao contemporâneo e operando no plano das
sensações.
Podemos, portanto, visibilizar a oficina como um “espaço clínico que
busca no informe dos corpos empanturrados por violentos venenos, algo referente
a uma espécie de jejum, uma espécie de uma nova dieta que converte o moribundo
do sistema técnico-científico em embrião de outras possibilidades”, nos diz Tania
Fonseca (2004).
No corpo-suporte em que a loucura se faz e nesse que se produz na
atualidade, Denise B. Sant'Anna (Rago; Orlandi, 2002, p.99) fala de uma nova
ordem na qual ele seja capaz de atravessar o tempo e acessar muitos lugares:
fazer dele uma passagem. Reinserir o corpo nos acontecimentos da vida, como
território de ressonâncias destituído de um processo narcísico, que é a atual
vocação para um eterno durar inconcretizável. Na loucura, o corpo torna-se, muitas
vezes, um estrangeiro de si-mesmo, desabilitado dos contornos mundializados de
comportamento: eis aqui o corpo paradoxal, na medida em que não é algo pronto
mas também não é um rascunho. Não como o abrigo da multiplicidade, mas como a
própria multiplicidade que é a subjetividade abrigada no sujeito.
114
“Um corpo habitado por, e habitando outros corpos e outros
espíritos, e existindo ao mesmo tempo na abertura
permanente ao mundo através do silêncio e da não-inscrição”
(Lins; Gadelha, 2002, p.140).
Em sua performance no mundo, o corpo não está no presente, como nos
diz Deleuze (2003). Ele contém o antes e o depois, e também o “cansaço e a
espera”, e até o desespero. Quando falamos na loucura, vemos corpos
comprimidos entre uma visão singular de sua vida e os recortes de verdades que
não permitem saídas, quando muito seu retorno à contratualidade social. E a
loucura impõe um estatuto próprio aos corpos. Assim, pensar a idéia de
singularidade como elemento diferencial na composição de forças pode constituir
uma saída, uma linha de fuga possível, como propõe Deleuze, na qual “toda
relação de forças constitui um corpo” (Deleuze, 1976, p.85). Este será sempre esse
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encontro de forças, pluralidade de singularidades em desterritorialização
permanente, o que o faz perder contornos em um dado momento, mas os re-edifica
em outro. A existência de espaços instituídos para fazer produzir o corpo-louco a
partir de ressonâncias de seus interiores e singularidades opera, no nosso
entender, a serviço de sua resistência, projetando novos começos, para que ele se
desritualize. A Oficina de Criatividade pode tornar-se um operador para essa outra
conexão.
Trata-se, pois, de agenciamentos interiores e exteriores que produzem
múltiplas formas de espaço, ao estilo da faixa de Moebius ou dos quadros de
Escher, que contraem o dentro e o fora no mesmo contexto, produzindo uma
“simetria assimétrica”. Nesses caminhos, um corpo sem órgãos se produz na
consonância desse paradoxal com o corpo, ou seja, funcionará através do afecto.
Eis aí a criação como vetor de sua singularização, inventando vontades de
potência para um corpo saturado, não simplesmente cansado, mas esgotado de
nada, com tudo que é possível, segundo nos diz Deleuze (2003). Fabrica-se, então,
um espaço sem palavras, sem significados e sem representações, como pode ser
o da oficina para o corpo louco que não agüenta mais: uma última forma de
resistência que lhe proporciona um contorno e restitui-lhe a potência de resistir.
Resistência, criação e heterotopia
Loucura e formas de linguagem entrelaçam-se no âmbito da oficina.
Linguagem vinculada à expressão plástica de pulsões e que se desvia daquela que
se configura na rede de relações ordinárias tecidas no urbano. Ao rasgar o asilo, a
oficina se desloca como um não-lugar de convocação ao sentido, ainda que
cercado pela precariedade. Pode ser vista como uma espécie de corpo que fala de
dentro do manicômio, que se expande para além dos estreitos limites do espaço
institucional. Trata-se de um acontecimento, atravessada pelas potências de
resistência. Mas a que a oficina resiste?
