Sonia Maria Berbare Albuquerque Parente EM BUSCA DA COMUNICAÇÃO SIGNIFICATIVA: TRANSFORMAÇÕES NO OLHAR DE UMA ANALISTA NA CLÍNICA DA INIBIÇÃO INTELECTUAL Doutorado em Psicologia Clinica PUC/SP SÃO PAULO 2005 Sonia Maria Berbare Albuquerque Parente EM BUSCA DA COMUNICAÇÃO SIGNIFICATIVA: TRANSFORMAÇÕES NO OLHAR DE UMA ANALISTA NA CLÍNICA DA INIBIÇÃO INTELECTUAL Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do Título de Doutora em Psicologia Clínica sob a orientação do Prof. Doutor Luís Claudio Mendonça Figueiredo PUC/SP SÃO PAULO 2005 Banca Examinadora __________________________________ __________________________________ _________________________________ __________________________________ __________________________________ DEDICATÓRIA À Sara Paín Representante de tantos outros Mestres que, como ela, ousaram criar a partir do pensamento de outros Mestres. Esperando que o tempo de encontros entre Mestres e discípulos continue... AGRADECIMENTOS Neste momento especial tenho muito a agradecer às pessoas que vem me acompanhando com carinho, generosidade e respeito neste caminhar, pessoas que compartilham o gosto pela pesquisa e pela aventura da descoberta. A vocês: Crianças que atendo e que nos canteiros do seu sofrimento permitem que sementes de esperança brotem para serem regadas e germinadas na experiência compartilhada. Pais das crianças, que quando olhados e compreendidos no seu sofrimento, favorecem que processos de transformações aconteçam. Luís Cláudio Figueiredo, por ter me dado a moldura para desenhar os traços e o caminho da pesquisa. Gilberto Safra, que com carinho me acompanha e permite compreender que o fruto pode ser a causa do ramo. Tânia Vaisberg e Nelson Coelho Junior pelas sugestões tão pertinentes no exame de qualificação. Leslie Marko, amiga de tantas interlocuções e com quem transito entre a arte, o brincar e o aprender. Sanny S da Rosa, amiga e parceira de tantas indagações e trocas significativas no campo da aprendizagem criativa. Regina Cruz e Creuz e Bia Mazzolini, amigas tão presentes e interlocutoras entusiasmadas. Winnicott e Sara porque se emprestaram e me permitiram estranhar, distanciar e criar. Meus pais, primeiros educadores da minha vida, meus irmãos, companheiros de viagem, berço de raízes, de saudades, de movimento. Grupo de orientação: Ana Luiza Nogueira Vessoni, Alessandra Ribeiro, Beatriz Rouco, Suzana Pastori, Daniele John, Regina Amaral, Nora Miguelez, Karin Slemenson, Soraya Martins e Suzete Capobiano contribuições sempre instigantes. Marilú Tassetto pela revisão cuidadosa. CAPES por acreditar e incentivar a pesquisa no nosso país. pelas discussões e RESUMO Neste trabalho, tomo a experiência clínica desenvolvida ao longo de meu percurso profissional como objeto de investigação, focalizando os momentos que levaram a ampliações e/ou a mudanças de vértices na direção do meu olhar clínico. Para tanto pretendo dar visibilidade aos dispositivos clínicos usados, às intervenções realizadas e aos efeitos produzidos nos atendimentos de crianças com sofrimento psíquico ligado a momentos e/ou a estados de inibição intelectual. O objetivo é desenvolver uma reflexão sobre o processo de transformação no modo de conceber e usar os referenciais teóricos de Sara Paín e D.W.Winnicott. Inicialmente, o trabalho de aprofundamento em determinado referencial permitia apropriar-me da teoria ou de aspectos dela e, num segundo momento, aplicá-la para determinado objetivo, verificando a sua eficácia ou a sua possibilidade de lançar luz sobre algum aspecto do fenômeno em jogo. Na minha experiência, a teoria é útil e interessa quando serve para iluminar a clínica. Proponho, portanto, um uso transicional da teoria na clínica. No percurso realizado, pude estabelecer relação entre a inibição intelectual e o tema da comunicação significativa, concepção que desenvolvi inspirada na noção de espaço potencial de Winnicott. Essa concepção mostrou-se fundamental em minha prática clínica, por ter favorecido a superação das dificuldades da criança e também por ter se revelado como o fundamento ético de minha prática como analista. A comunicação significativa acontece no campo terapêutico intersubjetivo, transformando a subjetividade do pesquisador-analista em sua prática clínica e em sua compreensão das teorias que usa, ao mesmo tempo em que promove a superação da inibição intelectual das crianças atendidas. ABSTRACT In this work, I get the clinical experience developed within my professional life as an investigation object, focusing on the moments which guided to enlargements and / or to vertex changes in the direction of my clinical view. However, I intend to give visibility to used clinical devices, realized interventions and produced effects in the attendance of children with phychic suffering closed to moments and /or states of intellectual inhibition. The objective is to develop a reflection about the process of changing as to conceive and use Sara Paín and D.W.Winnicott’s theoric referencials. Initially, the serious study in determined referencial allowed to assume its theory or aspects and, later, to be applied to a determined objective, verifying its efficacy or possibility of throwing light on some phenomenon aspect at stake. In my experience, the theory is useful and it interests when it serves to make clear the clinic I propose, therefore, a transicional use of the clinical theory. In the realized path, I could establish the relation between the intellectual inhibition and the theme of the significative communication, a conception which I inspired developed in the notion of Winnicott potential space. This conception revelead crucial in my clinical practice, for also having favored the overcoming of the children’s difficulties and also for having disclosed how the ethinical bedding of my practice as analyst. The significative communication happens in the intersubjective therapeutical field, changing the subjectivity of the researcheranalyst into his clinical practice and in his understanding of the theories which use, at the same time that promotes the overcoming of the intellectual inhibition of the attended children. SUMÁRIO Introdução...............................................................................................................1 I. Viagem de Ida: Diálogo entre o quadro de inibição intelectual e diferentes contribuições teóricas........................................11 Estação 1. Contextualizando o percurso e o campo.....................................11 Estação 2. Contextualizando o quadro de Inibição Intelectual....................26 Estação 3. Compreendendo Carol à luz do confronto entre Klein e Paín.................................................................................................44 Estação 4. Compreendendo Carol à luz de Paín e Winnicott.......................62 II. Baldeação: Repensando a Inibição Intelectual a partir de novas indagações teóricas.....................................................................80 III. Viagem de Volta: Comunicação Significativa e Jogo Tridimensional na Clínica da Inibição Intelectual...........................................89 Estação 5. Compreendendo Eric à luz do fenômeno estético.....................89 Estação 6. Testemunhando o caminhar de Eric na criação da externalidade do mundo.................................................................112 Estação 7. Transformações do Olhar..........................................................138 Considerações Finais....................................................................................161 Referências Bibliográficas............................................................................168 INTRODUÇÃO "A verdade é uma experiência e cada um deve tentá-la por sua própria conta e risco.” Tagore1. Neste trabalho, pretendo tomar como objeto de investigação a experiência clínica desenvolvida ao longo do meu percurso profissional, focalizando os momentos que levaram a ampliações e/ou a mudanças de vértices na direção do meu olhar clínico. Para tanto, pretendo dar visibilidade aos dispositivos clínicos usados, às intervenções realizadas e aos efeitos produzidos nos atendimentos de crianças com sofrimento psíquico ligado a momentos e/ou a estados de inibição intelectual, com a finalidade de desenvolver uma reflexão sobre o processo de transformação no modo de conceber e fazer uso de determinados referenciais teóricos. Um dado importante a ressaltar é que meu percurso profissional realizou-se a partir de duas vertentes de formação e prática clínica: uma como psicóloga institucional, nas áreas escolar e clínica, e outra, como psicanalista. Desenvolvidas, inicialmente, de forma paralela, essas vertentes foram se imbricando numa prática singular de atendimento a crianças com problemas de aprendizagem. Enquanto a experiência institucional me levava a um aprofundamento na Psicopedagogia Clínica, proposta por Paín, a partir das contribuições da Psicanálise e da Escola de Epistemologia Genética de Genebra, a experiência como psicanalista me levava a usar de forma mais flexível, determinados referenciais teóricos na busca de compreensão sobre o funcionamento psíquico de crianças com inibição intelectual. 1 TAGORE, R. Pássaros perdidos. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Edições Paulinas, 1991. 1 Assim encontrei as contribuições de Klein e Luzuriaga, num primeiro momento, e, num segundo, as de Winnicott. O diálogo com Paín constituiu-se numa ponte que permitiu o trânsito entre esses dois momentos. Esse percurso é, essencialmente, fruto do diálogo entre a prática desenvolvida com pacientes com sofrimento psíquico ligado às queixas de problemas de aprendizagem e à minha forma de compreender e fazer uso de aspectos presentes em tais referenciais teóricos. Considero importante esclarecer o uso que pude fazer dos referenciais em jogo. Num primeiro momento, um trabalho de aprofundamento em determinado referencial permitia apropriar-me da teoria ou de aspectos dela e, num segundo, aplicá-la para determinado objetivo, verificando sua eficácia ou sua possibilidade de lançar luz para algum aspecto do fenômeno em foco. Assim, é curiosa a questão da teoria no caso de um terapeuta – pesquisador que pretenda construir conhecimentos em Psicologia Clínica. Em minha experiência, a teoria é útil e interessa quando serve para iluminar a clínica. Se com Paín, aprendi que é preciso ser cético em relação à teoria e ingênuo em relação à prática, com Winnicott, aprendi que a originalidade se dá a partir da tradição e da capacidade de usar as contribuições de outros, para criar e desenvolver a própria. Em trabalhos anteriores2, estabeleci um diálogo entre o atendimento clínico de crianças com inibição intelectual e os referenciais teóricos de Sara Paín e D. W. Winnicott. No primeiro, aprofundei-me na passagem da contribuição de Paín, em Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem (1985), para a teoria sobre a Função da Ignorância (1987, 1989), que trata das relações entre as dimensões afetiva e cognitiva no pensamento do sujeito que aprende, focalizando o atendimento de uma criança com inibição e outra com problema-sintoma de aprendizagem. No segundo, levantei artigos e conceitos presentes na vasta obra 2 Pelos Caminhos da Ignorância e do Conhecimento, 2000, e Pelos Caminhos da Ilusão e do Conhecimento, 2003, ambos publicados pela Casa do Psicólogo. No segundo livro, incluí parte da dissertação de mestrado: Inibição intelectual: o paradoxo no sintoma expressando paralisia e busca da criatividade. Defendida na PUC/SP, em 1996. 2 de Winnicott3 — como o de espaço potencial, noção de uso de objeto e fenômenos transicionais — e os usei para fundamentar uma clínica da aprendizagem e, também, para lançar luz sobre o atendimento de outras duas crianças com inibição intelectual. Se nos dois trabalhos realizei um diálogo entre a prática e esses referenciais teóricos, situados em momentos determinados, focalizando o tema da aprendizagem e a relação da criança com os objetos da cultura, aqui desenvolvo e aprofundo uma reflexão incluindo todo o meu percurso profissional, inclusive um primeiro momento de passagem, ainda não analisado anteriormente. Refiro-me à contribuição de Klein, patamar de onde parti na busca de compreensão sobre o funcionamento mental das crianças com inibição intelectual. Esse referencial foi se mostrando insuficiente, pois não respondia às questões suscitadas na clínica, o que me levou à busca, ao uso e ao diálogo entre a prática e os referenciais de Paín e Winnicott. Este percurso me levou a priorizar a abertura de um espaço de troca e comunicação significativa entre a criança com inibição intelectual e o mundo de realidade compartilhada, a partir da criação de símbolos, testemunhando o seu caminhar em direção à criação da externalidade do objeto do mundo compartilhado favorecendo, assim, a instauração de um processo de autoria e apropriação de conhecimentos. Ao dar visibilidade aos dispositivos clínicos que construí, e venho utilizando a partir da transformação de determinados conceitos de Winnicott e Paín, pretendo resgatar as aproximações, rupturas e conflitos entre estas heranças teóricas, buscando recuperar, não apenas o fio que determinou essas passagens, mas também acompanhar a reconstrução histórica desses dispositivos e a forma como uso esses referenciais atualmente na prática que desenvolvo com crianças com inibição intelectual. 3 WINNICOTT (1941, 1945, 1949, 1952,1954-5,1959,1960,1963-a,1963-b,1963-c, 1964, 1965a,1965 b, 1968, 1959; 1967a ; 1969; 1975,1990, 1994). 3 É preciso esclarecer um aspecto importante. Embora este trabalho considere as diferenças epistemológicas existentes entre os referenciais utilizados, o foco não é discutir essas contradições, mas sim considerá-las, quando necessário, para acompanhar o percurso e os momentos de passagem que levaram a transformações no olhar da minha escuta clínica. Com isso, reafirmo que o meu objetivo é dar visibilidade aos dispositivos clínicos4 usados atualmente na minha experiência de atendimento, para desenvolver uma reflexão a respeito do processo de transformação no modo de conceber e fazer uso desses referenciais teóricos. Embora considerados incompatíveis, ao mesmo tempo, do ponto de vista da clínica, eles se apresentavam como ferramentas consistentes e efetivas. Essa situação paradoxal trazia, para mim, um certo desconforto. Uma questão, então, se impôs: seria possível conciliar duas teorias, consideradas epistemologicamente distintas na prática clínica? Se sim, como? Em caso afirmativo, será que esses dois referenciais, se usados durante um mesmo atendimento, aconteceriam em tempos diferentes, concomitantemente, ou mesmo, um posterior ao outro? E, mais! A contribuição de Winnicott apontaria para uma ruptura ou para uma ampliação no campo de observações e intervenções clínicas? Enfim, como pensar a clínica do desenvolvimento e da aprendizagem à luz de Paín e Winnicott? Neste trabalho busco mostrar que, se do ponto de vista teórico stricto sensu encontrávamos dificuldades, na clínica as diferenças epistemológicas não representavam empecilhos para o desenvolvimento dos atendimentos. Até pelo contrário, pareciam se complementar. Encontrar palavras para expressar aquilo que, muitas vezes, intuía e alcançava pela sensibilidade na experiência com crianças, especialmente aquelas com severa inibição intelectual, tornou-se possível, à medida que pude usar algumas noções de Klein, Paín e Winnicott. Como opero de forma intuitiva, pela 4 Uso o termo dispositivo clínico, neste contexto, para referir-me às funções exercidas pela analista buscando oferecer condições de a criança usufruir situações que permitam o desenvolvimento do seu potencial ativo e criativo. 4 sensibilidade, estabeleço uma relação subjetiva, isto é, quando ouço a criança, é como se eu fosse ela. Daí a necessidade de um conceito que atue como um terceiro para operacionalizar a minha sensibilidade, permitindo traduzi-la em pensamento, operações e intervenções, até para poder apropriar-me daquilo que vivi na experiência. Assim, trata-se de uma forma de usar a teoria em que faço um uso temporário dos conceitos que permitem lançar luz sobre aquilo que vivi na experiência clínica. Por isso mesmo, concordo com Figueiredo5 quando afirma que o fato de não podermos explicar racionalmente as nossas escolhas teóricas não nos dispensa de ter claro quais são elas e nem de dar visibilidade aos dispositivos clínicos usados a partir delas. Além da nossa relação obscura com a escolha e com as teorias, existe nelas um ethos6 subjacente que opera e tem efeitos, determinando uma leitura, uma compreensão e conseqüentemente, um tipo de intervenção. Daí a necessidade de um trabalho de reflexão e organização das minhas heranças teóricas para verificar o uso que fiz e faço das contribuições desses autores. Muito tempo se passou até que pudesse estabelecer a relação entre a inibição intelectual e o tema da comunicação significativa7 de fundamental importância, já que no meu percurso, a experiência com essas crianças evoluiu, também, de um registro não-verbal para um verbal. A trajetória não foi fácil. Não bastasse a complexidade do campo, era preciso nomear, dar palavras e inteligibilidade para o que acontece, sabendo de saída que as palavras estariam aquém da pretensão de expressar o que se 5 FIGUEIREDO, L. C. Revisitando as Psicologias: Da Epistemologia à Ética nas práticas e discursos psicológicos. São Paulo: EDUC; Petrópolis: Vozes, 1996. 6 Segundo Figueiredo (1996): “(....) ethos - o objeto da ética tomada como reflexão ou “teoria” – se refere, à morada". (p.44) Neste contexto, ethos é usado como aquilo que fundamenta e dá sustentação à teoria. 7 Inspirada na noção de espaço potencial de Winnicott (1941, 1975), a comunicação significativa, como é usada neste contexto, permite a instauração do fenômeno da ilusão da onipotência mantendo a continuidade e estabilidade do ambiente e a entrada da criança no movimento do jogo tridimensional que abre o campo do brincar, conhecer e aprender. 5 almejava. Disso sabem bem os que escrevem sobre os assim chamados casos clínicos. Enfatizo, assim, que dar palavras e inteligibilidade para esse tipo de acontecimento exige que um analista – pesquisador clínico –, suporte a tensão e lide com pensamentos e sentimentos paradoxais. Trabalhar a partir do modelo da intersubjetividade, tal como o entendo, implica explicitar o processo de relação do terapeuta com ele mesmo, dele na sua relação com os pacientes, dele com o seu processo singular de identificação com as concepções e fundamentos teóricos adotados e, especialmente, a de um trânsito entre todos esses eixos. Trata-se de um caldeirão de muitos ingredientes que se tornam enriquecedores quando bem aproveitados e digeridos. E não é só isso! No campo terapêutico intersubjetivo, cada experiência clínica significativa contribui para transformar a subjetividade do pesquisadorterapeuta e, conseqüentemente, a sua forma de ler e compreender seja as teorias, seja a prática, o que transforma não só o diálogo que estabelece, mas também, a sua própria maneira de compreender, fazer intervenções, dialogar e usar as teorias. Importante ressaltar que, neste campo, – o da intersubjetividade – tudo o que acontece põe em xeque tanto o terapeuta quanto o paciente, já que é fruto da história de uma relação e de uma experiência estabelecida num campo criado e compartilhado por ambos. Essa perspectiva rompe com a noção de neutralidade do analista e exige poder transitar num modelo que opera fora da dicotomia sujeito-objeto, desenvolvida na perspectiva do pensamento racionalista. O que organiza o campo de vivências no campo intersubjetivo é muito mais do que uma lógica. Trata-se de um movimento, de processos ambíguos e paradoxais que admitem, portanto, a existência simultânea de elementos contraditórios. Implica, também, numa outra forma de compreender o vínculo transferencial: como exercício de funções psíquicas para atender as primeiras necessidades da 6 criança, sendo a primeira delas a da comunicação significativa. Que permite a entrada da criança no movimento que caracteriza o jogo tridimensional8. No meu caminhar da clínica dos problemas de aprendizagem que focaliza as relações entre as dimensões afetiva e cognitiva do pensamento do sujeito que aprende (PAÍN, 1985, 1989) para a da comunicação significativa, tema a ser aprofundado neste trabalho, operacionalizei e flexibilizei a noção de Paín sobre a Função da Ignorância por meio da noção de uso de objeto e de fenômenos transicionais de Winnicott. Essa flexibilização se tornou possível devido a uma forma pessoal de compreender e fazer uso dessas noções e, especialmente, a de acolher a noção de Função da Ignorância como lugar, como ethos. Isso permitiu o desenvolvimento de uma atitude que estou propondo chamar de espera receptiva do analista. Nesse caminhar, outras dimensões, para além da técnica, tornaram-se importantes. Refiro-me às dimensões ética e estética. Como já disse, uso a primeira noção, no sentido desenvolvido por Figueiredo9, de que há em cada teoria um ethos que opera e tem efeitos. Da mesma forma, talvez seja a partir de um ethos, isto é, de uma concepção de homem e visão de mundo, que o analista compreende um fenômeno clínico, o que lhe permite identificar, escolher e usar determinada teoria, ou aspectos dela, justamente porque ilumina tal fenômeno. Já a dimensão estética, tal como é usada neste contexto, refere-se à capacidade de o analista se deixar afetar pela ressonância que o modo de ser e estar no mundo da criança provoca nele. Isso é possível graças à sua disponibilidade genuína de ser testemunha do processo, deixar-se afetar de forma visceral pela marca singular que a criança imprime na atmosfera do ambiente e sustentar os encontros por meio da comunicação significativa que 8 O jogo tridimensional ao qual me refiro não se refere à triangulação, como comumente é abordada no campo psicanalítico, relacionada ao complexo edípico e à angústia de castração. 9 FIGUEIREDO, L. C. M. Revisitando as Psicologias: Da Epistemologia à Ética nas práticas e discursos psicológicos. São Paulo: EDUC; Petrópolis: Vozes, 1996. 7 acontece numa área em que não há diferenciação entre sujeito e objeto. Quando o impacto em questão pode ser transformado e entrar no espaço de jogo, ele é, em si, transformador, como veremos na apresentação dos atendimentos clínicos, especialmente nas Estações 4 e 5. Nada melhor do que fazer uso dos atendimentos clínicos que mobilizaram o surgimento das questões que levaram às mudanças no modo como passei a compreender e a fazer intervenções na clínica. Para acompanhar as transformações nos vértices do olhar da escuta clínica, dividirei esta tese em dois grandes momentos: A viagem de ida e A viagem de volta. As estações que as compõem serão paradas, momentos para refletir sobre como os referenciais, ou melhor, como algumas noções de Klein, Paín e Winnicott iluminaram aspectos da clínica com essas crianças, permitindo a construção dos dispositivos clínicos. Na viagem de ida, na Estação 1, apresento um histórico de como, a partir da experiência desenvolvida como psicóloga em Escolas e Clínicas de Saúde Escolar da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, recortei o campo dos problemas de aprendizagem e o quadro de inibição intelectual como objeto de investigação. Essa experiência levou-me à Psicopedagogia Clínica e à busca de formação em Psicanálise. Na Estação 2, contextualizo o objeto e as questões mobilizadas pelo diálogo entre a prática e diferentes contribuições teóricas. Buscava resposta para a indagação, geralmente feita pelos profissionais que atuam nessa área: por que uma criança com potencial intelectual preservado, não pode fazer uso da sua inteligência e aprender? Na Estação 3, estabeleço um confronto entre as concepções presentes nas contribuições de Luzuriaga, desenvolvidas de acordo com a perspectiva kleiniana, e a de Paín, afastando-me da abordagem da primeira por meio de um diálogo com 8 o atendimento de Carol, uma menina de 9 anos, com um quadro de inibição intelectual. Na Estação 4, aproximo determinadas noções de Paín de outras de Winnicott, focalizando momentos do atendimento de Carol, usado aqui para acompanhar a construção histórica dos dispositivos clínicos. A seguir, faço uma pausa – Baldeação – para refletir sobre o que aprendi na experiência de diálogo entre os referenciais de Luzuriaga (Klein) e Paín, ressaltando as novas questões que se me impunham naquele momento, preparando-me, assim, para fazer a viagem de volta por meio do diálogo entre o atendimento de Eric, um menino de 7 anos e as contribuições dos autores anteriormente citados. Na estação 5, retomo o caminho trilhado após a defesa da dissertação de mestrado10 e estabeleço um diálogo entre o atendimento de Eric e determinadas noções provenientes do referencial de Winnicott que permitiram compreender a participação do fenômeno estético como possibilidade de abertura do espaço de comunicação significativa. Na Estação 6, busco dar visibilidade aos dispositivos clínicos que favoreceram a criação de condições para a instauração de um campo de comunicação significativa e a entrada de Eric no movimento do jogo tridimensional, que permitiu a abertura de um campo, no qual o brincar, o conhecer e o aprender aconteceram. Na Estação 7, apresento uma concepção de conjunto de meu percurso, bem como uma compreensão sobre ele, explicitando como conceitos de Paín e 10 Inibição intelectual: o paradoxo no sintoma expressando paralisia e busca da criatividade, defendida na PUC/SP, em 1996, sob a orientação do Prof. dr. Gilberto Safra. 9 Winnicott, já transformados, permitiram desenvolver uma posição ética da qual decorre a atitude de espera receptiva. 10 I VIAGEM DE IDA: DIÁLOGO ENTRE O QUADRO DE INIBIÇÃO INTELECTUAL E DIFERENTES CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS Estação 1. Contextualizando o percurso e o campo “Importa compreender melhor o passado, porque, além dele apontar para o futuro, nele já se fecundam as sementes do presente”. Pretendo contar como a experiência institucional desenvolvida inicialmente como psicóloga escolar, numa atuação preventiva nas escolas municipais da periferia de São Paulo, de 1977 a 1980 e, posteriormente, como psicóloga clínica com crianças de pré, 1ª e 2ª séries nas Clínicas de Saúde Escolar da Secretaria Municipal de Educação, de 1981 a 1987, numa atuação terapêutica individual ou em grupo, determinou o recorte do campo dos problemas de aprendizagem e o tema da inibição intelectual como objeto de interesse e investigação. Na busca de compreensão sobre o funcionamento psíquico de crianças com esta sintomatologia, fui aproximando, aos poucos, duas vertentes de atuação e formação: como psicanalista e como psicóloga escolar e clínica institucional, o que me levou a psicopedagogia. A experiência como psicóloga escolar O início do trabalho como psicóloga escolar aconteceu na mesma época em que era professora supervisora de Técnicas de Exames Psicológicos – TEP, na faculdade de Educação e Cultura de São Caetano – FEC, e fazia o curso de especialização em Psicodrama. Recém-formada e cheia de sonhos, comecei a atuar como psicóloga escolar. Não sei se por destino ou acaso, pois isso parecia natural e dava continuidade a algo que havia começado muito antes. Filha de um educador não-formal e de uma professora que considerava sua missão alfabetizar crianças de 1ª série com dificuldade para aprender, cresci imersa num ambiente 11 em que o campo de vivências era organizado por temas relacionados às questões educacionais. Na época, havia um mito que organizava o funcionamento familiar: o famoso querer é poder. Como todos em minha família, creio que até aproximadamente 1980, eu tinha uma leitura do mundo bastante linear, lógica e que valorizava a dimensão da objetividade. Ainda não tinha constatado a participação do inconsciente nos acontecimentos humanos! Penso que fatores de ordem pessoal vividos na época, aliados, especialmente, à experiência como psicóloga escolar, foram fundamentais para as transformações que se seguiram. Fazer as intervenções no âmbito escolar não era tarefa fácil, especialmente, devido à resistência à mudança que os educadores apresentavam. Era inegável a distância entre o que falavam e o que faziam. Era gritante o caráter de repetição das suas atitudes e, conseqüentemente, da repetição dos acontecimentos. Era impossível não acreditar na existência de uma força – e reconhecer que ela era interna – que impedia esses educadores de fazer as transformações necessárias para que uma mudança real acontecesse na realidade externa. Esse era um dos elementos, entre outros, que me levava a reconhecer que mesmo pessoas inteligentes e sem problemas de aprendizagem formal podiam emburrecer e não fazer uso do seu potencial intelectual, no caso, mesmo se tratando de adultos e com formação em Educação. A mesma questão que geralmente (pré) ocupa os que atuam no campo da aprendizagem se colocava: como compreender o fato de que pessoas inteligentes, em determinados momentos, podiam não ter a disponibilidade de fazer uso do seu potencial e aprender? Embora, na época, ainda não trabalhasse com a questão da patologia da aprendizagem, já me interessava em observar momentos de paralisia e/ou inibição intelectual, o que viria, posteriormente, a ser o meu tema de investigação. Só 12 muito mais tarde, poderia associar essas experiências a dois dos pilares da psicanálise: o de que o inconsciente opera e tem efeitos e que o caráter de repetição é uma das propriedades fundamentais da pulsão. A partir daí, não podia mais acreditar apenas na dimensão da objetividade, nem que querer era poder. Tinha sido marcada de forma irreversível pela consciência de que o inconsciente tinha uma participação decisiva nos acontecimentos humanos. O reconhecimento de que pessoas brilhantes do ponto de vista intelectual, às vezes, não podiam fazer uso do seu potencial, nem mesmo para viver de forma criativa, cada vez mais me afastava da leitura ingênua, linear e lógica que, até então, tinha da vida. Trechos de um poema de Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa, talvez ajudem a comunicar o que pretendo: No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto (...) E a alegria de todos, e a minha, Estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim” (...) Aniversário11 Na minha experiência, reconhecer a existência e a força do inconsciente, significou, também, reconhecer que havia uma relação entre ele, a existência de uma dimensão afetiva e o funcionamento da inteligência. Após reconhecer a força 11 CAMPOS, Álvaro de. Aniversário. In PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1997. p. 379-0. 13 de algo que funcionava para além de uma possibilidade de conhecimento e continência e que levava os educadores a um certo emburrecimento e à repetição de mesmos padrões de comportamento e atitudes, não fazia mais sentido dar continuidade ao trabalho de conclusão do curso de especialização em Psicodrama, que, justamente, buscava demonstrar a possibilidade da eficácia daquela técnica para mobilizar uma mudança de atitude nos educadores. Talvez uma mudança já tivesse se operado em mim, acabando por determinar dois movimentos de busca. Por um lado, iniciei um processo de análise pessoal e, por outro, o curso de Mestrado em Psicologia da Educação na PUCSP. Nele buscava encontrar um referencial teórico que permitisse dialogar e refletir sobre a prática escolar que desenvolvia. Infelizmente não era essa a linha do curso de Mestrado em Psicologia da Educação, pelo menos, naquela época. Com a abertura de mais duas Clínicas de Saúde Escolar ligadas ao Serviço de Psicologia do mesmo departamento, transferi-me para uma delas para atuar como psicóloga clínica. Contextualizando a época e a experiência como psicóloga clínica Vale lembrar que o Serviço de Psicologia da Secretaria Municipal de Educação, fundado em 1964, existiu até 1989 e chegou a contar com mais de 140 psicólogos, entre escolares e clínicos, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, época em que o fracasso e a evasão escolar atingiram índices altíssimos, determinando uma série de movimentos que implicaram várias mudanças, inclusive a da concepção em relação à compreensão dos problemas de aprendizagem e da intervenção sobre eles. Em outro trabalho12, contei como a maioria dos profissionais (pedagogos, educadores de saúde pública, médicos, fonoaudiólogos) que atuavam no campo dos problemas de aprendizagem vivia um momento de transformação. Por 12 Ver PARENTE, S.M.B.A. Pelos caminhos da ignorância e do conhecimento - fundamentação teórica da prática clínica dos problemas de aprendizagem. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000. cap. 1 e 2. 14 motivos diferentes, buscavam definir os limites da sua atuação e apropriar-se de uma identidade profissional. Buscavam libertar-se das funções normativas a eles atribuídas até então, as quais favoreciam uma prática de exclusão social. Em termos da Psicologia Escolar, era o caso, por exemplo, das avaliações psicológicas usadas para a formação de classes: forte/média/fraca, o que, muitas vezes, levava à construção de estereótipos que não favoreciam os processos de desenvolvimento e aprendizagem. Por outro lado, nas Clínicas de Saúde Escolar, era evidente que o tipo de atendimento realizado não dava conta nem da demanda - era grande o número de crianças em fila de espera - nem da problemática: embora houvesse um bom desenvolvimento das crianças na área interpessoal (relacionamento na escola, família), o mesmo não ocorria em relação ao motivo do encaminhamento, isto é, do fracasso e repetência escolar. Isso, muitas vezes, contribuía para desistências e abandonos durante o processo terapêutico. Vale lembrar que, na etapa do tratamento, usávamos as técnicas da psicomotricidade e da ludoterapia, especialmente na linha kleiniana e de forma individual, tal como desenvolvidas em consultório. O objetivo da ludoterapia era a mudança nas relações no mundo interno e na fantasia inconsciente da criança, sendo as questões da aprendizagem, familiares, escolares, pouco consideradas. O diagnóstico também era feito da maneira tradicional e geralmente chegávamos à conclusão de que havia ”a presença de fatores emocionais interferindo no possível rendimento intelectual”, o que pouco acrescentava ao que já sabíamos. Falava-se uma linguagem a que os pais não tinham acesso. Mais de uma vez, ouvi mães comentarem que não entendiam por que seus filhos não aprendiam, o que estava sendo feito para ajudá-los e como elas poderiam participar do processo. Não conseguíamos ajudar os pais porque também nós não entendíamos porque as crianças não aprendiam. Era evidente que havia ali uma questão ética. Nós nos comprometíamos com a questão dos problemas da 15 aprendizagem e não a considerávamos. Isso porque a formação acadêmica não fornecia elementos para o desenvolvimento da prática que precisávamos realizar. Na esteira de todo esse movimento, no início da década de 1980, todo o Departamento de Assistência ao Escolar passou por uma reformulação: era preciso mudar as concepções e oferecer um tipo de atendimento condizente com a demanda. A questão era: como atualizar o modelo de atendimento e adequá-lo àquela realidade? Era preciso também demonstrar a eficácia do trabalho do Serviço de Psicologia e desenvolver novas estratégias para resolver a questão do fracasso e evasão escolar, que continuava com índices altíssimos. Hoje, poderíamos dizer que as crianças continuavam a denunciar com seu fracasso escolar, o fracasso do sistema educacional como um todo. Mas isso não estava claro para nós naquela época! Já não se acreditava mais que as crianças não aprendiam por problemas de carência social, desnutrição ou problemas neurológicos. Esses mitos não mais se sustentavam e todo um movimento se desenvolvia contrariando essas concepções. No bojo desse movimento, de 1982 a 1985, passei a ser a coordenadora técnica do Serviço de Psicologia Clínica e a observar a resistência à mudança, agora, por parte de muitos psicólogos que não acreditavam na eficácia do trabalho grupal e nem estavam abertos para conhecer referenciais que focalizassem a questão da aprendizagem. Foi a chance para me aprofundar ainda mais na compreensão sobre o funcionamento de crianças que, apesar de inteligentes, em determinados momentos não tinham a disponibilidade de fazer uso da inteligência e aprender. Duas preocupações norteavam minha busca. Uma de ordem prática: dispor de um modelo para fazer o diagnóstico e o tratamento dos problemas de aprendizagem individual e grupal nas Clínicas de Saúde Escolar. Outra de natureza teórica: encontrar um referencial que permitisse compreender a 16 articulação entre afeto e inteligência no problema de aprendizagem através da perspectiva psicanalítica. Além disso, havia a proposta de escrever trabalhos sobre as experiências que vinham sendo desenvolvidas, até então, nas Clínicas de Saúde Escolar, inclusive a que sistematizava passos para a consecução de um diagnóstico grupal dos problemas de aprendizagem. Aproximando as formações em psicanálise e em psicopedagogia A prática como psicóloga escolar naquela instituição aliada a de atendimento como psicóloga clínica durante aproximadamente 7 anos definiu não apenas o percurso, mas também o recorte do campo e do objeto de investigação. Na minha experiência, uma reflexão crítica sobre o trabalho que fazíamos nas Clínicas de Saúde Escolar e a abertura de um campo de interlocução voltado para as interfaces entre a psicanálise, a aprendizagem e o trabalho grupal aconteceu por meio da experiência de supervisão com Mary Carpossi13, iniciada durante o curso de formação em Psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae. Os relatos de trabalhos desenvolvidos por ela com grupos de crianças, juntamente com psicopedagogos na Argentina, levou-me a buscar subsídios nessas contribuições, já que a formação acadêmica brasileira não nos preparava para trabalhos institucionais dessa natureza. Algum tempo depois, por seu intermédio, conheci Ana Maria Muñiz14, com quem comecei minha formação e supervisão em Psicopedagogia Clínica. Fazer parte como psicopedagoga da equipe de profissionais coordenada por Muñiz, para pôr em prática uma experiência pioneira, incentivou-me ainda mais a aprofundar minha formação no campo dos problemas de aprendizagem. 13 Mary Carpossi, psicanalista argentina, com grande experiência em trabalho institucional residiu muitos anos em São Paulo, introduzindo muitos psicanalistas em abordagens psicodinâmicas de orientação psicanalítica, especialmente na de família e casal. Com ela fomos num grupo de aproximadamente 20 profissionais ao Primer Congreso Argentino de Psicoanalisis de Família e Pareja, em maio de 1987, em Buenos Aires. 14 Ana Muñiz, psicopedagoga argentina, residiu por aproximadamente 10 anos em São Paulo, onde realizava grupos de diagnóstico psicopedagógico, formando várias turmas de psicopedagogos. Foi responsável pela introdução da abordagem dinâmica na Psicopedagogia Clinica e faleceu em 13 de abril de 2002, em Buenos Aires. 