Taking Over Grand Central, 2005
Rita Sobral Campos
Structural Schizophrenia
– ou quando a mentira se
tornou verdade
Rita Sobral Campos: da forma à política
Miguel Amado
Rita Sobral Campos (Lisboa, 1982) estudou no Ar.Co, em
Lisboa, primeiro Escultura e depois Artes Plásticas, bem como
na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa, onde cursou História de Arte. Actualmente,
frequenta um mestrado em Artes Plásticas na School of Visual
Arts, em Nova Iorque. A relação entre os dois tipos de formação que obteve define os seus pilares criativos, dado que
estes enunciam não só um conhecimento dos movimentos
e problemáticas da arte do século XX, em geral, e do pós II
Grande Guerra, em particular, mas também a sua análise,
edificada tanto no território do pensamento como da acção.
Efectivamente, se alguns postulados modernistas e certas
resoluções do minimalismo, entre outras influências, determinam o seu corpo de trabalho, este distingue-se igualmente pela derivação – ou mesmo negação – dos eixos centrais
que caracterizam aquelas tendências. Nota-se, portanto, uma
autonomização progressiva da postura da artista, a génese de
uma marca autoral, sobretudo nas últimas fases da sua produção, portadoras de maior maturidade.
Rita Sobral Campos socorre-se de vários meios de comunicação para desenvolver o seu discurso estético. Assim, apesar
de privilegiar a escultura, tanto o vídeo como, mais recentemente, a fotografia constituem igualmente disciplinas e técnicas abraçadas pela artista. Contudo, seja qual for o suporte
que escolha, vislumbram-se noções operatórias e opções estilísticas comuns, que compõem a sua gramática conceptual
e visual. Refira-se, inicialmente, o termo “estrutura”, habitualmente aplicado aos objectos tridimensionais e que, agora,
serve também para qualificar as imagens, na medida em que
alude aos sistemas de poder simbólico nos quais assentam as
sociedades dos nossos dias. Cite-se, depois, a investigação do
sentido do lugar, com a consequente remissão para a arquitectura, não tanto como disciplina mas mais como ideia, pois
é a organização espacial que interessa examinar. Mencione-se, seguidamente, o modelo de representação abstracta, no
qual reside a adopção do desenho geométrico como matriz e
a exploração das suas propriedades fundamentais, a linha e o
plano. Aponte-se, ainda, a serialização enquanto estratégia processual, decorrente não de lógicas industriais, como é normal
em situações similares, mas de uma dinâmica construtiva de
raiz artesanal. Nomeie-se, finalmente, a metodologia fundada
na manipulação digital e na utilização de diversos materiais,
como vários tipos de madeira, ultimamente complementados
com vidro acrílico colorido e alumínio.
A tipologia do corpo de trabalho de Rita Sobral Campos
constata-se, por exemplo, nos seus últimos projectos, uma
escultura e duas fotografias apresentadas no âmbito do
Prémio EDP Novos Artistas (Centro Cultural de Belém, Lisboa,
2004). Estas mantinham as qualidades detectadas em exposições como Ricardo Valentim/Rita Sobral Campos (Sala do
Veado do Museu Nacional de História Natural, Lisboa, 2002)
ou Espaços, estruturas e outras cores mais (Promontório
Arquitectos, Lisboa, 2004); porém, indiciavam já uma vontade
de mudança, mais declarada na proposta para a Culturgest
Porto. Assim, tanto no Prémio EDP Novos Artistas como agora,
verifica-se o seguimento da linha de actuação já estabelecida
pela artista, todavia pressentindo-se inovações nos seus propósitos intelectuais derivadas da estadia em Nova Iorque.