Resistir através de linguagens expressivas é um dos processos que pode
ser fortalecido na produção da subjetividade do louco fora dos padrões
normalizadores. O sujeito que cria o faz porque está “saturado”, prestes a explodir,
na busca de uma expressão que está fora dele. Encontra o caminho para um
indizível e desconhecido algo de liberação de silêncios. Esse transbordamento
torna-se fluidez para um mundo menos duro e mais vivaz. Podemos pensar que a
oficina se transforma, para o louco, numa cidade clandestina apta ao
desregramento, rodeada por um espaço manicomial onde não há riscos e
atrevimentos, apenas a linearidade de um tempo-eterno que se projeta sem
alguma perspectiva. Na oficina, a clínica se desloca para o lugar da vida e acontece
como existência e usos de si.
A heterotopia consegue sobrepor, num mesmo espaço real, vários outros
espaços, produzindo um lugar que está fora de qualquer lugar, embora localizável,
lugar que se “gruda” numa nova geografia e instala-se para que, a partir dele, se
desdobrem novas conexões. Para Foucault, a heterotopia é concebida como uma
construção intelectual, com capacidade para qualificar as mudanças que
acontecem nos espaços públicos. Trata-se do “espaço do fora, em que somos
lançados para fora de nós mesmos, onde se desenrola a erosão de nossas vidas,
de nosso tempo e de nossa história. Espaço que nos agarra e nos mastiga”
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Esse atributo de resistência nos possibilita situar a oficina no plano da
heterotopia (Foucault, 1999), como espaço de realização da utopia, forjado na
invenção de outros costumes de um "grande número de mundos possíveis
fragmentários" (Miskolci, s/d).
(Foucault, 1967, p.3). O espaço heterotópico se mostra “em relação com todos os
outros lugares, mas de um modo tal que eles suspendem, neutralizam ou invertem
o conjunto de relações que se acham refletidos para eles” (Foucault, 2001, p.415).
Como uma heterotopia, a oficina se constitui em lugar que opera uma
saída de si, um lugar que está sempre do outro lado, sempre numa fuga do
estilizado e em uma opção pelo positivo, pelo múltiplo e pela diferença.
Operando por contágio, a oficina produz um modo de subjetivação
caracterizado pela resistência, não como uma ação de endurecimento do sujeito em
si mesmo. Nas palavras de Pedro de Souza,
“É justamente o contrário. O movimento é de saída da trincheira,
metáfora da ordem simbólica que determina o que é e o que não
pode ser o sujeito. Resistir não é deter-se em si como origem de
subjetividade, mas enveredar para outros modos de
subjetivação tomando atalhos por onde o discurso que
determina a verdade do sujeito não entra” (Souza, 2003, p.41).
Na oficina, visualizamos “uma força interna que se duplica e que se constitui
num combate interno de forças que forjam uma dobra, uma volta para si mesmo, um
domínio de si [...] ligando a superfície à profundidade” (Lancetti, 1990, p.56).
Abertura ao inconsciente, ao silenciado, a um vazio repleto de sentidos,
que não se coaduna com a vida que habita o cotidiano. E é no silêncio da loucura
que estão todas as palavras despojadas do esquadrinhamento social. É difícil
compreender a dramaticidade que se aloja no sentimento do ser louco,
dessincronizado com o contexto-mundo e que encontra na linguagem-arte uma
forma de quebrar seu silêncio interior. Essa linguagem não transita somente pelas
palavras faladas, pelas imagens pictóricas e musicais, ela engloba silêncio. Da
linguagem, fazem parte os vazios do som, mas também seus cheios; as sombras
de um quadro, o contexto das cores, as pausas na música, a palpitação das notas.
Isso também se refere à linguagem, sendo que o silêncio possui uma potência
infinita, tanto quanto nossa interioridade. Um instante de silêncio é carregado de “n”
conotações, de vida, de morte, de abalos e paralisias, mas nunca corresponde a
uma ausência de sentido.