17 Na época, estudava, por um lado, as contribuições de autores como Pichón-Rivière, Bleger, Dolto, Klein, Luzuriaga na vertente da psicanálise e, por outro, Piaget, na vertente da psicopedagogia. Buscava entender as relações entre o aspecto emocional e o funcionamento da inteligência, as relações entre pensamento e linguagem, ação e percepção, indagando-me, também, sobre o que fazer com a família e a escola, não apenas no diagnóstico, mas também no tratamento. Note-se que a terminologia usada na época era a do modelo médico: falava-se em distúrbios de problemas de aprendizagem, diagnóstico, tratamento e prognóstico. Foi nessa esteira que entrei em contato com a contribuição de Paín em Diagnóstico e Tratamiento de los Problemas de aprendizaje, que viria a ser publicado em português, em 1985. Tal contribuição permitiu não apenas focalizar e nomear melhor minhas questões, mas também começar a refletir sobre um novo projeto de atendimento. Nesse novo projeto, grupos de Intervenção Psicopedagógica (os GIPPI) poderiam ser realizados nas escolas da Prefeitura e utilizados de forma preventiva com pais e professores, enquanto os Grupos Terapêuticos (GT) continuariam a ser feitos nas Clínicas de Saúde Escolar. Entretanto, essas considerações que deveriam constituir um projeto de Psicologia Clínica Escolar foram literalmente varridas e não saíram do papel, devido a mudanças administrativas e políticas. Estávamos em 1985. Com a mudança política, Jânio Quadros assumiu a Prefeitura em 1986, dando início, por um lado, ao processo que levou, num primeiro momento, à descaracterização desse trabalho de Psicologia e, depois, à sua extinção na administração que o sucedeu. Por outro lado, a questão do fracasso e evasão escolar foi curiosamente “resolvida” em 1986, com a institucionalização do que viria a ser chamado sistema de promoção automática tanto nas escolas estaduais, quanto nas municipais de São Paulo. É possível compreender a deterioração do sistema de ensino público que levou a educação ao que é hoje. Colhemos os frutos dessa política em vários segmentos, inclusive na Educação Superior. Muitos são os universitários que 18 apresentam defasagem na capacidade de abstração e reflexão crítica, o que dificulta bastante o processo de ensino-aprendizagem e reconstrução de conhecimentos. Lamentavelmente, os ajustes e transformações que vinham sendo discutidos pelos profissionais sobre as questões não apenas técnicas, mas especialmente éticas, sobre a formação e desenvolvimento da Psicologia Clínica e Escolar naquele Serviço focalizando o campo dos problemas de aprendizagem foram sendo paulatinamente minados. Com a mudança de coordenação no Serviço de Psicologia, enquanto alguns psicólogos eram deslocados para outras áreas (Saúde, Cultura etc.), outros, desacreditados do trabalho, demitiam-se, não sendo substituídos. Em 1989, o que hoje se denominaria Serviço de Psicologia Clínica Escolar, já totalmente descaracterizado, foi transferido para a Secretaria Municipal da Saúde. Antes ainda da minha demissão em 1987, juntamente com o grupo que sistematizava os passos para a consecução do diagnóstico grupal dos problemas de aprendizagem, talvez numa tentativa de preservação do trabalho, lutamos e conseguimos dar continuidade à proposta de escrever artigos sobre as experiências que vinham sendo desenvolvidas, até então, nas Clínicas de Saúde Escolar. Esses trabalhos, que acabaram por ser apresentados no II Encontro Estadual de Psicopedagogos15, eram realizados pelos estagiários de psicologia, pois era grande a resistência dos psicólogos clínicos para se envolver no tipo de trabalho grupal proposto. Vale lembrar também que, durante esse II Encontro Estadual de Psicopedagogos de São Paulo, em 1986, foi fundada a Associação Brasileira de Psicopedagogia, que tinha como preocupação central a questão do fracasso e evasão escolar. É importante ressaltar que o primeiro curso de especialização em 15 Ver SCOZ, Beatriz Judith Lima et al. Psicopedagogia: o caráter interdisciplinar na formação e atuação profissional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987. cap. 5, 12 e 13. 19 Psicopedagogia tinha orientação reeducativa e começou em 1979, no Instituto Sedes Sapientiae. E também que, segundo Rubinstein (1987), o grupo que fundou a ABPP era “composto na sua maioria por pedagogos que fizeram o curso de especialização em Psicopedagogia no Instituto Sedes Sapientiae16. Muitos deles, igualmente, faziam grupos de formação com Ana Muñiz. Interessante essa reflexão histórica, pois permite resgatar as heranças e as marcas do percurso dos diferentes movimentos ligados à Psicopedagogia no Brasil. No caso da Associação Brasileira de Psicopedagogia - ABPS-SP, ela se formou na esteira da Psicopedagogia Reeducativa e, posteriormente, da Psicopedagogia Clínica de orientação dinâmica, aqui, introduzida por Muñiz. É preciso dizer que os psicopedagogos argentinos, formados, como Paín, na tradição piagetiana e psicanalítica, influenciaram e marcaram a história da Psicopedagogia brasileira de diferentes formas e em diferentes regiões. Se em São Paulo foi importante a contribuição de Muñiz, no Rio de Janeiro o foi a de Jorge Visca, com a introdução da abordagem convergente. Mais adiante contarei como foi a chegada de Sara Paín a Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. É preciso dizer que esse grupo que fundou a ABPS foi muito bem-sucedido em algumas de suas propostas, especialmente a de afirmar e defender a atuação do psicopedagogo. Basta ver o aumento do interesse por esse campo no final da década de 1980, e a proliferação de cursos de Especialização Lato Sensu em Psicopedagogia, na de 1990. Entretanto, a meu ver, pouco cuidado foi dispensado ao aspecto da formação profissional, que implicaria necessariamente numa reflexão e aprofundamento na discussão de questões éticas e técnicas ligadas às dimensões do diagnóstico, acompanhamento e dos tipos de intervenção, seja na prática institucional, seja na de consultório. 16 SCOZ, Beatriz Judith Lima et al. Psicopedagogia: o caráter interdisciplinar na formação e atuação profissional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987. cap 1. 20 Discriminando duas Modalidades de Psicopedagogia Em 1985, época em que as questões relacionadas ao tema do fracasso e evasão escolar estavam em plena ebulição foi publicado, no Brasil, Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem. Nesse livro, Paín defende – o que não é pouco – a especificidade do campo, enfatiza a diferença entre a Psicopedagogia Clínica e a Reeducativa e introduz a teoria psicanalítica na análise do problema de aprendizagem entendido como sintoma. Além disso, propõe uma classificação dos problemas de aprendizagem, que foi de extrema importância não apenas no meu percurso, mas no dos que seguiram acompanhando o desenvolvimento de seu pensamento. Cito, aqui, duas de suas contribuições que, acredito, operaram uma transformação no pensamento desse grupo. A primeira, refere-se à consideração da participação das dimensões familiar e escolar na constituição do sintoma; a segunda, à ênfase de que há os que não aprendem porque não lhe são dadas oportunidade para desenvolver os instrumentos de pensamento adequados, o que produz sujeitos passivos, sem autonomia e capacidade de reflexão crítica. Gostaria que se compreendesse por que desde essa época, venho assinalando tanto a importância de discriminar entre as duas modalidades de Psicopedagogia: a Clínica Escolar, que encontra sua fundamentação em Sara Paín e a Cognitivista ou Adaptativa, que encontra sua fundamentação em Piaget. São vertentes que trabalham a partir de concepções diferentes17, o que não é pouco, pois determinam diferentes leituras, compreensão e, conseqüentemente, diferentes tipos de intervenção. E mais! Tanto uma modalidade de psicopedagogia como outra podem ser usadas tanto na instituição (escolar, hospitalar, empresarial etc.) quanto no espaço de consultório. Assim, o dispositivo do profissional da aprendizagem, seja o psicopedagogo clínico escolar ou o cognitivista, não se define pelo espaço físico no qual a sua 17 Ver cap. 1, 2, 3 e 4. In Pelos caminhos da ignorância e do conhecimento e Introdução. In Subjetividade e Objetividade: Relações entre desejo e Conhecimento. CEVEC. 21 ação se realiza e, sim, pela escolha decorrente de sua identificação com uma ou outra concepção. Na verdade, o que se tem de levar em consideração é a crença na participação do inconsciente e na dimensão da subjetividade organizando o campo de relações entre o sujeito e o objeto a ser conhecido e, doutra parte, a desconsideração por essa dimensão. Claro que tudo isso tem relação com o aspecto da formação do profissional. A meu ver, faz-se urgente uma reflexão a esse respeito. Isso se queremos não apenas o reconhecimento da especificidade de uma profissão, mas, mais do que isso, que ela seja ética e contribua para a formação de sujeitos que possam apropriar-se e ser protagonistas da sua história. Talvez, fique mais fácil de entender se eu afirmar que da mesma forma que não se pode ser psicanalista sem estudar a contribuição de Freud, não se pode ser psicopedagogo sem estudar a de Paín, desenvolvida a partir das contribuições de Piaget e da Psicanálise. E isso não para concordar ou discordar da sua construção teórica e, sim, porque se trata de uma abordagem que define e defende a especificidade de um campo, apresenta um modelo teórico e uma teoria da técnica, o que possibilita um ponto de partida para o desenvolvimento de uma reflexão crítica. É apropriado importantíssimos, mencionar nem sempre dois outros lembrados, movimentos, a quando considera se meu ver, o desenvolvimento histórico da Psicopedagogia. Refiro-me ao Grupo de Estudos sobre Educação, metodologia de Pesquisa e Ação – GEEMPA-POA, fundado em 1970, que trouxe pela primeira vez Sara Paín a Porto Alegre, após o fim da ditadura militar na Argentina, em 1982, e do Centro de Estudos Educacionais Vera Cruz – CEVEC-SP que a trouxe a São Paulo. No CEVEC, Paín realiza, de 1982 a 1987, assessorias, seminários e conferências e, em 1987, ministra um curso18 em que apresenta as bases do seu 18 PAÍN, S. Subjetividade e objetividade: relações entre desejo e conhecimento. Centro de Estudos Educacionais Vera Cruz-CEVEC, 1996. 22 pensamento de forma bastante acessível, pois, na época, estava reescrevendo o que viria a ser a versão em francês, ampliada e atualizada, de A Função da Ignorância (1987, 1989, 1999)19. Nesse curso, fica claro o seu objetivo: a construção de um conhecimento cientifico sobre o pensamento do ser humano que permita refletir tanto sobre a prática educacional quanto a terapêutica. Além de “subverter a ordem vigente”, reconhecendo que a ignorância não é o oposto do conhecimento, pois faz parte de sua gênese, ela ressalta que mais importante do que ensinar é desenvolver a capacidade do indivíduo de formular perguntas, sua capacidade de reflexão crítica e autonomia de pensamento. Definia-se, assim, o campo teórico-prático da Psicopedagogia Clínica Escolar. Nesse curso, apresentei o atendimento de uma criança com sérios problemas de aprendizagem para ser supervisionado por Paín. Essa experiência teve uma influência decisiva em todo o meu percurso, não apenas como psicopedagoga, mas também como psicanalista. Bem, mas o que interessa para este trabalho é que quando me demiti da Prefeitura, em 1987, segui investigando as questões ali mobilizadas, em relação aos problemas de aprendizagem, até porque recebia muitas crianças e adolescentes com esse tipo de queixas no consultório. Então, comecei a observar um fato curioso: o encaminhamento para a psicopedagogia passou a ser um meio para driblar a resistência de pais em levar seus filhos ao consultório do psicólogo, visto que este era um lugar de atendimento para “doidos”. Atualmente podem-se observar práticas que começaram naquela época e são comuns até hoje, como o encaminhamento, às vezes, indiscriminado de crianças para os consultórios psicopedagógicos, deslocando-se para esse espaço 19 A primeira data refere-se à primeira publicação de A Função da Ignorância – na realidade, um seminário ministrado por Paín, antes do período de ditadura militar e do seu exílio em 1977, em Paris, onde reside até hoje. Foi publicado em 1985, em castelhano, sem a revisão da autora depois da abertura política, e em português em 1987, na esteira do movimento que levaria ao desenvolvimento do mercado de trabalho e a uma proliferação dos cursos de Psicopedagogia, na década de 1990. Em 1989, é publicada em francês revista e ampliada pela autora, com o mesmo título, vindo a ser publicada em 1999, no Brasil. 23 o que, muitas vezes, poderia ser da competência da escola, da família, do psicólogo ou de até outros profissionais. Foi fazendo sentido, para mim, a crítica de colegas, especialmente, do Serviço de Psicologia Escolar da Secretaria Municipal da Educação, assinalando o fato de que alguns pais de crianças de classe social alta acreditavam estar cuidando muito bem de seus filhos, porque, além de freqüentarem uma boa escola, eram levados, quase sem fôlego, como pequenos executivos e pelos motoristas, ao ortodontista, às aulas de natação, ao curso de Inglês e... ao psicopedagogo. Isso me leva a refletir sobre a necessidade de não sermos engolidos pelo sistema, evitando transformar os espaços “psi” em artigos de consumo. Hoje, reconheço que a minha dupla formação, talvez, tenha permitido compreender o “mau uso” que começou a ser feito da psicopedagogia desde aquela época. E, mais, talvez tenha preparado o terreno para que eu pudesse compreender a importância da dupla escuta preconizada por Paín como dispositivo para dar conta da relação entre a dimensão subjetivo-afetiva e a cognitivo-inteligente no pensamento do sujeito que aprende. Algumas Considerações É possível até aqui dar-se conta de que na década de 1980 não era como hoje, em que há tantos cursos de formação em Psicopedagogia ancorados nas contribuições de várias disciplinas entre elas, a Psicanálise. Não era comum o intercâmbio entre os profissionais das áreas da Educação, Psicanálise e Psicopedagogia, que, aliás, como vimos, até o início dessa década, só existia na linha da Reeducação. A aproximação dos psicopedagogos em relação aos temas psicanalíticos voltados para a participação do inconsciente e da subjetividade no processo de aprendizagem e construção de conhecimentos foi bastante lenta. 24 Naquela época, mais do que a falta de troca e diálogo entre os profissionais das áreas da aprendizagem e os da psicanálise, tratava-se, como bem apontado por Paín, de dois campos, que além de se ignorar, não se valorizavam. A situação não era diferente no meio psicanalítico que eu freqüentava. Era difícil a inserção de questões ligadas ao campo dos problemas de aprendizagem. Não havia uma reflexão sobre as possíveis relações entre as dimensões afetiva e cognitiva do pensamento do sujeito, pois era como se o desenvolvimento emocional dirigisse o psicomotor e cognitivo da criança. Na ludoterapia, o foco era o mundo interno de relações objetais e a fantasia inconsciente da criança, mesmo quando havia queixas de problemas de aprendizagem. Pouca importância se atribuía à participação do ambiente familiar e escolar na constituição desse sintoma. Por um lado, o aprofundamento nas contribuições de Freud e Klein na tradição do modelo pulsional, intrapsíquico na vertente da Psicanálise, e, por outro, na contribuição de Paín, na vertente da Psicopedagogia Clínica Institucional possibilitou a aproximação entre ambas ao recortar o quadro de inibição intelectual como objeto de investigação, como veremos no capítulo que se segue. 25 Estação 2. Contextualizando o objeto e as questões “Toda experiência é construída ou, melhor dizendo, toda experiência é em construção”.Figueiredo.20 Neste capítulo pretendo contar como a busca de compreensão sobre o funcionamento mental de crianças com inibição intelectual permitiu aproximar as duas vertentes de formação e atuação como psicopedagoga e como psicanalista, desenvolvidas inicialmente de forma paralela. Tenho claro que não falo do que realmente aconteceu e sim daquilo que a memória – enriquecida por muitas outras experiências pessoais e profissionais – alcança. Recorte do quadro de inibição intelectual Desde o início do meu trabalho clínico tanto nas escolas quanto nas Clínicas de Saúde Escolar e, também, no consultório, era o grupo de crianças com inibição intelectual o de diagnóstico mais grave, o que mais me mobilizava a uma reflexão, constituindo um objeto privilegiado de observação e questionamentos21. O que me intrigava é que, além da dificuldade para fazer o diagnóstico diferencial dessas crianças, elas apresentavam uma boa evolução e desenvolvimento, principalmente, quando alguém da família e/ou da escola apostava no seu potencial e se envolvia com elas de forma genuína. Entretanto, não era isso o que a literatura psicanalítica, especialmente a kleiniana, preconizava sobre o quadro. 20 FIGUEIREDO, L. C. (2002) O tempo nos processos de singularização (apostila usada em aula). Isso foi tema do cap. 6 em Pelos caminhos da Ignorância e do Conhecimento e dos cap.4 e 5 em Pelos caminhos da Ilusão e do Conhecimento. 21 26 Soifer conta que Pichón-Rivière cunhou o termo oligotimia ou inibição cognitiva para estabelecer a diferenciação entre esse quadro e a oligofrenia (deficiência mental). Na classificação que faz sobre os quadros psicopatológicos, numa perspectiva psicanalítica, Soifer inclui esse quadro no grupo das psicoses simbióticas e salienta um prognóstico bastante desfavorável para ele. Descreve as características das crianças oligotímicas da seguinte maneira: crianças com características autistas e, ao mesmo tempo, simbióticas, que mostram retração e dependência (...) apresentam persistência de situações orais primitivas associadas a núcleos depressivos e a intensa ansiedade de separação, a traços de fixação anal e elaboração deficiente da problemática edípica. Excessiva ansiedade paranóide constitucional ligada a ansiedade de aniquilação no início da vida. (SOIFER, 1985, p.115) Além do forte colorido kleiniano, trata-se de um prognóstico bastante fechado. Note, caro leitor, que o meu interesse em investigar o quadro de inibição, como psicopedagoga, nasce da distância entre o que observava a partir da experiência especialmente na instituição e o que a literatura psicanalítica falava sobre elas. Na busca de compreender tal distância, após 1987, época em que saí da Secretaria Municipal de Educação, segui aprofundando o estudo sobre o funcionamento mental dessas crianças que, apesar de inteligentes, não aprendiam. Diferentes autores contribuíram para o meu caminhar. Na realidade, o meu percurso no campo dos problemas de aprendizagem foi influenciado por duas linhas que se desenvolveram, a partir da contribuição de Freud e Klein, na Argentina, nas décadas de 1960 e 1970. Uma desenvolvida por meio das contribuições de Pichón-Rivière, que cunhou o termo oligotimia ou inibição cognitiva, e outra que continuou usando o termo inibição intelectual. Enquanto Pichón-Rivière – perspectiva adotada por Paín – acrescentava a 27 dimensão social à abordagem de Klein, Luzuriaga acrescentava a contribuição de Bion à de Klein, cunhava a noção de contra-inteligência22 e seguia usando o termo inibição intelectual. O uso de terminologias diferentes para nomear o mesmo quadro já evidencia diferentes concepções e anuncia a complexidade do tema. As questões mobilizadas pelo diálogo entre a prática e diferentes contribuições teóricas. Na estação anterior, contei que na década de 1980, era difícil a inserção de questões ligadas ao campo dos problemas de aprendizagem no meio psicanalítico que eu freqüentava. A crença era de que a dimensão emocional, afetiva,organizava e dirigia o desenvolvimento psicomotor e cognitivo. A ludoterapia era a técnica utilizada e o foco era o mundo interno de relações objetais e a fantasia inconsciente da criança. Os fatores ambientais pouco contavam, mesmo quando havia queixas de problemas de aprendizagem. O mesmo acontecia com os psicopedagogos que mantinham um distanciamento em relação a temas psicanalíticos voltados para a participação do inconsciente e da subjetividade no processo de aprendizagem. Assim, era difícil o diálogo entre os profissionais dessas áreas, o que dificultava uma interlocução significativa. É preciso lembrar que durante a minha formação como psicanalista havia começado minha análise pessoal e algumas supervisões na tradição do modelo Kleiniano, sendo essa perspectiva uma das adotadas no curso que eu fazia no Instituto Sedes Sapientiae – SP. Como era comum naquela época, me via muito mais submetida à dimensão conceitual do que propriamente ao movimento presente na experiência com o paciente. Como é sabido, a experiência vivida nas supervisões clínicas e, especialmente, na análise nos marca profundamente. Outra experiência, também marcante, foi proveniente de um grupo de estudos formado por mais quatro psicanalistas. Nele, aprofundávamos o estudo da leitura histórico-crítica da obra de M. Klein, realizada em dois volumes, por J. M 22 LUZURIAGA, I. La inteligência contra sí misma. Buenos Aires: Psique, Siglo XXI, 1972. 28 Petot23. e, também, a leitura de A Pulsão de morte24, um livro resultante dos trabalhos apresentados por vários autores, durante o Congresso de Marselha, realizado em 1984. Ambos foram publicados no Brasil, em 1988. A mola propulsora das indagações e do diálogo com tais publicações provinha da clínica e se relacionava com o tema da repetição da pulsão e da possibilidade de mudança psíquica dos pacientes. No meu caso, o das crianças com inibição, especialmente, na experiência institucional. A Contribuição de Green e Segal No final de março de 1984, foi realizado o Simpósio de Marselha em que várias questões foram colocadas, acerca da pulsão de morte. “Seria tal noção necessária para compreender a natureza conflitiva do jogo pulsional e a idéia de morte na atividade psíquica? Permitiria ela explicar os limites da ação terapêutica e daria conta das estruturas psicopatológicas?” (GREEN, p. 95). Em síntese, a indagação era: qual a utilidade da teoria sobre a pulsão de morte, tendo em vista a prática clínica? O que manter dela? O curioso foi que dos pensadores ali presentes, os que mais se aproximaram foram Hanna Segal e André Green. Ambos reconheciam a importância da noção de pulsão de morte na clínica, relacionando-a com a noção de desinvestimento. Em Hanna Segal, há uma fantasia de desinvestimento que expressa um ataque contra o desejo. Para ela, todo narcisismo é uma expressão da pulsão de morte, na medida em que é desobjetalizante, o que a aproximou de Green, que já havia feito referência à noção de narcisismo de morte. Além de reconhecerem que o desinvestimento das representações era obra do instinto de morte, havia uma concordância em articular a pulsão de vida com a função objetalizante e a de morte com a função desobjetalizante. 23 24 PETOT, Jen-Michel. Melanie Klein I e II. Estudos 96. São Paulo: Perspectiva, 1988. GREEN et al. A pulsão de morte. Tradução de Claudia Berliner. São Paulo: Escuta, 1988. 29 Interessante resgatar os pontos que me mobilizaram na época e determinaram a mudança que foi se operando, aos poucos, no meu modo de pensar. O primeiro foi o salientado por Green: a compulsão à repetição é uma propriedade fundamental da pulsão em geral e, em particular, da sexualidade. Em toda pulsão, há uma tendência repetitiva, como já apontava Freud; assim, a pulsão, conclui Green é conservadora e, portanto, ligada à compulsão e à repetição. Esta é ainda mais forte quando ligada à pulsão de morte. O exemplo apresentado por Green, para ilustrar tal idéia é brilhante e inquestionável. Ele estabelece uma diferenciação entre o luto estruturante, salientando o seu caráter de mudança e o luto impossível, sempre infiltrado por elementos destrutivos, opondo a melancolia ao luto. Hanna Segal acrescenta, na mesma linha de Green, que enquanto o instinto de vida permite a elaboração do luto e a simbolização, sendo uma força de adaptação e de mudança, as forças de morte são estáticas. Se são estáticas, levam a uma paralisia. Durante um tempo, fez sentido, para mim, a idéia de Isabel Luzuriaga de que a inibição intelectual seria fruto de um conflito em que a pulsão de morte levaria a melhor, já que o que observava nas crianças com inibição era uma impossibilidade de movimento, de brincar e de estabelecer trocas com o mundo externo. Não me aprofundarei, aqui, nas apresentações de Segal e Green. Entretanto, um outro ponto assinalado por Segal é importante. Segundo Freud, negociamos com a pulsão de morte desviando-a para dirigi-la contra os objetos. Após ilustrar com o exemplo clínico do impulso de um paciente de querer matá-la, como único meio de enfrentar a morte dentro dele, Segal afirma que Klein vai mais longe: (...) O ponto de vista de Melanie Klein, tal como o compreendo, é que o desvio da pulsão de morte, contra os 30 objetos, não é apenas uma transformação em agressividade, mas antes de mais nada uma projeção. Ao mesmo tempo, a pulsão de morte de dentro se torna agressividade (o desvio de que fala Freud) dirigida contra o objeto mau criado pela projeção original. Na situação analítica, a projeção da pulsão de morte é freqüentemente muito potente e afeta a contra-transferência. (p. 39-40). (grifos nossos) Isso significa que, se em Freud, a pulsão de morte opera de forma sutil, disfarçada e silenciosa no próprio corpo do indivíduo, em Klein ela é extremamente turbulenta, atingindo o ambiente, impedindo a discriminação e lançando o indivíduo num estado confusional. De qualquer forma, o ponto que interessa para este trabalho relaciona-se ao aspecto de compulsão à repetição – propriedade fundamental da pulsão em geral, e, em particular, da sexualidade, sendo mais forte ainda, quando ligada à pulsão de morte, conforme ressaltado por Green. A contribuição de Petot Ao resgatar anotações da época do grupo de estudos, verifiquei que as questões significativas encontram-se no vol. II – mais especificamente, nos capítulos 11, 12 e 13 da obra de Petot (1988). O primeiro trata da questão da inveja e da gratidão, o segundo da relação entre a metapsicologia kleiniana e os processos de mudança e o terceiro da atualidade das últimas concepções kleinianas. No capítulo 12, Petot assinala que, para Klein, o objetivo do trabalho psicanalítico seria facilitar a integração no ego da parte destrutiva, invejosa e voraz, até então, destacada pela clivagem e projetada no outro. Essa integração 31 efetuar-se-ia na e pela depressão, bem como estaria relacionada com o desenvolvimento da capacidade de reparação. O encontro com Petot foi providencial. Ao focalizar a meta psicologia kleiniana e a questão da possibilidade de mudança terapêutica do paciente, ao longo de uma psicanálise, ele discute a importância do papel etiológico dos fatores do meio, nas últimas concepções de Klein. Salienta que as declarações otimistas rareiam a partir de 1946. Em 1952, em Inveja e Gratidão, ela admite que “a existência de fatores inatos assinala os limites da terapia psicanalítica”. Segundo Petot: “Mais preocupada em avançar sua prática do que fundamentá-la em teoria, ela pôde simultaneamente formular as premissas de um raciocínio que, levado a sua conclusão, afirmaria a imutabilidade da constituição psíquica”. (PETOT, 1988, p.174) Para Klein, a inveja implica a destruição do objeto e é uma expressão sádico-oral e sádico-anal dos impulsos destrutivos a operar desde o início da vida. Sabemos que tais impulsos provêm da intensa ansiedade persecutória despertada pelo nascimento, sendo a sua base, portanto, constitucional. Dessa ansiedade decorre a relação dupla com a mãe, isto é, com o seio bom e o seio mau. Essa seria a projeção originária de que fala Segal. Não bastasse o fato de a relação inicial com o seio ser já naturalmente difícil, ela poderia, ainda, ser agravada por circunstâncias externas, tais como parto difícil, falta de oxigênio etc. Nesses casos, a capacidade do bebê de experimentar fontes de gratificação é prejudicada, pois ele não pode internalizar suficientemente um objeto primário realmente bom. Assim, tanto a inveja quanto a pulsão de morte atacam até mesmo a vida e as fontes de vida. Klein nunca mudou seu pensamento em relação ao que afirmou, 32 especialmente, entre 1929 e 1946: o verdadeiro amor objetal funda-se na culpa e na necessidade de reparar. Em 1952, ela reafirma, de forma categórica, o mesmo de 1946: "(...) o ego está presente e ativo desde o começo da vida, o que deixa claro que o ego não se forma, que ele dispõe de uma força constitucional, ou seja, inata e repartida de forma desigual, segundo os indivíduos". (PETOT, 1988, p 163). E quanto ao peso dos fatores do meio? Ele seria, por princípio, nulo: o indivíduo teria apenas uma quantidade limitada de agressividade a gastar para responder às privações ou aos acontecimentos que sinta como desagradáveis. Ainda segundo Petot, Klein: tende a sucumbir ao peso de uma verdadeira ideologia constitucionalista, a qual parece não apreender o caráter aporético. Após ter admitido que as privações reais podem modificar um certo equilíbrio pulsional e dar lugar à avidez, ela limita radicalmente o alcance desta afirmação, assinalando que a avidez sobrevém tão mais facilmente na medida em que o componente agressivo inato é mais poderoso e não hesita em concluir: conseqüentemente a força das pulsões destrutivas em sua interação com as pulsões libidinais fornece a base constitucional da intensidade da avidez. (PETOT, 1988, p.173). Paín e o modelo pulsional de Klein Ao discutir o texto kleiniano de 1952, Paín (1989) aponta que, se o lugar do sadismo na obra de Klein permanece o mesmo desde 1933, o mesmo não ocorre em relação à angústia persecutória que passa a estar mais ligada ao medo de aniquilamento vinculado ao instinto de morte do que ao medo da Lei de Talião. 33 Paín assinala que, para Klein, o motor do interesse do bebê pelos objetos novos e pela simbolização procede das pulsões destrutivas. Considera, também, extremamente difícil sustentar a hipótese de um sadismo e de um narcisismo primário, a menos que se veja aí a projeção do adulto. É ela quem afirma: O sadismo é o prazer provocado pelo sofrimento de outrem. Para ter um prazer sádico seria preciso, não somente, que esse sofrimento fosse percebido claramente como estando no outro, mas também que fosse diferente do prazer que o sádico sente. Sabemos que a criança só tardiamente é capaz de presumir no outro sentimentos que ela não sente simultaneamente (...). Além disso, dado que a noção de parte e de todo como continuidade interdependente é bastante tardia, seria impossível para o bebê conceber uma idéia de destruição sem ter, ao mesmo tempo, idéia de fragmento. Ora, o bebê habita um universo absolutamente fragmentado, à maneira de um quebra-cabeças disperso e variável, cuja organização lenta e laboriosa é o resultado da ação sobre as coisas. Como o despedaçamento, sendo anterior à noção de objeto, não pode inicialmente ser imaginado como diferença. A tensão que o adulto sente perante um lactente que grita é acompanhada de uma urgência para acalmá-lo. O adulto pode ser conduzido, então, a atribuir ao bebê intenções agressivas, mas para o pequeno é a única maneira de mobilizar o meio. O sadismo é instalado no bebê como uma projeção do adulto que dá significação aos seus gestos e comportamentos. “Que impaciente! Seja bonzinho! Como tu és mau! Não chore!” introduzindo-o num universo ético.”25 (PAÍN, 1999, p.146-7) 25 PAÍN, S. A função da ignorância. As estruturas inconscientes do pensamento. vol. 1. A gênese do inconsciente. vol. 2. Foi publicado em 1985, por Ed. Nueva Visión, Buenos Aires; em 1987, pela Ed. Artes 34 Paín assinala que o bebê demonstra mais curiosidade do que temor quando ocorre a destruição de um objeto que ele manuseia, a não ser quando os pais reagem violentamente. Ainda segundo Paín: “(...) o bebê é um pesquisador: ele vai colocar o fantasma à prova inúmeras vezes para tentar conhecer a causa eficaz da reação materna”.( PAÍN, 1999,p.146). Penso que o encontro com Sara foi significativo. Ela dava ainda mais sentido de realidade às contribuições trazidas por Petot sobre Klein, ligadas à dificuldade de mudança psíquica; e por Green e Segal ligadas à função objetalizante da pulsão de vida e a desobjetalizante da pulsão de morte. Na realidade, por meio de Paín pude seguir aprofundando o estudo sobre a importância do papel do meio ambiente na possibilidade de mudança psíquica das crianças com inibição, como veremos, ao longo deste trabalho. Assim, passo agora a focalizar o confronto que pude fazer das contribuições de Klein e Paín no sentido de compreender o funcionamento mental de crianças com inibição. A noção de contra-inteligência de Luzuriaga Luzuriaga (1972) desenvolve, em La inteligência contra si misma, a noção de contra-inteligência, para se referir ao processo em que a criança usa o próprio potencial intelectual para se manter numa atitude passiva, evitando, assim, contato com conteúdos dolorosos. Segundo ela, esses seriam os efeitos dos ataques destrutivos” da criança à própria inteligência e aos vínculos com a realidade interna e externa, seja ao conteúdo, seja àquele que o transmite26. Médicas, Brasil. Na França, essa obra deu origem a uma outra reescrita por Paín e publicada em um único volume pela Ed. Peter Lang, Berne, em 1989. Desta, houve uma tradução para o português, em 1999. 26 LUZURIAGA, I. La inteligência contra sí misma. Buenos Aires: Psique, Siglo XXI, 1972. 35 Ela não considera que as dificuldades intelectuais das crianças se devam a distúrbios orgânicos ou a uma inibição de seu desenvolvimento mental. Não seriam, portanto, consideradas como uma detenção do desenvolvimento, mas sim fruto de processos inconscientes que mantêm a criança isolada. Às vezes, a percepção inteligente da realidade objetiva e de seu mundo interior mobiliza na criança conflitos e sofrimento psíquico. Além de assinalar que a contra-inteligência luta contra a percepção e a compreensão do mundo externo e interno devido às vivências que ambas lhe despertam, Luzuriaga reconhece que os conteúdos vividos como perigosos são muitos e poderiam ser classificados, seguindo a denominação de Klein, em ansiedades depressivas e paranóides. Mas, segundo essa estudiosa, como os matizes tanto da perseguição quanto da culpa e da perda podem ser muitos, propõe-se a fazer uma apresentação de alguns tipos de ansiedades, classificandoas muito mais pelo conteúdo encontrado no material clinico, que pela sua qualidade (persecutória ou depressiva). Entre esses conteúdos aponta a rivalidade, a solidão e, especialmente, a inveja. É ela quem afirma: Aprender do outro, significa que ele tem algo valioso, de forma que não entender pode ajudar tanto a negar este conteúdo que fere como a desvalorizá-lo já que é valioso, porém, ininteligível. O tédio diante do saber dos outros é uma forma de desprezo que constitui uma das melhores armas contra a inveja. Todas essas fantasias são totalmente inconscientes para o paciente, que somente vivencia delas uma ansiedade, cuja origem não consegue compreender, mesmo que busque explicações racionais. Essa origem só pode ser desentranhada por meio do trabalho psicanalítico porque se expressam de forma simbólica que cabe ao psicanalista decifrar. (LUZURIAGA, 1972, p. 89) [tradução livre do autor] 36 Para melhor compreensão, sugiro os casos clínicos e a excelente descrição fenomenológica por ela apresentados, pois não me deterei sobre eles, uma vez que fugiriam ao objetivo desta estação. A pouca consideração atribuída aos fatores ambientais, na perspectiva de Luzuriaga, empobrecia a possibilidade de compreensão e de intervenção clínica, pelo menos, com essas crianças. Não favorecia, também, a abertura do campo de relações da criança com o mundo de realidade externa. Além disso, não ajudava a compreendê-la no seu contexto ambiental mais amplo, suas repetências escolares e suas dificuldades de relacionamento familiar e escolar. Talvez a experiência como psicanalista com pacientes com outros tipos de queixas, tenha contribuído também, para que eu me desse conta de que carregar nas tintas da destrutividade, levava -os a um estado de isolamento e retração ainda maior. É importante notar que essa concepção não aposta na saúde. É possível imaginar o que significou para mim o encontro com a contribuição de Sara, que se afinava mais com a linha de Pichón, buscando o sentido do sintoma e considerando o ambiente familiar e escolar. Na minha experiência, tal contribuição possibilitou, o que não foi pouco, definir a especificidade do trabalho psicopedagógico, reconhecer a sua inserção no campo da psicoterapia breve de orientação psicanalítica27 e discriminar que o olhar e a escuta clínica poderiam ser usados não apenas no consultório, mas também no contexto institucional. Além disso, permitiu definir que o objetivo seria o resgate do prazer da aprendizagem e o foco do trabalho voltado para a observação das relações entre as dimensões afetiva e cognitiva do pensamento da criança reveladas pela sua forma de aproximar-se do objeto de conhecimento. Mais do que isso permitiu encontrar a primeira ponte para aproximar as duas vertentes de atuação psicanalítica e psicopedagógica. 27 Trato do assunto em O difícil diálogo entre a prática e as teorias. (1995)07-18 In Boletim Formação em Psicanálise, vol. IV, n. 1. 37 Vale lembrar que Paín (1985) não apenas adota o termo cunhado por Pichón-Rivière em Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem, como estende seu uso para referir-se à oligotimia social – situação de indivíduos com aprendizagem mecânica, pobre e muito abaixo das suas possibilidades, que além de não incomodar o sistema, contribuem para a manutenção da ignorância e, conseqüentemente, do status quo. Assim, pode-se entender por que na década de 1980, a contribuição de Paín teve tanta importância não apenas no Brasil, mas igualmente nos, assim chamados, países em desenvolvimento. Não por acaso, Paín foi consultora da Unesco na área da Educação. A contribuição de Sara Paín O não-aprender não é o contrário de aprender e tem uma função tão integradora quanto o aprender... Respeitar a singularidade do sujeito fora das categorias certo-errado, bonito-feio, normal-patológico, verdadeiro-falso, para que ele possa fazer-se cargo de sua marginalização e aprender a partir dela, transformando a si e à realidade... Mais importante do que ensinar a responder é formular perguntas... A ignorância não é o oposto do conhecimento mas ela está na sua origem. (PAÍN, 1999, p. 12) Paín trazia noções tão bombásticas que, de fato, subvertiam a ordem vigente. E ressalte-se, não apenas na questão do conhecimento, mas, a meu ver, também, na da psicanálise. Em Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem, além de insistir na necessidade de investigar o significado inconsciente que o aprender tinha adquirido para a criança, oferecia, também, uma classificação dos problemas de aprendizagem. Desenvolvida à luz das contribuições de Freud em Inibição, Sintoma e Angústia (1925) afirma que o problema de aprendizagem pode se 38 apresentar de duas formas: como oligotimia ou inibição cognitiva e como sintoma. Assinala, ainda, que enquanto o termo inibição relaciona-se ao aspecto de diminuição da função cognitiva28, o termo sintoma refere-se à transformação dessa função, porque as operações da rede cognitiva passam a ter um outro significado no universo psíquico da criança, ficando aprisionadas nas teias da rede afetiva. Desde cedo, ficou evidente para mim, que as provas psicométricas pouco ajudavam no caso das crianças oligotímicas ou com inibição. Muitas tinham histórias anteriores de avaliação e desligavam-se, paralisando-se diante delas. Embora fosse de fundamental importância diferenciar os "pseudos" e os "verdadeiros" deficientes, avaliando o grau de deterioração da inteligência, como fazê-lo? E, isso, não apenas para apostar no potencial intelectual da criança, mas, especialmente, para mobilizar nos pais a crença e a esperança, já que eles, geralmente, não tinham nenhum projeto para elas. Na experiência clínica, após ter claro que não se tratava de um problema escolar, relacionado ao aspecto da transmissão do conhecimento, portanto, reativo a situações externas, era preciso estabelecer a diferenciação entre o problema de aprendizagem como inibição ou como sintoma. Nesses casos, o que está em jogo é o aspecto da recepção e elaboração do conhecimento. Trata-se de um funcionamento intra-psíquico no qual a dimensão afetiva e a cognitiva não fazem aquilo que seria a sua função, porque se mesclam, havendo uma quebra onde se inscreve o problema de aprendizagem. Retomo o que já afirmava em Pelos Caminhos da Ignorância e do Conhecimento: Sara postula um modelo para pensar o funcionamento do aparelho mental. Para ela, essas duas dimensões devem 28 Em A função da ignorância (1987, 1989), Paín não mais usará o termo inibição cognitiva, nem oligotimia. 