No que respeita aos tópicos de continuidade perceptíveis
nas obras expostas no Prémio EDP Novos Artistas, repare-se,
na escultura, nas seguintes características: a composição triangular com base rectangular, na circunstância o próprio soalho,
alicerçada em ripas de madeira dispostas em linhas rectas e
cruzadas entre si; a instabilidade evidenciada pela construção,
mesmo que apenas aparente, pois os parafusos substituíram
a cola nas junções; o posicionamento em zonas específicas de
placas translúcidas de vidro acrílico colorido que, por um lado,
geram novos planos ao contrastarem ou adensarem os traços
oblíquos e que, por outro lado, multiplicam os pontos de vista
ao reflectirem e deixarem passar a luz em simultâneo; o apelo
táctil que os materiais carregam consigo e o correspondente
estímulo a uma relação com o espectador que escape a uma
percepção estritamente retiniana. Nas fotografias, pondere-se
a predominância cromática e a sobreposição gráfica das componentes, numa combinação de um cenário urbano em fundo
com uma figura evocativa das manifestações escultóricas,
bem como a prossecução de um princípio de pequenas derivações de um mesmo padrão.
No que concerne a pistas de ruptura patentes nas obras
expostas no Prémio EDP Novos Artistas, elas dividem-se em
dois núcleos, um situado no campo da prática, outro da ordem da linguagem. Destaque-se, do primeiro, o abandono do
plinto, a existência de ferragens e a aproximação à escala da
galeria, atestada pelas dimensões tanto da escultura como das
fotografias. Quanto ao segundo, saliente-se a sofisticação dos
títulos, antes somente nomenclaturas genéricas, agora elaborações plenas de significado. Chamando-se a escultura No
topo do Museu e as fotografias Central Structures 4: On top
of the Museum e Central Structures 7: On top of the Museum,
explora-se o “museu” enquanto entidade sociológica ou antropológica – e repare-se como o assinala a opção pela maiúscula tanto na versão portuguesa como inglesa do substantivo.
A “estrutura-escultura” e as “estruturas-fotografias” reportam-se, então, à “estrutura-museu”, agente produtor e reprodutor do valor artístico, seja na arena cultural ou na económica.
O facto de a escultura, com a sua disposição piramidal, relevar
de uma dimensão monumental e de, no caso das fotografias,
as tomadas de vista enquadrarem o perfil de Nova Iorque sobre
o Central Park a partir dos andares superiores do Metropolitan
Museum of Art, só reforça, com elementos reconhecíveis, a
discussão subliminarmente encetada.
Rita Sobral Campos concebeu esta exposição em torno da
noção de “estrutura-museu”, anunciando esta abordagem o
potencial crítico das suas intervenções correntes. Nada o demonstra melhor que o vídeo The Archetype, realizado já este
ano, momento fundador de um conjunto identificado como
American Series. As gravações conducentes à sua realização
aconteceram em finais de 2004 no reinaugurado The Museum
of Modern Art, em Nova Iorque, especialmente nas zonas comuns, como a entrada, os corredores ou as escadarias. A montagem resultou numa sequência de imagens fixas, à maneira de
um diaporama, das quais emergem múltiplas frases e diagramas que sugerem as esculturas da artista. Se a articulação entre o escultórico e o imagético já acontecera noutras situações,
nomeadamente nas operações fotográficas, a vertente textual
afigura-se como uma novidade. A necessidade deste registo
deve-se à essência da mensagem veiculada, incompatível com
outro género de recurso expressivo. Trata-se de demonstrar o
complexo ideológico dos Estados Unidos da América, apoiado
em mecanismos de controlo que asseguram o domínio seja em
que área for. Aqui, a metáfora é fornecida pelo The Museum of
Modern Art por duas razões: esta é uma das mais importantes
instituições mundiais, com extrema influência, emblema do
poderio de um país num universo particular; e o edifício sofreu
uma remodelação, acentuando a sua presente configuração
arquitectónica, com as constantes aberturas nos interiores e
nas fachadas, através das quais tudo é observável, um regime
onde impera o primado da vigilância, consentido por tão naturalizado estar.