Na loucura, a densidade do silêncio é mais avassaladora que a fala, esta,
muitas vezes, ausente no sujeito louco. É no silêncio de seu rosto que se expressa
o horror de seu interior. Mas o silêncio louco não se constitui como indício do
esquecimento. O vão mudo da vida louca resiste, sim, ao completo apagamento,
pois não há silêncio de nada: é sempre de algo que se silencia. Silêncio do que se
guarda secretamente. Silêncio das prisões secretas que habitam a subjetividade
louca. O louco, figura detida em seu silêncio, também resiste em seu mutismo: seu
silêncio é incômodo, inquietante, de uma potência sem fim. Seu silêncio é também
um sinal do não-esquecimento, do que resiste ao completo apagamento, ou seja,
do que subsiste no corpo. Enquanto resiste, o louco existe também, como vida
habitada pelo silêncio.
116
Essa loucura silenciosa e silenciada pode vir a ser escutada na oficina,
pois se um instante de silêncio é carregado de sentidos, uma vida muda é ampla em
expressividade, e muitos mutismos loucos vibram como um grito. O silêncio
eloqüente desses “sobreviventes de um estranho holocausto contemporâneo”
(Amarante, 2000, p.71) possibilita-lhes uma via para passagem de fluxos vitais a
caminho de uma subjetividade criadora.
A oficina é um pedaço, um fragmento do asilo, um espaço heterotópico,
onde se entrelaçam movimentos e linhas que também atravessam o manicômio,
porém com um outro foco de luz. Ela se ilumina de criação. Do manicômio que a
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abriga, projeta-se ali a imanência que permite ao louco produzir outros modos de
comunicação, seus protestos indizíveis sobre o “estar vivo”. Refere-se a um
clinamen, como a introdução do imponderável quando um esquema de forças
estritamente mecânico produz a ruptura da necessidade, do plano da física, para
acolher a contingência. Eis aí o espaço para uma outra linguagem.
“O clinamen é a determinação original da direção do movimento
do átomo. [...] um diferencial de matéria, e por isso mesmo, um
diferencial do pensamento. [...]. Ele manifesta a impossibilidade
de reunir as causas num todo” (Deleuze, 2003, p.276).
Trata-se de desritualizar o que seria uma lógica historicista da trajetória
da loucura, mesmo dentro do hospício, conotando a Oficina de Criatividade um
espaço onde a loucura é um pouco menos escabrosa ou triste. Essa
desritualização permite fundar brechas que nos visibilizam os excessos da loucura,
em sua forma mais humana, menos infame e dotada de tanta sensibilidade quanto
aquela que nos é dada a ver no mundo que circula na normalidade.
NOTAS
1
O nome oficial é Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira – NAENS –, mas a designação de Oficina
de Criatividade, recebida quando de sua criação, no ano de 1990, é como o espaço é conhecido tanto no
hospital como fora dele.
2
Uma delas, e de maior repercussão, de acordo com Fernando de Souza Boese, era o Projeto Vida (1987),
coordenado pelo psiquiatra Salvador Célia.
3
Na página 3, encontra-se o sentido de acontecimento que é trabalhado no presente artigo.
4
Em 1991, no governo de Alceu Collares, a oficina sofreu um grave retrocesso, com a desativação do Projeto
Vida, mas foram mantidos alguns núcleos de atendimento, que passaram a ser subordinados
administrativamente ao Serviço de Terapia Ocupacional.
5
A partir deste momento, a palavra “arte” não será usada, em nossa pesquisa, no sentido “mundializado”:
será uma forma de designação para aquilo que o louco expressa em seus trabalhos na oficina, seguindo uma
outra linha que não aquela que estamos conectados cultural e mercadologicamente.
6
Trata-se de título de livro, conforme consta da bibliografia, ver Fonseca; Engelman, 2004.
REFERÊNCIAS
AMARANTE, Paulo. (Org.). Ensaios: subjetividade, saúde mental, sociedade. São Paulo: Ed. Fiocruz, 2000.
BOESE, Fernando de Souza. Hospital Psiquiátrico São Pedro (HPSP). Centro de Referência Humanística do
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CAP 7_FATIMA AVILA_E_TANIA MARA GALLI