39 funcionar no sujeito de forma independente e simultânea para que uma não aprisione o funcionamento da outra. Mas como elas se unem? Através da função da ignorância, por ela definida como “um espaço opaco e vazio” que, ao mesmo tempo, separa e une essas duas dimensões, de forma que uma desconhece, ignora a existência da outra, o que permite que cada uma faça aquilo que é sua função29. Quando um sujeito aprende bem, isso ocorre porque existe, entre essas duas dimensões, uma cisão fundamental e constitutiva. (PARENTE, 2000, p. 57) Daí a necessidade de compreender o "não-aprender" que, por ter uma função tão integradora, mantém a criança assujeitada em um lugar por onde o prazer da aprendizagem não pode circular. O dispositivo clínico para desarmar a armadilha que a dimensão afetiva fez à cognitiva e, assim, ajudar a criança a ocupar um outro lugar e a resgatar o prazer da aprendizagem seria a dupla escuta – escuta simultânea dessas dimensões. Assim, foi, cada vez mais, fazendo sentido para mim a contribuição de Paín sobre a questão de como um sujeito se constitui, ao mesmo tempo em que constrói o conhecimento, e, também, a ênfase colocada na questão da busca de autonomia e realização, bem como a da importância de uma aprendizagem com significado para a criança, aspectos geralmente não-considerados pelos kleinianos. Concordava com Paín que não se podia focalizar apenas o mundo de relações de objeto e a fantasia inconsciente do funcionamento mental das crianças com queixas de problemas de aprendizagem, ainda mais se elas estavam na época de serem alfabetizadas. 29 Em Subjetividade e objetividade, relações entre desejo e conhecimento, publicado pelo CEVEC (1996), p. 40-1, Sara apresenta sua concepção do funcionamento do aparelho mental e analisa os problemas de aprendizagem usando o modelo do tear. 40 À medida que reconhecia o aspecto de urgência nessa modalidade de atendimento, via sentido na terapia focalizada nos problemas de aprendizagem, o que me levou a um aprofundamento na especificidade desse campo e no tipo de noções (resistência, transferência, contra-transferência, regressão etc.) necessárias para nele intervir. Paín defende a validade do trabalho clínico centrado no sintoma: Diz Freud que o que resta da doença depois da desaparição (sic) do sintoma é apenas a disposição para formar novos sintomas; entretanto, quando se trata da aprendizagem e das atividades cognitivas, o reforço destas deixa o sujeito numa melhor disposição para elaborar o seu trauma, caso se submeta a uma psicanálise e para encontrar vias de satisfação e sublimação na sua vida quotidiana. (Paín, 1985, p. 77). E afirma ainda que, para que alguém possa superar seu problema, "é necessário devolver ao sujeito a dimensão de poder (poder escrever, poder saber, poder fazer) para que ele possa dar credito às potencialidades de seu ego". (1985, p. 78). Ao enfatizar que a aprendizagem é uma função que dá prazer, que pode ser perdida ou pervertida no triângulo edípico, mantendo o sujeito resistente a entrar no princípio da realidade e pela preocupação com o fracasso escolar e suas conseqüências para a criança e a família, recomenda uma atitude mais ativa por parte do terapeuta no tratamento. Este seria operativo, situacional, devendo constituir-se numa situação de realização para o sujeito. Percebe-se, com isso, que Paín enfatiza não a interpretação dos conteúdos destrutivos da criança, mas sim a compreensão do significado presente nos seus 41 erros sistemáticos, relacionando-os com a sua história de vida, investigando, assim, o lugar ocupado pela criança e o sentido do sintoma no triângulo edípico. Além disso, oferece elementos para refletir sobre a dimensão do ambiente familiar e escolar que tinham se mostrado tão importantes na minha experiência desenvolvida na instituição. Na busca de compreender o caráter de repetição presente nas crianças com quadro de inibição intelectual e compreender a mudança que se operava no meu pensamento nessa passagem da contribuição de Klein para a de Paín, debrucei-me sobre o atendimento de Carol, uma menina de quase 9 anos, com um quadro de inibição. Algumas Considerações Hoje, com o distanciamento necessário, constato que o que mais me incomodava naquela época, não era apenas a distância entre a minha prática clínica institucional e a de consultório, mas, especialmente, a postura que adotava a partir de uma e outra. Talvez elas refletissem o clima vigente na época. O fato é que, como psicopedagoga, especialmente na instituição, sentia-me mais livre de filiações teóricas podendo usar vários referenciais, desde que eles contribuíssem para o desenvolvimento da prática e ampliassem a compreensão do campo e do fenômeno em jogo. Já como psicanalista, tentava muito mais me adaptar à técnica e ser fiel aos princípios e preceitos preconizados pela teoria, no caso, a kleiniana. Vale lembrar que, refiro-me a um tipo de kleinismo que dominou alguns lugares da Argentina e, de São Paulo, especialmente, na década de 1970 e 1980, que é diferente das contribuições atuais ligadas à tradição kleiniana. Penso que é compreensível que exista o desejo de que a teoria em que acreditamos se cumpra na prática. Entretanto, se isso se torna mais forte do que a experiência de relação com o paciente, há o risco de uma submissão à dimensão conceitual e de tentar encaixar o paciente nessa dimensão. Nesse sentido, a 42 razão pode ficar cativa, tornando-nos míopes como observadores, pois podemos selecionar alguns dados da realidade clínica para adaptá-los ao referencial teórico adotado. Isso implica uma forma de usar a teoria não para que ela favoreça a abertura do campo de observação e, sim, para seu fechamento. Hoje, penso que à medida que a Função da Ignorância começou a operar no meu pensamento, fui podendo dar mais atenção às inquietações surgidas a partir das observações provenientes da prática também no consultório, já que elas colocavam em xeque não apenas o que a teoria preconizava, mas o meu próprio processo de aprendizagem. E, aqui, mais uma vez a referência é Paín. Nota-se que era como se sua contribuição me autorizasse a ter maior flexibilidade também no consultório, pois a minha forma de usá-la referendava a minha aposta na criança, abrindo o campo de observações. Penso que Klein e Paín foram muito convenientes neste momento, a que nomeio de Estação 2 – tempo da passagem dos porquês ao como. 43 Estação 3. Compreendendo Carol à luz do confronto entre Klein e Paín Reconhecer o outro na sua busca. Apostar no seu potencial. Será isso o que opera, tem efeitos e sustenta um campo de experiências compartilhadas? Neste capítulo, focalizo algumas questões surgidas durante o atendimento de Carol, uma menina de 9 anos, de primeira série, com um quadro de inibição intelectual e estabeleço um diálogo confrontando as concepções presentes nos referenciais de Paín e Luzuriaga, apresentadas no capítulo anterior. A título de esclarecimento Em relação à terapeuta, esse atendimento marca um caminhar do modelo intra-psíquico para o intersubjetivo devido à forma pela qual ela foi sendo “afetada”, por um lado, pelo ritmo e impressão que Carol imprimia na atmosfera do ambiente e, por outro, pela ressonância de determinadas afirmações de Paín e Winnicott que iluminavam o que se revelava na experiência clínica. Marca, também, uma mudança na forma de fazer o diagnóstico, de usar a teoria como objeto transicional e o início do reconhecimento do que, mais tarde, viria a ser chamado de fenômeno estético. Creio que há situações que transformam, constituindo-se em verdadeiros marcos de um antes e de um depois. Assim foi, para mim, a experiência com Carol. Nunca mais duvidei de que o que opera e tem efeitos, o que permite manter a esperança no horizonte, lidar com sentimentos ambivalentes e as agruras da vida é a relação com alguém que, de fato, nos reconhece na busca, acolhe no encontro e acompanha no percurso. E, isso, porque faz uma aposta. E toda aposta exige uma crença. No caso, a crença na possibilidade de desenvolvimento do ser humano. Creio que Carol foi fazendo uma opção pela vida, à medida que a terapeuta foi fazendo uma aposta no desenvolvimento do seu potencial. Não sei se tal movimento teria acontecido, pelo menos, dessa forma, sem a aposta que 44 Sara também fazia no trabalho da terapeuta durante as várias supervisões desse atendimento, recortado inicialmente para provar a eficácia do referencial de Paín. Para este trabalho, vale ressaltar a importância do resgate de muitas anotações escritas antes do exame de qualificação de mestrado “Inibição intelectual: O paradoxo no sintoma expressando paralisia e busca da criatividade”, defendida na PUC/SP, em fevereiro de 1996, sob a orientação do Prof. dr. Gilberto Safra. Essas anotações apresentadas na estação anterior, nesta e na próxima permitirão dar visibilidade e, ao mesmo tempo, contribuirão para sistematizar as questões que impulsionavam o meu pensamento na época em que caminhei também em direção a uma outra forma de construção de conhecimentos no modelo desconstrutivista. Embora as indagações surgidas durante o atendimento de Carol impulsionassem o diálogo com os referenciais teóricos, não fez parte da dissertação por sugestão da banca. Na ocasião, a opção foi estabelecer um diálogo entre os atendimentos de outras duas crianças com inibição a partir do pensamento de Winnicott. Aprofundo aqui, então, a reflexão lá pretendida e ainda não realizada: acompanhar a mudança que se operava no meu pensamento, à medida que me distanciava da contribuição de Luzuriaga (kleiniana) e me aproximava da de Paín e da de Winnicott. O que permitia aproximá-las é que ambas apostavam – o que não é pouco – na possibilidade de desenvolvimento do ser humano, dando ênfase à noção de pulsão de vida, reconhecendo a importância do fator ambiental e maturacional no funcionamento psíquico. Esta reflexão permitirá também acompanhar o processo histórico de construção dos dispositivos. O atendimento de Carol foi paradigmático e permitiu repensar uma série de questões, especialmente a das relações entre o desenvolvimento psíquico, o jogar, o brincar, o conhecer e o aprender, ligadas, não apenas ao campo 45 psicopedagógico, mas também ao psicanalítico, aproximando cada vez mais minhas duas vertentes de atuação e formação clínica. A compreensão da inibição a partir de Klein e Paín A inibição intelectual seria mesmo a expressão do predomínio da pulsão de morte que levaria a criança a fazer ataques invejosos e destrutivos aos vínculos, levando a uma desconexão seja com o conteúdo, seja com aquele que o transmite, como defendido por Luzuriaga? Ou a oligotimia seria o lugar ocupado pelo sujeito "tornando possível a existência de uma estrutura equilibrada na qual sua própria sobrevivência torna-se possível?" (PAÍN, 1985, p. 69). Essas eram as duas grandes indagações que me fazia na época. A questão era: como compreender a permanência da criança numa posição por onde o prazer da aprendizagem não circula? Diferentemente da leitura de Luzuriaga, criticada por Paín, não se trataria de interpretar os conteúdos destrutivos da criança, e sim de compreender o significado presente nos seus erros sistemáticos, relacionando-os com a sua história de vida, investigando, assim, o lugar ocupado por ela no triângulo edípico. Reforço que meu interesse aqui não é discutir a existência ou a validade dos pressupostos presentes nestas teorias mas de refletir sobre a conveniência de usá-las para favorecer a abertura do campo de relações da criança com os objetos da cultura, entre os quais se encontra o assim chamado objeto de conhecimento. Atendimento Clínico Importante salientar que comecei o atendimento de Carol sem acreditar que ele pudesse realizar-se devido ao histórico de abandonos de tratamentos anteriores e à ausência de esperança de cura por parte dos pais – aspectos geralmente presentes no atendimento de crianças com inibição. Por isso, introduzi algumas modificações em relação ao modelo de diagnóstico até então adotado, propondo um período de aproximadamente dois meses para fazer o diagnóstico 46 diferencial entre oligofrenia e oligotimia por meio de uma intervenção e não de provas psicométricas. Meu objetivo era também estabelecer a linha de conduta terapêutica e, especialmente, avaliar o grau de envolvimento e compromisso dos pais, já que eu parecia ser mais uma a ser posta à prova na longa lista de profissionais a ouvir que “Carol não tinha jeito mesmo, apesar de todo nosso empenho” (sic mãe). Intervenção Diagnóstica O meu primeiro contato com Carol se deu por meio de uma sessão de observação familiar, prática que vinha adotando diante de situações em que havia uma dinâmica familiar conturbada. Compareceram os pais, a menina e o seu único irmão de 12 anos. Chamou-me a atenção o quanto ela destoava da família: os pais e o irmão, além de bonitos, eram bem cuidados, ao contrário dela, descabelada, mal vestida e usando um tipo de óculos que parecia enfeá-la. Chamou-me a atenção, também, a sua forma de cumprimentar-me com a mão esquerda, enquanto segurava uma boneca conhecida como bebê moranguinho. Ela, de fato, parecia colocar-se no lugar de uma criança “bobinha”, apresentando-se como aquela boneca. Num determinado momento dessa sessão, observei que ela estava prestava mais atenção nos pais do que na brincadeira de pega-varetas que jogava com o irmão, que se esforçava para ajudá-la. Em determinado momento, ela interrompeu a conversa que os pais estavam tendo comigo e, ao chamar a mãe, mostrou que tinha conseguido tirar apenas dois palitos enquanto o irmão tinha conseguido pegar todos os outros. Isso pareceu provocar uma expressão de irritação, aliada a um certo ”ar de desprezo”, por parte da mãe, o olhar compungido do pai e o mal-estar do irmão. 47 Observei que a mãe olhou para mim, buscando uma aliança como se dissesse: Viu? É assim que ela faz. Não é terrível? Era como se a mãe intuísse que ela dava uma de boba para fazer o outro de bobo. A questão era: como compreender a atitude de Carol?30 Sem dúvida, seria possível compreendê-la a partir do pensamento kleiniano, isto é, como expressão da presença da pulsão de morte, o que levaria a interpretar o desligamento e desprezo da menina em relação à ajuda que o irmão queria lhe dar como efeito da sua inveja e da sua incapacidade de abrir-se para o novo. Por outro lado, era inegável que Carol parecia ocupar o lugar de perdedora. Ela tinha um “ar” de vitima, mas de certa forma triunfante, parecendo valorizar o fracasso. Será que aquele era o lugar possível para sobreviver num tipo de dinâmica familiar pouco favorecedora do seu desenvolvimento, perguntei-me a partir da minha leitura de Paín? O foco da minha observação era a dinâmica familiar e o lugar que a menina ocupava no triângulo edípico (PAÍN) Era possível observar que a atitude de Carol organizava grande parte da dinâmica daquela família. Era como se ela mantivesse o controle sobre todos por meio das suas atitudes que perturbavam seus pais e irmão: enquanto a mãe disfarçava seu desprezo e sua irritação, o pai e o irmão tinham uma atitude disfarçadamente protetora em relação a ela. Deixando operar a função da ignorância desloquei o eixo da tradicional indagação de o porquê a criança não aprende para o como Carol fazia para permanecer numa posição por onde o prazer da aprendizagem não podia circular, passando, então, a observar a sua atitude diante do assim chamado objeto de conhecimento. Nos primeiros contatos, chamou-me a atenção a sua movimentação lenta, seu andar arcado, como se carregasse o mundo nas costas. Usando a 30 Os trechos em itálico referem-se às reflexões, aos questionamentos ou lembranças da autora. 48 terminologia dos neurologistas, diria que Carol era hipotônica. Entretanto, o que mais me marcou, além de sua postura corporal, foi seu olhar observador e "esperto", geralmente acompanhado de uma atitude entre a "gozação" e a "expectativa", aliás, semelhante àquela já observada durante o atendimento familiar. Especialmente no início das sessões, ela ficava sempre de olho em mim. Mas muito mais do que numa linha de controle, parecia que ela me estudava. Eu me indagava: O que queria dizer aquele olhar curioso, entre a gozação e a expectativa, que parecia buscar algo e, às vezes, de forma disfarçada? Haveria ali uma tentativa de comunicação ou de controle? Embora essa inquietação persistisse, eu procurava ficar atenta ao que era passível de observação. Note-se a capacidade da menina em “criar” uma atmosfera envolvente que mobilizava a minha curiosidade. Hoje me dou conta de que surgia naquela época, o que mais tarde viria a nomear como Fenômeno Estético, que será desenvolvido, oportunamente, ao longo deste trabalho, especialmente durante o atendimento de Eric. O primeiro dispositivo clínico usado foi ficar atenta para não repetir o tipo de vínculo transferencial observado na sessão familiar. De olho na contra transferência, evitei permanecer no lugar ocupado pelos pais e irmão na relação com a menina. Por outro, mantive-me atenta à atitude de Carol diante do objeto de conhecimento, observando como ela fazia para evitar estabelecer contato com ele. Ela tinha uma forma curiosa de não escolher, nem explorar os materiais, bem como de cortar contato com o mundo externo e se desligar. Sempre que algo a incomodava, cheirava a borracha (colocando-a entre o nariz e a boca – como no desenho que tinha feito na primeira entrevista) ou ficava mexendo em algum objeto, ou ainda encostando alguma parte do próprio corpo na mesa num movimento rítmico e disfarçado. Note-se que, se por um lado, ela cortava os receptores à distância (visão e audição), incrementava os de contato. Nesses momentos, parecia devanear e sua 49 expressão era de quase beatitude. Atitude típica, aliás, de crianças com inibição. Entretanto, quando ela voltava desse vôo, eu não via atitudes que demonstrassem as tais ansiedades paranóides ou depressivas, sugeridas por Soifer e Luzuriaga. Seu ar não era nem mesmo de preocupação. Na verdade, ela parecia reabastecida e ainda mais disponível e curiosa para me observar. Além do ar de gozação, passei a observar outras nuances, porque parecia haver agora um ar de expectativa e curiosidade. Como compreender as atitudes de esquiva e desconexão de Carol? Estaria ela lutando contra a percepção e compreensão do mundo externo e interno e contra as vivências que elas lhe despertavam, como defendido por Luzuriaga? Será que ela sentia o mundo como perigoso e ameaçador devido aos ataques feitos ao bom objeto anteriormente? Seria o medo da retaliação o responsável pela sua atitude de retração e evasão? Seria uma forma de evitar contato com conteúdos vividos como perigosos ou dolorosos? Retomando a descrição de Soifer e observando Carol, seria possível dizer que ela, de fato, parecia apresentar as tais “características autistas e simbióticas, a persistência de situações orais primitivas, ansiedade paranóide e elaboração deficiente da problemática edípica” (SOIFER, 1985). Também se poderia dizer que o mundo parecia ser sentido por ela como perigoso e ameaçador, devido aos ataques feitos anteriormente ao bom objeto, e que o medo da retaliação provocaria a atitude de retração e recolhimento como forma de evasão. Essa leitura seria possível e reforçaria a idéia da existência da pulsão de morte, mas, como disse, não observava atitudes que reforçassem essa compreensão. Carol não parecia ansiosa nem com receio da retaliação ou de ter perdido ou estragado alguma coisa. Falar de ansiedade paranóide e depressiva e de conteúdos dolorosos não fazia sentido. Pelo contrário! O que eu observava assemelhava-se muito mais àquele ar de gozação disfarçada, presente na sessão de observação familiar. 50 Gostaria de assinalar que reconheço a excelente descrição fenomenológica dos kleinianos, porém as observações provenientes da experiência clínica não coincidiam com elas. Em relação a Carol, o que me chamava a atenção, é que ela parecia desempenhar um papel, cumprir uma tarefa. Sempre com aquele olhar entre a gozação e a expectativa, parecendo estudar as minhas reações. Aos poucos, foi se soltando mais, mas, mesmo assim, parecia procurar o tempo todo um indício de qual era o efeito, o impacto de sua atitude sobre mim. À medida que a Função da Ignorância operava no meu pensamento, mais curiosa eu ficava, formulando perguntas que abriam ainda mais o campo de observações e indagações. Mais do que seguir a técnica preconizada por Paín, desenvolvia uma atitude mais crítica em relação à técnica e mais aberta à experiência. Carol criava uma série de jogos que, de fato, me deixavam curiosa. Neles, o que ficava evidente era sua tendência de criar um "clima" permeado por um cenário de confusão, segredo e dúvida, que ia se instalando em um "crescendo", e que despertavam tanto a curiosidade dela, quanto a minha. Eu nunca sabia onde ela estava e, às vezes, me sentia enredada num jogo de ”gato e rato” identificando em mim, o mesmo sentimento de confusão, a que os pais tinham feito referência na entrevista inicial. Como eles, eu também oscilava, entre a atitude de superproteção e a de impotência. Como eles, eu também ficava em dúvida se ela estava ou não entendendo a situação. Será que eu poderia encontrá–la, descobri-la? Eu via acontecer aquilo que Winnicott conseguiu descrever em um de seus paradoxos: "É um sofisticado jogo de esconder em que é uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser encontrado" (WINNICOTT, 1963-a, p. 169). Gostaria de contar que, de todos os textos que li de Winnicott, essa frase, que se encontra no artigo de 1963 – Comunicação e falta de comunicação levando 51 ao estudo de certos opostos – afetou-me sobremaneira e tem me acompanhado desde então. Foi ela que me abriu a possibilidade de compreender o que hoje é, para mim, o objetivo de uma terapia: superar a dissociação (no caso de pacientes com outros tipos de problemática) e a cisão (no caso de pacientes com inibição) entre as duas dimensões que nos constituem: a do ser, que permite o ponto de repouso, a constituição do espaço de confiança – espaço potencial e do si mesmo–, e a do fazer, que permite a inscrição do gesto pessoal no mundo, seja para acolher o eu (o familiar) seja para repudiar o estranho (o não-eu). A base da primeira dimensão (a do ser) é a constituição e desenvolvimento do elemento feminino puro e a da segunda é a do elemento masculino puro, relacionado com a agressividade e a área do fazer. Aprofundarei esse ponto ao longo deste trabalho. Vi nela, também, a expressão do desejo da menina de sentir-se autora, protagonista, sujeito de sua própria história e não mero objeto do desejo do outro. Na realidade, eu já transitava entre Winnicott e Paín, tentando entender o que brotava do movimento e na relação a partir de ambos. Fez sentido o que Paín assinalou durante uma supervisão: quando uma criança sentiu-se olhada como ilegítima, boba e confusa e "permaneceu" nesse lugar, pode simbolizar em um objeto de seu uso essa relação. Isso a impede de conhecê-lo e de transformá-lo em objeto de conhecimento. É a sua forma de mostrar, atuando e invertendo por identificação a sua dramática inconsciente. Penso que cada vez se instaurava mais o campo intersubjetivo, porque muitos movimentos borbulhantes aconteciam e se entrelaçavam, não apenas na relação com a garota, mas também no diálogo entre as teorias. Do lado das leituras teóricas, além de confrontar Klein e Paín, tendo por eixo o tema da pulsão de morte na compreensão da inibição, usava Winnicott, quase que sem perceber. Como disse na estação anterior, o aprofundamento no pensamento desse autor começou a ser feito no grupo de psicanalistas que, também como eu, desencantados com Klein, tinham se debruçado sobre o estudo de Winnicott. 52 De fato, passei a compreender Carol por meio de determinadas frases ou aspectos do pensamento de Winnicott que se impunham, lançando luz e de alguma forma referendando o que eu via, permitindo não apenas compreender, mas também nomear e acompanhar o movimento da menina. O leitor pode imaginar a situação. Na época, meu objetivo era estabelecer um diálogo com a teoria de Paín para mostrar a sua eficácia, já que tinha sido muito interessante fazer o diagnóstico focalizando a relação da menina com o objeto de conhecimento. Entretanto, à medida que um campo de confiança foi se instaurando na relação com Carol, algo de Winnicott se impunha diante de determinados movimentos da garota, iluminando o que eu via. A supervisão com Paín funcionava como uma segura cama elástica que dava continência a todo esse movimento. Isso foi cada vez mais flexibilizando o meu pensamento, permitindo o afastamento de Klein e uma aproximação e um trânsito entre Pain e Winnicott. Vale lembrar que Sara é uma filósofa e uma teórica por excelência. Tinha se proposto e vinha realizando uma tarefa: a de construir uma teoria que abarcasse as relações entre as dimensões dramática e cognitiva do sujeito que aprende. Cá entre nós, eu sou uma pessoa da prática clínica e a teoria me interessa quando é útil e permite realizar meu objetivo, que é compreender e acompanhar o paciente. Note-se que com Paín aprendi que o conhecimento pode ser elemento de trânsito entre dois seres humanos, para que cada um possa realizar seu projeto existencial no mundo. Não é à toa que digo que quem me apresentou Winnicott foi Sara. Creio que isso se materializa por sua capacidade de respeitar o outro e suportar a alteridade, já que na época ela usava o referencial de Lacan. 53 Por isso, desde aquela época, reconheço que "não basta a busca! É preciso o encontro. Este acontece quando se é reconhecido na busca, acolhido na própria singularidade e acompanhado no percurso" (PARENTE, 2000). À medida que a Função da Ignorância operava no meu pensamento, as indagações impunham-se e ampliavam o campo de observação e eu me entregava ao movimento. O foco não era mais apenas o das relações entre afeto e cognição no funcionamento mental de Carol, revelados pelo tipo de vínculo e pela distância que ela estabelecia com o objeto de conhecimento. Era, também, acompanhar os movimentos psíquicos da menina na relação que se estabelecia no campo intersubjetivo, incluindo a sua maneira de se comunicar de forma nãoverbal – trocas de olhares e comunicação silenciosa veiculada, às vezes, pela presença do “bebê moranguinho”. Ilustro com um episódio que relato a seguir e que implicou o fechamento de um contrato terapêutico. O Fechamento do Contrato Terapêutico Na primeira das duas sessões que se seguiram, Carol parecia curiosa. Foi até o armário e, enquanto escolhia um jogo para 12 anos, disse que o irmão tinha esse mesmo jogo. Já havia observado que ela escolhia algo para fazer, independentemente de estar dentro de suas possibilidades, passando a fazê-lo de forma indiscriminada e desorganizada – atitude bastante comum nas crianças com inibição. Como entender essa sua atitude? Seria um ataque à sua percepção e ao vínculo com o objeto? Seria a negação da diferença entre ela e o irmão, também fruto do ataque à própria percepção, como diria Luzuriaga? Ou seria fruto da permanência num lugar por onde o prazer da aprendizagem não podia circular para salvar a pulsão, como diria, usando Paín? Será que ela se fazia de boba para me fazer de boba? 54 Vinha observando que assinalar a sua dificuldade e falta de discriminação – seja numa linha da onipotência seja de ataque – mobilizava na menina uma expressão de desesperança, levando-a a cortar o contato comigo. Assim, assinalei e valorizei sua vontade de envolver-se com algo da realidade externa. Claramente lhe disse que aquele jogo não era adequado para a sua idade, esclarecendo o porquê e apresentei-lhe algumas atividades mais adequadas às suas possibilidades cognitivas. Observei que, ao escolher um jogo de encaixe, apesar do seu interesse e envolvimento, Carol não conseguia realizá-lo, pela sua pressa em querer usá-lo e, também, devido à sua dificuldade de pedir e aceitar instruções. Novamente me indaguei: Como entender aquela sua vontade entusiasmada que a levava a ter tanta pressa e a ir com tanta “sede ao pote”? Comecei a me indagar se não haveria uma diferença entre ansiedade e angústia. A primeira estaria relacionada ao anseio diante da possibilidade de ter uma ação significativa no mundo e a segunda com situações de frustração, perdas e faltas. Comecei a me indagar se o que até então parecia fruto da onipotência do seu desejo, não poderia ser a expressão de um entusiasmo, o nascimento de um interesse e, principalmente, a esperança diante da possibilidade de se realizar por meio de uma troca significativa com algo do mundo. Somente depois disso é que se poderia falar de desejo, falta e diferentes formas de lidar com a frustração. Após testemunhar essa sua atitude, legitimei sua pressa e entusiasmo, o que pareceu tranqüilizá-la. À medida que a ajudei a se organizar adaptando a atividade às suas possibilidades, ela demonstrou um envolvimento genuíno, montando várias vezes e, com grande satisfação, o jogo de encaixe. É preciso dizer que, naquela época, entusiasmada com o desempenho de Carol usei a terminologia de Paín nos registros que fiz. Talvez pudéssemos pensar que os mecanismos da dimensão afetiva: projeção e identificação estivessem 55 enlaçados e enriquecendo os mecanismos da estrutura cognitiva: assimilação e acomodação. Talvez, Carol estivesse reconhecendo que, para aprender algo, é preciso reconhecer que não se sabe e que há alguém que sabe, que pode e quer ensinar. Até então, é possível que ela acreditasse mesmo que era possível nascer sabendo. De alguma forma, esse é um tipo de teoria ignorante comum nas crianças com problemas de aprendizagem e que determina uma certa leitura do mundo. Na terminologia de Paín (1989) diríamos que o funcionamento da garota é projetivo e o mecanismo de assimilação encontra-se inibido. Fui observando através do atendimento clínico de crianças com inibição cognitiva que elas tinham poucas experiências concretas no sentido de uma ação, de um fazer propriamente dito, ligado à realidade. O que significa também que têm poucas oportunidades de se colocar em situações que envolvam, de fato, os riscos de saber ou não saber, de poder ou não poder. Note-se que são essas experiências concretas que possibilitam à criança entrar em contato com a realidade objetiva e, inclusive, com as resistências que os objetos da realidade oferecem. Assim, quando carecem dessas experiências, o prazer da aprendizagem não circula, havendo então o predomínio na utilização dos mecanismos de projeção e identificação – mecanismos próprios da dimensão dramática, afetiva, com os quais não há possibilidade de regulação e articulação com os mecanismos da dimensão cognitiva – assimilação e acomodação. Isso é o que permite a construção de um universo objetivo e a constituição de um sujeito que possa reconhecer-se nele. Retomando a sessão que vinha narrando, observei que o envolvimento de Carol no jogo de encaixe era tamanho que parecia esquecer-se da minha presença. Desde esse período, comecei a pensar na presença da terapeuta em determinados momentos como testemunha, como um pano de fundo, como o 56 invisível que organiza um campo31. Muito tempo depois viria a reconhecer nisso um dispositivo clínico, como veremos adiante. Comentamos no final da sessão como o tempo havia passado depressa e combinamos retomar a atividade, desde que ela o quisesse. Aproveitei, também, para mostrar-lhe que havia outros jogos semelhantes àquele usado por ela. Notemos que naquela sessão havia, agora sim, uma situação de aprendizagem – uma relação entre Carol e um objeto de conhecimento. Até então, talvez fosse apenas o desejo da terapeuta de que ocorresse essa situação. Em verdade, ainda não havia, pois não existia uma relação triangulada entre Carol, necessária para a circulação da aprendizagem. Foi ali que fui me dando conta da importância de existir diferenciação entre a criança, o outro e o objeto a ser conhecido como entidades separadas para que uma situação de aprendizagem tivesse lugar (PAÍN, 1985). Talvez hoje possa dizer que, naquele momento, já intuía o que mais tarde viria a chamar de movimento no jogo tridimensional – Carol podia se “esquecer” da presença da terapeuta, relacionar-se com o objeto de conhecimento e a terapeuta podia continuar presente,“em ausência”, como testemunha, sustentando o campo de experiências. Na sessão seguinte, fui chamar Carol bastante entusiasmada – quem sabe, ela se envolveria com atividades semelhantes à da sessão anterior, exercitando, assim, a circularidade necessária para o desenvolvimento da rede cognitiva (PAÍN). Entretanto, encontrei-a novamente segurando a tal boneca, com o mesmo ar de boba e o mesmo olhar entre a "gozação" e a expectativa dos primeiros encontros. 31 Ver O difícil diálogo entre a prática e as teorias (1995)07-18 In Boletim Formação em Psicanálise, vol. IV n. 1. 57 Comecei a me indagar: por que Carol se apresentava com essa atitude, como se não houvesse o registro da experiência anterior? Isso era algo que me chamava a atenção no atendimento de outras crianças com esse mesmo tipo de problemática. Seria um ataque agora não mais à percepção mas sim à memória, como diria Luzuriaga? Ou seria a tentativa de permanecer num lugar de gozo, por onde o prazer da aprendizagem não poderia circular, como diria Sara? Por que depois de uma experiência de realização, envolvimento e interesse pelo objeto de conhecimento, ela se apresentava com a tal boneca? Observei que, naquela situação, apesar da presença da boneca, Carol parecia atenta, com um certo ar maroto, mas sem a atitude de alheamento das primeiras sessões – quando cortava os receptores à distância, fazia movimentos rítmicos e ficava com o olhar ausente. Tentei resgatar o clima, apresentando o mesmo jogo da sessão anterior. Ela ignorou o meu convite, mas me deu um sinal de que se lembrava muito bem do que acontecera na sessão anterior, pois, após se levantar, pegou no armário um outro jogo, também de encaixe, dentre os que havíamos separado. Sempre com aquele olhar, entre a "gozação" e a expectativa, ela o abriu e silenciosamente acenou com a cabeça em direção a ele. Aos poucos, através de suas expressões e de intensa troca de olhares, compreendi tratar-se de um convite para que eu a ensinasse a usá-lo. Eu ficava cada vez mais curiosa e intrigada, inclusive por testemunhar a liberdade que ela demonstrava naquela sessão de poder escolher, usar a terapeuta, o corpo, o espaço e o tempo. Aos poucos, ela se envolveu de tal forma com a atividade – passível de ser feita individualmente – que pareceu se esquecer da minha presença. Lembrei-me, então, do paradoxo de Winnicott sobre a capacidade da criança de estar só na presença do outro (mãe). Segundo Winnicott (1958), a capacidade de estar só depende da experiência de poder estar só na presença de 58 alguém, ou seja, só ocorre dentro e a partir de uma relação de confiança. Passei a pensar no meu papel como o de alguém que, em momentos como esse, apenas deveria acompanhá-la, participando do seu processo como testemunha. No final da sessão, Carol disse que não ia mais trazer o "bebê moranguinho", que ele só fazia coisa errada, enquanto o abraçava e levava com ela. Uma coisa era certa: a hipótese de que Carol permanecia num lugar por onde o prazer da aprendizagem não podia circular e que dava uma de boba para me fazer de boba não mais se sustentava. Se assim fosse, ela não teria escolhido o jogo, nem teria o envolvimento e interesse que demonstrou em relação a ele. Algumas Considerações Até aqui é possível perceber que o movimento que aconteceu no campo intersubjetivo, por um lado, levou Carol a sair do lugar por onde o prazer da aprendizagem não circulava. Por outro, levou a terapeuta a usar um dos paradoxos de Winnicott e a passar a exercer a função de testemunha, distanciando-se, assim, da atitude técnica mais diretiva preconizada por Paín. O curioso é que, na época, era possível, valendo-me também do pensamento de Paín, compreender o movimento de Carol. Nós duas podíamos ficar do mesmo lado, como se estivéssemos na mesma margem de um rio, olhando para um mesmo objeto, surgindo, nessa relação triangular, o interesse e a curiosidade – situação similar à do bebê que começa a olhar na mesma direção do olhar da mãe, porque quer dividir e compartilhar com ela o objeto de seu olhar e interesse. Na época, escrevi: "Em outras palavras, isso equivale a dizer que a criança deixa de ser objeto de desejo para se constituir em sujeito desejante" (PARENTE, 2000, p. 81). Dados provenientes das sessões de acompanhamento familiar reforçavam a compreensão de que o lugar ocupado, até então, por Carol, relacionava-se à 59 forma de equilíbrio encontrada para sobreviver no triângulo edípico e, nesse sentido, para salvar a pulsão (PAÍN). Quando fechei o contrato terapêutico, combinei sessões de acompanhamento quinzenais com a família, o que não aconteceu, porque sempre havia algo que dificultava sua vinda. Desde os primeiros contatos, fui constatando a dificuldade de a mãe aceitar o desenvolvimento da menina e o gradual afastamento do pai, que, quando vinha às sessões de acompanhamento familiar, literalmente dormia. Eu me indagava: Por quê? O que levaria uma mãe a negar a evolução da própria filha? Não seria essa uma maneira de assinar o atestado do seu próprio fracasso como mãe? Se pensasse a partir de Klein, de fato, teria que reconhecer que ela poderia estar atacando a sua percepção, pela dificuldade em reconhecer que a terapeuta poderia estar fazendo algo de que ela não fora capaz: ajudar a própria filha. Teria que reconhecer que a pulsão de morte estaria operando à medida que ela se rendia à própria inveja. E o pai, que dormia nas sessões a que comparecia e sofria de insônia em casa? Usando Klein, teria que reconhecer que havia uma negação e um ataque de tal ordem que ele parecia evitar qualquer vínculo verdadeiro com as questões da própria filha. Um outro episódio significativo ocorrido mais tarde, quando um trabalho da menina foi elogiado na escola, confirmou, mais uma vez, a dificuldade da mãe em aceitar a evolução da filha, pois ela duvidou de que Carol o tivesse feito. O mesmo aconteceu quando a garota demonstrou o desejo de ficar bonita, colocar brincos, mudar seus óculos, que constituiu um dos momentos marcantes de sua mudança de uma posição de "bebê moranguinho" para a de menina–flor, como veremos na próxima estação. 