A progressiva mutação na atitude de Rita Sobral Campos
ocorreu não tanto a nível do vocabulário empregue, mas mais
no terreno das intenções subjacentes à sua reflexão e actividade. Presencia-se, assim, a passagem de um estado radicado
em especulações formais para outro enraizado na presença de
conteúdos evidentes. Daí que a artista, em tom de invasão da
Culturgest Porto, efectue uma ocupação total do espaço expositivo: as esculturas espalham-se do chão ao tecto, com os
correspondentes ângulos rectos e intersecções diagonais a imporem-se, agora prolongados por fita adesiva que, embora bidimensionalmente, reproduz os seus efeitos; espraia-se pelas
paredes um grupo de fotografias, nas quais figuras que remetem para as manifestações escultóricas recortam ambientes
citadinos em fundo, causando uma sensação de estranheza
por revelarem semelhanças com criaturas associáveis ao imaginário do fantástico.
A transformação da atitude de Rita Sobral Campos é corroborada pela própria designação da exposição, Structural schizophrenia – ou quando a mentira se tornou verdade: o uso
simultâneo do inglês e do português espelha o contacto com
outra cultura e a introdução de novos factores culturais no seu
modo de ser; a utilização de palavras como «schizophrenia» ou
«mentira» e «verdade» indicia uma politização das suas preocupações, ancoradas hoje em exercícios de leitura das “estruturas” que regem a vida social, de que a “estrutura-museu” é
uma ilustração por excelência. Tal como a artista afirmou num
dos e-mails trocados a propósito desta exposição, ligando as
duas condições físicas e psicológicas que a dividem, «cheguei
à conclusão que vivo entre duas realidades: uma completamente fascista protegida pela magia da negação e outra que
ainda não se curou da inércia deixada pelo fascismo.»
Estudo para Structural Schizophrenia, 2005
Estudos para Structural Schizophrenia, 2005
The Archetype, 2005 (stills do vídeo)
Taking Over Trump, 2005
7 de Maio – 9 de Julho ’05
Culturgest Porto
Rita Sobral Campos
Obras em exposição
Nasceu em Lisboa, em 1982
Vive e trabalha em Nova Iorque
Structural Schizophrenia, 2005
Instalação com 13 esculturas (madeira, metal e acrílico), fita adesiva,
papel, perfis metálicos e madeira
Dimensões variáveis
Formação
2004
Frequência do MFA, School of Visual Arts, Nova Iorque
Licenciatura em História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e
Humanas (FCSH), Universidade Nova de Lisboa
2002
Curso Avançado de Artes Plásticas, Ar.Co, Lisboa
2000
Curso Básico de Escultura, Ar.Co, Lisboa
Exposições Individuais
2005
Galerie Schuster & Schuermann, Berlim
2004
Anotações, Sala Poste-ite, Porto
Espaço, estruturas e outras cores mais, Promontório Arquitectos,
Lisboa
2003
Project Space, Galerie Schuster, Frankfurt
2002
Sala do Veado, Museu Nacional de História Natural, Lisboa (com
Ricardo Valentim)
Taking Over Trump, 2005
Prova Cromogénea Diasec
150 x 112 cm
Taking Over Grand Central, 2005
Prova Cromogénea Diasec
112 x 150 cm
Nº 5, 2001
Super 8 transferido para DVD, cor, sem som, 3’
The Archetype (American Series), 2005
Vídeo, PAL, cor, som, 2’17’’
Exposições Colectivas (selecção)
2004
Prémio EDP Novos Artistas, Centro Cultural de Belém, Lisboa
2003
Exposição de Bolseiros e Finalistas Ar.Co, Cordoaria Nacional, Lisboa
2001
Párthenos, Centro Cultural de Lagos, Lagos
Exposição
Jornal de Exposição
Coordenação de Produção
Susana Sameiro e António Sequeira Lopes
Texto
Miguel Amado
Coordenação de Montagem
Susana Sameiro
Coordenação Editorial
Marta Cardoso e Patrícia Santos
Montagem da Exposição
Eduardo Matos, Bruno Silva, Bruna Fonseca, João Nora
e Renato Ferrão
Design Gráfico
Gráficos do Futuro
Créditos Fotográficos
Chris Singh
Agradecimentos Fundação Calouste Gulbenkian
Download

Rita Sobral Campos Structural Schizophrenia – ou