1 Atuação do enfermeiro nas Emergências clínicas e traumáticas no futebol1 Silva Bruna Oliveira, Leão Vanessa Cristina de Aquino2, Brasileiro Marislei Espíndula3. Atuação do enfermeiro nas Emergências clínicas e traumáticas no futebol. Revista Eletrônica de Enfermagem do Centro de Estudos de Enfermagem e Nutrição [serial on-line] 2013 ago-dez 4(4) 1-15. Available from: <http://www.ceen.com.br/revistaeletronica>. Resumo Objetivo: conceituar as principais lesões no futebol e fornecer subsídios para a assistência, não só por parte da equipe técnica de emergência, mas de qualquer pessoa que esteja próximo ao local do incidente. Materiais e Método: estudo do tipo bibligráfico, exploratório e descritivo, com análise integrativa da literatura disponível em bibliotecas convencionais e virtuais. Resultados: As principais lesões no futebol são contusões, lesões musculares, tendinites e entorses. Foram estabelecidas ações de atendimento a essas emergências através de um protocolo, buscando direcionar o profissional ou socorrista no atendimento. Descritores: Enfermagem, Futebol, Lesões no Futebol. 1 Introdução O Brasil se prepara para sediar a copa do mundo de Futebol em 2014 e Olímpiadas em 2016, por isso há necessidade de se estar preparados para as Emergências Clínicas no Esporte. A prática esportiva tem aumentado de forma significante, consequentemente aumentam o risco de lesões em decorrência dessas atividades. Em todas as atividades esportivas existem lesões típicas para cada tipo de prática envolvida. No futebol, esporte que abordaremos nesse artigo, grande parte das lesões são leve ou moderada, e as mais comuns são as contusões e lesões musculares das articulações1. O futebol é um esporte jogado entre dois times, com uma equipe de 11 jogadores cada e um árbitro que tem a funçao de aplicar as regras oficiais do jogo. Se caracteriza por um esporte de grande contato físico e bastantes particularidades2. É o esporte mais conhecido mundialmente e a modalidade esportiva mais praticada e popular no mundo, com mais de 400 milhões de adeptos em aproximadamente 186 países3. 1 Artigo apresentado ao Curso de Pós-Graduação em Enfermagem, turma nº 15ª, do Centro de Estudos de Enfermagem e Nutrição/Pontifícia Universidade Católica de Goiás. 2 Enfermeiras (os), especialistas em Emergência e Urgência, e-mail: [email protected], [email protected]. 3 Doutora em Ciências da Saúde – FM-UFG, Doutora – PUC-Go, Mestre em Enfermagem - UFMG, Enfermeira, Docente do CEEN, e-mail: [email protected] 2 Ao se tratar de alto rendimento, o futebol exige esforços cada vez mais intensos e eficazes dos atletas. A partida em si possui um aspecto dinâmico e imprevisível podendo os jogadores estar sujeitos a contato físico, movimento brusco inesperado, saltos, giros, lesões e outros3. O atendimento às emergências no futebol é realizado através dos princípios preconizados pelo ATLS, Advanced Trauma Life Support, ou seja, o mesmo para pacientes politramautizados. O ATLS, Advanced Trauma Life Support ou Suporte Avançado de Vida no Trauma, foi elaborado na premissa de que o atendimento de emergência apropriado e oportuno pode melhorar significativamente o prognóstico dos atletas traumatizados4. Dentro desse contexto, a pesquisa desenvolveu conceitos e práticas das emergências clínicas no futebol, para contribuir para a prática correta de emergência e urgência no atendimento a atletas deste segmento. 2 Objetivos Nessa perspectiva, o presente trabalho buscou conceituar as principais lesões no futebol e fornecer subsídios para a assistência, não só por parte da equipe técnica de emergência, mas de qualquer pessoa que esteja próximo ao local do incidente. 