60 Ao longo do atendimento, fui confirmando a impressão inicial de que o casal parecia usar Carol para se manter junto e ocupado e, aparentemente, envolvido com a filha. Não era à toa que a menina parecia ser a depositária das brigas, acusações e desencontros dos pais. Pior, eles a usavam para justificar seus desafetos. Note-se que os dois dispositivos usados pela analista que operaram e tiveram efeito foram, num primeiro momento, o corte da repetição do tipo de vínculo familiar na transferência e, num segundo momento, o caminhar de uma atitude diretiva para a de testemunha. Isso foi possibilitando o desenvolvimento dos mecanismos das dimensões afetiva e cognitiva do pensamento de Carol, bem como a comunicação e expressão da dramática na qual ela estava aprisionada, o que permitiu a sua saída do lugar por onde o prazer da aprendizagem não circulava. Nesse atendimento, compreendi que a inibição era não apenas fruto de um conflito pulsional, mas também resultado da ausência da presença psíquica (falha ambiental) de um outro. 61 Estação 4. Compreendendo Carol à luz de Paín e Winnicott "Nem quero ser estanque como quem constrói estradas e não anda. Quero no escuro como cego tatear estrelas distraídas". Zeca Baleiro32. Neste capítulo, veremos, por um lado, como a relação intersubjetiva que se estabelecia no campo terapêutico e a forma paradoxal de Carol se relacionar com os objetos oferecidos nas sessões, levavam a terapeuta, cada vez mais, a usar a noção de uso de objeto e fenômenos transicionais, provenientes da teoria da criatividade de Winnicott. Por outro lado, foi se revelando a situação de intenso sofrimento psíquico em que a menina se encontrava devido à impossibilidade de poder brincar de forma espontânea e, assim, usar seu potencial, seu corpo, o tempo, o espaço e os objetos a ela oferecidos. Atendimento terapêutico propriamente dito No primeiro encontro após as férias, eu estava curiosa. Será que Carol viria com a sua boneca? Pois bem, além de não trazê-la, a menina tinha outra atitude: animada, interessada, foi logo escolhendo um dos jogos já conhecidos. Durante essa e várias outras sessões, ela aceitava e pedia esclarecimentos, respeitava limites e queria entender as regras, envolvendo-se com jogos que favoreciam o desenvolvimento da dimensão cognitiva. Mostrava que podia lembrar-se de fatos acontecidos em outras sessões. O aumento de confiança na relação e o envolvimento com os objetos oferecidos eram evidentes. Percebia-se assim uma diferença considerável no tipo de atitude de Carol em relação à terapeuta e aos objetos, destacadas pelos grifos acima, em oposição ao período anterior. 32 Música: minha casa. CD Líricas – MZA/Universal Music, 2000. 62 Evidentemente, trabalhava numa linha psicopedagógica, buscando o desenvolvimento do aspecto cognitivo, isto é, das dimensões do corpo e da imagem. Pela assimilação ocorria a criação de novos esquemas de ação e pela acomodação acontecia a internalização de imagens e do exercício da lógica. O objetivo era "devolver à menina a dimensão de seu poder: poder escrever, poder saber, poder fazer para poder dar crédito às potencialidades de seu ego". (PAÍN, 1985, p. 77) Jogos de se esconder ou esconder objetos, para depois achá–los, eram também comuns nessa fase, ao lado de outros escolhidos por ela, como pega-varetas, Ciclovia, Solta bichos, Cara a Cara, jogo-da-velha, forca etc. As sugestões técnicas de Paín norteavam o projeto terapêutico e permitiam graduar as propostas de atividades, segundo o desenvolvimento das possibilidades cognitivas de Carol, que demonstrava grande interesse e envolvimento com elas. Entretanto, não se tratava de um movimento linear e progressivo. Nos períodos em que Carol ousava e experimentava mais, ora parecia feliz com suas conquistas, ora voltava a criar a mesma atmosfera de suspense e segredo, ora parecia bastante assustada. O brilho do olhar de Carol, os pequenos e sutis "sinais" que ela expressava, eram o tempo todo um sinalizador para mim, possibilitando as intervenções. Por exemplo, às vezes, Carol parecia desligada e depois me dava um sinal de que estava ligada. Outras vezes, ocorria o oposto: parecia atenta, mas, por algum sinal, deixava-me perceber que tinha estado no mundo da lua. Gostava quando eu conseguia verbalizar e discriminar a diferença entre essas situações para ela. Brincando, às vezes, eu lhe dizia: Ah! Querendo brincar de dar uma de boba, para saber se eu estou atenta, né? Ela sorria feliz. Note-se que essa intervenção é bem diferente de uma outra que poderia interpretar que a menina dava uma de boba para fazer alguém de bobo. Na primeira, assinala-se - o que não é pouco - um campo de experimentação e investigação por meio de um brincar, o que abre ainda mais a criação do espaço de jogo. Note- se ainda que a terapeuta está tão implicada no movimento quanto a criança, o que reafirma a sua participação e interesse genuínos, diminuindo, 63 inclusive, o clima de perseguição. Era gratificante observar como os olhinhos de Carol brilhavam naqueles momentos em que se sentia compreendida, mostrandose, cada vez mais presente, envolvida e interessada. Logo surgiria um outro tipo de jogo que evidenciava, ainda mais, o aumento na relação de confiança: a menina me pedia para ficar fora da sala de atendimento para que eu tentasse achar algum objeto que ela escondera. Hoje, diria que ela estava lidando com a questão da ausência na presença e vice-versa, interpondo espaço e tempo entre nós, apropriando-se do espaço físico e da presença da terapeuta na sua ausência. Ressalte-se a diferença de uma interpretação à moda de Klein em que se poderia assinalar o ataque na forma de roubo do espaço da terapeuta. Na esteira da técnica sugerida por Paín, numa situação ocorrida algum tempo depois da abertura desse espaço de jogo, interesse e curiosidade de Carol, apresentei-lhe um jogo semelhante a outros que ela sempre usava e gostava muito. Usando Paín, o objetivo da minha intervenção era provocar o desequilíbrio, o que permitiria o surgimento da falta e o caminhar da menina em direção ao resgate do prazer da aprendizagem. Quando apresentei o jogo para Carol, ela não só não se envolveu com ele, como novamente começou a criar o tal cenário de confusão, segredo e dúvida. Assinalei que talvez ela resistisse a continuar desenvolvendo-se para ficar como o "bebê moranguinho". Seu olhar desvitalizou-se e pela primeira vez ela saiu da sala de atendimento dizendo que ia ao banheiro. Hoje posso nomear o incômodo sentido na época, enquanto a esperava e indagar-me se a interpretação feita sobre a sua resistência em querer desenvolver-se não teria a ver com a minha decepção por ela não ter se envolvido com o jogo que eu havia lhe apresentado. Lembrei-me do movimento das duas 64 sessões antes das férias, descrito no capítulo anterior, em que além de vir com a boneca ignorou o jogo que eu lhe oferecia, impôs o seu e escolheu um, a partir de um gesto que poderia ser visto como de oposição e resistência. Cada vez mais me dava conta de que a sugestão de Paín, no sentido de cortar a repetição do vínculo familiar na transferência, caracterizava uma atitude mais diretiva do terapeuta, opondo-se ao que seria o exercício da função de testemunhar e acompanhar o processo da criança como em Winnicott. Uma outra observação interessante é que, embora na época não me desse conta, estava lidando com a idéia de pulsão de morte e de vida, se considerar a primeira como objetalizante e a segunda como desobjetalizante. Assinalar que, talvez, ela resistisse a continuar desenvolvendo-se para ficar como o "bebê moranguinho", enfatizava o não suportar lidar com o conflito e a tentativa de reduzir o nível de tensão a zero (pulsão de morte). Observações desse e de outros atendimentos foram mostrando o aspecto de desvitalização do olhar e a expressão de desesperança das crianças com inibição diante de assinalamentos como esses. Na volta da sua ida ao banheiro, Carol propôs que fizéssemos um jogo – o jogo da múmia. Não só concordei, como pedi que me ensinasse. Ela fecharia ou tamparia seus olhos para não enxergar e não pensar. Só faria sons cavernosos e de olhos fechados, tentaria me tocar. Quando isso acontecesse, eu também me transformaria em múmia. Em outras palavras, “o contato” mumificava. Temos, aqui, de forma belamente colocada, a metáfora de uma relação: o olhar de medusa congela e paralisa não apenas as trocas na dimensão da relação intersubjetiva, humana, mas também a da possibilidade de pensar. O jogo, além de expressar a forma como Carol se sentia aprisionada em determinado lugar (PAÍN), também revelava o intenso sofrimento psíquico que a mantinha em estado de paralisia, sem poder brincar, usar a imaginação, os órgãos dos sentidos, seu 65 corpo e, assim, comunicar-se e estabelecer relações com o mundo de realidade externa. Sabemos que sem ação e troca com os objetos, não ocorre a atualização e o desenvolvimento da rede cognitiva. Com Carol também aprendi que, às vezes, um afastamento, a falta ou atraso do paciente numa sessão, poderia ser a forma encontrada para sustentar o campo de experiências compartilhadas, não sendo nem a expressão de um ataque ao vínculo, nem o medo de uma retaliação (KLEIN). Note-se que, saindo da sala, Carol pôde manter a presença da terapeuta na sua ausência, mantendo viva a sua imagem no dentro e no fora do espaço físico. A menina não parecia mais ser lançada num “buraco negro”, vivência sem tempo nem espaço, onde não podia brincar, nem sonhar, nem usar seu corpo e órgãos dos sentidos. No caso, sair da sala constituiu um gesto que pôde abrir o campo de comunicação significativa, à medida que a terapeuta sustentou a continuidade da relação. Percebe-se com isso que o gesto da criança ao mesmo tempo afasta e repudia a terapeuta, que se tornou estranha e invasora. Ao ter liberdade para sair da sala e encontrar tudo como antes, Carol permitiu a comunicação da situação através da criação do jogo da múmia. Seu gesto não caía mais no vácuo. Havia um outro para quem ela podia endereçar uma comunicação. Por meio do jogo, ela pôde expressar o sofrimento que a impedia de se desenvolver e se realizar como pessoa. Quando eu estava como múmia comecei a falar da escuridão, do medo e da solidão presentes. Penso que fui dando voz à sua vivência. Abria-se ainda mais o campo da comunicação significativa na experiência compartilhada. O término do jogo da múmia se deu através de um toque mútuo em que voltávamos a ser humanas, após o que ela quis brincar de luta, podendo usar vários objetos (corda, cadeira, almofada), estabelecer algumas regras para determinar a separação de campos etc. Ela podia usufruir mais livremente do tempo e do espaço que lhe eram oferecidos, bem como dos movimentos do próprio corpo. 66 Na sessão que se seguiu, Carol entrou animada, comentando que havia levantado sem fazer barulho, para não acordar o "bebê moranguinho", que de fato nunca mais compareceu concretamente na sessão. Em seguida, fez o desenho de um passarinho preso numa gaiola. Do lado de fora havia uma bomba perigosa na entrada de um caminho. Fez também um desenho com tinta branca e vermelha, dizendo que era neve pintada com manchas vermelhas. Muito perigosa! Quem chegasse perto morria. O último desenho feito, nessa sessão, foi de duas borboletas separadas por um traço. Vale assinalar que até então Carol, como geralmente acontece com crianças com a mesma problemática, preferia jogos e objetos com formas definidas, evitando contato com material sem forma (plastilina, argila, tinta etc.). Seguiu-se um período de várias sessões em que ela lidou com situações de separação demonstrando cada vez mais autonomia. Até que em determinada sessão, fez dois desenhos querendo usar tinta. No primeiro desenhou naves perigosas que soltavam bombas. No segundo, após dividir a folha no meio, disse que havia, de um lado, uma cidade escura, onde as pessoas tinham medo e, de outro, uma cidade clara: era o mundo feliz. Quando foi lavar os pincéis, enxugou-os na toalha branca, e não na que deveria ser usada para enxugá-los. Ao observar o seu olhar provocativo, comentou: “Ah! Como o 'bebê moranguinho', né?" Ela disse rindo: "Ele sempre gosta de fazer o que não pode". Veja-se como a dimensão da agressividade começou a entrar em cena com o aumento da confiança e como ela foi podendo botar “as manguinhas de fora”, estudando o que acontecia no ambiente externo. 67 Durante muito tempo, indaguei-me sobre o significado daquela boneca. Penso hoje que, desde o início, ela apresentava por um lado uma dimensão dissociada de Carol e por outro revelava a busca e esperança de poder ser reconhecida e, assim, desenvolver-se através de um novo encontro. Indaguei-me também se a boneca não era usada para repudiar o outro, quando este se portava como um estranho invasor, pois ela comparecera na sessão em que eu de fato tinha aumentado as minhas expectativas sobre o seu desempenho e tentado apressar o seu desenvolvimento cognitivo. Comecei a pensar na boneca como um objeto subjetivo, já que ela era usada para ganhar tempo, estudar e testar a fidedignidade do ambiente e, principalmente, para não ter que se submeter ao desejo do outro. Na sessão que se seguiu, Carol entrou dizendo que havia deixado o "bebê moranguinho" de castigo, porque ele estava malcriado e tinha aprendido a cuspir. Foi até o armário, e pegou um jogo de montar. De forma apressada, começou a montá-lo sozinha. Rapidamente pegou outro, chamando-me para montar junto. Novamente não me esperou. Disse: “Pronto. Ganhei!”. Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, vemos aí, um funcionamento do tipo hiper-assimilativo e hipo-acomodativo que caracteriza, segundo Paín (1985), o problema de aprendizagem como sintoma. Este é o caminho de evolução no tratamento do quadro de inibição. A função cognitiva se desenvolve, mas sob a égide da dimensão subjetivante, cuja lei é o desejo. Fui aprendendo com Carol e outras crianças que é preciso que seja assim, o que foi me levando, aos poucos, a reconhecer a importância do processo de regressão à dependência e ao paradigma de mãe suficientemente boa (WINNICOTT, 1945, 1960). Depois, Carol começou a rabiscar a mesa num movimento ao mesmo tempo "disfarçado e provocativo", enquanto me observava com o mesmo olhar entre a "gozação" e a expectativa. 68 Assinalei que ela parecia estar me provocando e que eu sabia que ela sabia muito bem disso. Nós duas sabíamos. Ela sorriu levemente. Depois, pegou uma folha de papel, onde desenhou duas borboletas separadas. Ela vinha desenvolvendo, cada vez mais, a capacidade de discriminar as suas próprias ações das dos outros. Hoje diria que a agressividade vai podendo ser usada de forma integrada à ação para inscrever o gesto e se realizar no mundo, à medida que um processo de separação, vai acontecendo. Carol, às vezes, ficava assustada quando podia repudiar ou apossar-se de algo. "A integração traz consigo a expectativa de um ataque (...).A reunião dos elementos do self associada à constituição de um mundo exterior produz por algum tempo um estado que poderia ser rotulado de paranóide"" (WINNICOTT, 1990, p. 141). Através do atendimento de Carol e outras crianças com inibição observei que isso é tanto mais verdadeiro quanto mais tardiamente acontece. Note-se que o uso da "boa" agressividade, ou seja, aquela que não se confunde com destrutividade, permite o desenvolvimento da capacidade de discriminação, que é a base do processo de aprendizagem formal. Em todos esses movimentos, é possível reconhecer a idéia apontada por Winnicott (1975) de que ao longo do processo de desilusão gradativa do bebê, é preciso a oposição do meio, para que a agressividade entre em cena. À medida, que surge um lado mais ativo da menina e sua agressividade vai surgindo, ela vai querendo deixar sua marca no ambiente. Assim acontece a passagem do estágio de "relação de objeto para a de uso de objetos", o que vai permitindo uma mudança em termos de princípio de realidade. Isso será aprofundado no atendimento de Eric, o Homem-Aranha. Outra tomada de sessões ocorridas mais adiante, mostra como Carol começou a transitar entre e nos diferentes espaços através do brincar. 69 Em determinada sessão, ela disse que ia me mostrar uma coisa que tinha aprendido na escola, durante a aula de artes. Misturou algumas tintas num papel, depois o dobrou, apertando os dois lados. Ao abri-lo, apareceram manchas com formas. Enquanto colocava o papel para secar disse que era uma cidade cheia de morcegos e que lá tinha um morcego que vivia sozinho, que podia até morrer de tanto medo que tinha dos outros que, por sua vez, também, tinham medo dele. Em seguida, pintou uma folha com tinta preta, dizendo que ia fazer a escuridão. Enquanto passava o cabo do pincel, fazendo sulcos na tinta, disse que estava fazendo a cidade ficar mais clara. Quando foi lavar tudo, pareceu assustada ao ver que tinha sujado a blusa da escola e disse que a mãe ia ficar brava. Foi até o banheiro, para limpá-la. Lembro que já havia solicitado à mãe de Carol que a trouxesse com roupas velhas e adequadas para o tipo de atividade que vínhamos realizando. Não entendia por que ela a trazia pronta para ir à escola, embora voltasse com a menina para almoçar em casa, antes de ir para lá. Ao voltar para a sala de atendimento, Carol quis brincar. Ela seria a mãe. Eu, a filha de quatro anos que ia ficar vendo TV, enquanto ela (mãe) saía para comprar brinquedos de montar, de números e palavras, que era o presente que a filha gostaria de ganhar. Vemos a mudança e a ampliação na natureza no modelo de relação. Carol não fala mais por meio de um objeto subjetivo (bebê moranguinho) nem de um modelo de relação, cuja base é a sujeira e o desencontro e nem faz o papel de uma mãe brava e retaliadora. Na sua dramatização, ela expressa a possibilidade de um movimento de busca, encontro e prazer com alguém continente. 70 Na sessão seguinte, continuou querendo brincar de mãe e filha. Mas, diferentemente das vezes anteriores, quando ela determinava o tipo de filha que eu deveria dramatizar, disse que eu podia ser uma filha do jeito que eu quisesse. Começou, então, a representar uma mãe que duvidava o tempo todo e não largava do pé da filha, o que nos permitiu conversar sobre a sua dificuldade de ter mais autonomia e fazer amizades. Veja-se que foi ela quem me autorizou a dramatizar uma filha do jeito que eu quisesse, porque, até então, ela era a diretora da cena e determinava como e o quê eu deveria ou não fazer. Mais tarde relacionaria e compreenderia a necessidade de crianças com inibição que sofreram invasões desde muito cedo de poderem ter o outro sob seu controle onipotente e usufruírem situações de continuidade do ser. (WINNICOTT, 1945, 1960). Mais adiante, Carol dramatizou uma mãe que lia estórias para a filha. Fiquei impressionada com o envolvimento, interesse e fluidez da menina, durante a leitura. No início dessa mesma sessão, a mãe havia tentado entrar na sala. Isso, às vezes, ocorria e eu via – diferentemente de hoje – como uma invasão da mãe. Nos últimos 10 minutos, quando então a mãe entrou, contou sobre um episódio que "reforçava a inadequação" da filha. Carol, então, pegou o livro tentando mostrar-lhe a sua conquista na leitura. Isso não pareceu interessar à mãe que a apressava para ir embora, alegando estarem atrasadas. Não quero generalizar, nem estou dizendo que Carol era assim ou assado por "culpa" da mãe. Mas um fato era inegável: ela carecia da presença de um "bom" olhar que sustentasse o seu desenvolvimento. Fazia sentido, para mim, a letra da música de Suely Costa e Abel Silva: 71 Só o que me cega / O que me faz infeliz É o brilho do olhar que eu não sofri. As sessões alternavam-se: Carol, às vezes, queria trabalhar com jogos de classificação e de azar, noutras com atividades plásticas e psicodramáticas. Estas últimas permitiam que a menina expressasse, por um lado, a solidão, tristeza, medo, confusão, paralisia e sujeira associadas com a escuridão e, por outro, a alegria, felicidade e beleza associadas com a claridade, luz e movimento. Ela parecia continuar resgatando vivências anteriores ao início do andar e enxergar em torno dos dois anos, época em que começou a usar óculos. Havia uma diferença sutil nas suas diferentes formas de expressão e de ação, seja ao desenhar, pintar seja ao contar sobre fantasmas bravos que assustavam e deixavam crianças apavoradas. O mesmo acontecia quando desenhava cidades e casas que entravam em curtos circuitos que deixavam todos na escuridão. Entretanto, na relação comigo, já não ficava mais tão assustada e podíamos conversar sobre sua produção e sobre os sentimentos dos seus personagens. Em suas dramatizações apareciam cada vez mais mães e professoras continentes que ajudavam o desenvolvimento da criança. Naquela época, ela e a mãe passaram a se referir a experiências novas: Carol podia ficar com o irmão sozinha em casa e aceitar sua ajuda; podia ser convidada e ir a aniversários. Paralelamente, demonstrava o desejo de querer ficar bonita: quis furar as orelhas para colocar brincos, mudar seus óculos e cortar o cabelo. Todo esse movimento coincidiu com a época de seu aniversário, quando pediu, e ganhou, uma outra boneca de nome Menina-Flor. Talvez esse momento simbolizasse, e foi nessa linha que conversamos, a morte da menina Bebê Moranguinho e o nascimento de uma outra Carol – a Menina-Flor, que podia confiar em si mesma e nas pessoas, queria crescer e se desenvolver. Transcrevo 72 suas palavras ao referir-se, então, ao "bebê moranguinho": "malcriado, gostava de cuspir nos outros, fazer coisas erradas. E, também, sujava a calcinha, porque não sabia se limpar direito". Na mesma época, ela trouxe também dois ursinhos de sua casa e, usando um carrinho do consultório, dramatizou um pai e um filho que passavam por muitas aventuras, sendo bem-sucedidos. Na sessão seguinte, trouxe mais um ursinho, colocando-o no banco de trás do carrinho. Disse então que era o pai, a mãe e o filho. Como nas sessões que se seguiram, brincou usando vários animais, em situações em que sempre havia um que fazia shows para o casal de pais, compreendi que talvez ela estivesse dramatizando a situação de exclusão que continuava a viver na família. Talvez, percebesse a relação de proximidade e o bom olhar, especialmente do pai para o irmão, tanto que pareciam formar uma dupla, e como nem o pai, nem a mãe ou o irmão formavam par com ela. Bem, mas acompanhemos a finalização do atendimento de Carol. Sua mãe comunicou-me que não iria mais trazer a menina para suas sessões. Isso porque ela já estava bem na escola e o pai estava com problemas econômicos. Talvez, tivessem até que mudar para um bairro muito distante. Pela primeira vez, vi Carol dizer alto e em bom som que se ela saísse dessa escola, não estudaria em nenhuma outra. Nas três últimas sessões concedidas pela mãe para a finalização do nosso trabalho, Carol contou sobre as brigas entre seus pais. Embora ela não fosse mais o motivo delas, continuava a ser envolvida pois, às vezes, tinha que ceder seu quarto para o pai e dormir com a mãe. Na época, ela falava muito de medo e insônia, contando como era a noite na sua casa. Desenhava fantasmas bravos, que gostavam de assustar crianças. 73 Numa dessas sessões, a menina criou um jogo bastante interessante que, aliado à sua atitude de se recusar a mudar de escola, levou-me a pensar que Carol já podia marcar uma posição própria, defendendo-se de invasões externas, talvez, pela possibilidade conquistada de transitar entre espaços diferentes – o da casa, o da escola e o da terapia. O jogo era o seguinte: ela fazia dois esconderijos usando caixinhas de papelão como tampas. Em um deles, ela esconderia um objeto enquanto eu permaneceria de olhos fechados e de costas para ela. Em seguida, eu teria que adivinhar qual esconderijo estava vazio. A minha aposta nunca se realizava, já que ela colocava sempre um objeto embaixo dos dois esconderijos. Embora essa questão tenha sido levantada na época do atendimento de Carol, só muito tempo depois é que comecei a pensar sobre esse complexo e sofisticado jogo que geralmente surge nas crianças quando se abre o campo transicional no qual a Função da Ignorância, que permite fazer observações e indagações, começa a operar. Na época, Carol, após divertir-se muito vendo que eu nunca acertava, mostrou-me que havia um objeto debaixo dos dois esconderijos, dizendo que ela era mesmo uma mentirosa e gostava de enganar os outros. Achei importante deixar claro que se ela quisesse me enganar, de verdade, não teria me contado. Só depois é que me daria conta de que ela fazia um exercício da “boa” agressividade, necessária para a inscrição do gesto no mundo, para se apossar de um escudo que permitisse se defender de invasões e, ao mesmo tempo, conquistar sua própria espada para afastar intrusos, marcando e defendendo posições. Na última sessão, ela desenhou uma menina punk, dizendo que ela possuía dois lados: em casa era boazinha e obediente e, tanto na rua, como na escola, tinha amigos e era diferente. A meu ver, isso confirmava a hipótese da capacidade 74 conquistada de transitar entre e nos espaços diferentes. E mais, marcava a possibilidade de usar a "boa" agressividade, para discriminá-los e poder cuidar de si mesma. Algumas Considerações A propósito: a hipótese inicial levantada na primeira sessão em que Carol veio com sua família, confirmava-se. Como disse, os pais e o irmão eram bonitos e bem cuidados e ela feia, descabelada, com a tal boneca na mão e os óculos que pareciam enfeá-la ainda mais. A partir deste atendimento e do de outras crianças com inibição, fui compreendendo como, muitas vezes, os pais apresentam o filho de uma forma em que ele destoa da família, o que revela já a sua situação de exclusão. Isso os lança numa situação de isolamento psíquico. Adianto que a percepção desse destoar se dá por uma experiência de impacto estético, ou seja, pela ressonância que a composição física e psíquica da criança inserida na família, naquele momento, provoca no terapeuta. Aproveito para salientar que, ao trazer várias avaliações com diagnósticos graves e prognósticos desfavoráveis (deficiência mental, psicose, comportamentos fóbicos e autistas etc.), os pais geralmente assinalam a gravidade e a impossibilidade de uma mudança dessa situação. Além de tratar a criança como uma coisa, um objeto, a situação de impotência é mantida e embora os pais pareçam procurar ajuda, na verdade, muitas vezes, marcam a impossibilidade da sua concretização, o que acaba mantendo o precário equilíbrio conseguido por todos, até então. Por isso, a meu ver, uma das funções do terapeuta que trabalha com essas crianças é a de re-apresentá-las aos pais. Fez sentido, para mim, a idéia de Paín, durante uma supervisão, de que elas sentem-se ilegítimas no desejo dos pais, situação que as leva a ocupar um lugar marcado, como vimos no atendimento de 75 Carol. E, paradoxalmente, para sobreviver, ficam aprisionadas nesse lugar a elas destinado. Aos poucos, fui me dando conta da participação do falso-self (WINNICOTT, 1945, 1960) no funcionamento psíquico de crianças com inibição33, tema que será aprofundado na estação 5. Note-se que a passagem de Paín para Winnicott não constituiu uma ruptura tão brusca e marcada como a anterior de Luzuriaga (Klein) para Paín. Em determinados momentos do atendimento de Carol, pude usar a noção de objetos e fenômenos transicionais de Winnicott para flexibilizar determinadas noções de Paín, especialmente a de Função da Ignorância. Mais do que uma ruptura, houve uma ampliação do campo, já que a inibição seria compreendida não apenas como fruto de conflitos pulsionais, mas também de falhas do ambiente no atendimento às necessidades primitivas da criança. Com Carol, fui me dando conta de que a Função da Ignorância operava e permitia o desenvolvimento da rede cognitiva e o seu casamento com a rede afetiva, à medida que o campo transicional se abria para ela e para mim. Assim, fui podendo operacionalizar a contribuição de Paín através de Winnicott. Descobri que era no movimento paradoxal e ambíguo que caracteriza o campo onde acontece o brincar, que a situação de aprendizagem significativa acontecia. Aliás, eu mesma podia usufruir disso durante as supervisões com Paín. Reconheço que só se pode fazer pelo outro o que podemos viver na relação com alguém. Usufruir isso é condição para exercer determinadas funções, já que elas são introjetadas a partir do movimento presente no campo de experiências compartilhadas numa relação de confiança. É isso que permite transitar no jogo de um e de três. Aproximar-se, distanciar-se na medida justa e no tempo certo, dão condições para que um jogo espontâneo tenha lugar, favorecendo a abertura do campo do conhecer e aprender. 33 Aprofundo essa noção também nos capítulos 3 e 4, respectivamente, o atendimento de João - o PorcoEspinho e de Cacá - a Cobra-Naja em Pelos caminhos da ilusão e do conhecimento, 2003. 76 A partir de Winnicott foi possível compreender que há diferentes graus de inibição intelectual e que esta ocorre como resultado da falha ambiental, ou seja, devido à ausência da presença psíquica do outro ao longo do seu processo maturacional e não apenas como fruto de conflitos pulsionais, seja pelo predomínio da pulsão de morte (KLEIN), seja pelo da pulsão de vida (PAÍN). Quando mais cedo o meio ambiente falhar no atendimento das primeiras necessidades do bebê, mais cedo poderá ocorrer uma situação de não desenvolvimento do potencial intelectual, a qual poderá ir desde uma situação de quase paralisia até uma outra em que paira a ameaça de um colapso da inteligência. O fato de a defesa intelectual não se constituir ou falhar, indica que a criança não pôde desfrutar de experiências constitutivas que permitiriam o surgimento da memória (criada a partir das experiências na mutualidade aliada ao uso da capacidade imaginativa). Daí a necessidade de favorecer um processo de regressão a esse estágio de dependência, buscando colocar em marcha as potencialidades "congeladas" do seu vir-a-ser. A teoria sobre a criatividade de Winnicott ancorada na noção de uso de objeto e fenômenos transicionais ampliou o meu foco de observação e intervenção, permitindo encontrar respostas e sentido para algumas noções de Paín, entre elas a da Função da Ignorância. Pude também aproximar ainda mais as duas vertentes de atuação clínica como psicopedagoga e psicanalista e estabelecer relações entre as contribuições de ambos os autores, tendo no horizonte a questão do desenvolvimento do brincar, pensar, conhecer e aprender. O foco também se ampliou, já que não era mais possível pensar a clínica da aprendizagem, sem considerar a clínica do desenvolvimento psíquico. Vale ressaltar a diferença da contribuição de Winnicott e a de Paín, que focaliza as relações do sujeito com o objeto de conhecimento e ancora-se numa 77 compreensão intrapsíquica segundo um modelo pulsional e opera com noções de desejo, falta e frustração. Pressupõe a separação entre sujeito e objeto desde o início da vida. Na sua perspectiva, o objetivo da intervenção seria resgatar o prazer da aprendizagem devido à possibilidade de a criança encontrar um outro lugar, tornar-se sujeito, protagonista e não somente objeto de desejo do outro. Sugere uma atitude mais ativa por parte do terapeuta. Já Winnicott (1945), como vimos, supõe um estado inicial de nãodiferenciação entre eu e não-eu, ou entre sujeito e objeto, sustentado pela adaptação ativa da mãe que, basicamente, respeita o tempo de tolerância do bebê, adaptando-se e suprindo as suas necessidades. À medida que fui compreendendo que Carol adotava a máscara de boba, especialmente em situações de fracasso, permitiu-me, também, aos poucos, perceber que se tratava de uma defesa. Penso que foi aqui que comecei a fazer uso do conceito de falso-self de Winnicott, reconhecendo a sua participação nos casos de pacientes que apresentam sofrimento psíquico ligado às queixas de problemas de aprendizagem. Fui compreendendo que, num ambiente inóspito, era melhor ocupar esse lugar do que não ter lugar nenhum no mundo. Os versos de Fernando Pessoa passaram a fazer cada vez mais sentido para mim: O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente. Conforme fui utilizando as contribuições de Winnicott para acompanhar os movimentos psíquicos de Carol e mergulhar com ela num campo de experiências intersubjetivas, uma outra compreensão tornou-se possível. 78 Fui fazendo outro tipo de intervenção, o que levou a menina a sair do lugar ocupado até então. Isso foi levando a uma ampliação no campo de observação, já que fui ficando atenta não só à relação intrapsíquica entre as dimensões dramática e cognitiva do funcionamento mental de Carol, mas especialmente ao contato humano que se criava entre nós no campo intersubjetivo. A experiência com Carol abriu a possibilidade de que eu pudesse, mais tarde, nomear comunicações dessa natureza, assinalando para as crianças com severa inibição que eu podia compreender que elas sorriam e falavam com os olhos, ouviam com a nuca etc. Isso foi me levando a reconhecer a importância da função de testemunha do terapeuta - papel de espelho, participação do fenômeno estético – WINNICOTT (1963a, 1967 a,1971a, 1971b, 1975) que, ao lado da função de discriminação do analista, possibilita o início do longo processo de constituição da ilusão de contato. E, posteriormente, de separação e constituição das fronteiras entre o eu e o não-eu. Poder inscrever o gesto aceitando o familiar e/ou repudiando o não-familiar (invasão) além de inaugurar a possibilidade de estabelecer as fronteiras entre eu e não-eu, permite o sentimento de autoria, condição para o desenvolvimento do processo de apropriação criativa de conhecimentos. Hoje, penso que muitas das atitudes de Carol que, na época eu não podia, ainda, nomear e que me intrigavam, favoreceram a abertura do espaço de jogo, de uma área de experiências na mutualidade, sustentando a criação da ilusão e de um brincar compartilhado, organizado pelo movimento paradoxal que caracteriza o campo transicional. 79 II. BALDEAÇÃO Repensando o objeto e contextualizando novas questões Nos capítulos anteriores, na busca de compreender o funcionamento psíquico das crianças com inibição, focalizei determinados momentos do atendimento de Carol, estabelecendo um diálogo com as concepções presentes nas abordagens de Klein, Paín e Winnicott. Na Estação 3, confrontei a concepção de Luzuriaga desenvolvida na perspectiva Klein-Bion e a de Paín, afastando-me da concepção da primeira que opera a partir da defesa do predomínio da pulsão de morte no funcionamento mental. Na Estação 4, estabeleci uma aproximação entre Paín e Winnicott, autores que rompem com a crença na pulsão de morte e reconhecem a importância de considerar dados do desenvolvimento e do ambiente da criança no diagnóstico e no atendimento. Assim, foi possível operacionalizar e flexibilizar a noção de Paín sobre a Função da Ignorância por meio da teoria da criatividade de Winnicott ancorada na noção de objetos e fenômenos transicionais. Foi possível, também, reconhecer a partir do atendimento de Carol, que a inibição seria fruto não apenas de um conflito pulsional (PAÍN), mas também resultado de uma falha do ambiente em atender as primeiras necessidades da criança (WINNICOTT). No caso de Carol, observei que seus pais não tinham fantasia de cura, seu discurso era organizado pela dúvida em relação à existência do potencial intelectual da menina e acompanhado de uma alta carga de intensidade dramática. Observei, também, troca mútua de acusações entre eles. Além disso, as primeiras relações entre mãe e criança foram marcadas por problemas que começaram muito cedo, nos dois primeiros anos de vida da menina. Embora não lesivos, esses problemas foram supervalorizados ou negados pelos pais, o que 80 provocou graves desencontros na relação mãe-bebê, entre o casal e, também, na dinâmica familiar. Sabemos que há crianças que nascem com problemas semelhantes, mas esse desencontro entre pais e filhos não acontece, assim como há situações em que mesmo sem esse tipo de problemas, a criança pode ser olhada como não legítima, como veremos no atendimento de Eric. Paín e Winnicott reconhecem a importância do olhar da mãe na história de desenvolvimento da criança. Quando o desencontro acima mencionado acontece, segundo Paín, o que está em jogo é a questão da legitimidade da criança no desejo dos pais, e não o fato de ela ter, ou não, problemas mais ou menos lesivos. O fato de um bebê ser legitimado no desejo dos pais depende da capacidade do casal poder lidar com as características do bebê, aceitando-as ou não. A aceitação permite a resignação e a ressignificação frente a distância entre o bebê desejado e o encontrado. Dito de outra forma, a resignação depende da capacidade de os pais poderem lidar com a sua própria frustração34. Para exercer a função de espelho, é preciso que a mãe se relacione com um bebê sem a distorção que a lente do desejo impõe. Quando não há ressignificação, a mãe se relaciona com um filho imaginário. Assim, num primeiro momento, durante o atendimento de Carol estabeleci uma aproximação entre Paín e Winnicott em relação ao reconhecimento da importância do olhar da mãe na história de vida da criança. Uma indagação foi fundamental e apresentada na passagem de Klein para Paín: a inibição intelectual seria fruto de problemas de detenção no desenvolvimento ou de conflitos intrapsíquicos? 34 Nesse sentido, o leitor poderá ler Esquema Corporal e Imagem do Corpo. In DOLTO, Françoise. A Imagem Inconsciente do Corpo. Trad. Noemi Moritz Kon e Marise Levy. São Paulo: Perspectiva, 1992. 81 Retomemos Luzuriaga. Ela não considera a inibição intelectual como uma parada ou uma inibição do desenvolvimento e, sim, como fruto de processos inconscientes que mantêm a criança isolada, evitando, assim, entrar em contato com a realidade interna e a objetiva, o que provoca situações de conflito e sofrimento. Além de assinalar que a contra-inteligência luta contra a percepção e a compreensão do mundo objetivo e do interno, reconhece que os conteúdos vividos como perigosos são muitos e os classifica, a partir de sua relação com a rivalidade, a solidão e, especialmente, a inveja. O pensamento desenvolvido na tradição de Klein está ancorado na noção de destrutividade, medo e culpa, defende a existência de um ego desde o início da vida, e opera num modelo que pressupõe a separação entre sujeito e objeto. Retomemos Paín. Ela opõe-se à tradição kleiniana, criticando muitos aspectos presentes nesse referencial como as noções de narcisismo e sadismo primário, pulsão de morte etc., bem como a pouca importância dada aos fatores ambientais – familiar, escolar e social. Ao assinalar que o não-aprender não era apenas o contrário de aprender e tinha uma função tão positiva quanto o aprender, Paín insiste na necessidade de entender o porquê e o para quê do problema de aprendizagem, propondo considerar também os fatores ambientais no processo diagnóstico das crianças. Na compreensão kleiniana, a inibição seria resultado de conflitos pulsionais, devido ao predomínio da pulsão de morte no funcionamento mental (LUZURIAGA, 1972), o que justificava a pouca consideração dada aos fatores ambientais. Diferentemente, Paín, na tradição freudiana, entendia a inibição como fruto de um conflito entre a pulsão de vida e as exigências da cultura, o que implicava uma outra compreensão e intervenção diferente da de Klein. A partir da experiência clinica, constatei a não conveniência de usar o cenário kleiniano no atendimento de Carol, o que já vinha observando, também, 82 em outros atendimentos de crianças com inibição e com outros tipos de problemáticas. Isso porque o tipo de compreensão e de interpretações apontando para os aspectos destrutivos da criança geralmente as lançava, ainda mais, num estado confusional e numa situação de isolamento psíquico. Retomemos alguns aspectos do atendimento de Carol. Num primeiro momento, segui a sugestão de Paín no sentido de cortar a repetição do tipo de vínculo familiar na transferência e adotei uma atitude mais diretiva. À medida que um campo de confiança se abriu, Carol começou a inscrever um gesto pessoal de oposição à atitude diretiva da terapeuta que foi se colocando mais no papel de testemunha, acompanhando os movimentos da menina. Com a abertura do campo de comunicação significativa, ela foi criando jogos por meio dos quais estudava os efeitos de suas ações no ambiente, especialmente, na terapeuta. Nos jogos e cenários criados por ela, mais do que mostrar, atuava seu drama pessoal, fazendo a terapeuta de co-personagem deles. Num desses jogos, o da múmia, ficou evidente a situação de paralisia e sofrimento psíquico em que a criança se encontrava pela ausência da presença real de um outro ser humano que a olhasse e com quem pudesse estabelecer uma relação de troca e comunicação significativa, tema que será aprofundado na Estação 7. Assim, fui reconhecendo que o vínculo de confiança e troca com Carol foi acontecendo à medida que ocorria um encontro por meio do olhar e da comunicação não-verbal da menina. Ser testemunha dos movimentos favorecia a criação do espaço de comunicação significativa e permitia que a função da ignorância operasse no pensamento da terapeuta. Poder ser vista e reconhecida como autora dos jogos que criava sem ser mal interpretada por pais, escola ou terapeutas, ser olhada e encontrada num lugar diferente, do que até então estava acostumada, poder jogar com os símbolos criados até aquele momento, permitiu que Carol pudesse tomar consciência da sua possibilidade de jogar e ser autora. Aos poucos, ela foi se sentindo incluída na relação e dela participante. Digamos 83 que a minha atitude foi norteada, por um lado, pela noção de função da ignorância e, por outro, pelo que está belamente colocado na frase "É um sofisticado jogo de esconder em que é uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser encontrado”. (WINNICOTT, 1963a, p.169). Gostaria de usar o cenário bíblico, para refletir sobre a situação de exclusão que observei na dinâmica da família de Carol e de outras crianças com inibição que acompanhei35. Poderíamos dizer que Carol e crianças com essa sintomatologia, geralmente, encontram-se identificadas no lugar de Caím. Retomando o mito, vale lembrar que Javé teve bons olhos para os presentes de Abel, o que provocou a inveja e a hostilidade de Caim, que não pôde dominá-las. Depois de matar Abel, Caim foi amaldiçoado: expulso do solo fértil, andaria errante e perdido pelo mundo, cultivaria o solo e este não lhe daria nada. Após admitir sua culpa e tormento, diante de Javé, expressou o medo de ser perseguido e morto. Javé, então, colocou-lhe um sinal para que, mesmo reconhecido, não fosse morto por quem o encontrasse. A partir do atendimento de Carol e de outras crianças com inibição, fui compreendendo como, muitas vezes, os pais apresentam o filho de uma forma em que ele destoa da família – o sinal de Caim – que já revela a sua situação de exclusão. Isso geralmente o lança numa situação de isolamento psíquico. No primeiro encontro com Carol, notei que os pais e o irmão eram bonitos e bem cuidados e ela feia, descabelada, com a tal boneca na mão e os óculos que pareciam enfeá-la ainda mais. A hipótese inicial levantada na primeira sessão, pela terapeuta, de que Carol era a depositária das brigas e desencontros familiares, bem como a de que encarnava o aspecto negativo, negado e dissociado da família, confirmou-se. A percepção desse destoar deu-se por uma experiência de impacto estético, ou seja, pela ressonância que a composição 35 Ver João - o Porco-Espinho e Cacá - a Cobra-Naja. In PARENTE, Sonia. Pelos Caminhos da Ilusão e do Conhecimento. 84 física e psíquica da criança inserida na família, naquele momento, provocou na terapeuta. Hoje diria que por meio da boneca e da máscara de boba, a menina podia manter um tênue contato com o mundo externo, estudar a reação do ambiente, mapeá-lo e, assim, fugir dos perigos. O problema é que isso a afastava de um contato verdadeiro com ela mesma e com o outro, o que foi me levando a reconhecer a participação do falso self no funcionamento das crianças com inibição intelectual, como vimos na Estação 4. Além disso, por meio da boneca, Carol conseguia provocar efeitos e afetar, não apenas, o ambiente familiar e escolar, mas também a terapeuta, o que foi me levando a reconhecer o que mais tarde viria a nomear como fenômeno estético, tema que será aprofundado na Estação 5, por meio do atendimento de Eric. A leitura sobre a história de desenvolvimento de Carol à luz de Winnicottt levou-me a compreender que os momentos iniciais de desencontro surgidos entre os pais e a menina desde as primeiras situações de amamentação, no episódio de convulsão até as dificuldades visuais associadas ao pequeno atraso no desenvolvimento psicomotor, embora não lesivos, implicaram em paradas no seu desenvolvimento, evidenciando a falta de condições ambientais favorecedoras de um processo de aprendizagem. A aproximação entre Paín e Winnicott, permitiu operacionalizar e flexibilizar o conceito de Paín sobre Função da Ignorância. Ou melhor, à medida que se abriu o campo dos fenômenos transicionais, a Função da Ignorância começou a operar no pensamento da terapeuta, sendo possível, num primeiro momento, reconhecer, que a inibição seria fruto não apenas de um conflito pulsional (PAÍN), mas também resultado de uma falha do ambiente em atender as primeiras necessidades da criança (WINNICOTT). 85 Havia outros pontos importantes relacionados à clínica da inibição que permitiam aproximar Paín e Winnicott e marcavam o distanciamento em relação a Klein. Nem um, nem outro usam a interpretação como Klein. Seria mais adequado usar a palavra “intervenções”. Uma outra diferença marcante é que tanto Paín como Winnicott consideram a etapa de diagnóstico de fundamental importância, o que não ocorre com os Kleinianos. Entretanto, apesar dessas aproximações entre Paín e Winnicott, (ambos rompem com a pulsão de morte, reconhecem a participação do ambiente etc.) havia diferenças importantes. Vimos na Estação 4 que o pensamento de Paín em relação ao processo de constituição do sujeito e da reconstrução de conhecimentos ancora-se na noção de desejo que é investida no objeto e pressupõe a separação entre este sujeito e o objeto. Já Winnicott (1945), reconhece a existência de um estado inicial de indiferenciação entre mãe e bebê, sustentado pela adaptação ativa da mãe que basicamente respeita o tempo de tolerância, alimenta sua onipotência e supre as necessidades do bebê. Nesse estado, ainda, não se poderia falar de desejo. Uma outra diferença marcante é que, para Paín, o prazer da aprendizagem poderia ser perdido ou pervertido no triângulo edípico, enquanto para Winnicott a aprendizagem seria algo a ser conquistado na relação com a mãe suficientemente boa a partir do respeito às determinadas condições maturacionais e ambientais ao longo do desenvolvimento. No início do atendimento de Carol, ficou evidente que ela não estabelecia relação com o objeto a ser conhecido, ou melhor, que não havia relação de triangulação, que caracterizaria o campo da aprendizagem. Carol ainda não havia se constituído em sujeito desejante e não se relacionava com o objeto de conhecimento. Portanto, o quadro de inibição, não poderia ser incluído no campo psicopedagógico. 86 Buscando aprofundar as diferenças acima mencionadas, recortei o atendimento de Eric, um garoto, que segundo a escola, parecia viver isolado numa bolha. Ele veio encaminhado por queixas de problemas de aprendizagem apresentando um quadro de severa inibição intelectual. Esse atendimento permitiu aproximar, ainda mais, as vertentes como psicanalista, cujo foco era voltado para indagações sobre o desenvolvimento e/ou funcionamento psíquico das crianças com inibição intelectual, e como psicopedagoga, voltada para a questão da aprendizagem, entendida como processo de autoria de conhecimentos. Várias indagações se me impunham: quais conceitos de Paín e Winnicott seriam usados na construção dos dispositivos clínicos que permitiriam a abertura do campo de relações entre Eric e o mundo de realidade externa? Será que a aproximação entre Paín e Winnicott teria se constituído num momento de passagem ou as contribuições dos dois autores estariam presentes nos dispositivos clínicos usados atualmente? Como disse na introdução, havia um incômodo por usar dois referenciais com pressupostos incompatíveis do ponto de vista epistemológico. Mas a minha indagação era: seria possível articulá-los na prática? Em caso afirmativo, será que essas duas abordagens, se usadas durante um mesmo atendimento, aconteceriam em tempos diferentes, concomitantemente, ou mesmo, em dois tempos subseqüentes? Havia, ainda, mais indagações, agora em relação às questões técnicas: como pensar a dupla escuta proposta por Paín que opera num modelo intrapsíquico e pulsional à luz do modelo intersubjetivo de Winnicott? Como conciliar a atitude mais diretiva sugerida por Paín no sentido de focalizar as relações da criança com o conhecimento e fazer o corte da repetição do tipo de vínculo familiar na transferência e, ao mesmo tempo, acompanhar seus movimentos não-verbais exercendo a função de testemunha até que um sentido se constituísse? 87 Como compreender o que a criança buscava comunicar por meio da repetição? Com Carol e outras crianças, eu havia aprendido que desrespeitar um movimento que não partisse delas, adotando uma atitude mais ativa e diretiva, provocava uma ruptura na relação intersubjetiva, incrementando a situação de resistência e paralisia. E mais! A contribuição de Winnicott apontaria para uma ruptura ou para uma ampliação no campo de observações e intervenções clínicas? Enfim, como pensar a clínica do desenvolvimento e da aprendizagem à luz de Paín e Winnicott? Agora, posso retomar a viagem de volta com Winnicott, Paín e Eric. 88 III. VIAGEM DE VOLTA: COMUNICAÇÃO SIGNIFICATIVA E JOGO TRIDIMENSINONAL NA CLÍNICA DA INIBIÇÃO INTELECTUAL Estação 5. Compreendendo Eric à luz do fenômeno estético (...) O encontro com o objeto da cultura que presentifica o estilo de ser de um determinado indivíduo é também estabelecido pelo reconhecimento de si no objeto assinalado pela experiência estética. Safra, 199936 Nesta estação, retomo o caminho trilhado após a defesa da dissertação de mestrado37 e estabeleço um diálogo entre o atendimento de Eric e determinadas noções provenientes do referencial de Winnicott que permitiram compreender a participação do fenômeno estético como possibilidade de abertura do espaço de comunicação significativa. Diagnosticando Eric e sua família No primeiro contato com Eric, encontrei um garoto desvitalizado, triste e desesperançado, que destoava da família, como Carol e tantas outras crianças com inibição. Na entrevista inicial, os pais haviam contado que Eric tinha quase sete anos, freqüentava a pré-escola e apresentava dificuldades de adaptação escolar, comunicação e relacionamento. Segundo eles, em casa só fazia o que queria, não aceitava, nem seguia "voz de comando", resistia ao contato e preferia ficar sozinho. Não era competitivo, mas não gostava de perder. Era desleixado e cuidava pouco de sua higiene corporal. 1 Safra, 1999, p. 143-4. 37 Inibição intelectual: o paradoxo no sintoma expressando paralisia e busca da criatividade, defendida na PUC/SP, em 1996, sob a orientação do Prof. dr. Gilberto Safra. 89 Pela escola, foi descrito como um garoto desligado, desatento, dócil, "fechado no próprio mundo", com problemas de compreensão, expressão, comunicação e linguagem. Evitava contato com crianças. Segundo a orientadora da escola: "Eric não acumulava experiência e não conseguia transferir os conteúdos aprendidos. Na sala de aula, às vezes, fazia desenhos de monstros e em momentos inadequados. 'Parecia viver num mundo imaginário e dentro de uma bolha', dizia a coordenadora da sua escola". (sic) O pai de Eric não havia sido aceito pela família da mãe porque era mineiro e, não alemão, já que essa é a origem da família. A gravidez que a mãe tanto esperava, apesar do pouco interesse do pai, ocorreu quase 5 anos após o casamento. Os pais relataram ter tido altíssimas expectativas em relação ao menino, esperando inclusive, com esse nascimento, reatar relações com os avós maternos, rompidas por ocasião do casamento, o que de fato acabou ocorrendo. Segundo a mãe, Eric passou um pouco da hora de nascer, não pegou o seio facilmente e não era guloso. "Muitas vezes, não queria mamar na hora certa e depois ficava chorando" (sic). A partir do 3º mês, a mamadeira foi introduzida porque era tempo de a mãe voltar a trabalhar. Os pais não ofereceram chupeta para evitar problemas futuros, como demorar em deixá-la, estragar os dentes etc. A mãe relata um acontecimento curioso: com quase dois anos, Eric ameaçou jogar fora o seu crocodilo de estimação porque tinha brigado com a mãe. Além de não impedi-lo, a mãe o desafiou a fazê-lo. Depois de jogá-lo, o menino se arrependeu. A mãe explicou que havia coisas na vida irreversíveis. O pai se mostrou preocupado com o aspecto emocional e interpretou a atitude do menino à sua maneira: “Para ferrar com a gente, ele ferra com ele mesmo. O que me preocupa é que ele puxou a mim, que também sou assim e só me ferro” (sic). Além de ter tido muitas babás e de diferentes nacionalidades, até 4 anos, o garoto só falava alemão. Como era o único neto, sobrinho e filho, havia sido 90 muito paparicado. Passou a ficar muito tempo com os avós maternos, depois que as relações familiares foram reatadas. Duas tentativas fracassadas foram feitas para alfabetizá-lo: a primeira em inglês e a segunda em espanhol. Os pais acreditavam que o aprendizado se daria melhor, quanto mais cedo ocorresse. Desde os 4 meses, Eric viajava com os pais para diferentes países, sendo bombardeado com um arsenal de informações. Na ocasião do nosso encontro, a mãe se mostrava muito preocupada com o desempenho do menino. O pai se acusava de ter sido omisso, fraco e submetido à família da esposa, deixando até mesmo que a língua falada na casa fosse o alemão, língua que ele não falava. Na verdade, os pais pareciam perdidos, brigavam muito e era possível perceber que eles haviam começado a duvidar de tudo, inclusive da capacidade intelectual do menino. Relatarei o desenrolar do primeiro contato com Eric e a compreensão que tive dos seus movimentos psíquicos a partir da minha experiência com ele. Conhecendo Eric Como já disse anteriormente, encontrei um garoto desvitalizado, triste e desesperançado que destoava da família. Submeteu-se à ordem dos pais de ser educado e tentou agradar, beijando-me, num contato robotizado e superficial. De repente, saiu caminhando para o fundo do consultório. Parecia alheio a este mundo (uma alma penada). Foi curioso observar a aproximação de Eric da analista e dos objetos a ele oferecidos. No primeiro contato que tivemos, após entrar na sala, ele ficou de costas para mim, parecendo querer esconder com seu corpo, os movimentos que fazia ao mexer na caixa de brinquedos. Parecia não querer estabelecer contatos e, sim, evitar aproximação. Fundamental para compreender e respeitar Eric foi 91 observar a sua postura corporal: ele brincava, mas de forma defensiva num estado de isolamento e retraimento. Já tinha aprendido com Carol, com João, o Porco-Espinho e com Cacá, a Cobra-Naja38, que, em determinados momentos, até um olhar poderia ser invasivo para essas crianças, de forma que observava Eric à distância e com muito cuidado. Lembrei-me de alguns episódios vividos com João e que, creio, permitiram que eu devaneasse, suspendendo temporariamente a minha presença39. É preciso dizer que a inspiração para essa atitude vinha do paradoxo descrito por Winnicott sobre a capacidade de estar só por estar em presença de alguém. (WINNICOTT, 1958) A capacidade de brincar da criança depende da situação ambiental fornecida pela mãe, que mesmo envolvida com algo de seu interesse, mantém potencialmente a sua disponibilidade para a criança que brinca ao seu lado, também envolvida com algo de seu interesse. Trata-se assim de uma via de mão dupla, já que a mãe mantém sua presença em suspensão, à medida que a criança vai se tornando independente e desenvolvendo seus próprios interesses. E esse é o grande paradoxo, a criança está bem e só, porque, mesmo à distancia, sente-se acompanhada. O paradoxo é aquilo que está para além da opinião, qualquer tentativa de resolvê-lo reduziria a complexidade do fenômeno, já que admite a presença de dois elementos que se excluiriam no campo da lógica, a qual opera numa relação de causa e efeito. 38 Ver O bote da naja em Pelos caminhos da Ilusão e do Conhecimento e A história de um porco-espinho em Pelos Caminhos da Ignorância e do Conhecimento, ambos publicados pela Casa do Psicólogo. 39 Os trechos em itálico referem-se às reflexões teóricas, aos questionamentos e lembranças da autora. 92 A atitude de poder estar ausente em presença de Eric pela suspensão da minha presença, tornava-se possível graças ao movimento presente no que chamo de jogo tridimensional. Isso permite exercer a função de holding, ser testemunha, o que permite alimentar a onipotência da criança e instaurar o fenômeno da ilusão.Disso decorre a possibilidade do desenvolvimento de seu potencial alucinatório e a criação do sentimento de ser real, a partir do qual se pode criar, também, posteriormente, o sentido de realidade dos objetos do mundo compartilhado. Para que Eric pudesse transformar-se num ilusionista, era preciso contar com o apoio e disponibilidade genuína da analista. Esta, por sua vez, precisava reconhecê-lo como um objeto do mundo compartilhado, com características, ritmo e estilo próprio e, ao mesmo tempo, identificar-se com ele na área dos fenômenos subjetivos, para tomar a forma necessitada por ele. Trata-se de uma capacidade para transitar num movimento, cuja natureza é ambígua e paradoxal, da ordem da tridimensionalidade. Isso é algo aprendido pela experiência na relação com um outro significativo. A atitude à distância e cuidadosa pareceu surtir efeito, pois Eric se ajeitou melhor, sentando-se no chão e ficando de lado, o que permitiu que eu pudesse observar seus movimentos e a sua forma singular de se aproximar dos objetos da caixa lúdica. Ele fazia uma classificação, cujo critério era separar os super-heróis, dos animais domésticos e selvagens. Disse algo que não consegui entender direito. Acho que ele nem ouviu, quando perguntei o que havia dito. Aliás, era como se eu não existisse na sala. Parecia muito envolvido na sua busca. Apresentava sérias dificuldades de fala, expressava-se mal, cortando rapidamente o tênue contato, quando não era compreendido. 93 Perguntou novamente algo e aí consegui entender que ele estava procurando pelo Homem-Aranha. À medida que tirava um a um dos super-heróis, ia olhando-os bem e dizendo: "neste falta boca, neste falta nariz; neste falta boca e nariz". Lembrei-me, também, de que a orientadora tinha dito que ele parecia viver numa bolha. Comecei a me indagar: Será que ele era como aqueles super-heróis que não tinham boca nem nariz? Será que ele não tinha estabelecido ou perdido a relação com esses órgãos, não podendo usá-los como aberturas para estabelecer contato significativo com o mundo externo? Será que ele não podia usar nem seus receptores à distância e nem os de contato? Lembrei-me de Carol que, num primeiro momento, usava seus receptores à distância (visão e audição) e os de contato (cheirava a borracha, encostava partes do seu corpo na mesa) para defender-se e evitar contato, usando-os depois para criar um jogo de esconde-esconde até brincar de jogo da múmia. Pois bem! Será que Eric apresentava a si mesmo ou um arremedo de si? Alguém que não tem boca, nem nariz, nem a disponibilidade de fazer uso de seu corpo, de se comunicar e interpretar os sinais do ambiente, estando, portanto, sujeito a vivências de desintegração? Finalmente encontrou o Homem-Aranha, com quem manteve uma relação de fascínio, colocando-o na asa de um avião. Depois começou a fazer um solilóquio, falando das viagens, das peripécias e da coragem do Homem-Aranha. Este lutava contra o mal que era muito forte, não morria e era cheio de truques. Depois surgiam vários aliados, até que, após muitas lutas, era levado para o hospital para ser cuidado. Quando saía do hospital tinha que consertar um monte de coisas quebradas. Eu me indagava: qual o significado do encontro com o Homem-Aranha, super-herói corajoso, que vivia para lutar contra o mal e consertar coisas quebradas? Eu pensava no clima de preocupação do seu brincar defensivo e no 94 significado dentro de sua história. Seria o Homem-Aranha a expressão idealizada dele mesmo, o bebê super–herói esperado pela família materna, que não tinha correspondido às expectativas e tinha sido banido, como Caim? Era evidente que o mundo externo era sentido como ameaçador e a presença do outro era disruptiva. Seria o Homem-Aranha, paradoxalmente, a expressão de uma ruptura e, ao mesmo tempo, a de uma ponte que poderia estabelecer ou restabelecer a relação com o mundo? Através do Homem-Aranha, ele podia falar. Será que apontaria para a possibilidade de integração do self? Não sei quanto tempo se passou. Tal era o seu envolvimento no seu brincar que eu evitava até respirar para não interrompê-lo. Lembrava-me da experiência vivida com João, o Porco-Espinho. Note-se que, continuei mantendo a minha presença em ausência, enquanto pensava na experiência vivida em outra situação, que ajudou a dar sustentação ao ambiente e que relato, a seguir. Naquela sessão, João estava absolutamente alheio e retraído. Em determinado momento em que ele, de costas para mim, estava envolvido no seu brincar, ocupado em provocar choques e trombadas entre dois carrinhos, eu me movimentei na cadeira, o que provocou a queda de um objeto. João deu um pulo, ficou de pé rápido e pegou algo da sua caixa apontando-o na minha direção, como se fosse uma arma. Sua expressão era de tal susto e medo que, espontaneamente, levantei-me da cadeira enquanto erguia os braços numa atitude de rendição. Alguns momentos que pareceram eternos se passaram. Ele, então, foi relaxando os ombros, suspirando e lentamente desfazendo o gesto defensivo e agressivo, sem desviar os olhos de mim. Aos poucos, enquanto ele se voltava, lentamente para os carrinhos, eu abaixava os braços retornando à minha posição. Naquele momento, eu me dei conta, de quão estranha e invasora era a presença de um outro para ele. 95 Retomemos o que se passou com Eric. Um momento significativo ocorreu e um encontro real foi estabelecido entre nós. A tampa da caixa de brinquedos que estava perto dele caiu, fazendo um barulhão. Eu me assustei. E o garoto que estava de costas, levantou-se de um salto enquanto se virava para mim, parecendo extremamente assustado. Na sua expressão havia um misto de pavor e medo. Naquele momento, senti que o que ele via em mim era um ser terrível e ameaçador. Evitei até respirar. Por duas ou três vezes, ele me olhou virando-se de costas, como que para certificar-se de que estava tudo bem. O mundo externo e invasor provocavam-lhe a vivência de um estado de susto, alerta e quase pânico. Até que trocamos um olhar, levantei o polegar fazendo um sinal de "tudo bem?" Lenta e cuidadosamente ele pareceu concordar através do olhar e de um leve sinal de cabeça. Senti que respirávamos aliviados e que era possível conversar. Eu disse, então, que achava que a gente tinha se assustado tanto, quando a tampa da caixa caiu porque parecíamos estar em outro mundo. Eric (enquanto caminhava na minha direção, parecendo interessado), perguntou: "qual mundo?” Analista: Talvez na 4ª dimensão porque, para mim, a terceira é quando eu vou para o mundo da lua. Eric: "Às vezes, também vou para o mundo da lua... E, às vezes, pra 5ª dimensão". Analista: "Nessa eu nunca estive... Como é lá?" Eric: "Só tem monstros e fantasmas... sempre em guerra. ... No mundo da lua é bom". Analista: "Então, talvez a gente possa se encontrar, de vez em quando, no mundo da lua". Seus olhos pareceram iluminar-se e ele sorriu levemente. 96 Estávamos próximos do fim da sessão e antes de ir embora, ele olhou-me perguntando onde eu tinha comprado aquele Homem-Aranha, diferente, mas igual aos vários outros que ele tinha em casa. Eric parecia um ser em estado de isolamento e não num mundo de realidade compartilhada e humana. Ele estava presente na vigilância. Este parecia ser o seu ponto de vitalidade, que lhe permitia esboçar um padrão de defesa e interação com o meio ambiente. Essa relação era extremamente tênue e feita numa linha defensiva. Um encontro na área dos fenômenos subjetivos permitiu a comunicação significativa... a possibilidade de um encontro... ainda que no mundo da lua. Estive com Eric mais três vezes. Na época, o máximo que sua mãe pôde aceitar em relação às minhas orientações, foi sua mudança para uma outra escola que respeitasse mais as suas características e o seu ritmo. Reforcei o pedido da escola de uma avaliação fonoaudiológica. Após alguns encontros, sua mãe disse claramente que não gostaria que o menino começasse uma terapia agora, nem que era o caso de fono. Ela acreditava que tudo se resolveria com a mudança de escola e de atitude da família em relação a Eric. Frente à preocupação e ao pedido dos pais, expliquei-lhes que uma avaliação intelectual quantitativa só deveria ser feita, se fosse o caso, depois que Eric pudesse brincar e estabelecer uma outra modalidade de relação com a realidade. Sugeri que fosse dada continuidade ao trabalho de expressão ligado à arte-educação que o menino havia iniciado e da qual estava gostando muito, colocando-me à disposição para acompanhá-los à distância. No nosso último encontro, ofereci, mas ele não quis levar, o HomemAranha, pedindo que eu o guardasse para quando ele voltasse. Somente depois de aproximadamente um ano, voltei a ter notícias de Eric e sua família. 97 Dialogando com Winnicott na construção do primeiro dispositivo clínico Na concepção de Winnicott (1975, 1990), o bebê é, desde o início, ativo e afortunado, se, e somente se, puder transformar-se num ilusionista, isto é, se a onipotência da ilusão de contato for alimentada. Assim, o seu potencial criativo que é alucinatório pode atualizar-se. Para isso, ele necessita contar com o apoio da mãe em estado de devoção a qual estabelece uma relação com seu bebê, a partir de um movimento que é, desde o início, ambíguo e paradoxal, da ordem da tridimensionalidade. Por isso, ela pode relacionar-se com um bebê que, ao mesmo tempo, é e não é ela mesma, pois ele é também um objeto do mundo compartilhado, com características, ritmo e estilo próprios. Isso é algo que se aprende pela experiência e não pode ser ensinado apenas de forma intelectual, mecânica. E, assim, a mãe alcança o estado de devoção, de preocupação materna que permite a identificação primária com o bebê. Nesse estágio, não há separação entre sujeito e objeto. Essa experiência pode ser pensada segundo um modelo estético (SAFRA, 1999), já que ocorre numa situação de indiferenciação entre sujeito e objeto, num estado de dependência absoluta do bebê. Aqui reside a relação com o ser, com o elemento feminino puro, base da identidade. Esta é também a base do elemento criativo presente em qualquer atividade do cotidiano e do campo cultural em que o indivíduo esteja, posteriormente, pessoalmente envolvido. Nas primeiras situações de amamentação, a cada encontro, a mãe coloca o seio no momento e no lugar em que o "gesto” do bebê o coloca (objeto subjetivo). Tem início a experiência de onipotência estabelecendo-se, assim, a ilusão do contato. Desse modo, para que a potencialidade criativa do bebê se atualize, o objeto precisa ser encontrado. Não se cria no vácuo. Penso que essa é uma das 98 novidades trazidas por Winnicott: é no bojo de um movimento paradoxal que o objeto é criado, porque pode ser encontrado. Atente-se para o fato de que o objeto não é colocado no mundo pelo ser humano e que o momento do encontro com o objeto coincide com o primeiro contato com algo exterior. Essa foi a natureza do encontro de Eric com o Homem-Aranha. A função da apresentação de objetos aliada a de holding e manejo, exercidas pela mãe devotada comum, de forma simultânea e complementar põe em marcha o início do desenvolvimento das relações com o mundo de realidade externa. Para que a ilusão se constitua é preciso, inicialmente, certa dose de experiência de onipotência. Daí decorre poder experimentar o sentido de ser real, de identidade, de se poder apreender a realidade e o significado da experiência. Se a mãe é alguém que É e não que Faz, até o bebê estar pronto para começar a fazer, ele experimenta o sentido de ser ou identidade. (WINNICOTT, 1971a, 1975). A mãe suficientemente boa presentifica o ser do bebê na apresentação que faz de si mesma durante as experiências de amamentação, fornecendo também, um ambiente perfeitamente adaptado às suas necessidades. Temos ai uma concepção em que a ilusão é “o meio de acesso ao real”40. O bebê encontra um ponto de descanso, de quietude e a possibilidade de um estado de não integração e relaxamento, que permite a continuidade do ser. O potencial ativo e criativo e a comunicação silenciosa Winnicott (1975, 1990) ressalta que o bebê nasce com um potencial de força vital e que este é a base da criatividade. Portanto, trata-se de uma tendência inata que impulsiona o ser humano na busca do próprio desenvolvimento. Por diferentes formas e vértices, Winnicott falou desse potencial criativo. 40 Anotações de aula ministrada por Loparic no Programa de Estudos em Pós Graduação em Psicologia Clínica na PUC-SP/1995. 99 No artigo, A comunicação e A falta de comunicação levando ao estudo de certos opostos afirma que, desde o início, e, ao mesmo tempo, o bebê desenvolve dois tipos de relacionamento: "com a mãe-ambiente que é humana e com a mãe-objeto, que é uma coisa e é também parte da mãe-humana". (WINNICOTT, 1963a, p. 166) Assim, o potencial de força vital ou potencial criativo que, no início é uma coisa só, dá origem a dois estados, a duas modalidades de relação com a mãe suficientemente boa: a) por um lado, o relacionamento com a mãe-objeto no estado excitado, no qual predomina no bebê a agressividade instintual que é parte do amor instintivo ou da atividade ligada ao erotismo muscular já presente no feto. Essa está ligada ao gesto espontâneo cuja fonte é a liberdade da vida instintiva. “Se as experiências instintuais são sentidas como partes de si próprio, por causa do apoio egóico da mãe, o elemento agressivo (que nesta etapa é destrutivo por acaso) funde-se com as experiências de força vital e contribui para a sua intensidade”. (DAVIS, 1982, p. 83). No início, a motilidade contribui para exercitar a separação entre o bebê e a mãe. Posteriormente, dá origem à relação com o elemento masculino puro, o fazer que permitirá a criação da externalidade e o caminhar em direção à consecução de um senso de permanência do objeto do mundo compartilhado, quando ocorrer a separação entre eu e não-eu, através do pensar e brincar criativo. Tema de fundamental importância para quem trabalha com as questões do desenvolvimento e da aprendizagem humana, ancorada na noção de criação de símbolos. 100 E importante diferenciar esta primeira modalidade de agressividade usada para a separação e colocação do objeto subjetivo fora da área de controle onipotente e que permite a destruição criativa do objeto subjetivo na fantasia, de uma outra relacionada à frustração e ligada à raiva. Para Winnicott, esse sentimento é muito mais sofisticado e só surge, posteriormente, quando já existe separação entre eu e não-eu. Na saúde, o motor da agressividade não é só frustração, mas especialmente a busca ativa do objeto, pois quando a mãe não vem imediatamente, o bebê tem como enfrentar a sua ausência real e concreta fazendo uso de algo que pode ser uma sensação, um gesto, um objeto que presentifica o movimento do campo que ele introjetou a partir da experiência com a mãe. Se ela volta dentro do seu tempo de tolerância o sentimento de continuidade do ser fortalece-se. b) Paralelamente, o bebê se relaciona com a mãe-ambiente no estado de quietude, no qual predomina o amor não instintual e onde ocorrem as experiências de comunicação na mutualidade.Essas geralmente são tranqüilas, ligadas a batimentos cardíacos, respiração, fortalecendo a identificação da mãe com o bebê, permitindo que o bebê tenha a experiência da continuidade do ser. Essa é a área do sagrado, de toda a experiência satisfatória do ser humano ligado à consciência de estar vivo que se desenvolve a partir do processo de apercepção criativa, que significa um colorido pessoal de apreender o significado do mundo e organiza até mesmo a capacidade de perceber aquilo que será, posteriormente, a externalidade do mundo, quando ocorrer o início da separação entre o eu e o não eu. O potencial alucinatório vai sendo enriquecido pelas experiências ocorridas no espaço de mutualidade sustentado pela mãe ainda num estado de indiferenciação e o self vai habitando o corpo, à medida que vai havendo a elaboração imaginativa das funções somáticas, ou dito de outra forma, à medida que o bebê vai desenvolvendo a fantasia, que permite a integração psique-soma 101 – personalização. Note-se que a fantasia vai sendo criada pelo bebê, não para suportar as frustrações da realidade externa, posto que ainda não foi estabelecida uma diferenciação entre eu e não-eu. A fantasia precede a percepção da realidade e faz parte do potencial criativo, que vai sendo enriquecido pelas experiências da magia, ou seja, do viver criativo. Na saúde, existe eventualmente um estado no qual as fronteiras do corpo são também as fronteiras da psique. O círculo que uma criança de três anos desenha e chama de pato é tanto a pessoa do pato como o seu corpo. Isso é algo que vem a ser alcançado juntamente com a capacidade de usar o pronome na primeira pessoa do singular. (WINNICOTT, 1990, p.144) A criação da externalidade do objeto depende da constituição de um vínculo de confiança que acontece quando o início da vida foi suficientemente bom. O bebê confia que a realidade poderá trazer a satisfação de suas necessidades e se a mãe não some do seu campo perceptivo sustenta o campo de experiências. Assim, ele vai criando a externalidade do objeto e o princípio da realidade não será uma afronta. A ansiedade do bebê ligada à preocupação pelos efeitos de seus gestos nos momentos em que sente receio de consumir a mãe dos estados excitados diminui, se ela continua presente, viva, aceitando a contribuição que ele oferece para a mãe-ambiente. Algo de fundamental importância é a existência da terceira área da existência humana, a área dos objetos e fenômenos transicionais em que se desenvolve o brincar e os fenômenos culturais (WINNICOTT, 1971b, p. 150). Essa é a área que a mãe devotada comum, ao mesmo tempo, habita e transita, quando está bem e tem a retaguarda ambiental daqueles que ama. Assim ela pode estar no movimento que caracteriza o jogo tridimensional e dar sustentação para a constituição, integração e desenvolvimento harmônico da dimensão ética, 102 estética, afetiva e cognitiva presente no potencial do seu bebê, se tudo continua a correr bem. Note-se que ela está num movimento, num jogo organizado pela capacidade genuína de se relacionar com o bebê podendo, ao mesmo tempo, discriminar-se e reconhecê-lo como alguém do mundo objetivamente percebido. É o encontro de um "(...) lugar de repouso (...) na perpétua tarefa humana de manter as realidades interna e externa separadas, ainda que interrelacionadas" (WINNICOTT, 1975, p. 15) que permite a entrada no que estou chamando de movimento no jogo tridimensional. Aí, um objeto transicional pode ser adotado. Trata-se de uma matriz do símbolo da união e da separação, isto é, da capacidade de o ser humano transitar e criar a presença de um outro significativo na sua ausência e de poder estar consigo mesmo, portanto, de ausentar-se na sua presença. (WINNICOTT, 1958, 1963-a e 1963-b) Na transição para o estágio de dependência relativa, ou passagem da continuidade para a contigüidade, a capacidade de espera e de manter a imagem da mãe recebe a ajuda do intelecto, lugar das representações que se desenvolve voltado para os objetos externos por meio da percepção. Não se pode esquecer ainda que o intelecto começa a organizar a experiência desde o início e dessa forma surge o pensamento. Com a transição da dependência absoluta para a relativa, o intelecto em evolução do bebê torna possível uma crescente consciência do cuidado materno e da necessidade desse cuidado. Assim, na época da separação, é o pensamento aliado ao brincar criativo que ajuda a compensar os fracassos de adaptação da mãe convertendo um ambiente suficientemente bom num ambiente perfeito. (DAVIS, 1982, p. 70) Note-se que o desenvolvimento cognitivo que enriquece o self é aquele que permite estabelecer uma ponte entre a realidade pessoal e a externa, servindo, portanto, às necessidades do self. O pensar que se desenvolve a partir 103 da integração psique-soma, morada do ser, serve à sobrevivência da experiência da onipotência e é um ingrediente da integração. Note-se, também, aqui, o papel determinante do ambiente externo não apenas para a atualização da capacidade de criar (encontro com o objeto subjetivo), mas também para o desenvolvimento da capacidade de relacionar-se com e usar o objeto. Um outro ponto de fundamental importância nessa contribuição é que não apenas o objeto subjetivo é criado. Também a externalidade do mundo de realidade compartilhada é fruto do movimento paradoxal dessa relação inicial do bebê com a mãe. É assim que entendo a afirmação de Winnicott (1945) de que "qualquer falha de objetividade relaciona-se ao estágio de dependência absoluta". (p. 280) O espaço potencial, o brincar e o pensar criativo Quando o bebê coloca o dedo na boca da mãe aos 3 meses, ele está comunicando e vivenciando a mutualidade. O bebê está brincando e o jogo pertence ao lugar de transição onde "a continuidade está cedendo lugar à contiguidade". Winnicott ressalta a importância da retro-reflexão ou do olhar mútuo entre mãe e bebê nessas experiências. Penso que aqui reside o ponto fundamental, pois, "pode-se pensar na separação como sendo a causa da primeira idéia da união; antes disso há união, mas não há idéia da união e aqui os termos bom e mau carecem de função". (MILNER, 1991, p. 116) Assim, o espaço potencial é preenchido pelo brincar criativo que surge naturalmente do estado relaxado através do uso dos objetos transicionais. O primeiro objeto possuído e adotado pelo bebê, a primeira posse não-eu, vem nas esteiras das formas primitivas de se relacionar e brincar. Ele antecede o teste da realidade e retém qualidades mágicas, possuindo também, permanência e vida próprias vinculadas a seu valor de sobrevivência. O bebê tem agora o 104 controle pela manipulação, através do brincar. Veja-se que o sentido de realidade do objeto e de poder ser usado, relaciona-se à sua capacidade de sobreviver à destruição. Interessante acompanhar como Winnicott entende a constituição e, especialmente, a integração das dimensões do self. Para ele, à medida que o self se constrói e o indivíduo se torna capaz de incorporar e reter lembranças do cuidado ambiental e, portanto, cuidar de si mesmo, a integração se transforma num estado cada vez mais confiável. Dessa forma, a dependência diminui gradualmente. Ele afirma: "em minha descrição dos primeiros momentos de integração a partir dos estados de não integração, as palavras eram extraídas da aritmética. Tratava-se de saber se os núcleos do ego individual iriam ou não somar-se para fazer uma unidade, que representa o próprio self". (WINNICOTT, 1990, p. 138) Winnicott fala de algumas possibilidades de integração relacionando-as com os tipos de personalidades. Quando a integração é proporcionada pelo bom cuidado ambiental, a personalidade poderá revelar-se bem-estruturada. Quando o acento recai sobre a integração por meio de impulsos e experiências instintivas e de uma raiva associada ao desejo, a personalidade será interessante; quando não há o bastante de nenhuma das duas, a integração jamais se estabelece, por inteiro ou se estabelece de uma forma fortemente defendida, impedindo que ocorra o relaxamento ou a não integração repousante. Há, ainda, um terceiro modo: quando a integração aparece cedo e o acento recai sobre uma excessiva reação à intrusão de fatores externos. Isso é conseqüência da falha do cuidado da criança..Aqui a integração é adquirida “mediante um alto preço, visto que a intrusão passa a ser esperada, tornando-se até necessária, e é possível encontrar nessa estrutura o fundamento muito precoce para uma disposição paranóide (não herdada)". (WINNICOTT, 1990, p. 140). Sobre as conseqüências do próprio ato da integração, ele afirma que ela traz consigo a expectativa de um ataque, que será tanto mais forte, quanto mais tarde for adquirida. 