3 Materiais e Método Trata-se de um estudo do tipo bibliográfico, descritivo-exploratório e retrospectivo, com análise integrativa. O estudo bibliográfico se baseia em literaturas estruturadas, obtidas de livros e artigos científicos provenientes de bibliotecas convencionais e virtuais. O estudo descritivo- exploratório visa à aproximação e familiaridade com o fenômeno-objeto da pesquisa, descrição de suas características, criação de hipóteses e apontamentos, e estabelecimento de relações entre as variáveis estudadas no fenômeno5. A análise integrativa é um método que analisa e sintetiza as pesquisas de maneira sistematizada, e contribui para o aprofundamento do tema investigado, e a partir dos estudos realizados separadamente e possível construir uma única conclusão, pois foi investigados problemas idênticos ou parecidos6. Após a definição do tema foi feita uma busca em bases de dados virtuais em saúde, especificamente na Biblioteca Virtual de Saúde - Bireme. Foram utilizados os descritores: enfermagem, futebol e lesões no futebol. O passo seguinte foi uma leitura exploratória das publicações apresentadas no Sistema Latino-Americano e do Caribe de informação em Ciências da Saúde - LILACS, National Library of Medicine – MEDLINE e Bancos de Dados em 3 Enfermagem – BDENF, Scientific Electronic Library online – Scielo, no período de julho de 2000 a julho de 2010, caracterizando assim o estudo retrospectivo. Realizada a leitura exploratória e seleção do material, principiou a leitura analítica, por meio da leitura das obras selecionadas, que possibilitou a organização das idéias por ordem de importância e a sintetização destas que visou a fixação das idéias essenciais para a solução do problema da pesquisa5. Após a leitura analítica, iniciou-se a leitura interpretativa que tratou do comentário feito pela ligação dos dados obtidos nas fontes ao problema da pesquisa e conhecimentos prévios. Na leitura interpretativa houve uma busca mais ampla de resultados, pois ajustaram o problema da pesquisa a possíveis soluções. Feita a leitura interpretativa se iniciou a tomada de apontamentos que se referiram a anotações que consideravam o problema da pesquisa, ressalvando as idéias principais e dados mais importantes5. A partir das anotações da tomada de apontamentos, foram confeccionados fichamentos, em fichas estruturadas em um documento do Microsoft word, que objetivaram a identificação das obras consultadas, o registro do conteúdo das obras, o registro dos comentários acerca das obras e ordenação dos registros. Os fichamentos propiciaram a construção lógica do trabalho, que consistiram na coordenação das idéias que acataram os objetivos da pesquisa. Todo o processo de leitura e análise possibilitou a criação de três categorias. A seguir, os dados apresentados foram submetidos à análise de conteúdo. Posteriormente, os resultados foram discutidos com o suporte de outros estudos provenientes de revistas científicas e livros, para a construção do relatório final e publicação do trabalho no formato Vancouver. 4 Resultados e Discussão 4.1 As principais lesões no futebol são contusões, lesões musculares, tendinites e entorses. Após análise e estudo dos 9 artigos selecionados, definimos lesão como um acontecimento que impossibilita o atleta de continuar treinando ou jogando. No caso do futebol pode-se observar que as lesões mais ocorridas com 84,5 % são as contusões, lesões musculares com 52,6%, tendinite com 51,2%, e entorses com 49,7%1. As lesões no futebol dependem de vários fatores que são condicionantes para sua classificação. A idade, sexo, superfície de jogo, condições do solo, serviço de emergência, além de outros aspectos são determinantes para caracterizarem o tipo, incidência e a gravidade das lesões2. 4 As contusões são causadas pelo grande contato físico entre os jogadores, provocando dor, edema e rigidez no local. Podem ser classificadas em contusões leves, moderadas ou severas, de acordo com a força do atrito e dependendo do tempo de recuperação4. Essas contusões são também descritas como uma lesão por compressão, ocasionada por trauma direto que gera ruptura capilar, sangramento e resposta inflamatória7. Geralmente são menos graves que as outras lesões comuns no futebol, por isso exigem menos tempo de repouso e uma rápida recuperação2. Outra lesão comum diz respeito às lesões musculares predominantes nos membros inferiores, podem ser classificadas como: traumáticas e atraumáticas. Sendo as traumáticas as decorrentes de trauma direto ou por contração muscular e as atraumáticas causadas pelo desgaste muscular, tais como: dor muscular tardia e