105 O abandono precoce e a atrofia do processo criativo Entretanto, quando a mãe não consegue adaptar-se ativamente às necessidades da criança, desrespeitando o ritmo do bebê e impondo o seu gesto, há um processo de atrofia da criatividade e a perda do uso da capacidade imaginativa. O desenvolvimento do pensar, conhecer e aprender pode ocorrer, então, de forma não-integrada e não se constituir em uma dimensão do self, implicando vivências disruptivas. (WINNICOTT, 1949, 1960, 1963a,1963b, 1963c, 1965a, 1971a, 1971b,1988) No artigo, Uma nova luz sobre o pensar infantil, afirma que quando a mãe fracassa rápido demais, o bebê pode sobreviver por meio da mente (...) Se o bebê possuir um bom aparelho mental, esse pensar transforma-se num substituto para o cuidado e adaptação maternos (WINNICOTT, 1965 a, p.122). Assim, um relacionamento caótico pode provocar não apenas um tumulto intelectual, mas também uma deficiência mental. Quando ocorre o fracasso do contato inicial, o bebê se desenvolve sem a experiência de ser, ou então, a experimenta de forma deficiente. Interessante assinalar que: "o sentido do ser tem precedência à descoberta do self que também se relaciona à consciência do corpo. (...) Para Winnicott o sentido do self provém apenas de uma atividade desconexa e sem forma, ou rudimentos do brincar (de um estado de não-integração), e mesmo assim, só se houver uma retro-reflexão." (MILNER, 1991, p. 248). Quando ocorre o fracasso do contato inicial e o bebê se desenvolve sem a experiência de ser, não se pode falar em frustração, castração ou destrutividade. Só se pode falar em mutilação. Mutilar significa perder um processo e conseqüentemente a função a ele associada. Ocorre também, o split nas relações objetais. 106 "Com uma metade o self se adapta à forma com que o objeto se apresenta (falso-self). Com a outra metade do split, o self se relaciona com o objeto subjetivo, ou com fenômenos baseados dificilmente em experiências influenciados corporais, pelo mundo sendo estes objetivamente percebido. Exemplo: o balançar do autista, o funcionamento esquizóide." (WINNICOTT, 1990, p. 167) Se o ambiente não é confiável, nem fidedigno, o bebê tem que cuidar de si mesmo através do desenvolvimento exacerbado de alguma função mental, numa linha de organização do falso-self. Estudar o atendimento das primeiras necessidades do bebê equivale a estudar a etiologia do falso-self, já que "(...) o verdadeiro self aparece assim que ocorre qualquer organização mental e o sentimento de ser real é fortalecido a cada período em que não se interrompe a continuidade do ser". (WINNICOTT, 1960, p.136). Já o falso-self é reativo, carece de originalidade criativa e é formado a partir das vivências de rupturas do ser, a partir do desenvolvimento exacerbado de alguma dimensão da personalidade em detrimento de outras que podem nem mesmo chegar a constituir-se. Winnicott (1945, 1949, 1960, 1965 a, 1968) salienta que quando a falha ocorre no estágio de dependência absoluta, como no caso da inibição intelectual, há desespero em relação à integração. Nesse caso, a defesa intelectual não se constitui. Nessa situação, há um "elemento desintegrador na dinâmica familiar", sendo necessária, também, uma intervenção junto aos pais (WINNICOTT, 1959; p. 192). Compreendendo Eric a partir de Winnicott Algumas hipóteses são possíveis: Será que Eric pôde contar com a adaptação ativa e sensível da mãe em estado de devoção? Será que houve o estabelecimento do contato nos primeiros encontros com o objeto subjetivo, a partir do gesto espontâneo e potencialmente criativo? Será que houve o encontro 107 com a mãe-ambiente dos estados de quietude, que possibilita a experiência de continuidade do ser, experiências de troca e comunicação na mutualidade e, assim, a criação e desenvolvimento do espaço potencial? Eric não constituiu o sentimento de continuidade do ser, já que as vivências de ruptura parecem ter ocorrido muito precocemente na sua vida. Ele vivia na área dos fenômenos subjetivos, mantendo-se num estado de retraimento e isolamento Havia um colapso da inteligência devido a não-possibilidade de constituição do self e ele padecia de ansiedades em relação à integração. A integração alcançada a partir de um padrão de reação às intrusões parece ter ocorrido por meio do desenvolvimento exacerbado da dimensão da imaginação. Esta parecia ter vida própria alienando-o de um contato com o externo. A sua aprendizagem era feita numa linha adaptativa, de submissão ao externo; o que aprendia não tinha significado. Brincava, mas de forma defensiva, tentando sobreviver e defender-se frente ao mundo sentido como invasor. Ele não sentia o cheiro, o gosto do mundo. A boca podia ser usada para comer e sobreviver, mas não para se comunicar e estabelecer relações de contato e troca significativas que permitiriam criar o self e a externalidade do mundo. Sem o contato com um outro que apresente o mundo dando a ilusão da onipotência de contato não há apetite, nem mundo apetecível. Sem a ilusão de ser o criador do mundo, não há experiência de mutualidade, nem comunicação significativa. Para Winnicott (1963-c) esta é a base do comer e do aprender: "(...) a base de toda aprendizagem (assim como do comer) é o vazio. Mas se o vazio não é experienciado como tal, desde o começo, ele aparece então como um estado que embora temido, é compulsivamente buscado" (WINNICOTT, 1963c, p. 76). Nesse mesmo artigo, assinala que o paciente teme o horror do vazio e poderá, então, organizar um vazio controlado. Como defesa, poderá não comer 108 ou não aprender ou, então, "impiedosamente o encherá por uma voracidade que é compulsiva e parece louca". (Idem, p. 75) A questão com Eric era: como atender a sua necessidade de usufruir experiências que permitissem descongelar aspectos do verdadeiro self que não tinham se constituído devido à ausência da presença real de um outro ser humano? Suas questões fundamentais eram, por um lado, desenvolver um escudo que permitisse defender-se da invasão do ambiente, já que alcançava uma integração por um padrão de reações às intrusões. Por outro, precisava ter acesso ao que se passava com ele e desenvolver a capacidade de comunicar–se num mundo de realidade compartilhada, isto é, precisava simbolizar e encontrar canais de expressão. Dispositivos clínicos usados no diagnóstico Quando conheci Eric, observei a mesma situação de exclusão já observada com Carol e sua família, bem como de outras crianças com inibição. Eric correspondia à descrição que seus pais faziam dele: estava mal vestido e bastante desleixado. Destoava de seus pais. Seu olhar transparente parecia atravessar-me. Reconheci nele o sinal de Caim – revelador da situação de isolamento psíquico em que vivia. O atendimento de Eric confirmou o que vinha constatando sobre a importância de deixar-me afetar pela atmosfera do ambiente e usar a ressonância que a apresentação da criança na composição de sua família provocava em mim para fazer o diagnóstico. No primeiro contato, ainda na sala de espera observei o “destoar” e a exclusão de Eric e, no consultório, o que me impressionou, além de sua atitude e postura corporal, foi a sua busca e relação de fascínio ao encontrar o Homem-Aranha. 109 Quando a tampa da caixa de brinquedos caiu, vi refletido nos seus olhos o susto e o pavor exagerado, característicos de vivências de rupturas do ser que alteravam até mesmo a sua percepção. Por meio de uma troca de olhares e gestos, a intervenção silenciosa aconteceu. Quando foi possível uma intervenção, comentei que o nosso susto talvez tivesse acontecido porque estávamos em outra dimensão, o que operou e teve efeito, pois ele aproximouse, abrindo assim, a possibilidade da comunicação significativa. Eric pôde contar de suas vivências em diferentes dimensões e visualizamos a possibilidade de novos encontros no mundo da lua. Compartilhar uma vivência dessa natureza com Eric, criou a experiência do encontro. O menino parecia ainda nem ter constituído ou ter perdido aberturas significativas com o mundo por meio de seus receptores de contato e à distância. Cada vez mais relacionava esse fato a falhas no atendimento à primeira necessidade do ser humano: a da comunicação significativa que decorre de sentir-se incluído, isto é, ter sido um no outro, para depois poder ser um com o outro. Por não ter desfrutado da presença real de um outro disponível para olhálo e reconhecê-lo na sua singularidade, o mundo não era apetecível, e sim, estranho e invasor. Eric podia usar seus receptores de contato, bem como os receptores à distância para sobreviver, mas não para criar o mundo real a partir de experiências compartilhadas. Ele apresentava um nível de organização de self muito incipiente e vivia em estado de alerta, ligado aos possíveis ataques do mundo externo sentido como disruptivo e ameaçador. Algumas Considerações Tenho observado, na experiência clínica, a potencialidade transformadora do fenômeno estético, especialmente, com crianças com inibição intelectual. Na minha prática, essa dimensão relaciona-se com a capacidade do analista de se deixar afetar pela ressonância que o modo de ser e estar da criança provoca nele. Está relacionada com a reação psicossomática que testemunho no paciente e acompanho por um processo de identificação. 110 Uma questão, então, se coloca: como o analista acompanha o seu paciente na vivência estética? Se ambos sofrem os efeitos e são co-autores na criação desse fenômeno, como o analista acompanha a criança sem sair do seu papel? Para acompanhar essas crianças nos momentos em que o fenômeno estético se dá, tenho feito uso do movimento ambíguo e paradoxal que caracteriza o campo dos fenômenos transicionais (WINNICOTT, 1971a, 1971b, 1975). Penso que é o empréstimo que o analista faz da transicionalidade de seu campo psíquico que dá sustentação ao campo de experiências compartilhadas, como veremos, especialmente na apresentação do atendimento de Eric. 111 Estação 6. Testemunhando o caminhar de Eric Há um brincar E há outro a saber Um vê-me a brincar E outro vê-me a ver41 Nesta estação, busco dar visibilidade aos dispositivos clínicos que permitiram acompanhar os movimentos e a comunicação, especialmente, a nãoverbal de Eric. Isso favoreceu a criação de condições para a entrada do garoto no movimento que caracteriza o jogo tridimensional e permitiu a abertura do campo do brincar, conhecer e aprender criativos. O reencontro Os pais de Eric o trouxeram novamente, aproximadamente um ano depois da etapa do diagnóstico, dizendo que ele, agora, com quase 8 anos, estava na 1ª série e vinha tendo um atendimento fonoaudiológico há seis meses, por solicitação da orientadora da escola, que havia solicitado, também, um acompanhamento psicoterapêutico ou psicopedagógico. Segundo a mãe, ela teria dito que ele estava um pouco mais participante, apesar da dificuldade de atenção, concentração e lentidão. Havia um outro dado, acrescentado a esses pela própria orientadora: Eric vinha buscando contato com outras crianças sendo rejeitado por elas, que diziam que ele cheirava a alho. Demonstrava, também, "exagerada sensibilidade" a qualquer comentário, inclusive dos professores, parecendo sentilos como crítica. A hipótese levantada é que talvez os aspectos da rejeição e a extrema sensibilidade do menino tenham determinado o retorno dos pais, naquele momento, para o atendimento psicoterapêutico. 41 PESSOA, Fernando. Brincava a criança. In Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. p. 510. 112 Primeiro Momento: Saindo do estado de alerta Na primeira sessão, Eric se animou ao encontrar o Homem-Aranha, como se não tivesse se passado quase um ano. O curioso é que começou a usar barbante e a construir várias teias, fazendo pontes, por exemplo, entre uma cadeira e a maçaneta da porta. Nelas, o Homem-Aranha se segurava, salvando-se e também a outros personagens ameaçados pelo mal. Aos poucos, outros superheróis chegavam, entre eles a Mulher-Maravilha. Eles eram seus aliados na luta contra o Mal, representado pelo Curinga e seus comparsas. Na terceira ou quarta sessão, o garoto movimentava-se de forma mais livre, parecendo cada vez mais à vontade. Às vezes, trazia de sua casa um crocodilo ou algum outro animal ou super-herói. O curioso é que eles faziam alianças com o Mal, isto é, com a turma do Curinga. Muitas sessões se passaram em que a luta era permanente: o Homem-Aranha nunca morria, mas o Mal também nunca acabava e parecia sempre se fortalecer. Um dado curioso é que era como se a analista fosse transparente ou não existisse no consultório. O que chama a atenção é como ele logo encontra o familiar – o HomemAranha no ambiente que nem parece mais tão estranho como da primeira vez, apesar de ter se passado tanto tempo. Às vezes, eu me indagava quanto tempo duraria esse período e esse padrão de sessões, mas não tinha dúvida sobre a importância de sustentar o lugar de testemunha, exercendo a função de holding até que se abrisse o movimento no jogo tridimensional para que Eric pudesse alcançar um mínimo de integração. Ele vivia sob a ameaça constante de ser invadido, que o levava a estar num estado de retraimento e alerta. Compreendi que Eric necessitava estabelecer uma relação com a analista que fosse tão real como era, para ele, a sua relação com o Homem-Aranha. Era preciso alimentar a onipotência da ilusão de que éramos um só, evitando vivências de desintegração, (achar um lugar, um ponto em comum de união com ele que permitisse instaurar um espaço de encontro na área dos fenômenos subjetivos.) 113 A questão era: como me tornar para ele tão familiar quanto o HomemAranha? Como fazer parte do seu mundo e não ser uma estranha invasora? Se ele pudesse incluir-me no seu mundo e apresentá-lo a mim, para que eu pudesse conhecê-lo, talvez depois ele quisesse conhecer o mundo em que eu habitava. Assim, o que me parecia fundamental era dar sustentação a esse processo ao longo do tempo e manter a atitude de espera receptiva, tomando a forma da necessidade de Eric. Quanto mais Eric saía do estado de isolamento, mais me chamava para participar das brincadeiras. Começou a me mandar personificar a voz e/ou fazer o papel da Mulher-Maravilha. Ele determinava como seria a minha participação no papel, não tendo a mínima paciência para ensinar-me como fazê-lo. Aliás, parecia esperar que eu adivinhasse o que estava em sua cabeça, como se eu fosse, de fato, uma continuação dele. Em determinado momento de uma sessão, eu não entendi o que a MulherMaravilha – papel desempenhado por mim, naquele momento – deveria fazer. Não sei se ele não ouviu ou ignorou a minha pergunta, de forma, que tentei fazer o que era possível para complementar o gesto que ele – Homem-Aranha – fazia. Ele, então, me olhou e disse bravo e com ar de desprezo: "Hei, não é para fazer assim. Você é burra?" E me ensinou, então, o que eu deveria fazer com tom autoritário e exigente. Impressionante como ele pôde usar sua boca, sua voz e articular as palavras de modo tão claro naquele momento. Cada vez mais compreendia que a minha participação, como se fosse uma extensão dele, além de não ameaçá-lo, alimentava a ilusão de contato não só com os objetos, mas especialmente com ele mesmo, trazendo o senso de continuidade do ser, de integração. Assim, ele podia ser e mostrar-se, apresentar seu modo de ser e suas questões – no caso, a da burrice, reconhecendo-a na analista, portanto, fora dele. 114 Aqui é importante trazer a noção desenvolvida por Winnicott de falha da analista, já que, ao colocar-se fora da área de onipotência de Eric, ocorre a reedição da deficiência do ambiente em atender à primeira necessidade do menino – a de estar em comunicação significativa que, no início, é silenciosa – de estar em comunhão consigo mesmo e com o mundo. Ao colocar-se fora da área de onipotência e não sustentar a continuidade do ambiente, a analista apresenta-se como alguém que tem uma existência própria, o que rompe o espaço potencial que dava sustentação do campo. Eric é levado a enxergar o mundo, não a partir da realidade subjetiva – organizada pela ilusão, dimensão da apercepção, a que, até então, sustentava a experiência da onipotência e sim, a da realidade objetiva e não compartilhada. Note-se que a passagem da comunicação silenciosa para a significativa ocorre graças aos fracassos reparados que permitem a simbolização e desenvolvimento de dimensões do self. Estes podem, então, ser experienciados na relação com a analista, encontrando, assim, o caminho da transicionalidade. Muitas sessões se passaram em que tanto o Homem-Aranha como seus comparsas saíam machucados. Algumas vezes, iam para o hospital, saindo de lá enrolados na fita adesiva – usada como esparadrapo. Noutras, eram lançados num precipício por um alienígena que não gostava do cheiro de alho que exalavam. Noutras, ainda, tinham que participar de lutas sangrentas com monstros no coliseu de Roma. Nessa fase, geralmente na hora de ir embora, depois de guardar o Homem-Aranha, seus comparsas e inimigos na sua caixa, ele dizia: "Tchau, Caixa-Maravilha!" Após várias sessões com esse padrão de acontecimentos ele comunicou – espontaneamente – que haveria uma festa dos super-heróis para comemorar a vitória do Homem-Aranha sobre o Mal e que a Mulher-Maravilha o acompanharia à festa para encontrar os outros super-heróis, também aliados do Homem-Aranha. Foi contando isso enquanto pintava o cabelo da Mulher-Maravilha com tinta 115 amarela, imprimindo assim a sua marca pessoal em algo da cultura externo a ele: um não-eu. Veja-se que por meio do brincar, ele vai apresentando suas questões: a eterna luta entre o Bem e o Mal e o tema da rejeição pelo cheiro de alho, até poder chegar a comemorar a vitória do Bem, que talvez se relacione ao fato de estar acompanhado da Mulher-Maravilha que tem os cabelos marcados com seu gesto. É importante colocar-se agora na posição de observador da cena para acompanhar o movimento de Eric. Alimentar a sua onipotência permitiu que ele alcançasse uma mínima integração a partir de um movimento que partiu de sua criação e não de um padrão de reações às intrusões do ambiente. Do ponto de vista do menino, o estatuto da analista seria de um objeto subjetivo. O fato de Eric sentir que ela estava sob o seu controle onipotente operava e tinha efeito, pois o deixava livre da ameaça de ser invadido. Do lado da analista, justamente por ter clareza de que não estava sob o controle onipotente do garoto, podia jogar como se estivesse. Para ela, Eric era um objeto do mundo compartilhado com uma singularidade própria. Ao mesmo tempo, podia identificar-se e discriminar-se dele, entrando no jogo e transitando entre diferentes pólos e lugares da relação, a partir do movimento que caracteriza o jogo tridimensional. Segundo Momento – O Sono e o estado de relaxamento Outra seqüência de sessões seguiu-se à festa de comemoração da vitória do Bem sobre o Mal e trouxe vários dados significativos. Na primeira, Eric começou a tirar o tênis, quando chegava. Na hora de ir embora, pedia e gostava que eu o ajudasse a colocá-lo. Duas sessões mais adiante, ele chegou parecendo muito cansado e desvitalizado. Deitou-se no sofá e dormiu. Isso aconteceu em outras sessões, como veremos adiante. O dormir na sessão parecia associado ao cansaço e, também, à vivência de algum momento significativo. Vale dizer que o cansaço do menino justificava-se, pois parecia um pequeno executivo entre aulas de Inglês, alemão, natação etc. 116 Se cada encontro ocorre a partir do gesto pessoal e a analista é uma extensão dele mesmo, uma relação de confiança vai se instaurando, um estado de relaxamento pode ser alcançado, ele pode estar próximo fisicamente e até dormir. Um ponto de descanso permite o estado de não-integração. Se não há a presença demandante de um outro é possível dormir sem susto. Note-se que o dormir significa poder estar ausente em presença de outro. Para isso, o outro não pode ter uma presença excessiva como parece ter sido a da mãe e nem tênue como parece ter sido a do pai, que até mesmo permitiu que o filho aprendesse a falar alemão, antes do português; língua, aliás, que o pai não dominava e que era falada dentro de casa. Um momento significativo ocorreu na sessão seguinte àquela em que ele dormiu. Eric começou a contar de uma viagem que havia feito nas férias anteriores. À medida que falava, pegou uma folha e caneta e foi desenhando a Caverna dos Morcegos em que havia o Deus da Morte. Enquanto mostrava a entrada da caverna, contou ter sentido tanto medo que até precisou "segurar o pinto para o xixi não escapar" (sic). No momento em que falou sobre isso foi ao banheiro. É possível o enfrentamento do mal, a expressão e comunicação do sentimento. O medo só pode ser humanizado, portanto, simbolizado na experiência e na relação com um outro que acolhe. Note-se que há uma triangulação, um trânsito entre a ressonância daquela situação (o medo que sentiu na caverna) e a da situação vivida no aqui e agora que lhe dá tranqüilidade e segurança. A presença da analista que testemunha e sustenta um campo na distância necessitada (na medida certa e no tempo justo) permite que Eric transite não apenas entre os dois momentos vividos por ele, mas também entre o espaço dentro e fora do consultório. Note-se que até mesmo o trânsito no espaço físico decorre da possibilidade do trânsito no espaço psíquico. Assim, Eric vai aumentando a distância entre o que acontece aqui e agora na relação comigo e o que tinha acontecido com ele em outro tempo e lugar. E o que é fundamental: ele 117 pode sair da sala e ir ao banheiro. Começa a desfrutar da liberdade da vida instintiva. Note-se que, nesse processo ele se torna narrador, isto é, ele se transforma em testemunha do que viveu porque a analista sustenta o conteúdo e a veracidade da sua narrativa, o que dá legitimidade à história. Tornar-se narrador é ganhar distância em relação ao vivido, é poder ocupar o lugar de terceiro, daquele que testemunha. Aos poucos, Eric vai podendo criar distância em relação aos sentimentos, o que permite reconhecer, apropriar-se e descobrir formas de lidar com eles. Pode representar seu medo por meio de desenhos e falar sobre seus fantasmas. Isso constitui o próprio processo de simbolização. A partir daí, seu corpo foi se apresentando cada vez mais. Ele passou a apresentar certo maneirismo observado também na escola e em casa: ele suspendia a calça e apertava muito o cinto. Quando falava dos medos e situações de excitação corporal, geralmente ia ao banheiro, o que, aliás, é bastante comum em crianças que estão começando a habitar o próprio corpo, a construir um dentro e um fora corporal delimitado pela pele. Outras vezes, durante alguma dramatização ele me olhava, parecendo assustado e dizia: "é faz de conta, viu; não é de verdade!". O brincar assusta devido à "inter-relação entre o que é subjetivo e o que é objetivamente percebido" (WINNICOTT, 1975, p. 71). Isso porque até mesmo as fronteiras entre a realidade pessoal, subjetiva (que abarca o eu e o não-eu) e o mundo de realidade externa ou objetivamente percebido vão sendo criadas por meio do brincar em estado de relaxamento quando o ambiente dá sustentação ao processo. Enquanto brincava, Eric ia dominando idéias, controlando impulsos, entrando em contato com sentimentos e experienciando as fantasias que o mantinham, até então, em estado de alerta. O potencial alucinatório vai sendo enriquecido pelas experiências ocorridas no espaço de mutualidade enriquecida, 118 agora, por tantas informações de que dispunha. Assim, Eric vai habitando o próprio corpo (personalização) por meio da elaboração imaginativa das funções somáticas. É tempo de começar o processo de desilusão. Eric já tem um lugar de descanso (integração), habita o próprio corpo, portanto, tem um dentro e um fora. Pode passar do estágio de dependência absoluta para o de dependência relativa, com a ajuda do intelecto em evolução. O espaço potencial-herdeiro da ilusão que começa a existir na época da separação permite caminhar em direção à criação da externalidade do mundo, estabelecer ainda mais os limites entre realidade subjetiva e externa com o uso da agressividade e, assim, caminhar em direção ao reconhecimento da qualidade de permanência dos objetos, (base da aceitação da lei própria que rege o funcionamento do universo objetivamente percebido). Terceiro Momento – Descobrindo que o Mundo pode ser apetecível Algumas sessões mais adiante, Eric novamente chegou bastante desvitalizado e dormiu. Na sessão que se seguiu, outro movimento e tema surgiram: ele não abriu a sua caixa e caminhou em direção ao armário onde havia jogos. Parou e ficou certo tempo quieto, ora olhava para mim, ora para o armário. No caso de Eric, talvez a sua questão fosse: podia ou não abrir o armário? Será que haveria algo de interessante lá? Não me parecia que sua hesitação fosse pelo medo de alterar a estabilidade do ambiente, isto é, por medo da reação da analista. Considero que aqui a Função da Ignorância começou a operar, se a entendemos como a possibilidade de se fazer perguntas e estudar o ambiente. Eric parecia, ao mesmo tempo, curioso e cauteloso. Na trilha de Winnicott, segui evitando qualquer interferência. Para Eric tornar-se protagonista de sua história, é preciso que ele continue a dirigir a experiência. Com a abertura do campo transicional, a indagação é: quanto Eric quer e pode assimilar daquilo que está buscando? 119 Após algum tempo, lentamente abriu o armário e pegou um jogo – "Caça às bruxas". Após chamar-me para sentar perto dele, espalhou as peças na mesa e começou a criar um cenário por meio da narrativa. Disse que estávamos num mundo onde as bruxas dominavam e como havia muitos perigos: cobras, escorpiões, nós deveríamos ficar juntos, o tempo todo. Mostrou, então, o espaço na própria cartela do jogo onde deveríamos permanecer. Só assim poderíamos vencer as bruxas. Éramos um só, ameaçados pelo mal, que estava fora e era representado pelos objetos. Cada vez mais eu fazia parte do seu mundo pessoal, "diferente do início em que eu era parte do mundo repudiado e ele estava só". A nossa tarefa era encontrar a chave da esperança que nos daria a salvação. Após a encontrarmos, éramos perseguidos pela bruxa, esperta e malvada que novamente a roubava de nós. Após novas lutas, conseguíamos reavê-la novamente, através da astúcia e, assim, vencíamos as bruxas que iam para a cadeia. Já somos mais humanos estamos num mundo mais terreno. Apesar de tantas desgraças, Eric pôde conceber uma outra modalidade de relação com a realidade externa, pois há esperança e salvação. Assim, é possível usar a inteligência e a astúcia para proteger-se até mesmo criando novas armas, para além da espada e do escudo, no caso, a chave da esperança e, assim, protegerse das bruxas. Seguiu-se um período em que Eric continuou a usar outros jogos de forma semelhante à usada com o jogo "Caça às bruxas". Ele agora tinha vitalidade, chegava parecendo muito alegre. Algumas sessões ocorridas mais adiante, entusiasmado com uma situação que criou, jogou um monte de coisas para cima, misturou tudo, gritou e subiu no sofá. De repente, parou quando algo que havia jogado veio na minha direção. Olhou-me parecendo assustado, mas não como da primeira vez quando a tampa da caixa de brinquedos caiu. 120 Note-se que na primeira sessão o susto foi provocado por algo do ambiente externo, enquanto nesta, o susto vem, não com a mesma intensidade, de algo que brota de dentro dele, isto é, do seu próprio gesto. Como os gestos do menino foram desde muito cedo mal interpretados, parecia existir na cabeça de Eric uma equivalência entre fazer, usar os objetos, isto é, entre exercer uma ação sobre eles e destruí-los. Aqui ele vai entrando no estágio da preocupação pelos efeitos dos seus gestos no mundo. Se os impulsos agressivos que permitem a inscrição do gesto não se integram com os amorosos devido à ausência do olhar do outro, a criança não pode criar uma imagem e ver a si mesma na relação com a realidade externa. Ou se uma intenção destrutiva é atribuída ao seu gesto, pode ocorrer uma inibição da ação no mundo e da agressividade, o que impede o desenvolvimento do processo de criação do self e da externalidade do mundo. Isso equivale a uma mutilacão, pois leva, também, à inibição do desenvolvimento do potencial conquistado até então. Quanto mais cedo isso acontecer, maior o dano. Não se pode ser, nem fazer. O poder do olhar do outro é enorme. Basta lembrar o poder de congelamento por meio do olhar representado pela figura da medusa. Com Eric, a questão era: Como manter a continuidade do ambiente e o campo de experiências compartilhadas evitando a re-atualização de situações de desintegração? Para criar condições para Eric criar e estabelecer fronteiras entre sua subjetividade nascente e a realidade externa, era preciso dar sustentação à continuidade do espaço potencial. Aguardei um pouco e, enquanto nos olhávamos, lentamente peguei uma almofada, dizendo que agora eu tinha um escudo e podia me defender e lutar a seu lado se fosse preciso. Isso pareceu acalmá-lo, pois voltou a brincar. No final da sessão, ele quis ajudar a arrumar a sala. Diante da sua preocupação pelo estado dos objetos, assinalei que tínhamos feito uma bagunça e não um estrago. (Seu gesto foi aceito). 121 Note-se que a função de manejo, aliada à de testemunha, ajuda a manter a estabilidade do ambiente e permite a entrada no estágio de preocupação pelo dano feito ao objeto. Ser testemunha permite legitimar o processo perceptivo da criança, enquanto exercer a função de manejo possibilita manter a continuidade do ambiente e do campo de experiências evitando a ruptura do espaço potencial. Concordo com Winnicott: a realidade põe freios à fantasia. Aqui novamente apresenta-se a questão de estabelecer as fronteiras entre o eu e o não-eu, colocada num outro patamar, pois se trata, agora de uma criação de si mesmo no mundo dos objetos compartilhados (e não-subjetivos) que operam uma outra transição diferente da anterior. Agora a questão não é mais como lidar com o outro que não é eu. Aqui a tarefa é: Como lidar com o outro que tem uma existência própria e diferente da imaginada? Dito de outra forma, é chegado o tempo de caminhar em direção à criação da externalidade do mundo, quando o ser humano se torna desejante e tem que dar conta dos efeitos dos próprios gestos sobre a realidade externa. Trata-se, agora, de um trabalho voltado para a criação das características da realidade objetiva dos objetos e do olhar que Eric tem para si mesmo. Poderíamos nos perguntar: Por que ele tem que viver para salvar o mundo? Concordo com Winnicott, quando afirma que se a invasão é precoce, além de não poder criar as fronteiras entre o eu e o não-eu e repudiar o fracasso do ambiente, o indivíduo ainda se sente responsável pelo que acontece. Eric tinha sido desautorizado também no seu processo perceptivo que permitiria a criação das representações de si, do mundo e de si na relação com o mundo. O reconhecimento que a analista faz de que os objetos estão inteiros, e não quebrados, o tira do lugar daquele que tem que viver para consertar, o que permite o diálogo entre a imaginação e a realidade compartilhada. Após verificarmos que não havia danos irreparáveis, guardamos tudo. No caso de uma criança invadida, quando o mundo se torna apetecível, abrem-se o interesse e a curiosidade para conhecer como o outro funciona por 122 meio dos objetos que estão no campo de relação com ele. Percebe-se que aqui, sim, estamos no campo do conhecimento, da aprendizagem informal e do surgimento de uma outra dimensão: a desejante. Usando, agora, Paín, reconheço que quando se abre o campo em que se podem fazer indagações sobre a realidade externa, começa a operar a Função da Ignorância.Note-se que quando Eric jogou coisas na minha direção, isso foi transformado num jogo. O importante é que ele pôde usufruir uma experiência com início, meio e fim em função da continuidade do ambiente. Interessante o tema das sessões que se seguiram a essa. Estávamos no mundo do inferno e éramos ladrões de bancos disfarçados de ajudantes e policiais. Dávamos pistas falsas do esconderijo dos bandidos a alguns policiais verdadeiros, que acabavam engolfados pela areia movediça enquanto outros caíam num rio e eram comidos pelas piranhas. Observe-se que o desenvolvimento de capacidade simbólica e de movimento psíquico permitem que Eric ganhe distância e possa divertir-se, brincando até mesmo de experimentar estar do lado do Mal sem se confundir com ele. Aqui ele está no movimento do jogo tridimensional, o Bem permanece ao longo do tempo, como pano de fundo, mesmo ele brincando (ampliando as fronteiras) de estar do lado do Mal. O tempo e o espaço se constituem como formas de sensibilidade a partir da experiência na relação com o outro. Na sessão seguinte, ele me chamou para brincar: tínhamos que desligar uma bomba que podia destruir o mundo todo. Era chegado o tempo de poder acompanhá-lo no trânsito entre os absolutos positivo e negativo, tudo ou nada. Logo em seguida, vieram as férias. 123 Quarto Momento: Regressão e Retraimento Na primeira sessão após as férias, ele estava novamente arredio, desconfiado e brincando em estado de isolamento. Diferentemente da situação em que há a regressão, no retraimento não há o reconhecimento e a aceitação da dependência e a presença do outro geralmente é sentida como disruptiva. Mantive a atitude de espera receptiva, aguardando que Eric novamente conquistasse a confiança no ambiente e nos seus processos internos e ativos. Um aspecto observado ao longo do processo de Eric reflete o que geralmente ocorre no trabalho clínico feito a partir da perspectiva de Winnicott: aspectos do verdadeiro self vão se expressando, são perdidos e novamente resgatados até serem simbolizados. Concordo com Safra ao afirmar que o self não se constitui de uma vez e nem de forma linear. Trata-se de um movimento contínuo de transformação e vir a ser. Enquanto ele brincava em estado de isolamento, eu me indagava: qual seria o cenário desta vez? Nas sessões que se seguiram, Eric começou a trancar a porta e fechar janelas e cortinas. Mais uma vez era necessário esperar para que uma compreensão se fizesse a partir da experiência. Mais uma vez, o Homem-Aranha retorna para travar uma luta entre o Bem e o Mal. Desta vez, o Mal estava mais forte do que antes. Um pesquisador havia soltado o morcego da morte e o Homem-Aranha logo foi parar no hospital. As sessões se alternavam: ora ele brincava só, ora eu participava, mas como sua extensão, isto é, na área dos fenômenos subjetivos. Até que ele isolou o Deus das Trevas. Pudemos, então, conversar. Ele contou que, nas férias, tinha estado no México e visitado um labirinto onde os astecas enterravam os mortos que viravam, então, espíritos do mal. Passou tão mal lá dentro que até ficou com enjôo, sendo ajudado por seu pai, que saiu com ele do labirinto. Pôde também falar de várias outras situações que sentiu como muito ruins na viagem. 124 Note-se como as áreas da existência – as da realidade subjetiva e as da realidade objetivamente percebida se misturam e como Eric desenvolveu a capacidade de identificar o que sentia: medo e enjôo (personalização) e, de alguma forma, expressá-lo podendo ser ajudado pelo pai. A experiência clinica tem mostrado que não há mudança psíquica que não venha acompanhada de mudanças corporais. Compreendi aquele seu movimento de fechar portas, janelas e cortinas como necessidade de delimitar um espaço de intimidade e desenvolver uma barreira de proteção às invasões ambientais. Neste lugar, seu mundo podia ser compartilhado com a analista, os objetos podiam ser transformados e usados a partir de um movimento pessoal. Nessa época, uma reunião foi feita com ele e seus pais, a pedido da mãe. Segundo ela, Eric lhe teria dito que talvez não conseguisse passar de ano, o que não tinha respaldo na realidade. Isso permitiu que se falasse sobre seus medos, sobre o incidente da viagem e sobre a confusão que ele, às vezes, fazia entre o que estava na sua cabeça e o que estava fora dela. O pai o entendia bem, enquanto a mãe não via com bons olhos o que ela achava ser exagerada sensibilidade e fragilidade. Na época, a escola estudava o encaminhamento de Eric para um acompanhamento escolar, mas como o pai fazia as lições com o filho, julgou melhor esperar mais um pouco. Era evidente a dificuldade, agora do pai, de incluir um outro na vida do menino. Outro movimento significativo ocorreu, algumas sessões adiante, sempre às portas trancadas. Até então, era Eric quem determinava o quê e como eu devia fazer este ou aquele personagem e, sempre, de maneira autoritária. Dessa vez, porém, ele me disse para fazer o personagem que ele determinava, mas do jeito que eu quisesse. 