câimbras. Lesões musculares são classificadas como traumáticas e não-traumáticas, diretas (causadas por contato) e indiretas (mais comuns em esportes individuais), e quanto a funcionalidade: parcial (perda parcial da contratura) e total com perda total da contratura muscular7. Causada pelo grande esforço e sobrecarga no esporte a Tendinite também é bastante comum em jogadores de futebol, são definidas como lesões crônicas e classificadas como: - Tendinoses: ocorre ou não ruptura parcial com degeneração intratendinosa sem ocorrência de inflamação; - Paratendinites: inflamações no paratendão; - Tendinites insercionais: inflamação das inserções tendíneas. A tendinite surge pelo desgaste provocado pelo uso excessivo e por traumas diretos, e é caracterizada por uma inflamação do tendão2. Os entorses são classificados pelo mecanismo torcional com estiramento ou laceração de tecidos moles. Esse termo é comumente utilizado para referenciar as lesões de ligamento. Podem ocorrer em diferentes graus, sendo eles: - GRAU I – estiramento com ligamento íntegros, edema local e dor leve; - GRAU II – enfraquecimento ligamentar, causando dor intensa, hematoma e edema difuso; 5 - GRAU III – protrusão ligamentar parcial ou total, causando dor intensa, instabilidade, edema difuso e hematoma4. O entorse de grau I pode ser caracterizado por um estiramento e apresentar pouca ou ausência de instabilidade articular. Os sinais são comuns entre dor e edema e pode ser observado certa rigidez articular7. Já o entorse de grau II existe um afastamento das fibras ligamentares e apresenta uma moderada instabilidade articular. A dor, edema e rigidez articular são comuns e apresentados nesses casos. O entorse de grau III apresenta ruptura total de ligamento e apresenta uma grande instabilidade articular. A dor é presente somente nas horas iniciais e o edema se diferencia dos outros casos por ser bastante volumoso. Os autores concordam que as principais lesões são as contusões, lesões musculares, tendinite, e entorses, necessitando, portanto de atendimento de enfermagem para evitar o agravo dessas lesões e garantir uma rápida recuperação dos atletas. 4.2 Assistência de enfermagem frente às principais lesões 4.2.1 Contusões A principal urgência no caso das contusões é quando ocorre um grande sangramento intramuscular com comprometimento muscular. É uma complicação rara, porém quando diagnosticada o paciente deve ser encaminhado para fasciotomia. O tratamento das contusões pode ser iniciado pela imobilização provisória da área lesada, repouso, compressa gelada, elevação do membro para facilitar o retorno venoso e posteriormente a equipe deve encaminhar o atleta para um tratamento específico com ortopedista4. É importante que na contusão com suspeita de sangramento seja realizado imobilização provisória da área lesada, repouso, compressa gelada e elevação do membro a fim de evitar mais gravidade da lesão. 4.2.2 Lesões musculares Nas lesões musculares os esforços que geram o aumento da frequência devem ser evitados a fim de diminuir o sangramento no local da lesão. Pode-se utilizar o protocolo PRICE, garantindo ao atleta a proteção do local e repouso, realizar compressão, aplicar gelo ou compressa gelada e elevação do membro. 6 Apos a realização do protocolo é importante à administração de analgésico, para garantir um conforto ao atleta. Os anti-inflamatórios não são indicados quanto aos analgésicos, pois podem causar uma diminuição da função muscular8. 4.2.3 Tendinite O atendimento de emergência nos casos de tendinite visa diminuir o processo inflamatório e por sua vez gerar a restauração estrutural da função tendínea. Os diversos tipos de tratamentos podem ser físico, farmacológico e cirúrgico. Nesse contexto o tratamento físico é o de maior importância. O atleta deve estar em repouso e deve ser realizada a aplicação de gelo ou compressa gelada no local da lesão, garantindo assim a diminuição da inflamação9. 