125 O cenário era o seguinte: estávamos na Grécia e éramos escravos da Rainha Atena. Não podíamos dormir, comer ou descansar. Ficávamos o tempo todo submetidos à sua cruel tirania. Ele sempre fazia o papel de um escravo totalmente submisso e obediente. Eu comecei, então, a representar um escravo rebelde que se defendia, sempre que possível, afirmando que até mesmo um escravo tinha seus direitos. Ele fez, então, o papel da rainha, defendendo sua posição tirânica, mas prestando muita atenção aos meus argumentos para contra argumentar. Percebe-se que aqui, sim, a função de apresentação de objeto pode ser exercida, pois ele me autoriza a poder sair da sua área de controle onipotente. Com a ampliação do campo transicional, amplia-se também o campo do conhecimento e ele começa a poder se alimentar (aprender) de outro que é “não-eu” e perceber que a analista existe com as suas próprias características. Na dramatização seguinte, Eric propôs que fôssemos escravos que construíam as pirâmides dos astecas. Foi ele que passou, então, a fazer o papel de escravo rebelde, desenvolvendo argumentos próprios em defesa da liberdade possível. Em determinado momento, cortou a brincadeira, pegou papel, caneta, lápis, tesoura e fita adesiva. Disse que essas eram as "nossas armas". Desenhou, então, dois tipos de pirâmides, explicando por que a dos astecas era diferente da dos egípcios. Quando falou sobre a dos astecas, desenhou labirintos, campos magnéticos, armadilhas, ciladas. O mesmo movimento apresentado pelo menino no contexto terapêutico de construir uma barreira de proteção frente às invasões do ambiente e começar a defender a liberdade possível começou a ocorrer também em outras situações. Os pais e a escola relataram episódios que mostravam que Eric expressava e comunicava melhor suas necessidades, possibilidades e limites, o que permitia que a realidade externa fosse se adaptando ao seu ritmo e necessidades. 126 Um exemplo disso foi como a escola deu retaguarda ao processo de Eric. Como ele era um garoto bastante diferente, que chamava a atenção, alguns cuidados foram dispensados. Por exemplo, não seria feita nenhuma intervenção para socializá-lo e ele poderia estar sempre no mesmo grupo do colega com quem parecia sentir-se mais seguro. À medida que foi ficando mais confiante, começou a levar coisas que lhe eram significativas. Por exemplo, um dia foi vestido de vaqueiro, noutro, levou coisas da cultura alemã e se pôs a contar sobre isso. A escola extremamente habilidosa sempre dava um jeito de incluir suas propostas, ainda que estranhas, dentro de alguma atividade, dando-lhe um espaço para falar sobre elas, o que o fazia sentir-se bastante importante. Numa das vezes foi vestido de tirolês e a escola usou esse episodio para iniciar um trabalho em que cada aluno falaria sobre a cultura de seus ascendentes, num determinado dia da semana. Quinto Momento: O encontro nos estados excitados A partir da sessão seguinte, Eric já chegava num estado de excitação. Assim que me via, já ia subindo as escadas. Como ele costumava chegar muito antes do seu horário, geralmente, reclamava do que definia como "meus atrasos". Assim que entrava na sala, desenvolvia uma espécie de ritual: trancava a porta, fechava janelas e cortinas. Enquanto batia na mesa, dizia para eu pegar nossas armas: papel, caneta, lápis, tesoura e fita adesiva. Depois graduava o abajur chamando-o de "a luz de nosso sol" e aí uma cena podia acontecer. A graduação do abajur marcava diferentes períodos. À noite, ele desligava o abajur e dormíamos. Interessante o que dizia: "Agora é hora do lugar escurinho e gostoso. É hora de descanso". Em qual mundo estamos? Aqui os limites corporais se expandem até as paredes. Há todo um movimento de transfiguração, em que os objetos do mundo compartilhado são e não são eles mesmos, porque são transformados a partir da forma singular imprimida pelo olhar e gesto de Eric. Estamos num mundo em que o movimento é da ordem do paradoxo e da ambigüidade. 127 Quando uma cena ficava muito dramática e amedrontadora, ele dizia: "Corta!!" Éramos, então, diretores de um filme, estávamos em Hollywood, a cena podia, ao mesmo tempo, continuar se passando na África, no Egito, aqui ou em Hollywood mesmo. Outra seqüência de sessões mostra como para Eric o bom rapidamente podia se transformar em algo ruim. Numa determinada sessão, ele era médico e eu enfermeira. Após salvarmos 200 pessoas machucadas durante uma tragédia, íamos para a sala de descanso. Mas não podíamos tomar café ou relaxar, porque o telefone tocava, anunciando mais desgraças e nos chamando para o trabalho que era ininterrupto. Eric perde novamente o ponto de descanso que permite o estado de relaxamento. Mostra o padrão de reações, desenvolvido para se defender das exigências ambientais. Era época de provas na escola e ele de fato estava sendo mais exigido. Aos poucos, comecei a representar uma enfermeira que se cansava e reclamava de tantas tragédias, através de verbalizações no próprio papel. Dizia, então: "A gente nem pode descansar. Só vêm desgraças. Nem café se pode tomar em paz. Só cuidar dos outros e trabalhar, trabalhar. Assim não dá para agüentar!". Ele me olhava, então, longa e fixamente, mudando um pouco o ritmo e oferecendo momentos de descanso. Atente-se novamente para a função de apresentação de objetos e a sua capacidade de colocar-se no lugar do outro e atender seu pedido. Mais adiante, o mesmo tema voltou com outro colorido. Agora a tragédia quase acontecia, porém podíamos obter êxito. Éramos cozinheiros. Ganhávamos, então, o concurso e éramos eleitos os melhores cozinheiros do mundo. Mas tínhamos que cozinhar para um general que visitava o Brasil. Se ele não gostasse 128 da nossa comida, seríamos guilhotinados. Não tinha jeito. Havia sempre uma nuvem negra, pois a desgraça sempre pairava no ar. Creio que ele mostrava como seu espaço psíquico tinha sido organizado em torno da exigência, da doença e de como se sentia machucado. As sessões começaram a ter outras variações. Eric, às vezes, pegava alguns jogos e usava-os de maneira singular. Inventava jogos e regras com leis próprias ditadas pela dimensão desejante, subjetiva, mas considerando também dados das leis próprias dos objetos externos. Por exemplo: 6 bichos concorriam para ser presidente e mandar nos outros. Após a nossa votação, o jacaré ganhava, mas não podia assumir porque não era um animal da África, país onde a eleição acontecia. Ganhava o elefante, segundo classificado, porque era da África. Depois, ganhava o tigre porque era da Ásia, etc. Aqui ele fazia uso de informações e conhecimentos objetivos sobre países e capitais associadas à origem dos animais, para fazer ganhar os animais de que mais gostava. Entretanto, desenvolvia argumentos e estabelecia relações a partir das leis do mundo da realidade objetiva compartilhada. Numa determinada sessão mais adiante, éramos cientistas investigadores no Mundo Perdido. Depois me contou que havia assistido ao filme: "O mundo perdido". Suas fantasias giravam em torno do filme, a partir de um colorido pessoal. Tínhamos armas antivelociraptor e antitiranossaurus, por isso podíamos descansar, tomar cafezinhos, enquanto discutíamos sobre nossas possibilidades de defesa num mundo tão perigoso. Ele apagava o abajur para simular que era noite e o acendia para anunciar o dia. Ele construiu com objetos de montar de plástico, uma forma de cruz e disse que era a imagem, o símbolo de Cristo que tinha poder e nos protegia, enquanto a empunhava. O pensamento desenvolve-se aliado ao brincar criativo e permite ir criando uma ponte entre o mundo pessoal e a realidade externa. A mente é produto da 129 integração psique-soma e ajuda a passar da relação de objetos para a de uso dos objetos. Disse, então, que não precisávamos mais nos preocupar porque o Deus da magia, da água, do fogo, do ar e da terra era nosso aliado. Em seguida, fez um desenho de dois dinossauros, um grande, outro pequeno, falando das diferenças entre eles. Depois, enquanto montava uma outra cena em Nova York, transformou a forma que havia construído e usado para representar o Deus da magia, dandolhe agora uma outra forma e função: era um arma antitiranossaurus. Pode-se destruir o objeto-símbolo que perde seu significado porque os fenômenos transicionais se esparramam pelo território intermediário entre a realidade psíquica interna e o mundo externo. O mesmo material permite a construção da cruz, como símbolo de proteção, descanso e contato com o Absoluto e da arma, símbolo da defesa que permite afastar o outro que ameaça. Sexto Momento: O Conhecimento e o desenvolvimento da lógica Na sessão antes das férias, Eric constituiu um tribunal para julgar um aluno que tinha tirado conceito B, em Português no 1º semestre e C, no 2º, algo que tinha acontecido com ele e sido considerado pelos pais como um retrocesso imperdoável. Ele representava o juiz e eu, as diferentes testemunhas: os pais e suas críticas, os colegas e sua compreensão, a professora e suas ponderações. Para responder às suas perguntas, fazia uso das informações dadas por ele na sessão anterior. Quando estava no papel da professora remeti-me às dificuldades anteriores dos pais em ajudar o aluno, colocando-o em escolas inadequadas e invadindo o seu ritmo. Em seguida, no papel de colega, falei de como ele estava mudado: estava mais comunicativo e companheiro. Após depoimentos de várias testemunhas, ele chegou a uma interessante decisão: o aluno foi absolvido e os pais considerados culpados. A mãe foi perdoada e o pai condenado a 100 anos de prisão, já que sem a presença de um 130 pai, disse ele, uma mãe não poderia sozinha, mesmo com a ajuda dos avós, dar conta da educação de um filho. Note-se que por meio do seu brincar, Eric expressa o desejo de saber mais sobre si mesmo e de como os outros o vêem por meio do espelho do olhar da analista. Pode, assim, reconhecer a si mesmo como um objeto objetivo bem como as características dos pais dentro de um mundo compartilhado. Fez sentido, para mim, afirmação de Milner (1991) de que "o objeto transicional é o símbolo de uma jornada. Parece mesmo ser uma jornada de ida e volta; ambas voltadas para a descoberta da realidade objetiva do objeto e para a descoberta da realidade objetiva do sujeito – o eu sou". (p. 248). Observe-se, também, que é como se Eric fosse recriando as concepções teóricas de tantos autores e, particularmente, de Winnicott, sobre a importância da presença de um casal e da presença do pai no sentido de manter a indestrutibilidade do ambiente. Esta seria condição para a mãe exercer as funções no atendimento das primeiras necessidades de seu filho. Cada vez mais, o garoto distancia-se de uma situação podendo apropriar-se da sua experiência por meio de um pensamento reflexivo. Na mesma sessão, ainda, desenhou dois ETs, um grande e outro pequeno assinalando não as semelhanças, mas as diferenças entre eles. Depois, passou a falar de experiências que havia feito no sítio com o pai. Contou que jogou sal numa lesma e ela derreteu. No final de semana que se seguiria, pretendia jogar açúcar, acrescentando que tinha certeza que ela iria endurecer. Não apenas respondeu às minhas indagações sobre suas certezas, mas refletiu sobre várias questões relacionadas ao tema, trazendo, inclusive, situações discutidas em sala de aula. No final, reconheceu que talvez os cientistas tivessem certeza do que poderia acontecer com a lesma, pois já deviam ter feito essa experiência, mas ele precisaria ainda testar sua hipótese, aliás, firmemente ancorada num raciocínio lógico do mundo objetivo: se o sal derretia a lesma e era o contrário do açúcar, 131 este também deveria causar o efeito oposto. Trouxe outras situações em que podia refletir sobre o efeito de dois elementos diferentes e complementares sobre um terceiro e mesmo elemento. Note-se que o prazer da aprendizagem podia circular. A base do desenvolvimento da atitude científica relaciona-se à possibilidade que vemos surgir em Eric de que a Função da ignorância comece a operar. Na época, ele estava na 3º série e pediu para iniciar o acompanhamento das tarefas escolares já proposto pela escola com o objetivo de ajudá-lo a organizar-se e ampliar sua capacidade de expressão oral e escrita. O reconhecimento e a aceitação de suas próprias características pessoais coincidia com o aumento da sua capacidade de reconhecer a existência e a qualidade de permanência dos objetos externos. Veja-se, também, que o estabelecimento da tridimensionalidade, o início das questões triangulares edípicas coincidiu com o desenvolvimento do pensamento criativo e com a capacidade de observação da experiência num mundo de realidade compartilhada. Podia usar o pai no que ele tinha de melhor e fazer experiências cientificas com ele. Winnicott (1956) aponta que a possibilidade de que a criança possa usufruir e experimentar a vida instintiva e pulsional num ambiente seguro e indestrutível, faz parte da função paterna. Aponta, também, que o pai representa o primeiro terceiro que entra na vida do filho, sendo um ser absolutamente diferente e com autonomia, o que vai permitir que a criança se perceba como um ser integrado e também autônomo, acentuando, ainda mais o distanciamento da mãe. (WINNICOTT, 1969) Dispositivos usados no atendimento de Eric A atitude de espera receptiva basicamente ancorada na função de testemunha, que permitiu o encontro e a criação do vínculo de confiança no momento do diagnóstico, continuou a dar sustentação ao campo de experiências. O Homem-Aranha, objeto-símbolo com que Eric se relacionava na área dos fenômenos subjetivos, apresentava a ausência da presença de um outro, ou 132 melhor, a história de uma relação não-humana. O campo de comunicação significativa abriu-se por meio desse objeto que ao ser humanizado, permitiu o caminhar do menino em direção ao jogo tridimensional. Assim Eric foi podendo usufruir experiências necessárias para estabelecer um outro tipo de relação com o mundo de realidade externa. Observe-se, também, a importância da noção de fracassos reparados. Foi quando a analista saiu fora da área de onipotência de Eric que ele pôde repudiála, usando a boca para restabelecer a comunicação significativa. No terceiro momento, quando Eric dirigiu-se ao armário, surgiu a hesitação relacionada à curiosidade em saber se o mundo podia ser apetecível, ou seja, se podia existir alguma coisa boa para ser experimentada, conhecida. Quando Eric abriu o armário e pegou o jogo "Caça às bruxas" continuou a trabalhar as suas questões fundamentais: Como se defender diante de um mundo estranho e ameaçador? O jogo foi usado na área dos fenômenos subjetivos continuando a expressar aquilo que era objeto de seu interesse: a eterna luta entre o Bem e o Mal, ajudado agora pela sua astúcia (sic) podendo, assim, proteger-se e caçar as bruxas. NO artigo A observação de bebês numa situação estabelecida (WINNICOTT, 1941) são descritos os três momentos em que um bebê entre cinco a treze meses pode se relacionar com um objeto – a espátula – e usá-lo. Num primeiro momento, o bebê é atraído pela espátula e começa a salivar (experiência psicossomática, visceral). Ele tem uma questão: pode ou não pegar a espátula? Encontra-se em conflito. Num segundo, toma posse e usa a espátula na área do faz de conta: brinca de alimentar a mãe como se a espátula fosse uma colher. E, num terceiro momento, o bebê passa a jogar a espátula no chão e desfruta do ato de se livrar dela. Se a espátula lhe é devolvida, ele novamente a joga no chão até se desinteressar por ela. Pode, então, voltar-se para outros objetos. Trata-se de uma experiência com início, meio e fim que enriquece o self, pois decorre de uma 133 escolha e de um gesto espontâneo e é acompanhada do sentimento de autoria e realização pessoal. Na minha experiência tenho feito uso desse modelo que opera como um dispositivo e permite investigar em que área da existência o paciente transita e habita: a dos fenômenos subjetivos, a dos fenômenos culturais (transicionais) ou a da realidade objetivamente percebida. No caso de Eric, à medida que se abriu o campo de relações entre ele e o mundo de realidade compartilhada, o manejo e a noção de apresentação de objetos tornaram-se importantes, permitindo também incluir e ajudar a organizar a retaguarda do ambiente familiar e escolar. O mesmo movimento apresentado pelo menino no contexto terapêutico de construir uma barreira de proteção frente às invasões do ambiente e começar a defender a liberdade possível começou a ocorrer também em outras situações. Tanto os pais quanto a escola relataram episódios em que ele comunicava suas necessidades, possibilidades e limites, o que permitiu que a realidade externa fosse se adaptando ao seu ritmo e necessidades. Winnicott (1975) afirma: É no brincar, e talvez apenas no brincar que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação (...). Se o terapeuta não pode brincar, então ele não se adequa ao trabalho. Se é o paciente que não pode, então algo precisa ser feito para ajudá-lo a se tornar capaz de brincar, após o que a psicoterapia pode começar. (p. 79-0) Algumas Considerações Reconhecer a importância de investigar a constituição e o desenvolvimento do campo onde a comunicação significativa acontece levou-me a considerá-la 134 como a primeira necessidade psíquica do ser humano e a incluir, cada vez mais e de diferentes formas, os pais nos processos terapêuticos dos filhos. Na minha experiência com Eric reconheci a importância de aprender a respeitar o tempo, o que significou fazer uso da própria noção de Função da Ignorância como ethos, como lugar que permitiu acolher e suportar o meu próprio não saber. Vale lembrar que as necessidades do paciente e da família variam muito de caso para caso e em diferentes momentos do processo. No primeiro ano de atendimento de Eric, houve vários encontros com os pais, deles juntamente com Eric e, também, com algum dos pais separadamente. Acompanhar e conversar com os pais sem criticá-los, permitiu abrir um campo de comunicação significativa. Dar retaguarda aos pais é torná-los um multiplicador para que eles possam fazer o mesmo com seus filhos. Assim como muitos outros pais, os de Eric puderam falar dos sentimentos que acompanharam a chegada e o começo de vida do garoto, os quais variavam entre culpa, vergonha, medo, susto por ter uma criança tão diferente e distante da esperada. Tenho ressaltado42 a importância da função de re-apresentação da criança aos seus pais, como sendo de fundamental importância no atendimento de crianças com inibição. A capacidade de trânsito no movimento que caracteriza o jogo tridimensional permitiu que a analista pudesse identificar-se com Eric e seus pais e, ao mesmo tempo, diferenciar-se deles exercendo as funções necessitadas e facilitando, assim, a comunicação significativa entre eles. A finalização do atendimento: transformação do self e da realidade compartilhada Na terceira série a escola encaminhou Eric para um trabalho psicopedagógico. Acompanhei o menino até a 7º série quando ele resolveu “dar 42 PARENTE, 2000, 2003. 135 um tempo” e interromper o seu processo terapêutico, porque se sentia preparado para andar sozinho. Continuei a ter notícias dele por intermédio de seus pais e de sua psicopedagoga. Depois de três anos, cursando já o primeiro ano do ensino médio, a mãe de Eric telefonou-me pois ele havia pedido para conversar comigo. Deparei com um rapagão. Contou que tinha superado o Homem-Aranha, pois havia se tornado um herói. Explicou-se: havia dentro dele, agora, um Eric mais forte que administrava todos os outros lados que habitavam dentro dele, inclusive, o que poderia ficar sob o domínio do Mal porque queria o poder. "O poder é corruptor, como o anel", disse-me ele, referindo-se ao livro O Senhor dos Anéis, que vinha lendo apaixonadamente. "Quanto maior o poder, maior a responsabilidade. O herói é quem usa o poder com responsabilidade, ao contrário do vilão". Ele poderia se tornar um ou outro. Contou ter conquistado, também, o poder das palavras, o controle e domínio de si mesmo, inclusive do seu lado animal que sob o domínio do Mal, isto é, quando descontrolado e dominado pela raiva poderia até matar alguém, contando alguns episódios desta natureza. Após várias reflexões sobre o desejo do ser humano de ser bom e de que só existisse o Bem, reconheceu a necessidade de controlar e alcançar o equilíbrio entre eles, já que o Bem não existiria sem o Mal, assim como a luz não existiria sem a sombra. Disse-me de seu apreço pela questão do livre arbítrio, do seu desapego pelas coisas materiais, de suas conversas com o professor de filosofia, assim como das leituras que costumava fazer, inclusive da Bíblia. Falou de sua fé e como vinha aprendendo que o homem tem tempo para tudo: dormir, acordar, passear e, até, para viver bem e, também, para morrer. Aos poucos, fui compreendendo o motivo de sua volta naquele momento, quando comentou que queria estudar numa outra cidade e sabia do embate que teria que travar com seus pais. Era claro para ele que seus horizontes pessoais, profissionais e econômicos eram organizados em torno de valores diferentes. Mas como tinha controle sobre suas emoções e tinha adquirido a coragem porque conhecia os 136 seus medos, achava que teria condições de adaptar-se e transformar as situações. Contou que a característica que mais admirava nos seres humanos que se transformavam em heróis, porque cumpriam sua missão na vida, era a criação e a habilidade de tirar o véu da cegueira. Falou sobre as defesas que vinha desenvolvendo para poder ser ele mesmo e sobre o combate de vontades que travava com os pais e com os avós maternos para ser respeitado. Aprendeu o poder da esquiva: faz de conta que concorda que vai fazer o que os pais querem que ele faça, finge ser seu aliado até que eles possam entender e aceitar o que ele quer. Tem uma vida boa, mas preza o desapego porque quanto mais a pessoa precisa de coisas materiais para ser feliz, mais insatisfeita é. Pensa que, se encontrar uma mulher que o ame e tiver um filho, vai ensinar-lhe que o bem maior do ser humano é o livre arbítrio. Contou que, uma vez, a mãe se arrependeu de ter ameaçado tirar seu computador e outros bens materiais para castigá-lo, ao ver sua tranqüilidade e perceber que isso não o abalava. Aliás, na conversa que tive com os pais constatei a sua gratidão pelo trabalho realizado com o filho e o quanto tinham aprendido a admirar o seu jeito diferente, mas interessante de ser. Vemos ai, belamente ilustrada, a introjeção da função transicional do campo intersubjetivo desenvolvido no espaço analítico espalhando-se por diferentes áreas do cotidiano de Eric. Não só o menino transformou-se a partir do diálogo e troca com a realidade, mas provocou a transformação da realidade compartilhada (ambiente familiar, escolar e analítico). 137 Estação 7. Transformações do Olhar “Se não houvesse o ponto, o ponto em repouso não haveria nenhuma dança. E só há dança”. T.S. Elliot Nesta estação, retomo o problema apresentado na Baldeação e que é a mola propulsora deste trabalho: como conceitos provenientes de duas teorias consideradas epistemologicamente distintas puderam ser articulados na prática clínica? Qual a herança de Paín e Winnicott no desenvolvimento do meu pensamento e no trabalho clínico que desenvolvo atualmente com crianças com inibição? Pretendo dar visibilidade ao ethos que organiza a concepção de Paín sobre as relações entre o ser humano e o mundo de realidade externa e sobre o papel da aprendizagem e do conhecimento, buscando marcar diferenças entre a sua contribuição e as transformações que fiz em alguns dos seus conceitos, especialmente no de Função da Ignorância, a partir do atendimento de Carol, já sob a influência do de Winnicott. Buscando apresentar não só uma concepção de conjunto do meu percurso, mas também uma compreensão sobre ele, é preciso, agora, examinar como essas teorias permitiram a construção de dispositivos clínicos43. Considerando que Paín opera a partir de um modelo intra-psíquico e Winnicott de um campo intersubjetivo, é preciso examinar como um e outro concebem a participação do ambiente e do fator maturacional no desenvolvimento do ser humano. E, também, como esses autores concebem as relações entre a criança e a realidade externa. Procurarei salientar, aqui, muito mais as diferenças entre eles, já que o 43 Uso o termo dispositivo, neste contexto, para referir-me às funções exercidas pela analista buscando oferecer condições de a criança usufruir situações que permitam o desenvolvimento do seu potencial ativo e criativo. 138 aprofundamento e as aproximações entre eles foram realizados em trabalhos anteriores44. Sobre os Fundamentos de Paín e Winnicott - Marcando diferenças Concordo que “(...) em nenhum campo cultural é possível ser original, exceto numa base de tradição“ (WINNICOTT, 1967b, p.138). Assim, é preciso considerar o percurso, o contexto histórico e o cenário cultural em que cada um desses autores desenvolveu o seu pensamento para explicitar como pude articulálos e usá-los na experiência clínica. Paín, filósofa e psicopedagoga argentina, mora em Paris desde 1977. Profunda conhecedora da Epistemologia Genética de Piaget interessou-se inicialmente pelo desenvolvimento das estruturas de pensamento voltadas para a construção do conhecimento. Faço, a seguir, um resumo do que escrevi em Pelos Caminhos da Ignorância e do Conhecimento, para marcar algumas diferenças entre o seu pensamento e o uso que fiz dele. Para tornar mais preciso, é preciso dizer que após realizar um levantamento dos livros de Paín, recortando os temasobjeto de suas pesquisas, classifiquei-os em três eixos dominantes, encontrando, assim, o que é, para mim, a linha de continuidade do seu pensamento: a questão do par conhecimento-ignorância. No primeiro eixo, temos a Paín piagetiana, com quatro livros publicados e voltados para a construção do conhecimento. No segundo, temos a Paín psicopedagoga e filósofa, diretamente interessada no par conhecimentoignorância, com dois livros publicados. E, no terceiro, temos a Paínpsicopedagoga – arte terapeuta, investigando a ressonância da ignorância no corpo e interessada nas relações entre a cognição e a atividade artística, com um livro publicado. Isso sem contar com os inúmeros artigos e seminários publicados em cada um desses eixos. 44 Parente, 1995, 1996, 2000 e 2003. 139 Em Pelos Caminhos da Ignorância e do Conhecimento, focalizei o segundo eixo do pensamento de Pain, movida por dois objetivos. Por um lado, pretendia introduzir o leitor-estudante no pensamento da filósofa e psicopedagoga francoargentina, buscando a linha de continuidade entre seus dois livros publicados nesse período: Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem e A Função da Ignorância. Buscava, também, apresentar o meu pensamento desenvolvido a partir do dela, explicitando a forma como pude apreendê-lo e usálo para estabelecer um diálogo entre o atendimento de Carol– o Bebê Moranguinho, que tinha um quadro de inibição cognitiva e de Olga, a menina que não podia ser fração, cujo diagnóstico era problema de aprendizagem como sintoma. Neste trabalho continuo a focalizar o segundo eixo do pensamento de Paín, época em que ela estava reescrevendo a Função da Ignorância45 e passou a ser minha orientadora-supervisora, o que reforçou ainda mais o meu distanciamento do pensamento de Luzuriaga. Como vimos na Estação 2, na viagem de ida, Paín não concordava com a concepção presente na tradição kleiniana sobre o predomínio da pulsão de morte no funcionamento mental, nem com a noção de sadismo primário, já que, para ela, o bebê é um pesquisador. Gostaria de reafirmar que me refiro a um tipo de “kleinismo” que dominou alguns lugares da Argentina e de São Paulo, especialmente, nas décadas de 1970 e 1980, muito diferente das contribuições atuais ligadas à tradição kleiniana. À medida que Paín atende crianças com potencial intelectual preservado, porém, sem a disponibilidade para usá-lo, vai reconhecendo a participação da dimensão dramática, subjetivante no pensamento do sujeito que aprende e voltando-se para a busca de um referencial na Psicanálise que permitisse compreender a articulação entre o potencial intelectual afetado e a dramática inconsciente na qual a criança estava enredada. 45 Em Pelos Caminhos da Ignorância e do Conhecimento, cap. 3, aprofundo o contexto histórico e o cenário cultural em que Paín desenvolveu seu pensamento. 140 Em seu primeiro livro desse período, defende a especificidade do campo psicopedagógico, operacionaliza um modelo de diagnóstico e tratamento e introduz a teoria psicanalítica na análise do problema de aprendizagem considerado por ela como um sintoma. Apresenta uma teoria da técnica que abarca o enquadre, o diagnóstico, a orientação terapêutica, o tratamento, objetivos, técnicas e a direção da intervenção na clínica. Na mesma esteira de Freud, Paín desenvolve seus pressupostos a partir da noção de desejo, falta e frustração, buscando construir um modelo de funcionamento do aparelho mental ancorado na dimensão pulsional, incluindo, também, o funcionamento da dimensão cognitiva. Na mesma tradição de Freud, reconhece que: "foi preciso escolher entre a pulsão e a civilização, e a civilização venceu. Através da educação a civilização pretende manter a pulsão em seus trilhos, e aproveitar sua energia em obras culturais". (PAÍN, 1985, p. 18) Salienta o aspecto de reprodução da aprendizagem que torna o outro semelhante. Aprendemos para fazer parte da cultura a que pertencemos. É assim que ocorre a transformação do filhote biológico em ser de cultura. Por isso, a aprendizagem está muito mais ligada ao instinto de reprodução – porque produz um outro semelhante – do que à função de adaptação. Diferentemente dos animais – que trazem inscritos na sua bagagem genética aquilo que precisam para sobreviver – o ser humano não nasce com conteúdos inscritos geneticamente. Para ele, tudo deverá ser aprendido na relação com um outro que transmite os modos de ser e os valores do grupo social e da cultura a que pertence. A curiosidade intelectual não decorre da curiosidade sexual relacionada à cena primária: "Não é que haja um prazer de aprender porque o aprender esteja significando a sexualidade propriamente dita e, sim, porque há um prazer próprio da função, assim como há o prazer de respirar" (PAÍN, 1999)46. Entretanto, essa 46 Uma conversa com Sara Paín. Boletim Associação Brasileira de Psicopedagogia, São Paulo, julho 99, número 17. 141 função pode ser perdida ou pervertida no triângulo edípico, mantendo assim o sujeito num lugar por onde o prazer da aprendizagem não pode circular e, desta forma, resistente a entrar no princípio da realidade. Reconhece a importância de proceder a uma investigação para verificar qual estrutura possibilita a disfunção da inteligência e como ela ocorre. O seu modelo de diagnóstico envolve o uso de testes e técnicas específicos da formação e do campo de atuação do psicólogo, no Brasil. Propõe, também, uma classificação, desenvolvida à luz das contribuições de Freud (1925) em Inibição, Sintoma e Angústia, que permite fazer o diagnóstico diferencial do problema de aprendizagem. Enquanto o termo inibição relaciona-se ao aspecto de diminuição da função cognitiva, o termo sintoma refere-se à transformação desta função. Em A Função da Ignorância assinalará que nos momentos em que a estrutura objetivante cai nas garras da subjetivante, o objeto de conhecimento é convertido em objeto de pulsão e o sujeito fica aprisionado na rede do desejo47. Assinala que o trabalho psicopedagogico é operativo, situacional, devendo constituir-se numa realização para o sujeito. Assim, o tratamento é desenvolvido em torno de uma proposta, exclusivamente a partir do que ocorre na sessão. Ao salientar a importância dos enquadramentos reais, assinala:“O aspecto fundamental não recai sobre a relação transferencial que o psicopedagogo deve sempre levar em consideração, ainda que não a explicite, a não ser que perturbe a tarefa e que esteja tão evidente que precise apenas de uma confirmação verbal para ser assumida”. (PAÍN, 1985, p. 78). O objetivo do tratamento, como já foi dito, seria o resgate do prazer da aprendizagem, devido à mudança da criança para uma posição na qual o prazer da aprendizagem possa circular. Note-se que, de alguma forma, o aspecto de urgência é contemplado, sem deixar de lado o respeito aos processos de 47 Ver cap. 7 A menina que não podia ser fração - O problema de aprendizagem como sintoma. In Pelos caminhos da Ignorância e do Conhecimento. 142 subjetivação da criança. E tudo para que ela descubra o prazer e a autonomia do exercício da função do conhecimento. A ignorância, órgão fundamental do inconsciente e a dimensão subjetivante do pensamento da criança são o foco para Paín, enquanto possibilidade de “levar“ o sujeito para o conhecimento. Na esteira de Freud, reconhece que a fantasia permite lidar com a frustração e que resignação e integração são duas caras do mesmo processo de realização. O sujeito pode resignar-se quando compreende e sistematiza, “mas necessita certa resignação, certa conformidade com a realidade para despedir-se dos prazeres da fantasia” (PAÍN,1985, p. 81). A partir dessas noções, recomenda, durante o tratamento, uma atitude mais ativa e diretiva por parte do terapeuta, o que, como vimos durante o atendimento de Carol, levou-me a contrapor essa atitude com outra, inspirada em Winnicott, já que a menina parecia necessitar de alguém que a acompanhasse exercendo a função de testemunha. A partir daí, foi se operando o meu distanciamento da atitude clínica preconizada por Paín e uma apropriação singular dos seus conceitos48, especialmente o de Função da Ignorância, à medida que me aproximava da contribuição de Winnicott, o que levou a muitas outras transformações, como veremos, ao longo desta Estação. Em A Função da Ignorância (1987, 1989, 1999), Paín afasta-se da clínica e elabora uma teoria unitária do pensamento concreto, ou seja, uma teoria das relações entre a dimensão do pensamento do sujeito capaz de objetividade e a dimensão do pensamento do sujeito capaz de significar a ignorância. É preciso salientar que diferentemente do que alguns acreditam, Paín (1987) não pretende conciliar, juntar ou mesclar Freud e Piaget e, sim, articulá-los, na construção de uma teoria que dê conta do campo dos problemas de aprendizagem. De certo modo, sigo na sua esteira e apresento, aqui, o mesmo 48 Ver especialmente Cap. 3, 4 e 5. In Pelos caminhos da Ignorância e do Conhecimento. 143 que fiz em relação ao uso de sua contribuição e da de Winnicott com uma preocupação essencialmente voltada para a clínica da inibição intelectual, tema que não foi diretamente o foco da preocupação de nenhum deles. É preciso salientar, também, que temos em Paín uma teoria do pensamento e da aprendizagem. Para ela, o pensamento é o equivalente funcional do instinto no ser humano e a aprendizagem, lugar de articulação entre a estrutura subjetivante e a objetivante. Trata-se de um livro eminentemente teórico, reaproximando a autora da Filosofia. É ela quem afirma na contracapa da edição francesa da Função da Ignorância (1989/99): "(...)foi no contato com os problemas concretos da prática pedagógica e da clínica dos problemas de aprendizagem que a questão fundamental da epistemologia - como o conhecimento é possível?apresentou-se na forma de sua inversão dialética: Como é possível a ignorância?” Mais adiante veremos que essa preocupação direciona-se, também, para o aprofundamento nas relações entre o corpo e o pensamento, pois a ignorância se dá no corpo. Este será o tema do que chamei de terceiro eixo do seu percurso. Para explicitar a concepção de Paín sobre as relações entre o ser humano e o mundo de realidade objetiva, retomemos Freud, já que o pensamento de Paín desenvolve-se na mesma perspectiva. Para ele, a primeira situação de atendimento a uma necessidade – amamentação – levaria ao surgimento do desejo, definido como a busca alucinatória da repetição dessa primeira situação de satisfação. Assim, o desejo seria investido no objeto. Esse é o paradigma do funcionamento de toda a vida pulsional do ser humano para Freud e, também, para Paín. Concordo com Safra49 quando assinala que, para Freud, o psiquismo se organiza a partir do desejo investido no objeto. Assim, a ênfase é colocada na relação do sujeito com a realidade e do manejo que ele faz dela em termos de 49 Faço, aqui, um uso livre das anotações feitas durante supervisões e cursos de Gilberto Safra no Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínica – PUC/SP, 2002 -2003. 144 satisfação ou frustração do desejo. Ao assinalar o aspecto da realidade, enfatizase também – o que não é pouco – uma concepção na qual o indivíduo necessita se adaptar à realidade, apesar da frustração, já que disso depende a sua sobrevivência. Nessa perspectiva, a busca do conhecimento da realidade seria resultado da frustração. Trata-se, assim, de uma relação à qual o ser humano tem que se submeter para poder sobreviver. Essa concepção presente em Paín é muito diferente da de Winnicott que, como vimos nas Estações 3 e 4, favoreceu compreender e acompanhar os movimentos e a comunicação não-verbal de Carol. Se Paín, como Freud, desenvolve seus pressupostos a partir da noção de desejo e falta, buscando construir um modelo de funcionamento do aparelho mental abarcando, também, a dimensão cognitiva, a preocupação de Winnicott é outra, já que ele opera um deslocamento da ênfase colocada na noção de objeto e de representação para a de campo, paradoxo e ilusão. A partir do encontro com Winnicott uma nova indagação se impôs: seria o ser humano para sempre alienado no desejo do outro ou isso aconteceria devido a uma falha do ambiente no atendimento do que estou chamando, inspirada em Winnicott (1958, 1963-a, 1975) de primeira necessidade pois a integração depende dela: a de ser visto e reconhecido o que permitiria a criação da comunicação significativa que se dá por meio da troca de olhares ou experiências na mutualidade. No atendimento de Carol vimos que o distanciamento de Paín se deu em relação a função de testemunha. Quando ela refere-se ao olhar, está considerando a questão da legitimidade do bebê no desejo dos pais, segundo uma concepção de um sujeito para sempre alienado no desejo do outro. Assim, o ato projetivo é inerente a todo e qualquer ato de construção do mundo, incluindo-se aqui também a construção do conhecimento. Isso significa que ela funda as bases do seu conceito de Função da Ignorância no mecanismo da projeção. 145 Já para Winnicott, os mecanismos de projeção não podem ser considerados antes de existir uma separação entre o eu e o não-eu. Mesmo quando essa separação começa a ocorrer, a primeira idéia é a da união e não a da separação. Assim, a meu ver a ignorância seria condição para a ilusão. A primeira ignorância seria a da consciência do estado de desamparo e impotência com que se nasce. E isso devido à disponibilidade genuína da mãe desenvolvida durante a gestação que permite estar no movimento que caracteriza o jogo tridimensional e ver o bebê como ele é, isto é, como um objeto externo, reconhecendo, assim, seu estilo e singularidade e, ao mesmo tempo, podendo identificar-se com ele, alimentando a sua onipotência. Para Paín, a aprendizagem supõe um ato de renúncia e é possível devido à capacidade de resignação e ressignificação. Teríamos aí a noção da modificação do princípio do prazer em princípio da realidade. Ela usa a experiência clínica para construir uma técnica e uma teoria e opera no modo de pensamento racionalista, característico do iluminismo. Trata-se de uma concepção de homem e de mundo que envolve noções de aparelho e funcionamento mental. Já Winnicott opera no modo de pensamento que admite a noção de paradoxo e ambigüidade. Corta com a tradição do pensamento cartesiano que supõe a separação entre a subjetividade e a objetividade. Não acredita na neutralidade do observador, garantida pelo setting e pela abstinência do analista, mito da ciência natural, no final do século XIX e começo do XX. Ele passeia pelas teorias, usando-as como quem rabisca, tendo a experiência clínica e a dimensão ética e estética, sempre no horizonte, privilegiando a experiência, a relação com o outro. Trata-se de uma teoria da forma e não do conteúdo, o que traz à baila os temas do manejo do tempo e da ampliação do espaço (MILNER, 1991; DAVIS, 1982). Sua concepção de setting permite modificações, quando necessárias, em relação à freqüência ou ao tempo da sessão. 146 Quando Winnicott fala do olhar da mãe é no sentido de uma metáfora. Evidentemente ele não nega que a mãe tenha desejo, mas acredita que ela pode olhar e ver o bebê como um objeto do mundo compartilhado, podendo refleti-lo. Segundo Winnicott num primeiro momento, o bebê não olha para perceber e sim para "aperceber", olha para comunicar e não para ver. Se o bebê tem que começar a ver para perceber o estado do "humor" da mãe, por exemplo, ele tem que abrir mão da ilusão da onipotência muito cedo, não havendo lugar para que ele possa criar a mãe, o que equivale a dizer que já começa um processo de "atrofia" da criatividade. Essa é a base do desenvolvimento do falso-self. Se a mãe está bem, ela pode ver a criança como um objeto do mundo compartilhado e assim refleti-la a partir do que ela é, e não a partir do que ela (mãe) projeta nela. (WINNICOTT, 1975, p.155). A meu ver, está ai claramente colocado qual seria o protótipo da posição ética de um analista, independentemente do tipo de sofrimento psíquico que o paciente apresenta. Diferentemente para Paín, o olhar da mãe está diretamente relacionado à questão da legitimidade da criança no seu desejo. Temos então a noção de um sujeito alienado no desejo do outro. Importante ressaltar que Paín apresenta, como afirma Melo: “uma teoria unitária do pensamento e uma teoria dualista do sujeito”. (MELO, 1987) Aos poucos fui me dando conta de que entender o sentido do sintoma no triângulo edípico é bem diferente de tentar compreender o que a criança busca comunicar, inclusive de forma não-verbal, por meio dele. Da mesma forma, foi ficando claro, para mim, a diferença entre compreender a repetição que caracteriza o sintoma como expressão da permanência da criança num lugar por onde o prazer da aprendizagem não pode circular e de compreender a repetição como busca da presença de um outro ser humano que possa oferecer condições ambientais para o desenvolvimento das potencialidades do self. 147 Uma outra diferença importante é que Winnicott não trabalha com as noções de desejo, falta e frustração como Paín. Isso tem sérias implicações na clínica. Na sua perspectiva, a transferência é entendida como exercício de funções psíquicas necessárias ao atendimento das primeiras necessidades – integração, personalização e realização do bebê, e não como projeção de conteúdos ou fantasias numa linha de deslocamento no tempo. Gostaria de assinalar, à moda do que fiz em relação a Paín, alguns pontos apresentados em Parente, 200350, para explicitar a minha forma atual de apreender a noção de espaço potencial e paradoxo de Winnicott, e como pude usá-la durante o atendimento de Eric, a partir, também, das transformações realizadas sob a influência do diálogo com a teoria de Paín sobre a Função da Ignorância. Já na introdução, localizo o leitor, explicitando o meu objetivo: num primeiro momento, levantar na obra desse autor o que, a meu ver, poderia ser uma fundamentação teórica interessante na Clínica da Aprendizagem e, num segundo, mostrar como ela poderia ser usada no atendimento de duas crianças com inibição intelectual, que fizeram parte da Dissertação de Mestrado51, aprofundando algumas noções teóricas. Enquanto nesses atendimentos propunha o uso de jogos e atividades cognitivas no campo transicional, buscando favorecer o caminhar das crianças em direção à criação da externalidade do mundo, no atendimento de Eric, meu objetivo era acompanhar a criação e constituição do fenômeno da ilusão e do seu herdeiro, o espaço potencial – espaço de troca e jogo que abre o campo de relações significativas entre a criança e outro ser humano, como aquele que presentifica e apresenta a realidade externa. 50 Pelos Caminhos da Ilusão e do Conhecimento – Uma Fundamentação Teórica na Clínica da Aprendizagem a partir de D. W. Winnicott 51 Inibição Intelectual: o Paradoxo no sintoma expressando a paralisia e a busca da criatividade, apresentado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica, PUC/SP, 1996 148 Ressalto, também, o uso que fiz da teoria da criatividade de Winnicott (1975) para refletir, por um lado, sobre a participação da ilusão, imaginação e capacidade simbólica na constituição da subjetividade e, por outro, sobre a dimensão da agressividade na criação da externalidade do objeto do mundo. Quando há a integração entre essas dimensões: a do amor dos estados tranqüilos e a do amor do estado excitado é possível a constituição de um ser que, por sentir-se real e integrado em termos psicossomáticos, pode ir para um mundo de realidade compartilhada e nele se realizar. Assinalo, ainda, que no artigo de 1941 – Observação de bebês numa situação estabelecida – em que Winnicott descreve os três momentos de relação e uso de um objeto – a espátula, por um bebê entre cinco e treze meses de idadeencontrei o que é, para mim, o protótipo do movimento presente no brincar, conhecer e aprender criativos52 e que seria a matriz da relação do ser humano com o conhecimento e a aprendizagem.53 Por meio do jogo da espátula, compreendi as implicações do uso da noção de espaço potencial e dos fenômenos transicionais, na clínica. Na minha experiência atual, o diagnóstico e o atendimento propriamente dito são feitos a partir do que chamei de atitude de espera receptiva inspirada na noção de espaço potencial54 e da minha forma de usar o modelo proposto por Winnicott no jogo da espátula. Esses conceitos operam como dispositivos e permitem investigar em que área da existência, o paciente transita e habita: a dos fenômenos subjetivos, a dos fenômenos culturais (transicionais) ou a da realidade objetivamente percebida. Na experiência clínica, se o paciente está na área dos fenômenos subjetivos, trata-se de uma situação de inibição intelectual e a relação com o mundo é disruptiva ou até mesmo ameaçadora, como vimos com Eric. Já com Carol, pudemos observar que já podia usar um objeto subjetivo - o Bebê-Moranguinho – de forma transicional. 52 Ver Parente, 2003, cap. 1, p.28-30, em que a relação entre o jogo da espátula e a aprendizagem é apresentada. 53 Ver Parente, 2003, cap. 2, em que aprofundo as relações entre criatividade, aprendizagem e conhecimento. 54 Ver Winnicott, 1941 e 1951 retomado em 1971, especialmente nos cap. 5, 7 e 8 do Brincar e a Realidade. 149 Ao reconhecer os dois eixos presentes na teoria da criatividade de Winnicott: o da comunicação significativa, que no início, além de incomunicável é silenciosa e que permite a criação do espaço potencial e o da agressividade que se desenvolve voltado para as representações e permite a criação da externalidade do mundo, compreendi a importância dada por Winnicott ao estágio do EU SOU, aliás, muito bem compreendido por (Milner,1991) “o objeto transicional é o símbolo e o fim de uma jornada. Parece mesmo ser de uma jornada de ida e volta; ambas voltadas para a descoberta da realidade objetiva do objeto e para a descoberta da realidade objetiva do sujeito - o "EU SOU" (p.249). Nesse estágio, é possível a integração dessas duas dimensões que permite a relação de alguém consigo mesmo. Essa integração vem acompanhada de um sentimento de medo e perseguição e depende sobremaneira da presença da mãeambiente que sustenta a continuidade da experiência simplesmente por manter-se inalterada e disponível, o que dá sustentação ao senso de continuidade do ser – espaço potencial, como vimos com Eric. Penso que embora essas noções atravessem a obra de Winnicott desde 1941, é na década de 1960 que ele caminha em direção à possibilidade de integrá-las, como se pode ver em Brincar e a Realidade de 1971. Reconhecer o estado de indiferenciação entre mãe e bebê e a noção de ilusão da onipotência permitiu a Winnicott desenvolver uma forma singular de conceber a relação entre o ser humano e a realidade externa que opera a partir da noção de movimento e paradoxo no campo intersubjetivo. Não é mais apenas o seio (mãe), como objeto parcial ou como objeto de desejo, e sim como objeto subjetivo e a presença da mãe ambiente – isto é, a presença de um clima, de uma atmosfera, de uma estética, o que importa. Assim o que conta é a disponibilidade materna no sentido de tecer um campo de acontecimentos no qual se torna possível a criação do self, e, posteriormente, da exterioridade do mundo pelo bebê. E, isso graças a gestos de busca gerados pela necessidade do bebê que encontram o objeto subjetivamente concebido no momento e no lugar certo, no tempo e no espaço justo. Simultaneamente à realização dessa necessidade, que se dá por uma 150 experiência, acontece a criação de um espaço de comunicação silenciosa, numa área não diferenciada por meio da troca de olhares e experiências na mutualidade. A ilusão organizada pela apercepcão do bebê vai cedendo lugar ao espaço potencial, palco de um outro acontecimento: o desenvolvimento da percepção e do início do reconhecimento de que a mãe é não-eu e, posteriormente, de que ela tem uma existência separada. Quando a mãe começa a introduzir o processo de desilusão de forma gradativa, movimentando-se no espaço dentro do tempo de tolerância do bebê, ele tem a ilusão de que ela continua sob o seu controle e domínio apesar de suas idas e vindas. Para fazer frente a essa situação, o bebê já terá adotado algo, oferecido por ela, que se tornou significativo, pois presentifica a história de uma relação de encontros e desfrutes vividos de forma genuína, graças à capacidade oblativa da mãe que sustenta a primeira ignorância: a da situação de desamparo, impotência e finitude, características do ser humano. Assim, o bebê vai desenvolvendo a capacidade simbólica, isto é, a capacidade de manter viva a imagem da mãe enquanto dá tratos à sua própria imaginação na espera do encontro certo e garantido. Assim, o objeto transicional, a meu ver, ao mesmo tempo em que é a prova cabal da criação do espaço potencial, também ajuda a mantê-lo. Aqui, o intelecto em evolução do bebê ajuda a passar da situação de dependência absoluta para a relativa e a operar passagens, não apenas em relação a situações em que a mãe está presente como, também, naquelas em que está ausente. Assim, o bebê pode transitar entre situações de sono e relaxamento e de vigília e entusiasmo porque introjetou a mesma atmosfera que é criada na presença da mãe-ambiente do estado de quietude (atmosfera receptiva e tranqüila) após o encontro com a mãeobjeto (seio, objeto subjetivo) dos estados de excitação. Note-se a importância da presença da mãe que sobrevive e se mantém inalterada, tanto ao atender as necessidades do bebê no estado de excitação (entusiasmo), quanto na promoção do estado de relaxamento. 151 Talvez essa seja a tarefa maior do ser humano: a integração entre esses dois estados ao longo de toda a vida, em diferentes estágios e áreas da existência. Começa na relação com um outro que alimenta a onipotência de uma ilusão de contato. Talvez essa seja a primeira ignorância e seja justamente ela que permite o senso de continuidade do ser, pois é possível ser um no outro. Se e somente se, a mãe continua a dar sustentação, é possível ser um em si mesmo e com ela, para finalmente, se as condições maturacionais estão dadas e as ambientais são mantidas, ser um no mundo. Winnicott (1945, 1960, 1967a, 1967b, 1971b,1990) chamou o primeiro de integração, o segundo de personalização e o terceiro de realização. Quando falo em criação, constituição, desenvolvimento e integração, refirome à introjeção de um movimento presente num campo de relações ao longo de um tempo a partir da presença do outro. E isso antes mesmo que um processo de identificação possa ter lugar. Assim, talvez o ser humano introjete o modo de olhar e se relacionar daqueles que o amam e a quem ele ama sem disso ter consciência. Talvez seja a partir desse lugar, desse ethos que os encontros aconteçam e que escolhemos inclusive as teorias ou aspectos de teorias. Talvez seja a partir da sensibilidade, isto é, de uma atmosfera, que nos identificamos com o movimento que intuímos fora de nós por sua ressonância e possibilidade de refletir algo que existe dentro de nós. Ainda que não tenhamos a consciência disso! Assim, não se trata de projeção, pois primeiro introjetamos a modalidade de relação, isto é, o movimento presente num campo de relação com um outro. Daí a importância de um olhar que nos reconheça, que olhe para ver e não para entender ou, o que é pior, para atribuir uma intenção interpretando o que fazemos, dizemos ou pensamos. Assim, quando os pais olham o filho como objeto subjetivo, não podendo reconhecê-lo na sua singularidade, o cenário será o do desencontro. O que passa a fazer parte do mundo pessoal da criança carrega o germe da atmosfera do espaço compartilhado nas primeiras relações, que envolve a relação do casal que o gerou, dos que os geraram e do campo cultural em que 152 todos estão inseridos. No caso de Eric, vimos que a sua tarefa era a de um superherói: ele seria aquele que viria para salvar a família, resgatar as relações entre os avós e os pais rompidas por ocasião do casamento devido a um choque entre culturas. Vimos, também, como a sua identificação com o Homem-Aranha procedia, porque esse objeto da cultura parecia simbolizar o tipo de relação introjetada por ele a partir da atmosfera presente na dinâmica familiar. Quanto a Carol, o Bebê Moranguinho, parecia simbolizar o lugar a ela destinado dentro da família. Sobre o fenômeno Estético Na Estação 5, vimos que, com Eric, a experiência de encontro se deu por meio de uma vivência de impacto estético, quando a tampa da caixa de brinquedos caiu e ele teve uma reação de pavor exagerado. Compartilhar uma vivência dessa natureza, criou a experiência do encontro. Tenho observado, na experiência clínica, a potencialidade transformadora do fenômeno estético, especialmente, com crianças com inibição intelectual. Na minha prática, essa dimensão relaciona-se com a capacidade do analista se deixar afetar pela ressonância que o modo de ser e estar da criança provoca nele. Está relacionada com a reação psicossomática que testemunho no paciente e acompanho por um processo de identificação. Ou seja, quando escuto o paciente, eu sou o paciente. O impacto em questão pode ser transformado, sendo em si transformador, quando é possível acolher o que emerge no campo intersubjetivo acompanhando o movimento pulsante desse encontro. Estabeleço aqui um paralelo entre o uso do objeto transicional e o que estou chamando de objeto símbolo55. Enquanto o primeiro carrega a história de uma relação de encontros entre mãe e bebê e desfrutes de necessidades – o objeto-símbolo - no caso de Eric, o Homem-Aranha e no de Carol, o Bebê 55 Inspiro-me, aqui, na contribuição de Gilberto Safra (1999) de que não é o significado de um símbolo que importa, mas “a sua possibilidade de veicular uma experiência , uma vivência” (p. 23). 153 Moranguinho, o segundo apresenta a história dos desencontros e, talvez, da atmosfera presente no campo de relações dos primeiros desencontros. No caso de Eric, o Homem-Aranha abriu a possibilidade do encontro. Reconhecer a sua presença em determinados momentos foi de fundamental importância para instaurar o espaço de jogo e comunicação significativa em que o menino pôde, ao mesmo tempo, conhecer e desvelar seus segredos, mostrando onde e como poderia ser encontrado. Gostaria aqui de salientar que, com crianças com severo grau de inibição intelectual, é preciso, antes de exercer a função de apresentação de objetos - que se torna importante depois que se abre o campo transicional - estar disponível e sintonizada para captar a apresentação que a criança faz do objeto que carrega a potencialidade do encontro e da abertura do campo de relações entre ela e o mundo de realidade externa. Sobre crianças com Inibição Intelectual e o trabalho com seus pais Na minha experiência confirmo o mesmo que Winnicott (1958,1963a, 1975): criança que não brinca de forma espontânea, não se comunica, não constitui a dimensão da subjetividade, nem estabelece pontes entre a realidade pessoal e a externa não podendo, assim, usufruir experiências significativas e necessárias à criação do self e a da externalidade do mundo. Quem trabalha com elas, sabe como são assustadas e vivem num estado de desconfiança e isolamento, não se sentem confortáveis na própria pele, não se envolvem e nem se interessam por nada que lhes é oferecido por um outro que, no início, além de estranho, não passa de um invasor. O fato de a criança sentir-se incluída na dimensão humana, alcançar a integração e entrar no movimento que caracteriza o jogo tridimensional tem relação direta com a aprendizagem, pois relaciona-se com o desenvolvimento de 154 determinadas capacidades intelectuais, como, a de seriar e classificar os objetos, por exemplo, reconhecer que uma laranja faz parte do grupo das frutas, um porcoespinho está incluído no dos animais etc. Antes de a criança classificar os seres humanos, é preciso a integração e o sentimento de se sentir participante da dimensão humana. Notemos que as situações de Eric e Carol são muito diferentes. Retomemos o que acontecia com a menina tendo no horizonte o tema da comunicação significativa. Ela tinha certo movimento psíquico e conseguia provocar efeitos e afetar não apenas o ambiente familiar e escolar, mas também a terapeuta. Adotava um objeto-símbolo, a boneca, que parecia funcionar como uma espécie de escudo, permitindo estabelecer um tênue contato com o mundo externo. Por meio dele podia estudar a reação do ambiente, mapeá-lo e fugir dos perigos. O problema é que isso a afastava de um contato verdadeiro com ela mesma e com o outro. No início, ela podia ligar-se e desligar-se no e do que acontecia fora dela, ligando e desligando os receptores à distância (visão e audição) por meio do incremento dos receptores de contato (cheirava a borracha, encostava partes do seu corpo na mesa). Se, por um lado, podia defender-se do que sentia como invasão, por outro, ficava aprisionada num lugar por onde o prazer da aprendizagem não circulava. À medida que a confiança na relação cresceu, pôde transitar ainda mais entre dois estados: estar ausente (desligada) e estar presente (ligada) na presença da analista, mas criando um jogo em que podia fazer de conta que estava desligada-ausente, quando havia estado ligada-presente e viceversa. O que operou e teve efeito com Carol foi poder ser vista e reconhecida como autora do jogo que criava sem ser mal interpretada por pais, escola ou terapeutas. Ser olhada e encontrada num lugar diferente do que até então estava acostumada, poder jogar com os símbolos criados até aquele momento, permitiu 155 tomar consciência da sua possibilidade de jogar, sentir-se incluída, participante e, aos poucos, tornar-se autora, apropriando-se de seu próprio processo. Isso está belamente colocado na frase "É um sofisticado jogo de esconder em que é uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser encontrado". (WINNICOTT, 1963a, p. 169). Diferentemente, Eric parecia ainda nem ter conquistado a chance de constituir aberturas significativas para o mundo por meio dos órgãos dos sentidos ou tê-las perdido, devido a invasões e falhas de atendimento à primeira necessidade do ser humano: a da comunicação significativa, que decorre de sentir-se incluído, isto é, ter sido um no outro, para depois poder ser um com o outro. Por não ter desfrutado da presença real de um outro disponível para olhálo, reconhecê-lo como diferente e acompanhá-lo, o mundo não era apetecível, e sim, estranho e invasor. Assim, seus receptores de contato, bem como os receptores à distância podiam ser usados para sobreviver, mas não para criar o mundo real a partir de experiências compartilhadas. Acho oportuno assinalar, neste momento, a diferença entre o trabalho realizado com os pais de Eric e de Carol, pois se trata de um aspecto de fundamental importância, especialmente, no trabalho com crianças com inibição intelectual em que a falha ambiental se dá muito cedo e a criança padece de ansiedades impensáveis num mundo sentido como disruptivo e ameaçador. No atendimento de Carol houve um tom de quase indignação quando a analista relatou o episódio em que a mãe da menina não a trazia com roupas adequadas para suas sessões, duvidando do seu desenvolvimento e da autoria dos trabalhos realizados por ela e elogiados pela escola. Era evidente que, assim, a mãe desautorizava o processo da menina, sua percepção e a da própria escola. Isso parecia mobilizar a insegurança e a confusão de Carol, levando-a a adotar uma atitude mais regredida e infantilizada, usando a boneca como um escudo. Mobilizava, também, a raiva em alguns educadores da escola. 156 Minha aprendizagem, a partir da experiência com Carol e outras crianças56 crianças com inibição permitiu-me adotar uma outra atitude com Eric e sua família: podia estar no movimento que caracteriza o jogo tridimensional, identificar-me com as necessidades do garoto e de sua família e, ao mesmo tempo, discriminar-me delas, acompanhando o movimento no jogo estabelecido no campo intersubjetivo. Assim, podia exercer as funções necessitadas, facilitando a troca e comunicação significativa entre todos. Aproveito, também, para salientar a importância que os pais possam, de fato, ser incluídos no trabalho e desfrutar de um espaço de confiança, podendo contar, não apenas fatos, mas experiências, resgatando, assim, a atmosfera que organizava o campo de relações na época do nascimento da criança. É muito diferente a situação de uma mãe que passe por uma situação de luto ou descubra que o marido tem uma amante, um filho, ou que seja alcoólatra durante a gestação, de uma mãe para quem esse período transcorra como ela sempre sonhou. Lembrando que as necessidades do paciente e da família variam muito de caso para caso e em diferentes momentos do processo, no atendimento de Eric, vimos que a retaguarda dada a seus pais permitiu que eles pudessem fazer o mesmo com o garoto, modificando, inclusive, a sua maneira de vê-lo. Aproveito, também para assinalar outra diferença em relação ao trabalho com os pais, agora em relação ao modelo de diagnóstico de Paín, que faz uso de provas projetivas e psicométricas. Na minha experiência, mesmo pais ansiosos, e que solicitam avaliações, entendem e aceitam que tal procedimento só poderá acontecer, se necessário, depois que a criança puder brincar, isto é, depois do desenvolvimento da capacidade simbólica e do estabelecimento de uma outra modalidade de relação com o mundo de realidade externa. Sem relação com um mundo apetecível não se abre o campo transicional nem o do conhecimento, já 56 Ver Cap. 3 e 4. In Parente, 2003. 157 que um é acompanhado pelo outro. O conhecimento é função da transicionalidade e carrega o germe das primeiras relações interpessoais (JONES, 1992). Nessa mesma linha, (MILNER, 1991) ressalta que o processo de identificação, subjacente à formação simbólica, não é resultado de forças proibitivas e nem da necessidade de reparar os objetos. Ele seria fruto da necessidade de estabelecer uma relação com a realidade externa. Assim, usa a "palavra símbolo não apenas para se referir a uma função defensiva, com finalidades de distorção". (MILNER, 1991, p. 110). Usando Paín, compreendi que a aprendizagem implica um movimento dialético e complementar entre a subjetividade e a objetividade e envolve a dimensão da autoria por parte do sujeito. No período do percurso de Paín, que focalizo neste trabalho, portanto, antes de sua preocupação voltar-se para a questão da relação entre a ignorância e o corpo presentes em Seguindo as pegadas do sujeito, infelizmente traduzido para o português com o título Teoria e Técnica da Arte Terapia – a compreensão do sujeito, a sua concepção sobre o conhecimento desenvolve-se na perspectiva filosófica e pedagógica, o que é coerente com a sua formação, percurso, interesse e, especialmente, com seu passado piagetiano. Diferentemente, o meu encontra-se mais próximo da clínica psicanalítica em que o conhecimento estaria relacionado às experiências de vida consigo mesmo, com os outros e com os objetos da cultura. Nessa perspectiva, na experiência clínica, muito mais do que o objeto interessa o uso que se faz dele. Nesse sentido, o conhecimento não é uma qualidade do objeto e, sim uma criação do sujeito. Assim, a minha concepção de aprendizagem amplia, ainda mais a de Paín, pois se trata da capacidade de aprender de si e da realidade externa que inclui o outro e os objetos da cultura, a partir da experiência de vida. Somos seres no mundo e a aprendizagem que enriquece o self é a que permite a inscrição do gesto e a realização de um projeto existencial o mundo. 158 Lembro o que afirmei na introdução deste trabalho e que na verdade é a minha tese: no campo terapêutico intersubjetivo, cada experiência clínica significativa contribui para transformar a subjetividade do analista e, conseqüentemente, a sua forma de ler e compreender, seja as teorias, seja a prática, o que transforma não só o diálogo que estabelece, mas também a sua própria maneira de compreender, fazer intervenções, dialogar, transformar e usar as teorias. A noção de Função da Ignorância e de paradoxo como posição ética Após a transformação feita na noção de Função da Ignorância, ela passou a constituir-se na sustentação de uma posição ética. É esta posição que permite estar num movimento, transitar e recortar conceitos de diferentes teorias, usandoos na construção de dispositivos para iluminar um fenômeno clínico ou aspectos dele e assim poder comunicá-lo. Quando me refiro a acolher a Função da Ignorância e de paradoxo como morada, como ethos, refiro-me, também, a uma forma de usar essas noções, que dá sustentação e permite ao analista manter a atitude de espera receptiva, acolhendo o seu próprio não-saber, o do paciente e o de sua família, deixando, desse modo, que o tempo trabalhe e a “luz” se faça. É essa atitude que permite identificar as questões do paciente e exercer as funções necessitadas para descongelar aspectos de seu self que podem variar desde uma atitude de acolhimento até a de colocar condições para iniciar ou manter a continuidade de um atendimento. Um outro aspecto importante é que, em cada atendimento, é possível levantar os dispositivos usados como vimos com Eric, em que determinadas funções, especialmente a de testemunha, holding, manejo e apresentação de objetos, foram exercidas e permitiram que ele usufruísse situações que colocaram em marcha o desenvolvimento das potencialidades do seu self, até então congeladas. Entretanto, o que pretendo, neste trabalho, não é apresentar um modelo que segue uma seqüência. Aliás, nada mais distante do que acredito! Reafirmo tratar-se de uma posição, de uma postura ética que no meu percurso 159 tornou-se possível pelo encontro e recorte de determinadas noções provenientes dos referenciais de Klein, Paín e Winnicott e que dá sustentação à atitude de espera receptiva. Reconheço em Paín, a disponibilidade genuína que caracteriza e ilustra o que é ser um profissional suficientemente bom. E este é mais um dos paradoxos, porque foi ela que me apresentou o paradigma de terapeuta inspirada na noção de mãe suficientemente boa de Winnicott, pois ofereceu a sua própria contribuição para ser usada e transformada, não à luz da epistemologia e sim à moda das crianças e do uso transicional que elas fazem dos objetos da cultura, realizando, assim, seu projeto pessoal no mundo. Para acompanhar a transformação feita no conceito de Paín, transcrevo o último parágrafo de Pelos Caminhos da Ignorância e do Conhecimento: Usando a linguagem de Sara, aliada à de Winnicott, diria que neste espaço transicional em que a função da ignorância opera, porque somos e não somos, porque estamos aqui e lá, porque suportamos o movimento paradoxal da vida, os mistérios, os enigmas, podemos, à medida que nos apropriamos de nossas questões pessoais, aprender da e pela experiência. Isso permite, também, estar permanentemente num diálogo, num trânsito, num entre, inclusive entre a prática e a teoria. Note-se que isso implica, não apenas na criação e/ou reconstrução de conhecimentos, mas também na participação de um processo de aprendizagem de si, do outro, do mundo, que tem na função da ignorância a sua mola propulsora. (Parente. 2000, p. 115-116) 160 CONSIDERAÇÕES FINAIS “A cultura é como a lente através da qual o homem vê o mundo”.57 Há viagens que nos deixam cansados e que, por isso mesmo, desejamos que acabem logo. Outras nos encantam e desejamos que nunca se acabem. Claro que no plano do impossível, porque nada é mais terrível do que o sempre ou o jamais, o tudo ou o nada. Na experiência com Paín, aprendi que sem relativizar permanecemos no absoluto positivo ou no negativo. Concordo, pois em ambos os casos, não podemos estar no movimento que caracteriza o que há de mais humano em nós: o interagir com a cultura! Numa viagem, após comprar os bilhetes–passagens, embarcamos! Muitas vezes, sabemos onde queremos chegar, em outras, os rumos se modificam. Há momentos da vida que isso nos incomoda, noutros nos encanta. No percurso aqui apresentado, o primeiro bilhete que comprei na viagem de ida foi Klein, ou melhor, um certo kleinismo do final dos anos 1970 e 1980, muito diferente do uso que se faz atualmente das contribuições kleinianas. Por meio do referencial de Luzuriaga, desenvolvido nessa tradição e diretamente voltado para o quadro da inibição intelectual, recortei o objeto de investigação. Com Paín, focalizei o campo voltado para a clínica dos problemas de aprendizagem e para uma teoria que dava conta das relações entre as dimensões afetiva e cognitiva no pensamento do sujeito que aprende (PAÍN, 1985, 1989) e comecei a estabelecer um diálogo com a prática institucional e de consultório. Com Winnicott, compreendi que o problema de aprendizagem precisaria levar em consideração o desenvolvimento psíquico global da criança, o que implicou reconhecer o papel determinante do fator maturacional e do ambiente na inibição 57 R. Benedict apud Laraia, 1997, p.69. 161 intelectual. Compreendi que a ilusão de criar o mundo de realidade compartilhada era condição para o brincar, conhecer e aprender criativos, como vimos, na viagem de ida, no atendimento de Carol, o que me levou, aos poucos a reconhecer a importância de exercer a função de testemunha e a admitir o processo de regressão à dependência. Aos poucos, fui reconhecendo a importância de usar jogos e atividades cognitivas no campo da transicionalidade. Isso porque respeitar o gesto e o tempo da criança, por meio da suspensão dos parâmetros da lógica linear ajudava a abrir, ainda mais, o campo de relações entre ela e o mundo de realidade externa. Aqui as noções de uso de objeto e de fenômenos transicionais foram fundamentais. Entretanto, o aprofundamento no estudo e na compreensão da noção de espaço potencial – espaço de confiança, troca e comunicação significativa levoume a usar o jogo da espátula tal como descrito por Winnicott (1941) e apresentado na Estação 7, como um dispositivo não só para fazer o diagnóstico, mas também para acompanhar todo o processo de intervenção, buscando favorecer a constituição de uma outra modalidade de relação da criança com um mundo que pudesse ser sentido como apetecível. Atualmente, reconheço que exercer a função de apresentação de objetos torna-se importante somente depois que se abre o campo dos fenômenos transicionais, que permite o caminhar da criança em direção à criação do objeto objetivamente percebido, base da aprendizagem formal. Na minha experiência, as crianças com inibição intelectual habitam a área dos fenômenos subjetivos, portanto, padecem de ansiedades impensáveis; sua organização de self é incipiente e a relação que estabelecem com o mundo é disruptiva ou, até mesmo, ameaçadora. A integração, geralmente, é alcançada por um “padrão de reações às intrusões”. Nessa situação, houve muito mais do que frustração ou privação, pois elas foram mutiladas, por não desfrutarem das condições que permitiriam constituir e usar seus receptores de contato e/ou à distância como canais de abertura para o mundo, isto é, para uma comunicação 162 significativa, como vimos nos atendimentos de Carol e Eric. O que operou e teve efeito para que o menino entrasse no jogo tridimensional foi a atitude da analista de manter-se em estado de relaxamento e, ao mesmo tempo, de atenção para captar a apresentação que ele fazia do objeto que carregava a potencialidade transformadora do seu self (SAFRA, 1999). No meu caminhar da clínica dos problemas de aprendizagem passando pelo da criatividade e desenvolvimento psíquico até chegar ao da comunicação significativa, fui me apropriando de uma forma transicional de usar as teorias, mantendo no horizonte aquilo que, para mim, é o importante: a experiência de encontro significativo com o paciente, na qual o acontecimento humano se dá. Retomando o meu percurso, reconheço que uso determinado conceito ou teoria como objeto transicional, como um terceiro, como ponte que permite transitar e ganhar distância em relação ao que se revelou na experiência clínica. Como opero de forma intuitiva, pela sensibilidade, estabeleço uma relação subjetiva: ou seja, quando ouço o paciente é como se eu fosse ele. Trata-se, assim, de uma forma transitória de usar as teorias, não como um sistema ou rede que revele significados que poderiam ser remetidos aos pressupostos epistemológicos das teorias, mas para explicitar o que se revelou num encontro significativo. Por isso, o que defendo neste trabalho é que no campo terapêutico intersubjetivo, cada experiência clínica significativa contribui para transformar a subjetividade do pesquisador-terapeuta e, conseqüentemente, a sua forma de ler e compreender seja as teorias seja a prática, o que transforma não só o diálogo que estabelece, mas também a sua própria maneira de compreender, fazer intervenções, dialogar, transformar e usar as teorias. Se com Paín aprendi a atitude conveniente para uma investigação: ser ingênua na clínica e cética em relação à teoria; com Winnicott aprendi a liberdade 163 de poder usar a teoria priorizando a clínica, bem como a de fazer uso do pensamento de outros para criar o próprio. Assim, quando me refiro à noção de Função da Ignorância e de paradoxo, deparo com mais uma situação paradoxal, pois, ao mesmo tempo, falo e não falo do mesmo lugar de Paín e de Winnicott, já que o foco, o objeto de interesse e o meu percurso são diferentes do deles, mas sem o diálogo com eles e entre eles e a prática clínica, talvez não tivesse feito a viagem que fiz, nem chegado onde cheguei. Este, mais do que um ponto de chegada se constitui, creio, numa nova baldeação para reflexões em percurso: Quais as implicações deste trabalho num repensar o campo psicopedagógico? Qual a contribuição desses dispositivos ao psicopedagogo que trabalha na e/ou com a instituição? Quais as implicações contidas na afirmação de que a falha na comunicação significativa poderia relacionar-se diretamente com a inibição intelectual? Será que outras crianças com inibição intelectual não elegem também um objeto da cultura buscando não perder contato com um outro? Será que esse objeto guarda as marcas da atmosfera e da história de desencontros vividas por outras crianças, como Eric, nas primeiras relações vinculares? Será que o tema da comunicação significativa estaria relacionado com outros tipos de inibição, por exemplo, a sexual? E assim termino este percurso de autoria e apropriação de conhecimento a partir da experiência, remetendo-me ao que escrevi em 1995, no artigo: O difícil diálogo entre a prática e as teorias58: 58 Boletim Formação em Psicanálise, vol. IV, n. 1, p.7-17. 164 Acredito que buscamos um referencial teórico para melhor compreender os fenômenos estudados (dimensão conceitual) e para operar no campo de atividade a que nos dedicamos (dimensão das práticas). Não é qualquer teoria que tem ressonância dentro de nós e que nos faz sentido. O sentido (tem a ver com o conhecimento tácito, a crença e a vivência pessoal)‚ algo construído a partir de uma dramática inconsciente (articulada, desenvolvida e construída a partir de um percurso que envolve a nossa própria história). Descobrimos uma teoria com a qual nos sentimos identificados a partir de algo que é da ordem da subjetividade. Brincando um pouco a partir de Winnicott: as crianças brincam com os objetos como se eles não fossem apenas parte da realidade objetiva, mas também parte da realidade subjetiva. Será que o que nós adultos fazemos é sonhar com a teoria? Será que brincamos com as teorias que criamos e descobrimos? Penso que podemos estabelecer um paralelo entre o que ocorre com a criança ao usar o objeto transicional e o que ocorre conosco (pesquisadores analistas) no processo de uso e escolha de uma teoria. Quando usamos a teoria como pano de fundo, como o invisível que organiza um campo, podemos privilegiar a comunicação e a relação humana com o paciente. Podemos estabelecer um diálogo entre a teoria e o fenômeno que pode, então, ser observado e não reduzido a partir de um modelo teórico. 165 Quando a forma de relação que se estabelece com a teoria é feita nesta terceira área da experiência, podemos reconhecer quando ocorre uma fratura. Quando a teoria não dá conta do observado, cria-se o espaço vazio. A partir dos desencontros entre teoria e prática é possível (quando o vazio pode ser tolerado) mobilizar o pensamento e estabelecer um novo diálogo entre teorias ou aspectos de teorias e a realidade clínica. Quando é possível fazer algo com a falta e transformá-la a partir do que a realidade oferece, há também a possibilidade de se poder fazer um tipo de articulação na qual se pode usar a própria subjetividade e enriquecê-la através do contato com a objetividade. É possível desenvolver um diálogo com a realidade e um enriquecimento da dimensão da objetividade, a partir da própria subjetividade. Podemos buscar e encontrar uma teoria (ou zonas de superfícies ou recortes entre diferentes teorias) para estudála e usá-la, estabelecendo um diálogo com a realidade que a prática clínica nos oferece. Podemos, também, fazer uso da teoria como se ela fosse a verdade, a certeza, como fazia o conhecimento científico na vertente positivista do século XIX. Ou seja, podemos fazer como as crianças que usam os brinquedos para não brincar. Volto para o que já estava anunciado, só que agora enriquecida pelo caminho trilhado e pelas experiências nele vividas, e ainda mais convencida dessa forma de usar a teoria para dar visibilidade àquilo que se revelou no encontro significativo com o paciente e que acaba por permitir a transformação, tanto dele 166 quanto da analista; que permite a inscrição de um gesto no mundo, que permite que o conhecimento seja um elemento de trânsito para que cada um realize os seus projetos existenciais no mundo. E, termino, tomando emprestadas as palavras de Guimarães Rosa: Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomaram-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo, sem vangloriar-me. Surpreendome, porém, um tanto à parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tem idéia do que seja na verdade – um espelho? Demais, de certo, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo. ROSA, Guimarães. O Espelho. In Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, p. 71-8. 167 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BION, W. R. (1975). Aprendiendo de la experiencia. Buenos Aires: Paidos, 1980. CAMPOS, Álvaro de. Aniversário. In PESSOA, Fernando. 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