4.2.4 Entorses Nos entorses de grau I e II os tratamentos são similares, aplicação de gelo (crioterapia), compressão, elevação do membro lesionado para auxiliar no retorno venoso, fortalecimento muscular com exercícios e fisioterapia e administração de analgésicos para amenizar a dor e melhorar o conforto. Já no entorse de grau III, as medidas terapêuticas podem ser repetidas, porém pode ser necessária imobilização de três a quatro semanas. O repouso deve ser severo, o uso de analgésicos é indispensável e pode ter indicação de tratamento cirúrgico4. 4.3 Protocolos básicos de atendimento elaborados pela FIFA Parte da assistência de enfermagem aos atletas envolvem diversas etapas que são importantes para uma boa recuperação e também para evitar complicações. S.A.L.T.A.P.S P.R.I.C.E Stop, paralisar a partida quando um jogador for Proteção, para evitar qualquer agravo de ao chão. lesão pare de jogar. Ask, pergunte ao jogador como ele está? O que Repouso, manter o mínimo de repouso que aconteceu? Verifique sinais de lesão. a lesão exige. Look, observar o membro para verificar se há Ice evidencias de lesão. Retirar o atleta de campo gelada para evitar os sinais de inflamação. (gelo), aplicar gelo ou compressa quando os sinais forem significativos. Touch, toque o membro para localizar a lesão, Compressão, realizar compressão na área caso não tenha experiência aguarde assistência lesada a fim de amenizar o inchaço. de emergência. 7 Active movement, observar se o jogador consegue movimentar com ou sem dor. Elevação, elevar o membro para garantir um melhor retorno venoso e diminuir o inchaço. Prolong, se o jogador responder ao passo anterior, movimente o membro ate estende-lo completamente. Stand up, apos as avaliações se o jogador continuar jogando verifique se ele está correndo normalmente. Com esses protocolos o enfermeiro ou socorrista tem um suporte de como proceder corretamente o atendimento. E como consequência diminuir os agravos das lesões em campo, e garantir uma rápida recuperação do atleta. A partir dos estudos acima, viu-se a necessidade de se criar um terceiro protocolo. 4.4 Protocolo de atendimento assistencial às emergências clinicas e traumáticas no futebol 1º Passo Parar a partida e proteger o atleta para evitar agravo da lesão; 2º Passo Manter repouso, obter informações sobre o que aconteceu, verificar sinais de lesão; 3º Passo Observar o membro lesionado a fim de localizar e classificar a lesão; 4º Passo Realizar crioterapia (aplicação de gelo) ou compressa gelada para diminuir a inflamação; 5º Passo Imobilizar e elevar o membro para garantir melhor retorno venoso e consequentemente diminuir o edema; 6º Passo 8 Retirar o jogador de campo para evitar que ele retorne ao jogo imediatamente, aguardar e manter um período de observação; 7º Passo Após observação, se em condições, pode retornar a partida, se não deve ser encaminhado ao médico para exames diagnósticos e tratamento medicamentoso e se necessário cirúrgico. 5 Considerações finais O objetivo do estudo foi conceituar as principais lesões no futebol e fornecer subsídios para a assistência, não só por parte da equipe de enfermagem, mas de qualquer pessoa que esteja próximo ao local do incidente. Após a análise dos estudos selecionados foi possível identificar as principais lesões no futebol, sendo elas: contusões, lesões musculares, tendinite e entorses. Além disso, a fim de direcionar o atendimento, foram estabelecidos os cuidados emergentes da assistência de enfermagem através da criação de um protocolo. No qual, passo a passo, explica como agir diante as lesões no futebol. Diante as ideias expostas verificou-se a importância da aplicação dos protocolos de atendimento, alcançando um excelente prognóstico da lesão, garantindo ao atleta um retorno mais breve das atividades esportivas. Espera-se enfim que esse estudo possa colaborar, através da implantação do protocolo de atendimento, com os profissionais, atletas e telespectadores da área futebolista, garantindo um melhor cuidado das lesões no futebol. 6 Referências 1. Cohen M, Abdalla RJ, Ejnisman B, Amaro JT. Lesões ortopédicas no futebol. Rev. Brasileira de Ortopedia 1997; 32 (12): 940-944. 2. Gonçalves JPP. 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Disponível em: http://www.ufrgs.br/ligadereumatologia/Artigos_pdf_prof/LARPA2009_Prof_Saude_Tend%20B ursit.pdf.